quinta-feira, 25 de julho de 2024

Sábado XVI do Tempo Comum

São Tito Brandsma, Presbítero e Mártir Nossa Ordem
 
1ª Leitura (Jer 7,1-11):
Palavra que o Senhor dirigiu ao profeta Jeremias: «Vai à entrada do templo do Senhor e proclama ali a seguinte mensagem: Escutai a palavra do Senhor, vós todos, homens de Judá, que entrais por estas portas para adorar o Senhor. Assim fala o Senhor do Universo, o Deus de Israel: Emendai os vossos caminhos e as vossas ações e Eu vos deixarei habitar neste lugar. Não vos fiéis em palavras enganadoras, dizendo: ‘É o templo do Senhor, o templo do Senhor, o templo do Senhor!’. Mas se endireitardes os vossos caminhos e corrigirdes as vossas obras, se praticardes a justiça uns para com os outros, se não oprimirdes o estrangeiro, o órfão e a viúva, se não derramardes neste lugar sangue inocente, se não seguirdes outros deuses para vossa desgraça, então vos deixarei habitar neste lugar, na terra que dei a vossos pais desde há muito e para sempre. Mas vós fiais-vos em palavras enganadoras que para nada servem. Assim podeis roubar, matar, cometer adultério, jurar falso, queimar incenso a Baal, seguir deuses estrangeiros que não conheceis. Depois vindes aqui apresentar-vos diante de Mim, nesta casa em que é invocado o meu nome, e dizeis: ‘Estamos salvos’, para voltar a cometer todas essas abominações. Será porventura um covil de salteadores esta casa onde é invocado o meu nome? Eu também vi tudo isto».
 
Salmo Responsorial: 83
R. Como é agradável a vossa morada, Senhor do Universo!
 
A minha alma suspira ansiosamente pelos átrios do Senhor. O meu ser e a minha carne exultam no Deus vivo.
 
Até as aves do céu encontram abrigo e as andorinhas um ninho para os seus filhos, junto dos vossos altares, Senhor dos Exércitos, meu Rei e meu Deus.
 
Felizes os que moram em vossa casa: podem louvar-Vos continuamente. Felizes os que em Vós encontram a sua força, os que caminham para ver a Deus em Sião.
 
Um dia em vossos átrios vale por mais de mil longe de Vós. Antes quero ficar no vestíbulo da casa do meu Deus, do que habitar nas tendas dos pecadores.
 
Aleluia. Acolhei docilmente a palavra em vós plantada, que pode salvar as vossas almas. Aleluia.
 
Evangelho (Mt 13,24-30): Jesus apresentou-lhes outra parábola: «O Reino dos Céus é como alguém que semeou boa semente no seu campo. Enquanto todos dormiam, veio seu inimigo, semeou joio no meio do trigo e foi embora. Quando o trigo cresceu e as espigas começaram a se formar, apareceu também o joio. Os servos foram procurar o dono e lhe disseram: ‘Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? Donde veio então o joio? ’ O dono respondeu: ‘Foi algum inimigo que fez isso’. Os servos perguntaram ao dono: ‘Queres que vamos retirar o joio?’ ‘Não!’, disse ele. ‘Pode acontecer que, ao retirar o joio, arranqueis também o trigo. Deixai crescer um e outro até a colheita. No momento da colheita, direi aos que cortam o trigo: retirai primeiro o joio e amarrai-o em feixes para ser queimado! O trigo, porém, guardai-o no meu celeiro!'».
 
«Deixai crescer um e outro»
 
Rev. D. Manuel SÁNCHEZ Sánchez (Sevilla, Espanha)
 
Hoje consideramos uma parábola como uma ocasião para referir-nos à vida da comunidade onde se misturam, continuamente, o bem e o mal, o Evangelho e o pecado. A atitude lógica seria acabar com esta situação, tal como o pretendem os servos: «O dono respondeu: ‘Foi algum inimigo que fez isso’. Os servos perguntaram ao dono: ‘Queres que vamos retirar o joio?» (Mt 13,28). Mas a paciência de Deus é infinita, espera até o último momento — como um pai bom— a possibilidade de mudança: «Deixai crescer um e outro até a colheita» (Mt 13,30).
 
Uma realidade ambígua e medíocre, mas nela cresce o Reino. Trata-se de sentir-nos chamados a descobrir os sinais do Reino de Deus para potencializá-lo. E, por outro lado, não favorecer nada que ajude a contentar-nos na mediocridade. No entanto, o fato de viver em uma mescla de bem e de mal não deve impedir o progresso em nossa vida espiritual; o contrário seria converter nosso trigo em intriga. «Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? Donde veio então o joio?» (Mt 13,27). É impossível crescer de outro modo, nem podemos procurar o Reino em nenhum outro lugar, senão nesta sociedade em que vivemos. Nossa tarefa será fazer com que nasça o Reino de Deus.
 
O Evangelho nos chama a não acreditar nos “puros”, a superar os aspectos de puritanismo e de intolerância que possam existir na comunidade cristã. Facilmente ocorrem atitudes deste tipo em todas as coletividades, por mais sadias que tentem ser. Em frente a um ideal, temos todos a tentação de pensar que alguns já o alcançamos e que outros estão longe. Jesus constata que todos estamos no caminho, absolutamente todos.
 
Vigiemos para que o maligno não se introduza em nossas vidas, coisa que ocorre quando nos acomodamos ao mundo. Dizia Santa Ângela da Cruz que «não devemos dar ouvidos às vozes do mundo, de que em todos os lugares se faz isto ou aquilo; nós sempre fazemos o mesmo, sem inventar variações, e seguindo a maneira de fazer as coisas, que são um tesouro escondido; são as que nos abrirão as portas do céu». Que a Santíssima Virgem Maria nos conceda acomodar-nos somente ao amor.
 
Pensamentos para o Evangelho de hoje
«Quando o mal tem gangrenado à multitude, não tem mais remédio que doer-se e gemer. Correger com amor quando se pode. E quando não se pode correger, sofrer com paciência até que a correção venha do alto» (Santo Agostinho)
 
«Jesus nos ensina a ver as coisas com realismo Cristiano e a afrontar cada problema com claridade de princípios, mas também com prudência e paciência. Isto supõe uma visão transcendente da história, no que se sabe que todo pertence a Deus» (São João Paulo II)
 
«No dia do Juízo, no fim do mundo, Cristo virá na sua glória para completar o trinfo definitivo do bem sobre o mal, os quais, como o trigo e o joio, terão crescido juntos no decurso da história» (Catecismo da Igreja Católica, n° 681)
 
Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm.
 
* O evangelho de hoje traz a parábola do joio e do trigo.
Tanto na sociedade como nas comunidades e na nossa vida familiar e pessoal, existe tudo misturado: qualidades boas e incoerências, limites e falhas. Nas nossas comunidades se reúnem pessoas de várias origens, cada uma com a sua história, com a sua vivência, a sua opinião, os seus anseios, as suas diferenças. Há pessoas que não sabem conviver com as diferenças. Querem ser juiz dos outros. Acham que só elas estão certas, e os outros erradas. A parábola do joio e do trigo ajuda a não cair na tentação de querer excluir da comunidade os que não pensam como nós.
 
* O pano de fundo da parábola do joio e do trigo. Durante séculos, por causa da observância das leis de pureza, os judeus tinham vivido separados das outras nações. Este isolamento marcou a vida deles. Mesmo depois de convertidos, alguns continuavam nesta mesma observância que os separava dos outros. Eles queriam a pureza total. Qualquer sinal de impureza devia ser extirpado em nome de Deus. “Não pode haver tolerância com o pecado”, assim diziam. Mas outros como Paulo ensinavam que a Nova Lei de Deus trazida por Jesus estava pedindo o contrário! Eles diziam: "Não pode haver tolerância com o pecado, sim, mas deve haver tolerância com o pecador!"
 
* Mateus 13,24-26: A situação: joio e trigo crescem juntos. A palavra de Deus que faz nascer a comunidade é semente boa, mas dentro das comunidades sempre aparecem coisas que são contrárias à palavra de Deus. De onde vem? Esta era a discussão, o mistério, que levou a conservar e lembrar a parábola do joio e do trigo.
 
* Mateus 13,27-28a: A origem da mistura que existe na vida. Os empregados perguntam ao patrão: “Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? Donde veio então o joio?”  O dono respondeu: Um inimigo fez isso. Quem é este inimigo? O inimigo, o adversário, satanás ou diabo (Mt 13,39), é aquele que divide, que desvia. A tendência de divisão existe dentro da comunidade e existe dentro de cada um de nós. O desejo de dominar, de se aproveitar da comunidade para subir e tantos outros desejos interesseiros são divisionistas, são do inimigo que dorme dentro de cada um de nós.
 
*  Mateus 13,28b-30: A reação diferente diante da ambiguidade. Diante desta mistura do bem e do mal, os empregados queriam arrancar o joio. Pensavam: "Se deixarmos todo mundo dentro da comunidade, perdemos nossa razão de ser! Perdemos a identidade!" Queriam expulsar os que pensavam diferente. Mas esta não é a decisão do Dono da terra. Ele diz: "Deixa crescer juntos até a colheita!" O que vai decidir não é o que cada um fala e diz, mas sim o que cada um vive e faz. É pelo fruto produzido que Deus nos julgará (Mt 12,33). A força e o dinamismo do Reino se manifestam na comunidade. Mesmo sendo pequena e cheia de contradições, ela é um sinal do Reino. Mas ela não é dona nem proprietária do Reino, nem pode considerar-se totalmente justa. A parábola do joio e do trigo explica a maneira como a força do Reino age na história. É preciso ter uma opção clara pela justiça do Reino e, ao mesmo tempo, junto com a luta pela justiça, ter paciência e aprender a conviver e dialogar com as contradições e as diferenças. Na hora da colheita se fará a separação.
 
* O ensino em parábolas. A parábola é um instrumento pedagógico que usa o quotidiano para mostrar como a vida nos fala de Deus. Torna a realidade transparente e faz o olhar da gente ficar contemplativo. Uma parábola aponta para as coisas da vida e, por isso mesmo, é um ensinamento aberto, pois das coisas da vida todo mundo tem alguma experiência. O ensinamento em parábolas faz a pessoa partir da experiência que tem: semente, sal, luz, ovelha, flor, passarinho, mulher, criança, pai, rede, peixe, etc. Assim, ele torna a vida quotidiana transparente, reveladora da presença e da ação de Deus. Jesus não costumava explicar as parábolas. Ele deixava o sentido da parábola em aberto e não o determinava. Sinal de que acreditava na capacidade do povo de descobrir o sentido da parábola a partir da sua experiência de vida. De vez em quando, a pedido dos discípulos, ele explicava o sentido (Mt 13,10.36). Por exemplo, como fez com a parábola do joio e do trigo (Mt 13,36-43).
 
Para um confronto pessoal
1) Como a mistura do joio e do trigo se manifesta na nossa comunidade? Que consequências traz para a nossa vida?
2) Olhando no espelho da parábola, com quem sou mais parecido: com os empregados que querem arrancar o joio antes do tempo, ou com o dono que manda esperar até à hora da colheita?

27 de julho

 São Tito Brandsma
Presbítero e Mártir Nossa Ordem
 
Nasceu na cidade de Bolsward, na Frísia (Holanda), no ano de 1881.  Ainda muito jovem, entrou para a Ordem do Carmo e foi ordenado sacerdote em 1905. Estudou em Roma, onde conseguiu o grau de Doutor em Filosofia na Universidade Gregoriana. Retomando para a Holanda, ensinou em diversas escolas e foi nomeado professor de Filosofia, Teologia Mística e sua história, na Universidade Católica de Nimega, da qual também foi eleito "Reitor Magnífico". Salientou-se pela sua afabilidade para com todos. Foi jornalista profissional e, em 1935, foi designado Assistente Eclesiástico dos jornalistas católicos. Opôs-se à ocupação nazista da Holanda e, baseando-se no Evangelho, combateu tenazmente a ideologia do Nacional Socialismo (Nazismo), defendeu a liberdade da Educação e da Imprensa católicas e protestou contra a perseguição às crianças de origem judaica. Por estas razões foi preso: começa desta forma o seu Calvário de campo em campo, de prisão em prisão e, depois de tantos sofrimentos e humilhações, foi assassinado em Dachau, no ano de 1942. Até o seu último suspiro, não se cansou de levar a paz e o conforto espiritual a todos os seus colegas de prisão. No meio de inúmeros e atrozes sofrimentos soube comunicar o bem, o amor e a paz. No dia 3 de novembro de 1985 foi proclamado beato da Igreja de Cristo pelo Papa João Paulo II.
 
INVITATÓRIO
Ant. Vinde, adoremos o Senhor, Rei dos Mártires.
 
LAUDES
Hino
Ó Jesus, quando te contemplo,
eu redescubro, a sós contigo,
que te amo e que teu coração
me ama como a um dileto amigo.
 
Ainda que a descoberta exija
coragem, faz-me bem a dor:
por ela me assemelho a ti,
que ela é o caminho redentor.
 
Na minha dor me rejubilo;
já não a julgo sofrimento,
mas sim predestinada escolha,
que me une a ti neste momento.
 
Deixa-me, pois, nesta quietude,
malgrado o frio que me alcança.
Presença humana não permitas,
que a solidão já não me cansa,
 
pois de ti sinto-me tão próximo
como jamais antes senti.
Doce Jesus, fica comigo,
que tudo é bom junto de ti.
 
Salmos, cântico, leitura, responsório e preces do comum de um mártir
 
Cântico evangélico
Ant. Combati o bom combate, terminei a minha carreira, conservei a minha fé!
 
Oração
Senhor Deus, fonte e origem da vida, infundistes no Beato Tito a força do vosso Espírito e a coragem, para, mesmo durante a crueldade da perseguição e do martírio, proclamar a liberdade da Igreja e a dignidade da pessoa humana. Concedei-nos, por sua intercessão, empenharmo-nos na construção do Reino da justiça e da paz, sem nos envergonharmos do Evangelho, e que, em cada momento da vida, reconheçamos a vossa presença misericordiosa. Por N.S. J.C.
 
VÉSPERAS
Hino
Seguir os passos de Cristo,
imitando a Virgem Maria,
tendo de Elias o espírito,
é lema do Carmo, nossa alegria.
 
Maria, ó Mãe da nossa alma
acende em nós o fulgor
da luz ardente e calma,
que a Tito deu força, coragem e amor.
 
Viver no Carmo é contemplar
o Deus a Elias revelado.
Vi ver no Carmo é habitar
no Tabor com Cristo Transfigurado.
 
Viver no Carmelo é aceitar
ser holocausto, que se deixa consumir,
sem temer, mas antes desejar
os raios divinos atrair.
 
Viver no Carmelo é fitar
a Cruz, que se ama e se deseja,
para nela e por ela alcançar
que Cristo viva nos membros da Igreja.
 
Salmos, cântico, leitura, responsório e preces do comum de um mártir
 
Cântico evangélico
Ant. Na dureza do combate o Senhor lhe deu a vitória, pois mais forte do que tudo é a força do amor.
 
Oração
Senhor Deus, fonte e origem da vida, infundistes no Beato Tito a força do vosso Espírito e a coragem, para, mesmo durante a crueldade da perseguição e do martírio, proclamar a liberdade da Igreja e a dignidade da pessoa humana. Concedei-nos, por sua intercessão, empenharmo-nos na construção do Reino da justiça e da paz, sem nos envergonharmos do Evangelho, e que, em cada momento da vida, reconheçamos a vossa presença misericordiosa. Por N.S. J.C.
 

quarta-feira, 24 de julho de 2024

26 de julho: São Joaquim e Santa Ana, pais da Virgem Maria

Primeira Leitura (Eclo 44,1.10-15):
Vamos fazer o elogio dos homens famosos, nossos antepassados através das gerações. Estes, são homens de misericórdia; seus gestos de bondade não serão esquecidos. Eles permanecem com seus descendentes; seus próprios netos são sua melhor herança. A descendência deles mantém-se fiel às alianças, e, graças a eles, também os seus filhos. Sua descendência permanece para sempre, e sua glória jamais se apagará. Seus corpos serão sepultados na paz e seu nome dura através das gerações. Os povos proclamarão a sua sabedoria, e a assembleia vai celebrar o seu louvor.
 
Salmo Responsorial 132(131)
R. O Senhor vai dar-lhe o trono de seu pai, o rei Davi.
 
— O Senhor fez a Davi um juramento, uma promessa que jamais renegará: “um herdeiro que é fruto do teu ventre colocarei sobre o trono em teu lugar!”
 
— Pois o Senhor quis para si Jerusalém e a desejou para que fosse sua morada: “Eis o lugar do meu repouso para sempre, eu fico aqui: este é o lugar que preferi!”
 
— “De Davi farei brotar um forte herdeiro, acenderei ao meu ungido uma lâmpada. Cobrirei de confusão seus inimigos, mas sobre ele brilhará minha coroa!”
 
Aleluia. Esperavam a consolação de Israel e o Espírito Santo estava neles. Aleluia
 
Evangelho (Mt 13,16-17): Naquele tempo, Jesus disse aos discípulos: «Mas, quanto a vós, bem-aventurados os vossos olhos, porque veem! Ditosos os vossos ouvidos, porque ouvem! Eu vos declaro, em verdade: muitos profetas e justos desejaram ver o que vedes e não o viram, ouvir o que ouvis e não ouviram».
 
«Bem-aventurados os vossos olhos, porque veem, e os vossos ouvidos, porque ouvem!»
 
Rev. D. Pere CAMPANYÀ i Ribó (Barcelona, Espanha)
 
Hoje, o Evangelho fala-nos da felicidade. O desejo de felicidade é, com certeza, universal para todos os seres humanos. Se perguntarmos a qualquer pessoa: «Queres ser feliz?», a resposta será sempre a mesma: «Sim, quero». Mas não há unanimidade na hora de dizer em que consiste a verdadeira felicidade. Jesus fala em diversas ocasiões sobre a autêntica felicidade e sobre onde a podemos encontrar. Repetindo o que o Evangelho diz hoje, Jesus afirma que a felicidade se encontra no facto de O poder ver e de ouvir a sua palavra, porque com Ele chegou o tempo definitivo (cf. Hb 1,1-2), de tal modo que, ao pôr o olhar na sua pessoa, podemos falar de um antes e de um depois.
 
Assim, Deus serve-se de uns elementos humanos como preparação do novo tempo: para fazer parte da nossa história, o Filho de Deus precisa de uma mãe, e esta será Maria; a Virgem também precisa de uns pais que foram Joaquim e Ana. Eles, sem o saber, serão os avós do Messias. Aplicando as palavras de S. Paulo aos Efésios (1,9-10), podem dizer: Ele nos manifestou o misterioso desígnio de sua vontade, que formara desde sempre, para realizá-lo em Cristo na plenitude dos tempos.
 
Com razão S. João Damasceno felicita os santos esposos com estas palavras: «Oh, matrimónio feliz de Joaquim e Ana, limpo na verdade de toda a culpa! Sereis conhecidos pelo fruto das vossas entranhas». Que felicidade para os padres que têm a sorte de ter filhos que podem admirar a sua fidelidade e agradecer o seu comportamento generoso, pelo qual receberam a sua existência humana e cristã. Mas também que felicidade para os filhos que têm a sorte de conhecer Jesus Cristo mais e melhor, por terem recebido de seus pais a formação cristã, com o exemplo de vida e de oração familiar.
 
Através desta família Deus foi preparando a vinda de seu Filho Jesus.
 
Dom Paulo Jackson Nóbrega de Sousa
 
A Igreja hoje celebra a memória litúrgica de São Joaquim e Sant’Ana, os pais de Maria, avós de Jesus. A  Bíblia Sagrada nada diz sobre eles. Eles são conhecidos por meio do Protoevangelho de Tiago, uma obra apócrifa do ano 150. Mas não queremos seguir esse caminho. Podemos supor que eles pertencem aos pobres de Adonai, um resto piedoso e justo que espera ansiosamente a manifestação da misericórdia de Deus na história do povo de Israel.
 
Esperavam ansiosamente o Messias. Podemos também contemplar a cena do menino Jesus embalado nos braços de sua avó ou, quando mais crescido, recebendo os primeiros ensinamentos da fé judaica do seu avô Joaquim. Joaquim e Ana, de fato, também são bem-aventurados porque viram os dias do Messias, contemplaram os mistérios do Reino.
 
Seus olhos contemplaram, seus ouvidos ouviram o que muitos outros profetas e justos desejaram ver e ouvir, mas não tiveram essa graça. O dito do nosso texto se contrapõe a Isaías 6,9-10, citado em Mateus. O Filho de Deus encarnado não é um pacote que caiu do céu. Ele assumiu plenamente a história do seu povo. E assumiu para redimi-la.
 
Através da família de Sant’Ana e São Joaquim, Deus foi preparando a vinda de seu Filho Jesus. Sant’Ana e São Joaquim estavam no plano divino, que sempre escolheu os simples como colaboradores fiéis de seu Reino. Festejando os avós de Jesus colocamos no coração do Filho de Deus nossos AVÓS, juntamente com nossa prece de amor e de gratidão.
 
Ouvir sem entender
 
*
Em seu ministério, Jesus deparou-se constantemente com o fenômeno da incredulidade. Com o passar do tempo, crescia a oposição dos seus inimigos, que  o tornavam alvo de maledicências e perseguições
 
* Um texto da profecia de Isaías ajudou-o a compreender esta experiência. O profeta falara do "endurecimento do coração" de seus contemporâneos, insensíveis à sua pregação. Quanto mais o profeta falava, convidando-o à conversão, tanto mais recrudescia o fechamento do povo.
 
* A postura dos mestres da Lei e dos fariseus levou Jesus a instruir os discípulos servindo-se de parábolas, de forma a velar seus ensinamentos. O pré-requisito para o entendimento das parábolas consistia em estar sintonizado com Jesus, para ser capaz de interpretá-las. Caso contrário, seriam apenas simples historinhas sem graça. Quem não as ouvir como se deve, será incapaz de compreendê-las com o coração.
 
* O modo parabólico de falar revela uma clara distinção entre quem é e quem não é discípulo do Reino. Os primeiros são capazes de captar os mistérios do Reino escondidos em cada parábola. Os segundos são incapazes de ir além da materialidade das palavras, permanecendo na ignorância das coisas do Reino. Feliz de quem se torna discípulo de Jesus, porque realiza um sonho acalentado por muitos profetas e justos: contemplar o Reino de Deus.
 
* Sabemos muito pouco sobre os pais de Maria. Também eles estão sob a lei do silêncio e do escondimento que Deus aplicou à vida de Maria e à maior parte da vida histórica de Jesus. Os evangelhos apócrifos falam das suas dificuldades. Um texto da igreja armênia do século XIII diz-nos que Joaquim e Ana eram justos e puros, levavam uma vida piedosa e um comportamento inocente e imune à calúnia. Eram zelosos na oração, no jejum e na abstinência. Eram uma família assídua ao templo, cheia de caridade, incansável no trabalho e, em consequência, rica de bens. Dividiam o rendimento anual em três partes: uma para o Templo e sustento dos sacerdotes; outra para os pobres, e a terceira para eles mesmos. É lógico pensar que Deus os tenha chamado a participar no mistério de Jesus, cuja chegada prepararam. Permanece a glória de terem sido os pais de Nossa Senhora.
 
* S. Joaquim e S. Ana encorajam a nossa confiança: Deus é bom e na história da  humanidade, história de pecado e de misericórdia, o que fica é a glória, é o  positivo que construiu em nós. Eles foram escolhidos entre o povo eleito, mas de dura cerviz, para que, entre esse povo, florescesse Maria e, dela, Jesus. É a maior manifestação do amor misericordioso de Deus.
 
* Agradeçamos ao Senhor. Nós somos os ditosos, nós que vemos e ouvimos, o que muitos profetas e justos apenas entreviram na fé e na esperança. Lembremos os nossos avós. Um provérbio africano afirma: “Das panelas velhas, tira-se a melhor sopa”. Os “avós” são verdadeiras preciosidades. Há que rodeá-los de cuidados e carinhos, e não desperdiçar o muito que têm para nos dizer e ensinar, particularmente a sua fé e a sua esperança.

terça-feira, 23 de julho de 2024

25 de julho: São Tiago, Apóstolo

São Cristóvão, mártir.

1ª Leitura (At 2 Cor 4, 7-15):
Irmãos: Nós trazemos em vasos de barro o tesouro do nosso ministério, para que se reconheça que um poder tão sublime vem de Deus e não de nós. Em tudo somos oprimidos, mas não esmagados; andamos perplexos, mas não desesperados; perseguidos, mas não abandonados; abatidos, mas não aniquilados. Levamos sempre e em toda a parte no nosso corpo os sofrimentos da morte de Jesus, a fim de que se manifeste também no nosso corpo a vida de Jesus. Porque, estando ainda vivos, somos constantemente entregues à morte por causa de Jesus, para que se manifeste também na nossa carne mortal a vida de Jesus. E assim, a morte atua em nós e a vida em vós. Diz a Escritura: «Acreditei; por isso falei». Com este mesmo espírito de fé, também nós acreditamos, e por isso falamos, sabendo que Aquele que ressuscitou o Senhor Jesus também nos há-de ressuscitar com Jesus e nos levará convosco para junto d’Ele. Tudo isto é por vossa causa, para que uma graça mais abundante multiplique as ações de graças de um maior número de cristãos para glória de Deus.
 
Salmo Responsorial: 126
R. Os que semeiam com lágrimas recolhem com alegria.
 
Quando o Senhor fez regressar os cativos de Sião, parecia-nos viver um sonho. Da nossa boca brotavam expressões de alegria e de nossos lábios cânticos de júbilo.
 
Diziam então os pagãos: «O Senhor fez por eles grandes coisas». Sim, grandes coisas fez por nós o Senhor, estamos exultantes de alegria.
 
Fazei regressar, Senhor, os nossos cativos, como as torrentes do deserto. Os que semeiam em lágrimas recolhem com alegria.
 
À ida, vão a chorar, levando as sementes; à volta, vêm a cantar, trazendo os molhos de espigas.
 
Aleluia. Eu vos escolhi do mundo, para que vades e deis fruto e o vosso fruto permaneça. Aleluia.
 
Evangelho (Mt 20,20-28): A mãe dos filhos de Zebedeu, com seus filhos, aproximou-se de Jesus e prostrou-se para lhe fazer um pedido. Ele perguntou: «Que queres?». Ela respondeu: «Manda que estes meus dois filhos se sentem, no teu Reino, um à tua direita e outro à tua esquerda». Jesus disse: «Não sabeis o que estais pedindo. Podeis beber o cálice que eu vou beber?». Eles responderam: «Sim, podemos». Declarou Jesus: «Do meu cálice bebereis, mas o sentar-se à minha direita e à minha esquerda não depende de mim. É para aqueles a quem meu Pai o preparou». Quando os outros dez ouviram isso, ficaram zangados com os dois irmãos. Jesus, porém, chamou-os e disse: «Sabeis que os chefes das nações as dominam e os grandes fazem sentir seu poder. Entre vós não deverá ser assim. Quem quiser ser o maior entre vós seja aquele que vos serve, e quem quiser ser o primeiro entre vós, seja vosso escravo. Pois o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate por muitos».
 
«Podes beber do cálice que eu vou beber?»
 
Mons. Octavio RUIZ Arenas Secretário do Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização (Città del Vaticano, Vaticano)
 
Hoje, o episódio que nos narra este fragmento do Evangelho nos põe diante a uma situação que ocorre com muita frequência nas diferentes comunidades cristãs. João e Tiago foram muito generosos ao abandonar sua casa e suas redes para seguir Jesus. Escutaram que o Senhor anuncia um Reino e que oferece a vida eterna, mas não chegam a entender ainda a nova dimensão que apresenta o Senhor e, por isso, sua mãe pedir a algo bom, mas que estão nas simples aspirações humanas: «Manda que estes dois filhos meus que se sentem, um a tua direita e outro a tua esquerda, em teu Reino» (Mt 20,21).
 
Igualmente, nós escutamos e seguimos o Senhor, como fizeram os primeiros discípulos de Jesus, mas não sempre chegamos entender totalmente sua mensagem e nos deixamos levar por interesses pessoais ou ambições dentro da igreja. Esquecemos que ao aceitar ao Senhor, temos que entregarmos confiança e de maneira plena a Ele, que não podemos pensar em obter a glória sem ter aceitado a cruz.
 
A resposta que lhes dá Jesus pões exatamente a entonação neste aspecto: para participar de seu Reino, o que importa é aceitar beber de seu próprio «cálice» (cf. Mt 20,22), ou seja, estar dispostos a entregar nossa vida por amor a Deus e dedicarmos ao serviço de nossos irmãos, com a mesma atitude de misericórdia que teve Jesus. O Papa Francisco, em sua primeira homilia, ressaltava que para seguir a Jesus devemos caminhar com a cruz, pois «quando caminhamos sem a cruz, quando confessamos um Cristo sem cruz, não somos discípulos do Senhor».
 
«Não sabeis o que estais pedindo (...) sentar-se à minha direita e à minha esquerda (...) é para aqueles a quem meu Pai o preparou»
 
Rev. D. Antoni ORIOL i Tataret (Vic, Barcelona, Espanha)

Hoje, no fragmento do Evangelho de São Mateus encontramos vários ensinamentos. Vou destacar apenas um, aquele que se refere ao absoluto domínio de Deus sobre a História: tanto a de todos os homens em seu conjunto (a humanidade), como a de todos e cada um dos grupos humanos (no caso, por exemplo, o grupo familiar dos Zebedeus), como também a de cada indivíduo. Por isto Jesus disse-lhes claramente: «Não sabeis o que estais pedindo» (Mt 20,22).
 
Se sentarão à direita de Jesus Cristo aqueles a quem seu Pai tenha destinado: «Mas o sentar-se à minha direita e à minha esquerda não depende de mim. É para aqueles a quem meu Pai o preparou» (Mt 20,23). Assim, tal como se escuta. Como escreve Cervantes na célebre obra Dom Quixote: «Não se move a folha na árvore, sem a vontade do Senhor». E isto é assim porque Deus é Deus. Dito de outro jeito: se não fosse assim, Deus não seria Deus.
 
Na presença disso, que indiscutivelmente se sobrepõe a todo condicionamento humano, aos homens só resta, em princípio, à aceitação e a adoração (porque Deus se nos revelou como o Absoluto);a confiança e o amor enquanto caminhamos (porque Deus se revelou a nós, também, como Pai); e no final... no final, o maior e o mais definitivo: sentar-nos junto à Jesus (à sua direita ou à sua esquerda, isso é uma questão secundária, sem dúvida).
 
O enigma da eleição e da predestinação divinas só se resolve, da nossa parte, com a confiança. Mais vale um miligrama de confiança depositado no coração de Deus, que todo o peso do universo pressionando sobre nosso pobre prato da balança. Na verdade, «Tiago viveu pouco tempo, pois já demonstrava uma grande fé: desprezou todas as coisas humanas e ascendeu a um patamar tão inefável, que morreu imediatamente» (São João Crisóstomo).
 
Pensamentos para o Evangelho de hoje
«É como se Jesus lhes dissesse: Vocês me falam de honra e coroas, mas eu lhes falo de lutas e fatigas. Este não é tempo de prêmios» (São João Crisóstomo)
 
«A tentação do cristianismo sem cruz, uma Igreja a médio caminho, que não quer chegar aonde o Pai quer, é a tentação do triunfalismo. Queremos o trinfo de hoje, sem ir à cruz, um trinfo mundano, um triunfo razoável» (Francisco)
 
«Nisto consiste a redenção de Cristo: Ele “veio dar a sua vida em resgate pela multidão” (Mt 20, 28) quer dizer; veio “amar os seus até ao fim” (Jo 13,1), para que fossem “libertos da má conduta herdada dos seus pais” (Pe 1,18)» (Catecismo da Igreja Católica, n° 622)
 
Reflexão de Frei Carlos Mesters, O.Carm.

* Jesus e os discípulos estão a caminho de Jerusalém (Mt 20,17).
Jesus sabe que vão matá-lo (Mt 20,8). O profeta Isaías já o tinha anunciado (Is 50,4-6; 53,1-10). Sua morte não será fruto de um destino cego ou de um plano já preestabelecido, mas será consequência do compromisso livremente assumido de ser fiel à missão que recebeu do Pai junto aos pobres da sua terra. Jesus já tinha avisado que o discípulo deve seguir o mestre e carregar sua cruz atrás dele (Mt 16,21.24), Mas os discípulos não entendiam bem o que estava acontecendo (Mt 16,22-23; 17,23). O sofrimento e a cruz não combinavam com a ideia que eles tinham do messias.
 
* Mateus 20,20-21: O pedido da mãe dos filhos de Zebedeu. Os discípulos não só não entendem, mas continuam com suas ambições pessoais. A mãe dos filhos de Zebedeu, como porta-voz de seus dois filhos Tiago e João, chega perto de Jesus para pedir um favor: "Promete que meus dois filhos se sentem, um à tua direita e o outro à tua esquerda, no teu Reino". Eles não tinham entendido a proposta de Jesus. Estavam preocupados só com os próprios interesses. Isto reflete as tensões nas comunidades, tanto no tempo de Jesus e de Mateus, como hoje nas nossas comunidades.
 
* Mateus 20,22-23: A resposta de Jesus. Jesus reage com firmeza. Ele responde aos filhos e não à mãe: "Vocês não sabem o que estão pedindo. Por acaso, vocês podem beber o cálice que eu vou beber?" Trata-se do cálice do sofrimento. Jesus quer saber se eles, em vez do lugar de honra, aceitam entregar sua vida até à morte. Os dois respondem: “Podemos!” Era uma resposta sincera e Jesus confirma: "Vocês vão beber do meu cálice”. Ao mesmo tempo, parece uma resposta precipitada, pois, poucos dias depois, abandonaram Jesus e o deixaram sozinho na hora do sofrimento (Mt 26,51). Eles não têm muita consciência crítica, nem percebem sua realidade pessoal. E Jesus completa: “Não depende de mim conceder o lugar à minha direita ou esquerda. É meu Pai quem dará esses lugares àqueles para os quais ele mesmo preparou". O que ele, Jesus, tem para oferecer é o cálice do sofrimento da cruz.
 
* Mateus 20,24-27: Entre vocês não seja assim. “Quando os outros dez discípulos ouviram isso, ficaram com raiva dos dois irmãos”. O pedido que a mãe fez em nome dos dois, provocou briga e discussão no grupo. Jesus os chamou e falou sobre o exercício do poder: "Vocês sabem: os governadores das nações têm poder sobre elas, e os grandes têm autoridade sobre elas. Entre vocês não deverá ser assim: quem de vocês quiser ser grande, deve tornar-se o servidor de vocês; e quem de vocês quiser ser o primeiro, deverá tornar-se servo de vocês.   Entre vocês não deve ser assim! Quem quiser ser o maior, seja o servidor de todos!”. Naquele tempo, os que detinham o poder não prestavam conta ao povo. Agiam conforme bem entendiam (cf. Mc 14,3-12). O império romano controlava o mundo e o mantinha submisso pela força das armas e, assim, através de tributos, taxas e impostos, conseguia concentrar a riqueza dos povos na mão de poucos lá em Roma. A sociedade era caracterizada pelo exercício repressivo e abusivo do poder. Jesus tem outra proposta. Ele traz ensinamentos contra os privilégios e contra a rivalidade. Inverte o sistema e insiste na atitude de serviço como remédio contra a ambição pessoal. A comunidade deve preparar uma alternativa. Quando império romano desintegrar, vítima das suas próprias contradições internas, as comunidades deverão estar preparadas para oferecer ao povo um modelo alternativo de convivência social.
 
*  Mateus 20,28:  O resumo da vida de Jesus. Jesus define a sua vida e a sua missão: “O Filho do Homem não veio para ser servido. Ele veio para servir, e para dar a sua vida como resgate em favor de muitos”. Nesta autodefinição de Jesus estão implicados três títulos que o definem e que eram para os primeiros cristãos o início da Cristologia: Filho do Homem, Servo de Javé e Irmão mais velho (Parente próximo ou Goêl).  Jesus é o messias Servidor, anunciado pelo profeta Isaías (cf. Is 42,1-9; 49,1-6; 50,4-9; 52,13-53,12). Aprendeu da mãe que disse: “Eis aqui a serva do Senhor!”(Lc 1,38). Proposta totalmente nova para a sociedade daquele tempo.
 
Para um confronto pessoal
1. Tiago e João pedem favores, Jesus promete sofrimento. E eu, o que busco na minha relação com Deus e o que peço na oração? Como acolho o sofrimento que acontece na vida e que é o contrário daquilo que pedimos na oração?
2. Jesus diz: “Entre vocês não deve ser assim!” Nosso jeito de viver na comunidade e na igreja está de acordo com este conselho de Jesus?

segunda-feira, 22 de julho de 2024

Quarta-feira da 16ª semana do Tempo Comum

Bto. João Soreth Presbítero de nossa Ordem e fundador das Ordens II e III
Btas. Mª Pilar de S. Francisco de Borja, Teresa do Menino Jesus e Mª de S. José, Virgens e Mártires de nossa Ordem.
Bta. Mª das Mercês do Sagrado Coração Prat, Religiosa da Companhia de Santa Teresa, Virgem e mártir
 
1ª Leitura (Jer 1,1.4-10):
Palavras de Jeremias, filho de Helcias, um dos sacerdotes de Anatot, no território de Benjamim: O Senhor dirigiu-me a palavra, dizendo: «Antes de te formar no ventre materno, Eu te escolhi; antes que saísses do seio de tua mãe, Eu te consagrei e te constituí profeta entre as nações». Então eu disse: «Ah, Senhor Deus, mas eu não sei falar, porque sou uma criança». O Senhor respondeu-me: «Não digas: ‘Sou uma criança’, porque irás ao encontro daqueles a quem Eu te enviar e dirás tudo quanto Eu te mandar dizer. Não tenhas receio diante deles, porque Eu estou contigo, para te salvar – diz o Senhor». Depois o Senhor estendeu a mão, tocou-me na boca e disse-me: «Eu ponho as minhas palavras na tua boca. Hoje dou-te poder sobre os povos e os reinos, para arrancar e destruir, para arruinar e demolir, para construir e plantar».
 
Salmo Responsorial: 70
R. A minha boca proclamará a vossa salvação.
 
Em Vós, Senhor, me refugio, jamais serei confundido. Pela vossa justiça, defendei-me e salvai-me, prestai ouvidos e libertai-me.
 
Sede para mim um refúgio seguro, a fortaleza da minha salvação. Vós sois a minha defesa e o meu refúgio: meu Deus, salvai-me do pecador.
 
Sois Vós, Senhor, a minha esperança, a minha confiança desde a juventude. Desde o nascimento Vós me sustentais, desde o seio materno sois o meu protetor.
 
A minha boca proclamará a vossa justiça, dia após dia a vossa infinita salvação. Desde a juventude Vós me ensinais e até hoje anunciei sempre os vossos prodígios.
 
Aleluia. A semente é a palavra de Deus e o semeador é Cristo: quem O encontrar permanecerá para sempre. Aleluia.
 
Evangelho (Mt 13,1-9): Naquele dia, Jesus saiu de casa e sentou-se à beira-mar. Uma grande multidão ajuntou-se em seu redor. Por isso, ele entrou num barco e sentou-se ali, enquanto a multidão ficava de pé, na praia. Ele falou-lhes muitas coisas em parábolas, dizendo: «O semeador saiu para semear. Enquanto semeava, algumas sementes caíram à beira do caminho, e os pássaros vieram e as comeram. Outras caíram em terreno cheio de pedras, onde não havia muita terra. Logo brotaram, porque a terra não era profunda. Mas, quando o sol saiu, ficaram queimadas e, como não tinham raiz, secaram. Outras caíram no meio dos espinhos, que cresceram sufocando as sementes. Outras caíram em terra boa e produziram frutos: umas cem, outra sessenta, outra trinta. Quem tem ouvidos, ouça».
 
«O semeador saiu para semear»
 
P. Júlio César RAMOS González SDB (Mendoza, Argentina)
 
Hoje, Jesus – pela mão de Mateus – introduz-nos nos mistérios do Reino através desta forma tão característica de nos apresentar a sua dinâmica, por meio de Parábolas.
 
A semente é a palavra proclamada, e o semeador é Ele mesmo. Ele não procura semear no melhor dos terrenos para garantir a melhor das colheitas. Ele veio para que todos «tenham vida, e a tenham em abundância» (Jo 10,10). Por isso, é que não se poupa a espalhar mãos-cheias generosas de sementes, seja «à beira do caminho (Mt 13,4), seja no «terreno cheio de pedras» (v. 5), ou «no meio dos espinhos» (v. 7), e finalmente «em terra boa» (v.8).
 
Assim, as sementes espalhadas por mãos generosas produzem a percentagem de rendimento que as possibilidades “toponímicas” lhes permitem. O Concílio Vaticano II diz: «A palavra do Senhor é comparada à semente lançada ao campo: os que a ouvem com fé e pertencem ao pequeno rebanho de Cristo, acolheram o reino de Deus; e então a semente germina por virtude própria e cresce até ao tempo da ceifa» (Lumen gentium, n. 5).
 
«Os que a ouvem com fé», diz-nos o Concílio. Estamos habituados a ouvi-la, talvez a lê-la e talvez a meditá-la. Conforme a profundidade de escuta na fé, assim será a possibilidade de produzir frutos. Embora estes venham, de certa forma, garantidos pela potência vital da Palavra-semente, não é menor a responsabilidade que nos cabe na escuta atenta dessa Palavra. Por isso, «Quem tem ouvidos, ouça» (Mt 13,9).
 
Pede hoje ao Senhor o desejo do profeta: «Bastava descobrir as tuas palavras e eu já as devorava, as tuas palavras para mim são prazer e alegria do coração, pois a ti sou consagrado, Senhor, Deus dos exércitos» (Jr 15,16).
 
Pensamentos para o Evangelho de hoje
«O semeador divino joga também agora a sua semente: convida-nos a difundir a mensagem divina, com a doutrina e com o exemplo» (São Josemaria)
 
«O Senhor joga com abundância e gratuitamente a semente da Palavra de Deus. O semeador não desanima porque sabe que parte desta semente está destinada a cair em ‘terra boa’, isto é, em corações ardentes capazes de acolher a Palavra com disponibilidade, para o bem de muitos» (Bento XVI)
 
«As parábolas são, para o homem, uma espécie de espelho: como é que ele recebe a Palavra? Como chão duro, ou como terra boa? Que faz ele dos talentos recebidos? Jesus e a presença do Reino neste mundo estão secretamente no coração das parábolas (...)» (Catecismo da Igreja Católica, nº 546)
 
Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm.
 
* No capítulo 13 do Evangelho de Mateus começa o terceiro grande discurso, o Sermão das Parábolas.
Como já dissemos anteriormente no comentário do evangelho do dia 9 de julho, Mateus organizou o seu evangelho como uma nova edição da Lei de Deus ou como um novo “Pentateuco” com seus cinco livros. Por isso, o seu evangelho traz cinco grande discursos ou ensinamentos de Jesus, seguidos por partes narrativas, nas quais se descreve como Jesus praticava o que tinha ensinado nos discursos. Eis o esquema:
Introdução: nascimento e preparação do Messias (Mt 1 a 4)
1. Sermão da Montanha: a porta de entrada no Reino (Mt 5 a 7)
Narrativa Mt 8 e 9
2. Sermão da Missão: como anunciar e irradiar o Reino (Mt 10)
Narrativa Mt 11 e 12
3. Sermão das Parábolas: o mistério do Reino presente na vida (Mt 13)
Narrativa Mt 14 a 17
4. Sermão da Comunidade: a nova maneira de conviver no Reino (Mt 18)
Narrativa 19 a 23
5. Sermão da vinda futura do Reino: a utopia que sustenta a esperança (Mt 24 e 25)
Conclusão: paixão, morte e ressurreição (Mt 26 a 28).
 
* No evangelho de hoje vamos meditar sobre a parábola da semente. Jesus tinha um jeito bem popular de ensinar por meio de comparações e parábolas. Geralmente, quando terminava de contar uma parábola, ele não explicava, mas costumava dizer: “Quem tem ouvidos para ouvir ouça!” (Mt 11,15; 13,9.43). De vez em quando, ele explicava para os discípulos (Mt 13,36). As parábolas falam das coisas da vida: semente, lâmpada, grão de mostarda, sal, etc. São coisas que existem na vida de todos, tanto do povo daquele tempo como de hoje. Deste modo, a experiência que hoje nós temos destas coisas da vida tornam-se para nós um meio para descobrir a presença do mistério de Deus em nossas vidas. Falar em Parábolas é revelar o mistério do Reino presente na vida.
 
* Mateus 13,1-3: Sentado num barco, Jesus ensina o povo. Como no Sermão da Montanha (Mt 5,1-2), também aqui Mateus faz uma breve introdução ao Sermão das Parábolas, descrevendo o jeito de Jesus ensinar o povo na praia, sentado no barco, e muita gente ao redor para escutar. Jesus não era uma pessoa estudada (Jo 7,15). Não tinha frequentado a escola superior de Jerusalém. Vinha do interior, da roça, de Nazaré. Era um desconhecido, meio camponês, meio artesão. Sem pedir licença às autoridades religiosas, começou a ensinar o povo. O povo gostava de ouvi-lo. Jesus ensinava sobretudo através de parábolas. Já vimos várias: do pescador de homens (Mt 4,19), do sal (Mt 5,13), da lâmpada (Mt 5,15), das aves do céu e dos lírios do campo (Mt 6,26.28), da casa construída na rocha (Mt 7,24). Mas agora, no capítulo 13, as parábolas começam a ter um significado especial: servem para revelar o mistério do Reino de Deus presente no meio do povo e na atividade de Jesus.
 
* Mateus 13,4-8: A parábola da semente retrata a vida do camponês.
Naquele tempo, não era fácil viver da agricultura. O terreno tinha muitas pedras. Muito mato. Pouca chuva, muito sol. Além disso, muitas vezes, o povo encurtava estrada e, passando no meio do campo, pisava nas plantas (Mt 12,1). Mesmo assim, apesar de tudo isso, todo ano, o agricultor semeava e plantava, confiando na força da semente, na generosidade da natureza. A parábola do semeador descreve o que todos sabiam e faziam: a semente jogada pelo agricultor vai caindo. Uma parte cai à beira do caminho; outra parte, nas pedras ou entre os espinhos; outra parte em terra boa, onde, de acordo com a qualidade do terreno, vai produzindo trinta, sessenta e até cem. Uma parábola é uma comparação. Ela usa as coisas conhecidas e visíveis da vida para explicar as coisas invisíveis e desconhecidas do Reino de Deus. O povo da Galileia entendia de semente, de terreno, chuva, sol, e colheita. Ora, eram exatamente estas coisas conhecidas do povo que Jesus usou na parábola para explicar o mistério do Reino.
 
* Mateus 13,9: Quem tem ouvidos ouça. A expressão “Quem tem ouvidos ouça” significa: “É isso! Vocês ouviram. Agora tratem de entender!” O caminho para chegar ao entendimento da parábola é a busca: “Tratem de entender!” A parábola não entrega tudo pronto, mas leva a pensar e faz descobrir a partir da própria experiência que os ouvintes têm da semente. Provoca a criatividade e a participação. Não é uma doutrina que já vem pronta para ser ensinada e decorada. A Parábola não dá água engarrafada, mas entrega a fonte. O agricultor que escutou a parábola, diz: “Semente no terreno, eu sei o que é! Mas Jesus diz que isso tem a ver com o Reino de Deus. O que seria?” E aí você pode imaginar as longas conversas do povo! A parábola mexe com o povo e leva a escutar a natureza e a pensar na vida. Certa vez, alguém perguntou numa comunidade: “Jesus falou que devemos ser sal. Para que serve o sal?” Discutiram e, no fim, encontraram mais de dez finalidades diferentes para o sal! Aí foram aplicar tudo isto à vida da comunidade e descobriram que ser sal é difícil e exigente. A parábola funcionou!
 
Para um confronto pessoal
1. Como foi o ensino do catecismo que você recebeu quando criança? Foi de comparações tiradas da vida? Você lembra de alguma comparação importante que a catequista contou? E hoje, como é a catequese na sua comunidade?
2. Às vezes, somos caminho; outras vezes, pedra; outras vezes, espinhos; outras vezes, é terra boa. O que sou eu? Na nossa comunidade, o que somos? Quais os frutos que a Palavra de Deus está produzindo na minha vida, na minha família e na nossa comunidade: trinta, sessenta ou cem?

24 de julho

 B. Mª das Mercês do Sagrado Coração Prat
Religiosa da Companhia de Santa Teresa
Virgem e mártir
 

A Beata Mercedes nasceu em Barcelona (Espanha) a 6 de março de 1880. Entrou para a Companhia de Sta. Teresa no dia 27 de agosto de 1904. Uma das irmãs com que conviveu definiu-a Mercedes como "uma Teresiana segundo o Coração de Deus." Quando estourou a Guerra Civil Espanhola, repetia com frequência quando falava dos perigos da revolução que se desenvolvia na Espanha: "Aconteça o que acontecer, o Coração de Jesus triunfará". Foi então que se lhe viu prolongar seus momentos de oração diante do sacrário. Dali, sem dúvida, lhe vinham a confiança e a fortaleza ilimitadas. Em julho de 1936, teve a oportunidade de testemunhar a sua obediência e entrega. Ao perguntar-lhe alguns milicianos quem era, respondeu que uma religiosa do ensino; e ao perguntar-lhes se sabiam que por isso podiam ser fuziladas, Mercedes e a irmã que a acompanhava não o ignoravam. "Nos vão matar", disse ao sair de Ganduxer, “mas vamos lá, obedecerei porque o Senhor o quer." Foram horas de angústia para as duas irmãs, interrogatórios, ameaças, simulação de fuzilamento... foi um dia longo o 23 de julho. Finalmente, na madrugada do dia 24, na estrada da Rabasada, o pelotão de fuzilamento encontrou a Mercedes com a oração nos lábios.  Ferida de morte repetiu entre gemidos: "Jesus, José e Maria" e suas últimas palavras foram as do Pai Nosso: "Perdoai-nos assim como nós perdoamos..." Em 29 de abril de 1990 foi beatificada pelo Papa João Paulo II.
 
Salmodia, leitura, responsório breve e preces do dia corrente.
 
Oração
Deus Pai de infinita bondade, que destes à beata Maria Mercedes Prat, virgem o espírito de fortaleza para consumar no martírio sua oblação a Vós e à Igreja; concedei-nos, por sua intercessão que arraigados na caridade de Cristo, nunca nos separemos de seu amor Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus, e convosco vive e reina na unidade do Espírito Santo.

24 de julho

Maria Pilar de S. Francisco de Borja (nascida em Tarazona, perto de Barcelona, no dia 30 de dezembro de 1877), Teresa do Menino Jesus e de S. João da Cruz (nascida em Mochales no dia 5 de março de 1909) e Maria Angeles de S. José (nascida em Getafe no dia 6 de março de 1905), carmelitas descalças do mosteiro de S. José de Guadalajara (Espanha), sofreram o martírio no dia 24 de julho de 1936, depois de terem confessado a sua fé em Cristo Rei e de terem oferecido as suas vidas pela Igreja. São as primícias dos inumeráveis mártires da guerra civil espanhola de 1936-1939. Foram beatificadas por João Paulo II no dia 29 de março de 1987.
 
Salmodia, leitura, responsório breve e preces do dia corrente.

Oração
Senhor nosso Deus, fortaleza dos humildes, que admiravelmente amparastes no martírio as bem-aventuradas virgens Maria Pilar, Teresa e Maria Angeles, concedei-nos, por sua intercessão, que, assim como elas derramaram o sangue por Cristo Rei, também nós permaneçamos fiéis a Vós e à vossa Igreja até à morte. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus, e convosco vive e reina na unidade do Espírito Santo.