segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Quarta-feira da 22ª semana do Tempo Comum

São Brocardo, Segundo Prior Geral de Nossa Ordem
 
1ª Leitura (1Cor 3,1-9):
Irmãos: Não pude falar-vos como a pessoas espirituais, mas como a pessoas demasiado naturais, como a crianças em Cristo. Por isso vos dei leite a beber e não alimento sólido, porque não podíeis suportá-lo. Mas nem sequer o podeis suportar agora, porque ainda sois demasiado naturais. De facto, se entre vós há inveja e discórdia, não é certo que sois demasiado naturais e procedeis segundo critérios humanos? Pois, quando alguém diz: «Eu sou de Pedro», e outro: «Eu sou de Apolo», não julgais apenas por critérios humanos? Então, quem é Apolo? Quem é Paulo? Apenas servos de Deus, por meio dos quais alcançastes a fé, cada um na medida em que o Senhor lhe concedeu. Eu plantei, Apolo regou; mas Deus é que fez crescer. Assim, nem o que planta nem o que rega são coisa alguma; só Deus é que conta, pois é Ele que faz crescer. Entretanto, quem planta e quem rega trabalham como um só, mas cada qual receberá a recompensa, segundo o esforço do seu trabalho. Nós somos colaboradores de Deus e vós sois o campo de Deus, o edifício de Deus.
 
Salmo Responsorial: 32
R. Feliz o povo que o Senhor escolheu para sua herança.
 
Feliz a nação que tem o Senhor por seu Deus, o povo que Ele escolheu para sua herança. Do Céu o Senhor contempla e observa todos os homens.
 
Do lugar onde habita, contempla todos os habitantes da terra. Ele que formou o coração de cada homem está atento a todas as suas obras.
 
A nossa alma espera o Senhor, Ele é o nosso amparo e protetor. N’Ele se alegra o nosso coração, em seu nome santo pomos a nossa confiança.
 
Aleluia. O Senhor enviou-Me para anunciar a boa nova aos pobres e proclamar aos cativos a redenção. Aleluia.
 
Evangelho (Lc 4,38-44): Naquele tempo, Jesus saiu da sinagoga e entrou na casa de Simão. A sogra de Simão estava sofrendo, com muita febre. Intercederam a Jesus por ela. Então, Jesus se inclinou sobre ela e, com autoridade, mandou que a febre a deixasse. A febre a deixou, e ela, imediatamente, se levantou e pôs-se a servi-los. Ao pôr-do-sol, todos os que tinham doentes, com diversas enfermidades, os levavam a Jesus. E ele impunha as mãos sobre cada um deles e os curava. De muitas pessoas saíam demônios, gritando: «Tu és o Filho de Deus!». Ele os repreendia, proibindo que falassem, pois sabiam que ele era o Cristo. De manhã, bem cedo, Jesus saiu e foi para um lugar deserto. As multidões o procuravam e, tendo-o encontrado, tentavam impedir que ele as deixasse. Mas ele disse-lhes: «Eu devo anunciar a Boa Nova do Reino de Deus também a outras cidades, pois é para isso que fui enviado». E ele ia proclamando pelas sinagogas da Judéia.
 
«Ele impunha as mãos sobre cada um deles e os curava. De muitas pessoas saíam demônios, gritando»
 
Rev. D. Antoni CAROL i Hostench (Sant Cugat del Vallès, Barcelona, Espanha)
 
Hoje, nos encontramos ante um claro contraste: as pessoas que procuram Jesus e Ele que cura toda “doença” (começando pela sogra de Simão Pedro); à vez, «de muitas pessoas saíam demônios, gritando» (Lc 4,41). Quer dizer: bem e paz, por um lado; mal e desespero, pelo outro.
 
Não é a primeira ocasião que aparece o demônio “saindo”, isto é, fugindo da presença de Deus entre gritos e exclamações. Lembremos também o endemoninhado de Gerasa (cf. Lc 8,26-39). Surpreende que o próprio demônio “reconheça” a Jesus e que, como no caso daquele de Gerasa, é ele mesmo quem sai ao encontro de Jesus (isso sim, muito raivoso e incomodado porque a presença de Deus incomodava a sua vergonhosa tranquilidade).
 
Tantas vezes nós também pensamos que encontrar-nos com Jesus nos atrapalha! Atrapalha-nos ter que ir à Missa no domingo; perturba-nos pensar que faz muito que não dedicamos um tempo à oração; sentimos vergonha dos nossos erros, em lugar de ir ao Médico da nossa alma para pedir-lhe simplesmente perdão... Pensemos se não é o Senhor quem tem que vir a nos encontrar, pois nós mesmos nos fazemos rogar para deixar a nossa pequena “caverna” e sair ao encontro de quem é o Pastor das nossas vidas! Isto se chama, simplesmente, tibieza.
 
Tem um diagnóstico para isto: atonia, falta de tensão na alma, angústia, curiosidade desordenada, hiperatividade, preguiça intelectual com as coisas da fé, pusilanimidade, vontade de estar só consigo mesmo... E existe também um antídoto: deixar de se olhar a sim mesmo e se por mãos à obra. Fazer o pequeno compromisso de dedicar um momento cada dia a olhar e escutar a Jesus (o que se entende por oração): Jesus o fazia, pois «de manhã, bem cedo, Jesus saiu e foi para um lugar deserto» (Lc 4,42). Fazer o pequeno compromisso de vencer o egoísmo numa pequena coisa cada dia pelo bem dos outros (isto se chama amar). Fazer o pequeno-grande compromisso de viver cada dia em coerência com nossa vida Cristã.
 
Pensamentos para o Evangelho de hoje
«A mulher curada mostrou muita virtude e o benefício que tirou de sua doença: logo que foi curada, ela só queria usar sua saúde ao serviço do Senhor» (São Francisco de Sales)
 
«Na doença, todos precisamos de calor humano: para confortar a um doente, mais do que as palavras, conta a proximidade serena e sincera» (Bento XVI)
 
«A doença pode levar à angústia, ao fechar-se em si mesmo e até, por vezes, ao desespero e à revolta contra Deus. Mas também pode tornar uma pessoa mais amadurecida, ajudá-la a discernir, na sua vida, o que não é essencial para se voltar para o que o é. Muitas vezes, a doença leva à busca de Deus, a um regresso a Ele» (Catecismo da Igreja Católica, nº 1501)
 
Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm.
 
* O evangelho de hoje traz quatro assuntos diferentes:
a cura da sogra de Pedro (Lc 4,38-39), a cura de muitos doentes à noite, depois do sábado (Lc 4, 40-41), a oração de Jesus num lugar deserto (Lc 4,42) e a sua insistência na missão (Lc 4,43-44). Com pequenas diferenças Lucas segue e adapta as informações que tirou do evangelho de Marcos.
 
* Lucas 4,38-39:  Jesus restaura a vida para o serviço. Depois de participar da celebração do sábado, na sinagoga, Jesus entra na casa de Pedro e cura a sogra dele. A cura faz com que ela se coloque imediatamente de pé. Com a saúde e a dignidade recuperadas, ela se põe a serviço das pessoas. Jesus não só cura, mas cura para que a pessoa possa colocar-se a serviço da vida.
 
* Lucas 4,40-41: Jesus acolhe e cura os marginalizados. Ao cair da tarde, na hora do aparecimento da primeira estrela no céu, terminado o sábado, Jesus acolhe e cura os doentes e os possessos que o povo tinha trazido. Doentes e possessos eram as pessoas mais marginalizadas naquela época. Elas não tinham a quem recorrer. Ficavam entregues à caridade pública. Além disso, a religião as considerava impuras. Elas não podiam participar na comunidade. Era como se Deus as rejeitasse e as excluísse. Jesus as acolhe e as cura impondo a mão em cada um. Assim, aparece em que consiste a Boa Nova de Deus e o que ela quer atingir na vida da gente: acolher os marginalizados e os excluídos e reintegrá-los na convivência.
 
* “De muitas pessoas saíam demônios, gritando: “Tu és o Filho de Deus”. Jesus os ameaçava e não os deixava falar, porque os demônios sabiam que ele era o Messias”. Naquele tempo, o título Filho de Deus ainda não tinha a densidade e a profundidade que o título tem hoje para nós. Significava que o povo reconhecia em Jesus uma presença todo especial de Deus. Jesus não deixava os demônios falar. Ele não queria propaganda fácil por meio do impacto de expulsões espetaculares.
 
* Lucas 4,42a: Permanecer unido ao Pai pela oração. “Ao raiar do dia, Jesus saiu, e foi para um lugar deserto. As multidões o procuravam, e, indo até ele, não queriam deixá-lo que fosse embora”. Aqui Jesus aparece rezando. Ele faz um esforço muito grande para ter o tempo e o ambiente apropriado para rezar. Levantou mais cedo que os outros e foi para um lugar deserto, para poder estar a sós com Deus. Muitas vezes, os evangelhos nos falam da oração de Jesus no silêncio (Lc 3,21-22; 4,1-2.3-12; 5,15-16; 6,12; 9,18; 10,21; 5,16; 9,18; 11,1; 9,28;23,34; Mt 14,22-23; 26,38; Jo 11,41-42; 17,1-26; Mt  Mc 1,35; Lc  3,21-22). É através da oração que ele mantém viva em si a consciência da sua missão.
 
* Lucas 4,42b-44: Manter viva a consciência da missão e não se fechar no resultado. Jesus tornou-se conhecido. O povo ia atrás dele e não queria que ele fosse embora. Jesus não atendeu ao pedido e disse: "Devo anunciar a Boa Notícia do Reino de Deus também para as outras cidades, porque para isso é que fui enviado." Jesus tem muito clara a sua missão. Não se fecha no resultado já obtido, mas quer manter bem viva a consciência da sua missão. É a missão recebida do Pai que o orienta na tomada das decisões. Foi para isto que fui enviado! E aqui no texto esta consciência tão viva aparece como fruto da oração.
 
Para um confronto pessoal
1) Jesus tirava tempo para poder rezar e estar a sós com o Pai? Eu tiro tempo para rezar e estar a sós com Deus?
2) Jesus mantinha viva a consciência da sua missão. E eu, será que, como cristã ou cristão, tenho consciência de alguma missão ou vivo sem missão?

2 de setembro

 São Brocardo
Segundo Prior Geral de Nossa Ordem
 
São Brocardo nasceu em Jerusalém, de pais franceses que se aplicaram em dar-lhe uma educação cristã. Muito cedo sentiu ele o vazio e o nada deste mundo, pelo que decidiu retirar-se para o Monte Carmelo, onde o seu fervor cresceu mais ainda, sob a influência das lições de São Bertholo e dos exemplos de tantos e tão admiráveis religiosos. Lá se devotou de tal sorte no serviço de Deus e da SS. Virgem Maria, que atingiu alto grau de santidade. E assim, após a morte de São Bertoldo, foi, por unanimidade, eleito seu sucessor no governo da Ordem, em 1195. Foi ele quem, se dirigiu ao Patriarca de Jerusalém, a fim de obter aquelas regras cheias de sabedoria que, em 1207, Santo Alberto escreveu para o caro filho Brocardo “e outros eremitas que, sob sua obediência, viviam no Monte Carmelo, junto à Fonte de Elias.” Morreu aos 2 de setembro de 1230, segundo uns e 1231, segundo outros. Foi enterrado no Monte Carmelo, onde ainda se mostra o seu túmulo. Antes de expirar, recomendou aos seus discípulos, que jamais abandonassem as pegadas da augustíssima Virgem Maria e do Patriarca Santo Elias.
 
INVITATÓRIO
Ant. Aclamemos o Senhor, na festa de São Brocardo
 
LAUDES
Hino
Condutor esclarecido
das ovelhas do Senhor,
vivias só para elas,
à imagem do bom Pastor.
 
Nos momentos de perigo,
tu nunca as deixaste sós;
quando chamavas por elas,
conheciam tua voz.
 
A pastagens verdejantes
levavas os teus cordeiros,
por caminhos de doutrina
seguros e verdadeiros.
 
Na condução das ovelhas
tu ias sempre adiante,
contra todos os perigos
sentinela vigilante.
 
Seus celeiros o Senhor
entregou-te como amigo,
e a todos soubeste dar
sua medida de trigo.
 
Que para sempre teu nome
bendito e exaltado seja,
luzeiro do firmamento
e glória da Santa Igreja.
 
Salmodia do dia corrente.
 
Leitura Breve - Hebr. 13, 7-9a
Lembrai-vos dos vossos chefes, que vos anunciaram a palavra de Deus. Considerai o êxito da sua carreira e imitai a sua fé. Jesus Cristo é sempre o mesmo, ontem, hoje e por toda a eternidade. Não vos deixeis transviar por doutrinas incertas e estranhas.
 
Responsório Breve
v. A lei de Deus está no seu coração.
R. A lei de Deus está no seu coração.
v. Os seus passos não vacilam.
R. A lei de Deus está no seu coração.
v. Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo.
R. A lei de Deus está no seu coração
 
Cântico Evangélico
Ant. Este será abençoado pelo Senhor e recompensado por Deus, seu Salvador, porque esta é a geração dos que procuram o Senhor
 
Preces
Glorifiquemos, irmãos, a Cristo, nosso Deus e Senhor, e, pedindo-lhe que nos ensine a servi-lo em santidade e justiça na sua presença todos os dias da nossa vida, aclamemo-lo dizendo:
 
R. Senhor, só vós sois santo.
 
Senhor Jesus, que quisestes ser igual a nós, em tudo menos no pecado,
— tende piedade de nós. R.
 
Senhor Jesus, que nos chamastes à perfeição da caridade,
— santificai­nos sempre mais. R.
 
Senhor Jesus, que nos mandastes ser sal da terra e luz do mundo,
— iluminai a nossa vida. R.
 
Senhor Jesus, que viestes ao mundo para servir e não para ser servido,
— ensinai-nos a servir-vos humildemente nos nossos irmãos. R.
 
Senhor Jesus, esplendor da glória do Pai e perfeita imagem do ser divino,
— fazei que cheguemos a contemplar o vosso rosto na glória celeste. R.
 

(intenções livres)
Pai nosso
 
Oração
Deus eterno e todo-poderoso, santificai vossos servos, pois, ao venerar São Brocardo, vos rogamos humildemente que, por seus méritos, nos livreis de toda adversidade.  Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco, na unidade do Espírito Santo.
 
VÉSPERAS
Hino
Jesus, prêmio e coroa
de teus servos fiéis,
glorifica o teu nome,
neste dia de festa.
 
Concede a nós carmelitas
peregrinos de Deus,
a paz e a liberdade
e a vitória final.
 
O santo prior Brocardo
seguindo tuas pegadas
no caminho da cruz
agradou a Deus Pai.
 
Da cidade dos Santos,
onde reina glorioso,
ele nos guie e proteja
nos caminhos do Reino.
 
Glória a Ti, Jesus Cristo,
glória ao Pai e ao Espírito,
na terra e nos Céus,
agora e para sempre.
 
Salmodia do dia corrente.
 
Leitura Breve - Filip 3, 7-8a
Tudo o que para mim era lucro, considerei-o como perda por causa de Cristo. Mais ainda: considero todas as coisas como prejuízo, comparando-as com o bem supremo, que é conhecer Jesus Cristo, meu Senhor. Por Ele renunciei a todas as coisas e considerei tudo como lixo, para ganhar a Cristo.
 
Responsório breve
v. O Senhor é justo e ama a justiça.
R. O Senhor é justo e ama a justiça.
v. Os homens retos contemplarão a sua face. R.
v. Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo. R.
 
Cântico Evangélico
Ant. O Senhor é a minha herança. O Senhor é bom para a alma que o procura.
 
Preces
Peçamos a Deus Pai, fonte de toda a santidade, que, pela intercessão e exemplo dos Santos, nos conduza a uma vida mais perfeita; e digamos:
 
R. Fazei-nos santos, porque vós sois santo.
 
Pai santo, que nos destes a graça de nos chamarmos e sermos realmente vossos filhos,
— fazei que a santa Igreja cante as vossas maravilhas por toda a terra. R.
 
Pai santo, inspirai os vossos servos a viver dignamente, segundo a vossa vontade,
— e ajudai-nos a dar fruto abundante de boas obras. R.
 
Pai santo, que nos reconciliastes convosco por meio de Cristo,
— conservai-nos na unidade por amor do vosso nome. R.
 
Pai santo, que nos chamastes ao convívio do vosso reino,
— fazei que, comungando o Pão descido do Céu, alcancemos a perfeição da caridade. R.
 
(intenções livres)
 
Pai santo, perdoai aos pecadores as suas culpas
— e levai os defuntos a contemplar no Céu a luz do vosso rosto. R.
 
Pai nosso...
 
Oração
Deus eterno e todo-poderoso, santificai vossos servos, pois, ao venerar São Brocardo, vos rogamos humildemente que, por seus méritos, nos livreis de toda adversidade.  Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco, na unidade do Espírito Santo.

domingo, 30 de agosto de 2026

TERÇA-FEIRA DA 22ª SEMANA DO TEMPO COMUM

Sta. Teresa Margarida do Coração de Jesus (Redi), virgem de nossa Ordem.
 

 Leitura (1Cor 2,10b-16):
Irmãos: O Espírito Santo conhece todas as coisas, até o que há de mais profundo em Deus. Na verdade, quem sabe o que há no homem senão o espírito humano que nele se encontra? Assim também, ninguém conhece o que há em Deus, senão o Espírito de Deus. Nós não recebemos o espírito do mundo, mas o Espírito que vem de Deus, para conhecermos os dons da graça de Deus. Para falarmos desses dons, não usamos a linguagem ensinada pela sabedoria humana, mas a linguagem que o Espírito de Deus nos ensina, exprimindo em termos espirituais as realidades espirituais. O homem natural não aceita as coisas que vêm do Espírito de Deus, pois são loucura para ele. Não pode entendê-las, porque só podem ser julgadas com critério espiritual. Mas o homem espiritual julga todas as coisas, enquanto ele próprio não é julgado por ninguém. Na verdade, quem conheceu o pensamento do Senhor, para que O possa instruir? Nós, porém, temos o pensamento de Cristo.
 
Salmo Responsorial: 144
R. O Senhor é justo em todos os seus caminhos.
 
O Senhor é clemente e compassivo, paciente e cheio de bondade. O Senhor é bom para com todos e a sua misericórdia se estende a todas as criaturas.
 
Graças Vos deem, Senhor, todas as criaturas e bendigam-Vos os vossos fiéis. Proclamem a glória do vosso reino e anunciem os vossos feitos gloriosos;
 
Para darem a conhecer aos homens o vosso poder, a glória e o esplendor do vosso reino. O vosso reino é um reino eterno, o vosso domínio estende-se por todas as gerações.
 
O Senhor é fiel à sua palavra e perfeito em todas as suas obras. O Senhor ampara os que vacilam e levanta todos os oprimidos.
 
Aleluia. Apareceu no meio de nós um grande profeta: Deus visitou o seu povo. Aleluia.
 
Evangelho (Lc 4,31-37): Naquele tempo, Jesus desceu para Cafarnaum, cidade da Galileia, e lá os ensinava, aos sábados. Eles ficavam maravilhados com os seus ensinamentos, pois sua palavra tinha autoridade. Na sinagoga estava um homem que tinha um espírito impuro, e ele gritou em alta voz: «Que queres de nós, Jesus de Nazaré? Vieste para nos destruir? Eu sei quem tu és: o Santo de Deus!». Jesus o repreendeu: «Cala-te, sai dele!». O demônio então lançou o homem no chão e saiu dele, sem lhe fazer mal algum. Todos ficaram espantados e comentavam: «Que palavra é essa? Ele dá ordens aos espíritos impuros, com autoridade e poder, e eles saem». E sua fama se espalhava por todos os lugares da redondeza.
 
«Eles ficavam maravilhados com os seus ensinamentos, pois sua palavra tinha autoridade»
 
Rev. D. Joan BLADÉ i Piñol (Barcelona, Espanha)
 
Hoje vemos como a atividade de ensinar foi, para Jesus, a missão central de sua vida pública. Porém a pregação de Jesus era muito diferente da dos outros mestres e isso fazia com que as pessoas se espantassem e se admirassem. Certamente, ainda que o Senhor não tivesse estudado (cf. Jo 7,15), desconcertava a todos com sua doutrina, porque «falava com autoridade» (Lc 4,32). Seu estilo possuía a autoridade de quem se sabia o “Santo de Deus”.
 
Precisamente aquela autoridade no seu falar era o que dava força a sua linguagem. Utilizava imagens vivas e concretas, sem silogismos nem definições; palavras e imagens que extraía da própria natureza quando não das Sagradas Escrituras. Não há dúvida de que Jesus era um bom observador, homem próximo das situações humanas: ao mesmo tempo em que o vemos ensinando, também o contemplamos perto das pessoas fazendo-lhes o bem (curando as doenças e expulsando demônios, etc.). Lia no livro da vida diária as experiências que depois lhe serviriam para ensinar. Ainda que fosse um material tão simples e “rudimentar”, a palavra do Senhor era sempre profunda, inquietante, radicalmente nova, definitiva.
 
O mais admirável da fala de Jesus Cristo, era esse saber harmonizar a autoridade divina com a mais incrível simplicidade humana. Autoridade e simplicidade eram possíveis em Jesus graças ao conhecimento que possuía do Pai e de sua relação de amorosa obediência a Ele (cf. Mt 11,25-27). Esta relação com o Pai é o que explica a harmonia única entre a grandeza e a humildade. A autoridade de seu falar não se ajustava aos parâmetros humanos; não havia disputa, nem interesses pessoais ou desejo de sobressair. Era uma autoridade que se manifestava tanto na sublimidade da palavra ou da ação como na humildade e simplicidade. Não houve nos seus lábios nem louvor pessoal, nem soberba nem gritos. Mansidão, doçura, compreensão, paz, serenidade, misericórdia, verdade, luz, justiça... Foi o aroma que rodeava a autoridade de seus ensinos.
 
Pensamentos para o Evangelho de hoje
«Tudo vem do amor, tudo está ordenado para a salvação do homem, Deus não faz nada que não seja para este fim» (Santa Catarina de Sena)
 
«O Evangelho é a palavra da vida: não oprime as pessoas, pelo contrário, liberta aqueles que são escravos de tantos espíritos malignos deste mundo: tanto o espírito de vaidade, o apego ao dinheiro, o orgulho, a sensualidade» (Francisco)
 
«A permissão divina do mal físico e do mal moral é um mistério, que Deus esclarece por seu Filho Jesus Cristo, morto e ressuscitado para vencer o mal. A fé dá-nos a certeza de que Deus não permitiria o mal, se do próprio mal não fizesse sair o bem, por caminhos que só na vida eterna conheceremos plenamente» (Catecismo da Igreja Católica, nº 324)
 
Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm.
 
* No evangelho de hoje, vamos ver de perto dois assuntos: a admiração do povo pela maneira de Jesus ensinar e a cura de um homem possuído por um demônio impuro.
Nem todos os evangelistas contam os fatos do mesmo jeito. Para Lucas, o primeiro milagre é a calma com que Jesus se livrou da ameaça de morte da parte do povo de Nazaré (Lc 4,29-30) e a cura do homem possesso (Lc 4,33-35). Para Mateus, o primeiro milagre é a cura de uma porção de doentes e endemoninhados (Mt 4,23) ou, mais especificamente, a cura de um leproso (Mt 8,1-4). Para Marcos, foi a expulsão de um demônio (Mc 1,23-26). Para João, o primeiro milagre foi em Caná, onde Jesus transformou água em vinho (Jo 2,1-11). Assim, na maneira de contar as coisas, cada evangelista mostra qual foi, segundo ele, a maior preocupação de Jesus.
 
* Lucas 4,31:  A mudança de Jesus para Cafarnaum. “Jesus foi a Cafarnaum, cidade da Galileia, e aí ensinava aos sábados”. Mateus diz que Jesus foi morar em Cafarnaum (Mt 4,13). Mudou de residência. Cafarnaum era uma pequena cidade junto ao entroncamento de duas estradas importantes: uma que vinha da Ásia Menor e ia para Petra no sul da Transjordânia, e a outra que vinha da região dos rios Eufrates e Tigre e descia para o Egito. A mudança para Cafarnaum facilitava o contato com o povo e a divulgação da Boa Nova.
 
* Lucas 4,32:  Admiração do povo pelo ensino de Jesus. A primeira coisa que o povo percebe é o jeito diferente de Jesus ensinar. Não é tanto o conteúdo, mas sim o jeito de ensinar, que impressiona. “Jesus falava com autoridade”. Marcos acrescenta que, por este seu jeito diferente de ensinar, Jesus criava consciência crítica no povo com relação às autoridades religiosas da época. O povo percebia e comparava: Ele ensina com autoridade, diferente dos escribas” (Mc 1,22.27). Os escribas da época ensinavam citando autoridades. Jesus não cita autoridade nenhuma, mas fala a partir da sua experiência de Deus e da vida.
 
* Lucas 4,33-35:  Jesus combate o poder do mal. O primeiro milagre é a expulsão de um demônio. O poder do mal tomava conta das pessoas e as alienava. Jesus devolve as pessoas a si mesmas. Devolve a consciência e a liberdade. E ele o faz pelo poder da sua palavra: "Cale-se, e saia dele!"  Ele dizia em outra ocasião: “Se é pelo dedo de Deus que eu expulso os demônios, então o Reino de Deus chegou para vocês” (Lc 11,20). Hoje também, muita gente vive alienada de si mesma pelo poder dos meios de comunicação, da propaganda do governo e do comércio. Vive escrava do consumismo, oprimida pelas prestações e ameaçada pelos cobradores. Acha que não vive direito enquanto não comprar aquilo que a propaganda anuncia. Não é fácil expulsar este poder que hoje aliena tanta gente, e devolver as pessoas a si mesmas!
 
* Lucas 1,36-37: A reação do povo: ele manda nos espíritos impuros primeiro impacto. Além do jeito diferente de Jesus ensinar as coisas de Deus, o outro aspecto que causava admiração no povo era o seu poder sobre os espíritos impuros: "Que palavra é essa? Ele manda nos espíritos impuros com autoridade e poder, e eles saem". Jesus abre um novo caminho para o povo poder conseguir a pureza através do contato com ele. Naquele tempo, uma pessoa impura não podia comparecer diante de Deus para rezar e receber a bênção prometida a Abraão. Teria que purificar-se, primeiro. Havia muitas leis e normas que dificultavam a vida do povo e marginalizavam muita gente como impura. Mas agora, purificadas pela fé em Jesus, as pessoas podiam comparecer novamente na presença de Deus e rezar a Ele, sem necessidade de recorrer àquelas complicadas e, muitas vezes, dispendiosas normas de pureza.
 
Para um confronto pessoal
1) Jesus provocava a admiração do povo. A atuação da nossa comunidade aqui no bairro provoca alguma admiração no povo? Qual?
2) Jesus expulsava o poder do mal e devolvia as pessoas a si mesmas. Hoje, muita gente vive alienada de si mesma e de tudo. Como devolvê-las a si mesmas?

sábado, 29 de agosto de 2026

1º de setembro

 Sta. Teresa Margarida do Sagrado Coração de Jesus (Redi)
Virgem de nossa Ordem
 


Nasceu em Arezzo (Toscana) da nobre família Redi, no ano 1747. Entrou para as Carmelitas Descalças de Florença no dia 1º de setembro de 1764. Enriquecida com a singular experiência contemplativa da expressão do Apóstolo S. João «Deus é amor», sentiu o chamamento à vida oculta pelo caminho do amor e da imolação de si mesma. Consumou a sua vocação e confirmou-a com o heroico exercício da caridade fraterna. Entrou na posse plena do amor de Deus no ano 1770 no Carmelo de Florença.
 
INVITATÓRIO
Ant. Vinde, adoremos o Senhor, Rei das virgens.
 
LAUDES
Hino
De perfume, ó flor da graça,
do Carmelo encheste as celas;
no Céu, hoje, coroada,
brilhas, joia das mais belas.
 
Ó Margarida, que fulguras
entre os coros virginais
que vão seguindo o Cordeiro,
entre cantos nupciais.
 
Concede-nos que andemos
no amor íntimo do Esposo,
para ser, Cristo somente,
nossa vida, paz e gozo.
 
Faze-nos sempre sentir,
do Pai, a excelsa ternura,
que é primeiro amor e único,
fonte de pura doçura.
 
Por ti nos infunda o Espírito,
da vida eterna, o caudal;
retribuir desejamos,
o seu amor paternal.
 
Tu, que sentiste a Trindade,
dá-nos tal graça também,
e, contigo, a sua glória
cantemos para sempre. Amém.
 
Salmodia do dia corrente.
 
Leitura breve - Cl 3,1-4
Se ressuscitastes com Cristo, esforçai-vos por alcançar as coisas do alto, onde está Cristo sentado à direita de Deus', aspirai às coisas celestes e não às coisas terrestres, pois vós morrestes, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus. Quando Cristo, vossa vida, aparecer em seu triunfo, então vós também aparecereis com ele, revestidos de glória.
 
Responsório breve
R. Falou-me o coração, * procurei a vossa face. R. Falou-me.
V. A vossa face eu procuro, Senhor. * Procurei. Glória ao Pai.
R. Falou-me.
 
Cântico evangélico
Ant. Sou o Caminho, a Verdade e a Vida: ninguém chega ao Pai senão por mim.
 
Preces
Adoremos a Cristo, chave de todos os segredos do Pai; e digamos com fé:
 
R. Senhor, mostrai-nos o Pai!
 
Cristo, que sois o Caminho, a Verdade e a Vida,
- sede o nosso caminho para chegarmos ao Pai. R.
 
Vós, que sois a Luz do mundo e o Esplendor da glória do Pai,
- iluminai a noite escura da nossa fé, enquanto caminhamos para o Pai. R.
 
Cristo, Palavra do Pai, que vos fizestes carne, e chamastes Santa Teresa Margarida para imitar pela fé vossa intimidade com o Pai,
- concedei-nos perseverar sempre na vida escondida convosco em Deus. R.
 
Jesus, espelho e prêmio da humildade, que viestes não para ser servido, mas para servir,
- ensinai-nos hoje a realizar os serviços mais humildes, agradáveis ao Pai, que vê no segredo. R.
 
Cristo, Palavra de Deus, que vos fizestes passível e paciente no meio de nós,
- fazei que, a exemplo de Santa Teresa Margarida, sigamos a vós crucificado por amor da vossa Igreja, que é o vosso Corpo. R.
 
Jesus, que tanto amastes a vossa Mãe, companheira fiel na obra da Salvação,
- fazei que, por intercessão de Maria, estejamos prontos a realizar com amor a vontade do Pai. R.
(intenções livres)
 
Pai Nosso
 
Oração
Senhor, Nosso Deus, que concedestes a Santa Teresa Margarida encontrar no Coração do Salvador tesouros inestimáveis de humildade e caridade, concedei-nos, por sua intercessão, jamais nos separarmos do amor de Jesus, vosso Filho, que é um só Deus convosco na unidade do Espírito Santo.
 
VÉSPERAS
Hino
Ó santa virgindade,
Imagem do Deus incorruptível,
Arvore da vida!
 
Ó santa virgindade,
Coroa de glória e cetro do Reino,
Espelho do Deus imortal!
 
Ó santa virgindade,
Harmonia de um mistério admirável,
Como são belas as coroas
E as vitórias dos teus combates!
 
Ó santa virgindade,
Luz da liberdade e vida celeste,
Templo de Deus e morada do grande Rei!
 
Ó santa virgindade,
Paraíso do Omnipotente,
Herança da família do Deus imortal!
 
Ó santa virgindade,
Glória de Deus, fraternidade dos Anjos,
Árvore florescente de perpétua santidade!
 
Ó santa virgindade,
Em ti se completa a vitória de Cristo,
Em ti resplandece o poder do Omnipotente,
Em ti repousa o Espírito de Deus.
 
Leitura breve - 1Jo 4,16b
Deus é Amor: quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele.
 
Responsório breve
R. Águas torrenciais'* jamais apagarão o amor! R. Águas.
V. Nem os rios poderão afogá-lo! * Jamais. Glória ao Pai.
R. Águas.
 
Cântico evangélico
Ant. Assim como o Pai me amou também eu vos amei: permanecei no meu amor.
 
Preces
Louvemos a Cristo, que no amor de Deus e do próximo nos legou o seu mandamento supremo; confiantes supliquemos:
 
R. Concedei-nos, Senhor, o vosso amor.
 
Cristo, que no vosso Coração nos revelastes o amor eterno do Pai,
- fazei-nos testemunhas vivas do Divino Amor. R.
 
Cristo, que viestes trazer o fogo à terra,
-inflamai-nos na fogueira deste amor, que abrasava o coração de Santa Teresa Margarida. R
 
Vós, que sempre fizestes o que agrada ao Pai,
- fazei que a nossa vida seja em tudo uma homenagem de amor filial ao Amor do Pai. R.
 
Vós, que fizestes do nosso próximo o sacramento da vossa presença,
- concedei que vos sirvamos com amor em todos os irmãos e irmãs, e vos descubramos em cada um deles. R.
 
(intenções livres)
 
Vós, que vos apressastes em chamar na flor da idade Santa Teresa Margarida abrasada no vosso amor,
_ apressai-vos em receber quanto antes no Reino eterno do Amor os nossos irmãos e irmãs falecidos. R.
 
Pai Nosso
 
Oração
Senhor, Nosso Deus, que concedestes a Santa Teresa Margarida encontrar no Coração do Salvador tesouros inestimáveis de humildade e caridade, concedei-nos, por sua intercessão, jamais nos separarmos do amor de Jesus, vosso Filho, que é um só Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

Segunda-feira da 22ª semana do Tempo Comum

Nossa Senhora da Graça de Cimbres
São Raimundo Nonato, presbítero
 
1ª Leitura (1Cor 2,1-5):
Quando fui ter convosco, irmãos, não me apresentei com sublimidade de linguagem ou de sabedoria a anunciar-vos o mistério de Deus. Pensei que, entre vós, não devia saber nada senão Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado. Apresentei-me diante de vós cheio de fraqueza e de temor e a tremer deveras. A minha palavra e a minha pregação não se basearam na linguagem convincente da sabedoria, mas na poderosa manifestação do Espírito Santo, para que a vossa fé não se fundasse na sabedoria humana, mas no poder de Deus.
 
Salmo Responsorial: 118
R. Quanto amo, Senhor, a vossa lei.
 
Quanto amo, Senhor, a vossa lei! Nela medito todo o dia. Vós me fizestes mais sábio que meus inimigos, porque tenho sempre comigo os vossos mandamentos.
 
Tornei-me mais sábio que todos os meus mestres, porque medito sempre as vossas ordens. Sou mais sensato que os anciãos, porque observo os vossos preceitos.
 
Desviei os meus pés de todo o mau caminho, a fim de guardar a vossa palavra. Não me tenho afastado dos vossos juízos, porque sois Vós quem me ensina.
 
Aleluia. O Espírito do Senhor está sobre Mim: Ele me enviou a anunciar a boa nova aos pobres. Aleluia.
 
Evangelho (Lc 4,16-30): Naquele tempo, Jesus foi a Nazaré, onde se tinha criado. Conforme seu costume, no dia de sábado, foi à sinagoga e levantou-se para fazer a leitura. Deram-lhe o livro do profeta Isaías. Abrindo o livro, encontrou o lugar onde está escrito: «O Espírito do Senhor está sobre mim, pois ele me consagrou com a unção, para anunciar a Boa Nova aos pobres: enviou-me para proclamar a libertação aos presos e, aos cegos, a recuperação da vista; para dar liberdade aos oprimidos e proclamar um ano de graça da parte do Senhor». Depois, fechou o livro, entregou-o ao ajudante e sentou-se. Os olhos de todos, na sinagoga, estavam fixos nele. Então, começou a dizer-lhes: «Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir». Todos testemunhavam a favor dele, maravilhados com as palavras cheias de graça que saíam de sua boca. E perguntavam: «Não é este o filho de José?». Ele, porém, dizia: «Sem dúvida, me citareis o provérbio: ‘Médico, cura-te a ti mesmo’. Tudo o que ouvimos dizer que fizeste em Cafarnaum, faze também aqui, na tua terra!». E acrescentou: «Em verdade, vos digo que nenhum profeta é bem recebido na sua própria terra. Ora, a verdade é esta que vos digo: no tempo do profeta Elias, quando não choveu durante três anos e seis meses e uma grande fome atingiu toda a região, havia muitas viúvas em Israel. No entanto, a nenhuma delas foi enviado o profeta Elias, senão a uma viúva em Sarepta, na Sidônia. E no tempo do profeta Eliseu, havia muitos leprosos em Israel, mas nenhum deles foi curado, senão Naamã, o sírio». Ao ouvirem estas palavras, na sinagoga, todos ficaram furiosos. Levantaram-se e o expulsaram da cidade. Levaram-no para o alto do morro sobre o qual a cidade estava construída, com a intenção de empurrá-lo para o precipício. Jesus, porém, passando pelo meio deles, continuou o seu caminho.
 
«Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir»
 
Rev. D. David AMADO i Fernández (Barcelona, Espanha)
 
Hoje, «se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir» (Lc 4,21). Com essas palavras, Jesus comenta, na sinagoga de Nazaré, um texto do profeta Isaías: «O Espírito do Senhor está sobre mim, pois ele me consagrou com a unção» (Lc 4,18). Estas palavras têm um sentido que ultrapassa o momento histórico concreto em que foram pronunciadas. O Espírito Santo habita em plenitude em Jesus Cristo, e é Ele quem o envia aos crentes.
 
Mas, além disso, todas as palavras do Evangelho possuem uma atualidade eterna. São eternas porque foram pronunciadas pelo Eterno e, são atuais porque Deus faz com que se cumpram em todos os tempos. Quando escutamos a Palavra de Deus, temos que recebê-la não como um discurso humano, mas sim como uma Palavra que tem, sobre nós, poder de transformação. Deus não fala aos nossos ouvidos, mas ao nosso coração. Tudo o que diz está profundamente cheio de sentido e de amor. A Palavra de Deus é uma fonte inextinguível de vida: «É mais o que perdemos do que o que captamos, tal como ocorre com os sedentos que bebem de uma fonte» (Santo Efrem). Suas palavras saem do coração de Deus. E, desse coração, do seio da Trindade, veio Jesus —a Palavra do Pai — aos homens.
 
Por isso, cada dia, quando escutamos o Evangelho, temos que poder dizer como Maria: «Faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lc 1,38); e Deus nos responderá: «Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir». Mas para que a Palavra seja eficaz em nós devemos nos desprender de todo o preconceito. Os contemporâneos de Jesus não o compreenderam, porque o viam somente com olhos humanos: «Não é este o filho de José?» (Lc 4,22). Enxergavam a humanidade de Cristo, mas não se deram conta de sua divindade. Sempre que escutamos a Palavra de Deus, mais à frente do estilo literário, da beleza das expressões ou da singularidade da situação, temos que saber que é Deus quem nos fala.
 
Pensamentos para o Evangelho de hoje
«O ano da graça foi aquele em que, para nós, Cristo foi crucificado. Foi então que nos tornamos pessoas gratas a Deus Pai e quando, por meio de Cristo, demos frutos» (São Cirilo de Alexandria)
 
«A Boa Nova é a pérola preciosa do Evangelho. Não é um objeto, é uma missão. Quem experimenta “a doce e reconfortante alegria de anunciar” sabe-o» (Francisco)
 
« (…) A Economia da salvação realiza-se no quadro do tempo, mas a partir do seu cumprimento na Páscoa de Jesus e da efusão do Espírito Santo, o fim da história é antecipado, pregustado, e o Reino de Deus entra no nosso tempo» (Catecismo da Igreja Católica, nº 1168)
 
Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm.
 
* Hoje, segunda-feira da 22ª semana comum, começamos a meditação do Evangelho de Lucas que se prolongará por três meses até o fim do ano eclesiástico.
O evangelho de hoje traz a visita de Jesus a Nazaré e a apresentação do seu programa ao povo na sinagoga. Num primeiro momento, o povo ficou admirado. Mas, em seguida, quando perceberam que Jesus queria acolher a todos, sem excluir ninguém, ficaram revoltados e quiseram matá-lo.
 
Lucas 4,16-19A proposta de Jesus. Animado pelo Espírito Santo, Jesus tinha voltado para a Galileia (Lc 4,14) e começou a anunciar a Boa Nova do Reino de Deus. Andando pelas comunidades e ensinando nas sinagogas, ele chegou em Nazaré, onde tinha sido criado. Estava de volta na comunidade, onde, desde pequeno, tinha participado durante quase trinta anos. No sábado seguinte, conforme o seu costume, Jesus foi à sinagoga para participar da celebração e levantou-se para fazer a leitura. Escolheu o texto de Isaías que falava dos pobres, presos, cegos e oprimidos (Is 61,1-2). Este texto refletia a situação do povo da Galileia do tempo de Jesus. A experiência que Jesus tinha de Deus como Pai amoroso dava a ele um novo olhar para avaliar a realidade. Em nome de Deus, Jesus toma posição em defesa da vida do seu povo e, com as palavras de Isaías, define a sua missão: (1) anunciar a Boa Nova aos pobres, (2) proclamar a libertação aos presos, (3) a recuperação da vista aos cegos, (4) restituir a liberdade aos oprimidos e, retomando a antiga tradição dos profetas, (5) proclama “um ano de graça da parte do Senhor”. Proclama o ano do jubileu!
 
* Na Bíblia, o “Ano Jubileu” era uma lei importante. Inicialmente, a cada sete anos (Dt 15,1; Lev 25,3), as terras deviam voltar ao clã de origem. Cada um devia poder voltar à sua propriedade. Assim impediam a formação de latifúndio e garantiam às famílias a sobrevivência. Também deviam perdoar as dívidas e resgatar as pessoas escravizadas (Dt 15,1-18). Não foi fácil realizar o ano jubileu cada sete anos (cf Jr 34,8-16). Depois do exílio, decidiram realizá-lo cada sete vezes sete anos (Lev 25,8-12), isto é, cada cinquenta anos. O objetivo do Ano Jubileu era e continua sendo: restabelecer os direitos dos pobres, acolher os excluídos e reintegrá-los na convivência. O jubileu era um instrumento legal para voltar ao sentido original da Lei de Deus. Era uma oportunidade oferecida por Deus para fazer uma revisão da caminhada, descobrir e corrigir os erros e recomeçar tudo de novo. Jesus inicia a sua pregação proclamando um jubileu, um “Ano de Graça da parte do Senhor”.
 
Lucas 4,20-22Ligar Bíblia com Vida. Terminada a leitura, Jesus atualiza o texto de Isaías dizendo: “Hoje se cumpriu esta passagem da escritura que acabastes de ouvir!" Assumindo as palavras de Isaías como suas próprias palavras, Jesus lhes dá o seu pleno e definitivo sentido e se declara messias que veio realizar a profecia. Esta maneira de atualizar o texto provocou uma reação de descrédito por parte dos que estavam na sinagoga. Ficaram escandalizados e já não queriam saber dele. Não aceitaram Jesus como o messias anunciado por Isaías. Diziam: “Não é este o filho de José?” Ficaram escandalizados porque Jesus falou em acolher os pobres, os cegos e os oprimidos. O povo de Nazaré não aceitou a proposta de Jesus. E assim, quando apresentou o seu projeto de acolher os excluídos, ele mesmo foi excluído.
 
Lucas 4,23-30Ultrapassar os limites da raça. Para ajudar a comunidade a superar o escândalo e levá-la a compreender que sua proposta estava bem dentro da tradição, Jesus contou duas histórias conhecidas da Bíblia, uma de Elias e outra de Eliseu. As duas histórias criticavam o fechamento do povo de Nazaré. Elias foi enviado para a viúva estrangeira de Sarepta (1 Rs 17,7-16). Eliseu foi enviado para atender ao estrangeiro da Síria (2 Rs 5,14). Transparece aqui a preocupação de Lucas em mostrar que a abertura para os pagãos já vinha desde Jesus. Jesus teve as mesmas dificuldades que as comunidades estavam tendo no tempo de Lucas. Mas o apelo de Jesus não adiantou. Ao contrário! As histórias de Elias e Eliseu provocaram mais raiva ainda. A comunidade de Nazaré chegou ao ponto de querer matar Jesus. Mas ele manteve a calma. A raiva dos outros não conseguiu desviá-lo do seu caminho. Lucas mostra assim como é difícil superar a mentalidade do privilégio e do fechamento.
 
* É importante notar os detalhes no uso do Antigo Testamento. Jesus cita o texto de Isaías até onde diz: "proclamar um ano de graça da parte do Senhor". Cortou o resto da frase que dizia: "e um dia de vingança do nosso Deus". O povo de Nazaré ficou bravo com Jesus por ele pretender ser o messias, por querer acolher os excluídos e por ter omitido a frase sobre a vingança. Eles queriam que o Dia de Javé fosse um dia de vingança contra os opressores do povo. Neste caso, a vinda do Reino seria apenas uma virada da mesa e não uma mudança ou conversão do sistema. Jesus não aceita este modo de pensar, não aceita a vingança (cf.Mt 5,44-48). A sua nova experiência de Deus como Pai/Mãe ajudava-o a entender melhor o sentido das profecias.
 
Para um confronto pessoal
1) O programa de Jesus consiste em acolher os excluídos. Será que nós acolhemos a todos, ou excluímos alguém? Quais os motivos que nos levam a excluir certas pessoas?
2) Será que o programa de Jesus está sendo realmente o nosso programa, o meu programa? Quais os excluídos que deveríamos acolher melhor na nossa comunidade? O que ou quem nos dá força para realizar a missão que Jesus nos deu?

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

XXII Domingo Tempo Comum

Sta. Eufrásia do S. Coração de Jesus, Virgem de nossa Ordem
 
1ª Leitura (Jer 20,7-9):
Vós me seduzistes, Senhor, e eu deixei-me seduzir; Vós me do­minastes e vencestes. Em todo o tempo sou objeto de escárnio, toda a gente se ri de mim; porque sempre que falo é para gritar e proclamar: «Violência e ruína!». E a palavra do Senhor tornou-se para mim ocasião permanente de insultos e zombarias. Então eu disse: «Não voltarei a falar n’Ele, não falarei mais em seu nome». Mas havia no meu coração um fogo ardente, comprimido dentro dos meus ossos. Procurava contê-lo, mas não podia.
 
Salmo Responsorial: 62
R. minha alma tem sede de Vós, meu Deus.
 
A minha alma tem sede de Vós. Por Vós suspiro, como terra árida, sequiosa, sem água.
 
Quero contemplar-Vos no santuário, para ver o vosso poder e a vossa glória. A vossa graça vale mais do que a vida; por isso, os meus lábios hão de cantar-Vos louvores.
 
Assim Vos bendirei toda a minha vida e em vosso louvor levantarei as mãos. Serei saciado com saborosos manjares, e com vozes de júbilo Vos louvarei.
 
Porque Vos tornastes o meu refúgio, exulto à sombra das vossas asas. Unido a Vós estou, Senhor, a vossa mão me serve de amparo.
 
2ª Leitura (Rom 12,1-2): Peço-vos, irmãos, pela misericórdia de Deus, que vos ofereçais a vós mesmos como sacrifício vivo, santo, agradável a Deus, como culto espiritual. Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos, pela renovação espiritual da vossa mente, para saberdes discernir, segundo a vontade de Deus, o que é bom, o que Lhe é agradável, o que é perfeito.
 
Aleluia. Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, ilumine os olhos do nosso coração, para sabermos a que esperança fomos chamados. Aleluia.
 
Evangelho (Mt 16,21-27): A partir de então, Jesus começou a mostrar aos discípulos que era necessário ele ir a Jerusalém, sofrer muito da parte dos anciãos, sumos sacerdotes e escribas, ser morto e, no terceiro dia, ressuscitar. Então Pedro o chamou de lado e começou a censurá-lo: «Deus não permita tal coisa, Senhor! Que isto nunca te aconteça!» Jesus, porém, voltou-se para Pedro e disse: «Vai para trás de mim, satanás! Tu estás sendo para mim uma pedra de tropeço, pois não tens em mente as coisas de Deus, e sim, as dos homens!». Então Jesus disse aos discípulos: «Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e siga-me. Pois quem quiser salvar sua vida a perderá; e quem perder sua vida por causa de mim a encontrará. De fato, que adianta a alguém ganhar o mundo inteiro, se perde a própria vida? Ou que poderá alguém dar em troca da própria vida? Pois o Filho do Homem virá na glória do seu Pai, com os seus anjos, e então retribuirá a cada um de acordo com a sua conduta».
 
«Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e siga-me»
 
Fr. Vimal MSUSAI (Ranchi, Jharkhand, Índia)
 
Hoje, consideramos que ver Jesus e segui-Lo significa ter uma obediência madura que nos permite escutar e responder. E isso é possível apenas na pessoa que está verdadeiramente libertada dos desejos infantis do ego e das paixões: «Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e siga-me» (Mt 16,24). Ouvir e responder ao chamado de Deus em nosso dia a dia significa que possuímos a capacidade de nos esquecermos e servir aos outros. Só o amor torna possível tal risco (cf. Hb 5,8-9).
 
O sábio Buda diz que «Para viver uma vida pura e desinteressada, deve-se contar nada como seu em meio à abundância». Um exemplo concreto é a vida familiar onde os pais se dedicaram completamente e generosamente para o bem dos filhos, talvez até ao ponto de se esquecerem de si mesmos. Eles escolhem fazer isso para que seus filhos estejam bem-preparados para um futuro melhor. Assim, a família será uma e unida.
 
Temos inúmeros modelos inspiradores de professores, médicos, assistentes sociais, pessoas consagradas e santos. O Papa Francisco nos inspira a "ver" Jesus em nosso dia a dia, porque «embora a vida de uma pessoa esteja em uma terra cheia de espinhos e ervas daninhas, sempre há espaço para que a boa semente possa crescer. Você tem que confiar em Deus!»
 
Um grão de trigo só pode ser vivificante uma vez que cai no chão e morre (cf. João 12:24). Isso também é verdade em Jesus que, ao morrer, mostrará todo o seu amor ao dar sua vida. Assim, o exemplo do grão de trigo é a vida de Jesus e de todo discípulo que deseja servir, testemunhar e ter vida nele: «quem perder sua vida por causa de mim a encontrará» (Mt 16,25). Amém!
 
«Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e siga-me»
 
Rev. D. Joaquim MESEGUER García (Rubí, Barcelona, Espanha)
 
Hoje, contemplamos Pedro — figura emblemática e grande testemunho e mestre da fé— também como homem de carne e osso, com virtudes e debilidades, como cada um de nós. Devemos agradecer aos evangelistas o fato de nos terem apresentado a personalidade dos primeiros seguidores de Jesus com realismo. Pedro, que faz uma excelente confissão de fé —como vemos no Evangelho do XXI Domingo— e merece um grande elogio por parte de Jesus e a promessa da autoridade máxima dentro da Igreja (cf. Mt 16,16-19), recebe também do Mestre uma severa reprimenda, porque no caminho da fé ainda tem muito que aprender: «Vai para trás de mim, satanás! Tu estás sendo para mim uma pedra de tropeço, pois não tens em mente as coisas de Deus, e sim, as dos homens!» (Mt 16,23).
 
Ouvir a reprimenda de Jesus a Pedro é um bom motivo para fazer um exame de consciência sobre a nossa forma de ser cristão. Somos de verdade fiéis aos ensinamentos de Jesus Cristo, até ao ponto de pensarmos realmente como Deus, ou preferimos moldar-nos à forma de pensar e aos critérios deste mundo? Ao longo da história, os filhos da Igreja caímos na tentação de pensar segundo o mundo, de nos apoiarmos nas riquezas materiais, de procurarmos com afinco o poder político e o prestígio social; e por vezes movem-nos mais os interesses mundanos que o espírito do Evangelho. Perante estes fatos, volta a se apresentar-nos a pergunta: «De fato, que adianta a alguém ganhar o mundo inteiro, se perde a própria vida?» (Mt 16,26).
 
Depois de ter posto as coisas bem claras, Jesus ensinou-nos o que quer dizer pensar como Deus: amar, com tudo o que isso comporta de renúncia pelo bem do próximo. Por isso o seguir a Cristo passa pela cruz. É um segui-lo entranhável, porque «com a presença de um amigo e capitão tão bom como Cristo Jesus, que se pôs na vanguarda dos sofrimentos, tudo se pode sofrer: ajuda-nos e anima; não falha nunca, é um verdadeiro amigo» (Santa Teresa de Ávila). E…, quando a cruz é signo de amor sincero, converte-se em luminosa e signo de salvação.
 
Pensamentos para o Evangelho de hoje
«Aquele que não se nega a si próprio não pode aproximar-se d'Aquele que está acima dele. Mas, se nos abandonarmos a nós próprios, onde iremos para lá do nosso ser?» (S. Gregório Magno)
 
«Não se trata de uma cruz ornamental, nem de uma cruz ideológica, mas da cruz da vida, da cruz do próprio dever, da cruz do sacrifício pelo próximo com amor. Quando assumimos esta atitude, estas cruzes, perdemos sempre algo. Trata-se de um perder para ganhar» (Francisco)
 
«Pela sua obediência amorosa ao Pai, `até a morte de cruz´ (Flp 2, 8), Jesus cumpriu a missão expiatória do Servo sofredor, que justifica as multidões, tomando sobre Si o peso das suas faltas´ (Is 53,11)» (Catecismo da Igreja Católica, nº 623)
 
“Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me.”
 
Fr. Pedro Bravo, O.Carm.
 
* A passagem de hoje, inserida na secção narrativa (13,53-17,27) da quarta parte do Evangelho de Mateus: “A Igreja, primícias do Reino dos céus” (13,53-18,35), vem na sequência da confissão de fé de Pedro (16,13-20). Logo a seguir a ela, Jesus mostra aos seus discípulos quais são as consequências, para Ele, de ser o Messias; e para eles, de o confessarem como tal.
 
* O texto divide-se em duas partes: Jesus anuncia-lhes a Sua paixão, morte e ressurreição (vv. 21ss); e apresenta-lhes as exigências do discipulado (vv. 24-27).
 
* v. 21. Desde então Jesus começou a fazer ver aos seus discípulos que era necessário Ele ir a Jerusalém; e sofrer muito da parte dos anciãos, dos chefes dos sacerdotes e dos escribas; e ser morto; e ao terceiro dia ser ressuscitado. O texto começa com o primeiro dos três anúncios da paixão (17,12.22sp; 20,18sp). Depois de ter sido levantado o primeiro véu de Jesus, o da sua real identidade como Messias e Filho de Deus, Ele passa a apresentar a sua missão.
 
“Desde então” inicia-se uma nova etapa da vida e missão de Jesus, na qual Ele se dedica mais à formação dos seus discípulos.
 
* Apesar de ser o Messias e o Filho de Deus, Jesus opta pela via da humildade e da obediência. Ele começa por mostrar aos seus discípulos que, segundo a vontade do Pai “é necessário” (gr. deĩ), em conformidade com o desígnio eterno de Deus, expresso nas Escrituras, que a instauração do Reino passe:
1) pela Sua rejeição “em Jerusalém” (Dn 9,25s; Lc 9,53; 13,33; At 13,27);
2) esta rejeição será perpetrada por parte de todas as autoridades do seu povo: os chefes políticos (“anciãos”), os chefes religiosos (“chefes dos sacerdotes”) e a elite intelectual (“escribas”);
3) estes fá-lo-ão sofrer muito (em quantidade, qualidade e tipos de sofrimento: Sl 22; 69; Is 53; Zc 13,7; At 3,18);
4) hão de condená-lo à morte (Is 53,8; Dn 9,26; Zc 12,10);
5) mas ao “terceiro dia será ressuscitado” (por Deus, passivo divino: 12,40; Jo 2,19; Gn 3,11ss; Os 6,2).
Estes cinco elementos são os pontos fundamentais do querigma cristão (1Cor 15,3s; At 10,39-42; 17,2s), o núcleo central do credo (Rm 10,9), a chave de leitura da Sagrada Escritura (Lc 24,25s.46s).
 
* v. 22. Pedro, tomando-o à parte, começou a increpá-lo, dizendo: «Deus Te livre, Senhor! Isso nunca te há de acontecer!». Pedro rejeita tal destino e opõe-se a Jesus. Tomando-o a sós (18,15), “increpa-o”, repreendendo-o severamente (gr. epitimáo: 12,16; o verbo usado também nos exorcismos, aquando a expulsão das forças do mal: 8,26; 17,18), e procura afastar dele tão nefastos pensamentos que, a seu ver, nada têm a ver com o Messias, o qual haveria de triunfar sempre sobre os seus inimigos, sendo o seu reino eterno (Sl 110; Dn 7,14), nunca havendo ele, portanto, de morrer (cf. Jo 12,34; Hen 49,2; 62,14), pelo menos segundo a opinião dos rabinos do seu tempo, do séc. I (opinião esta última que mais tarde acabaria por ser deixada).
 
* Tendo tudo isto presente e imbuído dos mais piedosos sentimentos, Pedro procura chamar Jesus à razão, argumentando com a própria misericórdia divina, como literalmente diz: “[Deus tenha] misericórdia de ti” (Is 54,10; cf. 2Sm 20,20; 27,17; 1Cr 11,19). Para ele (tal como para os seus companheiros, de quem é o porta-voz) a vitória de Jesus é certa e ela nunca poderá passar pelo seu próprio fracasso e morte. Mas ao opor-se a que isso aconteça, Pedro está também a tentar impedir que Jesus possa vir a triunfar definitivamente sobre Satanás e sobre a morte e que, através da sua morte e mediante a sua ressurreição venha a surgir a nova criação.
 
* v. 23. Mas Ele, voltando-se, disse a Pedro: «Vai-te para trás de mim, Satanás. És para mim ocasião de escândalo, porque não tens em mente as coisas de Deus, mas dos homens». A reação de Jesus é pronta, imediata e enérgica. Ele replica a Pedro, increpando-o também, com dureza, diante de todos, pois é preciso que os discípulos corrijam a perspetiva que têm dele e da missão que o Pai lhe confiou. O plano de Deus não passa por esquemas de glória, domínio e triunfo humanos (4,6.8), mas pelo dom da própria vida por amor até às últimas consequências (do qual a morte na cruz será a suprema expressão).
 
Ao pôr-se na dianteira, Pedro atravessa-se no caminho de Jesus para ser ele a apontar-lhe o rumo, afastando-o do desígnio do Pai. Retoma assim as tentações de Satanás no início da missão de Jesus (4,3-10). Jesus chama-o, pois, “Satanás” (he. “adversário”: 1Rs 11,14 LXX), avisando-o que está a ser para Ele escândalo (18,7; cf. 1Cor 1,23), literalmente “pedra de tropeço” (Lv 19,14), pois, tentando desviá-lo da vontade do Pai, o quer impedir de alcançar a vitória (Jdt 5,20) sobre a morte.
 
Mas, logo depois de ter repetido o que dissera a Satanás (“Vai-te”: 4,10), renova o chamamento ao discipulado, que no início tinha feito a Pedro, dizendo-lhe: “vai” para trás de mim, para de novo vires “após mim” (v. 24; 4,19) como meu discípulo, que escuta a minha palavra, para assim assimilar a minha forma de pensar e Me imitar. Para tal, Pedro tem de criar espaço em si e rejeitar o seu modo de pensar meramente humano, carnal (1Cor 3,3; Tg 3,15; Rm 12,2; Ef 4,23s).
 
* v. 24. Jesus disse então aos seus discípulos: «Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Em seguida, Jesus mostra que a fé nele não se reduz a palavras (5,19; 7,24), mas traduz-se em obras que comprometem a própria vida. A fé nele passa por O imitar, seguir o Seu mesmo caminho de rejeição e de sofrimento e estar disposto a, como Ele, dar a própria vida. Este é um apelo que nenhum rabino podia fazer, mas apenas Deus. Jesus tradu-lo em quatro pontos: “ir atrás dele”, “renunciar a si mesmo”, “tomar a cruz” e “segui-lo”.
 
* “Se alguém quer”: Jesus não se refere à cruz que dalgum modo está presente na vida de todos, mas interpela a liberdade de cada um, pois ser discípulo dele implica a fé nele e requer o amor, como entrega pessoal e dádiva total.
 
* “Vir atrás” (v. 23) era a atitude do discípulo que seguia atrás do mestre, a uns 9 m de distância com os outros discípulos. Significa caminhar com Jesus e os irmãos em dinâmica pascal, seguindo-o na sua entrega pessoal e no dom da própria vida por amor. Este é o sinal do verdadeiro discípulo, a marca do verdadeiro amor, que vai até ao fim: tanto mais o fará quanto mais o amar (cf. Jr 20,9; Jo 15,13).
 
* Como se concretiza isso? Jesus explicita-o num tríplice movimento.
- Primeiro há que “RENUNCIAR A SI MESMO”, ao seu egoísmo, autossuficiência, projetos, comodidades, posses, gostos, seguranças e maneiras de ver pessoais. O cristão não vive fechado em si mesmo, agarrado à sua própria imagem, estilo e personalidade, na busca do bem-estar, do êxito e da realização pessoal, mas esquece-se de si mesmo e faz da sua vida um dom de amor a Deus e aos outros, a quem põe em primeiro lugar.
 
- Depois há que “TOMAR A CRUZ” (10,38)? A cruz é expressão dum amor total, radical, que se dá até à morte. “Tomar a cruz” significa dar a vida por amor, apesar e também no meio das críticas, da rejeição dos outros, das dificuldades, dos fracassos e incompreensões, do desânimo e falta de correspondência; das enfermidades, sofrimentos, contratempos, e erros; dos compromissos e obrigações comunitárias; dos ritmos e estilos dos outros, das quedas e limitações pessoais.
 
- Por último, há que “SEGUIR A JESUS”. "Seguir Jesus" (gr. akoloutheo, "seguir"/"vir atrás de" alguém "escutando") significa caminhar com Ele, certo de que Ele está consigo, pondo-o em primeiro lugar, tendo-o como referência fundamental, “caminho, verdade e vida” (Jo 14,6), para seguir os Seus passos, imitar os seus gestos e reproduzir as suas obras, estando sempre atento à Sua voz, para fazer a Sua vontade, obedecendo à Sua Palavra.
 
* v. 25. Pois aquele que quiser salvar a sua vida, há de perdê-la; mas aquele que perder a sua vida por causa de mim, há de encontrá-la. No final, Jesus explica as razões pelas quais vale a pena fazê-lo. Em primeiro lugar, promete e diz que quem der a sua vida por amor não a vai perder, mas ganhá-la.
 
* v. 26. Com efeito, que aproveitará a um homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua alma? Ou que poderá dar um homem em troca da sua vida? Em seguida, recorda aos discípulos que a vida neste mundo não é a definitiva. Por isso, não devem preocupar-se em preservá-la a qualquer custo: há antes que procurar, já nesta terra, a vida verdadeira, definitiva, a vida eterna, que Ele é e que só tem quem O segue.
 
* v. 27. Porque o Filho do homem há de vir na glória de seu Pai, com os seus anjos, e então retribuirá a cada um segundo as suas obras». Em terceiro lugar, ensina os discípulos a viver na esperança do encontro final com Ele e com o Pai. Declara que é “o Filho do Homem” (Dn 7,13) que “vem” (gr. erkhestai: 3,11; 21,5.9.39; 24,42) nos acontecimentos da história (26,64) e na pessoa dos necessitados (25,40), e que “há-de vir (gr. mellei) na glória” (24,30p; 25,31) “de Seu Pai” (cf. 5,16; Jo 8,54; 17,5; Fl 2,11) “com os seus anjos” (24,31; 2Ts 1,7) para “retribuir a cada um segundo as suas obras” (Sl 62,13; Pv 24,12; Sir 35,22; Rm 2,6; 2Cor 5,10; Ap 20,12; 22,12).
 
MEDITAÇÃO
1. Esforço-me por descobrir a vontade de Deus a meu respeito em casa, no trabalho, no seio da comunidade crente?
2. As minhas opções e escolhas pessoais são motivadas por Jesus Cristo?
3. Como reajo perante as dificuldades: procuro ver e escutar a Cristo?
4. “Quem perde a vida, ganha-a”. Qual é a minha experiência neste ponto?