terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Quinta-feira da 1ª semana do Tempo Comum

Santo Amaro (Mauro), abade.
 
1ª Leitura (1Sam 4,1-11):
Naqueles dias, os filisteus reuniram-se para fazer guerra a Israel e os israelitas saíram ao seu encontro para o combate. Acamparam perto de Eben-Ezer, enquanto os filisteus tinham acampado em Afec. Os filisteus colocaram-se em ordem de batalha contra Israel e, no terrível combate, Israel foi derrotado pelos filisteus, que, em campo aberto, lhe mataram cerca de quatro mil homens. O povo voltou para o acampamento e os anciãos de Israel disseram: «Porque é que o Senhor deixou que fôssemos hoje vencidos pelos filisteus? Vamos buscar a Silo a arca da aliança do Senhor: que ela esteja no meio de nós e nos salve das mãos dos nossos inimigos». Então o povo mandou buscar a Silo a arca da aliança do Senhor do Universo, que tem o seu trono sobre os querubins. Os dois filhos de Heli, Hofni e Fineias, acompanhavam a arca da aliança de Deus. Quando a arca do Senhor entrou no acampamento, todos os israelitas soltaram um grande clamor, que ressoou por toda a terra. Os filisteus ouviram o eco daquele alarido e disseram: «Que significa este grande clamor no campo dos hebreus?». Então souberam que a arca do Senhor tinha chegado ao acampamento e diziam atemorizados: «Deus veio para o acampamento. Ai de nós! Nunca tal coisa tinha sucedido até agora! Ai de nós! Quem nos livrará das mãos desse Deus tão poderoso? Foi Ele que feriu o Egipto com toda a espécie de pragas no deserto. Tende coragem, filisteus, e sede valorosos, para não ficardes escravos dos hebreus, como eles têm sido vossos escravos. Sede valorosos e combatei». Os filisteus começaram o combate: os israelitas foram vencidos e fugiu cada um para a sua tenda. A derrota foi grande e da infantaria de Israel caíram trinta mil homens. A arca de Deus foi capturada e morreram os dois filhos de Heli, Hofni e Fineias.

 
Salmo Responsorial: 43
R. Pela vossa misericórdia, salvai-nos, Senhor.

 
Agora, Senhor, nos rejeitais e confundis e já não saís à frente dos nossos exércitos. Obrigais-nos a fugir diante dos nossos adversários e os nossos inimigos podem saquear à vontade.
 
Fazeis de nós o opróbrio dos nossos vizinhos, a irrisão e o desprezo dos povos que nos cercam. Fazeis de nós ocasião de escárnio para os pagãos e motivo para os povos zombarem de nós.
 
Despertai, Senhor. Porque dormis? Levantai-Vos. Não nos rejeiteis para sempre. Porque escondeis a vossa face? Esqueceis Vós a nossa miséria e tribulação?
 
Aleluia. Jesus pregava o Evangelho do reino e curava todas as enfermidades entre o povo. Aleluia.
 
Evangelho (Mc 1,40-45): Um leproso aproximou-se de Jesus e, de joelhos, suplicava-lhe: «Se queres, tens o poder de purificar-me!». Jesus encheu-se de compaixão, e estendendo a mão sobre ele, o tocou, dizendo: «Eu quero, fica purificado». Imediatamente a lepra desapareceu, e ele ficou purificado. Jesus, com severidade, despediu-o e recomendou-lhe: «Não contes nada a ninguém! Mas vai mostrar-te ao sacerdote e apresenta, por tua purificação, a oferenda prescrita por Moisés. Isso lhes servirá de testemunho”. Ele, porém, assim que partiu, começou a proclamar e a divulgar muito este acontecimento, de modo que Jesus já não podia entrar, publicamente, na cidade. Ele ficava fora, em lugares desertos, mas de toda parte vinham a ele».
 
«‘Se queres, tens o poder de purificar-me’(...)‘Eu quero, fica purificado’!»
 
Rev. D. Xavier PAGÉS i Castañer (Barcelona, Espanha)
 
Hoje, durante o nosso tempo diário de oração desejamos e pedimos para ouvirmos a voz do Senhor. «Hoje se ouvirdes a sua voz, não endureçais os vossos corações!» (Heb 3,7-8). Esta breve citação contém duas coisas: um desejo e uma advertência. Ambas convêm nunca esquecer.
 
Mas, provavelmente, com demasiada frequência preocupamo-nos em preencher esse tempo com as palavras que Lhe queremos dizer e não deixamos tempo para ouvir o que Deus nos quer comunicar. Velemos pois para cuidarmos o silêncio interior que —evitando distrações e concentrando a nossa atenção—abre um espaço para acolhermos os afetos, inspirações… que o Senhor, certamente, quer suscitar nos nossos corações.
 
Um risco que não podemos esquecer, é o perigo de que o nosso coração —com o tempo —se vá endurecendo. Por vezes, os golpes da vida podem-nos converter, mesmo sem nos darmos conta, numa pessoa mais desconfiada, insensível, pessimista, sem esperança… Devemos pedir ao Senhor que nos torne conscientes desta possível deterioração interior. A oração é uma ótima ocasião para dar uma olhadela serena à nossa vida e a todas as circunstâncias que a rodeiam. Devemos ler os diversos acontecimentos à luz dos Evangelhos, para descobrirmos que aspectos necessitam uma verdadeira conversão.
 
Tomara que peçamos a nossa conversão com a mesma fé e confiança com que o leproso se apresentou a Jesus!: «De joelhos, suplicava-lhe: “Se queres, tens o poder de purificar-me”!». (Mc 1,40). Ele é o único que pode tornar possível aquilo que por nós próprios resultaria impossível. Desejamos que Deus atue com a sua graça em nós, para que o nosso coração seja purificado e, dócil no seu agir, seja cada dia mais um coração à imagem e semelhança do coração de Jesus. Ele, com confiança, diz-nos: «‘Eu quero, fica purificado’» (Mc 1,41).
 
Pensamentos para o Evangelho de hoje
«Jesus, sobretudo com seu estilo de vida e com suas ações, há demostrado como no mundo em que moramos está presente o amor. Este amor [misericordioso de Deus] se faz notar particularmente no contato com o sofrimento, a injustiça, a pobreza» (São Joao Paulo II)
 
«Vivemos neste mundo no que Deus não tem a evidência do palpável. Só se pode lhe encontrar com o impulso do coração e reconhecer que não só vivemos de “pão”, se não ante tudo da obediência à Palavra de Deus» (Bento XVI)
 
«Os homens, cooperadores muitas vezes inconscientes da vontade divina, podem entrar deliberadamente no plano divino, por suas ações por suas orações e também por seus sofrimentos (cf. Col 1,24). Tornam-se então plenamente “cooperadores de Deus” (1Cor 3,9) e do seu Reino» (Catecismo da Igreja Católica, n°307)
 
Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm.
 
* Acolhendo e curando o leproso Jesus revela um novo rosto de Deus.
Um leproso chegou perto de Jesus. Era um excluído, impuro. Devia viver afastado. Quem tocasse nele ficava impuro também! Mas aquele leproso teve muita coragem. Transgrediu as normas da religião para poder chegar perto de Jesus. Ele grita: Se queres, podes curar-me! Ou seja: “Não precisa tocar-me! Basta você querer para eu ficar curado!” A frase revela duas doenças: 1) a doença da lepra que o tornava impuro; 2) a doença da solidão a que era condenado pela sociedade e pela religião. Revela também a grande fé do homem no poder de Jesus. Profundamente compadecido, Jesus cura as duas doenças. Primeiro, para curar a solidão, toca no leproso. É como se dissesse: “Para mim, você não é um excluído. Eu te acolho como irmão!” Em seguida, cura a lepra dizendo: Quero! Seja curado!  O leproso, para poder entrar em contato com Jesus, tinha transgredido as normas da lei. Da mesma forma, Jesus, para poder ajudar aquele excluído e, assim, revelar um rosto novo de Deus, transgrede as normas da sua religião e toca no leproso. Naquele tempo, quem tocasse num leproso tornava-se um impuro perante as autoridades religiosas e perante a lei da época.
 
* Reintegrar os excluídos na convivência fraterna. Jesus não só cura, mas também quer que a pessoa curada possa conviver novamente. Reintegra a pessoa na convivência. Naquele tempo, para um leproso ser novamente acolhido na comunidade, ele precisava ter um atestado de cura assinado por um sacerdote. É como hoje. O doente só sai do hospital com o documento assinado pelo médico. Jesus obrigou o leproso a buscar o documento, para que ele pudesse conviver normalmente. Obrigou as autoridades a reconhecer que o homem tinha sido curado.
 
* O leproso anuncia o bem que Jesus fez a ele, e Jesus se torna um excluído. Jesus tinha proibido o leproso de falar sobre a cura. Mas não adiantou. O leproso, assim que partiu, começou a divulgar a notícia, de modo que Jesus já não podia entrar publicamente numa cidade. Permanecia fora, em lugares desertos. Por que? É que Jesus tinha tocado no leproso. Por isso, na opinião pública daquele tempo, Jesus, ele mesmo, era agora um impuro e devia viver afastado de todos. Já não podia entrar nas cidades. Mas Marcos mostra que o povo pouco se importava com estas normas oficiais, pois de toda a parte vinham a ele! Subversão total!
 
* Resumindo. Tanto nos anos 70, época em que Marcos escreve, como hoje, época em que nós vivemos, era e continua sendo importante ter diante de nós modelos de como viver e anunciar a Boa Nova de Deus e de como avaliar a nossa missão. Nos versículos 16 a 45 do primeiro capítulo do seu evangelho, Marcos descreve a missão da comunidade e apresenta oito critérios para as comunidades do seu tempo poderem avaliar a sua missão. Eis o esquema:
 

TEXTO

ATIVIDADE  DE  JESUS

OBJETIVO  DA  MISSÃO

Marcos 1,16-20

Jesus chama os primeiros discípulos

formar comunidade

Marcos 1,21-22

o povo fica admirado com o ensino

criar consciência crítica

Marcos 1,23-28

Jesus expulsa um demônio

combater o poder do mal

Marcos 1,29-31

a cura da sogra de Pedro

restaurar a vida para o serviço

Marcos 1,32-34

a cura de doentes e endemoninhados

acolher os marginalizados

Marcos 1,35

Jesus se levanta cedo para rezar

ficar unido ao Pai

Marcos 1,36-39

Jesus segue em frente no anúncio

não se fechar nos resultados

Marcos 1,40-45

a cura um leproso

reintegrar os excluídos

 
Para um confronto pessoal
1)   Anunciar a Boa Nova é dar testemunho da experiência concreta que se tem de Jesus. O leproso, o que ele anuncia? Ele conta aos outros o bem que Jesus lhe fez. Só isso! Tudo isso! E é este testemunho que leva os outros a aceitar a Boa Nova de Deus que Jesus nos trouxe. Qual o testemunho que você dá?  
2)   Para levar a Boa Nova de Deus ao povo, não se deve ter medo de transgredir normas religiosas que são contrárias ao projeto de Deus e que dificultam a comunicação, o diálogo e a vivência do amor. Mesmo que isto traga dificuldades para a gente, como trouxe para Jesus. Já tive esta coragem?

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Quarta-feira da 1ª semana do Tempo Comum

 

1ª Leitura (1Sam 3,1-10.19-20):
Naqueles dias, o jovem Samuel servia o Senhor sob a direção do sumo sacerdote Heli. Nesse tempo, a palavra do Senhor fazia-se ouvir raras vezes e as visões não eram frequentes. Certo dia, Heli estava deitado nos seus aposentos; os seus olhos tinham enfraquecido e mal podia ver. A lâmpada de Deus ainda não se tinha apagado e Samuel dormia no templo do Senhor, no lugar onde se encontrava a arca de Deus. O Senhor chamou Samuel e ele respondeu: «Aqui estou». E, correndo para junto de Heli, disse: «Aqui estou, porque me chamaste». Mas Heli respondeu: «Eu não te chamei; torna a deitar-te». E ele foi deitar-se. O Senhor voltou a chamar Samuel. Samuel levantou-se, foi ter com Heli e disse: «Aqui estou, porque me chamaste». Heli respondeu: «Não te chamei, meu filho; torna a deitar-te». Samuel ainda não conhecia o Senhor, porque, até então, nunca se lhe tinha manifestado a palavra do Senhor. O Senhor chamou Samuel pela terceira vez. Ele levantou-se, foi ter com Heli e disse: «Aqui estou, porque me chamaste». Então Heli compreendeu que era o Senhor que chamava pelo jovem. Disse Heli a Samuel: «Vai deitar-te; e se te chamarem outra vez, responde: ‘Falai, Senhor, que o vosso servo escuta’». Samuel voltou para o seu lugar e deitou-se. O Senhor veio, aproximou-Se e chamou como das outras vezes: «Samuel, Samuel!». E Samuel respondeu: «Falai, Senhor, que o vosso servo escuta». Samuel foi crescendo; o Senhor estava com ele e nenhuma das suas palavras deixou de cumprir-se. E todo o Israel, de Dan até Bersabeia, reconheceu que Samuel era realmente um profeta do Senhor.
 
Salmo Responsorial: 39
R. Eu venho, Senhor, para fazer a vossa vontade.
 
Esperei no Senhor com toda a confiança e Ele atendeu-me. Feliz de quem pôs a sua confiança no Senhor e não se voltou para os arrogantes, para os que seguem a mentira.
 
Não Vos agradaram sacrifícios nem oblações, mas abristes-me os ouvidos; não pedistes holocaustos nem expiações, então clamei: «Aqui estou».
 
«De mim está escrito no livro da Lei que faça a vossa vontade. Assim o quero, ó meu Deus, a vossa lei está no meu coração».
 
«Proclamei a justiça na grande assembleia, não fechei os meus lábios, Senhor, bem o sabeis. Não escondi a justiça no fundo do coração, proclamei a vossa bondade e fidelidade».
 
Aleluia. As minhas ovelhas escutam a minha voz, diz o Senhor. Eu conheço as minhas ovelhas e elas seguem-Me. Aleluia.
 
Evangelho (Mc 1,29-39): Logo que saíram da sinagoga, foram com Tiago e João para a casa de Simão e André. A sogra de Simão estava de cama, com febre, e logo falaram dela a Jesus. Ele aproximou-se e, tomando-a pela mão, levantou-a; a febre a deixou, e ela se pôs a servi-los. Ao anoitecer, depois do pôr do sol, levavam a Jesus todos os doentes e os que tinham demônios. A cidade inteira se ajuntou à porta da casa. Ele curou muitos que sofriam de diversas enfermidades; expulsou também muitos demônios, e não lhes permitia falar, porque sabiam quem ele era. De madrugada, quando ainda estava bem escuro, Jesus se levantou e saiu rumo a um lugar deserto. Lá, ele orava. Simão e os que estavam com ele se puseram a procurá-lo. E quando o encontraram, disseram-lhe: «Todos te procuram». Jesus respondeu: «Vamos a outros lugares, nas aldeias da redondeza, a fim de que, lá também, eu proclame a Boa Nova. Pois foi para isso que eu saí”. E foi proclamando nas sinagogas por toda a Galileia, e expulsava os demônios.
 
«De madrugada, quando ainda estava bem escuro, Jesus se levantou e saiu rumo a um lugar deserto. Lá, ele orava. »
 
Frei Josep Mª MASSANA i Mola OFM (Barcelona, Espanha)
 
Hoje vemos claramente como Jesus dividia a jornada. Por um lado, dedicava-se à oração e, por outro, à missão de predicar com palavras e com obras. Contemplação e ação. Oração e trabalho. Estar com Deus e estar com os homens.
 
De fato, vemos Jesus entregado em Corpo e alma em sua tarefa de Messias e Salvador: cura aos doentes, como à sogra de São Pedro e muitos outros, consola os que estão tristes, expulsa demônios, predica. Todos levam-lhe seus doentes e endemoniados. Todos querem escutá-lo: «Todos te procuram» (Mc 1,37),dizem os discípulos. Seguro que tinha uma atividade frequentemente cansativa, que quase não lhe deixava nem respirar.
 
Mas, Jesus procurava também tempo de solidão para se dedicar à oração: «De madrugada, quando ainda estava bem escuro, Jesus se levantou e saiu rumo a um lugar deserto. Lá, ele orava» (Mc 1,35). Em outras partes dos Evangelhos vemos Jesus dedicado à oração em outras horas e, inclusive a altas horas da noite. Sabia distribuir o tempo sabiamente, para que sua jornada tivesse um equilíbrio razoável de trabalho e oração
 
Nós dizemos frequentemente: Não tenho tempo! Estamos ocupados com o trabalho do lar, com o trabalho profissional e, com as inumeráveis tarefas que enchem nossa agenda. Com frequência cremo-nos dispensados da oração diária. Fazemos muitas coisas importantes, isso sim, mas corremos o risco de esquecer a mais necessária: a oração. Devemos criar um equilíbrio para fazer umas sem desatender as outras.
 
São Francisco o propõe assim: «Há que trabalhar fielmente e com dedicação, sem apagar o espírito da santa oração e devoção, para o que hão de servir as outras coisas temporais».
 
Deveríamos nos organizar um pouco mais. Disciplinar-nos, “domesticando” o tempo. O que é importante há de caber. Ainda mais o que é necessário.
 
Pensamentos para o Evangelho de hoje
«Procurai reunir-vos mais vezes para celebrardes em ação de graças e os louvores divinos. Quando vos reunis com frequência, num mesmo lugar, debilita-se o poder de Satanás e a unidade da vossa fé impede-o de vos causar qualquer tipo de mal» (Santo Ignácio de Antioquia)
 
«O “amor formoso” aprende-se, sobretudo, rezando. A oração leva sempre consigo uma espécie de esconderijo com Cristo, em Deus. Apenas num esconderijo destes o Espírito Santo pode atuar, ele que é fonte do “amor formoso”» (São João Paulo II)
 
«Não se faz contemplação [oração] quando se tem tempo; ao invés, arranja-se tempo para estar com o Senhor, com a firme determinação de não Lho retirar durante o caminho, sejam quais forem as provações e a aridez do encontro» (Catecismo da Igreja Católica, nº 2.710)
 
Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm.
 
* Jesus restaura a vida para o serviço.
Depois de participar da celebração do sábado na sinagoga, Jesus entrou na casa de Pedro e curou a sogra dele. A cura fez com ela se colocasse de pé e, com a saúde e a dignidade recuperadas, começasse a servir as pessoas. Jesus não só cura a pessoa, mas cura para que a pessoa se coloque a serviço da vida.
 
* Jesus acolhe os marginalizados. Ao cair da tarde, terminado o sábado na hora do aparecimento da primeira estrela no céu, Jesus acolhe e cura os doentes e os possessos que o povo tinha trazido. Os doentes e possessos eram as pessoas mais marginalizadas naquela época. Elas não tinham a quem recorrer. Ficavam entregues à caridade pública. Além disso, a religião as considerava impuras. Elas não podiam participar na comunidade. Era como se Deus as rejeitasse e as excluísse. Jesus as acolhe. Assim, aparece em que consiste a Boa Nova de Deus e o que ela quer atingir na vida da gente: acolher os marginalizados e os excluídos, e reintegrá-los na convivência da comunidade.
 
* Permanecer unido ao Pai pela oração. Jesus aparece rezando. Ele faz um esforço muito grande para ter o tempo e o ambiente apropriado para rezar. Levantou mais cedo que os outros e foi para um lugar deserto, para poder estar a sós com Deus. Muitas vezes, os evangelhos nos falam da oração de Jesus no silêncio (Mt 14,22-23; Mc 1,35; Lc 5,15-16; 3,21-22). É através da oração que ele mantém viva em si a consciência da sua missão.
 
* Manter viva a consciência da missão e não se fechar no resultado já obtido. Jesus se tornou conhecido. Todos iam atrás dele. Esta publicidade agradou aos discípulos. Eles vão em busca de Jesus para levá-lo de volta junto do povo que o procurava, e lhe dizem: Todos te procuram. Pensavam que Jesus fosse atender ao convite. Engano deles! Jesus não atendeu e disse: Vamos para outros lugares. Foi para isto que eu vim!  Eles devem ter estranhado! Jesus não era como eles o imaginavam. Jesus tem uma consciência muito clara da sua missão e quer transmiti-la aos discípulos. Não quer que eles se fechem no resultado já obtido. Não devem olhar para trás. Como Jesus, devem manter bem viva a consciência da sua missão. É a missão recebida do Pai que deve orientá-los na tomada das decisões.
 
* Foi para isto que eu vim! Este foi o primeiro mal-entendido entre Jesus e os discípulos. Por ora, é apenas uma pequena divergência. Mais adiante no evangelho de Marcos, este mal-entendido, apesar das muitas advertências de Jesus, vai crescer e chegar a uma quase ruptura entre Jesus e os discípulos (cf. Mc 8,14-21.32-33; 9,32;14,27). Hoje também existem mal-entendidos sobre o rumo do anúncio da Boa Nova. Marcos ajuda a prestar atenção nas divergências, para não permitir que elas cresçam até à ruptura
 
Para um confronto pessoal
1) Jesus não veio para ser servido mas para servir. A sogra de Pedro começou a servir. E eu, faço da minha vida um serviço a Deus e aos irmãos e às irmãs?    
2) Jesus mantinha a consciência da sua missão através da oração. E a minha oração?

domingo, 11 de janeiro de 2026

Terça-feira da 1ª semana do Tempo Comum

 Sto. Hilário de Poitiers, bispo e doutor da Igreja
 
1ª Leitura (1Sam 1,9-20):
Naqueles dias, depois de ter comido em Silo, Ana levantou-se e apresentou-se diante do Senhor. O sacerdote Heli estava sentado em sua cadeira, à entrada do templo do Senhor. Com a alma cheia de amargura, Ana orou ao Senhor, derramando muitas lágrimas, e fez o seguinte voto: «Senhor do Universo! Se Vos dignardes olhar para a humilhação da vossa serva, se Vos lembrardes de mim e não esquecerdes esta vossa serva, se lhe derdes um filho varão, eu o consagrarei ao Senhor por toda a vida e a navalha não passará pela sua cabeça». Enquanto ela continuava a rezar diante do Senhor, Heli observou os movimentos dos seus lábios: Ana falava em seu coração; só mexia os lábios, mas não se ouvia a sua voz. Por isso Heli pensou que estivesse embriagada e perguntou-lhe: «Até quando estarás embriagada? Livra-te desse vinho». Ana respondeu: «Não, meu senhor; sou apenas uma infeliz. Não bebi vinho nem outra bebida que embriague; estava apenas a desabafar diante do Senhor. Não tomes a tua serva por uma vadia, porque o excesso da minha dor e da minha aflição é que me fez falar até agora». Então Heli disse-lhe: «Vai em paz e o Deus de Israel te conceda o que Lhe pediste». Ana respondeu: «Queira Deus que a tua serva encontre sempre em ti acolhimento favorável». A mulher foi-se embora, comeu e já tinha outro semblante. No outro dia, levantaram-se de manhã cedo e, depois de se terem prostrado diante do Senhor, voltaram para sua casa, em Ramá. Elcana uniu-se a sua mulher, Ana, e o Senhor lembrou-Se dela. Ana concebeu e, decorrido o tempo, deu à luz um filho, a quem deu o nome de Samuel, dizendo: «Eu o pedi ao Senhor».
 
Salmo Responsorial: 1Sam
R. O meu coração exulta no Senhor, meu Salvador.
 
Exulta o meu coração no Senhor, no meu Deus se eleva a minha fronte. Abre-se a minha boca contra os inimigos, porque me alegro com a vossa salvação.
 
A arma dos fortes foi destruída e os fracos foram revestidos de força. Os que viviam na abundância andam em busca de pão e os que tinham fome foram saciados.
 
A mulher estéril deu à luz muitos filhos e a mãe fecunda deixou de conceber. É o Senhor quem dá a morte e dá a vida, faz-nos descer ao túmulo e de novo nos levanta. É o Senhor quem despoja e enriquece, é o Senhor quem humilha e exalta.
 
Levanta do chão os que vivem prostrados, retira da miséria os indigentes; fá-los sentar-se entre os príncipes e destina-lhes um lugar de honra.
 
Aleluia. Escutai o que diz o Senhor, não como palavra dos homens, mas como palavra de Deus. Aleluia.
 
Evangelho (Mc 1,21-28): Entraram em Cafarnaum. No sábado, Jesus foi à sinagoga e pôs-se a ensinar. Todos ficaram admirados com seu ensinamento, pois ele os ensinava como quem tem autoridade, não como os escribas. Entre eles na sinagoga estava um homem com um espírito impuro; ele gritava: «Que queres de nós, Jesus Nazareno? Vieste para nos destruir? Eu sei quem tu és: o Santo de Deus!». Jesus o repreendeu: «Cala-te, sai dele!». O espírito impuro sacudiu o homem com violência, deu um forte grito e saiu. Todos ficaram admirados e perguntavam uns aos outros: «Que é isto? Um ensinamento novo, e com autoridade: ele dá ordens até aos espíritos impuros, e eles lhe obedecem!». E sua fama se espalhou rapidamente por toda a região da Galileia.
 
«Todos ficaram admirados com seu ensinamento, pois ele os ensinava como quem tem autoridade, não como os escribas»
 
Rev. D. Antoni ORIOL i Tataret (Vic, Barcelona, Espanha)
 
Hoje, primeira terça-feira do tempo comum, São Marcos apresenta-nos Jesus ensinando na sinagoga e, ato seguido, comenta: «Todos ficaram admirados com seu ensinamento, pois ele os ensinava como quem tem autoridade, não como os escribas» (Mc 1,22). Essa observação inicial é impressionante. De fato, a razão dessa admiração dos ouvintes, por um lado, não é a doutrina, senão o mestre; não aquilo que se explica, senão Aquele que o explica; e, por outro lado, não é já o predicador visto globalmente, senão remarcado especificamente. Jesus ensinava «com autoridade», quer dizer, com poder legítimo e irrecusável. Essa particularidade fica ulteriormente confirmada por meio de uma nítida contraposição: «Não como os escribas».
 
Mas, num segundo momento, a cena da cura do homem possuído por um espírito maligno incorpora à motivação admirativa pessoal o dado doutrinal: «Que é isto? Um ensinamento novo, e com autoridade» (Mc 1,27). Porém, notemos que o qualificativo não é tanto de conteúdo quanto de singularidade: a doutrina é «nova». Está é outra razão de contraste: Jesus comunica algo inaudito (nunca como aqui este qualificativo tem sentido).
 
Acrescentamos uma terceira advertência. A autoridade provém, também, do fato que a Jesus «até os espíritos imundos lhe obedecem». Estamos diante uma contraposição tão intensa quanto as duas anteriores. À autoridade do Mestre e à novidade da doutrina há que somar a força contra os espíritos do mal.
 
Irmãos! Pela fé sabemos que esta liturgia da palavra nos faz contemporâneos do que acabamos de escutar e que estamos comentando. Perguntemo-nos com humilde agradecimento: Tenho consciência de que nenhum outro homem tenha jamais falado como Jesus, a Palavra de Deus Pai? Me sinto rico de uma mensagem que não tem comparação? Dou-me conta da força libertadora que Jesus e seu ensino tem na vida humana e, mais precisamente na minha vida? Movidos pelo Espírito Santo, digamos ao nosso Redentor: Jesus-vida, Jesus-doutrina, Jesus-vitória, faz que, como lhe comprazia dizer ao memorável Ramon Llull, vivamos na continua “maravilha” de Você!
 
Pensamentos para o Evangelho de hoje
«O amor de Deus não é algo que se aprenda com regras e preceitos, não é algo que se possa ensinar, mas desde que este vivente a quem chamamos homem começa a existir, uma força espiritual se deposita nele, como uma semente , que contém em si a tendência para o amor» (São Basílio Magno)
 
«A novidade de Jesus é que ele carrega consigo a Palavra de Deus, o amor de Deus por cada um de nós. Jesus busca o coração das pessoas. E procura também trazer Deus para mais perto das pessoas e as pessoas para mais perto de Deus» (Francisco)
 
«As suas obras e as suas palavras tornaram-no conhecido como 'o santo de Deus' (Mc 1,24)» (Catecismo da Igreja Católica, n. 438)
 
Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm.
 
* A sequência dos evangelhos dos dias desta semana.
O evangelho de ontem informava sobre a primeira atividade de Jesus: chamou quatro pessoas para formar comunidade com ele (Mc 1,16-20). O evangelho hoje descreve a admiração do povo diante do ensinamento de Jesus (Mt 1,21-22) e o primeiro milagre expulsando um demônio (Mt 1,23-28). O evangelho de amanhã narra a cura da sogra de Pedro (Mc 1,29-31), a cura de muitos doentes (Mc 1,32-34) e a oração de Jesus num lugar isolado (Mc 1.35-39). Marcos recolheu estes episódios, que eram transmitidos oralmente nas comunidades, e os uniu entre si como tijolos numa parede. Nos anos 70, ano em que ele escreve, as Comunidades necessitavam de orientação. Descrevendo como foi o início da atividade de Jesus, Marcos indicava como elas deviam fazer para anunciar a Boa Nova. Marcos faz catequese contando para as comunidades os acontecimentos da vida de Jesus.
 
* Jesus ensina com autoridade, diferente dos escribas. A primeira coisa que o povo percebe é o jeito diferente de Jesus ensinar. Não é tanto o conteúdo, mas sim o jeito de ensinar, que impressiona. Por este seu jeito diferente, Jesus cria consciência crítica no povo com relação às autoridades religiosas da época. O povo percebe, compara e diz: Ele ensina com autoridade, diferente dos escribas. Os escribas da época ensinavam citando autoridades. Jesus não cita autoridade nenhuma, mas fala a partir da sua experiência de Deus e da vida. Sua palavra tem raiz no coração.
 
* Vieste para nos destruir! Em Marcos, o primeiro milagre é a expulsão de um demônio. Jesus combate e expulsa o poder do mal que tomava conta das pessoas e as alienava de si mesmas. O possesso gritava: “Eu sei quem tu és: tu és o Santo de Deus!” O homem repetia o ensinamento oficial que apresentava o messias como “Santo de Deus”, isto é, como um Sumo Sacerdote, ou como rei, juiz, doutor ou general. Hoje também, muita gente vive alienada de si mesma, enganada pelo poder dos meios de comunicação, da propaganda do comércio. Repete o que ouve dizer. Vive escrava do consumismo, oprimida pelas prestações em dinheiro, ameaçada pelos cobradores. Muitos acham que sua vida ainda não é como deveria ser se eles não puderem comprar aquilo que a propaganda anuncia e recomenda.
 
* Jesus ameaçou o espírito mau: “Cale-se, e saia dele!” O espírito sacudiu o homem, deu um grande grito e saiu dele. Jesus devolve as pessoas a si mesmas. Devolve a consciência e a liberdade. Faz a pessoa recuperar o seu perfeito juízo (cf. Mc 5,15). Não é nem era fácil, nem ontem, nem hoje, fazer com que a pessoa comece a pensar e atuar diferentemente da ideologia oficial.
 
* Ensinamento novo! Ele manda até nos espíritos impuros. Os dois primeiros sinais da Boa Nova que o povo percebe em Jesus, são estes: o seu jeito diferente de ensinar as coisas de Deus, e o seu poder sobre os espíritos impuros. Jesus abre um novo caminho para o povo conseguir a pureza. Naquele tempo, uma pessoa declarada impura já não podia comparecer diante de Deus para rezar e receber a bênção prometida por Deus a Abraão. Ela teria que purificar-se primeiro. Esta e muitas outras leis e normas dificultavam a vida do povo e marginalizavam muita gente como impura, longe de Deus. Agora, purificadas pelo contato com Jesus, as pessoas impuras podiam comparecer novamente na presença de Deus. Era uma grande Boa Notícia para eles!
 
Para um confronto pessoal
1) Será que posso dizer: “Eu sou plenamente livre, senhor de mim mesmo”? Se não o posso dizer de mim mesmo, então algo em mim é possesso por outros poderes. Como faço para expulsar este poder estranho?      
2) Hoje muita gente não vive, mas é vivido. Não pensa, mas é pensado pelos meios de comunicação. Já não tem pensamento crítico. Já não é dono de si mesmo. Como expulsar este “demônio”?

sábado, 10 de janeiro de 2026

Segunda-feira da 1ª semana do Tempo Comum


1ª Leitura (1Sam 1,1-8):
Havia um homem natural de Ramá, um sufita dos montes de Efraim, chamado Elcana, filho de Jeroão, filho de Eliú, filho de Toú, filho de Suf de Efraim. Tinha duas mulheres, uma chamada Ana e outra chamada Fenena. Fenena tinha filhos; Ana, porém, não os tinha. Esse homem costumava subir todos os anos da sua cidade até Silo, para adorar o Senhor do Universo e oferecer-Lhe sacrifícios. Aí se encontravam os dois filhos de Heli, Hofni e Fineias, sacerdotes do Senhor. Cada vez que Elcana oferecia um sacrifício, costumava dar porções da vítima a sua mulher Fenena e a todos os seus filhos e filhas. Embora amasse muito Ana, dava-lhe apenas uma porção, porque o Senhor a tinha feito estéril. A sua rival irritava-a com humilhações, porque o Senhor a tinha deixado estéril. Assim acontecia todos os anos e, sempre que subiam à casa do Senhor, Fenena ofendia Ana. Ana chorava e não comia. Então Elcana, seu marido, disse-lhe: «Ana, porque choras? Porque não comes? Porque estás tão triste? Não sou melhor para ti do que dez filhos?».
 
Salmo Responsorial: 115
R. Oferecer-Vos-ei, Senhor, um sacrifício de louvor.
 
Como agradecerei ao Senhor tudo quanto Ele me deu? Elevarei o cálice da salvação, invocando o nome do Senhor.
 
Cumprirei as minhas promessas ao Senhor na presença de todo o povo. É preciosa aos olhos do Senhor a morte dos seus fiéis.
 
Senhor, sou vosso servo, filho da vossa serva: quebrastes as minhas cadeias. Oferecer-Vos-ei um sacrifício de louvor, invocando, Senhor, o vosso nome.
 
Cumprirei as minhas promessas ao Senhor na presença de todo o povo, nos átrios da casa do Senhor, dentro dos teus muros, Jerusalém.
 
Aleluia. Está próximo o reino de Deus; arrependei-vos e acreditai no Evangelho. Aleluia.
 
Evangelho (Mc 1,14-20): Depois que João foi preso, Jesus veio para a Galileia, proclamando a Boa Nova de Deus: «Completou-se o tempo, e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede na Boa Nova». Caminhando à beira do mar da Galileia, Jesus viu Simão e o irmão deste, André, lançando as redes ao mar, pois eram pescadores. Então disse-lhes: «Segui-me, e eu farei de vós pescadores de homens». E eles, imediatamente, deixaram as redes e o seguiram. Prosseguindo um pouco adiante, viu também Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão, João, consertando as redes no barco. Imediatamente, Jesus os chamou. E eles, deixando o pai Zebedeu no barco com os empregados, puseram-se a seguir Jesus».
 
«Convertei-vos e crede na Boa Nova»
 
Rev. D. Joan COSTA i Bou (Barcelona, Espanha)
 
Hoje, o Evangelho nos convida à conversão. «Completou-se o tempo e o Reino de Deus está próximo; fazei penitência e crede no Evangelho» (Mc 1,15). Converter-se, a que?; Melhor seria dizer, a quem? A Cristo! Assim o expressou: «Quem ama seu pai ou sua mãe mais que a mim, não é digno de mim. Quem ama seu filho mais que a mim, não é digno de mim» (Mt 10,37).
 
Converter-se significa acolher agradecidos o dom da fé e fazê-lo operativo pela caridade. Converter-se quer dizer reconhecer a Cristo como único senhor e rei de nossos corações, dos que pode dispor. Converter-se implica descobrir Cristo em todos os acontecimentos da história humana, também da nossa pessoal, consciente de que Ele é a origem, o centro e o fim de toda história, e que por Ele tudo foi redimido e Nele alcança sua plenitude. Converter-se supõe viver de esperança, porque Ele venceu o pecado, o maligno e a morte, e a Eucaristia é a garantia.
 
Converter-se comporta amar a Nosso Senhor por acima de tudo aqui na terra, com todo nosso coração, com toda nossa alma e com todas nossas forças. Converter-se pressupõe entregar-lhe nosso entendimento e nossa vontade, de tal maneira que nosso comportamento faça realidade o lema episcopal do Santo Papa, João Paulo II, Totus tuus, quer dizer, Todo teu, Deus meu; e todo é: tempo, qualidades, bens, ilusões, projetos, saúde, família, trabalho, descanso, tudo. Converter-se requer, então, amar a vontade de Deus em Cristo acima de tudo e gozar, agradecidos, de tudo o que acontece de parte de Deus, inclusive contradições, humilhações, doenças, e descobri-las como tesouros que nos permitem manifestar mais plenamente nosso amor a Deus: si Você o quer assim, eu também o quero!
 
Converter-se pede, assim, como os apóstolos Simão, André, Jaime e João, deixar «imediatamente as redes» e ir-se com Ele (cf. Mc 1,18), uma vez ouvida a sua voz. Converter-se é que Cristo seja tudo em nós.
 
Pensamentos para o Evangelho de hoje
«Do mesmo jeito que os pecados com sea fetidez ocultam o valor da salvação, ao chorá-los transformam-se em ouro valioso» (São Gregório Magno)
 
«Preparar o caminho, preparar também a nossa vida, é próprio de Deus, do amor de Deus por cada um de nós. Ele não nos faz cristãos por geração espontânea. Ele prepara nosso caminho, prepara nossa vida, por muito tempo» (Francisco)
 
«[À Confissão] chama-se sacramento da Conversão, pois realiza sacramentalmente o convite de Jesus à conversão (cf. Mc 1,15), o caminho de volta ao Pai, do qual a pessoa se afastou pelo pecado. Chama-se sacramento da Penitência, porque consagra o esforço pessoal e eclesial de conversão, de arrependimento e de satisfação do cristão pecador» (Catecismo da Igreja Católica, n° 1423)
 
Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm.
 
* Depois que João foi preso, Jesus voltou para a Galileia proclamando a Boa Nova de Deus.
João foi preso pelo rei Herodes por ter denunciado o comportamento imoral do rei (Lc 3,18-20). A prisão de João Batista não assustou a Jesus! Pelo contrário! Ele viu nela um sinal da chegada do Reino. E hoje, será que sabemos ler os fatos da política e da violência urbana para anunciar a Boa Nova de Deus?
 
* Jesus proclamava a Boa Nova de Deus. A Boa Nova é de Deus não só porque ela vem de Deus, mas também e sobretudo porque Deus é o seu conteúdo. Deus, Ele mesmo, é a maior Boa Notícia para a vida humana. Ele responde à aspiração mais profunda do nosso coração. Em Jesus aparece o que acontece quando um ser humano deixar Deus entrar e reinar. Esta Boa Notícia do Reino de Deus anunciada por Jesus tem quatro aspectos:
 
1. Esgotou-se o prazo!  Para os outros judeus o prazo ainda não tinha se esgotado. Faltava muito para o Reino poder chegar. Para os fariseus, por exemplo, o Reino só poderia chegar quando a observância da Lei fosse perfeita. Jesus tem outra maneira de ler os fatos. Ele diz que o prazo já se esgotou.
 
2. O Reino de Deus chegou!  Para os fariseus a chegada do Reino dependia do esforço deles. Só chegaria, depois que eles tivessem observado toda a lei. Jesus diz o contrário: “O Reino chegou!” Já estava aí! Independente do esforço feito! Quando Jesus diz “O Reino chegou!”, ele não quer dizer que o Reino estava chegando só naquele momento, mas sim que já estava aí. Aquilo que todos esperavam, já estava presente na vida deles, e eles não o sabiam, nem o percebiam (cf. Lc 17,21). Jesus o percebeu! Pois ele lia a realidade com um olhar diferente. E é esta presença escondida do Reino no meio do povo, que Jesus vai revelar aos pobres da sua terra. É esta a semente do Reino que vai receber a chuva da sua palavra e o calor do seu amor.
 
3. Convertei-vos!  O sentido exato é mudar o modo de pensar e de viver. Para poder perceber a presença do Reino na vida, a pessoa terá que começar a pensar e viver de maneira diferente. Terá que mudar de vida e encontrar outra forma de convivência! Terá que deixar de lado o legalismo do ensino dos fariseus e permitir que a nova experiência de Deus invada sua vida e lhe dê olhos novos para ler e entender os fatos.
 
4. Acreditem nesta Boa Notícia!  Não era fácil aceitar esta mensagem. Não é fácil você começar a pensar diferentemente de tudo que aprendeu, desde pequeno. Isto só é possível através de um ato de fé. Quando alguém vem trazer uma notícia diferente, difícil de ser aceita, você só a aceitará se a pessoa que traz a notícia for de confiança. Aí, você dirá aos outros: “Pode aceitar! Eu conheço a pessoa! Ela não engana. É de confiança!”. Jesus é de confiança!
 
* O primeiro objetivo do anúncio da Boa Nova é formar comunidade. Jesus passa, olha e chama. Os primeiros quatro chamados, Simão, André, João e Tiago, escutam, largam tudo e seguem a Jesus para formar comunidade com ele. Parece amor à primeira vista! Conforme a narração de Marcos, tudo aconteceu logo no primeiro encontro com Jesus. Comparando com os outros evangelhos, a gente percebe que os quatro já conheciam a Jesus (Jo 1,39; Lc 5,1-11). Já tiveram a oportunidade de conviver com ele, de vê-lo ajudar o povo e de escutá-lo na sinagoga. Sabiam como ele vivia e o que pensava. O chamado não foi coisa de um só momento, mas sim de repetidos chamados e convites, de avanços e recuos. O chamado começa e recomeça sempre de novo! Na prática, coincide com a convivência dos três anos com Jesus, desde o batismo até o momento em que Jesus foi levado ao céu (At 1,21-22). Então, por que Marcos o apresenta como um fato repentino de amor à primeira vista? Marcos pensa no ideal: o encontro com Jesus deve provocar uma mudança radical na nossa vida!
 
Para um confronto pessoal
1)  Um fato político, a prisão de João, levou Jesus a iniciar o anúncio da Boa Nova de Deus. 2) Hoje, os fatos da política e da polícia influem no anúncio que fazemos da Boa Nova ao povo?        

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Batismo do Senhor

1ª Leitura (Is 42,1-4.6-7):
Diz o Senhor: «Eis o meu servo, a quem Eu protejo, o meu eleito, enlevo da minha alma. Sobre ele fiz repousar o meu espírito, para que leve a justiça às nações. Não gritará, nem levantará a voz, nem se fará ouvir nas praças; não quebrará a cana fendida, nem apagará a torcida que ainda fumega: proclamará fielmente a justiça. Não desfalecerá nem desistirá, enquanto não estabelecer a justiça na terra, a doutrina que as ilhas longínquas esperam. Fui Eu, o Senhor, que te chamei segundo a justiça; tomei-te pela mão, formei-te e fiz de ti a aliança do povo e a luz das nações, para abrires os olhos aos cegos, tirares do cárcere os prisioneiros e da prisão os que habitam nas trevas».
 
Salmo Responsorial: 28
R. O Senhor abençoará o seu povo na paz.
 
Tributai ao Senhor, filhos de Deus, tributai ao Senhor glória e poder. Tributai ao Senhor a glória do seu nome, adorai o Senhor com ornamentos sagrados.
 
A voz do Senhor ressoa sobre as nuvens, o Senhor está sobre a vastidão das águas. A voz do Senhor é poderosa, a voz do Senhor é majestosa.
 
A majestade de Deus faz ecoar o seu trovão e no seu templo todos clamam: Glória! Sobre as águas do dilúvio senta-Se o Senhor, o Senhor senta-Se como Rei eterno.
 
2ª Leitura (At 10,34-38): Naqueles dias, Pedro tomou a palavra e disse: «Na verdade, eu reconheço que Deus não faz acepção de pessoas, mas, em qualquer nação, aquele que O teme e pratica a justiça é-Lhe agradável. Ele enviou a sua palavra aos filhos de Israel, anunciando a paz por Jesus Cristo, que é o Senhor de todos. Vós sabeis o que aconteceu em toda a Judeia, a começar pela Galileia, depois do baptismo que João pregou: Deus ungiu com a força do Espírito Santo a Jesus de Nazaré, que passou fazendo o bem e curando todos os que eram oprimidos pelo demónio, porque Deus estava com Ele».
 
Aleluia. Abriram-se os céus e ouviu-se a voz do Pai: «Este é o meu Filho muito amado: escutai-O». Aleluia.
 
Evangelho (Mt 3,13-17): Então, Jesus veio da Galileia para o rio Jordão, até junto de João, para ser batizado por ele. Mas João queria impedi-lo, dizendo: «Eu é que preciso ser batizado por ti, e tu vens a mim?». Jesus, porém, respondeu-lhe: «Por ora, deixa, é assim que devemos cumprir toda a justiça!». E João deixou. Depois de ser batizado, Jesus saiu logo da água, e o céu se abriu. E ele viu o Espírito de Deus descer, como uma pomba, e vir sobre ele. E do céu veio uma voz que dizia: «Este é o meu Filho amado; nele está meu pleno agrado».
 
«Jesus veio da Galileia para o rio Jordão, até junto de João, para ser batizado por ele»
 
Rev. D. Antoni CAROL i Hostench (Sant Cugat del Vallès, Barcelona, Espanha)
 
Hoje contemplamos o Messias —o Ungido— no Jordão «para ser batizado» (Mt 3,13) por João. E vemos Jesus Cristo como assinalado pela presença na forma visível do Espírito Santo e, na forma audível, do Pai, o qual declara de Jesus: «Este é o meu Filho amado; nele está meu pleno agrado». (Mt 3,17). Temos aqui um motivo maravilhoso e, pela sua vez, motivador para viver uma vida: ser sujeito e objeto do agrado do Pai celestial. Agradar ao Pai!
 
De alguma maneira já o pedimos na oração coletiva da missa de hoje: «Deus todo-poderoso e eterno (...) concede aos teus filhos adotivos, nascidos da água e do Espírito Santo, levar sempre uma vida que te seja grata». Deus, que é Pai infinitamente bom, sempre nos “quer bem”. Mas, já se o permitimos?; Somos dignos desta benevolência divina?; Correspondemos a esta benevolência?
 
Para ser digno da benevolência e do agrado divino, Cristo tem outorgado às águas força regeneradora e purificadora, de maneira que quando somos batizados começamos a ser verdadeiramente filhos de Deus. «Talvez haverá alguém que pergunte: ‘Por que quis batizar-se, se era santo?’. Escute-me! Cristo batiza-se não para que as águas o santifiquem, mas para santificá-las Ele» (São Máximo de Turim).
 
Tudo isto —desmerecidamente— nos situa como num plano de conaturalidade com a divindade. Mas não nos basta a nós com esta primeira regeneração: precisamos reviver de alguma maneira o Batismo por meio de uma espécie de continuo “segundo batismo” que é a conversão. Paralelamente ao primeiro Mistério da Luz do Rosário —O Batismo do Senhor no Jordão— nos convêm contemplar o exemplo de Maria no quarto dos Mistérios de Gozo: a Purificação, Ela, Imaculada, virgem pura, não tem inconveniente em submeter-se ao processo de purificação. Nós lhe imploramos a simplicidade, a sinceridade e a humildade que nos permitirão viver de maneira constante nossa purificação a modo de “segundo batismo”.
 
Pensamentos para o Evangelho de hoje
«Cristo apareceu no mundo e, ao embelezar o mundo e acabar com a sua desordem, transformou-o em brilhante e alegre. Ele tornou seu o pecado do mundo e acabou com o inimigo do mundo. Ele santificou as fontes das águas e iluminou as almas dos homens» (São Próclo de Constantinopla)
 
«Antes de subir aos Céus, Jesus pediu-nos que fôssemos por todo o mundo batizar. E desde esse dia esta tem sido uma corrente ininterrupta: batizámos os nossos filhos, e depois os nossos filhos aos seus filhos, e os seus filhos... E ainda hoje esta corrente continua» (Francisco)
 
«O início da vida pública de Jesus é o seu batismo por João, no rio Jordão. João pregava um batismo de penitência, em ordem à remissão dos pecados´ (...).Então aparece Jesus´(...) e recebe o batismo. Então o Espírito Santo, sob a forma de pomba, desce sobre Jesus e uma voz do céu proclama: `Este é o meu Filho muito amado´ (Mt 3,13-17). Tal foi a manifestação (“epifania”) de Jesus como Messias de Israel e Filho de Deus» (Catecismo da Igreja Católica, nº 535)
 
“Este é o meu Filho amado, que muito me agrada”
 
Pe. Thomaz Hughes, SVD
 
* Hoje, o Domingo depois da Epifania, celebra-se tradicionalmente a Festa do Batismo do Senhor.
O batismo de Jesus por João Batista no Rio Jordão é tão importante teologicamente que é tratado por cada um dos quatro evangelistas, cada qual da sua maneira, dependendo da situação da sua comunidade e dos seus interesses teológicos. A história logo se tornou um problema para os primeiros cristãos, pois levantava a questão de como Jesus, sem pecado, podia ter sido batizado e, um ritual de purificação dos pecados. Por isso, Mateus deixa fora a referência de Mc 1, 4 ao perdão dos pecados, a adiciona vv. 14 e 15. Para João, o batismo era tão difícil de ser harmonizado com a sua cristologia, que omite qualquer referência ao atual evento, e no seu lugar, faz com que João Batista indica Jesus como o “Cordeiro de Deus” (Jo 1, 29-34).
 
* O texto já nos apresenta o programa da vida e missão de Jesus - a justiça do Reino. Em Mateus, a palavra “justiça” designa a fidelidade nova e radical à vontade de Deus. O significado disso será mostrado ao longo do Evangelho. Também Jesus, unindo-se aos pecadores, já está desde o começo rejeitando a visão de um Messianismo triunfante.
 
* Os sinóticos (Mt, Mc e Lc) ressaltam o fato que “o céu se abriu”. Marcos é mais contundente ainda quando enfatiza que “os céus se rasgaram”. É uma maneira simbólica de expressar que em Jesus acontece a união definitiva entre o céu e a terra (At 7, 56; 10, 11-16; Jo 1, 51) e uma revelação celeste (Is 63, 19; Ez 1, 1; Ap 4, 1; 19, 11). A revelação maior é a confirmação da identidade de Jesus como o Servo de Javé. Mateus, escrevendo dentro de um ambiente de polêmica com o judaísmo formativo do fim do primeiro século, muda a tradição original (Mc 1, 9-11; Lc 3, 21-22), onde as palavras do Pai se dirigiam a Jesus, para dirigi-las aos ouvintes :“Este é o meu Filho muito amado, aquele que me aprouve escolher” (v. 17). Estas palavras associam a terminologia de Sl 2, 7, que repete a profecia de Natã em 2Sm 7, 14 (tu és meu filho...) a Is 42, 1 (meu bem-amado que me aprouve escolher). A passagem de Isaías apresenta o Servo que não levanta a voz (42, 2), nem vacila, nem é quebrantado (42, 4). (A tradução grega da Septuaginta usou uma palavra que podia expressar tanto o termo hebraico para “filho” como para “servo”). Fazendo fusão desses textos do Antigo Testamento, Mateus une em Jesus duas figuras proféticas - a do Filho da descendência real davídica e do Servo de Javé. Assim, prevê que o messianismo de Jesus implica a vocação do Servo Sofredor, e rejeita pretensões messiânicas triunfalistas. Podemos dizer que o Batismo é para Jesus o assumir público da sua missão como Servo de Javé. A voz do céu confirme a sua opção de vida. O Pai confirma que Ele reconhece Jesus, desde o início do seu ministério público, como seu Filho (Sl 2, 7), seu bem-amado, objeto da sua predileção.
 
* Um dos sentidos mais importantes do nosso batismo também é o nosso compromisso público com a vontade do Pai. Todos nós podemos sentir a veracidade da mesma frase usada pelo Pai diante de Jesus - cada um de nós também é verdadeiramente filho(a) do Pai celeste (1Jo 3, 1), a quem aprouve escolher-nos. Nada pode fazer com que o Pai abandone esse amor incondicional e gratuito - nem a nossa fraqueza, nem o pecado (Rm 8, 39). Importante é reconhecer que Deus nos amou primeiro, incondicionalmente, e cabe a nós responder a este amor gratuito por uma vida digna de filhos e filhas do Pai, no seguimento de Jesus (1Jo 4, 10-11). Jesus não achou privilégio ser o amado do Pai, mas assumiu as consequências - uma vida de fidelidade, que o levava até a Cruz - e a Ressurreição! (Fl 2, 6-11). Celebrando essa festa litúrgica, renovemos o compromisso do nosso batismo, comprometendo-nos com o seguimento do Mestre, no esforço de criação do mundo que Deus quer, um mundo onde reinam o amor, a justiça e a verdadeira paz. O nosso batismo confirma que somos parceiros de Deus no ato permanente de criação, fazendo crescer o Reino d’Ele, que “já está no meio de nós” (Mc 1, 14).

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

TEMPO DO NATAL - Sábado depois da Epifania

S. Gonçalo de Amarante, presbítero
 
1ª Leitura (1Jo 5,14-21):
Caríssimos: Esta é a confiança que temos em Deus: se Lhe pedirmos alguma coisa segundo a sua vontade, Ele escuta-nos. E sabendo que nos escuta em tudo o que Lhe pedirmos, sabemos também que alcançaremos o que Lhe tivermos pedido. Se alguém vir seu irmão cometer um pecado que não o leva à morte, reze e Deus lhe dará a vida, se de facto o pecado cometido não leva à morte. Há um pecado que leva à morte; não é por este pecado que eu digo que se reze. Toda a iniquidade é pecado, mas nem todo o pecado leva à morte. Sabemos que todo aquele que nasceu de Deus não peca, porque o guarda Aquele que foi gerado por Deus e o Maligno não o pode atingir. Sabemos que somos de Deus, mas o mundo inteiro está sujeito ao Maligno. E sabemos também que veio o Filho de Deus e nos deu inteligência para conhecermos o Verdadeiro. Nós estamos no Verdadeiro, por seu Filho, Jesus Cristo, que é o Deus verdadeiro e a vida eterna. Meus filhos, guardai-vos dos falsos deuses.
 
Salmo Responsorial: 149
R. O Senhor ama o seu povo.
 
Cantai ao Senhor um cântico novo, cantai ao Senhor na assembleia dos santos. Alegre-se Israel em seu Criador, rejubilem os filhos de Sião em seu Rei.
 
Louvem o seu nome com danças, cantem ao som do tímpano e da cítara, porque o Senhor ama o seu povo, coroa os humildes com a vitória.
 
Exultem de alegria os fiéis, cantem jubilosos em suas casas; em sua boca os louvores de Deus. Esta é a glória de todos os seus fiéis.
 
Aleluia. O povo que vivia nas trevas viu uma grande luz; para aqueles que habitavam na sombria região da morte uma luz se levantou. Aleluia.
 
Evangelho (Jo 3,22-30): Depois disso, Jesus e seus discípulos foram para a região da Judéia. Ele ficava lá com eles e batizava. João também estava batizando, em Enon, perto de Salim, onde havia muita água. As pessoas iam lá para serem batizadas. João ainda não tinha sido lançado na prisão. Surgiu então, da parte dos discípulos de João, uma discussão com um judeu, a respeito da purificação. Eles foram falar com João: «Mestre, aquele que estava contigo do outro lado do Jordão, e de quem tu deste testemunho, está batizando, e todos vão a ele». João respondeu: «Ninguém pode receber coisa alguma, se não lhe for dada do céu. Vós mesmos sois testemunhas daquilo que eu disse: ‘Eu não sou o Cristo, mas fui enviado à sua frente’. Quem recebe a noiva é o noivo, mas o amigo do noivo, que está presente e o escuta, enche-se de alegria, quando ouve a voz do noivo. Esta é a minha alegria, e ela ficou completa. É necessário que ele cresça, e eu diminua».
 
«É necessário que ele cresça, e eu diminua»
 
Rev. D. Antoni CAROL i Hostench (Sant Cugat del Vallès, Barcelona, Espanha)
 
Hoje ficamos surpresos vendo Jesus e o Batista batizando “em paralelo”. Dizemos, sim, “em paralelo”, mas,… isso só acontece aparentemente, porque João o Batista remite a Jesus, que é o Messias, o "novo Moises", o Profeta tão esperado, aquele que vem para nos dar a Deus. «Que trouxe [Jesus]? A resposta é muito simples: A Deus. Trouxe a Deus» (Bento XVI).
 
Em consequência e imediatamente João aclara o sentido do batismo: Realmente, trata-se de uma purificação, mas «diferença-se das acostumadas abluções religiosas» daquele tempo e, —como afirmou o papa Bento— «Deve-se a consumação concreta de uma mudança que determina de modo novo e para sempre toda a vida». Assim, o batismo cristão comporta uma mudança tão radical como um novo nascimento, até o ponto de nos converter em um novo ser.
 
Purificação, certamente, mas, para despojar-se do "homem velho", morrer a si mesmo e —pela graça— nascer a uma nova vida: A vida divina, algo que «ninguém pode receber (…) se não lhe for dada do céu» (Jo 3,28). O Concílio II de Orange ensinou que «amar a Deus é exclusivamente um dom de Deus. Ele mesmo que, sem ser amado, ama, concedeu-nos que lhe amássemos. Fomos amados quando ainda lhe éramos desagradáveis, para que nos concedera algo com que agradar-lhe».
 
Hei aqui, então, nossa tarefa pela santidade: Aprofundar na humildade para abrir espaço à ação de Deus e deixá-lo fazer. O importante não é tanto o que eu faça, mas que Ele atue em mim: «É necessário que ele cresça, e eu diminua» (Jo 3,30). E nossa alegria será tanto mais completa quanto mais desapareça o próprio eu e, mais presente se faça o Esposo em nosso coração e nas nossas obras.
 
Pensamentos para o Evangelho de hoje
«É necessário que Cristo cresça em ti para que progridas no seu conhecimento e amor: porque quanto mais O conheces e O amas, tanto mais Cristo cresce em ti» (Santo Tomás de Aquino)
 
«Finalmente tinha chegado um profeta cuja vida também o acreditava como tal e anunciava-se, de novo, a ação de Deus na história: João batizava com água mas, o Maior —Aquele que batizará no Espírito Santo— está quase a chegar» (Bento XVI)
 
«Cristo, Filho de Deus feito homem, é a Palavra única, perfeita e insuperável do Pai. N'Ele, o Pai disse tudo. Não haverá outra palavra além dessa» (Catecismo da Igreja Católica, nº 65)
 
Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm
 
* Tanto João Batista como Jesus, ambos apontavam um rumo novo para o povo.
Mas Jesus, depois de ter aderido ao movimento de João Batista e de ter sido batizado por ele, deu um passo a mais e criou o seu próprio movimento. Ele chegou a batizar pessoas no rio Jordão ao mesmo tempo que João Batista. Ambos atraíam o povo pobre e abandonado da Palestina, anunciando a chegada da Boa Nova do Reino de Deus.
 
* Jesus, o novo pregador, estava levando uma certa vantagem sobre João Batista. Ele batizava mais gente e atraía mais discípulos. Surgiu então uma tensão entre os discípulos de João e os de Jesus a respeito da "purificação", isto é, a respeito do valor do batismo. Os discípulos de João Batista sentiam uma certa inveja e foram falar com João para informá-lo a respeito do movimento de Jesus.
 
* A resposta de João aos seus discípulos é uma resposta bonita, que revela a grandeza de alma. João ajudou seus discípulos a verem as coisas com mais objetividade. Ele usou três argumentos: 1) Ninguém recebe nada a não ser aquilo que lhe foi dado por Deus. Se Jesus faz coisas tão bonitas, é porque as recebeu de Deus (Jo 3,27). Em vez de inveja, os discípulos deveriam sentir alegria. 2) João reafirma, novamente, que ele, João, não é o Messias mas apenas o precursor (Jo 3,28). 3) No fim, ele usa uma comparação, tirada das festas de casamento. Naquele tempo, lá na Palestina, no dia da festa do casamento, na casa da noiva, os assim chamados "amigos do noivo" aguardavam a chegada do noivo para poder apresentá-lo à noiva. No caso, Jesus é o noivo, o povo é a noiva e ele, João, é o amigo do noivo. João Batista diz que, na voz de Jesus, reconheceu a voz do noivo e ele pôde apresentá-lo à noiva, ao povo. Neste momento, a noiva, o povo, deixa de lado o amigo do noivo e vai atrás de Jesus, porque reconheceu nele a voz do seu noivo! Por isso, é grande a alegria de João, "alegria completa". João não quer nada para si! Sua missão é apresentar o noivo à noiva! A frase final resume tudo: "É necessário que ele cresça e eu diminua!" Esta frase é também o programa de toda pessoa seguidora de Jesus.
 
* Naquele fim do primeiro século, tanto na Palestina como na Ásia Menor, onde quer que houvesse alguma comunidade de judeus, havia também gente que tinha estado em contato com João Batista ou que tinha sido batizada por ele (At 19,3). Vistos do lado de fora, o movimento de João Batista e o de Jesus eram muito semelhantes entre si. Os dois anunciavam a chegada do Reino (cf. Mt 3,1-2; 4,17). Deve ter havido uma certa confusão e tensão entre os seguidores de João e os de Jesus. Por isso era tão importante o testemunho de João sobre Jesus. Todos os quatro evangelhos se preocupam em relatar as palavras de João Batista dizendo que ele não é o messias. Para as comunidades cristãs, a resposta de João "Ele deve crescer e eu devo diminuir" valia não só para os discípulos de João da época de Jesus, mas também para os discípulos das comunidades batistas do fim do primeiro século.
 
Para um confronto pessoal
1. “Ele deve crescer e eu diminuir”. É o programa de João. É também o meu programa?
2. O que importa é que a noiva encontre o noivo. Somos porta-vozes, nada mais. Será que eu sou?

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

TEMPO DO NATAL - Sexta-feira depois da Epifania

Santo André Corsini, Bispo de nossa Ordem
Servo de Deus Frei Miguelângelo de Cíngoli, presbítero
 
1ª Leitura (1Jo 5,5-13):
Caríssimos: Quem é o vencedor do mundo senão aquele que acredita que Jesus é o Filho de Deus? Este é O que veio pela água e pelo sangue: Jesus Cristo; não só com a água, mas com a água e o sangue. É o Espírito que dá testemunho, porque o Espírito é a verdade. São três que dão testemunho: o Espírito, a água e o sangue; e os três estão de acordo. Se aceitamos o testemunho dos homens, o testemunho de Deus é maior, porque o testemunho de Deus consiste naquele que Ele deu de seu Filho. Quem acredita no Filho de Deus tem em si mesmo este testemunho. Quem não acredita em Deus considera-O um mentiroso, porque não acredita no testemunho dado por Deus acerca de seu Filho. E o testemunho é este: Deus deu-nos a vida eterna e esta vida está em seu Filho. Quem tem o Filho tem a vida, quem não tem o Filho de Deus não tem a vida. Escrevo-vos estas coisas, para saberdes que tendes a vida eterna, vós que acreditais no nome do Filho de Deus.
 
Salmo Responsorial: 147
R. Jerusalém, louva o teu Senhor.
 
Glorifica, Jerusalém, o Senhor, louva, Sião, o teu Deus. Ele reforçou as tuas portas e abençoou os teus filhos.
 
Estabeleceu a paz nas tuas fronteiras e saciou-te com a flor da farinha. Envia à terra a sua palavra, corre veloz a sua mensagem.
 
Revelou a sua palavra a Jacob, suas leis e preceitos a Israel. Não fez assim com nenhum outro povo, a nenhum outro manifestou os seus juízos.
 
Aleluia. Jesus proclamava o Evangelho do reino e curava todas as doenças entre o povo. Aleluia.
 
Evangelho (Lc 5,12-16): Estando Jesus numa das cidades, apareceu um homem coberto de lepra. Ao ver Jesus, ele caiu com o rosto em terra e suplicou-lhe: «Senhor, se queres, tens o poder de purificar-me». Estendendo a mão, Jesus tocou nele e disse: «Quero, fica purificado». E imediatamente a lepra desapareceu. E ordenou-lhe que não o contasse a ninguém. «Mas», disse, «vai mostrar-te ao sacerdote e apresenta por tua purificação a oferenda prescrita por Moisés. Isso lhes servirá de testemunho». Cada vez mais, sua fama se espalhava, e as multidões acorriam para ouvi-lo e para serem curadas de suas doenças. Ele, porém, se retirava para lugares desertos, onde se entregava à oração.
 
«Cada vez mais, sua fama se espalhava»
 
Rev. D. Santi COLLELL i Aguirre (La Garriga, Barcelona, Espanha)
 
Hoje temos uma grande responsabilidade em fazer que «sua fama» (Lc 5,15) continue se estendendo, sobretudo, a todos aqueles que não lhe conhecem ou que, por diversas razões e circunstâncias, se afastaram Dele.
 
Mas, este contágio não será possível se antes nós não temos sido capazes de reconhecer nossas próprias “lepras” particulares e de nos acercar a Cristo tendo consciência de que somente Ele nos pode liberar de maneira eficaz de todos nossos egoísmos, invejas, orgulhos e rancores...
 
Que a fama de Cristo se estenda a todos os cantos de nossa sociedade depende, em grande medida, dos ”encontros particulares” que tivemos com Ele. Quanto mais e mais intensamente nos impregnemos de seu Evangelho, de seu amor, de sua capacidade de escutar, de acolher, de perdoar, de aceitar o outro (por diferente que seja), mais capazes seremos nós de dá-lo a conhecer a nosso entorno.
 
O leproso do Evangelho que hoje se lê na Eucaristia é alguém que tem feito um duplo exercício de humildade. O de reconhecer qual é seu mal e, o de aceitar a Jesus como seu Salvador. Cristo é quem nos dá a oportunidade de fazer uma mudança radical e profunda na nossa vida. Diante de tudo aquilo que é impedimento para o amor e que tem se enquistado nos nossos corações e em nossas vidas, Cristo, com seu testemunho de vida e de Vida Nova, propõem-nos uma alternativa totalmente real e possível. A alternativa do amor, da ternura da misericórdia. Jesus, diante de quem é diferente a Ele (o leproso) não escapa, não o ignora, não o “despacha” à administração, nem às instituições ou às “ong’s”. Cristo aceita o reto do encontro e, ao “enfermo” lhe oferece aquilo que necessita, a cura/purificação.
 
Nós temos que ser capazes de oferecer aos que se aproximam a nossas vidas aquilo que recebemos do Senhor. Mas, antes será necessário encontrar-nos com Ele e renovar nosso compromisso de viver seu Evangelho nos pequenos detalhes de cada dia.
 
Pensamentos para o Evangelho de hoje
«Aquele homem se ajoelha prostrando-se no chão —o que é um sinal de humildade e de vergonha— para que cada um se envergonhe das nódoas da sua vida. A sua confissão está cheia de piedade y de fé: isto é, reconheceu que curar-se estava nas mãos do Senhor» (Santo Beda o Venerável)
 
«Através da sua Mãe é sempre Jesus quem sai ao nosso encontro para liberar-nos de toda doença do corpo e da alma. ¡Deixemo-nos tocar e purificar por Ele!» (Bento XVI)
 
«Jesus acompanha as suas palavras com numerosos ‘milagres, prodígios e sinais, (At 2,22), os quais manifestam que o Reino está presente n'Ele. Comprovam que Ele é o Messias anunciado (289)» (Catecismo da Igreja Católica, nº 547)
 
Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm
 
* Um leproso chega perto de Jesus.
Era um excluído. Devia viver afastado. Quem tocasse nele ficava impuro! Mas aquele leproso teve muita coragem. Transgrediu as normas da religião para poder chegar perto de Jesus. Ele diz: Se queres, podes curar-me! Ou seja: “Não precisa tocar-me! Basta o senhor querer para eu ficar curado!” A frase revela duas doenças: 1) doença da lepra que o tornava impuro; 2) a doença da solidão a que era condenado pela sociedade e pela religião. Revela também a grande fé do homem no poder de Jesus. Profundamente compadecido, Jesus cura as duas doenças. Primeiro, para curar a solidão, toca no leproso. É como se dissesse: “Para mim, você não é um excluído. Eu te acolho como irmão!” Em seguida, cura a lepra dizendo: Quero! Seja curado!
 
* O leproso, para poder entrar em contato com Jesus, tinha transgredido as normas da lei. Da mesma forma, Jesus, para poder ajudar aquele excluído e, assim, revelar um rosto novo de Deus, transgrede as normas da sua religião e toca no leproso. Naquele tempo, quem tocava num leproso tornava-se um impuro perante as autoridades religiosas e perante a lei da época.
 
* Jesus não só cura, mas também quer que a pessoa curada possa conviver. Ele reintegra a pessoa na convivência. Naquele tempo, para um leproso ser novamente acolhido na comunidade, ele precisava ter um atestado de cura assinado por um sacerdote. É como hoje. O doente só sai do hospital com o documento assinado pelo médico de plantão. Jesus obrigou o fulano a buscar o documento, para que ele pudesse conviver normalmente. Obrigou as autoridades a reconhecer que o homem tinha sido curado.
 
* Jesus tinha proibido o leproso de falar sobre a cura. O Evangelho de Marcos informa que esta proibição não adiantou nada. O leproso, assim que partiu, começou a divulgar a notícia, de modo que Jesus já não podia entrar publicamente numa cidade. Permanecia fora, em lugares desertos (Mc 1,45). Por que? É que Jesus tinha tocado no leproso. Por isso, na opinião da religião daquele tempo, agora ele mesmo era um impuro e devia viver afastado de todos. Já não podia entrar nas cidades. E Marcos mostra ainda que o povo pouco se importava com estas normas oficiais, pois de toda a parte vinham a ele (Mc 1,45). Subversão total!
 
* O duplo recado que Lucas e Marcos dão às comunidades do seu tempo e a todos nós é este: 1) anunciar a Boa Nova é dar testemunho da experiência concreta que se tem de Jesus. O leproso, o que ele anuncia? Ele conta aos outros o bem que Jesus lhe fez. Só isso! Tudo isso! E é este testemunho que leva os outros a aceitar a Boa Nova de Deus que Jesus nos trouxe. 2) Para levar a Boa Nova de Deus ao povo, não se deve ter medo de transgredir normas religiosas que são contrárias ao projeto de Deus e que dificultam a comunicação, o diálogo e a vivência do amor. Mesmo que isto traga dificuldades para a gente, como trouxe para Jesus.
 
Para um confronto pessoal
1. Para ajudar o próximo, Jesus transgrediu a lei da pureza. Existem hoje leis na igreja que dificultam ou impedem a prática do amor ao próximo?
2. O leproso para poder ser curado teve coragem a opinião pública do seu tempo. E eu?