São João
Gabriel Perboyre, presbítero e mártir.
1ª Leitura
(1Cor 9,16-19.22b-27): Irmãos:
Anunciar o Evangelho não é para mim um título de glória, é uma obrigação que me
foi imposta. Ai de mim se não anunciar o Evangelho! Se o fizesse por minha
iniciativa, teria direito a recompensa. Mas, como não o faço por minha
iniciativa, desempenho apenas um cargo que me está confiado. Em que consiste,
então, a minha recompensa? Em anunciar gratuitamente o Evangelho, sem fazer
valer os direitos que o Evangelho me confere. Livre como sou em relação a
todos, de todos me fiz escravo, para ganhar o maior número possível. Fiz-me
tudo para todos, a fim de ganhar alguns a todo o custo. E tudo faço por causa
do Evangelho, para me tornar participante dos seus bens. Não sabeis que na
corrida dos estádios correm todos, mas só um recebe o prémio? Correi de modo
que o alcanceis. Todo o atleta impõe a si mesmo rigorosas privações, para obter
uma coroa corruptível; nós, porém, para recebermos uma coroa incorruptível. Eu corro,
não como quem corre às cegas; eu luto, não como quem açoita o ar; mas castigo o
meu corpo e reduzo-o à escravidão, não aconteça que, tendo pregado aos outros,
venha eu a ser eliminado.
Salmo
Responsorial: 83
R. Como é agradável a
vossa morada, Senhor do Universo!
A minha alma suspira
ansiosamente pelos átrios do Senhor. O meu ser e a minha carne exultam no Deus
vivo.
Até as aves do céu encontram
abrigo e as andorinhas um ninho para os seus filhos, junto dos vossos altares,
Senhor dos Exércitos, meu Rei e meu Deus.
Felizes os que moram em vossa
casa: podem louvar-Vos continuamente. Felizes os que em Vós encontram a sua
força, os que trazem em seu coração os caminhos do santuário.
Porque o Senhor Deus é sol e
escudo, Ele dá a graça e a glória. O Senhor não recusa os seus bens aos que
procedem com retidão.
Aleluia. A vossa palavra,
Senhor, é a verdade: consagrai-nos na verdade. Aleluia.
Evangelho
(Lc 6,39-42): Naquele tempo, Jesus
contou a seus discípulos uma parábola: «Pode um cego guiar outro cego? Não
cairão os dois no buraco? O discípulo não está acima do mestre; todo discípulo
bem formado será como o mestre. Por que observas o cisco que está no olho do
teu irmão, e não reparas na trave que está no teu próprio olho? Como podes
dizer a teu irmão: Irmão, deixa-me tirar o cisco do teu olho, quando não
percebes a trave que está no teu próprio olho? Hipócrita! Tira primeiro a trave
que está no teu olho e, então, enxergarás bem para tirar o cisco do olho do teu
irmão».
«Todo discípulo bem
formado será como o mestre»
Rev. D. Antoni CAROL i
Hostench (Sant Cugat del Vallès, Barcelona, Espanha)
Hoje, as palavras do
Evangelho nos fazem refletir sobre a importância do exemplo e de procurar para
os outros uma vida de exemplo. Por tanto, o ditado popular diz que «Pai Exemplo
é o melhor predicador», e o outro que diz «vale mais uma imagem do que mil
palavras». Não podemos esquecer, que no cristianismo, todos -sem exceção!-
somos guias, já que o Batismo nos dá uma participação no sacerdócio (mediação
salvadora) de Cristo: por tanto, todos os batizados temos recebido o sacerdócio
batismal. E todo sacerdócio, além da missão de santificar e ensinar aos outros,
incorpora também o múnus -a tarefa- de encaminhar ou conduzir.
Sim, todos -queiramos ou não-
com nosso comportamento, temos a oportunidade de ser modelo estimulante para os
que nos rodeiam. Pensemos, por exemplo, na ascendência que os pais têm sobre os
filhos, os professores sobre os alunos, as autoridades sobre os cidadãos, etc.
O cristão, no entanto, deve ter uma consciência particularmente viva a respeito
de tudo isto. Mas... «Pode um cego guiar outro cego?» (Lc 6,39).
Para nós, cristãos, é uma
chamada de atenção aquilo que os judeus e as primeiras gerações de cristãos
falavam de Jesus Cristo: «Ele fez bem todas as coisas» (Mc 7,37); «O Senhor
começou fazer e ensinar» (At 1,1).
Devemos tentar fazer em obras
tudo aquilo que cremos e professamos de palavra. Numa ocasião, o Papa Bento
XVI, quando ainda era Cardeal Ratzinger, afirmava que «o perigo mais grave, são
os cristãos adaptados», portanto, é o caso das pessoas que de palavra se
professam católicas, mas na prática, com seu comportamento, não demonstram o
radical próprio do Evangelho.
Ser radical, não é ser
fanático (já que a caridade é paciente e tolerante) nem exagerado (pois, no
amor não é possível exagerar). Como afirmou São João Paulo II, «o Senhor
crucificado é um testemunho insuperável de amor paciente e mansa humildade»:
não se trata de um fanático nem de um exagerado. Mas é radical até dizer como o
centurião que assistiu sua morte «Na verdade, este homem era um justo» (Lc
23,47).
Pensamentos para o
Evangelho de hoje
«Procurai adquirir as
virtudes que julgais faltar aos vossos irmãos, e já não vereis os seus
defeitos, porque não os tereis» (Santo Agostinho)
«A oração e os sacramentos
obtêm para nós aquela luz da verdade, graças à qual podemos ser ao mesmo tempo
ternos e fortes, usar de doçura e firmeza, calar e falar no tempo certo,
repreender e corrigir com justiça» (Bento XVI)
«Pela caridade, amamos a Deus
sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos, por amor de Deus. A
caridade é o ‘vínculo da perfeição’ (Cl 3, 14) e a forma de todas as virtudes»
(Catecismo da Igreja Católica, nº 1844)
Reflexões de Frei Carlos
Mesters, O.Carm.
* O evangelho de hoje traz mais alguns trechos do
discurso que Jesus pronunciou na planície depois de ter passado uma noite em
oração (Lc 6,12) e de ter chamado o doze para serem seus apóstolos (Lc
6,13-14). Grande parte das frases reunidas neste discurso foram pronunciadas em
outras ocasiões, mas Lucas, imitando Mateus, as reuniu aqui neste Sermão da
Planície.
* Lucas 6,39: A parábola
do cego guiando outro cego. Jesus
contou uma parábola aos discípulos: "Pode um cego guiar outro cego? Não
cairão os dois num buraco?” Parábola de uma linha só que tem muita semelhança
com as advertências que, no evangelho de Mateus, são dirigidas aos fariseus:
“Ai de vocês, guias cegos!” (Mt 23,16.17.19.24.26) Aqui no contexto do
evangelho de Lucas, esta parábola é dirigida aos animadores das comunidades que
se consideram donos da verdade, superiores aos outros. Por isso são guias
cegos.
* Lucas 6,40: Discípulo -
Mestre . “Nenhum discípulo é maior do
que o mestre; e todo discípulo bem formado será como o seu mestre”. Jesus é
Mestre. Não é professor. Professor dá aula em várias matérias, mas não convive.
Mestre não dá aula, mas convive. A sua matéria é ele mesmo, o seu testemunho de
vida, sua maneira de viver as coisas que ensina. A convivência com o mestre tem
três aspectos: (1) O mestre é o modelo
ou o exemplo a ser imitado (cf.Jo 13,13-15).
(2) O discípulo não só contempla e imita, mas também se compromete com o
destino do mestre, com a sua tentações (Lc 22,28), perseguição (Mt 10,24-25), e
morte (Jo 11,16). (3) Não só imita o
modelo, não só assume o compromisso, mas chega a identificar-se: "Vivo,
mas já não sou eu, é Cristo que vive em mim" (Gl 2,20). Este terceiro aspecto
é a dimensão mística do seguimento de Jesus, fruto da ação do Espírito.
* Lucas 6,41-42: O cisco
no olho do irmão. “Por que você fica
olhando o cisco no olho do seu irmão, e não presta atenção na trave que há no
seu próprio olho? Como é que você pode
dizer ao seu irmão: 'Irmão, deixe-me tirar o cisco do seu olho', quando você não
vê a trave no seu próprio olho? Hipócrita! Tire primeiro a trave do seu próprio
olho, e então você enxergará bem, para tirar o cisco do olho do seu
irmão". No Sermão da Montanha,
Mateus trata do mesmo assunto e explica um pouco melhor a parábola do cisco no
olho. Jesus pede uma atitude criativa que nos torne capazes de ir ao encontro
do outro sem julgá-lo, sem preconceitos e racionalizações, acolhendo-o como
irmão (Mt 7,1-5). Esta total abertura para o outro como irmão só nascerá em nós
quando soubermos relacionar-nos com Deus em total confiança de filhos (Mt
7,7-11).
Para um confronto pessoal
1) Cisco e trave no olho. Como eu me relaciono com os
outros em casa na família, no trabalho com os colegas, na comunidade com os
irmãos e as irmãs?
2) Mestre e discípulo. Como sou discípulo de Jesus?
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