sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

I Domingo da Quaresma

Cátedra de São Pedro
 
1ª Leitura (Gen 2,7-9;3,1-7):
O Senhor Deus formou o homem do pó da terra, insuflou em suas narinas um sopro de vida, e o homem tornou-se um ser vivo. Depois, o Senhor Deus plantou um jardim no Éden, a oriente, e nele colocou o homem que tinha formado. Fez nascer na terra toda a espécie de árvores, de frutos agradáveis à vista e bons para comer, entre as quais a árvore da vida, no meio do jardim, e a árvore da ciência do bem e do mal. Ora, a serpente era o mais astucioso de todos os animais dos campos que o Senhor Deus tinha feito. Ela disse à mulher: «É verdade que Deus vos disse: ‘Não podeis comer o fruto de nenhuma árvore do jardim’?». A mulher respondeu: «Podemos comer o fruto das árvores do jardim; mas, quanto ao fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus avisou-nos: ‘Não podeis comer dele nem tocar-lhe, senão morrereis’». A serpente replicou à mulher: «De maneira nenhuma! Não morrereis. Mas Deus sabe que, no dia em que o comerdes, abrir-se-ão os vossos olhos e sereis como deuses, ficando a conhecer o bem e o mal». A mulher viu então que o fruto da árvore era bom para comer e agradável à vista, e precioso para esclarecer a inteligência. Colheu fruto da árvore e comeu; depois deu-o ao marido, que comeu juntamente com ela. Abriram-se então os seus olhos e compreenderam que estavam despidos. Por isso, entrelaçaram folhas de figueira e cingiram os rins com elas.
 
Salmo Responsorial: 50
R. Pecámos, Senhor: tende compaixão de nós.
 
Compadecei-Vos de mim, ó Deus, pela vossa bondade, pela vossa grande misericórdia, apagai os meus pecados. Lavai-me de toda a iniquidade e purificai-me de todas as faltas.
 
Porque eu reconheço os meus pecados e tenho sempre diante de mim as minhas culpas. Pequei contra Vós, só contra Vós, e fiz o mal diante dos vossos olhos.
 
Criai em mim, ó Deus, um coração puro e fazei nascer dentro de mim um espírito firme. Não queirais repelir-me da vossa presença e não retireis de mim o vosso espírito de santidade.
 
Dai-me de novo a alegria da vossa salvação e sustentai-me com espírito generoso. Abri, Senhor, os meus lábios e a minha boca cantará o vosso louvor.
 
2ª Leitura (Rom 5,12-19): Irmãos: Assim como por um só homem entrou o pecado no mundo e pelo pecado a morte, assim também a morte atingiu todos os homens, porque todos pecaram. De facto, até à Lei, existia o pecado no mundo. Mas o pecado não é levado em conta, se não houver lei. Entretanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, mesmo para aqueles que não tinham pecado por uma transgressão à semelhança de Adão, que é figura d’Aquele que havia de vir. Mas o dom gratuito não é como a falta. Se pelo pecado de um só todos ¬¬¬pereceram, com muito mais razão a graça de Deus, dom contido na graça de um só homem, Jesus Cristo, se concedeu com abundância a todos os homens. E esse dom não é como o pecado de um só: o julgamento que resultou desse único pecado levou à condenação, ao passo que o dom gratuito, que veio depois de muitas faltas, leva à justificação. Se a morte reinou pelo pecado de um só homem, com muito mais razão, aqueles que recebem com abundância a graça e o dom da justiça, reinarão na vida por meio de um só, Jesus Cristo. Porque, assim como pelo pecado de um só, veio para todos os homens a condenação, assim também, pela obra de justiça de um só, virá para todos a justificação que dá a vida. De facto, como pela desobediência de um só homem, todos se tornaram pecadores, assim também, pela obediência de um só, todos se tornarão justos.
 
Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus.
 
Evangelho (Mt 4,1-11): Jesus foi conduzido ao deserto pelo Espírito, para ser posto à prova pelo diabo. Ele jejuou durante quarenta dias e quarenta noites. Depois, teve fome. O tentador aproximou-se e disse-lhe: «Se és Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães!». Ele respondeu: «Está escrito: ‘Não se vive somente de pão, mas de toda palavra que sai da boca de Deus’». Então, o diabo o levou à Cidade Santa, colocou-o no ponto mais alto do templo e disse-lhe: «Se és Filho de Deus, joga-te daqui abaixo! Pois está escrito: ‘Ele dará ordens a seus anjos a teu respeito, e eles te carregarão nas mãos, para que não tropeces em alguma pedra’». Jesus lhe respondeu: «Também está escrito: ‘Não porás à prova o Senhor teu Deus’!». O diabo o levou ainda para uma montanha muito alta. Mostrou-lhe todos os reinos do mundo e sua riqueza, e lhe disse: «Eu te darei tudo isso, se caíres de joelhos para me adorar». Jesus lhe disse: «Vai embora, Satanás, pois está escrito: ‘Adorarás o Senhor, teu Deus, e só a ele prestarás culto’». Por fim, o diabo o deixou, e os anjos se aproximaram para servi-lo.
 
«Jesus foi conduzido ao deserto pelo Espírito, para ser posto à prova pelo diabo»
 
P. Byron CADMEN (Santo Domingo, Equador)
 
Hoje, irmãos, o Evangelho leva-nos ao deserto: «Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto para ser tentado pelo diabo» (Mt 4,1). Não é um passeio espiritual; é o lugar onde se desmascaram as nossas dependências. O tentador começa pelo essencial: «Se és Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães» (Mt 4,3). A proposta parece razoável: resolver a necessidade imediatamente. Mas Jesus responde com uma liberdade que nasce da confiança: «Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus» (Mt 4,4).
 
A segunda tentação é mais subtil: procurar Deus como espetáculo, obrigando-O a provar-Se. Também a nós nos tenta uma “fé de provas”: se me respondes, acredito; se não, fecho-me. Jesus não negocia com o Pai nem manipula o sagrado.
 
E, quando chega a terceira tentação (poder, controlo, sucesso…), o Senhor corta pela raiz: «Vai-te, Satanás» (Mt 4,10), e fixa o centro da vida: «Ao Senhor teu Deus adorarás e só a Ele prestarás culto». Esta frase é remédio para uma cultura que nos empurra a viver para o aplauso, o consumo e a autossuficiência.
 
Esta Quaresma não é para suportar quarenta dias, mas para aprender a liberdade de Jesus. Jejua para que o teu coração deixe de obedecer ao imediato. Reza para escutar a Palavra que te sustenta. E, se te descobrires inquieto, recorda Santo Agostinho: «Inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em Ti». Como disse o Papa Leão XIV: «Deus nos ama, Deus vos ama a todos, e o mal não prevalecerá!».
 
O Evangelho termina com uma promessa: «Então o diabo deixou-O. E eis que se aproximaram anjos e O serviam» (Mt 4,11). Caminhemos sem medo: o deserto não é a última palavra; é o caminho para uma adoração mais pura que nos torna livres.
 
«Jesus foi conduzido ao deserto pelo Espírito, para ser posto à prova pelo diabo»
 
Mn. Antoni BALLESTER i Díaz (Camarasa, Lleida, Espanha)
 
Hoje celebramos o primeiro domingo de Quaresma e, este tempo litúrgico “forte” é um caminho espiritual que nos leva a participar do grande mistério da morte e da ressurreição de Cristo. Diz o Papa João Paulo II: que «em cada ano a Quaresma nos propõe um tempo para intensificar a nossa oração e a penitência, e abrir o nosso coração à acolhida dócil da vontade divina. A Quaresma convida-nos a percorrer um itinerário espiritual que nos prepara para reviver o grande mistério da morte e ressurreição de Jesus Cristo, primeiro por médio da escuta constante da Palavra de Deus e a prática mais intensa da mortificação, graças à qual podemos ajudar com maior generosidade ao próximo necessitado».
 
A Quaresma e o Evangelho de hoje nos ensinam que a vida é um caminho que nos deve levar ao céu. Mas, para poder merecê-lo, devemos ser provados pelas tentações. «Jesus foi conduzido ao deserto pelo Espírito, para ser posto à prova pelo diabo» (Mt 4,1). Jesus quis ensinar-nos, ao permitir ser tentado, como devemos lutar e vencer as nossas tentações: com a confiança em Deus e a oração, com a graça divina e a fortaleza.
 
As tentações podem se descrever como os “inimigos da alma”. Em concreto, resumem-se e concretam-se em três aspectos: À primeira vista, “o mundo”: «manda que estas pedras se transformem em pães» (Mt 4,3). Supõe viver só para possuir bens.
 
À segunda vista, “o demônio”: «se caíres de joelhos para me adorar (...)» (Mt 4,9). Manifesta-se na ambição de poder.
 
E, finalmente, “a carne”: «joga-te daqui abaixo» (Mt 4,6) o que significa pôr a confiança no Corpo. Tudo isso o expressa Santo Tomas de Aquino dizendo que «a causa das tentações são as causas das concupiscências: o deleite da carne, o afã da glória, e a ambição de poder.
 
Pensamentos para o Evangelho de hoje
«Jesus no deserto derrotou o seu adversário com as palavras da Lei, não com o vigor dá o braço dele. Ele venceu para que sejamos vencedores da mesma forma" (São Leão Magno)
 
«Não podemos sustentar uma espiritualidade que se esquece do Deus todo-poderoso e criador. Caso contrário, acabaríamos adorando outros poderes do mundo, ou nos colocaríamos no lugar do Senhor, a ponto de tentar pisar na realidade por Ele criada sem conhecer limites" (Francisco)
 
«Jesus é o novo Adão que permaneceu fiel onde o primeiro sucumbiu à tentação. Jesus cumpriu perfeitamente a vocação de Israel: ao contrário daqueles que antes provocaram Deus durante quarenta anos no deserto (cf. Sl 95,10), Cristo revela-se como o Servo de Deus totalmente obediente à vontade divina. Nisso Jesus é vencedor do diabo; Ele 'amarrou o homem forte' para despojá-lo do que ele havia se apropriado(Mc 3.27). A vitória de Jesus no deserto sobre o Tentador é uma antecipação da vitória da Paixão. Obediência suprema do seu amor filial ao Pai" (Catecismo da Igreja Católica, n.539)
 
Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto, a fim de ser tentado pelo diabo.
 
Fr. Pedro Bravo, O.Carm.
 
*
O presente texto, as tentações de Jesus no deserto, tem cinco partes: a introdução (vv. 1-2), as três tentações que Jesus sofreu (1ª: vv. 3-4; 2ª: 5-7; 3ª: 8-10) e a conclusão (v. 11). As tentações seguem um esquema comum a todas elas: a) o cenário; b) a tentação de Satanás; c) e a resposta de Jesus, que consiste fundamentalmente na citação de uma passagem bíblica, por Ele introduzida com a fórmula: “Está escrito” (gr. gégraptai: vv. 4.7.10; Mt, 9x). O evidente paralelismo das tentações é quebrado em dois pontos: na citação da Sagrada Escritura, feita pelo diabo (v. 6); e na substituição da oração subordinada condicional, “Se és Filho de Deus”, pela proposta: “se, prostrado, me adorares” (v. 9), na terceira tentação, onde, além disso, a oração principal não é um imperativo, mas uma promessa.
 
v. 1. Então Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto, a fim de ser tentado pelo diabo. (vv. 1-11: Mc 1,12s; Lc 4,1-13). “Então”: Mateus prefere usar este advérbio (gr. tóte), onde Marcos usa o advérbio “imediatamente” (gr. euthús). Logo após a sua unção pelo Espírito Santo, durante a qual foi investido messianicamente e proclamado “Filho amado” pelo Pai, aquando o seu batismo no rio Jordão por João (3,16s), Jesus é “conduzido” (gr. anagô): este verbo evoca a peregrinação de Israel através do deserto rumo à Terra Prometida após o êxodo do Egito (Gn 50,24; Ex 33,12; Nm 20,4s; Js 24,17; Sl 78,52; Os 13,4; Jr 2,6). Está na voz passiva, na qual é usado na navegação com o sentido de “navegar” impelido pelo vento (At 13,13; 16,11), neste caso, “pelo Espírito”, tema que também remete ao êxodo (Is 63,11.14; cf. Rm 8,14; Gl 5,18). A vida e o ministério de Jesus são conduzidos pelo Espírito Santo, que o impele, soberanamente o dirige e age através dele.
 
* “Ao deserto”: no AT, o deserto é o lugar do encontro de Deus com o seu povo e do seu noivado com ele (Os 2,16; 11,1-4; Jr 2,2.6; Dt 1,31; 2,7), mas também o lugar da tentação e da prova (Ex 16,4; Dt 8,2.16). É para aí que Jesus é conduzido “para ser tentado” como o povo de Israel, para que, obedecendo, recapitule a história deste que, desobedecendo, “no deserto tentou” a Deus “dez vezes” (Nm 14,22) e, assim, o salve do seu pecado (1,21).
 
* “Pelo diabo”: o diabo (gr. diábolos, “o que separa”, “o que divide”: 4x aqui; 13,39; 25,41) é a tradução habitual grega de Satanás nos LXX (cf. v. 10)  Ele é o tentador (v. 3), o anjo mau (cf. 2Pd 2,4; Jd 1,6) que tentou o homem no paraíso (Sb 2,24) levando-o a desconfiar de Deus, a não acreditar na sua Palavra e a pecar. Jesus é “tentado” pelo diabo que põe à prova a autenticidade da sua obediência filial, provando pela sua vitória sobre o maligno que ama a Deus, confia n'Ele e segue o Seu caminho, na obediência à sua Palavra (cf. Dt 13,3-4; Jz 2,22), recapitulando, deste modo, desde as origens, como novo Adão, a história do primeiro “Adão, filho de Deus” (Lc 3,38), que logo no princípio pecou.
 
v. 2. Tendo jejuado durante quarenta dias e quarenta noites, por fim, sentiu fome. Jesus jejuou “durante quarenta dias e quarenta noites”. “Quarenta” (daí o nome Quaresma, vindo do latim quadragésima [die], "quadragésimo [dia]") designa no AT uma geração (Sl 95,10), ou seja, a vida humana, tempo de prova e de conversão (cf. Jb 7,1; Jn 3,4). Evoca o tempo que, “sem comer pão, nem beber água”, Moisés passou por duas vezes no Sinai (primeiro para receber a Lei: Ex 24,18; Dt 9,9; depois para interceder pelo povo e renovar a Aliança: Ex 34,28) e Elias caminhou no deserto até ao Horeb (o monte Sinai: 1Rs 19,8), simbolizando “cada dia um ano” (Nm 14,34; Ez 4,6) dos que Israel caminhou pelo deserto e foi “tentado” para saber o que tinha no seu coração (cf. Dt 8,2). O número "quarenta" é, pois, simbólico, indicando que as tentações de Jesus não foram algo que Ele só teve aqui, mas foram as tentações que o acompanharam ao longo de toda a sua existência e ministério (cf. 16,1-4).
 
* “Por fim, sentiu fome”. De Moisés e Elias não se tinha dito que após quarenta dias sem comer nem beber, tivessem sentido sede ou fome, mas de Jesus não se diz que não tenha bebido e acrescenta-se que “sentiu fome”, para sublinhar que Ele assumiu a nossa condição humana para nela experimentar a fraqueza humana até ao fim e nesta “ser tentado em tudo, à nossa semelhança, menos no pecado” (Hb 4,15), a fim de nela, fraqueza, vencer, pela graça de Deus, o diabo (2Cor 12,9) e assim poder socorrer aqueles que são tentados como Ele (Hb 2,14-18). Neste sentido, as tentações de Jesus são também as tentações fundamentais de cada ser humano.
 
* Cada tentação de Jesus incide sobre uma das coordenadas fundamentais da existência humana e uma das três formas com que se pode pecar contra o primeiro mandamento, como o interpretava o judaísmo:: “Amarás o Senhor, teu Deus de todo o teu coração, isto é, com as tuas duas inclinações, a boa e a má; de toda a tua alma, quer dizer, também quando te tiram a vida; com todas as tuas forças, quer dizer, com todas as tuas riquezas” (mBer 9,5), aqui segundo a ordem do primeiro mandamento: “coração”, “alma” (gr. psyché, “vida”) e “forças” (Dt 6,4-5).
 
v. 3. Aproximando-se, o tentador disse-lhe: «Se és Filho de Deus, diz que estas pedras se tornem pães». A primeira tentação, a do pão, é a mais básica do ser humano (cf. Ex 16,3). Refere-se à relação do homem com a realidade, que ele quer possuir e manipular a seu gosto para satisfazer os seus apetites, ignorando o grito e as necessidades dos pobres. “O tentador” (1Ts 3,5) que, por ser anjo decaído, não pode vez a Deus, mas tinha ouvido a voz do Pai no batismo de Jesus a dizer: “Este é o meu Filho amado” (3,17), “aproxima-se” de Jesus (16,1; 19,3) e tenta minar a sua confiança em Deus, dizendo-lhe que se é verdade que é “Filho de Deus” (26,63; 27,40.43), não precisa de passar por privações, mas deve mostrar que é o Messias, “Filho de Deus” – o título com que o Messias era designado no AT, em sentido metafórico (2Sm 7,14; 1Cr 28,6; Sl 89,27; Sb 2,16) –, capaz de saciar o seu povo com as riquezas das nações (cf. Is 60,5-61,6) e de salvar a humanidade, satisfazendo as suas necessidades materiais, simbolizadas pelo pão (cf. Jo 6,15).
 
v. 4. Jesus, porém, respondeu: «Está escrito: “Nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus”». Jesus responde com Dt 8,3, afirmando que o verdadeiro alimento do homem é fazer a vontade do Pai (Jo 4,34), que se manifesta em “toda a Palavra” que sai da Sua boca. “Palavra” (he. dabar) no AT significa também “realidade”, “acontecimento”. Jesus apresenta assim o programa da sua vida: fazer a vontade do Pai, pondo em prática e realizando a sua Palavra. Palavra que Deus transmite não apenas através da Bíblia, mas também das pessoas, da realidade, dos acontecimentos e da história. Jesus mostra que Deus é o único capaz de saciar o coração humano: “Buscai primeiro o reino de Deus e a sua justiça e tudo vos será dado por acréscimo” (6,33).
 
v. 5. Então o diabo leva
‑o consigo à Cidade Santa, colocou-o no pináculo do Templo. A segunda tentação, a dos milagres (ou “sinais”), é a principal tentação de Israel (12,38; 16,1; 1Cor 1,22; Nm 14,22). Incide sobre a relação do homem com Deus. Muda-se subitamente de cenário: já não estamos no deserto, mas o diabo leva Jesus “à Cidade Santa”, ou seja, a Jerusalém (no NT, fora Ap 11,2, só aqui e em Mt 27,43; cf. Ne 11,1; Is 48,2; 52,1) e coloca-o sobre o pináculo do Templo (o ponto mais alto da muralha do Templo, no extremo SE da mesma). Subentende-se que se trata aqui de uma visão, em que a possibilidade de Jesus pôr em jogo, por iniciativa própria, a sua vida “por Deus”, é testada de forma real.
 
v. 6. E diz-lhe: «Se és Filho de Deus, atira-te daqui abaixo, pois está escrito: “Ele dará ordens aos seus anjos a teu respeito e levar-te-ão nas mãos, para que o teu pé não tropece em alguma pedra”». Aí, sobre o pináculo do Templo, o diabo cita a Jesus o Sl 91,11-12 e diz-lhe que se é Filho de Deus – ou seja, o Messias – Deus deve demonstrar-lhe que é seu Pai e que é fiel à sua palavra para com Ele (cf. 5,18), pondo-se ao seu serviço, libertando-o de todos os obstáculos, sofrimentos e contrariedades e assegurando-lhe o êxito da sua missão através de sinais portentosos (27,40.42), que mostrem a todos que Ele é o “Ungido do Senhor”, que resolve todos os problemas da humanidade, mesmo os provocados pela irresponsabilidade pessoal de cada um.
 
v. 7. Respondeu-lhe Jesus: «Também está escrito: “Não tentarás o Senhor, teu Deus”». Jesus replica com Dt 6,16, afirmando que a fé não consiste em pôr Deus ao serviço de si mesmo, mas em entregar-se o homem ao serviço de Deus, deixando-se conduzir por Ele na fé e na obediência à sua vontade, que se exprime através da realidade, submetendo-se, confiada e filialmente, ao seu desígnio de amor, que se reflete na história e passa pelos acontecimentos (cf. 26,53-54).
 
v. 8. De novo o diabo leva-o consigo a um monte muito alto, mostra-lhe todos os reinos do mundo e a sua glória. A terceira tentação, a das riquezas e do poder, uma constante do ser humano e de todas as nações, incide sobre a relação do homem com os outros. Desta vez o diabo não apela à condição filial de Jesus; pelo contrário: incita-o a realizar-se à margem de Deus, a sobrepor-se a todos, a chegar ao topo deste mundo, pondo os outros ao seu serviço. Para tal, o diabo “leva-o consigo a um monte muito alto”, ou seja, leva-o numa visão (Ez 40,2: “Nas visões de Deus, [o anjo] levou-me à terra de Israel e pôs-me sobre um monte muito alto”) – donde se podia avistar toda a terra (2Bar 76,3) e “mostra-lhe todos os reinos do mundo e a sua glória”, ou seja, as suas riquezas (Is 66,12; Dn 7,14 LXX).
 
v. 9. E disse-lhe: «Tudo isto te darei, se, prostrado, me adorares». Insinuando-se perfidamente como o “dono disto tudo”, senhor dos reinos e das riquezas deste mundo (cf. Jo 12,31; Ap 12,9; 13,7s; LvRab 18,3,118a), numa paródia do único e verdadeiro Senhor e dominador do universo, Deus (Dt 10,14; Gn 14,19; Ex 19,5; Sl 24,1; Ne 9,6; cf. Jr 27,5), o diabo procura desviar Jesus da vontade do Pai, de quem Ele virá a receber o domínio e o poder sobre todas as coisas, aquele mesmo domínio e poder que lhe competem, enquanto Filho de Deus, conforme as promessas da Escritura, nomeadamente, a da sua investidura messiânica, “Tu és meu Filho, Eu hoje te gerei. Pede-me e dar-te-ei as nações por herança e os confins da terra para tua possessão” (Sl 2,7-8; cf. Sl 72,8-11) – a qual, porém, só se realizará, segundo o desígnio de Deus, como depois se verá (cf. 16,21; 17,22-23; 20,18-19), através da paixão, morte e ressurreição de Jesus (28,18; At 13,32-33).
 
* No fundo, o diabo quer que Jesus faça o que o primeiro homem logo no princípio fez, quando, seduzido pela serpente, caiu em tentação e pecou: acreditar mais no diabo do que em Deus e fazer a vontade dele, em vez da de Deus, pretendendo com isso, tornar-se igual a Deus (Gn 3,5) e usurpar o seu lugar (cf. Gn 11,4; Fl 2,6). Só que aqui, neste caso, quem pretende usurpar o lugar de Deus é o diabo, prometendo a Jesus que lhe dará todo o poder e riquezas terrenas, se Ele, prostrado, fizer em relação a ele, aquilo que os magos, representando todos os gentios, Lhe tinham feito, logo após o seu nascimento em Belém: prostrar-se diante dele e adorá-lo (2,11). E junta-lhe a promessa de lhe dar tudo, se Ele o fizer.
 
* A lógica do diabo é muito simples: se Jesus é o Messias deve alcançar e garantir o seu poder, domínio e triunfo sobre todos os reinos e gentes da terra, pondo-os ao seu serviço e exigindo deles o culto idolátrico da sua pessoa, como faziam os monarcas da Antiguidade (cf. Jdt 3,8; Ez 28,2; Dn 3,5), culto esse que o diabo, como interessado final, reclama, também de Jesus, para si (cf. Is 14,13s; 2Ts 2,4). Desta forma, assegura-lhe o diabo, Jesus alcançará o poder e a riqueza que lhe são devidos, sem ter de percorrer o caminho do Pai, que passa pela sua paixão e morte de cruz. É a máxima pragmática política de “o fim justifica os meios” (exitus acta probat: Ovídio [†17 d.C.], Heroides 2, 85), tão contrária à sabedoria evangélicaa (cf. Catecismo da Igreja Católica, 1759). Uma tentação que será também dirigida aos cristãos pelos poderes políticos ao longo dos tempos (a começar pelo Sinédrio, passando depois pelo Império Romano e continuando a emergir aqui e ali, ao longo dos séculos, noutros países), de lhes poupar o sofrimento, as torturas e a vida, prometendo-lhes até riquezas, desde que prestem culto a eles (o Imperador ou o rei) e aos seus ídolos, obedeçam à sua vontade e sigam a sua ideologia (cf. Dn 3,6; 2Ma 7,24).
 
v. 10. Responde-lhe Jesus: «Vai-te, Satanás, porque está escrito: “Ao Senhor, teu Deus, adorarás e só a Ele prestarás culto”». Jesus rejeita todas as propostas de vida e de realização pessoal à margem do Pai e da sua vontade e invetiva o diabo, designando-o pelo seu nome original, “Satanás” (he. “o adversário”: 12,26; 1Cr 21,1; Jb 1,6-12; 2,1-7; Zc 3,1-2; Ap 12,9; 20,212,26), e dando-lhe, pela primeira vez, uma ordem: “Vai-te, Satanás” (gr. hýpage), manifestando a sua vitória e autoridade sobre ele. Uma invetiva semelhante terá de ouvir Simão Pedro, quando pretender desviar Jesus do desígnio e da vontade do Pai, embora, neste caso, Jesus o chame a retomar de novo o caminho do discipulado e do seguimento dele: “Vai-te para trás de mim, Satanás” (16,23; cf. 4,19).
 
* Simultaneamente Jesus contrapõe a Satanás Dt 6,13; 10,20, acrescentando-lhe, porém, no início, o mandamento, enunciado aqui, pela primeira vez, de forma positiva, de “adorar a Deus” (cf. Jo 4,24; Ap 14,7), e não meramente negativa – ou seja, como era habitual, como interdição de prestar culto a outros deuses (Ex 20,5; 23,24; Dt 5,9; Sl 81,10).
 
* Jesus não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida pelos homens (cf. 20,25-28), libertando-os do jugo de Satanás. Recusa assim o ídolo do dinheiro (Cl 3,5), raiz de todos os males (1Tm 6,10), pois “ninguém pode servir a dois senhores, Deus e Mamon” (6,24). Só a Deus, o único Deus vivo e verdadeiro, o Senhor de tudo – e a mais nenhum deus ou senhor terreno – se deve adorar e prestar culto, “pois Ele é a tua vida” (Dt 30,20).
 
* Todas as citações que Jesus faz da Sagrada Escritura são do livro do Deuteronômio – o último livro da Lei, que define a relação entre Deus e o homem como amor –, dos capítulos 6-8, onde se fala do culto apenas a Deus e das tentações de Israel no deserto e, depois, na Terra prometida.  Jesus mostra assim que o homem nunca poderá realizar-se fora do amor e da vontade do Pai, o único Deus, vivo e verdadeiro.
 
* Jesus vence as tentações do diabo com a força da Palavra de Deus, a oração e o jejum, ensinando os seus discípulos a vencê-las n'Ele também, do mesmo modo que Ele. Para isso, fortificados por aquelas, é necessário que se deixem conduzir pelo Espírito, sejam humildes (cf. Mq 6,8) e obedeçam com fé e amor à vontade do Pai, expressa na realidade, na história concreta de cada um, certos de que Ele cuidará de tudo e tudo fará concorrer para o bem daqueles que o amam e n'Ele confiam.
 
v. 11. Então o diabo deixa-o e eis que anjos se aproximaram e o serviam. Jesus é o único ser humano que correspondeu plenamente à vontade do Pai, obedecendo-lhe e amando-o de todo o coração. Por isso, se o primeiro Adão foi colocado no paraíso, onde, segundo escritos apócrifos da época era servido por anjos e aí foi tentado por Satanás (Vida de Adão e Eva 4,8; 8,1; TNeft 8,4.6), com muito mais razão Jesus, tendo vencido o diabo, recapitulando em si a história do seu povo e a da humanidade, é servido pelos anjos como novo Adão e Filho de Deus (cf. 26,53; Hb 1,6; Sl 97,7; Dt 32,43 LXX).
 
MEDITAÇÃO
1. Qual é o plano de Deus para mim? Confio nele, acredito no seu amor? Ou prefiro os meus projetos e desejos pessoais?
2. Olho apenas para o meu próprio conforto, êxito e poder ou também para os outros? Como posso imitar Jesus e seguir o seu caminho?
3. Nesta Quaresma, de que vou jejuar (cf. 1ª tentação), que vou partilhar com os outros (cf. 2ª tentação) e que tempo vou dedicar à oração (cf. 3ª tentação)?
 

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