terça-feira, 6 de março de 2012

 M E D I T A Ç Õ E S Q U A R E S M A I S
O SERVO SOFREDOR - A história da paixão de Cristo XV

Hoje, três vezes me negarás


     Então, voltando-se o Senhor, fixou os olhos em Pedro, e Pedro se lembrou da palavra do Senhor, como lhe dissera: Hoje, três vezes me negarás, antes de cantar o galo.  Então, Pedro, saindo dali, chorou amargamente (Lucas 22.61-62).


     Enquanto Jesus estava sendo interrogado no palácio do sumo sacerdote, sofrendo o escárnio e a zombaria, lá fora no pátio o apóstolo Pedro estava sendo arduamente atacado por Satanás, e caiu. A queda foi triste. Tão triste que todos os evangelistas a relatam minuciosamente. Eles o relatam não para difamar o apóstolo Pedro, mas para nossa mais severa advertência e consolo. Por isso é necessário que demos muita atenção a este acontecimento.

     Quando Jesus foi preso, todos os discípulos fugiram. Passado o primeiro susto, dois discípulos, João e Pedro, mudaram de idéia. Cada qual seguindo sozinho seu caminho. Eles foram ao palácio do sumo sacerdote para ver o que aconteceria a Jesus. João tinha amigos no palácio e conseguiu entrar fácil. Pouco depois veio Pedro, mas encontrou o portão do palácio fechado. Vendo-o João, foi falar com uma empregada que o deixou entrar. João pensou estar prestando um bom auxílio a Pedro. Também boas intenções, podem resultar, por vezes, em situações complicadas. No interior do palácio, João seguiu seu caminho. Pedro, sendo desconhecido neste lugar,,dados.esconhecido neste lugar, preferiu ficar no pumilhado1616161616161616161616161616161616161616161616161616161616161616161616161616 preferiu ficar no pátio e assentou-se junto aos soldados.

     Faz pouco, Pedro havia sido repreendido pelo Mestre por lançar mão à espada. Agora, novamente, sem ordem do Mestre avança e segue um caminho por conta própria. Não lembrou a advertência de Jesus: Esta noite me negarás. Se temos a ordem de Jesus para irmos a lugares difíceis, não devemos temer. Assim os apóstolos testemunharam mais tarde diante de reis e imperadores. Mas Pedro não tinha ordem para seguir Jesus ao palácio do sumo sacerdote. Satanás aproveitou a oportunidade e tentou arruiná-lo.

    Pedro sentou-se na roda dos escarnecedores. Nisso passou ali uma empregada e, vendo-o, disse: Este também estava com Jesus. Podemos imaginar o susto que Pedro levou. Ele começou imediatamente a defender-se, dizendo: Mulher, não sabes o que estas dizendo. Como é fácil cair. Uma pequena palavra pode arruinar tudo. Satanás usou uma de suas armas preferidas, a língua de mulheres para tombar o corajoso apóstolo Pedro. Este também estava com ele. Poucas e simples palavras que encheram a alma de Pedro de pavor e medo.

     Pedro saiu dali. Depois voltou para o fogo, e para disfarçar conversou com os soldados. Tendo passado uma hora, um homem olhou para ele disse: Também este verdadeiramente estava com ele, porque também é galileu. Pedro respondeu: Homem, não compreendo o que dizes. E logo, estando ele ainda a falar, cantou o galo. Então, voltando-se o Senhor, ficou os olhos em Pedro, e Pedro se lembrou da palavra do Senhor, como lhe dissera: Hoje três vezes me negarás, antes de cantar o galo. Então Pedro, saindo dali, chorou amargamente. (Lc 22.60-62). As palavras de Jesus: Depois de te arrependeres, fortalece os irmãos (Lc 22.32), evitaram que ele desesperasse. As palavras de perdão de Jesus, às quais Pedro de apegou o reergueram.

     A Escritura nos admoesta: Quem está de pé, veja que não caia (1 Co 10.12). Infelizmente muitos que não somente estavam de pé, mas que foram, por um tempo, cheios do Espírito Santo e abundantes na obra do Senhor, caíram. Por isso o salmista pede fervorosamente a Deus: Ensina-me a fazer a tua vontade, pois tu és o meu Deus; guie-me o teu bom Espírito por terreno plano (Salmos 143.10). E: Cria em mim, ó Deus, um coração puro e renova dentro de mim um espírito inabalável.  Não me repulses da tua presença, nem me retires o teu Santo Espírito.  Restitui-me a alegria da tua salvação e sustenta-me com um espírito voluntário (Salmos 51.10-12).

    Pedro não havia dado a devida atenção às palavra de Jesus e se colocou em tentação. Quantas vezes isto já aconteceu conosco. Mas Jesus orou por ele (Lc 22.32), como ainda ora por nós. E nós oramos, incluindo todos nossos irmãos: Não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do mal.

segunda-feira, 5 de março de 2012

M E D I T A Ç Õ E S Q U A R E S M A I S
O SERVO SOFREDOR - A história da paixão de Cristo XIV

Profetiza-nos, ó Cristo!

Então, uns cuspiram-lhe no rosto e lhe davam murros, e outros o esbofeteavam, dizendo: Profetiza-nos, ó Cristo, quem é que te bateu! (Mateus 26.67-68)


     Para o alívio de todos, soou, finalmente, pelo salão do sinédrio a sentença: É réu de morte! Blasfemou, é réu de morte! Agora não podiam mais conter sua fúria. Começaram a zombar dele e feri-lo na alma e no corpo. Cuspiram-lhe no rosto. Davam-lhe bofetadas. Zombavam dele, dizendo: Profetiza, ó Cristo, quem é que te bateu? Parece que precisavam convencer sua própria consciência, pelo zombar e humilhá-lo, de que ele não era o Filho de Deus. Mas a consciência não cala. Ficou demasiadamente comprovado de que ele era o Filho de Deus.
     Jesus sofre calado. Já disse o profeta: O SENHOR Deus me abriu os ouvidos, e eu não fui rebelde, não me retraí.  Ofereci as costas aos que me feriam e as faces, aos que me arrancavam os cabelos; não escondi o rosto aos que me afrontavam e me cuspiam.  Porque o SENHOR Deus me ajudou, pelo que não me senti envergonhado; por isso, fiz o meu rosto como um seixo e sei que não serei envergonhado. (Isaías 50.5-7)
     E salmista afirma: Mas eu sou verme e não homem; opróbrio dos homens e desprezado do povo.  Todos os que me vêem zombam de mim; afrouxam os lábios e meneiam a cabeça (Salmos 22.6-7). Jesus suportou voluntariamente nossas dores. O quanto ele teve que se humilhar para nos resgatar.
     Ao contemplar este quadro em que os homens honrados do sinédrio, homens sábios, conhecedores da Escritura e venerados zombam de Jesus – vemos como que num espelho. Ali vemos os nossos próprios pensamentos. Ali vemos o que realmente se passa em nosso interior. Somos, já por nascimento, inimigos de Deus. Jesus afirmou: Porque do coração procedem maus desígnios, homicídios, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos, blasfêmia (Mateus 15.19). E o apóstolo Paulo afirma: O pendor da carne é inimizade contra Deus, pois não está sujeito à lei de Deus, nem mesmo pode estar (Romanos 8.7). A inclinação de nossa carne, de nossa natureza carnal, está sempre inclinada para o mal. Importa que façamos um sincero exame de nossa consciência. Por exemplo: Temos tempo para Deus, ler e ouvir a sua palavra? Tempo para a oração? Aceitamos a palavra com singeleza de coração ou a colocamos em dúvida? E quando Deus não atende nossas orações e nos dirige por caminhos difíceis, aceitamos humildemente os caminhos de Deus, como Jó que disse: O SENHOR o deu e o SENHOR o tomou; bendito seja o nome do SENHOR! (Jó 1.21) Mesmo como cristãos temos ainda nossa natureza carnal e cabe-nos afogá-la, crucificá-la diariamente, por contrição e arrependimento. Esta luta é diária. Jesus nos comprou com o seu precioso sangue, para que vivamos não mais para nós mesmos, mas para aquele que por nosso morreu e ressuscitou (2 Co 5.15). Que Deus Espírito Santo nos ajude.

domingo, 4 de março de 2012

M E D I T A Ç Õ E S    Q U A R E S M A I S
O SERVO SOFREDOR - A história da paixão de Cristo XIII

Diga-nos se tu és o Cristo, o Filho de Deus
     Jesus, porém, guardou silêncio. E o sumo sacerdote lhe disse: Eu te conjuro pelo Deus vivo que nos digas se tu és o Cristo, o Filho de Deus.  Respondeu-lhe Jesus: Tu o disseste; entretanto, eu vos declaro que, desde agora, vereis o Filho do Homem assentado à direita do Todo-Poderoso e vindo sobre as nuvens do céu.  Então, o sumo sacerdote rasgou as suas vestes, dizendo: Blasfemou! Que necessidade mais temos de testemunhas? Eis que ouvistes agora a blasfêmia! (Mateus 26.63-65)
     O tribunal eclesiástico condena Jesus. Quanto mais procuravam motivos para condená-lo, tanto mais brilhava a verdade: Ele é o Filho de Deus. Esta verdade se tornou tão forte na consciência do sumo sacerdote que ele já não conseguia mais escondê-la. Por isso ele perguntou em voz bem alta: Eu te conjuro pelo Deus vivo que nos digas se tu és o Cristo, o Filho de Deus? Era este o medo que estava na alma de todos ali reunidos. Jesus, que até agora havia guardado silêncio, já não pôde mais calar. Há hora de silenciar e hora de falar. Jesus respondeu com clareza: Eu o sou! Eu sou o Cristo. Portanto, ele era o Ungido, o esperado desde Adão e Eva. Aquele que fora profetizado, a quem João Batista anunciou. Como, porém, os fariseus não acreditavam nem nos profetas, e tinham determinado em seus corações matar Jesus e não ouvi-lo, Jesus acrescentou: Entretanto, eu vos declaro que, desde agora, vereis o Filho do Homem assentado à direita do Todo-Poderoso e vindo sobre as nuvens do céu. O tempo da humilhação de Jesus em breve chegaria ao fim. Mais um pouco. Logo mais, após o sepultamento iniciaria a exaltação de Jesus. Eles ouviriam a respeito da ressurreição, do dia de Pentecostes e do testemunho dos apóstolos. E todos eles se defrontariam com ele após a morte.
     Apavorados e assustados, por ouvirem a verdade com tão grande simplicidade e vigor, mas também alegres por lhes ter ocorrido esta pergunta, gritam: Blasfemou! Que necessidade mais temos de testemunhas? Eis que ouvistes agora a blasfêmia! E o  condenaram à morte.
    Lembremos, Jesus é nosso substituto. A acusação de blasfemador que ele sofreu, ele a sofreu em lugar de todos nós. Adão e Eva queriam ser igual a Deus, isto foi sua blasfêmia. Eis o pecado principal de todos nós. Todos nós somos réus de morte. Quantas blasfêmias clamam ainda hoje aos céus. Os pecados de toda a ordem, as superstições, as falsas doutrinas, etc.
     Somos gratos a Jesus por ter expiado esta nossa culpa e nos oferecer perdão, vida e eterna salvação. Redimidos por ele queremos servi-lo com coração sincero e aguardar a sua vinda em glória ou o momento em que ele nos chama para a glória.

sábado, 3 de março de 2012

LECTIO DIVIDA DO II DOMINGO DA QUARESMA
Ir. Alzira Sousa, fma

«Este é o meu Filho muito amado: escutai-O».


                Neste tempo da Quaresma procuramos a forma de nos configurarmos com Aquele que se transfigura diante de nós como “Filho muito amado de Deus”. É o tempo favorável para a escuta. A escuta da sua mensagem. Do seu projeto. Da sua novidade. É o tempo favorável de nos conformarmos à sua vontade.

EVANGELHO SEGUNDO S. MARCOS (Mc 9,2-10)
Naquele tempo, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João e subiu só com eles para um lugar retirado num alto monte e transfigurou-Se diante deles. As suas vestes tornaram-se resplandecentes, de tal brancura que nenhum lavadeiro sobre a terra as poderia assim branquear. Apareceram-lhes Moisés e Elias, conversando com Jesus. Pedro tomou a palavra e disse a Jesus: «Mestre, como é bom estarmos aqui! Façamos três tendas: uma para Ti, outra para Moisés, outra para Elias». Não sabia o que dizia, pois estavam atemorizados. Veio então uma nuvem que os cobriu com a sua sombra e da nuvem fez-se ouvir uma voz: «Este é o meu Filho muito amado: escutai-O». De repente, olhando em redor, não viram mais ninguém, a não ser Jesus, sozinho com eles. Ao descerem do monte, Jesus ordenou-lhes que não contassem a ninguém o que tinham visto, enquanto o Filho do homem não ressuscitasse dos mortos. Eles guardaram a recomendação, mas perguntavam entre si o que seria ressuscitar dos mortos.

SEGUNDA-FEIRA

PALAVRA - «Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João»
     Na passagem que o Evangelho de hoje nos apresenta, Marcos convida-nos a subir com Jesus ao monte Tabor, fazendo-nos acompanhar por Pedro, Tiago e João. Situando este texto no conjunto do evangelho, ele surge-nos “seis dias depois” de Jesus ter falado à multidão do “caminho da Cruz” e das exigências que são colocadas a todo aquele que O quer seguir. Este caminho da Cruz apresenta-se doloroso para os discípulos. Logo eles, que tinham uma relação próxima com o Mestre e apostaram a própria vida no seguimento de um Messias envolvido em glória e poder.
 MEDITAÇÃO
     Este monte é espaço de silêncio e contemplação, onde podemos escutar Deus, que nos fala ao coração. Pedro, Tiago e João são os primeiros discípulos chamados por Jesus (cf. Mc 1,16-20), são as testemunhas da ressurreição da filha de Jairo (cf. Mc 5,37-43), são aqueles que Jesus irá levar consigo na hora da sua luta na agonia do Getsemani (cf. Mc 14,32-42), quando O verão desfigurado pela angústia e a dor.
    Antes, Jesus anunciava a chegada eminente do Reino. Agora insiste nas exigências do seguimento e na necessidade de tomar cada dia a sua cruz. Antes ensinava a multidão. Agora preocupa-se principalmente com a formação dos seus discípulos.
    Jesus dá-nos a conhecer os passos de um caminho que é seguimento da sua própria vida. Será que me reconheço discípulo(a) amado(a) e chamado(a) a seguir Jesus, tal como Pedro, Tiago e João o foram? Neste caminho, há subidas e descidas, momentos de grande festa e outros de solidão, mas, acima de tudo, existem prioridades que, como seus discípulos, devemos descobrir e tomar a sério. São opções que nos transformam e nos configuram a Ele.
 ORAÇÃO
«Levanto os olhos para os montes:
de onde me virá o auxílio?
O meu auxílio vem do SENHOR
que fez o céu e a terra.
Ele não deixará que vacilem os teus pés;
aquele que te guarda, não dormirá.
Pois não há de dormir nem cochilar,
aquele que guarda Israel.
O SENHOR é quem te guarda e está a teu lado.
Ele é a tua proteção.
O Sol não te fará mal durante o dia,
nem a Lua, durante a noite.
 O SENHOR protege-te de todo o mal
e vela pela tua vida.
O SENHOR protege-te nas tuas idas e vindas,
agora e para sempre.» (Sl 121)
AÇÃO
   No desejo de seguir Jesus com liberdade e autenticidade, vou hoje procurar identificar e assumir alguma(s) prioridade(s) para a minha vida de discípulo de Jesus neste tempo favorável da Quaresma... Que beleza ser a comunhão da Igreja a fortalecer-nos neste caminho!

TERÇA-FEIRA
 PALAVRA - «Subiu só com eles para um lugar retirado num alto monte e transfigurou-Se diante deles.»
     Se o primeiro Domingo da Quaresma nos mostrou Jesus na solidão do deserto, sujeito aos perigos das tentações e do mal, hoje, no silêncio e na solidão do alto monte, toda a pessoa de Jesus se transfigura na glória do Pai. No coração deste itinerário quaresmal, a transfiguração de Jesus indica a meta para a qual tendem os peregrinos deste caminho: a Ressurreição, o acontecimento da Páscoa, do qual a Transfiguração é antecipação e profecia.
 MEDITAÇÃO
    A experiência do Tabor é motivo de consolação para Jesus e para os discípulos. Enquanto para Jesus a consolação ganha visibilidade no seu transfigurar-se e na alegria antecipada pela vitória de Deus sobre o mal e sobre a morte, para os discípulos, e, portanto também para nós, a consolação fundamenta-se nesta certeza que os limites, o pecado e as dificuldades da nossa existência podem sempre dilatar-se em horizontes infinitos de esperança. Tudo parte da confiança que depositamos no amor infinito de Deus que contrasta totalmente com a nossa frágil humanidade mas que nunca nos esmaga.
 A transfiguração é a pausa contemplativa que consola e nos re-coloca em caminhos de conversão, nos mostra a bondade e beleza do Deus que nos quer atrair a si para transfigurar o nosso ser. Há um amor que nos alcança e atrai e um perdão que nos transfigura à medida da nossa confiança em Jesus e da escuta da sua Palavra.
 ORAÇÃO
«Mas o SENHOR espera a hora de poder mostrar-vos a sua graça,
agüenta para se compadecer de vós;
porque o SENHOR é um Deus justo,
e ditosos os que nele esperam.
Povo de Sião, que habitas em Jerusalém,
já não chorarás mais,
porque o SENHOR terá piedade de ti
quando ouvir a tua súplica,
e, mal te ouça, logo te responderá.» (Is 30, 18-19)
 AÇÃO
     Hoje deixarei que o mistério da Transfiguração do Senhor Jesus me console, me dê coragem e me ajude a ler os acontecimentos dolorosos da vida como pequenos passos de purificação ou etapas de um caminho providencial no qual Deus segue ao meu lado.

QUARTA-FEIRA

PALAVRA - «As suas vestes tornaram-se resplandecentes, de tal brancura que nenhum lavadeiro sobre a terra as poderia assim branquear. Apareceram-lhes Moisés e Elias, conversando com Jesus.»
        Marcos insiste na brancura das vestes de Jesus que “se tornaram resplandecentes, de tal brancura que nenhum lavadeiro sobre a terra as poderia assim branquear”. A mudança do rosto e as vestes brilhantes, de uma brancura sem par, recordam o resplendor de Moisés, ao descer do Sinai (cf. Ex 34,29) depois de se encontrar com Deus e de ter recebido a Lei. Uma vez que a cor branca representa a glória celeste, Marcos pretende manifestar-nos a divindade de Jesus, que assume e aperfeiçoa a missão profética de Elias e a missão legislativa de Moisés. Há como que uma luz que Moisés e Elias projetam sobre Jesus, indicando-O como Aquele que realiza as Escrituras, mas, por sua vez, Jesus projeta à sua volta uma luz que ilumina as Escrituras, explica-as e revela o seu sentido pleno (cf. Lc 24,25-27). Torna-se assim claro que o Antigo Testamento, tanto a Lei como os Profetas, já indicava que o caminho da glória passa pela cruz (cf. Is 53).
 MEDITAÇÃO
      Este esplendor luminoso, que manifesta exteriormente a identidade de Jesus, não vem de fora, mas de dentro, da sua própria pessoa. É no seu encontro com o Pai que Jesus se transforma: a plena identificação com o Pai resplandece no seu rosto. O caminho de transformação interior dos discípulos é o mesmo do que foi para Jesus: a oração, vivida como escuta e diálogo na fé e no abandono humilde em Deus, tem a capacidade de transformar a vida do cristão. De fato, a oração é a experiência central de todo aquele que segue Jesus. É da oração que recebemos o alimento da nossa identidade e a força da nossa missão.
 ORAÇÃO
«Quando Israel era ainda menino,
Eu amei-o, e chamei do Egito o meu filho.
Mas, quanto mais os chamei,
mais eles se afastaram;
ofereceram sacrifícios aos ídolos de Baal
e queimaram oferendas a estátuas.
Entretanto, Eu ensinava Efraim a andar,
trazia-o nos meus braços,
mas não reconheceram
que era Eu quem cuidava deles.
Segurava-os com laços humanos,
com laços de amor,
fui para eles como os que levantam
uma criancinha contra o seu rosto;
inclinei-me para ele para lhe dar de comer.» (Os 11, 1-4)
 AÇÃO
        Ao longo deste dia, e porque não tomando-o como empenho regular, procuro fazer espaço em mim a este convite: sei de fato escutar a Palavra de Deus? Deixo-me interpelar por Ela? Ou evado-me nas emoções superficiais e perco-me da referência central que é Jesus e a sua mensagem de vida? Peço ao Senhor a capacidade de me abrir ao horizonte do amor sem limites do Pai por mim.

QUINTA-FEIRA

PALAVRA - “Pedro tomou a palavra e disse a Jesus: «Mestre, como é bom estarmos aqui! Façamos três tendas: uma para Ti, outra para Moisés, outra para Elias. Não sabia o que dizia, pois estavam atemorizados».
     Pedro gosta de tudo o que está a acontecer e quer prolongar aquele momento encantador no cimo do monte. Até propõe que se construam três tendas. Marcos diz também que Pedro estava atemorizado e não sabia o que estava a dizer. Pedro quer construir tendas, porque era o sexto dia da festa das tendas, uma festa muito popular de seis dias que festejava a dádiva da Lei de Deus e os quarenta anos passados no deserto (cf. Zac 14,16-18). Era uma semana em que o povo construía tendas improvisadas. Pedro oferece-se prontamente para as construir. Talvez como tentativa para não se confrontar com a realidade do caminho da Cruz que Jesus lhe falara.
 MEDITAÇÃO
     Mesmo assustado e confuso, Pedro teria preferido parar o ritmo do tempo naquela agradável vinda do Reino como uma eterna “festa das tendas”. Depois da crise que sofreu com o anúncio da paixão, aquela experiência de intimidade com o Mestre e o ter escutado aquele «Filho muito amado do Pai», confirmaram a vocação e o compromisso de Pedro numa missão corajosa de anúncio, até ao martírio. Mas, antes, Pedro precisava sair dos seus esquemas mentais para entrar no modo de pensar de Deus. Tal como Pedro, Tiago e João, também nós precisamos saber enfrentar com coragem as “subidas ao monte”, a aceitar o risco de nos confiarmos totalmente nas mãos do Mestre. Só assim poderemos ser conduzidos a esta experiência de contemplar o rosto de Deus que nos transforma e nos torna capazes de um autêntico martyrium, ou seja, de testemunhar a vida em Cristo Jesus.
 ORAÇÃO
«Eis o meu servo, que Eu amparo,
o meu eleito, que Eu preferi.
Fiz repousar sobre ele o meu espírito,
para que leve às nações a verdadeira justiça.
Ele não gritará, não levantará a voz,
não clamará nas ruas.
Não quebrará a cana rachada,
não apagará a mecha que ainda fumega.
Anunciará com toda a fidelidade a verdadeira justiça.
Não desanimará, nem desfalecerá,
até estabelecer na terra o direito,
as leis que os povos das ilhas esperam dele.» (Is 42,1-4)
 AÇÃO
   A conversão é um dom de Deus, mais do que um esforço nosso. O fundamental é deixarmo-nos converter, mudar por Ele, aderir à sua vontade. Procuro hoje descobrir algum esquema rígido do meu modo de pensar ou agir que me fecha “ilusoriamente” numa tenda construída só para mim e me impede de me aproximar mais de Deus e dos meus semelhantes. O que está o Senhor a pedir-me para mudar?

SEXTA-FEIRA

PALAVRA - “Veio então uma nuvem que os cobriu com a sua sombra e da nuvem fez-se ouvir uma voz: «Este é o meu Filho muito amado: escutai-O». De repente, olhando em redor, não viram mais ninguém, a não ser Jesus, sozinho com eles”.
      Viram-se subitamente envolvidos numa nuvem que os cobriu com a sua sombra, simbolizando o amor do Deus trinitário. Dessa nuvem surgiu a voz do Pai que lhes dizia: “Este é o meu Filho muito amado: escutai-o”. A expressão “Filho muito amado” evoca a figura do Messias Servo, já anunciado pelo profeta Isaías (cf. Is 42,1). E a expressão “escutai-o” recorda a profecia que prometia a vinda de um novo Moisés (cf. Dt 18,15). Jesus é, em verdade, o Messias glorioso, mas o seu caminho de glória passa pela Cruz (cf. Is 53,3-9). A glória da Transfiguração é a prova disso. Moisés e Elias confirmam-no, o Pai garante-o e Jesus aceita. Depois da visão os discípulos só vêem Jesus, sugerindo que daquele momento por diante Jesus é a única revelação de Deus para nós.
 MEDITAÇÃO
     Os discípulos recebem a garantia de que o projeto que Jesus apresenta é um projeto que vem de Deus. Apesar das suas próprias dúvidas, Jesus passa a ser o único critério para uma vida em plenitude, a única revelação de Deus para cada um de nós. Jesus é o Filho amado de Deus, que vai concretizar o projeto salvador e libertador do Pai em favor dos homens através do dom da vida, da entrega total de si próprio por amor.
     E para mim? Onde está a realização plena da minha vida? Quem tem razão: Deus entregue por amor ou os esquemas humanos que hoje dominam o mundo e que nos impelem a uma lógica diferente da do Evangelho?
 ORAÇÃO
«Que o Deus de Nosso Senhor Jesus Cristo,
o Pai a quem pertence a glória,
vos dê o Espírito de sabedoria e vo-lo revele,
para o conhecerdes;
sejam iluminados os olhos do vosso coração,
para saberdes que esperança nos vem do seu chamamento,
que riqueza de glória contém a herança
que Ele nos reserva entre os santos
e como é extraordinariamente grande o seu poder para conosco,
os crentes, de acordo com a eficácia da sua força poderosa,
que eficazmente exerceu em Cristo:
ressuscitou-o dos mortos e sentou-o à sua direita, no alto do Céu»  (Ef 1, 16-20)
 AÇÃO
                Jesus não pode ser a projeção dos meus desejos, não é o Deus que eu imagino ou construo com os meus reduzidos esquemas. Há que ousar escutar e conhecer melhor o Filho muito amado do Pai, que veio ao mundo para que tenhamos vida em abundância. Hoje deixo que as palavras do Pai acompanhem o bater do meu coração e inundem de vida as minhas palavras, silêncios e gestos: «Este é o meu Filho muito amado: escutai-O.»

 SÁBADO

PALAVRA  - «Ao descerem do monte, Jesus ordenou-lhes que não contassem a ninguém o que tinham visto, enquanto o Filho do homem não ressuscitasse dos mortos.»
       Depois de tão agradável pausa, os três discípulos são convidados a descer do monte, a seguirem Jesus no mundo que o próprio Deus ama com ternura: «Deus amou tanto o mundo, que lhe entregou o seu Filho Unigênito, a fim de que todo o que nele crê não se perca, mas tenha a vida eterna» (cf. Jo3,16). Jesus pede aos seus discípulos para não contarem nada a ninguém até ao momento da sua Ressurreição. Porém os discípulos não compreenderam, assim como não entenderam o significado da Cruz. Para conhecer a glória, é preciso passar pelo sofrimento e pela morte. A Ressurreição de Jesus é a prova de que a vida é mais forte do que a morte.
 MEDITAÇÃO
     A experiência da Transfiguração está intimamente ligada à experiência da Cruz! Se formos coerentes com a nossa fé, teremos muitas vezes de fazer a experiência de "Cruz", o que pode não soar muito bem num contexto em que se valoriza o prazer ou o que é mais fácil! A experiência de uma vida unida ao Senhor não nos deixa instalados no intimismo, mas leva-nos a aprofundar a fé e o seguimento. É precisamente no concreto da minha vida que me torno seguidor de Jesus, quando levo a paz e a verdade ao próximo, quando sou solidário nos desafios e nos problemas de cada dia. Ser seguidor de Jesus impele-nos a “regressar ao mundo” para dizer com o nosso testemunho que a realização autêntica está no dom da vida, por amor.
 ORAÇÃO
«Deus dos nossos pais e Senhor de misericórdia,
que tudo criaste pela tua palavra,
que formaste o homem pela tua sabedoria,
a fim de que dominasse sobre todas as criaturas que chamaste à existência,
governasse o mundo com santidade e justiça
e exercesse o julgamento com retidão de espírito,
dá-me a sabedoria que se senta junto do teu trono
e não me excluas do número dos teus filhos.» (Sab 9,1-4)
 AÇÃO
      Preparo a minha “descida” à realidade e deixo-me pôr em jogo pela Palavra de Deus: o que posso fazer no meu dia-a-dia para transformar este mundo que Deus ama? Como me soam as palavras “dar a vida”? 

 LEIA ABAIXO A MEDITAÇÃO QURESMAL DESTE DOMINGO.



M E D I T A Ç Õ E S    Q U A R E S M A I S
O SERVO SOFREDOR - A história da paixão de Cristo XII

O sumo sacerdote interroga a Jesus

     Então, o sumo sacerdote interrogou a Jesus acerca dos seus discípulos e da sua doutrina.  Declarou-lhe Jesus: Eu tenho falado francamente ao mundo; ensinei continuamente tanto nas sinagogas como no templo, onde todos os judeus se reúnem, e nada disse em oculto.  Por que me interrogas? Pergunta aos que ouviram o que lhes falei; bem sabem eles o que eu disse (João 18.19-21).

    A alegria entre os fariseus foi grande. Parece que eles próprios não estavam acreditando terem Jesus manietado em seu palácio. De fato, depois de tantas tentativas malogradas, especialmente, daquela uma, na qual eles queriam apedrejá-lo; Jesus, porém, tornou-se invisível e passou no meio deles (João 8.59). Agora estava preso no palácio. Às pressas convocaram o sinédrio, constituído de 72 pessoas das mais sábias e veneradas em Jerusalém. Quanto alvoroço nessa hora da noite. Eles queriam resolver tudo durante a noite até a madrugada, a fim de não alvoroçar o povo. Mas Deus tinha outros planos.
    Enquanto o Sinédrio era reunido, Jesus foi levado e entregue a Anás, que havia ocupado o cargo de sumo sacerdote antes de Caifás, agora estava aposentado. Anás deveria interrogar a Jesus para ver se pudesse encontrar um motivo para o condenarem. Anás interrogou a Jesus acerca dos seus discípulos e da sua doutrina. Se pudessem acusá-lo de doutrina falsa, teriam um motivo justo para o matar. Pois falsos profetas deveriam ser punidos com a morte. Interrogou-o acerca de seus discípulos, para poderem acusá-lo diante dos romanos de rebelião, a fim de ser também por eles condenado à morte.
    Jesus respondeu: Eu tenho falado francamente ao mundo. Ensinei continuamente no templo e nas sinagogas e nas ruas. Eu nada disse em oculto. Pergunta aos que me ouviram. Eles sabem o que eu disse. Por que me interrogas? Os fariseus e também Anás conheciam muito bem o ensino de Jesus. Eles o ouviram muitas vezes. Tantas vezes tentaram surpreendê-lo em alguma afirmação errada, mas não conseguiram nada. Eles sabiam muito bem que Jesus não era um falso profeta. Além disso, era dever deles ter primeiro a acusação e as provas, só então poderiam prender alguém. A situação se tornava cada vez mais embaraçosa. Na medida em que o interrogavam, a inocência e a santidade de Jesus brilhavam cada vez mais. Um guarda percebeu isso e deu uma bofetada em Jesus. Jesus lhe disse: Porque me feres. Se falei mal, dá testemunho do mal; mas se falei bem, por que me feres? Então eles o levaram manietado para a presença do sumo sacerdote Caifás e o sinédrio.   
      Este era o poder das trevas. O apóstolo João afirma: Os homens amaram mais as trevas do que a luz (Jo 3.19). Sim, Anás e os principais sacerdotes conheciam os ensinamentos de Jesus. Eles, que deveria zelar pela retidão da palavra de Deus e do ensino dessa palavra, bem como preparar o povo para receberem Jesus, mas eles se afastaram de Deus e de sua Palavra. Eles sabiam disso, por isso odiaram Jesus porque ele tirou deles, dos sacerdotes, fariseus e escribas, a máscara da hipocrisia e o fez em público, no templo, nas escolas e onde quer que ensinava e dizia:
     Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque fechais o reino dos céus diante
dos homens; pois vós não entrais, nem deixais entrar os que estão entrando!  Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque devorais as casas das viúvas e, para o justificar, fazeis longas orações; por isso, sofrereis juízo muito mais severo!  Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque rodeais o mar e a terra para fazer um prosélito; e, uma vez feito, o tornais filho do inferno duas vezes mais do que vós!  Ai de vós, guias cegos, que dizeis: Quem jurar pelo santuário, isso é nada; mas, se alguém jurar pelo ouro do santuário, fica obrigado pelo que jurou!  Insensatos e cegos! Pois qual é maior: o ouro ou o santuário que santifica o ouro?  E dizeis: Quem jurar pelo altar, isso é nada; quem, porém, jurar pela oferta que está sobre o altar fica obrigado pelo que jurou.  Cegos! Pois qual é maior: a oferta ou o altar que santifica a oferta?  Portanto, quem jurar pelo altar jura por ele e por tudo o que sobre ele está.  Quem jurar pelo santuário jura por ele e por aquele que nele habita;  e quem jurar pelo céu jura pelo trono de Deus e por aquele que no trono está sentado.  Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho e tendes negligenciado os preceitos mais importantes da Lei: a justiça, a misericórdia e a fé; devíeis, porém, fazer estas coisas, sem omitir aquelas!  Guias cegos, que coais o mosquito e engolis o camelo!  Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque limpais o exterior do copo e do prato, mas estes, por dentro, estão cheios de rapina e intemperança!  Fariseu cego, limpa primeiro o interior do copo, para que também o seu exterior fique limpo!  Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque sois semelhantes aos sepulcros caiados, que, por fora, se mostram belos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda imundícia! (Mateus 23.13-27)
     Eis a razão porque os fariseus odiaram Jesus, porque ele lhes disse a verdade. Então tentaram acusá-lo de falsa doutrina, de agitador, de perturbador da paz. Coisas que continuam fazendo até hoje. Os discípulos não estão acima de seu mestre. Importa que confessemos a verdade destemidamente.

sexta-feira, 2 de março de 2012

M E D I T A Ç Õ E S    Q U A R E S M A I S
O SERVO SOFREDOR - A história da paixão de Cristo XI

 Deixai, basta.

     Então, Simão Pedro puxou da espada que trazia e feriu o servo do sumo sacerdote, cortando-lhe a orelha direita; e o nome do servo era Malco.  Mas Jesus disse a Pedro: Mete a espada na bainha; não beberei, porventura, o cálice que o Pai me deu? (João 18.10-11)
     Mas Jesus acudiu, dizendo: Deixai, basta. E, tocando-lhe a orelha, o curou (Lucas 22.50,51).

     Quando Jesus disse: Sou eu! Os inimigos caírem por terra. Isso parece ter encorajado a Pedro. Jesus deixou que se levantassem novamente. Ainda não era hora do julgamento.  Jesus deu-lhes a ordem: Se é a mim que buscais, deixai ir estes. Então os soldados avançaram para prendê-lo. Os discípulos se entreolharam e perguntaram a Jesus: Senhor, feriremos à espada? Pedro como sempre, não esperou a resposta e passou a ação. Em fervente entusiasmo por Jesus, puxou da espada e feriu um dos servos do sumo sacerdote, cortando-lhe a orelha direita. Imediatamente Jesus intervém e diz a Pedro: Embainha a tua espada, pois quem com a espada fere, com a espada será ferido. O que estava errado? Pedro agiu por amor a Jesus. Mas ele não havia esperado a resposta de Jesus. Esquecera-se de quem era filho, daquele que dissera: Amai os vossos inimigos (Marcos 5.44). Não tornei a ninguém mal por mal (Romanos 12.17). Esqueceu-se de que Jesus tinha dito que tudo isso deveria acontecer para que se cumprisse a Escritura. Esqueceu-se de que Jesus tinha dito: Acaso pensas que não posso rogar a meu Pai, e ele me mandaria neste momento mais de doze legiões de anjos? Como, pois, se cumpriram as Escrituras, segundo as quais assim deve suceder (Mateus 26.63).
     Quantas vezes cristãos agem como Pedro? Num zelo e entusiasmo carnal avançam sem a ordem nem a promessa de Deus. Temos hoje muitos que tomam uma e outra palavra de Deus, para fora do seu contexto e do todo da Bíblia e julgam poderem dar ordens a Deus para curar, para empreendimentos grandiosos que fracassam e levam muitos ao desespero.
     O apóstolo Pedro, repreendido por Jesus, embainhou sua espada. Jesus se inclinou para a terra, juntou a orelha decepada e curou o servo, cujo nome era Malco. Este foi o último milagre de Jesus antes de sua morte. Os inimigos e contemplaram admirados. Jesus lhes disse: Saístes com espadas e porretes como para deter um salteador?  Diariamente, estando eu convosco no templo, não pusestes as mãos sobre mim. Esta, porém, é a vossa hora e o poder das trevas. Palavras opostas: Salteador e templo. Não, não, Jesus não era um salteador. Ele ensinou publicamente durante três anos em toda a Palestina, revelando seu amor às pessoas. Mas, agora é tratado como salteador. Quanta incompreensão, cegueira e ingratidão.  Esta ingratidão Jesus colhe diariamente, ainda hoje, não só dos inimigos, mas, infelizmente, também de todos nós, de sua igreja.
     Parece incrível. Os principais sacerdotes, os anciãos do povo, que são os representantes de Deus, que lidavam com a Bíblia, diariamente, estão sob o poder das trevas, a serviço das trevas. Eles, que deveriam estar a serviço da luz e se orgulhavam dizendo: Somos filhos de Abraão (Lc 3.8). Que cegueira. Eles que deveriam receber Jesus de braços abertos, estão prendendo e condenando o Filho de Deus à morte. Terrível.
     Em sua presciência, Deus previu tudo. Tudo foi escrito para advertência, para que ninguém pudesse se desculpar, dizendo: Eu não sabia. Os fariseus o sabiam. Por isso temia Jesus. Por isso, as espadas, cacetes, tochas. É o poder das trevas.
     Jesus lhes estende voluntariamente as mãos. E eles não receiam em amarrá-lo. Amarar as mãos que há pouco ainda curaram milagrosamente a orelha decepada. Eles não querem o Salvador. Bem afirma o Salmo: Os reis da terra se levantaram, e os príncipes conspiram contra o Senhor e contra o seu Ungido, dizendo: Rompamos os seus laços e sacudamos de nós as suas algemas (Salmo 2.2).  Voluntariamente Jesus estende suas mãos e se entrega para ser amarrado, a fim de nos libertar desses laços das trevas. E ele os rompeu todos. Nós podemos jubilar e dizer: SENHOR, deveras sou teu servo, teu servo, filho da tua serva; quebraste as minhas cadeias. Oferecer-te-ei sacrifícios de ações de graças e invocarei o nome do SENHOR (Salmos 116.16,17).

quinta-feira, 1 de março de 2012

M E D I T A Ç Õ E S    Q U A R E S M A I S
O SERVO SOFREDOR - A história da paixão de Cristo X
A Jesus, o Nazareno

       Jesus, de novo, lhes perguntou: A quem buscais? Responderam: A Jesus, o Nazareno.  Então, lhes disse Jesus: Já vos declarei que sou eu; se é a mim, pois, que buscais, deixai ir estes (João 18.7-8).

     Era chegada a hora do poder das trevas. Muitas vezes os fariseus haviam tentado matar a Jesus, mas em vão. Agora, porém, o conseguiram. Os dois grupos se encontraram frente a frente. Jesus e seus discípulos e Judas, com os fariseus, anciãos, guardas e soldados. Os filhos de Deus, tendo à frente o próprio Filho de Deus, um grupo pequeno, e os filhos das trevas, tendo à frente, Judas, mas atrás de todos está o próprio senhor das trevas, Satanás. Assim ainda hoje se apresenta o quadro: um grupo pequeno, o de Jesus, um grupo grande o de Satanás.
     Jesus foi ao encontro deles sabedor de tudo o que iria acontecer. Revelou-lhes seu poder, fazendo-os cair por terra. Revelou-lhes seu amor, na admoestação a Judas, na admoestação a Pedro, na interrogação ao grupo todo, e na cura do servo Malco. Porém seus corações estavam endurecidos, pelo terrível poder das trevas. Antes de se entregar a eles, voluntariamente, Jesus lhes dirige mais uma vez a pergunta: A quem buscais? – O capitão deveria responder com clareza o que queria. E ele respondeu: A Jesus o Nazareno! Ao que Jesus respondeu: Se é a mim, pois, que buscais, deixai ir estes. Jesus conhece o poder das trevas. Sabe que o diabo gostaria não só a ele, mas desgraçar toda a igreja.
    Eis um resumo de toda a história da paixão. Jesus é nosso substituto. Está ali em teu e meu lugar. Nós éramos buscados pelos poderes infernais, pela ira de Deus, pelo tribunal eclesiástico e pelo tribunal civil. Sim, éramos filhos da ira como também os demais (Ef 2.3), escreveu o apóstolo Paulo. Eis que Jesus se entrega a eles por todos nós. Aqui me tendes. Ele disse a Deus Pai, pune-me a mim. O profeta Isaías escreveu: Mas ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniqüidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados (Isaías 53.5). Eis aqui o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Ele nos comprou com o seu sangue, afim de que nem a lei, nem a maldição, nem o diabo, nem o inferno nos pudessem fazer Mal. Pois as palavras: Deixai ir estes se coloca entre nós e nossos inimigos.
     Se é a mim, pois, que buscais, deixai ir estes. Isto é uma ordem. A ordem do Filho de Deus. Ele conhece a intenção do poder das trevas. Engolir a todos. Mas para isso ele estava se entregando, para que a ordem: Deixai ir estes! entrasse em vigor.
   Quem são estes? São todos os que confiam na graça de Cristo. São todos os que, cansados e sobrecarregados, buscam refúgio em Cristo. São todos os que dizem a Jesus: Senhor, tem compaixão de mim, pobre pecador. Aqueles que arrependidos e confiantes na graça de Cristo clamam: Não me lances fora de tua presença. Pois, e ele é a propiciação pelos nossos pecados e não somente pelos nossos próprios, mas ainda pelos do mundo inteiro (1 João 2.2). Bem-aventurados todos os que confiam na graça de Cristo.
      Na verdade, Satanás gostaria de arrebatar todos nós das mãos de Cristo e tenta fazê-lo constantemente. Quantas perseguições a igreja já sofreu? Quantas doutrinas falsas. Quantos problemas. Mas em toda a parte ainda soam as palavras protetoras: Deixai ir estes. São palavras que protegem a Igreja Cristã até ao fim dos séculos. E as portas do inferno (Mateus 16.18) não prevalecerão contra ela. Pois eu lhe serei, diz o SENHOR, um muro de fogo em redor e eu mesmo serei, no meio dela, a sua glória (Zacarias 2.5). A todos os cristãos Jesus afirma: Não temas, porque eu te remi; chamei-te pelo teu nome, tu és meu (Isaías 43.1). Mas aquele que, como Judas, rejeitar a misericórdia de Deus, será condenado.
    Ainda hoje Jesus estende suas mãos pela pregação da palavra e chama a si, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna (João 3.16).