domingo, 31 de março de 2013

São Nuno de Santa Maria, OCarm

A memória de São Nuno de Santa Maria (1º de abril) será celebrada no dia 6 de novembro por cair, neste ano, na Oitava da Páscoa.

Segunda-feira da oitava da Páscoa


Evangelho (Mt 28,8-15): As mulheres sairam às pressas do túmulo, com sentimentos de temor e de grande alegria, correram para dar a notícia aos discípulos. Nisso, o próprio Jesus veio-lhes ao encontro e disse: «Alegrai-vos!». Elas se aproximaram e abraçaram seus pés, em adoração. Jesus lhes disse: «Não tenhais medo; ide anunciar a meus irmãos que vão para a Galileia. Lá me verão».  Quando foram embora, alguns da guarda entraram na cidade e comunicaram aos sumos sacerdotes o que tinha acontecido. Reunidos com os anciãos, deliberaram dar bastante dinheiro aos soldados; e instruíram-nos: «Contai o seguinte: ‘Durante a noite vieram os discípulos dele e o roubaram, enquanto estávamos dormindo’. E se isso chegar aos ouvidos do governador, nós o tranquilizaremos, para que não vos castigue». Eles aceitaram o dinheiro e fizeram como lhes fora instruído. E essa versão ficou divulgada entre os judeus, até o presente dia.

Comentário: Rev. D. Joan COSTA i Bou (Barcelona, Espanha)

E saindo às pressas do túmulo, com sentimentos de temor e de grande alegria, correram para dar a notícia aos discípulos

Hoje, a alegria da ressurreição faz das mulheres que foram ao túmulo, mensageiras valentes de Cristo. «Uma grande alegria» sentem em seus corações pelo anuncio do anjo sobre a ressurreição do Mestre. E foram «correndo» do túmulo a anunciar aos Apóstolos. Não podem ficar inativas e seus corações explodiriam se não o comunicavam a todos os discípulos. Ressoam em nossas almas as palavras de Paulo: «O amor de Cristo nos impele» (2Cor 5,14).

Jesus faz se o «encontradiço»: o faz com Maria Madalena e a outra Maria —assim agradece e paga Cristo sua ousadia de buscá-lo muito cedo pela manhã— e também o faz com todos os homens e mulheres do mundo.

As reações das mulheres ante a presença do Senhor expressam as atitudes mais profundas do ser humano diante de Aquele que é o nosso Criador e Redentor: a submissão—«abraçaram seus pés» (Mt 28,9)— e a adoração. Que grande lição para apreender a estar diante de Cristo Eucaristia!

«Não tenhais medo» (Mt 28,10), diz Jesus às santas mulheres. Medo do Senhor? Nunca, se é o Amor dos amores! Temor de perdê-lo? Sim, porque conhecemos a própria debilidade. Por isso abracemo-nos bem forte aos seus pés. Como aos Apóstolos no mar embravecido e os discípulos de Emaús peçamos-lhe: Senhor, não nos deixes!

E o Mestre envia as mulheres a anunciar a boa nova aos discípulos. Essa é também tarefa nossa, e missão divina desde o dia do nosso batismo: anunciar a Cristo por todo o mundo, «para que todo o mundo possa encontrar a Cristo, para que Cristo possa percorrer com cada um o caminho da vida, com a potência da verdade (...) que contem o mistério da Encarnação e da Redenção, com a potência do amor que irradia dela» (João Paulo II).

Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm

Reflexão 
* Páscoa!  O evangelho de hoje descreve a experiência de ressurreição das discípulas de Jesus.  No início do seu evangelho, ao apresentar Jesus, Mateus tinha dito que Jesus é Emanuel, Deus Conosco (MT 1,23).  Agora, no fim, ele comunica e amplia a mesma certeza da fé, pois proclama que Jesus ressuscitou (MT 28,6) e que ele estará conosco sempre, até o fim dos tempos! (MT 28,20). Nas contradições da vida, esta verdade muitas vezes é contestada.  Não faltam as oposições. Os inimigos, os chefes dos judeus, se defendem contra a Boa Notícia da ressurreição e mandaram dizer que o corpo foi roubado pelos discípulos (Mt 28,11-13). Tudo isto acontece hoje. De um lado, o esforço de tanta gente boa para viver e testemunhar a ressurreição.  De outro lado, tanta gente maldosa que combate a ressurreição e a vida.  * No evangelho de Mateus, a verdade da ressurreição de Jesus é contada através de uma linguagem simbólica, que revela o sentido escondido dos acontecimentos. Mateus fala de tremor de terra, de relâmpagos e anjos que anunciam a vitória de Jesus sobre a morte (Mt 28,2-4).  É a linguagem apocalíptica, muito comum naquela época, para anunciar que, finalmente, o mundo foi transformado pelo poder de Deus!  Realizou-se a esperança dos pobres que reafirmam sua fé: “Ele está vivo, no meio de nós!”   

* Mateus 28,8: A alegria da Ressurreição vence o medo.   
Na madrugada do domingo, o primeiro dia da semana, duas mulheres foram ao sepulcro, Maria Madalena e Maria de Tiago, chamada a outra Maria. De repente, a terra tremeu e um anjo apareceu como um relâmpago. Os guardas que estavam vigiando o túmulo desmaiaram. As mulheres ficaram com medo, mas o anjo as reanimou, anunciando a vitória de Jesus sobre a morte e enviando-as a reunir os discípulos de Jesus na Galileia.  É na Galileia que eles poderão vê-lo de novo.  Lá,  onde  tudo  começou, acontecerá a grande revelação do Ressuscitado. A alegria da ressurreição começa a vencer o medo. Inicia-se o anúncio da vida e da ressurreição. 

* Mateus 28,9-10: A aparição de Jesus às mulheres.  
As mulheres saem correndo.  Dentro delas, há um misto de medo e de alegria. Sentimentos próprios de quem fazem uma profunda experiência do Mistério de Deus. De repente, o próprio Jesus vai ao encontro delas e diz: “Alegrem-se!”.  Elas se prostram e o adoram.  É a postura de quem acredita e acolhe a presença de Deus, mesmo que ela surpreenda e ultrapasse a capacidade humana de compreensão. Agora é o próprio Jesus que dá a ordem de reunir os irmãos na Galileia: "Não tenham medo. Vão anunciar aos meus irmãos que se dirijam para a Galileia. Lá eles me verão". 

* Mateus 28,11-15: A astúcia dos inimigos da Boa Nova.   
A mesma oposição que Jesus encontrou em vida, aparece agora depois da sua ressurreição.  Os chefes dos sacerdotes se reúnem e dão dinheiro aos guardas.  Eles devem espalhar o boato de que os discípulos roubaram o corpo de Jesus e inventaram essa conversa de ressurreição. Os chefes recusam e combatem a Boa Notícia da Ressurreição. Preferem acreditar que tudo não passou de uma invenção dos discípulos e das discípulas de Jesus. 

O significado do testemunho das mulheres. 
A presença das mulheres na morte, no enterro e na ressurreição de Jesus é significativa.  Elas testemunharam a morte de Jesus (Mt 27,54-56).  No momento do enterro, elas ficaram sentadas diante do sepulcro e, portanto, podiam dar testemunho do lugar onde fora colocado o corpo de Jesus (Mt 27,61).  Agora, na madrugada do domingo, elas estão lá de novo.  Sabem que aquele sepulcro vazio é realmente o de Jesus!  A profunda experiência de morte e ressurreição que elas fizeram transformou suas vidas.  Elas mesmas ressuscitaram e se tornaram testemunhas qualificadas da ressurreição nas Comunidades cristãs.  Por isso, recebem a ordem de anunciar: "Jesus está vivo! Ele ressuscitou!"   

Para um confronto pessoal 
1) Qual é a experiência de ressurreição na minha vida? Existe em mim alguma força que procura combater a experiência de ressurreição? Como reajo? 
2) Qual é hoje a missão da nossa comunidade como discípulos e discípulas de Jesus? De onde podemos tirar força e coragem para cumprir nossa missão?

sábado, 30 de março de 2013

SOLENIDADE DA PÁSCOA DO SENHOR


VIGILIA PASCAL (Lc 24,1-12)

Por que estais procurando entre os mortos aquele que está vivo? Não está aqui. Ressuscitou.

Comentário: Fr. Austin NORRIS (Mumbai, India)

Hoje, contemplamos a Glória do Senhor resplandecente em sua vitória sobre o sofrimento e a morte. Uma vida nova é prometida a todos que buscam e crêem na Verdade de Jesus. Ninguém será desapontado, como não se sentiram as mulheres que «foram ao túmulo, levando os perfumes que tinham preparado» (Lc 24,1).

Os perfumes e ungüentos que devemos carregar durante nossa existência são uma vida espalhando a Palavra de Deus, quando Jesus encarnado disse: «Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, [...], viverá. [...] não morrerá jamais.» (Jo 11,25-26)

No meio de nossa confusão e dor parecemos nos tornar míopes em visão, porque não conseguimos ver além de nosso entorno imediato. E «por que estais procurando entre os mortos aquele que está vivo?» (Lc 24,5) é um chamado a seguir Jesus e a buscar a presença do Senhor no “aqui e agora”; em meio ao povo do Senhor e seu sofrimento e for. Em sua carta pela Quaresma o Santo Padre Bento XVI menciona como «De fato, a salvação é dom, é graça de Deus, mas para fazer efeito na minha existência exige o meu consentimento, um acolhimento demonstrado nos fatos, ou seja, na vontade de viver como Jesus, de caminhar atrás Dele».

«Voltando do túmulo» (Lc 24,9) de nossas misérias, dúvidas e confusões, nós, por outro lado, somos capazes de dar a outros esperança e segurança neste vale de lágrimas. A escuridão do sepulcro «dá lugar à brilhante promessa da imortalidade.» (Prefácio da Missa dos Fiéis Defuntos). Que a glória do Senhor Jesus nos mantenha de pé com os olhos fitando o céu, e que possamos sempre ser considerados como um Povo Pascal. Que possamos passar de “Povo da Sexta-feira Santa” a “Povo da Páscoa”.

Domingo de Páscoa (Missa do dia)

Sérgio Paulo Pinto
«Viu e acreditou!»

Depois da prisão de Jesus, do seu caminho para o calvário, da sua morte na cruz, da sua sepultura… os discípulos ficaram desconcertados e desorientados. Tudo parecia perdido, até o corpo de Jesus. Mas naquele primeiro dia da semana, em que Maria Madalena foi ao sepulcro, deu-se início a um tempo novo, de Jesus ressuscitado presente na vida dos seus. O sepulcro vazio, as ligaduras e tantas incertezas. No entanto, onde todos encontram sinais de morte, o discípulo que mais se sente amado acreditou. Ele não necessita de provas, sabe que Jesus vive, porque continua a sentir-se amado com o mesmo amor… Não necessita tocar, porque se sente continuamente tocado pelo amor de Jesus. E então vive agradecido, vive provando o seu amor, vive transmitindo o mesmo amor aos irmãos.

Evangelho Jo 20,1-9 - No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi de manhãzinha, ainda escuro, ao sepulcro e viu a pedra retirada do sepulcro. Correu então e foi ter com Simão Pedro e com o discípulo predileto de Jesus e disse-lhes: «Levaram o Senhor do sepulcro e não sabemos onde O puseram». Pedro partiu com o outro discípulo e foram ambos ao sepulcro. Corriam os dois juntos, mas o outro discípulo antecipou-se, correndo mais depressa do que Pedro, e chegou primeiro ao sepulcro. Debruçando-se, viu as ligaduras no chão, mas não entrou. Entretanto, chegou também Simão Pedro, que o seguira. Entrou no sepulcro e viu as ligaduras no chão e o sudário que tinha estado sobre a cabeça de Jesus, não com as ligaduras, mas enrolado à parte. Entrou também o outro discípulo que chegara primeiro ao sepulcro: viu e acreditou. Na verdade, ainda não tinham entendido a Escritura, segundo a qual Jesus devia ressuscitar dos mortos.

MEDITAÇÃO:
No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi de manhãzinha, ainda escuro, ao sepulcro e viu a pedra retirada do sepulcro.
Naquela Sexta-feira Santa, Jesus tinha sido sepultado à pressa, pois as luzes do Sábado, o grande dia para os judeus, estavam prestes a despontar. Maria Madalena tinha acompanhado Jesus no seu caminho doloroso e sangrento para o calvário. Assistiu a tudo. Os seus olhos viram um Deus crucificado, um Deus que se entregou por amor. Viu Jesus suspirar e morrer. Viu Jesus ser descido da cruz e ser sepultado. Viu a pedra fechar o sepulcro e fechar os sonhos dos seus discípulos. Tudo tinha acabado. Madalena queria completar a sepultura de Jesus. Por isso, ainda mal tinha começado o dia, ainda escuro, foi ao sepulcro e viu a pedra retirada… O que vira nos episódios da paixão, a dor no coração, as lágrimas no rosto, a escuridão do dia e da fé, não a deixaram perceber Jesus vivo. Madalena, e quantos de nós, procuramos entre os mortos aquele que está vivo. A escuridão dos nossos dias, as lágrimas das nossas dores, ofuscam a presença de Deus nas nossas vidas… Jesus veio trazer-lhes luz e vida.

Correu então e foi ter com Simão Pedro e com o discípulo predileto de Jesus e disse-lhes: «Levaram o Senhor do sepulcro e não sabemos onde O puseram».
Maria Madalena, nos acontecimentos da paixão, viu como trataram Jesus, viu tirarem-lhe as vestes, viu retirarem-lhe a sua dignidade e viu acabarem com a sua vida. Foi detestável, foi demasiado. Agora, como se ainda não tivesse sido suficiente, viu que retiraram o corpo de Jesus! Como não ficar desorientado? Como não sentir-se desamparado? Não se atreveu sequer a entrar e concluiu, precipitadamente, que levaram o corpo de Jesus. Na verdade, sem Jesus, a vida do cristão é perfeita desorientação e continuaremos a sentir-nos desamparados. Se continuarmos a procurar Jesus onde Ele não está, se deixamos que a escuridão ofusque os nossos olhos e o nosso coração… nunca O encontraremos. Corremos, corremos… à procura de razões para a nossa vida e para a nossa fé; e correr nem sempre nos leva a Jesus.

Pedro partiu com o outro discípulo e foram ambos ao sepulcro. Corriam os dois juntos, mas o outro discípulo antecipou-se, correndo mais depressa do que Pedro, e chegou primeiro ao sepulcro. Debruçando-se, viu as ligaduras no chão, mas não entrou.
Quando “tocam” naquilo que de mais precioso temos, corremos disparados. Perante a notícia de Maria Madalena “levaram o Senhor do sepulcro”, Pedro e João correm apressados. Como se atreveram a tocar no “seu” Senhor? Já não chega? Se Jesus estivesse bem no nosso coração… quanto correríamos nós para defendê-lo, quanto correríamos? Pedro e João correm para perceberem a situação, mas João chega primeiro. Podemos justificar facilmente que João era mais novo e correu mais depressa, mas não nos podemos esquecer, também, que ele era o discípulo amado. Quando muito amamos, não importam o cansaço e os sacrifícios. É necessário amar Jesus, verdadeiramente, para correr sem cansaço, sem desânimos, por Ele e com Ele. Estás disposto a isso nesta Páscoa?

Entretanto, chegou também Simão Pedro, que o seguira. Entrou no sepulcro e viu as ligaduras no chão e o sudário que tinha estado sobre a cabeça de Jesus, não com as ligaduras, mas enrolado à parte.
 (Se o corpo tivesse sido roubado, os ladrões teriam levado o corpo de Jesus enrolado, para não serem surpreendidos a tirar-lhe as ligaduras e não teriam perdido tempo a enrolar o sudário, mas tê-lo-iam levado também, pois era uma peça útil, para outras ocasiões).
Quem mais ama chega sempre em primeiro, pois vê o que a outros leva mais tempo. Pedro levou mais tempo no caminho até ao sepulcro de Jesus e mais tempo até acreditar na sua ressurreição. Como é que é possível que Pedro não tivesse acreditado imediatamente? Pedro, o grande apóstolo! Mas isso não foi impedimento para se tornar num excelente testemunho do ressuscitado. Levou mais tempo que outros, mas não lhes ficou atrás no amor a Jesus e no seu testemunho. É essa a lição que devemos colher, a lição mais útil para a nossa vida cristã. Nós não entramos no sepulcro de Jesus, não tocamos nas suas ligaduras, nem no seu sudário, mas podemos chegar, também, à fé verdadeira no ressuscitado e sermos autênticos testemunhos de Jesus, como Pedro. Estás disposto a isso nesta Páscoa?

Entrou também o outro discípulo que chegara primeiro ao sepulcro: viu e acreditou.
O discípulo amado entrou, também, no sepulcro de Jesus. Viu e acreditou! Quem mais ama, quem mais se sente amado por Jesus, mais facilmente chega à fé. Quem pouco ama, desconfia, pede provas, necessita “tocar”; quem muito ama a Jesus e muito se sente amado por Ele, não necessita de provas, sabe que Ele vive, porque continua a sentir-se amado com o mesmo amor… Não necessita tocar, porque se sente continuamente tocado pelo amor de Jesus. E então vive agradecido, vive provando o seu amor, vive transmitindo o mesmo amor aos irmãos. Necessitamos desta fé, precisamos de crentes que testemunhem o amor de Deus aos homens. Declaremos este amor incondicional de Deus ao mundo, até às últimas consequências, pois ninguém ficará indiferente a tamanha declaração de amor.

Na verdade, ainda não tinham entendido a Escritura, segundo a qual Jesus devia ressuscitar dos mortos.
Os discípulos, de perto ou longe, com coragem ou com medo, acompanharam a paixão de Jesus. O caminho para o calvário foi demasiado chocante, demasiado perturbador, demasiado recente… demasiado evidente! Como era possível que estivesse vivo? Como era possível a sua dor, o seu vazio profundo ser transformado em tamanha alegria? Por isso desconfiam. Até as Escrituras, que explicavam que ‘Jesus devia ressuscitar dos mortos’, se lhes fazem difíceis de entender. Jesus, por diversas vezes, preparou os seus discípulos para a sua paixão, morte e ressurreição… mas ao que parece sem muito êxito. Só mais tarde, quando perceberam o gesto de entrega e amor de Jesus, quando fizeram a experiência do seu amor, então aí, sim, viveram todos os dias correspondendo a este amor, entregando, eles próprios, as suas vidas por amor a Jesus.

Comentário: Mons. Joan Enric VIVES i Sicília Bispo de Urgell (Lleida, Espanha)

O outro discípulo, que tinha chegado primeiro ao túmulo, entrou também, viu e creu

Hoje «é o dia que o Senhor fez», iremos cantando ao longo de toda a Páscoa. Essa expressão do Salmo 117 inunda a celebração da fé cristã, O Pai ressuscitou a seu Filho Jesus Cristo, o Amado, Aquele em quem se compraz porque amou a ponto de dar sua vida por todos.

Vivamos a Páscoa com muita alegria. Cristo ressuscitou: celebremo-lo cheios de alegria e de amor. Hoje, Jesus Cristo venceu a morte, o pecado, a tristeza… e nos abriu as portas da nova vida, a autêntica vida que o Espírito Santo continua a nos dar por pura graça. Que ninguém fique triste! Cristo é nossa Paz e nosso Caminho para sempre. Ele, hoje, «revela o homem a si mesmo e descobre-lhe a sua vocação sublime» (Concílio Vaticano II, Gaudium et Spes 22).

O grande sinal que nos dá o Evangelho é que o sepulcro de Jesus está vazio. Já não temos de procurar entre os mortos Aquele que vive, porque ressuscitou. E os discípulos, que depois o verão Ressuscitado, isto é, que o experimentarão vivo em um maravilhoso encontro de fé, percebem que há um vazio no lugar de sua sepultura. Sepulcro vazio e aparições serão os grandes sinais para a fé do crente. O Evangelho diz que «o outro discípulo, que tinha chegado primeiro ao túmulo, entrou também, viu e creu» (Jo 20,8). Ele soube compreender, pela fé, que aquele vazio e, por sua vez, aquela mortalha e aquele sudário bem dobrados, eram pequenos sinais do passo de Deus, da nova vida. O amor sabe captar, a partir de pequenos detalhes, o que os outros, sem ele, não captam. O «discípulo que Jesus mais amava» (Jo 20,2) guiava-se pelo amor que havia recebido de Cristo.

O “ver” e o “crer” dos discípulos hão de ser também os nossos. Renovemos nossa fé pascoal. Que Cristo seja, em tudo, o nosso Senhor. Deixemos que sua Vida vivifique a nossa e renovemos a graça do batismo que recebemos. Façamo-nos seus apóstolos e seus discípulos. Guiemo-nos pelo amor e anunciemos a todo o mundo a felicidade de crer em Jesus Cristo. Sejamos testemunhos esperançosos de sua Ressurreição.

sexta-feira, 29 de março de 2013

Nossa Senhora da Soledade, ou da Ressurreição?


José Antonio Dominguez

No Sábado Santo, enquanto o corpo de Nosso Senhor repousava no sepulcro, operavam-se na alma de Maria maravilhas de confiança e de fé. No Coração de Maria, a Igreja vivia em todo o seu esplendor.
Para nós, católicos do terceiro milênio, é tão natural crer na Ressurreição de Jesus que a dúvida nem nos passa pela mente.
Mas no primeiro dia de existência da Igreja Católica não foi assim... Os próprios Apóstolos e discípulos foram os primeiros a duvidar. Para ser mais exato, não acreditaram na Ressurreição nem mesmo quando as Santas Mulheres chegaram do sepulcro com a notícia de que Jesus tinha ressuscitado: "Também as outras mulheres que estavam com elas diziam isto aos Apóstolos, mas as suas palavras pareceram-lhes um desvario e eles não acreditaram nelas" (Lc 24, 10-11).
Então, nos primeiros dias de existência da Igreja, os mais próximos seguidores de Cristo não acreditavam numa das principais verdades de nossa Fé? Nenhum Apóstolo acreditava? Nem mesmo São Pedro?

Sucinto relato dos Evangelhos
Muitas vezes, ao ler os Evangelhos, gostaríamos de ter narrações mais ricas em detalhes sobre tantos pontos que ficaram envoltos nas sombras da História. Um deles, por exemplo, é o ocorrido no período entre o sepultamento de Jesus e a Ressurreição. Os discípulos tentaram algum tipo de ação, traçaram planos ou pelo menos se reuniram em algum local para comentar entre si os trágicos acontecimentos? Sobretudo, interessaria saber o que lhes terá dito Nossa Senhora. Nada! São Lucas limita-se a dizer: "Ao regressar, prepararam aromas e perfumes. E, no sábado, observaram o descanso, conforme o preceito" (Lc 23, 56). O evangelista não poderia ser mais lacônico...
As urdiduras dos fariseus e dos príncipes dos sacerdotes interessaram mais o Autor Sagrado. Talvez por conter esse fato uma lição que continua atual, e o será até o fim do mundo. Os inimigos de Jesus não descansam! Não se contentam em vê-Lo morto. Querem apagar até sua memória. Foi assim logo após a morte de Jesus. E assim será sempre, no confronto entre a luz e as trevas.
Tinham eles presenciado numerosos milagres, o mais espetacular dos quais fora a ressurreição de Lázaro, poucos dias antes; e estava bem presente na sua mente a profecia de que ao terceiro dia ressuscitaria dos mortos. Por isso, no sábado "os príncipes dos sacerdotes e os fariseus foram ter com Pilatos e disseram-lhe: Senhor, lembramo-nos de que aquele impostor disse, ainda em vida: ‘Ressuscitarei depois de três dias.’ (...) E seria a última impostura pior do que a primeira" (Mt 27, 62-64).
Embora não tivessem fé na Ressurreição, tinham certo pressentimento ou receio de que algo de extraordinário talvez acontecesse... Quem fizera tantos milagres em vida, não teria também poder para os realizar após a morte? A dureza de coração dos fariseus, face à Ressurreição de Jesus, nos mostra como devemos ser gratos a Deus pelo dom da Fé. Pois quem não abre a alma para a luz da Fé, por mais que a evidência lhe fure os olhos, e a lógica imponha suas razões... continuará a não crer!

Os apóstolos duvidaram
Mas às vezes — por um paradoxo admirável — os incrédulos discernem certas realidades mais facilmente que os católicos. Estes, por estarem acostumados a lidar com o sobrenatural, são tendentes a tomar como normais alguns acontecimentos sublimes.
Talvez esse fenômeno psicológico tenha levado os Apóstolos, após tão longo convívio com a grandeza de Jesus, a tomarem por natural o que era divino... Talvez, assim, não tenham dado o devido valor aos milagres que presenciaram, e acabaram por não compreender a principal profecia de Nosso Senhor: sua Ressurreição.
E ao vê-Lo morto caíram na incredulidade, como se deduz das palavras dos discípulos de Emaús: "Nós esperávamos que fosse Ele Quem libertasse Israel, mas, com tudo isto, já lá vai o terceiro dia desde que se deram estas coisas..." (Lc 24, 21).

Em Maria reluziu a plenitude da Fé
Ninguém, então, conservou a fé plena na Ressurreição, depois da morte de Jesus, na Sexta-Feira Santa?
Sobre este ponto, os Evangelhos não entram em detalhes. Mas, não podemos fazer algumas conjecturas?
Sepultado Nosso Senhor, São João levou Maria, Mãe de Jesus, com ele: "E, desde aquela hora, o discípulo recebeu-a em sua casa" (Jo 19, 27).
É de se supor que naquela primeira noite e ao longo do dia de sábado alguns dos discípulos e as Santas Mulheres tenham procurado Nossa Senhora, quiçá com o intuito de A consolar. Muito provavelmente reuniram-se no Cenáculo, onde tinham celebrado a Páscoa da Antiga Lei, e onde Jesus havia instituído o sacrifício do Novo Testamento, a Eucaristia.
Enquanto conversavam com Maria, os discípulos devem ter procurado no semblante majestoso d’Ela o alento e a resposta para a grande perplexidade pela qual passavam. Teria, então, acabado tudo? O que iria acontecer com eles? Talvez os príncipes dos sacerdotes quisessem prendê-los também. E pode-se supor ter sido a segurança pessoal a grande preocupação de muitos dos discípulos, pois o próprio São João afirma que as portas da casa onde eles se encontravam, no domingo da Ressurreição, estavam fechadas, "por medo dos judeus" (Jo 20, 19).
Mas o olhar sereno e maternal de Maria os tranqüilizava. E à medida que Ela lhes recordava as profecias sobre o Messias, como Ele seria perseguido e morto, uma sensação de paz ia invadindo suas almas. Os mistérios de Deus são insondáveis, mas não havia motivo para perturbar-se, pois tudo acontecera como estava previsto. Nesses momentos, Maria deve ter-lhes lembrado a promessa do Arcanjo na Anunciação: "O Senhor Deus dar-Lhe-á o trono de Seu pai David, (...) e o seu reinado não terá fim" (Lc 1, 32). E explicado que, em conseqüência, eles deveriam esperar uma intervenção miraculosa de Deus. Muito provavelmente Nossa Senhora deve também ter alcançado para eles a graça de uma grande confiança na Providência. O simples fato de estarem ali reunidos, em torno de Maria, era já um primeiro passo para restaurarem a fé perdida.

Soledade no Sábado Santo
Quantas vezes, ao longo daquele dia de sábado, terá passado pela mente virginal de Maria a lembrança dos momentos-auge da vida de Jesus?
"Maria vive com os olhos fixos em Cristo — comenta o Papa João Paulo II — e guarda cada palavra sua: ‘Conservava todas estas coisas, ponderando-as no seu coração’ (Lc 2, 19; cf. 2, 51). As recordações de Jesus, estampadas na sua alma, acompanharam-nA em cada circunstância, levando-A a percorrer novamente com o pensamento os vários momentos da sua vida junto com o Filho. Foram estas recordações que constituíram, de certo modo, o ‘rosário’ que Ela mesma recitou constantemente nos dias da sua vida terrena."
E, certamente, este primeiro "rosário" de Maria, meditado com os discípulos naquele Sábado Santo, fortaleceu a fé de todos, preparando-os para o grande acontecimento do dia seguinte.
Mas a idéia da Ressurreição de Jesus, apesar de ter sido com clareza profetizada por Ele, estava tão longe das cogitações dos Apóstolos, que parece mais provável Nossa Senhora não lhes ter falado a este respeito, esperando que seu próprio Filho lhes abrisse os olhos.
Muito apropriadamente, a piedade católica representa Maria, neste dia de sábado, sob a invocação de Nossa Senhora da Soledade. Ela está só, sem Jesus, chorando a sua morte. E por isto de sua fisionomia transparece profunda tristeza.

Antegozando o momento da Ressurreição
Mas, se é verdade que a dor pela morte de Jesus transpassava seu coração virginal, não é menos verdade que a certeza inabalável na Ressurreição de seu Filho o fazia palpitar de consolação e de júbilo.
No meio da incredulidade dos Apóstolos e demais discípulos, Maria era a única a ter uma Fé plena. Só Ela creu na Ressurreição. E por isso a Igreja vivia em todo o seu esplendor na alma de Maria. Ela era a Arca da Esperança do Novo Testamento, na qual estavam contidos todos os tesouros de graça da Igreja. E embora Nosso Senhor estivesse morto, vivia plenamente no coração de sua Mãe.
À medida que o tempo passava, Nossa Senhora já ia antegozando o momento jubiloso da Ressurreição. A tristeza cedia lugar a uma intensa alegria. Por isso — além de representar Maria de semblante triste e lacrimoso, no Sábado Santo, sob a invocação de Nossa Senhora da Soledade — não seria também legítimo representá-lA de fisionomia jubilosa, antevendo já o triunfo próximo de seu Filho? E quase se poderia afirmar, metaforicamente, que, antes de ressuscitar no Sepulcro, Jesus já havia ressuscitado no Coração Imaculado de Maria. Por isso também se poderia dar-Lhe, nesse dia, a invocação de Nossa Senhora da Ressurreição.
Pode-se comparar este período de sábado com o tempo em que Nossa Senhora gerava o Salvador do mundo, e levantar a pergunta se é mais glorioso ter em si o Filho de Deus, ou ser a única alma inteiramente fiel no mundo, contendo em si, de certa forma, a Igreja. Se a primeira situação é mais gloriosa, sem dúvida a segunda é mais meritória, pois Ela creu sem ver: "Bem-aventurados os que, sem terem visto, acreditam!" (Jo 21, 29), disse Jesus a Tomé.

Durante a noite, acreditou na Luz
"É durante a noite que é belo acreditar na luz". Esta expressiva afirmação do poeta francês Edmond Rostand aplica-se com exatidão à Fé da Virgem Santíssima no Sábado Santo. Por este motivo, desde tempos muito remotos, a piedade católica tornou o sábado um dia especialmente consagrado a Nossa Senhora, para enaltecer sua Fé inabalável e recordar um dos mais belos e gloriosos momentos de sua vida, em que só Ela sustentou toda a Igreja.
Devemos pedir a Maria, em nossas dificuldades e perplexidades, essa Fé demonstrada por Ela naquele momento tão trágico, e por isso tão belo. Segundo paternais advertências do próprio Papa João Paulo II, vão baixando sobre o mundo as trevas da descristianização. É nessa noite do neo-paganismo de nossos dias que é glorioso, para cada um de nós, acreditar na Ressurreição, ou seja, no "triunfo do Imaculado Coração de Maria".

LEIA, ABAIXO A LECTIO DIVINA PARA O SÁBADO SANTO

Sábado Santo


“DESCEU À MANSÃO DOS MORTOS”

Comentário: P. Jacques Philippe (Cordes sur Ciel, França)

Hoje, não meditamos nenhum evangelho em particular, dado que é um dia que carece de liturgia. Mas, com Maria, a única que permaneceu firme na fé e na esperança depois da trágica morte de seu Filho, preparamo-nos, no silêncio e na oração, para celebrar a festa da nossa libertação em Cristo, que é o cumprimento do Evangelho.

A coincidência temporal dos acontecimentos entre a morte e a ressurreição do Senhor e a festa judaica anual da Páscoa, memorial da libertação da escravidão no Egipto, permite compreender o sentido libertador da cruz de Jesus, novo cordeiro pascal, cujo sangue nos preserva da morte.

Outra coincidência no tempo, menos assinalada porém sem dúvida muito rica em significado, é a que existe com a festa judaica semanal do “Sabbat”. Esta começa na tarde de sexta-feira, quando a mãe de família acende as luzes em cada casa judia, terminando no sábado de tarde. Recordando que depois do trabalho da criação, depois de ter feito o mundo do nada, Deus descansou no sétimo dia. Ele quis que também o homem descanse no sétimo dia, em acção de graças pela beleza da obra do Criador, e como sinal da aliança de amor entre Deus e Israel, sendo Deus invocado na liturgia judaica do Sabbat como o esposo de Israel. O Sabbat é o dia em que se convida cada um a acolher a paz de Deus, o seu “Shalom”.

Deste modo, depois do doloroso trabalho da cruz, «em que o homem é forjado de novo» segundo a expressão de Catarina de Sena, Jesus entra no seu descanso no mesmo momento em que se acendem as primeiras luzes do Sabbat: “Tudo está realizado” (Jo 19,30). Agora completou-se a obra da nova criação: o homem, antigo prisioneiro do nada do pecado, converte-se numa nova criatura em Cristo. Uma nova aliança entre Deus e a humanidade, que nada poderá jamais romper, acaba de ser selada, já que doravante toda a infidelidade pode ser lavada no sangue e na água que brotam da cruz.

Diz a Carta aos Hebreus: «Por isso, resta um repouso sabático para o povo de Deus» (Heb 4,9). A fé em Cristo a ele nos dá acesso. Que o nosso verdadeiro descanso, a nossa paz profunda, não a de um só dia, mas para toda a vida, seja uma esperança total na infinita misericórdia de Deus, de acordo com o convite do Salmo 16: «A minha carne descansará na esperança, pois tu não entregarás a minha alma ao abismo». Que nos preparemos com um coração novo para celebrar na alegria as bodas do Cordeiro e nos deixemos desposar plenamente pelo amor de Deus manifestado em Cristo.

Comentário: Rev. D. Joan BUSQUETS i Masana (Sabadell, Barcelona, Espanha)

Hoje, propriamente, não há “evangelho” para meditar ou —melhor— deveríamos meditar todo o Evangelho em maiúscula (a Boa Nova), porque todo ele desemboca no que hoje recordamos: a entrega de Jesus à Morte para ressuscitar e dar-nos uma Vida Nova.

Hoje, a Igreja não se separa do sepulcro do Senhor, meditando sua Paixão e sua Morte. Não celebramos a Eucaristia até que haja terminado o dia, até amanhã, que começará com a Solene Vigília da ressurreição. Hoje é dia de silêncio, de dor, de tristeza, de reflexão e de espera. Hoje não encontramos a Reserva Eucarística no sacrário. Há só a lembrança e o símbolo de seu “amor até o extremo”, a Santa Cruz que adoramos devotamente.

Hoje é o dia para acompanhar Maria, a mãe. Devemos acompanhá-la para poder entender um pouco o significado deste sepulcro o qual velamos. Ela, que com ternura e amor guardava em seu coração de mãe os mistérios que não acabava de entender daquele Filho que era o Salvador dos homens, está triste e sofrendo: «Ela veio para a sua casa, mas os seus não a receberam» (Jo 1,11). É também a tristeza da outra mãe, a Santa Igreja, que sofre pela rejeição de tantos homens e mulheres que não acolheram Aquele que para eles era a Luz e a Vida.

Hoje, rezando com estas duas mães, o seguidor de Cristo reflete e vai repetindo a antífona da pregaria das Laudes: «Cristo humilhou-se a si mesmo tornando-se obediente até a morte e morte de cruz! «Por isso o exaltou grandemente e lhe deu o Nome que está acima de qualquer outro nome» (cf. Flp 2,8-9).

Hoje, o fiel cristão escuta a Homilia Antiga sobre o Sábado Santo que a Igreja lê na liturgia do Oficio de Leitura: «Hoje há um grande silêncio na terra. Um grande silêncio e solidão. Um grande silêncio porque o Rei dorme. A terra se estremeceu e se ficou imóvel porque Deus está dormindo em carne e ressuscitou aos que dormiam há séculos. “Deus morreu na carne e despertou os do abismo».

Preparemo-nos com Nossa Senhora da Soledade para viver a explosão da Ressurreição e para celebrar e proclamar —quando se acabe este dia triste— com a outra mãe, a Santa Igreja: Jesus ressuscitou tal como o havia anunciado! (cf. Mt 28,6).

Jesus Desce à Mansão dos Mortos

Bento XVI

Voltemos à noite do Sábado Santo. No Credo professamos a respeito do caminho de Cristo: “Desceu à mansão dos mortos”. O que acontece então? Visto que não conhecemos o mundo da morte, podemos representar este processo de superação da morte somente com imagens que permanecem sempre pouco apropriadas.

Porém, com toda a sua insuficiência, elas nos ajudam a entender algo do mistério. A liturgia aplica à descida de Jesus na noite da morte a palavra do Sl 24 [23]: “Levantai, ó pórticos, os vossos frontais, levantai-vos, ó pórticos eternos!” A porta da morte está fechada, ninguém dali pode voltar para trás. Não existe uma chave para esta porta férrea.

Cristo, porém, possui a chave. A sua Cruz abre de par em par as portas da morte, as portas irrevogáveis. Elas agora já não são intransponíveis. A sua Cruz, a radicalidade do seu amor é a chave que abre esta porta. O amor d’Aquele que, sendo Deus, se fez homem para poder morrer – este amor tem a força para abrir esta porta. Este amor é mais forte que a morte.

Os ícones pascais da Igreja oriental mostram como Cristo entra no mundo dos mortos. A sua veste é luz, porque Deus é luz. “A noite é clara como o dia, as trevas são como a luz” (cf. Sl 139 [138], 12). Jesus que entra no mundo dos mortos leva os estigmas: as suas feridas, os seus padecimentos tornaram-se poder, são amor que vence a morte.

Ele encontra Adão e todos os homens que esperam na noite da morte. À sua vista parece até ouvir a oração de Jonas: “Clamei a vós do meio da morada dos mortos, e ouvistes a minha voz” (Jo 2,3). O Filho de Deus na encarnação fez-se uma só coisa com o ser humano – com Adão. Mas só naquele momento, em que cumpre o extremo ato de amor descendo na noite da morte, Ele cumpre o caminho da encarnação. Com a sua morte Ele leva Adão pela mão, leva todos os homens em expectativa para a luz.

Contudo, agora, pode-se perguntar: Mas o que significa esta imagem? Que novidade realmente aconteceu ali através de Cristo? Sendo a alma do homem por si própria imortal desde a criação, qual foi a novidade que Cristo trouxe?

Sim, a alma é imortal, porque o homem de forma singular está na memória e no amor de Deus, mesmo depois da sua queda. Mas a sua força não basta para elevar-se até Deus. Não temos asas que poderiam levar-nos até aquela altura. Porém, nada pode contentar o homem eternamente, se não o estar com Deus.

Uma eternidade sem esta união com Deus seria uma condenação. O homem não consegue chegar ao alto, mas deseja-o: “Clamei a vós…” Só o Cristo ressuscitado pode elevar-nos até à união com Deus, onde nossas forças não podem chegar.

Ele carrega realmente a ovelha perdida sobre os seus ombros e a leva para casa. Vivemos sustentados pelo seu Corpo, e em comunhão com o seu Corpo alcançamos o coração de Deus. E só assim a morte é vencida, somos livres e nossa vida é esperança.

quinta-feira, 28 de março de 2013

VIA SACRA


1ª Estação
Leitura Bíblica: Mc 15,12-15 - Pilatos tornou a perguntar: “Que quereis que eu faça, então, com o Rei dos judeus?”. Eles gritaram: “Cruci­fica-o!” Pilatos lhes disse: “Que mal fez ele?” Eles, porém, gritaram com mais força: “Cruci­fica-o!” Pilatos, querendo satisfazer a multidão, soltou Barrabás, mandou açoitar Jesus e entregou-o para ser crucificado.

Condenados por tantos males, muitos jovens têm encontrado destino fatal. É preciso não calar a voz, contra o extermínio de nossos jovens!

Oração
Senhor da vida, vosso Filho nos ensina o valor e o sentido de nossa humanidade. Ajudai-nos a lutar contra a violência e o extermínio de tantos jovens, vítimas dos males sociais, que ferem a dignidade de nossa vida. Amém!

2ª Estação
Leitura Bíblica: Is 53,4 - “Eram, na verdade, os nossos sofrimentos que ele carregava, eram as nossas dores, que levava às costas. E a gente achava que ele era um castigado, alguém por Deus ferido e massacrado”.

Em um mundo, em que a tentação de um falso poder irrompe e seduz muitos jovens, há aqueles que, em nome e aos modos de Cristo, assumem a cruz do testemunho que gera vida.

Oração
Senhor, nosso Deus, vosso Espírito é a força de nossa caminhada. Dai aos jovens essa força, a fim de que assumam a cruz de Cristo, como fonte do sentido e da perseverança do seguimento de Jesus, vosso Filho e nosso irmão.  Amém!

3ª Estação
Leitura Bíblica: Is 50,7 - O Senhor Deus é o meu aliado por isso jamais ficarei derrotado, fico de rosto impassível, duro como pedra, porque sei que não vou me sentir um fracassado.

O caminho é longo e, por vezes, muito difícil. Mas o Senhor é a nossa força e o nosso sustento, quando a cruz se torna pesada para nós.

Oração
Deus de amor, sem o vosso auxílio nós nada podemos fazer. Sede a força de nossos jovens, para que, testemunhando o Evangelho, sejam fiéis aos propósitos do vosso Reino. Amém!

4ª Estação
Leitura Bíblica: Is 50,8-9 - Ao meu lado está aquele que me declara justo: Quem vai demandar contra mim? Compareçamos juntos. Quem será meu adversário? Que venha me enfrentar! Eis, meu advogado é o Senhor Deus: quem vai me condenar? Eis todos eles apodrecendo qual trapo, a traça os vai devorar.

Mesmo com todas as dificuldades do caminho, sempre encontramos aqueles que, com compaixão, acolhem com um olhar de ternura.

Oração
Deus de ternura, vosso amor por nós é maternal. Velai pela juventude de nossa comunidade, para que, em vós, encontre a realização e possa viver a fé e a esperança. Amém!

5ª Estação
Leitura Bíblica: Lc 23,26 - Enquanto levavam Jesus, pegaram certo Simão, de Cirene, que voltava do campo, e mandaram-no carregar a cruz atrás de Jesus

Não há como pensar a vida cristã, senão comunitariamente. Nas dificuldades de nossa caminhada, os irmãos e as irmãs são aqueles que nos ajudam a ser capazes de viver o Evangelho.

Oração
Deus de amor, em toda história humana vós nos mostrastes que vossa presença junto a nós é sinal de misericórdia e compaixão. Ajudai-nos, Senhor, para que sejamos, também nós, solidários a dor dos irmãos e irmãs. Amém!

6ª Estação
Leitura Bíblica: Is 53,2-3 - Ele crescia diante dele como um broto, qual raiz que nasce da terra seca. Não fazia vista, nem tinha beleza a atrair o olhar, não tinha aparência que agradasse. Era o mais desprezado e abandonado de todos, homem de sofrimento, experimentado na dor, indivíduo de quem a gente desvia o olhar, repelente, dele nem tomamos conhecimento.

Encontramos, nos rostos de muitos jovens, o olhar sofrido de Jesus. O cuidado de Deus está naqueles simples gestos e sinais, dispensados a nós pela sensibilidade das pessoas que estão próximas a nós. Sejamos, também nós, pessoas sensíveis e atentas às realidades da juventude.

Oração
Deus de bondade, com tantas Verônicas ao nosso redor, vós nos mostrais vosso terno cuidado. Fazei com que nós também sejamos capazes de nos sensibilizar com os jovens que nos cercam, mostrando-lhes vosso olhar compassivo e atencioso. Amém!

7ª Estação
Leitura Bíblica: Jl 1,7-8 - Deixou minha vinha arrasada, as figueiras reduzidas a galhos secos, comeu-lhe até a casca e os galhos ficaram brancos. Suspirai igual à jovem que está de luto pelo amor de sua adolescência!

A vida é processo e o caminho devemos fazê-lo passo a passo, dando, cada vez mais, significado às nossas experiências, tantas vezes sofridas. Conforme vamos caminhando, a experiência vai nos trazendo sabedoria para lidar com as mais diversas situações.

Oração
Deus fiel, vosso Espírito de sabedoria sempre nos acompanha, ao longo de nossa vida de discípulos. Ajudai-nos a trilhar o mesmo caminho de vosso Filho Jesus, a fim de que consigamos vencer os obstáculos que tentam barrar nossa caminhada.  Amém!

8ª Estação
Leitura Bíblica: Lc 23,27-29.31 - Seguia-o uma grande multidão do povo, bem como de mulheres que batiam no peito e choravam por ele. Jesus, porém, voltou-se para elas e disse: “Mulheres de Jerusalém, não choreis por mim! Chorai por vós mesmas e por vossos filhos! Porque dias virão em que se dirá: ‘Felizes as estéreis, os ventres que nunca deram à luz e os seios que nunca amamentaram’. Pois se fazem assim com a árvore verde, o que não farão com a árvore seca?”.

Cotidianamente, acompanhamos, seja pelos noticiários, seja em nossa comunidade, o crescente número de mães que choram a perda de seus filhos, vítimas dos males e da violência que afligem nossa sociedade. Compassivos a dor delas, é preciso lutar para que nossos jovens encontrem o caminho da vida.

Oração
Deus, chamando-vos de Pai, nós também o experimentamos com amor de Mãe. Velai por tantas mães e pais que, todos os dias, têm perdido seus filhos, vitimados pelo desamor.  Amém!

9ª Estação
Leitura Bíblica: Is 53,7 - Oprimido, ele se rebaixou, nem abriu a boca! Como cordeiro levado a matadouro ou ovelha diante do tosquiador, ele ficou calado, sem abrir a boca.

Muitas famílias padecem com aqueles que são dependentes químicos e que, após processos terapêuticos, são novamente abalados pelo vício. Esses precisam de nosso apoio e de nosso cuidado. O Senhor, Servo Sofredor, é a imagem de todos os que sofrem, vítimas da opressão e do descaso.

Oração
Deus de ternura, vosso Filho é, para nós, sinal de força e resistência ante as dificuldades e injustiças deste mundo. Que pelo vosso Espírito, sejamos capazes de seguir o exemplo de Jesus, ajudando a todas as pessoas que carecem de cuidado. Amém!

10ª Estação
Leitura Bíblica: Jo 19,23-24 - Depois que crucificaram Jesus, os soldados pegaram suas vestes e as dividiram em quatro partes, uma para cada soldado. A túnica era feita sem costura, uma peça só de alto a baixo. Eles combinaram: “Não vamos rasgar a túnica. Vamos tirar a sorte para ver de quem será”.

Da mesma maneira que Jesus foi despojado de suas vestes, muitos jovens são desnudados de sua identidade, frente a tantas seduções e emboscadas do mundo. É preciso que nós estejamos empenhados na evangelização desses jovens, a fim de que encontrem, em Cristo, o sentido e a plenitude da vida.

Oração
Ó Deus compassivo, em favor do mundo vosso Filho despojou-se de si mesmo, como oferta santa, dando vida ao mundo. Ajudai-nos, Senhor, a seguir o exemplo de Cristo, desapegando-nos de nossos interesses, a fim de que revistamos de dignidade a todos os que precisam. Amém!

11ª Estação
Leitura Bíblica: Os 6,1-2 - Vinde, voltemos para o Senhor! Foi ele que nos feriu, ele mesmo vai curar; ele nos machucou, ele vai limpar nossas feridas. Em dois dias ele nos dará vida nova, no terceiro dia ele nos ressuscita e poderemos viver na sua presença.

Não são raros os casos nos quais tantos jovens são crucificados como o Cristo, vítimas de muitas injustiças e de tantos descaminhos. O Senhor, nosso Deus, não os desampara. Ele é Deus conosco e nossa esperança nos leva a crer na força da vida, em todas as suas expressões.

Oração
Ó Deus, fonte de compaixão, vosso Filho, obediente à sua missão e padecente na dor e na angústia, levou ao extremo vosso agir salvífico. Acolhei, por vosso amor compassivo, os jovens de nossa história, tão afetados pelas dores e pelos sinais de morte. Ajudai-nos a ser sempre caminho de vida, no testemunho de vossa Palavra. Amém!

12ª Estação
Leitura Bíblica: Lc 23,44-46 - Já era mais ou menos meio-dia, e uma escuridão cobriu toda a terra até às três da tarde, pois o sol parou de brilhar. O véu do Santuário rasgou-se pelo meio, e Jesus deu um forte grito: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito”. Dizendo isso, expirou.

Cresce, nas estatísticas, o número de jovens vitimados pelas drogas e pela violência. Isso é bastante preocupante e, muitas vezes, torna-nos receosos sobre o futuro de nossa sociedade e, mais que isso, de nossas famílias. Participantes na morte de Cristo, que sejam ressuscitados para uma vida digna e de qualidade.

Oração
Ó Deus, amor-relação, na morte de vosso Filho fostes solidário com nossa fragilidade. Por vosso Espírito de amor, ajudai-nos a propagar o caminho da vida, auxiliando os jovens que nos cercam a discernir e a optar pela vida.  Amém!

13ª Estação
Leitura Bíblica: Jo 19,38-39 - José de Arimatéia pediu a Pilatos para retirar o corpo de Jesus; ele era discípulo de Jesus às escondidas, por medo dos judeus. Pilatos o permitiu. José veio e retirou o corpo. Veio também Nicodemos, aquele que anteriormente tinha ido a Jesus de noite; ele trouxe uns trinta quilos de perfume feito de mirra e de aloés.

Em meio a tantos sinais de morte, ainda é possível encontrar aqueles que, tomados pela misericórdia evangélica, unem-se à solidariedade de Cristo para conosco e descem os crucificados da história, de tantas cruzes de opressão e desamor. No silêncio da morte de Jesus, o Pai manifesta, a nós, seu amor sem medidas.

Oração
Ó Deus, solidário à nossa dor, vosso Filho que tanto agiu em nosso favor, contou com a solidariedade dos que acolheram a Palavra do Reino, no momento mais silencioso de sua vida. Que nossa comunidade seja sempre solidária ao sofrimento de tantos jovens que nos são próximos.  Amém!

14ª Estação
Leitura Bíblica: Jo 19,40-42 - Eles pegaram o corpo de Jesus e o envolveram, com os perfumes, em faixas de linho, do modo como os judeus costumam sepultar. No lugar onde Jesus foi crucificado havia um jardim e, no jardim, um túmulo novo, onde ninguém tinha sido ainda sepultado. Por ser dia de preparação para os judeus, e como o túmulo estava perto, foi lá que eles colocaram Jesus.

Muitos jovens têm lutado pelo Evangelho, semeando a novidade do Reino, no mundo, a partir de belos testemunhos da experiência cristã. Por outro lado, muitos são os jovens que não têm sonhado, perdendo a perspectiva de vida e o sentido do viver. É preciso dar sinais de nossa esperança, reconhecendo no silêncio da morte do Senhor, motivos de alegre expectativa, de uma vida em plenitude.

Oração
Ó Deus, fonte donde jorra a vida, junto com vosso Filho, tantas pessoas têm sido semeadas no solo da morte, vítima de tanta negligência e desamor. Ao contrário, ajudai-nos a semear sonhos de esperança e a nos colocarmos em prontidão, para agirmos pela causa do vosso Reino, principalmente junto aos jovens. Amém!

15ª Estação
Leitura Bíblica: Mc 16,1-2.4b-6 - Passado o sábado, Maria Madalena e Maria, a mãe de Tiago, e Salomé compraram perfumes para embalsamar o corpo de Jesus. E bem cedo no primeiro dia da semana, ao raiar do sol, foram ao túmulo. Mas, quando olharam, perceberam que a pedra já tinha sido removida. Entraram, então, no túmulo e viram um jovem sentado do lado direito, vestido de branco. E ficaram muito assustadas. Mas o jovem lhes disse: “Não vos assusteis! Procurais Jesus, o nazareno, aquele que foi crucificado? Ele ressuscitou! Não está aqui! Vede o lugar onde o puseram!

A cada amanhecer fazemos uma experiência de ressurreição. Atentos à vida inabalável do Filho, reconhecemos os sinais de ressurreição em nossa própria vida. Que os jovens de nossa comunidade sejam, em suas vidas, sinais da vida nova, partícipes da vida de Deus.

Oração
Ó Deus, amor que não tem fim, pela vida eternamente ressuscitada de Cristo, nós somos convidados a partilhar de vossa vida. A vós pedimos que a alegria da ressurreição do vosso Filho cative e inspire a vida de nossa juventude, como sinal de vossa fidelidade e de nossa adesão à vossa Palavra. Amém!

Meditação para a Sexta-Feira da Paixão.


Pilatos, vendo que nada conseguia e que o tumulto aumentava cada vez mais, mandou vir água e lavou as mãos na presença da multidão, dizendo: «Estou inocente deste sangue. Isso é convosco.» Mt 27, 24

Senhor,
impressiona-nos tanto este “lavar de mãos” de Pilatos na tua presença!

E no entanto, Senhor, tantas vezes eu lavo as minhas mãos quando contigo me encontro!

Quando Te encontro nos pobres na rua e passo adiante:
Lavo as mãos da indigência dos indigentes!

Quando Te encontro nos sós que não têm ninguém e não lhes sorrio:
Lavo as mãos da solidão dos abandonados!

Quando Te encontro nos necessitados de carinho e não os abraço:
Lavo as mãos da falta de amor aos desamados! 

Quando Te encontro nos injustiçados e não os defendo:
Lavo as mãos da injustiça dos inocentes condenados!

Quando Te encontro nos não nascidos e nada faço para mudar as leis iníquas:
Lavo as mãos da morte dos abortados!

Quando Te encontro nos mais fracos e não luto por eles:
Lavo as mãos da fraqueza dos indefesos!

Quando Te encontro em cada irmão e irmã e não os amo como Tu me amas:
Lavo as mãos do amor que Tu me dás!

Quando Te encontro em cada um que Te procura e não dou testemunho de Ti:
Lavo as mãos da missão que Tu nos deste de chamar os que andam perdidos!

Quando Te encontro nos que Te atacam e Te querem expulsar da humanidade, e nada faço, nada digo, nada testemunho do teu amor:
Lavo as mãos de ser teu discípulo e entrego-Te para seres crucificado!

Tenho as mãos gastas, Senhor, de tanto as lavar e as ter cada vez mais sujas, com as minhas fraquezas, com as minhas tibiezas, com o meu pecado.

Tem compaixão, Senhor, e dá-me da água do teu lado, pois só nela devo lavar as minhas mãos, todo o meu ser e purificar o meu coração para Ti.


LEIA, ABAIXO, A LECTIO DIVINA DA 
SEXTA-FEIRA DA PAIXÃO DO SENHOR