terça-feira, 31 de março de 2026

Quinta-feira da Semana Santa (Missa vespertina da Ceia do Senhor)

1ª Leitura (Ex 12,1-8.11-14):
Naqueles dias, o Senhor disse a Moisés e a Aarão na terra do Egipto: «Este mês será para vós o princípio dos meses; fareis dele o primeiro mês do ano. Falai a toda a comunidade de Israel e dizei-lhe: No dia dez deste mês, procure cada qual um cordeiro por família, uma rês por cada casa. Se a família for pequena demais para comer um cordeiro, junte-se ao vizinho mais próximo, segundo o número de pessoas, tendo em conta o que cada um pode comer. Tomareis um animal sem defeito, macho e de um ano de idade. Podeis escolher um cordeiro ou um cabrito. Deveis conservá-lo até ao dia catorze desse mês. Então, toda a assembleia da comunidade de Israel o imolará ao cair da tarde. Recolherão depois o seu sangue, que será espalhado nos dois umbrais e na padieira da porta das casas em que o comerem. E comerão a carne nessa mesma noite; comê-la-ão assada ao fogo, com pães ázimos e ervas amargas. Quando o comerdes, tereis os rins cingidos, sandálias nos pés e cajado na mão. Comereis a toda a pressa: é a Páscoa do Senhor. Nessa mesma noite, passarei pela terra do Egipto e hei-de ferir de morte, na terra do Egipto, todos os primogénitos, desde os homens até aos animais. Assim exercerei a minha justiça contra os deuses do Egipto, Eu, o Senhor. O sangue será para vós um sinal, nas casas em que estiverdes: ao ver o sangue, passarei adiante e não sereis atingidos pelo flagelo exterminador, quando Eu ferir a terra do Egipto. Esse dia será para vós uma data memorável, que haveis de celebrar com uma festa em honra do Senhor. Festejá-lo-eis de geração em geração, como instituição perpétua».
 
Salmo Responsorial: 115
R. O cálice de bênção é comunhão do Sangue de Cristo.
 
Como agradecerei ao Senhor tudo quanto Ele me deu? Elevarei o cálice da salvação, invocando o nome do Senhor.
 
É preciosa aos olhos do Senhor a morte dos seus fiéis. Senhor, sou vosso servo, filho da vossa serva: quebrastes as minhas cadeias.
 
Oferecer-Vos-ei um sacrifício de louvor, invocando, Senhor, o vosso nome. Cumprirei as minhas promessas ao Senhor, na presença de todo o povo.
 
2ª Leitura (1Cor 11,23-26): Irmãos: Eu recebi do Senhor o que também vos transmiti: o Senhor Jesus, na noite em que ia ser entregue, tomou o pão e, dando graças, partiu-o e disse: «Isto é o meu Corpo, entregue por vós. Fazei isto em memória de Mim». Do mesmo modo, no fim da ceia, tomou o cálice e disse: «Este cálice é a nova aliança no meu Sangue. Todas as vezes que o beberdes, fazei-o em memória de Mim». Na verdade, todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, anunciareis a morte do Senhor, até que Ele venha.
 
Dou-vos um mandamento novo, diz o Senhor: Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei.
 
Evangelho (Jo 13,1-15): Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que tinha chegado a sua hora, hora de passar deste mundo para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim. Foi durante a ceia. O diabo já tinha seduzido Judas Iscariotes para entregar Jesus. Sabendo que o Pai tinha posto tudo em suas mãos e que de junto de Deus saíra e para Deus voltava, Jesus levantou-se da ceia, tirou o manto, pegou uma toalha e amarrou-a à cintura. Derramou água numa bacia, pôs-se a lavar os pés dos discípulos e enxugava-os com a toalha que trazia à cintura. Chegou assim a Simão Pedro. Este disse: «Senhor, tu vais lavar-me os pés?». Jesus respondeu: «Agora não entendes o que estou fazendo; mais tarde compreenderás». Pedro disse: «Tu não me lavarás os pés nunca!». Mas Jesus respondeu: «Se eu não te lavar, não terás parte comigo». Simão Pedro disse: «Senhor, então lava-me não só os pés, mas também as mãos e a cabeça». Jesus respondeu: «Quem tomou banho não precisa lavar senão os pés, pois está inteiramente limpo. Vós também estais limpos, mas não todos». Ele já sabia quem o iria entregar. Por isso disse: «Não estais todos limpos». Depois de lavar os pés dos discípulos, Jesus vestiu o manto e voltou ao seu lugar. Disse aos discípulos: «Entendeis o que eu vos fiz? Vós me chamais de Mestre e Senhor; e dizeis bem, porque sou. Se eu, o Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns aos outros. Dei-vos o exemplo, para que façais assim como eu fiz para vós».
 
«Se eu, o Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns aos outros»
 
Mons. José Ángel SAIZ Meneses, Arcebispo de Sevilha (Sevilla, Espanha)
 
Hoje lembramos aquela primeira Quinta-feira Santa da história, na qual Jesus Cristo se reúne com os seus discípulos para celebrar a Páscoa. Então inaugurou a nova Páscoa da nova Aliança, na que se oferece em sacrifício pela salvação de todos.
 
Na Santa Ceia, ao mesmo tempo que a Eucaristia, Cristo institui o sacerdócio ministerial. Mediante este, poderá se perpetuar o sacramento da Eucaristia. O prefácio da Missa Crismal revela-nos o sentido: «Ele escolhe alguns para fazê-los participes de seu ministério santo; para que renovem o sacrifício da redenção, alimentem a teu povo com a tua Palavra e o reconfortem com os teus sacramentos».
 
E aquela mesma Quinta-feira, Jesus nos dá o mandamento do amor: «Amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei» (Jo 13,34). Antes, o amor fundamentava-se na recompensa esperada em troca, ou no cumprimento de uma norma imposta. Agora, o amor cristão fundamenta-se em Cristo. Ele nos ama até dar a vida: essa tem que ser a medida do amor do discípulo, e esse tem que ser o sinal, a característica do reconhecimento cristão.
 
Mas, o homem não tem a capacidade para amar assim. Não é simplesmente o fruto de um esforço, senão dom de Deus. Afortunadamente, Ele é amor e —ao mesmo tempo— fonte de amor que se nos dá no Pão Eucarístico.
 
Finalmente, hoje contemplamos o lavatório dos pés. Na atitude de servo, Jesus lava os pés dos Apóstolos, e lhes recomenda que o façam uns aos outros (cf. Jo 13,14).
 
Há algo mais que uma lição de humildade neste gesto do Mestre. É como uma antecipação, como um símbolo da Paixão, da humilhação total que sofrerá para salvar todos os homens.
 
O teólogo Romano Guardini diz que «a atitude do pequeno que se inclina ante o grande, ainda não é humildade. É, simplesmente, verdade. O grande que se humilha ante o pequeno, é o verdadeiro humilde». Por isto Jesus Cristo é autenticamente humilde. Ante este Cristo humilde, nossos moldes se quebram. Jesus Cristo inverte os valores humanos e convida-nos a segui-lo para construir um mundo novo e diferente desde o serviço.
 
Pensamentos para o Evangelho de hoje
«A utilidade do rebaixamento humano é tão grande que até o recomendou com seu exemplo a sublimidade divina, porque o homem orgulhoso pereceria para sempre, se o humilde Deus não o tivesse encontrado» (Santo Agostinho)
 
«Viver implica sujar os pés pelos caminhos poeirentos da vida, da história. Todos nós precisamos ser purificados, ser lavados» (Francisco)
 
«Tendo amado os seus, o Senhor amou-os até ao fim. Sabendo que era chegada a hora de partir deste mundo para regressar ao Pai, no decorrer duma refeição, lavou-lhes os pés e deu-lhes o mandamento do amor. Para lhes deixar uma garantia deste amor, para jamais se afastar dos seus e para os tornar participantes da sua Páscoa, instituiu a Eucaristia como memorial da sua morte e da sua ressurreição, e ordenou aos seus Apóstolos que a celebrassem até ao seu regresso, constituindo-os, então, sacerdotes do Novo Testamento» (Catecismo da Igreja Católica, nº 1.337)
 
Deus não está onde o poder é exercido, mas o serviço!
 
Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo.
 
Denominamos Tríduo Pascal, do latim Triduum Paschale, o conjunto das três celebrações que marcam três acontecimentos fundamentais para o cristianismo. Trata-se da:
* Instituição da Eucaristia e do serviço aos irmãos(ãs) como síntese do ministério do cristão, simbolizado pelo lava-pés: Missa da Ceia do Senhor, na quinta-feira santa à noite.
* A contemplação da entrega total do Filho de Deus à humanidade, mediante a sua morte de cruz, às 15 horas, na sexta-feira santa: Celebração da Adoração da Cruz.
* A vida vence a morte violenta e o pecado humano, Jesus, o Nazareno, ressuscita dos mortos: Vigília Pascal, na noite de sábado santo.
Portanto, hoje, quinta-feira santa, inicia-se esse percurso que nos conduz à Páscoa, à libertação definitiva.
 
* Jo 13,1: «Era antes da festa da Páscoa. Jesus sabia que tinha chegado a sua hora de passar deste mundo para o Pai; tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim.» Com esta solene introdução, João permite-nos prever que importantes discursos ou ações importantes serão realizadas por Jesus em seu último encontro com os discípulos. A expectativa é reforçada pela forma como o evangelista anuncia que o amor com que Jesus amou os seus discípulos atingirá a sua expressão máxima: “amou-os até o fim”. Com isso o evangelista repete o que está escrito no livro do Deuteronômio, “quando Moisés tinha terminado de escrever as palavras da Lei num livro até o fim” (Dt 31,24 ― versão grega: LXX). João faz-nos compreender que uma nova aliança está para ser proclamada, onde não um livro, mas um homem é a Palavra de Deus (cf. Jo 1,14), onde não a Lei, mas o amor será a norma de comportamento na comunidade de Jesus (cf. Jo 1,17; 13,34).
 
* Jo 13,2: «Estavam tomando a ceia. O diabo já tinha posto no coração de Judas, filho de Simão Iscariotes, o propósito de entregar Jesus.» Mas esta atmosfera solene é arruinada por um hóspede que não foi convidado: o diabo. O jantar que o evangelista descreve não é o jantar pascal (realiza-se antes da festa da Páscoa), e não aparece nenhum elemento do jantar ritual judaico, mas é a Eucaristia, “a ceia do Senhor” (1Cor 11,20). Neste clima, que deveria ser de acolhimento e de doação, de amor recebido e de amor comunicado, a presença do diabo lança sobre os presentes uma sombra de morte. O diabo já tinha sido apresentado, no Evangelho, como sendo o pai das autoridades religiosas (cf. Jo 8,44). Em Judas, um dos discípulos de Cristo, o diabo encontrou um aliado precioso. O que não chega a ser novidade!
 
Quando, em Cafarnaum, uma boa parte de seus discípulos o abandonou (cf. Jo 6,66), Jesus permaneceu com um pequeno grupo e disse que um deles, Judas, era um diabo (cf. Jo 6,64.70-71). Ele é apresentado, também, como ladrão e mentiroso (cf. Jo 12,6), tal como os líderes do povo, Judas, assim como eles, não vem “a não ser para roubar e matar” (Jo 10,1.8.10).
 
* Jo 13,3-5: «Jesus, sabendo que o Pai tinha colocado tudo em suas mãos e que de Deus tinha saído e para Deus voltava, levantou-se da mesa, tirou o manto, pegou uma toalha e amarrou-a na cintura. Derramou água numa bacia e começou a lavar os pés dos discípulos, enxugando-os com a toalha com que estava cingido.» A atmosfera é cheia de suspense. Jesus sabe (cf. Jo 13,3). O que ele vai fazer? Ele enfrentará o discípulo traidor? Ninguém compreende as intenções de Jesus, que num determinado momento interrompe o jantar, “levantou-se da mesa, tirou o manto, pegou uma toalha e amarrou-a na cintura” (Jo 13,4).
 
Ninguém lhe pergunta o que ele pretende fazer. Nem sequer seus discípulos têm tempo porque Jesus, depois de deitar água em uma bacia, “começou a lavar os pés dos discípulos, enxugando-os com a toalha com que estava cingido” (Jo 13,5). O que é esta novidade?
 
Lavar os pés do hóspede era uma tarefa repugnante, reservada a indivíduos considerados inferiores aos seus superiores: o escravo não-judeu para com o senhor, a mulher para com o marido (cf. 1Sm 25,41), os filhos para com o pai e os discípulos para com o mestre. E, em todo o caso, fazia-se sempre antes de sentar-se à mesa (cf. Lc 7,44; Gn 18,4) e não durante o jantar, como neste caso.
 
Aos discípulos que pretendiam fazer dele seu rei (cf. Jo 6,15), Jesus responde tornando-se seu servo, demonstrando a verdadeira realeza, a do amor que se transforma em serviço. O Senhor faz o trabalho de um servo para que os servos se sintam senhores.
 
Na sua comunidade não existem hierarquias nem categorias, mas todos são igualmente senhores, para se tornarem servos uns dos outros, porque só quem é senhor, ou seja, livre, pode tornar-se verdadeiramente servo dos outros.
 
Ao lavar os pés dos discípulos, Jesus não se rebaixa, mas eleva os outros. Mostra o significado de um Deus que está a serviço dos seres humanos e, ao mesmo tempo, destrói a ideia de Deus criada pela religião, segundo a qual os seres humanos devem servir à divindade. A verdadeira grandeza, a de Deus, consiste em servir os outros e não em deixar-se servir.
 
Se Jesus, que é Deus, se coloca ao serviço dos seres humanos, aqueles que pretendem dominar e comandar distanciam-se dele. Deus não está onde o poder é exercido, mas o serviço! Toda forma de serviço, toda obra de libertação do ser humano vem de Deus, mas nenhuma forma de poder ou de dominação pode ser legitimada em nome de Deus.
 
* Jo 13,6-8: «Chegou a vez de Simão Pedro. Pedro disse: “Senhor, tu me lavas os pés?” Respondeu Jesus: “Agora, não entendes o que estou fazendo; mais tarde compreenderás”. Disse-lhe Pedro: “Tu nunca me lavarás os pés!” Mas Jesus respondeu: “Se eu não te lavar, não terás parte comigo”.» Por último, Jesus dirige-se a Simão, o discípulo cujo apelido (Pedro = “pedra”) corresponde ao seu carácter teimoso e obstinado. Na verdade, ele é o único a reagir horrorizado: “Senhor, tu me lavas os pés?” (Jo 13,6). Simão não aceita o gesto de Jesus, o mestre que lava os pés de um discípulo.
 
O único discípulo que protesta é na verdade o único que compreendeu as consequências da ação do Senhor. Se Jesus, o mestre, lava os pés dos seus discípulos, a partir de agora, ninguém do grupo poderá se considerar superior ao outro.
 
Não, isto é inaceitável: “Disse-lhe Pedro: ‘Tu nunca me lavarás os pés!’” (Jo 13,8). Pela primeira vez no Evangelho o discípulo é apresentado apenas com o apelido negativo “Pedro”, nunca usado por Jesus, que sempre o chamará pelo nome, mas usado pelo evangelista para apontar todas as vezes que Simão se opõe a Cristo (cf. Jo 18,27; 21,20). A reação de Pedro não é um sinal de humildade, mas, pelo contrário, indica a sua recusa em agir como Jesus: não aceita o seu gesto porque não está disposto a comportar-se como ele. Ele defende a posição de Jesus porque, na realidade, quer defender a sua!
 
A reação de Jesus é seca: “Se eu não te lavar, não terás parte comigo” (Jo 13,8). Quem não aceita o serviço nada tem a ver com um Deus a serviço dos seres humanos.
 
Quem aceita ser submisso não entendeu quem é Jesus e não tem nada em comum com o Cristo que liberta as pessoas.
 
* Jo 13,9-10: «Simão Pedro disse: “Senhor, então lava não somente os meus pés, mas também as mãos e a cabeça”. Jesus respondeu: “Quem já se banhou não precisa lavar senão os pés, porque já está todo limpo. Também vós estais limpos, mas não todos”.» Astuto como sempre, Simão tenta evitar a condição que Jesus lhe impõe e, encurralado, tenta a última cartada, a do ritual. Ele não aceita o gesto de Jesus como expressão de serviço, mas, contornando o obstáculo, interpreta-o como um rito purificatório: “Senhor, então lava não somente os meus pés, mas também as mãos e a cabeça” (Jo 13,9). Simão quer um rito purificatório em vista da Páscoa, como faziam os peregrinos que “tinham subido a Jerusalém para se purificarem antes da Páscoa” (Jo 11,55).
 
Simão não entendeu que não é um rito de purificação que permite acolher o amor de Deus, mas, pelo contrário, acolher o amor de Deus torna-nos puros! Ao terem aceitado Jesus, os discípulos já são puros: “Vós sois puros pela palavra que vos falei” (João 15,3). Porém, precisam acolher o lava-pés para compreender o serviço de Deus para com eles e deles para com os irmãos e irmãs.
 
Não é o fato de ter os pés lavados que torna um ser humano puro, mas a sua disposição de lavar os pés dos outros.
 
* Jo 13,11: «Jesus sabia quem o ia entregar; por isso disse: “Nem todos estais limpos”.»
Porém, a sombra das trevas recai sobre a ação de Jesus, que, aos poucos, ampliará sua influência nefasta: apesar do gesto de amor feito por Jesus, nem todos são puros, outra pessoa, além de Pedro, resiste ao seu amor. Jesus também lavou os pés do discípulo traidor, mas ele não aceitou o amor inerente ao gesto.
 
Jesus é a expressão tangível do amor de Deus que não exclui ninguém do seu amor, nem mesmo o discípulo que, em breve, o trairá, entregando-o à morte. É o discípulo que, ao rejeitar este amor, exclui-se da vida que Jesus comunica, permanecendo assim nas trevas.
 
Terminado de lavar os pés dos discípulos atônitos, recalcitrantes como Pedro, ou indiferentes como Judas, Jesus pega o manto e volta a deitar-se sobre a espreguiçadeira, mas não retira a toalha, que se torna assim o sinal distintivo do agir de Cristo.
 
Comer deitado em espreguiçadeiras era típico dos senhores, que podiam se dar ao luxo de serem servidos. Pois bem, Jesus combina os dois aspectos: retém consigo a toalha, sinal de serviço, e deita-se sobre a espreguiçadeira, sinal de ser Senhor. Ser Senhor e servir não se contradizem, mas são uma expressão um do outro.
 
O Cristo de João não usa as vestes sagradas dos sacerdotes, mas os distintivos comuns do serviço: não as vestes da casta sacerdotal, mas o avental dos servos.
 
* Jo 13,12-15: «Depois de ter lavado os pés dos discípulos, Jesus vestiu o manto e sentou-se de novo. E disse aos discípulos: “Compreendeis o que acabo de fazer? Vós me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem, pois eu o sou. Portanto, se eu, o Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros. Dei-vos o exemplo, para que façais a mesma coisa que eu fiz”.» Para garantir que isto permaneça fixo na mente dos seus discípulos, Jesus explica o significado do gesto realizado: “Vós me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem, pois eu o sou. Portanto, se eu, o Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros” (Jo 13,13-14). Sublinhando que é o único Mestre e o único Senhor, Jesus apresenta-se não só como aquele que ensina a amar e a servir, mas que comunica a força para o fazer.
 
Para Jesus, ser Mestre e Senhor não significa colocar-se acima dos discípulos, mas colocar-se ao seu serviço e torná-los capazes de amar.
 
Se os discípulos o reconhecem como Mestre, devem aprender dele a servir, e se reconhecem Jesus como Senhor, devem assemelhar-se a ele no amor.
 
Ter compreendido a ação de Jesus só se demonstra traduzindo-a em atitudes concretas. Lavar os pés do outro não é uma demonstração de virtude, mas um dever, o cumprimento de uma dívida que se tem para com o irmão: “Não fiqueis devendo nada a ninguém, a não ser o amor que deveis uns aos outros” (Rm 13,8).
 
Jesus não se apresenta como um modelo externo a ser imitado, mas como um dom que gera o comportamento dos discípulos. Não um exemplo, mas um gesto de amor que permite aos discípulos praticar o mesmo amor (cf. Jo 13,15).

segunda-feira, 30 de março de 2026

Via Sacra com o São Tito Brandsma

I: Jesus é condenado a morte
 

C - Bendita e louvada seja a sagrada Paixão e Morte de Jesus Cristo, Nosso Senhor.
T - Que quis padecer e morrer na cruz por nosso amor.
 
C -Querendo Pilatos satisfazer o povo, soltou-lhes Barrabás e entregou Jesus, depois de açoitado, para que fosse crucificado. (Mc 15, 15).
 
C - Nós Vos adoramos, Santíssimo Senhor Jesus Cristo e Vos bendizemos.
R - Porque pela Vossa Santa Cruz remistes o mundo.
 
L - “Há uma oposição radical entre Deus e o mundo; e esta contradição se manifesta também na vida religiosa e nos conventos. Quem ama a justiça, há de preparar-se para viver perseguido e desprezado”
 
C - Santa Mãe, isto eu vos peço: que fiquem no meu peito, bem impressas,
R - As chagas de Jesus crucificado e as dores do vosso maternal Coração.
 
II: Jesus toma a Cruz
 

C - Bendita e louvada seja a sagrada Paixão e Morte de Jesus Cristo, Nosso Senhor.
T - Que quis padecer e morrer na cruz por nosso amor.
 
C -Levaram então consigo Jesus. Ele próprio carregava a sua cruz para fora da cidade, em direção ao lugar chamado Calvário, em hebraico Gólgota. (Jo 19, 17).
 
C - Nós Vos adoramos, Santíssimo Senhor Jesus Cristo e Vos bendizemos.
R - Porque pela Vossa Santa Cruz remistes o mundo.
 
L -“Quem verdadeiramente ama Jesus, há de subir o Calvário”
 
C - Santa Mãe, isto eu vos peço: que fiquem no meu peito, bem impressas,
R - As chagas de Jesus crucificado e as dores do vosso maternal Coração.
 
III: Jesus cai pela primeira vez
 

C - Bendita e louvada seja a sagrada Paixão e Morte de Jesus Cristo, Nosso Senhor.
T - Que quis padecer e morrer na cruz por nosso amor.
 
C -Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo, caído na terra, não morrer, fica só; se morrer, produz muito fruto. (Jo 12, 24).
 
C - Nós Vos adoramos, Santíssimo Senhor Jesus Cristo e Vos bendizemos.
R - Porque pela Vossa Santa Cruz remistes o mundo.
 
L - “A paixão nos torna, no princípio, indecisos, duvidosos, desviando-nos gradualmente de Deus, direcionando-nos às criaturas, ao prazer e às distrações. Deixa-nos fracos. A açucena se vai secando, as flores começam a inclinar-se e murcham. Vem a tempestade. Põe-se um apoio na planta para melhor sustentá-la. É a Cruz. É a mortificação contínua que nos deve manter fixos em Deus”.
 
C - Santa Mãe, isto eu vos peço: que fiquem no meu peito, bem impressas,
R - As chagas de Jesus crucificado e as dores do vosso maternal Coração.
 
IV: Jesus encontra a sua Mãe
 

C - Bendita e louvada seja a sagrada Paixão e Morte de Jesus Cristo, Nosso Senhor.
T - Que quis padecer e morrer na cruz por nosso amor.
 
C - Simeão abençoou-os e disse a Maria, sua mãe: Eis que este menino está destinado a ser uma causa de queda e de soerguimento para muitos homens em Israel, e a ser um sinal que provocará contradições, a fim de serem revelados os pensamentos de muitos corações. E uma espada transpassará a tua alma. (Lc 2, 34-35).
 
C - Nós Vos adoramos, Santíssimo Senhor Jesus Cristo e Vos bendizemos.
R - Porque pela Vossa Santa Cruz remistes o mundo.
 
L - “Acorrer com Maria ao encontro de Jesus no caminho do Calvário e expressar-lhe nosso amor e nossa compaixão, nossa fidelidade e nosso afeto. Seguir com ela ao cimo do Gólgota”
 
C - Santa Mãe, isto eu vos peço: que fiquem no meu peito, bem impressas,
R - As chagas de Jesus crucificado e as dores do vosso maternal Coração.
 
V: O Cirineu ajuda a Jesus a levar a Cruz
 
C - Bendita e louvada seja a sagrada Paixão e Morte de Jesus Cristo, Nosso Senhor.
T - Que quis padecer e morrer na cruz por nosso amor.
 
C - Passava por ali certo homem de Cirene, chamado Simão, que vinha do campo, pai de Alexandre e de Rufo, e obrigaram-no a que lhe levasse a cruz. (Mc 15, 21).
 
C - Nós Vos adoramos, Santíssimo Senhor Jesus Cristo e Vos bendizemos.
R - Porque pela Vossa Santa Cruz remistes o mundo.
 
L - Jesus chorou uma vez sobre Jerusalém: oxalá vós pudésseis conhecer hoje o dom de Deus! Oxalá nós pudéssemos também conhecer hoje o grande valor que Deus pôs em nossos sofrimentos.
 
C - Santa Mãe, isto eu vos peço: que fiquem no meu peito, bem impressas,
R - As chagas de Jesus crucificado e as dores do vosso maternal Coração.
 
VI: Verônica enxuga o rosto de Jesus
 

C - Bendita e louvada seja a sagrada Paixão e Morte de Jesus Cristo, Nosso Senhor.
T - Que quis padecer e morrer na cruz por nosso amor.
 
C - O traidor tinha-lhes dado o seguinte sinal: Aquele a quem eu beijar é ele. Prendei-o e levai-o com cuidado. Assim que ele se aproximou de Jesus, disse: “Rabi”! - E o beijou. (Mc 14, 44-45).
 
C - Nós Vos adoramos, Santíssimo Senhor Jesus Cristo e Vos bendizemos.
R - Porque pela Vossa Santa Cruz remistes o mundo.
 
L -“Devemos ter um grande respeito pela dor, porque nela há algo sagrado”
 
C - Santa Mãe, isto eu vos peço: que fiquem no meu peito, bem impressas,
R - As chagas de Jesus crucificado e as dores do vosso maternal Coração.
 
VII: Jesus cai pela segunda vez
 

C - Bendita e louvada seja a sagrada Paixão e Morte de Jesus Cristo, Nosso Senhor.
T - Que quis padecer e morrer na cruz por nosso amor.
 
C - Jesus, prostrando-se com a face por terra, assim rezou: Meu Pai, se é possível, afasta de mim este cálice! Todavia não se faça o que eu quero, mas sim o que tu queres. (Mt 26, 39).
 
C - Nós Vos adoramos, Santíssimo Senhor Jesus Cristo e Vos bendizemos.
R - Porque pela Vossa Santa Cruz remistes o mundo.
 
L - Nada se consegue sem suor, sem uma dura luta. Em nossos melhores momentos não devemos chorar sobre nossas fraquezas ou mesmo sobre a dos outros, recordemos aqui, a intimidade e a profundidade das palavras: "suficiente é a minha graça". Em união comigo tudo podeis fazer.
 
C - Santa Mãe, isto eu vos peço: que fiquem no meu peito, bem impressas,
R - As chagas de Jesus crucificado e as dores do vosso maternal Coração.
 
VIII: Jesus consola as mulheres de Jerusalém
 

C - Bendita e louvada seja a sagrada Paixão e Morte de Jesus Cristo, Nosso Senhor.
T - Que quis padecer e morrer na cruz por nosso amor.
 
C - Uma grande multidão do povo o seguia. E mulheres batiam no peito, e choravam por ele. Jesus, porém, voltou-se e disse: «Mulheres de Jerusalém, não chorem por mim! Chorem por vocês mesmas e por seus filhos! (Lc 23, 27-28)
 
C - Nós Vos adoramos, Santíssimo Senhor Jesus Cristo e Vos bendizemos.
R - Porque pela Vossa Santa Cruz remistes o mundo.
 
L - “Ó Jesus, deixa que eu chore por mim mesmo, pois não sou senão uma árvore seca que só serve para ser lançada ao fogo. Porém tu dás nova vida à árvore seca enxertando-a na árvore da cruz”.
 
C - Santa Mãe, isto eu vos peço: que fiquem no meu peito, bem impressas,
R - As chagas de Jesus crucificado e as dores do vosso maternal Coração.
 
IX: Jesus cai pela terceira vez
 

C - Bendita e louvada seja a sagrada Paixão e Morte de Jesus Cristo, Nosso Senhor.
T - Que quis padecer e morrer na cruz por nosso amor.
 
C - Vinde a mim, vós todos que estais aflitos sob o fardo, e eu vos aliviarei. Tomai meu jugo sobre vós e recebei minha doutrina, porque eu sou manso e humilde de coração e achareis o repouso para as vossas almas. Porque meu jugo é suave e meu peso é leve. (Mt 11, 28-30).
 
C - Nós Vos adoramos, Santíssimo Senhor Jesus Cristo e Vos bendizemos.
R - Porque pela Vossa Santa Cruz remistes o mundo.
 
L - “Minha fé, por teu amor, procura beber o cálice de amargura que antevejo. A Tua via dolorosa é o meu único caminho para Deus.”
 
C - Santa Mãe, isto eu vos peço: que fiquem no meu peito, bem impressas,
R - As chagas de Jesus crucificado e as dores do vosso maternal Coração.
 
X: Jesus é despojado de suas vestes
 

C - Bendita e louvada seja a sagrada Paixão e Morte de Jesus Cristo, Nosso Senhor.
T - Que quis padecer e morrer na cruz por nosso amor.
 
C - E Jesus dizia: Pai, perdoa-lhes; porque não sabem o que fazem. Eles dividiram as suas vestes e as sortearam. (Lc 23, 34).
 
C - Nós Vos adoramos, Santíssimo Senhor Jesus Cristo e Vos bendizemos.
R - Porque pela Vossa Santa Cruz remistes o mundo.
 
L - “Somos provados porque somos amados”
 
C - Santa Mãe, isto eu vos peço: que fiquem no meu peito, bem impressas,
R - As chagas de Jesus crucificado e as dores do vosso maternal Coração.
 
XI: Jesus é crucificado
 

C - Bendita e louvada seja a sagrada Paixão e Morte de Jesus Cristo, Nosso Senhor.
T - Que quis padecer e morrer na cruz por nosso amor.
 
C - Era a hora terceira quando o crucificaram. A inscrição que motivava a sua condenação dizia: O rei dos judeus. Crucificaram com ele dois bandidos: um à sua direita e outro à esquerda. Os que iam passando injuriavam-no e abanavam a cabeça, dizendo: Olá! Tu que destróis o templo e o reedificas em três dias, salva-te a ti mesmo! Desce da cruz! Desta maneira, escarneciam dele também os sumos sacerdotes e os escribas, dizendo uns para os outros: Salvou a outros e a si mesmo não pode salvar! (Mc 15, 25-27. 29-30).
 
C - Nós Vos adoramos, Santíssimo Senhor Jesus Cristo e Vos bendizemos.
R - Porque pela Vossa Santa Cruz remistes o mundo.
 
L - “A dor é consequência do pecado e só mediante a cruz se recupera a união com Deus e a glória perdida.  A dor é, por isso mesmo, o caminho do Céu.  Na cruz está a salvação, na cruz e vitória.  Assim dispôs Deus, que, além do mais, quis tomar sobre si mesmo o sofrimento, para com ele, conquistar a glória da redenção. Por isso, como diz São Paulo, “os sofrimentos da presente vida não têm proporção alguma com a glória futura que nos deve ser manifestada”, quando passar o tempo de sofrer e formos participantes desta mesma glória.”
 
C - Santa Mãe, isto eu vos peço: que fiquem no meu peito, bem impressas,
R - As chagas de Jesus crucificado e as dores do vosso maternal Coração.
 
XII: Jesus morre na Cruz
 

C - Bendita e louvada seja a sagrada Paixão e Morte de Jesus Cristo, Nosso Senhor.
T - Que quis padecer e morrer na cruz por nosso amor.
 
C - E à hora nona Jesus bradou em alta voz: “Elói, Elói, lammá sabactáni?”, que quer dizer: Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?  Ouvindo isto, alguns dos circunstantes diziam: Ele chama por Elias! Um deles correu e ensopou uma esponja em vinagre e, pondo-a na ponta de uma vara, deu-lho para beber, dizendo: Deixai, vejamos se Elias vem tirá-lo. Jesus deu um grande brado e expirou.  (Mc 15, 33-34.37).
 
C - Nós Vos adoramos, Santíssimo Senhor Jesus Cristo e Vos bendizemos.
R - Porque pela Vossa Santa Cruz remistes o mundo.
 
L - “Ninguém pode aproximar-se de Deus sem morrer a si mesmo”
 
C - Santa Mãe, isto eu vos peço: que fiquem no meu peito, bem impressas,
R - As chagas de Jesus crucificado e as dores do vosso maternal Coração.
 
XIII: Jesus é descido da Cruz
 

C - Bendita e louvada seja a sagrada Paixão e Morte de Jesus Cristo, Nosso Senhor.
T - Que quis padecer e morrer na cruz por nosso amor.
 
C - À tardinha, um homem rico de Arimateia, chamado José, que era também discípulo de Jesus, foi procurar Pilatos e pediu-lhe o corpo de Jesus. Pilatos cedeu-o. José tomou o corpo, envolveu-o num lençol branco (Mt 27, 57-59).
 
C - Nós Vos adoramos, Santíssimo Senhor Jesus Cristo e Vos bendizemos.
R - Porque pela Vossa Santa Cruz remistes o mundo.
 
L - “Com Maria não hesitar em participar do desprezo de Jesus, presenciar com ela a condenação, a flagelação, a coroação de espinhos e a Via Crucis. Suportar tudo, quando a honra e a glória de Jesus o exigir”.
 
C - Santa Mãe, isto eu vos peço: que fiquem no meu peito, bem impressas,
R - As chagas de Jesus crucificado e as dores do vosso maternal Coração.
 
XIV: Jesus é sepultado
 

C - Bendita e louvada seja a sagrada Paixão e Morte de Jesus Cristo, Nosso Senhor.
T - Que quis padecer e morrer na cruz por nosso amor.
 
C - José tomou o corpo, envolveu-o num lençol branco e o depositou num sepulcro novo, que tinha mandado talhar para si na rocha. Depois rolou uma grande pedra à entrada do sepulcro e foi-se embora. (Mt 27, 59-60).
 
C - Nós Vos adoramos, Santíssimo Senhor Jesus Cristo e Vos bendizemos.
R - Porque pela Vossa Santa Cruz remistes o mundo.
 
L - Quando não compreendemos Jesus, quando não compreendemos o sofrimento, devemos correr com São João ao lado de Maria, para chorar nossas amarguras e buscar nela refúgio”
 
C - Santa Mãe, isto eu vos peço: que fiquem no meu peito, bem impressas,
R - As chagas de Jesus crucificado e as dores do vosso maternal Coração.
 
ORAÇÃO FINAL A JESUS CRUCIFICADO

Eis-me aqui, ó meu bom e dulcíssimo Jesus! Humildemente prostrado de joelhos em vossa presença, peço e suplico-vos, com todo o fervor de minha alma, que vos digneis gravar em meu l coração os mais vivos sentimentos de fé, esperança e caridade, de verdadeiro arrependimento de meus pecados e um firme propósito de emendar-me, enquanto vou considerando, com vivo afeto e dor, as vossas cinco chagas, tendo presentes as palavras que já o profeta Davi punha em vossa boca, ó bom Jesus: "Transpassaram minhas mãos e os meus pés e contaram todos os meus ossos" (S121, 17).
 
ORAÇÃO FINAL A NOSSA SENHORA DAS DORES


Ó Mãe das Dores, Rainha dos mártires, que tanto chorastes vosso Filho, morto para me salvar, alcançai-me uma verdadeira contrição dos meus pecados e uma sincera mudança de vida. Mãe, pela dor que experimentastes quando vosso divino Filho, no meio de tantos tormentos, inclinando a cabeça expirou à vossa vista sobre a cruz, eu vos suplico que me alcanceis uma boa morte. Por piedade, ó advogada dos pecadores, não deixeis de amparar a minha alma na aflição e no combate da terrível passagem desta vida à eternidade. E, como é possível que, neste momento, a palavra e a voz me faltem para pronunciar o vosso nome e o de Jesus, rogo-vos, desde já, a vós e a vosso divino Filho, que me socorrais nessa hora extrema, e assim direi: Jesus e Maria, entrego-vos a minha alma. Amém.

Quarta-feira da Semana Santa

1ª Leitura (Is 50,4-9a):
O Senhor deu-me a graça de falar como um discípulo, para que eu saiba dizer uma palavra de alento aos que andam abatidos. Todas as manhãs Ele desperta os meus ouvidos, para eu escutar, como escutam os discípulos. O Senhor Deus abriu-me os ouvidos e eu não resisti nem recuei um passo. Apresentei as costas àqueles que me batiam e a face aos que me arrancavam a barba; não desviei o meu rosto dos que me insultavam e cuspiam. Mas o Senhor Deus veio em meu auxílio, e por isso não fiquei envergonhado; tornei o meu rosto duro como pedra, e sei que não ficarei desiludido. O meu advogado está perto de mim. Pretende alguém instaurar-me um processo? Compareçamos juntos. Quem é o meu adversário? Que se apresente! O Senhor Deus vem em meu auxílio. Quem ousará condenar-me?
 
Salmo Responsorial: 68
R. Pela vossa grande misericórdia, no tempo da graça, atendei-me, Senhor.
 
Por Vós tenho suportado afrontas, cobrindo-se meu rosto de confusão. Tornei-me um estranho para os meus irmãos, um desconhecido para a minha família. Devorou-me o zelo da vossa casa e recaíram sobre mim os insultos contra Vós.
 
O insulto despedaçou-me o coração e eu desfaleço. Esperei por compaixão e não apareceu, nem encontrei quem me consolasse. Misturaram-me fel na comida e deram-me vinagre a beber.
 
Louvarei com cânticos o nome de Deus e em ação de graças O glorificarei. Vós, humildes, olhai e alegrai-vos, buscai o Senhor e o vosso coração se reanimará. O Senhor ouve os pobres e não despreza os cativos.
 
Salve, Senhor, nosso Rei; só Vós tivestes piedade dos nossos erros.
 
Evangelho (Mt 26,14-25): Um dos doze, chamado Judas Iscariotes, foi ter com os sumos sacerdotes e disse: «Que me dareis se eu vos entregar Jesus?». Combinaram trinta moedas de prata. E daí em diante, ele procurava uma oportunidade para entregá-lo. No primeiro dia dos Pães sem fermento, os discípulos aproximaram-se de Jesus e perguntaram: «Onde queres que façamos os preparativos para comeres a páscoa?». Jesus respondeu: «Ide à cidade, procurai certo homem e dizei-lhe: ‘O Mestre manda dizer: o meu tempo está próximo, vou celebrar a ceia pascal em tua casa, junto com meus discípulos’». Os discípulos fizeram como Jesus mandou e prepararam a ceia pascal. Ao anoitecer, Jesus se pôs à mesa com os Doze. Enquanto comiam, ele disse: «Em verdade vos digo, um de vós me vai entregar». Eles ficaram muito tristes e, um por um, começaram a perguntar-lhe: «Acaso sou eu, Senhor?». Ele respondeu: «Aquele que se serviu comigo do prato é que vai me entregar. O Filho do Homem se vai, conforme está escrito a seu respeito. Ai, porém, daquele por quem o Filho do Homem é entregue! Melhor seria que tal homem nunca tivesse nascido!». Então Judas, o traidor, perguntou: «Mestre, serei eu?». Jesus lhe respondeu: «Tu o dizes».
 
«Acaso sou eu?»
 
Rev. P. Higinio Rafael ROSOLEN IVE (Cobourg, Ontario, Canadá)
 
Hoje, o Evangelho nos apresenta três cenas: a traição de Judas, os preparativos para celebrar a Páscoa e a Ceia com os Doze.
 
A palavra “entregar” (“paradidōmi” em grego) é repetida seis vezes e serve de elo entre esses três momentos: (I) quando Judas entrega Jesus; (II) Páscoa, que é uma figura do sacrifício da cruz, onde Jesus dá a vida; e (III) a Última Ceia, na qual se manifesta a entrega de Jesus, que se cumprirá na Cruz.
 
Queremos parar aqui na Ceia Pascal, onde Jesus Cristo manifesta que seu corpo será dado e seu sangue derramado. As suas palavras: «Garanto-vos que um de vós me entregará» (Mt 26,20), convida cada um dos Doze, sobretudo Judas, a um exame de consciência. Estas palavras estendem-se a todos nós, também chamados por Jesus. São um convite a refletir sobre nossas ações, sejam elas boas ou más; nossa dignidade; nos perguntamos o que estamos fazendo neste momento com nossas vidas; para onde vamos e como respondemos ao chamado de Jesus. Devemos responder uns aos outros com sinceridade, humildade e franqueza.
 
Vamos lembrar que podemos esconder nossos pecados de outras pessoas, mas não podemos escondê-los de Deus, que os vê em segredo. Jesus, verdadeiro Deus e homem, tudo vê e sabe. Ele sabe o que está em nossos corações e do que somos capazes. Nada está escondido de seus olhos. Evitemos enganar a nós mesmos e só depois de sermos sinceros conosco é que devemos olhar para Cristo e perguntar-lhe: " Acaso sou eu?" (Mt 26,22). Tenhamos presente o que diz o Papa Francisco: «Jesus, amando-nos, convida-nos a permitir-nos a reconciliação com Deus e a regressar a Ele para nos redescobrir».
 
Olhemos para Jesus, ouçamos suas palavras e peçamos a graça de doarmos, unindo-nos ao seu sacrifício na Cruz.
 
«Em verdade vos digo, um de vós me vai entregar»
 
P. Raimondo M. SORGIA Mannai OP (San Domenico di Fiesole, Florença, Itália)
 
Hoje, o Evangelho nos propõe —pelo menos— três considerações. A primeira é que, quando o amor ao Senhor se esfria, então a vontade cede a outros reclamos, onde a voluptuosidade parece oferecer-nos os pratos mais saborosos mas, na realidade, condimentados por degradantes e inquietantes venenos. Dada a nossa nativa fragilidade, não devemos permitir que o fogo do fervor diminua, que, se não sensível, pelo menos mental, nos une a Aquele que nos tem amado ao ponto de oferecer sua vida por nós.
 
A segunda consideração refere-se à misteriosa escolha do lugar donde Jesus quer consumir sua ceia Pascal. «Jesus respondeu: “Ide à cidade, procurai certo homem e dizei-lhe: ‘O Mestre manda dizer: o meu tempo está próximo, vou celebrar a ceia Pascal em tua casa, junto com meus discípulos’» (Mt 26,18). O dono da casa, talvez, não fosse um dos amigos declarados do Senhor; mas devia ter o ouvido atento para escutar o chamado “interior”. O Senhor lhe teria falado intimamente —como frequentemente nos fala—, a través de mil incentivos para que lhe abrisse a porta. Sua fantasia e sua onipotência, suportes do amor infinito com o qual nos ama, não conhecem fronteiras e se expressam de modo sempre apto a cada situação pessoal. Quando escutemos o chamado devemos “render-nos”, deixando à parte as sutilezas e aceitando com alegria esse “mensageiro libertador”. É como se alguém estivesse se apresentado à porta do cárcere e nos convida a segui-lo, como fez o Anjo com Pedro dizendo-lhe: «Levanta-te depressa! As correntes caíram-lhe das mãos» (At 12,7).
 
O terceiro motivo de meditação nos oferece o traidor que tenta esconder seu crime ante a presença examinadora do Onisciente. O próprio Adão já tinha tentado, depois, seu filho fratricida Caim, embora, inutilmente. Antes de ser nosso perfeito Juiz, Deus se apresenta como pai e mãe, que não se rende ante a ideia de perder a um filho. A Jesus lhe dói o coração não tanto por ter sido traído, mas por ver a um filho distanciar-se irremediavelmente Dele.
 
Pensamentos para o Evangelho de hoje
«Bendito sejas, meu Senhor Jesus Cristo, que anunciaste antecipadamente a tua morte e, na última ceia, consagraste o pão material, transformando-o no teu corpo glorioso, e pelo teu amor o deste aos apóstolos como memorial da tua digna paixão e lavaste os seus pés com tuas preciosas mãos sagradas, mostrando assim humildemente tua maior humildade» (Santa Brígida)
 
«Nos próximos dias comemoraremos o confronto supremo entre a Luz e as Trevas. Também nós devemos situar-nos neste contexto, conscientes da nossa 'noite', das nossas faltas e responsabilidades, se queremos reviver o mistério pascal com proveito espiritual.» (Bento XVI)
 
«Jesus escolheu a altura da Páscoa para cumprir o que tinha anunciado em Cafarnaum: dar aos seus discípulos o seu corpo e o seu sangue» (Catecismo da Igreja Católica, n.º 1.339)
 
Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm.
 
* Ontem o evangelho falou da traição de Judas e da negação de Pedro.
Hoje, fala novamente da traição de Judas. Na descrição da paixão de Jesus do evangelhos de Mateus acentua-se fortemente o fracasso dos discípulos. Apesar da convivência de três anos, nenhum deles ficou para tomar a defesa de Jesus. Judas traiu, Pedro negou, todos fugiram. Mateus conta isto, não para criticar ou condenar, nem para provocar desânimo nos leitores, mas para ressaltar que o acolhimento e o amor de Jesus superam a derrota e o fracasso dos discípulos! Esta maneira de descrever a atitude de Jesus era uma ajuda para as Comunidades na época de Mateus. Por causa das frequentes perseguições, muitos tinham desanimado e abandonado a comunidade e se perguntavam: "Será que é possível voltar? Será que Deus nos acolhe e perdoa?" Mateus responde sugerindo que nós podemos romper com Jesus, mas Jesus nunca rompe conosco. O seu amor é maior do que a nossa infidelidade. Esta é uma mensagem muito importante que colhemos do evangelho durante a Semana Santa.
 
* Mateus 26,14-16: A Decisão de Judas de trair Jesus. Judas tomou a decisão, depois que Jesus não aceitou a crítica dos discípulos a respeito da mulher que gastou um perfume caríssima só para ungir Jesus (Mt 26,6-13). Ele foi até os sacerdotes e perguntou: “Quanto vocês me pagam se eu o entregar?” Combinaram trinta moedas de prata. Mateus evoca as palavras do profeta Zacarias para descrever o preço combinado (Zc 11,12). Ao mesmo tempo, a traição de Jesus por trinta moedas evoca a venda de José pelos seus próprios irmãos, avaliado pelos compradores em vinte moedas (Gn 37,28). Evoca ainda o preço de trinta moedas a ser pago pelo ferimento a um escravo (Ex 21,32).
 
* Mateus 26,17-19: A Preparação da Páscoa.  Jesus era da Galileia. Não tinha casa em Jerusalém. Ele passava as noites no Horto das Oliveiras (cf. Jo 8,1). Nos dias da festa de páscoa a população de Jerusalém triplicava por causa da quantidade enorme de peregrinos que vinham de toda a parte. Não era fácil para Jesus encontrar uma sala ampla para poder celebrar a páscoa junto com os peregrinos que tinham vindo com ele desde a Galileia. Ele manda os discípulos encontrar uma pessoa em cuja casa decidiu celebrar a Páscoa. O evangelho não oferece ulteriores informações e deixa que a imaginação complete o que falta nas informações. Era um conhecido de Jesus? Um parente? Um discípulo? Ao longo dos séculos, a imaginação dos apócrifos soube completar a falta de informação, mas com pouca credibilidade.
 
* Mateus 26,20-25: Anúncio da traição de Judas. Jesus sabe que vai ser traído. Apesar de Judas fazer as coisas em segredo, Jesus está sabendo. Mesmo assim, ele faz questão de se confraternizar com o círculo dos amigos, do qual Judas faz parte. Estando todos reunidos pela última vez, Jesus anuncia quem é o traidor. É "aquele que põe a mão no prato comigo". Esta maneira de anunciar a traição acentua o contraste. Para os judeus a comunhão de mesa, colocar juntos a mão no mesmo prato, era a expressão máxima da amizade, da intimidade e da confiança. Mateus sugere assim que, apesar da traição ser feita por alguém muito amigo, o amor de Jesus é maior que a traição!
 
* O que chama a atenção é a maneira de Mateus descrever estes fatos. Entre a traição e a negação ele colocou a instituição da Eucaristia (Mt 26,26-29): a traição de Judas, antes (Mt 25,20-25); a negação de Pedro e a fuga dos discípulos, depois (Mt 25,30-35). Deste modo, ele destaca para todos nós a inacreditável gratuidade do amor de Jesus, que supera a traição, a negação e a fuga dos amigos. O seu amor não depende do que os outros fazem por ele.
 
Para um confronto pessoal
1) Será que eu seria capaz de ser como Judas e de negar e trair a Deus, a Jesus, aos amigos e amigas?
2) Na semana santa é importante eu reservar algum momento para compenetrar-me da inacreditável gratuidade do amor de Deus por mim.

domingo, 29 de março de 2026

MÊS DE SÃO JOSÉ – Terça-feira da Semana Santa

Bta Joana de Toulouse, virgem de nossa Ordem, primeira carmelita da Ordem Terceira.
 
ORAÇÃO PREPARATÓRIA
- Com humildade e respeito aqui nos reunimos, ó Divino Jesus, para oferecer, todos os dias deste mês, as homenagens de nossa devoção ao glorioso Patriarca S. José. Vós nos animais a recorrer com toda a confiança aos vossos benditos Santos, pois que as honras que lhes tributamos revertem em vossa própria glória. Com justos motivos, portanto, esperamos vos seja agradável o tributo quotidiano que vimos prestar ao Esposo castíssimo de Maria, vossa Mãe santíssima, a São José, vosso amado Pai adotivo. Ó meu Deus, concedei-nos a graça de amar e honrar a São José como o amastes na terra e o honrais no céu. E vós, ó glorioso Patriarca, pela vossa estreita união com Jesus e Maria; vós que, à custa de vossas abençoadas fadigas e suores, nutristes a um e outro, desempenhando neste mundo o papel do Divino Padre Eterno; alcançai-nos luz e graça para terminar com fruto estes devotos exercícios que em vosso louvor alegremente começamos. Amém.
 
LECTIO DIVINA
 
1ª Leitura (Is 49,1-6): Terras de Além-Mar, escutai-me; povos de longe, prestai atenção. O Senhor chamou-me desde o ventre materno, disse o meu nome desde o seio de minha mãe. Fez da minha boca uma espada afiada, abrigou-me à sombra da sua mão. Tornou-me semelhante a uma seta aguda, guardou-me na sua aljava. E disse-me: «Tu és o meu servo, Israel, por quem manifestarei a minha glória». E eu dizia: «Cansei-me inutilmente, em vão e por nada gastei as minhas forças». Mas o meu direito está no Senhor e a minha recompensa está no meu Deus. E agora o Senhor falou-me, Ele que me formou desde o seio materno, para fazer de mim o seu servo, a fim de Lhe restaurar as tribos de Jacob e reconduzir os sobreviventes de Israel. Eu tenho merecimento diante do Senhor e Deus é a minha força. Ele disse-me então: «Não basta que sejas meu servo, para restaurares as tribos de Jacob e reconduzires os sobreviventes de Israel. Farei de ti a luz das nações, para que a minha salvação chegue até aos confins da terra».
 
Salmo Responsorial: 70
R. A minha boca proclamará a vossa salvação
 
Em Vós, Senhor, me refugio, jamais serei confundido. Pela vossa justiça, defendei-me e salvai-me, prestai ouvidos e libertai-me.
 
Sede para mim um refúgio seguro, a fortaleza da minha salvação. Vós sois a minha defesa e o meu refúgio: meu Deus, salvai-me do pecador.
 
Sois Vós, Senhor, a minha esperança, a minha confiança desde a juventude. Desde o nascimento Vós me sustentais, desde o seio materno sois o meu protetor.
 
A minha boca proclamará a vossa justiça, dia após dia a vossa infinita salvação. Desde a juventude Vós me ensinais e até hoje anunciei sempre os vossos prodígios.
 
Salve, Senhor, nosso Rei, obediente ao Pai, que fostes levado como manso cordeiro à morte na cruz.
 
Evangelho (Jo 13,21-33.36-38): Depois de dizer isso, Jesus ficou interiormente perturbado e testemunhou: «Em verdade, em verdade, vos digo: um de vós me entregará». Desconcertados, os discípulos olhavam uns para os outros, pois não sabiam de quem estava falando. Bem ao lado de Jesus estava reclinado um dos seus discípulos, aquele que Jesus mais amava. Simão Pedro acenou para que perguntasse de quem ele estava falando. O discípulo, então, recostando-se sobre o peito de Jesus, perguntou: «Senhor, quem é?». Jesus respondeu: «É aquele a quem eu der um bocado passado no molho». Então, Jesus molhou um bocado e deu a Judas, filho de Simão Iscariotes. Depois do bocado, Satanás entrou em Judas. Jesus, então, lhe disse: «O que tens a fazer, faze logo». Mas nenhum dos presentes entendeu por que ele falou isso. Como Judas guardava a bolsa, alguns pensavam que Jesus estava dizendo: «Compra o que precisamos para a festa», ou que desse alguma coisa para os pobres. Então, depois de receber o bocado, Judas saiu imediatamente. Era noite. Depois que Judas saiu, Jesus disse: «Agora foi glorificado o Filho do Homem, e Deus foi glorificado nele. Se Deus foi glorificado nele, Deus também o glorificará em si mesmo, e o glorificará logo. Filhinhos, por pouco tempo eu ainda estou convosco. Vós me procurareis, e agora vos digo, como eu disse também aos judeus: ‘Para onde eu vou, vós não podeis ir’. Simão Pedro perguntou: «Senhor, para onde vais?». Jesus respondeu-lhe: «Para onde eu vou, não podes seguir-me agora; mais tarde me seguirás». Pedro disse: «Senhor, por que não posso seguir-te agora? Eu darei minha vida por ti!». Jesus respondeu: «Darás tua vida por mim? Em verdade, em verdade, te digo: não cantará o galo antes que me tenhas negado três vezes».
 
«Era noite»
 
Abbé Jean GOTTIGNY (Bruxelles, Bélgica)
 
Hoje, Terça-feira Santa, a liturgia põe o acento sobre o drama que está a ponto de desencadear-se e que concluirá com a crucifixão da Sexta-feira Santa. «Então, depois de receber o bocado, Judas saiu imediatamente. Era noite» (Jo 13,30). Sempre é de noite quando nos distanciamos do que é «Luz de Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro» (Símbolo de Niceas-Constantinopla).
 
O pecador é o que dá as costas ao Senhor para gravitar ao redor das coisas criadas, sem referi-las a seu Criador. Santo Agostinho descreve o pecado como «um amor a si mesmo até o desprezo de Deus». Uma traição. Uma prevaricação fruto da «arrogância com a que queremos emancipar-nos de Deus e não ser nada mais que nós mesmos; a arrogância pela que cremos não ter necessidade do amor eterno, e sim que desejamos dominar nossa vida por nós mesmos» (Bento XVI). Podemos entender que Jesus, aquela noite, tenha-se sentido «turbado em seu interior» (Jo 13,21).
 
Afortunadamente, o pecado não é a última palavra. Esta é a misericórdia de Deus. Mas ela supõe uma “mudança” de nossa parte. Uma mudança da situação que consiste em despegar-se das criaturas para vincular-se a Deus e reencontrar assim a autêntica liberdade. No entanto, não vamos esperar estar aborrecidos das falsas liberdades que tomamos, para mudar a Deus. Segundo denunciou o padre jesuíta Bourdaloue, «quiséramos converter-nos quando estivéssemos cansados do mundo ou, mais bem dito, quando o mundo estivesse cansado de nós». Sejamos mais espertos. Decidamo-nos agora. A Semana Santa é a ocasião propícia. Na Cruz, Cristo abre seus braços a todos. Ninguém está excluído Todo ladrão arrependido tem seu lugar no paraíso. Isso sim, a condição de mudar de vida e de reparar, como o do Evangelho: «Para nós, é justo sofrermos, pois estamos recebendo o que merecemos; mas ele não fez nada de mal» (Lc 23,41).
 
«Agora foi glorificado o Filho do Homem, e Deus foi glorificado nele»
 
Rev. D. Lluís ROQUÉ i Roqué (Manresa, Barcelona, Espanha)
 
Hoje contemplamos Jesus na escuridão dos dias da Paixão, escuridão que concluirá quando exclame: «Está consumado» (Jo 19,30); a partir desse momento se acenderá a luz da Páscoa. Na noite luminosa da Páscoa —em contraposição com a noite escura da véspera de sua morte— as palavras de Jesus vão se fazer realidade: «Agora foi glorificado o Filho do Homem, e Deus foi glorificado nele» (Jo 13,31). Pode se dizer que cada passo de Jesus é um passo da morte à Vida e tem um caráter pascoal, manifestado numa atitude de obediência total ao Pai: «Eis que eu vim para fazer a tua vontade» (Heb 10,9), atitude que fica corroborada com palavras, gestos e obras que abrem o caminho da sua glorificação como Filho de Deus.
 
Contemplamos também a figura de Judas, o apóstolo traidor. Judas tenta dissimular a má intenção que guarda no seu coração; assim mesmo, procura encobrir com hipocrisia a avareza que lhe domina e lhe cega, apesar de ter tão perto ao que é a Luz do mundo. Mesmo assim de estar rodeado de Luz e de desprendimento exemplar, para Judas «Era noite» (Jo 13,30): trinta moedas de prata, “o excremento do diabo” —como qualifica Papini o dinheiro— o deslumbraram e amordaçaram. Preso da avareza, Judas atraiçoou e vendeu a Jesus, o mais prezado dos homens, o único que pode nos enriquecer. Mas Judas experimentou, também a desesperação, já que o dinheiro não é tudo e pode chegar a escravizar.
 
Finalmente, consideramos Pedro atenta e devotamente. Tudo nele é boa vontade, amor, generosidade, naturalidade, nobreza... é o contraponto de Judas. É certo que negou a Jesus, mas não o fez com má intenção, senão por covardia e debilidade humana. «Negou-o pela terceira vez, e olhando-o Jesus Cristo, logo depois chorou, e chorou amarguradamente» (Santo Ambrósio). Pedro se arrependeu sinceramente e manifestou a sua dor cheio de amor. Por isso, Jesus o reafirmou na vocação e na missão que lhe tinha preparado.
 
Pensamentos para o Evangelho de hoje
«Esta é a única salvação para nossa carne e nossa alma: caridade para com eles [doentes, necessitados]» (São Gregório Nazianzeno)
 
«O essencial nestas palavras é o "novo fundamento" do ser que nos foi dado. A novidade só pode vir do dom da comunhão com Cristo, do viver Nele» (Bento XVI)
 
«É vontade do nosso Pai ‘que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade’ (1 Tm 2, 3-4). Ele ‘usa de paciência [...], não querendo que ninguém se perca’ (2 Pe 3, 9) (85). O seu mandamento, que resume todos os outros e nos diz toda a sua vontade, é que nos amemos uns aos outros como Ele nos amou (86)» (Catecismo da Igreja Católica, nº 2.822)
 
Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm.
 
* Ontem o evangelho falou da traição de Judas e da negação de Pedro.
Hoje, fala novamente da traição de Judas. Na descrição da paixão de Jesus do evangelhos de Mateus acentua-se fortemente o fracasso dos discípulos. Apesar da convivência de três anos, nenhum deles ficou para tomar a defesa de Jesus. Judas traiu, Pedro negou, todos fugiram. Mateus conta isto, não para criticar ou condenar, nem para provocar desânimo nos leitores, mas para ressaltar que o acolhimento e o amor de Jesus superam a derrota e o fracasso dos discípulos! Esta maneira de descrever a atitude de Jesus era uma ajuda para as Comunidades na época de Mateus. Por causa das frequentes perseguições, muitos tinham desanimado e abandonado a comunidade e se perguntavam: "Será que é possível voltar? Será que Deus nos acolhe e perdoa?" Mateus responde sugerindo que nós podemos romper com Jesus, mas Jesus nunca rompe conosco. O seu amor é maior do que a nossa infidelidade. Esta é uma mensagem muito importante que colhemos do evangelho durante a Semana Santa.
 
* Mateus 26,14-16: A Decisão de Judas de trair Jesus. Judas tomou a decisão, depois que Jesus não aceitou a crítica dos discípulos a respeito da mulher que gastou um perfume caríssima só para ungir Jesus (Mt 26,6-13). Ele foi até os sacerdotes e perguntou: “Quanto vocês me pagam se eu o entregar?” Combinaram trinta moedas de prata. Mateus evoca as palavras do profeta Zacarias para descrever o preço combinado (Zc 11,12). Ao mesmo tempo, a traição de Jesus por trinta moedas evoca a venda de José pelos seus próprios irmãos, avaliado pelos compradores em vinte moedas (Gn 37,28). Evoca ainda o preço de trinta moedas a ser pago pelo ferimento a um escravo (Ex 21,32).
 
* Mateus 26,17-19: A Preparação da Páscoa. Jesus era da Galileia. Não tinha casa em Jerusalém. Ele passava as noites no Horto das Oliveiras (cf. Jo 8,1). Nos dias da festa de páscoa a população de Jerusalém triplicava por causa da quantidade enorme de peregrinos que vinham de toda a parte. Não era fácil para Jesus encontrar uma sala ampla para poder celebrar a páscoa junto com os peregrinos que tinham vindo com ele desde a Galileia. Ele manda os discípulos encontrar uma pessoa em cuja casa decidiu celebrar a Páscoa. O evangelho não oferece ulteriores informações e deixa que a imaginação complete o que falta nas informações. Era um conhecido de Jesus? Um parente? Um discípulo? Ao longo dos séculos, a imaginação dos apócrifos soube completar a falta de informação, mas com pouca credibilidade.
 
* Mateus 26,20-25: Anúncio da traição de Judas. Jesus sabe que vai ser traído. Apesar de Judas fazer as coisas em segredo, Jesus está sabendo. Mesmo assim, ele faz questão de se confraternizar com o círculo dos amigos, do qual Judas faz parte. Estando todos reunidos pela última vez, Jesus anuncia quem é o traidor. É "aquele que põe a mão no prato comigo". Esta maneira de anunciar a traição acentua o contraste. Para os judeus a comunhão de mesa, colocar juntos a mão no mesmo prato, era a expressão máxima da amizade, da intimidade e da confiança. Mateus sugere assim que, apesar da traição ser feita por alguém muito amigo, o amor de Jesus é maior que a traição!
 
* O que chama a atenção é a maneira de Mateus descrever estes fatos. Entre a traição e a negação ele colocou a instituição da Eucaristia (Mt 26,26-29): a traição de Judas, antes (Mt 25,20-25); a negação de Pedro e a fuga dos discípulos, depois (Mt 25,30-35). Deste modo, ele destaca para todos nós a inacreditável gratuidade do amor de Jesus, que supera a traição, a negação e a fuga dos amigos. O seu amor não depende do que os outros fazem por ele.
 
Para um confronto pessoal
1) Será que eu seria capaz de ser como Judas e de negar e trair a Deus, a Jesus, aos amigos e amigas?
2) Na semana santa é importante eu reservar algum momento para compenetrar-me da inacreditável gratuidade do amor de Deus por mim.
 
ORAÇÃO - Ó glorioso S. José, a bondade de vosso coração é sem limites e indizível, e neste mês que a piedade dos fiéis vos consagrou mais generosas do que nunca se abrem as vossas mãos benfazejas. Distribui entre nós, ó nosso amado Pai, os dons preciosíssimos da graça celestial da qual sois ecônomo e o tesoureiro; Deus vos criou para seu primeiro esmoler. Ah! que nem um só de vossos servos possa dizer que vos invocou em vão nestes dias. Que todos venham, que todos se apresentem ante vosso trono e invoquem vossa intercessão, a fim de viverem e morrerem santamente, a vosso exemplo nos braços de Jesus e no ósculo beatíssimo de Maria. Amém.
 
LADAINHA DE SÃO JOSÉ

 
Senhor tende piedade de nós.
Jesus Cristo tende piedade de nós.
Senhor tende piedade de nós.
 
Jesus Cristo, ouvi-nos.
Jesus Cristo, escutai-nos.
 
Deus Pai do Céu, tende piedade de nós.
Deus Filho, Redentor do mundo, ...
Deus Espírito Santo Paráclito, ...
Santíssima Trindade, que sois um só Deus, ...
 
Santa Maria, rogai por nós.
 
São José,
Ilustre filho de Davi,
Luz dos Patriarcas,
Esposo da Mãe de Deus,
Guardião do Redentor,
Guarda da puríssima Virgem,
Provedor do Filho de Deus,
Zeloso defensor de Cristo,
Servo de Cristo,
Ministro da salvação,
Chefe da Sagrada Família,
José justíssimo,
José castíssimo,
José prudentíssimo,
José fortíssimo,
José obedientíssimo,
José fidelíssimo,
Espelho de paciência,
Amante da pobreza,
Modelo dos trabalhadores,
Honra da vida em família,
Guardião das virgens,
Sustentáculo das famílias,
Amparo nas dificuldades,
Socorro dos miseráveis,
Esperança dos enfermos,
Patrono dos exilados,
Consolo dos aflitos,
Defensor dos pobres,
Patrono dos moribundos,
Terror dos demônios,
Protetor da Santa Igreja,
Patrono da Ordem Carmelita,
 
Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, perdoai-nos, Senhor.
Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, ouvi-nos, Senhor.
Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, tende piedade nós.
 
V. - O Senhor o constituiu dono de sua casa.
R. - E fê-lo príncipe de todas as suas possessões.
 
ORAÇÃO: Deus, que por vossa inefável Providência vos dignastes eleger o bem-aventurado São José para Esposo de vossa Mãe Santíssima concedei-nos, nós vos pedimos, que mereçamos ter como intercessor no céu aquele a quem veneramos na terra como nosso protetor. Vós que viveis e reinais com Deus Padre na unidade do Espírito Santo. Amém.
 
LEMBRAI-VOS
Lembrai-vos ó puríssimo Esposo de Maria Virgem, que jamais se ouviu dizer que alguém tivesse invocado a vossa proteção, implorado vosso socorro, não fosse por vós consolado e atendido. Com esta confiança venho à vossa presença e a vós fervorosamente me recomendo. Não desprezeis a minha súplica ó Pai virginal do Redentor, mas dignai-vos acolhê-la piedosamente. Amém.
 
ORAÇÃO A SÃO JOSÉ, PROTETOR DA IGREJA
A vós São José, recorremos na nossa tribulação,  e cheios de confiança, solicitamos a vossa proteção.
Pelo laço sagrado de caridade que vos uniu à Virgem Imaculada Mãe de Deus, e pelo amor paternal que tivestes para com o Menino Jesus, ardentemente suplicamos que lanceis um olhar benigno à herança que Jesus Cristo conquistou com o seu Sangue, e nos assistais, nas nossas necessidades, com o vosso auxílio e poder.
Protegei, ó guarda providente da Divina Família, a raça escolhida de Jesus Cristo;
Afastai para longe de nós, oh! Pai amantíssimo, a peste do erro e do vício; assisti-nos do alto do céu, ó nosso fortíssimo sustentáculo, na luta contra o poder das trevas;
E, assim como outrora salvastes da morte a vida ameaçada, do Menino Jesus assim também defendei agora a Santa Igreja de Deus contra as ciladas dos seus inimigos e contra toda a adversidade.
Amparai a cada um de nós, com vossa constante proteção, a fim de que a vosso exemplo e sustentados com o vosso auxílio, possamos viver virtuosamente, piedosamente morrer, e obter no Céu a eterna bem-aventurança. Amém.