segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Terça-feira da 7ª semana do Tempo Comum

Evangelho (Mc 9,30-37): Partindo dali, Jesus e seus discípulos atravessavam a Galiléia, mas ele não queria que ninguém o soubesse. Ele ensinava seus discípulos e dizia-lhes: «O Filho do Homem vai ser entregue às mãos dos homens, e eles o matarão. Morto, porém, três dias depois ressuscitará». Mas eles não compreendiam o que lhes dizia e tinham medo de perguntar.  Chegaram a Cafarnaum. Estando em casa, Jesus perguntou-lhes: «Que discutíeis pelo caminho?». Eles, no entanto, ficaram calados, porque pelo caminho tinham discutido quem era o maior. Jesus sentou-se, chamou os Doze e lhes disse: «Se alguém quiser ser o primeiro, seja o último de todos, aquele que serve a todos!». Em seguida, pegou uma criança, colocou-a no meio deles e, abraçando-a, disse: «Quem acolher em meu nome uma destas crianças, estará acolhendo a mim mesmo. E quem me acolher, estará acolhendo, não a mim, mas Àquele que me enviou».

«O Filho do Homem vai ser entregue »

Rev. D. Jordi PASCUAL i Bancells (Salt, Girona, Espanha)

Hoje, o Evangelho traz-nos dois ensinamentos de Jesus que estão estreitamente ligados um ao outro. Por um lado, o Senhor ensina que «o matarão e ao terceiro dia ressuscitará» (Mc 9,31). É a vontade do Pai para Ele: por isso veio ao mundo; assim nos vai libertar da escravidão do pecado e da morte eterna; desta forma Jesus nos fará filhos de Deus. A entrega do Senhor até ao extremo de dar a sua vida por nós, mostra a infinidade do Amor de Deus: um Amor sem medida, um Amor que não se importa de se baixar até a loucura e ao escândalo da Cruz.

Parece aterrador ouvir a reação dos Apóstolos, ainda demasiado ocupados em se contemplarem a si próprios e esquecendo-se de aprenderem com o Mestre: «Não entendiam o que dizia» (Mc 9,32), pois pelo caminho iam discutindo qual deles seria o maior e, se por acaso lhes tocasse, não se atreviam a fazer-lhe nenhuma pergunta.

Com delicada paciência, Jesus acrescenta: devemos tornar-nos último e servidor de todos. Devemos acolher o simples e o pequeno, pois o Senhor quis identificar-se com eles. Devemos acolher a Jesus na nossa vida, pois assim abrimos as portas ao próprio Deus. É como um programa de vida para ir caminhando.

Assim o explica com toda clareza o Santo Cura de Ars, João Batista, Mª Vianney: «Cada vez que podemos renunciar à nossa vontade para fazer a dos outros, sempre que esta não esteja contra a lei de Deus, conseguimos méritos que apenas Deus conhece». Jesus ensina-nos com as suas palavras, mas, sobretudo com as suas obras. Aqueles Apóstolos, num principio duros em aprender, depois da Cruz e da Ressurreição, seguirão as impressões do seu Senhor e do seu Deus. E, acompanhados por Maria Santíssima, se tornarão cada vez menores para que Jesus cresça neles e no mundo.

Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm.

* O evangelho de hoje traz o segundo anúncio da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus. Como no primeiro anúncio (Mc 8,27-38), os discípulos ficam espantados e com medo. Não entendem a palavra sobre a cruz, porque não são capazes de entender nem de aceitar um Messias que se faz empregado e servidor dos irmãos. Eles continuam sonhando com um messias glorioso e mostram, além disso, uma grande incoerência. Enquanto Jesus anuncia a sua Paixão e Morte, eles discutem entre si quem deles é o maior. Jesus quer servir, eles só pensam em mandar! A ambição os leva a se auto-promover às custas de Jesus. Até hoje, aqui e acolá, o mesmo desejo de autopromoção aparece nas nossas comunidades.

* Tanto na época de Jesus como na época de Marcos, havia o “fermento” da ideologia dominante. Também hoje, a ideologia das propagandas do comércio, do consumismo, das novelas influi profundamente no modo de pensar e de agir do povo. Na época de Marcos, nem sempre as comunidades eram capazes de manter uma atitude crítica frente à invasão da ideologia do império romano. E hoje?

* Marcos 9,30-32: O anúncio da Cruz.
Jesus caminha através da Galileia, mas não quer que o povo o saiba, pois está ocupado com a formação dos discípulos e discípulas, e conversa com eles sobre a Cruz. Ele diz que, conforme a profecia de Isaías (Is 53,1-10), o Filho do Homem deve ser entregue e morto. Isto mostra como Jesus se orientava pela Bíblia, tanto na realização da sua própria missão, como na formação dada aos discípulos. Ele tirava o seu ensinamento das profecias. Como no primeiro anúncio (Mc 8,32), os discípulos o escutam, mas não entendem a palavra sobre a cruz. Mesmo assim, não pedem esclarecimento. Eles têm medo de deixar transparecer sua ignorância!

* Marcos 9,33-34: A mentalidade de competição.
Chegando a casa, Jesus pergunta: “Sobre que vocês estavam discutindo no caminho?” Eles não respondem. É o silêncio de quem se sente culpado, “pois pelo caminho discutiam sobre quem deles era o maior”. Jesus é bom pedagogo. Não intervém logo. Ele sabe aguardar o momento oportuno para combater a influência da ideologia nos seus formandos. A mentalidade de competição e de prestígio, que caracterizava a sociedade do Império Romano, já se infiltrava na pequena comunidade que estava apenas começando! Aqui aparece o contraste, a incoerência: enquanto Jesus se preocupa em ser o Messias Servidor, eles só pensam em ser o maior. Jesus procura descer. Eles querem subir!

* Marcos 9,35-37: Servir, em vez de mandar.
A resposta de Jesus é um resumo do testemunho de vida que ele mesmo vinha dando desde o começo: Quem quer ser o primeiro seja o último de todos, o servidor de todos! Pois o último não ganha prêmio nem recompensa. É um servo inútil (cf. Lc 17,10). O poder deve ser usado não para subir e dominar, mas para descer e servir. Este é o ponto em que Jesus mais insistia e em que mais deu o seu próprio testemunho (cf. Mc 10,45; Mt 20,28; Jo 13,1-16). Em seguida, Jesus coloca uma criança no meio deles. Uma pessoa que só pensa em subir e dominar, não daria tão grande atenção aos pequenos e às crianças. Mas Jesus inverte tudo! Ele diz: Quem receber uma destas crianças em meu nome é a mim que recebe. Quem recebe a mim recebe aquele que me enviou! Ele se identifica com as crianças. Quem acolhe os pequenos em nome de Jesus, acolhe o próprio Deus!

* Não é pelo fato de uma pessoa “seguir Jesus” que ela já é santa e renovada. No meio dos discípulos, cada vez de novo, o “fermento de Herodes e dos fariseus” (Mc 8,15) levantava a cabeça. No episódio do evangelho de hoje, Jesus aparece como o mestre que forma os seus seguidores. "Seguir" era um termo que fazia parte do sistema educativo da época. Era usado para indicar o relacionamento entre o discípulo e o mestre. O relacionamento mestre-discípulo é diferente do relacionamento professor-aluno. Os alunos assistem às aulas do professor sobre uma determinada matéria. Os discípulos "seguem" o mestre e convivem com ele, vinte e quatro horas por dia. Foi nesta "convivência" de três anos com Jesus, que os discípulos e as discípulas receberam a sua formação. O Evangelho de amanhã nos dará outro exemplo muito concreto de como Jesus formava seus discípulos.

Para um confronto pessoal
1) Jesus quer descer e servir. Os discípulos querem subir e dominar. E eu? Qual a motivação mais profunda do meu “eu” desconhecido?
2) Seguir Jesus e estar com ele, vinte e quatro horas por dia, e deixar que o seu modo de viver se torne o meu modo de viver e de conviver. Isto está acontecendo em mim?

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Segunda-feira da 7ª semana do Tempo Comum

Btos Francisco e Jacinta Marto
a quem N Sra apareceu em Fátima
Evangelho (Mc 9,14-29): Quando voltaram para junto dos discípulos, encontraram-nos rodeados por uma grande multidão, e os escribas discutiam com eles. Logo que a multidão viu Jesus, ficou admirada e correu para saudá-lo. Jesus perguntou: «Que estais discutindo?». Alguém da multidão respondeu-lhe: «Mestre, eu trouxe a ti o meu filho que tem um espírito mudo. Cada vez que o espírito o agride, joga-o no chão, e ele começa a espumar, range os dentes e fica completamente duro. Eu pedi aos teus discípulos que o expulsassem, mas eles não conseguiram».  Jesus lhes respondeu: «Ó geração sem fé! Até quando vou ficar convosco? Até quando vou suportar-vos? Trazei-me o menino!». Levaram-no. Quando o espírito viu Jesus, sacudiu violentamente o menino, que caiu no chão e rolava espumando. Jesus perguntou ao pai: «Desde quando lhe acontece isso? O pai respondeu: «Desde criança. Muitas vezes, o espírito já o lançou no fogo e na água, para matá-lo. Se podes fazer alguma coisa, tem compaixão e ajuda-nos». Jesus disse: «Se podes…? Tudo é possível para quem crê». Imediatamente, o pai do menino exclamou: «Eu creio! Ajuda-me na minha falta de fé».  Vendo Jesus que a multidão se ajuntava ao seu redor, repreendeu o espírito impuro: «Espírito mudo e surdo, eu te ordeno: sai do menino e nunca mais entres nele». O espírito saiu, gritando e sacudindo violentamente o menino. Este ficou como morto, tanto que muitos diziam: «Morreu!». Mas Jesus o tomou pela mão e o levantou; e ele ficou de pé. Depois que Jesus voltou para casa, os discípulos lhe perguntaram, em particular: «Por que nós não conseguimos expulsá-lo?». Ele respondeu: «Essa espécie só pode ser expulsa pela oração».

«Ajuda-me na minha falta de fé»

Rev. D. Antoni CAROL i Hostench  (Sant Cugat del Vallès, Barcelona, Espanha)

Hoje contemplamos — mais uma vez!— o Senhor solicitado pela gente («correu para saudá-lo») e, por sua vez, Ele solícito da gente, sensível as suas necessidades. Em primeiro lugar quando suspeita que alguma coisa está acontecendo, se interessa pelo problema. Intervém um dos protagonistas, isto é, o pai de um jovem que está possuído por um espírito maligno: «Mestre, eu trouxe a ti o meu filho que tem um espírito mudo. Cada vez que o espírito o agride, joga-o no chão, e ele começa a espumar, range os dentes e fica completamente duro» (Mc 9,17-18).

É terrível o mal que o Diabo pode chegar a fazer! Uma criatura sem caridade. — Senhor, temos que rezar! «Livra-nos do mal» Não se entende, como hoje em dia, pode haver vozes que dizem que o Diabo não existe, ou outros que lhe rendem algum tipo de culto... É absurdo! Nós temos que tirar uma lição de tudo isto: não se pode brincar com fogo!

«Eu pedi aos teus discípulos que o expulsassem, mas eles não conseguiram». (Mc 9,18). Quando Jesus ouve essas palavras, sente grande desgosto. Desgosta-se, sobretudo, pela falta de fé... E lhes falta fé porque tem que rezar mais: «Essa espécie só pode ser expulsa pela oração» (Mc 9,29).

A oração é um diálogo “íntimo” com Deus. João Paulo II tem afirmado que «a oração supõe sempre uma espécie de encobrimento com Cristo em Deus. Só nesse “encobrimento” atua o Espírito Santo» Em um ambiente íntimo de encobrimento se pratica a assiduidade amistosa com Jesus, a partir da qual se gera o incremento de confiança Nele, quer dizer, o aumento da fé.

Mas esta fé, que move montanhas e expulsa espíritos maliciosos («Tudo é possível para quem crê») é, sobretudo, um dom de Deus. Nossa oração, em todo caso, nos coloca em disposição para receber o dom. Mas a esse dom temos que implorá-lo: «Eu creio! Ajuda-me na minha falta de fé» (Mc 9,24). A resposta de Cristo não se fará “rogar”!

Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm

* O evangelho de hoje informa que os discípulos de Jesus não foram capazes de expulsar o demônio do corpo de um menino. O poder do mal foi maior do que a capacidade deles. Hoje também, há muitos males que são maiores do que a nossa capacidade de enfrentá-los: violência, drogas, guerra, doenças, desemprego, terrorismo, etc. Fazemos um grande esforço, mas ao que parece, em vez de melhorar, parece que o mundo fica até pior. Adianta lutar? Com esta pergunta na cabeça vamos ler e meditar o evangelho de hoje.

* Marcos 9,14-22: A situação do povo: desespero sem solução.
Na descida da montanha da Transfiguração, Jesus encontrou muita gente ao redor dos discípulos. Um pai estava desesperado, pois um espírito mudo tinha tomado conta do filho. Com muitos detalhes Marcos descreve a situação do menino possesso, a angústia do pai, a incapacidade dos discípulos e a reação de Jesus. O que mais chama atenção são duas coisas: de um lado, a confusão e a impotência do povo e dos discípulos diante do fenômeno da possessão e, do outro lado, o poder de Jesus e o poder da fé em Jesus diante do qual o demônio perde toda a sua influência. O pai tinha pedido aos discípulos para expulsar o demônio do menino, mas eles não foram capazes. Jesus ficou impaciente e disse: “Até quando vou aguentar esta geração sem fé! Tragam o menino aqui!”. Jesus pergunta a respeito da doença do menino. Pela resposta do pai, Jesus fica sabendo que o menino, “desde pequeno”, tinha uma doença grave que o colocava em perigo de vida. O pai pede: “Se o senhor puder fazer alguma coisa, tenha pena de nós!” A frase do pai expressa a situação bem real do povo: (1) tem a fé abalada, (2) está sem condições de resolver os problemas, mas (3) tem muito boa vontade de acertar.

* Marcos 9,23-27: A resposta de Jesus: o caminho da fé.
O pai tinha dito: “Se o senhor puder fazer alguma coisa,....!” Jesus não gostou da afirmação: “Se o senhor puder...”. Tal condição não podia ser colocada, pois “tudo é possível a quem tem fé!” O pai responde: Eu creio, Senhor! Mas ajude a minha falta de fé! A resposta do pai ocupa um lugar central neste episódio. Ela mostra como deve ser a atitude do discípulo, da discípula, que, apesar de seus limites e dúvidas, quer ser fiel. Vendo que vinha muita gente, Jesus agiu rápido. Ordenou ao espírito que saísse do menino e não voltasse “nunca mais!” Sinal do poder de Jesus sobre o mal. Sinal também de que Jesus não queria propaganda populista.

* Marcos 9,28-29. Aprofundamento com os discípulos.
Em casa, os discípulos querem saber porque não foram capazes de expulsar o demônio. Jesus responde: Esta espécie de demônios só sai com muita oração! Fé e oração andam juntas. Uma sem a outra não existe. Os discípulos tinham piorado. Antes, eles tinham sido capazes de expulsar os demônios (cf. Mc 6,7.13). Agora, já não conseguem mais. Faltou o que? Fé ou oração? Por que faltou? São perguntas que saem do texto e entram na nossa cabeça para que façamos, também nós, uma séria revisão da nossa vida.

* A expulsão dos demônios no evangelho de Marcos
No tempo de Jesus, muita gente falava em Satanás e em expulsão de demônios. Havia muito medo, e havia pessoas que exploravam o medo do povo. O poder do mal tinha muitos nomes: Demônio, Diabo, Belzebu, Príncipe dos demônios, Satanás, Dragão, Dominações, Poderes, Potestades, Soberanias, Besta-fera, Lúcifer, etc. (cf. Mc 3,22.23; Mt 4,1; Ap 12,9; Rm 8,38; Ef 1,21). Hoje, entre nós, o poder do mal também tem muitos nomes. Basta consultar o dicionário no verbete Diabo ou Demônio. Também hoje, muita gente desonesta se enriquece, explorando o medo que o povo tem do demônio. Ora, um dos objetivos da Boa Nova de Jesus é, precisamente, ajudar o povo a se libertar deste medo. A chegada do Reino de Deus significa a chegada de um poder mais forte. O homem forte era uma imagem para designar o poder do mal que mantinha o povo dentro da prisão do medo (Mc 3,27). O poder do mal oprime as pessoas e as aliena de si. Faz com que vivam no medo e na morte (cf. Mc 5,2). É um poder tão forte que ninguém consegue amarrá-lo (cf. Mc 5,4). O império romano com suas “Legiões” (cf. Mc 5,9), isto é, com seus exércitos, era o instrumento usado para manter esta situação de opressão. Mas Jesus é o homem mais forte que vence, amarra e expulsa o poder do mal! Na carta aos Romanos, o apóstolo Paulo faz a enumeração de todos os possíveis poderes ou demônios que poderiam ameaçar-nos, e resume tudo da seguinte maneira: “Nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem o presente, nem o futuro, nem os poderes, nem a altura, nem a profundeza, nem outra criatura qualquer! Nada nos pode separar do amor de Deus que se manifestou em Cristo Jesus, nosso Senhor!” (Rm 8,38-39) Nada mesmo! E as primeiras palavras de Jesus depois da ressurreição são estas: “Não fiquem assustadas! Alegrem-se! Não tenham medo! A paz esteja com vocês!” (Mc 16,6; Mt 28,9.10; Lc 24,36; Jo 20,21).

Para um confronto pessoal
1) Você já viveu alguma vez uma experiência de impotência diante do mal e da violência? Foi experiência só sua ou também da comunidade? Como venceu e se reencontrou?
2) Qual a espécie de poder do mal que, hoje, só sai com muita oração?

VII Domingo do Tempo Comum

Evangelho (Mt 5, 38-48): «Ouvistes que foi dito: ‘Olho por olho e dente por dente! ’ Ora, eu vos digo: não ofereçais resistência ao malvado! Pelo contrário, se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a esquerda! Se alguém quiser abrir um processo para tomar a tua túnica, dá-lhe também o manto! Se alguém te forçar a acompanhá-lo por um quilômetro, caminha dois com ele! Dá a quem te pedir, e não vires as costas a quem te pede emprestado.  Ouvistes que foi dito: ‘Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo!’ Ora, eu vos digo: Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem! Assim vos tornareis filhos do vosso Pai que está nos céus; pois ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons e faz cair a chuva sobre justos e injustos. Se amais somente aqueles que vos amam, que recompensa tereis? Os publicanos não fazem a mesma coisa? E se saudais somente os vossos irmãos, que fazeis de extraordinário? Os pagãos não fazem a mesma coisa? Sede, portanto, perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito».

«Sede, portanto, perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito»

Pe. José PLAZA Monárdez (Calama, Chile)

Hoje, a Palavra de Deus, ensina-nos que a fonte original e a medida da santidade estão em Deus: «Sede, portanto, perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito» (Mt 5,48). Ele inspira-nos, e caminhamos para ele. O caminho é percorrido sob a nova lei, a lei do Amor. O amor é o condutor seguro dos nossos ideais, expresso tão certeiramente neste quinto capítulo do Evangelho de São Mateus.

A antiga lei de Talião do livro do Êxodo (cf. Ex 21,23-35) — que pretendia ser uma lei que evitasse as vinganças implacáveis e restringir o “olho por olho”, a apologia da guerra — é definitivamente superada pela lei do amor. Nestes versículos entrega-se toda uma Carta Magna da oral crente: o amor de Deus ao próximo.

O Papa Bento XVI disse-nos: «Só o serviço ao próximo abre os meus olhos ao que Deus faz por mim e ao muito que me ama». Jesus apresenta-nos a lei de uma justiça superabundante, pois o mal não se vence causando mais dano, mas expulsando-o da nossa vida, cortando assim a sua eficácia contra nós.

Para vencer — diz-nos Jesus — é preciso ter um grande domínio interior e a suficiente claridade de saber por qual lei nos regemos: a lei do amor incondicional, gratuito e magnânimo. O amor levou-O à cruz, pois o ódio vence-se com amor. Este é o caminho da vitória, sem violência, com humildade e amor gozoso, pois Deus é Amor feito ação. E se os nossos atos procedem deste mesmo amor que não defrauda, o Pai nos reconhecerá como seus filhos. Este é o caminho perfeito, o do amor superabundante que nos põe na corrente no Reino, cuja expressão mais fiel é a sublime manifestação do transbordante amor que Deus derramou nos nossos corações pelo dom do Espírito Santo (cf. Rom 5,5).

«Sede perfeitos, como O vosso Pai celeste é perfeito»

Anabela Tavares da Silva, fma

A passagem bíblica proposta para este Domingo coloca em contraposição alguns imperativos da Lei antiga que podemos encontrar no livro do Êxodo e do Levítico com o magistério de Jesus narrado nos Evangelhos.

O ensinamento que o Mestre quer transmitir coloca em realce e valoriza o mandamento do Amor. Às duas fortes expressões veterotestamentárias “Ouvistes o que foi dito…”, Jesus contrapõe com uma expressão igualmente forte “Eu, porém, digo-vos…”. Com isto não pretende anular as prescrições judaicas mas apresenta uma proposta de vida mais elevada: trata-se de obedecer a outros imperativos que não se limitam a um fiel cumprimento formal de normas que fazem parte de uma tradição religiosa mas dilata para um empenho ativo que faz com que o cristão seja semelhante ao seu Deus – amar com todo o coração, com toda a inteligência, com toda a alma, com todas as suas forças e ao próximo com a si mesmo.

Jesus não nos convida a sermos legalistas mas “perfeitos”: a caminhar na estrada do amor para alcançar a santidade. Não nos convida simplesmente a sermos observadores de leis e normas, mas que sejamos e nos sintamos filhos. Filho é aquele que faz o que agrada ao pai. Em nome desta filiação divina todos somos chamados a imitar o modo de amar de Deus, autêntico, profundo, sem descriminação, aberto a todos.

Jesus continua a ensinar os seus discípulos. Em continuação com os domingos passados apresenta as suas interpretações relativas aos escritos da Torá de Israel.

A lei citada por Jesus de fato era permitida nas sociedades antigas (a lei da retaliação) segundo a qual a vingança e as represálias eram permitidas. Mas perante esta lei Jesus, com a autoridade que lhe é dada do céu, contradiz: Não resistais ao homem mau. O convite é não exercer violência sobre as pessoas que muitas vezes usam a vingança como arma poderosa e destruidora. Parece algo fora da lógica humana que possivelmente entende que se deve agir segundo a lei dos antigos.

O agir de Jesus está muito longe do modo de fazer dos antigos. Ele decreta que responder às provocações não é justo e isto não para pensarmos que o MAL é coisa boa, mas porque é necessário parar com a cadeia de causa- efeito. As palavras de Jesus: Eu, porém, digo-vos, sublinham que é Ele a pedir que assim seja, é Ele a falar, a Palavra de Deus feita carne, origem da Lei, Aquele que tem a plena autoridade.

Ele fala a “vós”: fala para todos os seus discípulos, os seus contemporâneos e os futuros. Fala para os que O escutam e desejam viver segundo o seu estilo. Jesus é muito claro: os verdadeiros discípulos devem desfazer a espiral da violência e recusar responder ao mal com o mal. E uma das formas de interromper o ciclo é o perdão. Será um gesto absolutamente novo e desconcertará muitos. E o convite é também para nós, hoje. Basta olharmos à nossa volta: parece que a violência está a um clic na TV, na Internet… afinal de que justiça estamos nós à procura? Qual justiça esperamos?

Como sempre fez, e fê-lo bem, Jesus exemplifica o seu pensar e ensinamento através de 4 situações que fazem parte do seu quotidiano. Parece algo paradoxal e humilhante: apresentar as duas faces numa cultura em que a bofetada é entendida como ofensiva assim como deixar-se levar a tribunal para lhe tirar o que lhe resta, a túnica.

Com estes dois exemplos, Jesus explica qual o comportamento que deseja para os seus discípulos: a bondade, a disponibilidade, a prontidão. Pessoas que não respondem com discussões e contendas. O autêntico discípulo de Jesus sabe responder ao mal com o bem, distingue-se pelos outros porque não se deixa levar por sentimentos de represália, de maldade, ódio mas permanece firme na resolução determinante em amar, em dar com generosidade sem calcular oportunidades e conveniências. Não usa violência física nem vive apegado às coisas. Afasta-se dos conflitos mesmo que o privem de algo valioso e imprescindível, como uma túnica. Na sua capacidade de amar ainda dá o que lhe resta, o manto.

Jesus continua com mais dois exemplos. Primeiro a referência a certo abuso do poder por parte de pessoas com autoridade para com os pobres, a gente simples do povo. Obrigar a fazer o que se pede como recrutar alguém para servir de guia ou simplesmente para acompanhar ou carregar algo. E no segundo exemplo, a questão de não se voltar as costas a quem pede emprestado, não passar indiferente perante situações que requerem a nossa generosidade e solidariedade.

Mais uma vez, Jesus tenta fazer entender que a lógica evangélica não é uma modalidade absurda em que se deve renunciar a uma desejável justiça ou que é preciso fechar os olhos e fingir que não se vê abusos ou pedidos interesseiros e que tolera a violência nas suas variadas formas. Apela-se a que não deixemos de lado a generosidade, que não se passe indiferente, que não se faça de conta que não se entende, que não procuremos desculpas. Se se conseguir deitar a mão a quem pede, mesmo por interesse ou descaradamente, que nunca falte da nossa parte o gesto da caridade. O que sentimos que devemos fazer, façamo-lo em nome da caridade.

Dentro de todo o contexto, o duplo mandamento de Jesus é paradoxal. Mas Ele sabe quem tem à sua frente: hebreus que conhecem bem a lei antiga. Quando lança o seu duplo mandamento sabe que vem completar algo que precisa de ser pleno. A vinda e a presença de Jesus mudou algo. Os seus ensinamentos e sobretudo o seu testemunho de vida, continuamente, mostram que no coração de quem ama não existe distinções entre amigo e inimigo; que vale a pena dar a vida, sempre, e não só quando o gesto é reconhecido e apreciado; que é possível fazer morrer o mal em nós mesmos, não lhe dando tréguas, combatendo-o com um extraplus de bem. E tudo isto leva, por sua vez, a rezar por quem nos persegue, por quem nos torna a vida impossível.

Tudo isto para que nos mostremos como filhos de Deus. Esta é a ética cristã: a exigência do amor gratuito que não espera nada em troca.

Deus não faz distinção entre justos e injustos, bons e maus. Na sua infinita bondade e misericórdia concede os mesmos benefícios a uns e a outros.

Quem segue as indicações de Jesus transparece a natureza de Deus Pai. Quem assim procede está seguro de ser filho de Deus, de Deus que é Pai e que não priva ninguém dos seus benefícios ou graças. É péssimo quando, em nome de Deus, os seres humanos fazem distinção entre bons e maus e lutam entre si. Se ousam fazê-lo em nome de Deus, é uma ofensa.

Amar e rezar torna-nos filhos de Deus, permite-nos viver como familiares de Deus e olhar para o mundo de hoje com os seus olhos. A oração, para nós cristãos, é o meio para amarmos cada vez mais e melhor, como Deus.

Jesus coloca algumas interrogações para mostrar como o caminho indicado tem sentido e é coerente com o agir de Deus. Interrogações que nos levam a fazer um exame de consciência, pois, nos coloca em confronto com os que tantas vezes denunciamos e vemos que triunfam. Mas a nossa meta está bem definida: sede perfeitos como o vosso Pai celeste que está nos céus. Perfeitos no amor.

A nossa meta é amar sem medida, como faz Deus conosco. Amar quem já sabemos que nos ama, saudar apenas as pessoas que já nos conhecem e saber que delas recebemos todo o carinho… o que tem de extraordinário? Se apenas amo estes, vivo uma perfeição egoísta que acabará por morrer.

Como filhos de Deus temos de ser superiores a isso: ser perfeitos no amor sem limites, com um coração disponível para abraçar a todos sem excluir ninguém. Há uma recompensa a receber, a vida eterna. Regressa aqui a lógica das Bem-aventuranças… Ser perfeito como o Pai celeste é ser perfeito no amor que se dá sem medida. Este é o nosso caminho, esta é a nossa meta para a eternidade, a vida em Deus. E só isto nos basta.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Sábado VI do Tempo Comum

Evangelho (Mc 9,2-13): Seis dias depois, Jesus levou consigo Pedro, Tiago e João e os fez subir a um lugar retirado, no alto de uma montanha, a sós. Lá, ele foi transfigurado diante deles. Sua roupa ficou muito brilhante, tão branca como nenhuma lavadeira na terra conseguiria torná-la assim. Apareceram-lhes Elias e Moisés, conversando com Jesus.  Pedro então tomou a palavra e disse a Jesus: «Rabi, é bom ficarmos aqui. Vamos fazer três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias». Na realidade, não sabia o que devia falar, pois eles estavam tomados de medo. Desceu, então, uma nuvem, cobrindo-os com sua sombra. E da nuvem saiu uma voz: «Este é o meu Filho amado. Escutai-o!». E, de repente, olhando em volta, não viram mais ninguém: só Jesus estava com eles.  Ao descerem da montanha, Jesus ordenou-lhes que não contassem a ninguém o que tinham visto, até que o Filho do Homem ressuscitasse dos mortos. Eles ficaram pensando nesta palavra e discutiam entre si o que significaria esse «ressuscitar dos mortos».  Perguntaram a Jesus: «Por que os escribas dizem que primeiro deve vir Elias?». Ele respondeu: «Sim, Elias vem primeiro, para pôr tudo em ordem. Por outro lado, como está escrito a respeito do Filho do Homem que ele deve sofrer muito e ser desprezado? E eu vos digo mais: também Elias veio, e fizeram com ele tudo o que quiseram, exatamente como está escrito a seu respeito».

«Ordenou-lhes que não contassem a ninguém o que tinham visto»

Rev. D. Xavier ROMERO i Galdeano (Cervera, Lleida, Espanha)

Hoje, o Evangelho da transfiguração apresenta-nos um enigma já decifrado. O texto evangélico de São Marcos está pleno de segredos messiânicos, de momentos pontuais nos quais Jesus proíbe que se dê a conhecer o que fizera. Hoje encontramo-nos perante um “botão de arranque”. Assim, Jesus «ordenou-lhes que não contassem a ninguém o que tinham visto, até que o Filho do Homem ressuscitasse dos mortos» (Mc 9,9).

Em que consiste este segredo messiânico? Trata-se de levantar um pouco o véu daquilo que se esconde debaixo, mas que apenas será revelado totalmente no fim dos dias de Jesus, à luz do Mistério Pascal. Hoje vemo-lo claro neste Evangelho: a transfiguração é um momento, uma captação de glória para decifrar aos discípulos o sentido daquele momento íntimo.

Jesus tinha anunciado aos seus discípulos a iminência da sua paixão, mas ao vê-los tão perturbados por tão trágico fim, explica-lhes com feitos e palavras como será o final dos seus dias: umas jornadas de paixão, de morte, mas que concluirão com a ressurreição. Eis aqui o enigma decifrado. Santo Tomás de Aquino diz: «Para que uma pessoa caminhe retamente por um caminho é necessário que conheça com anterioridade, de alguma forma, o lugar ao qual se dirige».

Também a nossa vida de cristãos tem um fim revelado por Nosso Senhor Jesus Cristo: gozar eternamente de Deus. Mas esta meta não está isenta de momentos de sacrifício e de cruz. Com tudo, devemos recordar a mensagem viva do Evangelho de hoje: neste beco aparentemente sem saída, que é frequentemente a vida, pela nossa fidelidade a Deus, vivendo imersos no espírito das Bem-aventuranças, surgirá uma brecha no final trágico que nos permitirá gozar eternamente de Deus.

Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm.

* O evangelho de hoje traz dois assuntos ligados entre si: a Transfiguração de Jesus e a questão do retorno do profeta Elias. Naquele tempo, o povo esperava pelo retorno do profeta Elias. Hoje, muita gente vive esperando pelo retorno de Jesus e escreve nos muros da cidade: Jesus voltará! Eles não se dão conta de que Jesus já voltou e já está presente no coração da nossa vida. De vez em quando, como num relâmpago repentino, esta presença de Jesus irrompe e se ilumina, transfigurando nossa vida.

* A Transfiguração de Jesus acontece depois do primeiro anúncio da Morte de Jesus (Mc 8,27-30). Este anúncio tinha transtornado a cabeça dos discípulos, sobretudo de Pedro (Mc 8,31-33). Eles tinham os pés no meio dos pobres, mas a cabeça estava perdida na ideologia do governo e da religião da época (Mc 8,15). A cruz era um impedimento para crer em Jesus. A transfiguração de Jesus vai ajudar os discípulos a superar o trauma da Cruz.

* Nos anos 70, quando Marcos escreve, a Cruz continuava sendo um grande impedimento para os judeus aceitarem Jesus como Messias. “A cruz é um escândalo!”, assim diziam (1Cor 1,23). Um dos maiores esforços dos primeiros cristãos consistia em ajudar as pessoas a perceber que a cruz não era escândalo nem loucura, mas sim expressão do poder e da sabedoria de Deus (1Cor 1,22-31). Marcos dá a sua contribuição neste esforço. Ele usa textos e figuras do Antigo Testamento para descrever a Transfiguração. Assim ele mostra que Jesus veio realizar as profecias e que a Cruz era o caminho para a Glória.

* Marcos 9,2-4: Jesus muda de aspecto.
Jesus sobe a uma montanha alta. Lucas acrescenta que ele subiu para rezar (Lc 9,28). Lá em cima, Jesus aparece na glória diante de Pedro, Tiago e João. Junto com ele aparecem Moisés e Elias. A Montanha alta evoca o Monte Sinai, onde, no passado, Deus tinha manifestado sua vontade ao povo, entregando a lei. As vestes brancas lembram Moisés que ficava fulgurante quando conversava com Deus na Montanha e dele recebia a lei (cf. Ex 34,29-35). Elias e Moisés, as duas maiores autoridades do Antigo Testamento, conversam com Jesus. Moisés representa a Lei, Elias, a profecia. Lucas informa que a conversa foi sobre “o êxodo de Jesus”, isto é, a Morte de Jesus em Jerusalém (Lc 9,31). Assim fica claro que, o Antigo Testamento, tanto a Lei como a profecia, já ensinava que, para o Messias Servidor, o caminho da glória tinha de passar pela cruz.

* Marcos 9,5-6: Pedro gostou, mas não entendeu.
Pedro gostou e quis segurar o momento agradável na Montanha. Ele se oferece para construir três tendas. Marcos diz que Pedro estava com medo, sem saber o que estava dizendo, e Lucas acrescenta que os discípulos estavam com sono (Lc 9,32). Eles são como nós: têm dificuldade para entender a Cruz!

* Marcos 9,7-9: A voz do céu esclarece os fatos.
Enquanto Jesus é envolvido pela glória, uma voz do céu diz: “Este é o meu Filho amado! Ouvi-o!”. A expressão “Filho amado” lembra a figura do Messias Servidor, anunciado pelo profeta Isaías (cf. Is 42,1). A expressão “Ouvi-o!” lembra a profecia que prometia a chegada de um novo Moisés (cf. Dt 18,15). Em Jesus, as profecias do Antigo Testamento estão se realizando. Os discípulos já não podem duvidar. Jesus é realmente o Messias glorioso que eles desejam, mas o caminho para a glória passa pela cruz, conforme tinha sido anunciado na profecia do Servo (Is 53,3-9). A glória da Transfiguração o comprova. Moisés e Elias o confirmam. O Pai o garante. Jesus o aceita. No fim, Marcos diz que, depois da visão, os discípulos veem só Jesus e ninguém mais. Daqui para frente, Jesus é a única revelação de Deus para nós! Jesus, e só ele, é a chave para a gente entender todo o Antigo Testamento.

* Marcos 9, 9-10: Saber guardar o silêncio.
Jesus pedia aos discípulos para não dizerem nada a ninguém até que ele tivesse ressuscitado dos mortos, mas os discípulos não o entenderam. De fato, não entende o significado da Cruz quem não liga o sofrimento com a ressurreição. A Cruz de Jesus é a prova de que a vida é mais forte que a morte.

* Marcos 9,11-13: A volta do profeta Elias.
O profeta Malaquias tinha anunciado que Elias devia voltar para preparar o caminho do Messias (Ml 3,23-24). O mesmo anúncio está no livro do Eclesiástico (Eclo 48,10). Então, como Jesus podia ser o Messias, se Elias ainda não tinha voltado? Por isso, os discípulos perguntam: “Por que motivo os escribas dizem que Elias deve vir primeiro?” (9,11). A resposta de Jesus é clara: “Elias já veio e fizeram com ele tudo o que quiseram, conforme dele está escrito” (9, 13). Jesus estava falando de João Batista que foi assassinado por Herodes (Mt 17,13).

Para um confronto pessoal
1) A sua fé em Jesus já proporcionou a você algum momento de transfiguração e de alegria intensa? Como estes momentos de alegria dão força na hora das dificuldades?
2) Como transfigurar, hoje, tanto a vida pessoal e familiar, como a vida comunitária?

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Sexta-feira da 6ª semana do Tempo Comum

Evangelho (Mc 8,34-9,1): Chamou, então, a multidão, juntamente com os discípulos, e disse-lhes: «Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me! Pois quem quiser salvar sua vida a perderá; mas quem perder sua vida por causa de mim e do Evangelho, a salvará. De fato, que adianta alguém ganhar o mundo inteiro, se perde a própria vida? E que poderia alguém dar em troca da própria vida? Se alguém se envergonhar de mim e de minhas palavras diante desta geração adúltera e pecadora, também o Filho do Homem se envergonhará dele, quando vier na glória do seu Pai, com seus santos anjos». E disse-lhes: «Em verdade vos digo: alguns dos que estão aqui não provarão a morte, sem antes terem visto o Reino de Deus chegar com poder».

«Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me!»

+ Rev. D. Joaquim FONT i Gassol (Igualada, Barcelona, Espanha)

Hoje o Evangelho nos fala sobre dois temas contemporâneos: a nossa cruz de cada dia e o seu fruto, quer dizer, a Vida em maiúscula, sobrenatural e eterna.

Ficamos de pé para escutar o Santo Evangelho, como símbolo de querermos seguir os seus ensinamentos. Jesus diz que nos neguemos a nos mesmos, clara expressão de não seguir o “gosto dos caprichos” — como menciona o salmo — ou de afastar «as riquezas enganadoras», como diz São Paulo. Tomar a própria cruz é aceitar as pequenas mortificações que cada dia encontramos pelo caminho.

Pode-nos ajudar para isso a frase que Jesus disse no sermão sacerdotal, no Cenáculo: «Eu sou a videira verdadeira e meu Pai é o agricultor. Todo ramo que não dá fruto em mim, ele corta; e todo ramo que dá fruto, ele limpa, para que dê mais fruto ainda» (Jo 15,1-2). Um lavrador esperançoso, mimando o racimo para que alcance muita qualidade! Sim, queremos seguir ao Senhor! Sim, somos conscientes de que o Pai pode ajudar-nos a dar abundante fruto em nossa vida terrena e depois gozar na vida eterna.

Santo Inácio guiava a São Francisco Xavier com as palavras do texto de hoje: «De fato, que adianta alguém ganhar o mundo inteiro, se perde a própria vida?» (Mc 8,36). Assim chegou a ser o patrono das Missões. Com a mesma nuança, lemos o último Cânon do Código de Direito Canônico (n.1752): «Tendo-se diante dos olhos a salvação das almas que, na Igreja, deve ser sempre a lei suprema». São Agostinho tem a famosa lição: «Animam salvasti tuam predestinasti», que o ditado popular traduziu-a assim: «Quem salva uma alma, garante a sua». O convite é evidente.

Maria, Mãe da Divina Graça, nos dá a mão para avançar neste caminho.

Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm.

7 Santos Fundadores dos Servitas
* O Evangelho de hoje traz as condições para uma pessoa poder seguir a Jesus. Pedro não entendeu a proposta de Jesus quando este lhe falou do sofrimento e da cruz. Pedro aceita Jesus como Messias, mas não como Messias sofredor. Diante da incompreensão de Pedro, Jesus descreve o anúncio da Cruz e explica o significado da cruz para a vida dos discípulos (Mc 8,27 a 9,1).

* Contexto histórico de Marcos: Nos anos 70, quando Marcos escreve, a situação das comunidades não era fácil. Havia muito sofrimento, muitas cruzes. Seis anos antes, em 64, o imperador Nero havia decretado a primeira grande perseguição, matando muitos cristãos. Em 70, na Palestina, Jerusalém estava sendo destruída pelos romanos. Nos outros países, estava começando uma tensão forte entre judeus convertidos e judeus não convertidos. A dificuldade maior era a Cruz de Jesus. Os judeus achavam que um crucificado não podia ser o messias, pois a lei afirmava que todo crucificado devia ser considerado como um maldito de Deus (Dt 21,22-23).

* Marcos 8,34-37. Condições para seguir a Jesus
Jesus tira as conclusões que valiam para os discípulos, para os cristãos do tempo de Marcos e para nós que vivemos hoje: Quem quiser vir após mim tome sua cruz e siga-me! Naquele tempo, a cruz era a pena de morte que o império romano impunha aos marginais. Tomar a cruz e carregá-la atrás de Jesus era o mesmo que aceitar ser marginalizado pelo sistema injusto que legitimava a injustiça. A Cruz de Jesus não é fruto de fatalismo da história, nem é exigência do Pai. A Cruz é a consequência do compromisso livremente assumido por Jesus de revelar a Boa Nova de que Deus é Pai e que, portanto, todos e todas devem ser aceitos e tratados como irmãos e irmãs. Por causa deste anúncio revolucionário, ele foi perseguido e não teve medo de dar a sua vida. Prova de amor maior não há, que doar a vida pelo irmão. Em seguida, Marcos insere aqui duas frases soltas.

* Marcos 8,38-9,1. Duas frases soltas: uma exigência e um aviso.
A primeira (Mc 8,38), é a exigência para não termos vergonha do Evangelho, mas termos sim a coragem de professá-lo. A segunda (Mc 9,1), é um aviso sobre a vinda ou a presença de Jesus nos fatos da vida. Alguns achavam que Jesus viria logo (1Ts 4,15-18). Jesus, de fato, já veio e estava presente nas pessoas, sobretudo nos pobres. Mas eles não o percebiam. Jesus mesmo tinha dito: “Aquela vez que você ajudou o pobre, o doente, o sem casa, o preso, o peregrino, era eu!” (Mt 25,34-45).

Para um confronto pessoal
1. Qual é a cruz que pesa sobre mim e que me torna a vida pesada? Como a carrego?
2. Ganhar a vida ou perder a vida; ganhar o mundo inteiro ou perder a alma; ter vergonha do evangelho ou professa-lo publicamente. Como isto acontece em minha vida hoje?

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Quinta-feira da 6ª semana do Tempo Comum

Evangelho (Mc 8,27-33): Jesus e seus discípulos partiram para os povoados de Cesareia de Filipe. No caminho, ele perguntou aos discípulos: «Quem dizem as pessoas que eu sou?». Eles responderam: «Uns dizem João Batista; outros, Elias; outros ainda, um dos profetas». Jesus, então, perguntou: «E vós, quem dizeis que eu sou? ». Pedro respondeu: «Tu és o Cristo». E Jesus os advertiu para que não contassem isso a ninguém. E começou a ensinar-lhes que era necessário o Filho do Homem sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, sumos sacerdotes e escribas, ser morto e, depois de três dias, ressuscitar. Falava isso abertamente. Então, Pedro, chamando-o de lado, começou a censurá-lo. Jesus, porém, voltou-se e, vendo os seus discípulos, repreendeu Pedro, dizendo: «Vai para trás de mim, satanás! Pois não tens em mente as coisas de Deus, e sim, as dos homens!».

«Quem dizem as pessoas que eu sou? (…) E vós, quem dizeis que eu sou?»

Rev. D. Joan Pere PULIDO i Gutiérrez (Sant Feliu de Llobregat, Espanha)

Hoje continuamos a ouvir a Palavra de Deus com a ajuda do Evangelho de São Marcos. Um evangelho com uma inquietação bem clara: descobrir quem é este Jesus de Nazaré. Marcos foi nos oferecendo, com os seus textos, a reação de diferentes personagens perante Jesus: os doentes, os discípulos, os escribas e fariseus. Hoje nos pede diretamente a nós: «E vós, quem dizeis que eu sou?» (Mc 8,29).

Certamente, os que nos chamamos cristãos temos o dever fundamental de descobrir a nossa identidade para dar testemunho da nossa fé, dando bom exemplo com a nossa vida. Este dever urge-nos para poder transmitir uma mensagem clara e compreensível aos nossos irmãos e irmãs que podem encontrar em Jesus uma Palavra de Vida que dê sentido a tudo o que pensam, dizem e fazem, mas este testemunho deve começar sendo nós próprios conscientes do nosso encontro pessoal com Ele. João Paulo II, na sua Carta apostólica “Novo millennio ineunte”, escreveu-nos: «O nosso testemunho seria enormemente deficiente se não fossemos os primeiros contempladores do seu rosto».

São Marcos, com este texto, oferece-nos um bom caminho de contemplação de Jesus. Primeiro Jesus pergunta que dizem as pessoas que Ele é; e podemos responder como os discípulos: João Batista, Elias, uma personagem importante, bom, atraente. Uma resposta boa, sem dúvida, mas ainda longe da Verdade de Jesus. Ele pergunta-nos: «E vós, quem dizeis que eu sou?» (Mc 8,29). É a pergunta da fé, da implicação pessoal. A resposta apenas a encontramos na experiência do silencio e da oração. É o caminho da fé que recorre Pedro, e o que devemos também nós fazer.

Irmãos e irmãs, experimentemos desde a nossa oração a presença libertadora do amor de Deus presente nas nossas vida. Ele continua fazendo aliança conosco com signos claros da sua presença, como aquele arco posto nas nuvens prometido a Noé.

Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm.

* O Evangelho de hoje fala da cegueira de Pedro que não entende a proposta de Jesus quando este fala do sofrimento e da cruz. Pedro aceita Jesus como messias, mas não como messias sofredor. Ele está influenciado pelo “fermento de Herodes e dos fariseus”, isto é, pela propaganda do governo da época que só falava do messias como rei glorioso. Pedro parecia cego. Não enxergava nada e ainda queria que Jesus fosse como ele, Pedro, o queria. Para entender bem todo o alcance desta cegueira de Pedro é importante coloca-la no seu contexto literário.

* Contexto literário: O evangelho de Marcos traz três anúncios da paixão e morte de Jesus: o primeiro em Marcos 8,27-38; o segundo em Mc 9,30-37 e o terceiro em Mc 10,32-45. Este conjunto, que vai de Mc 8,27 até Mc 10,45, é uma longa instrução de Jesus aos discípulos para ajuda-los a superar a crise provocada pela Cruz. A instrução é introduzida pela cura de um cego (Mc 8,22-26) e, no fim, é encerrada pela cura de outro cego (Mc 10,46-52). Os dois cegos representam a cegueira dos discípulos. A cura do primeiro cego foi difícil. Jesus teve que realizá-la em duas etapas. Igualmente difícil era a cura da cegueira dos discípulos. Jesus teve que fazer uma longa explicação a respeito do significado da Cruz para ajudá-los a enxergar, pois era a cruz que estava provocando neles a cegueira. Vejamos de perto a primeira cura do cego:

* Marcos 8,22-26: A primeira cura do cego.
Trouxeram um cego, pedindo que Jesus o curasse. Jesus o curou, mas de um jeito diferente. Primeiro, ele o levou para fora do povoado. Em seguida, cuspiu nos olhos dele, impôs as mãos e perguntou: Você está vendo alguma coisa? O homem responde: Vejo pessoas; parecem árvores que andam! Enxergava só uma parte. Trocava árvore por gente, ou gente por árvore! Foi só na segunda tentativa que Jesus o curou. Esta descrição da cura do cego introduz a instrução aos discípulos. Na realidade, o cego era Pedro. Ele aceitava Jesus como messias, mas só como messias glorioso. Enxergava só uma parte! Não queria o compromisso da Cruz! Será também em várias tentativas que Jesus vai curar a cegueira dos discípulos.

* Marcos 8,27-30. Levantamento da realidade: Quem diz o povo que eu sou?
Jesus perguntou: “Quem diz o povo que eu sou?”. Eles responderam relatando as várias opiniões: -“João Batista”. -“Elias ou um dos profetas”. Depois de ouvir as opiniões dos outros, Jesus perguntou: “E vocês, quem dizem que eu sou?”. Pedro respondeu: “O senhor é o Cristo, o Messias!” Isto é, o Senhor é aquele que o povo está esperando! Jesus concordou com Pedro, mas proibiu de falar sobre isto ao povo. Por que Jesus proibiu? É que naquele tempo, todos esperavam a vinda do messias, mas cada um do seu jeito: uns como rei, outros como sacerdote, doutor, guerreiro, juiz, profeta! Ninguém parecia estar esperando o messias servidor e sofredor, anunciado por Isaías (Is 42,1-9).

* Marcos 8,31-33. Primeiro anúncio da paixão.
Em seguida, Jesus começa a ensinar que ele é o Messias Servidor e afirma que, como o Messias Servidor anunciado por Isaías, será preso e morto no exercício da sua missão de justiça (Is 49,4-9; 53,1-12). Pedro leva susto, chama Jesus de lado para desaconselhá-lo. E Jesus responde a Pedro: “Vá embora Satanás! Você não pensa as coisas de Deus, mas as dos homens!” Pedro pensava ter dado a resposta certa. De fato, ele disse a palavra certa: “Tu és o Cristo!” Mas não lhe deu o sentido certo. Pedro não entendeu Jesus. Era como o cego. Trocava gente por árvore! A resposta de Jesus foi duríssima: “Vá embora, Satanás!” Satanás é uma palavra hebraica que significa acusador, aquele que afasta os outros do caminho de Deus. Jesus não permite que alguém o afaste da sua missão. Literalmente, o texto diz: “Atrás de mim, Satanás!” Pedro deve seguir Jesus. Não deve inverter os papeis e pretender que Jesus siga a Pedro.

Para um confronto pessoal
1) Acreditamos todos em Jesus. Mas um entende Jesus de um jeito, outro o entende de outro jeito. Qual é, hoje, a imagem mais comum que o povo tem de Jesus? Qual a resposta que o povo daria hoje à pergunta de Jesus? E eu, que resposta dou?
2) O que nos impede hoje de reconhecer Jesus como o Messias?

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Quarta-feira da 6ª semana do Tempo Comum

São Cláudio La Colombiere, Presbítero
Evangelho (Mc 8,22-26): Chegaram a Betsaida. Trouxeram-lhe um cego e pediram que tocasse nele. Tomando o cego pela mão, levou-o para fora do povoado, cuspiu nos olhos dele, impôs-lhe as mãos e perguntou: «Estás vendo alguma coisa?». Erguendo os olhos, o homem disse: «Estou vendo as pessoas como se fossem árvores andando». Jesus impôs de novo as mãos sobre os seus olhos, e ele começou a enxergar perfeitamente. Ficou curado e era capaz de ver tudo claramente. Jesus despediu-o e disse-lhe: «Não entres no povoado».

«Ficou curado e era capaz de ver tudo claramente»

Rev. D. Joaquim MESEGUER García (Sant Quirze del Vallès, Barcelona, Espanha)

Hoje através deste milagre, Jesus fala-nos do processo da fé. A cura do cego em duas etapas mostra que nem sempre é a fé uma iluminação instantânea, senão que frequentemente requere um itinerário que nos aproxima à luz para ver claro. Também é evidente que o primeiro passo da fé — começar a ver a realidade à luz de Deus — já é motivo de alegria, como diz Santo Agostinho: «uma vez curados os olhos, que podemos ter de mais valor, irmãos? Alegram-se os que vêm esta luz que foi feita, a que vêm desde o céu ou a que procede de uma candeia. E que desgraçados se sentem os que não a podem ver!».

Ao chegar a Betsaida trazem um cego a Jesus para que lhe imponha as mãos. É significativo que Jesus o leve para fora; não nos está indicando isto que para escutar a palavra de Deus, para descobrir a fé e ver a realidade em Cristo, devemos sair de nós mesmos, de sítios e tempos ruidosos que nos asfixiam e nos deslumbram para receber a autentica iluminação?

Uma vez fora da aldeia, Jesus «cuspiu nos olhos dele, impôs-lhe as mãos e perguntou: Estás vendo alguma coisa?» (Lc 8,23). Este gesto lembra o Batismo: Jesus já não nos unta com saliva, senão que banha todo o nosso ser com a água da salvação e ao largo da vida, nos interroga sobre o que vemos à luz da fé. «Impôs de novo as mãos sobre os seus olhos, e ele começou a enxergar perfeitamente» (Lc 8,25); este segundo momento faz lembrar o Sacramento da Confirmação, no qual recebemos a plenitude do Espírito Santo para chegarmos à perfeição da fé e poder ver claro. Receber o Batismo, mas esquecer a Confirmação nos leva a ver, sim, mas só a meias.

Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm.

* O Evangelho de hoje conta a cura de um cego. Este episódio da cura forma o início de uma longa instrução de Jesus aos discípulos (Mc 8,27 a 10,45) que, por sua vez, termina com a cura de um outro cego (Mc 10,46-52). No meio deste contexto mais amplo Marcos sugere aos leitores que os cegos de verdade são Pedro e os outros discípulos. Somos todos nós! Eles não entendiam a proposta de Jesus quando este falava do sofrimento e da cruz. Pedro aceitava Jesus como messias, mas não como messias sofredor (Mc 8,27-33). Ele estava influenciado pela propaganda do governo da época que só falava do messias como rei glorioso. Pedro parecia cego. Não enxergava nada e ainda queria que Jesus fosse como ele, Pedro, o queria.

Festa "da Língua de Sto Antônio"
* O evangelho de hoje mostra como foi difícil a cura do primeiro cego. Jesus teve que realizá-la em duas etapas. Igualmente difícil foi a cura da cegueira dos discípulos. Jesus teve que fazer uma longa explicação a respeito do significado da Cruz para ajudá-los a enxergar, pois era a cruz que estava provocando neles a cegueira.

* No ano 70, quando Marcos escreve, a situação das comunidades não era fácil. Havia muito sofrimento, muitas cruzes. Seis anos antes, em 64, o imperador Nero tinha decretado a primeira grande perseguição, matando muitos cristãos. Em 70, na Palestina, Jerusalém estava sendo destruída pelos romanos. Nos outros países, estava começando uma tensão forte entre judeus convertidos e judeus não convertidos. A dificuldade maior era a Cruz de Jesus. Os judeus achavam que um crucificado não podia ser o messias tão esperado pelo povo, pois a lei afirmava que todo crucificado devia ser considerado como um maldito de Deus (Dt 21,22-23).

* Marcos 8,22-26: Cura de um cego.
Trouxeram um cego, pedindo que Jesus o curasse. Jesus o curou, mas de um jeito diferente. Primeiro, ele o levou para fora do povoado. Em seguida, cuspiu nos olhos dele, impôs as mãos e perguntou: Você está vendo alguma coisa? O homem respondeu: Vejo pessoas; parecem árvores que andam! Enxergava só uma parte. Trocava árvore por gente, ou gente por árvore! Foi só na segunda tentativa que Jesus curou o cego e o proibiu de entrar no povoado. Jesus não queria propaganda fácil.

* Como dissemos, esta descrição da cura do cego forma a introdução à longa instrução de Jesus para curar a cegueira dos discípulos, que, no fim, termina com a cura de outro cego, o Bartimeu. Na realidade o cego era Pedro. Somos todos nós. Pedro não queria o compromisso da Cruz! E nós será que entendemos o significado do sofrimento na vida?

* Entre as duas curas de cego (Mc 8,22-26 e Mc 10,46-52), está a longa instrução sobre a Cruz (Mc 8,27 a 10,45). Parece um catecismo, feita com frases do próprio Jesus. Ela fala sobre a cruz na vida do discípulo e da discípula. A longa instrução consta de três anúncios da paixão. O primeiro é de Marcos 8,27-38. O segundo, de Marcos 9,30-37. O terceiro, de Marcos 10,32-45. Entre o primeiro e o segundo, há uma série de instruções para ajudar a entender que Jesus é o Messias Servo (Mc 9,1-29). Entre o segundo e o terceiro, uma série de instruções que esclarecem que tipo de conversão deve ocorrer na vida dos que aceitam Jesus como Messias Servo (Mc 9,38 a 10,31).

Mc 8,22-26: a cura de um cego
Mc 8,27-38: primeiro anúncio da Cruz
Mc 9,1-29: instruções aos discípulos sobre o Messias Servo
Mc 9,30-37: Segundo anúncio da Cruz
Mc 9,38 a 10,31: instruções aos discípulos sobre a conversão
Mc 10,32-45: terceiro anúncio da Cruz
Mc 10,46-52: a cura do cego Bartimeu

O conjunto desta instrução tem como pano de fundo a caminhada da Galileia até Jerusalém. Desde o começo até o fim desta longa instrução, Marcos informa que Jesus está a caminho de Jerusalém, onde será preso e morto (Mc 8,27; 9,30.33; 10,1.17.32). A compreensão plena do seguimento de Jesus não se obtém pela instrução teórica, mas sim pelo compromisso prático, caminhando com ele no caminho do serviço, desde a Galileia até Jerusalém. Quem insiste em manter a ideia de Pedro, isto é, do Messias glorioso sem a cruz, nada vai entender e nunca chegará a tomar a atitude do verdadeiro discípulo. Continuará cego, trocando gente por árvore (Mc 8,24). Pois sem a cruz é impossível entender quem é Jesus e o que significa seguir Jesus.

O Caminho do seguimento é o caminho da entrega, do abandono, do serviço, da disponibilidade, da aceitação do conflito, sabendo que haverá ressurreição. A cruz não é um acidente de percurso, mas faz parte deste caminho. Pois num mundo, organizado a partir do egoísmo, o amor e o serviço só podem existir crucificados! Quem faz da sua vida um serviço aos outros, incomoda os que vivem agarrados aos privilégios, e sofre.

Para um confronto pessoal
1. Todos acreditamos em Jesus. Mas um entende Jesus de um jeito, outro o entende de outro jeito. Qual é, hoje, o Jesus mais comum no modo de pensar do povo? Como a propaganda interfere no meu modo de ver Jesus? O que faço para não cair engano da propaganda?
2. O que Jesus pede às pessoas que querem segui-lo? O que, hoje, nos impede de reconhecer e de assumir o projeto de Jesus?