segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Terça-feira da 33ª semana do Tempo Comum

N. Sra da Divina Providência

1ª Leitura (Ap 3,1-6.14-22): Eu, João, ouvi o Senhor que me dizia: «Ao Anjo da Igreja de Sardes, escreve: ‘Eis o que diz Aquele que tem os sete Espíritos de Deus e as sete estrelas: Conheço as tuas obras. És considerado vivo, mas estás morto. Desperta e reanima esses restos de vida moribunda, pois verifico que as tuas obras não são perfeitas aos olhos do meu Deus. Lembra-te como aceitaste a palavra que ouviste; guarda-a e arrepende-te. Se não despertares, virei como o ladrão, sem que saibas a hora em que virei ao teu encontro. Todavia, tens em Sardes algumas pessoas que não mancharam as suas vestes: elas Me acompanharão, vestidas de branco, porque são dignas. O vencedor será revestido de vestes brancas; não apagarei o seu nome do livro da vida, mas reconhecê-lo-ei diante de meu Pai e dos seus Anjos’. Quem tem ouvidos ouça o que o Espírito diz às Igrejas. Ao Anjo da Igreja de Laodiceia, escreve: ‘Assim fala o Amém, a Testemunha fiel e verdadeira, o Princípio das criaturas de Deus: Conheço as tuas obras: não és frio nem quente; antes fosses frio ou quente. Mas porque és morno, isto é, nem frio nem quente, estou quase a vomitar-te da minha boca. Tu dizes: “Sou rico, tenho fortuna e não preciso de nada”, e não sabes que és infeliz, pobre, cego e nu. Aconselho-te a comprar de Mim ouro purificado pelo fogo para te enriqueceres, roupas brancas para te cobrires e ocultares a tua vergonhosa nudez e colírio para ungires os olhos e recuperares a vista. Eu repreendo e castigo aqueles que amo. Sê zeloso e arrepende-te. Eu estou à porta e chamo. Se alguém ouvir a minha voz e Me abrir a porta, entrarei em sua casa, cearei com ele e ele comigo. Ao vencedor fá-lo-ei sentar-se comigo no meu trono, como Eu também fui vencedor e estou sentado com meu Pai no seu trono’. Quem tem ouvidos ouça o que o Espírito diz às Igrejas».

Salmo Responsorial: 14
R. O vencedor sentar-se-á comigo no meu trono.

O que vive sem mancha e pratica a justiça e diz a verdade que tem no seu coração e guarda a sua língua da calúnia.

O que não faz mal ao seu próximo, nem ultraja o seu semelhante, o que tem por desprezível o ímpio, mas estima os que temem o Senhor.

O que não falta ao juramento mesmo em seu prejuízo e não empresta dinheiro com usura, nem aceita presentes para condenar o inocente. Quem assim proceder jamais será abalado.

Aleluia. Deus amou-nos e enviou o seu Filho, como vítima de expiação pelos nossos pecados. Aleluia.

Evangelho (Lc 19,1-10): Naquele tempo, Jesus tinha entrado em Jericó e estava passando pela cidade. Havia ali um homem chamado Zaqueu, que era chefe dos publicanos e muito rico. Ele procurava ver quem era Jesus, mas não conseguia, por causa da multidão, pois era baixinho. Então ele correu à frente e subiu numa árvore para ver Jesus, que devia passar por ali. Quando Jesus chegou ao lugar, olhou para cima e disse: «Zaqueu, desce depressa! Hoje eu devo ficar na tua casa. Ele desceu depressa, e o recebeu com alegria.  Ao ver isso, todos começaram a murmurar, dizendo: «Foi hospedar-se na casa de um pecador!». Zaqueu pôs-se de pé, e disse ao Senhor: «Senhor, a metade dos meus bens darei aos pobres, e se prejudiquei alguém, vou devolver quatro vezes mais». Jesus lhe disse: «Hoje aconteceu a salvação para esta casa, porque também este é um filho de Abraão. Com efeito, o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido».

«O Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido»

Rev. D. Enric RIBAS i Baciana (Barcelona, Espanha)

Hoje, Zaqueu sou eu. Esse personagem era rico e chefe dos publicanos; eu tenho mais do que necessito e também muitas vezes atuo como um publicano e esqueço-me de Cristo. Jesus, entre a multidão, procura Zaqueu; hoje, no meio deste mundo, precisamente procura-me a mim: «Desce depressa! Hoje eu devo ficar na tua casa» (Lc 19,5).

Zaqueu deseja ver a Jesus; não o conseguirá sem esforçar-se e sobe a árvore. Quisera eu ver tantas vezes a ação de Deus! Mas não sei se estou verdadeiramente disposto a fazer o ridículo obrando como Zaqueu. A disposição do chefe de publicanos de Jericó é necessária para que Jesus possa agir; se não se apressa, pode perder a única oportunidade de ser tocado por Deus e assim, ser salvado. Possívelmente, eu tive muitas ocasiões de encontrar-me com Jesus, e talvez vendo que já era hora de ser corajoso, de sair de casa, de encontrar-me com Ele e de convidá-lo a entrar no meu interior, para que Ele possa dizer também de mim: «Hoje aconteceu a salvação para esta casa, porque também este é um filho de Abraão. Com efeito, o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido» (Lc 19,9-10).

Zaqueu deixa entrar a Jesus na sua casa e no seu coração, ainda que não se sente digno dessa visita. Nele a conversão é total: começa pela renúncia à ambição de riquezas, continua com o propósito de partilhar os seus bens e termina com uma vontade firme de fazer justiça, corrigir os pecados que cometeu. Pode que Jesus me este pedindo algo parecido desde faz tempo, mas eu não quero escutar e faço ouvidos surdos; necessito converter-me.

Dizia São Máximo: «Nada há mais querido e agradável a Deus como a conversão dos homens a Ele com um arrependimento sincero». Que Ele me ajude hoje a fazê-lo realidade.

Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm.

* No evangelho de hoje, estamos chegando ao fim da longa viagem que começou no capítulo 9 (Lc 9,51). Durante a viagem, não se sabia bem por onde Jesus andava. Só se sabia que ele ia em direção a Jerusalém. Agora, no fim, a geografia fica clara e definida. Jesus chegou a Jericó, a cidade das palmeiras, no vale do Jordão. Última parada dos peregrinos, antes de subir para Jerusalém! Foi em Jericó, que terminou a longa caminhada do êxodo de 40 anos pelo deserto. O êxodo de Jesus também está terminando. Na entrada de Jericó, Jesus encontrou um cego que queria vê-lo (Lc 18,35-43). Agora, na saída da cidade, ele encontra Zaqueu, um publicano, que também queria vê-lo. Um cego e um publicano. Os dois eram excluídos. Os dois incomodavam o povo: o cego com seus gritos, o publicano com seus impostos. Os dois são acolhidos por Jesus, cada um a seu modo.

* Lucas 19,1-2: A situação
Jesus entrou em Jericó e atravessava a cidade. "Havia ali um homem, chamado Zaqueu, muito rico, chefe dos publicanos". Publicano era a pessoa que cobrava o imposto público sobre a circulação da mercadoria. Zaqueu era o chefe dos publicanos da cidade. Sujeito rico e muito ligado ao sistema de dominação dos romanos. Os judeus mais religiosos argumentavam assim: “O rei do nosso povo é Deus. Por isso, a dominação romana sobre nós é contra Deus. Quem colabora com os romanos peca contra Deus!” Assim, soldados que serviam no exército romano e cobradores de impostos, como Zaqueu, eram excluídos e evitados como pecadores e impuros.

* Lucas 19,3-4: A atitude de Zaqueu
Zaqueu quer ver Jesus. Sendo pequeno, corre na frente, sobe numa árvore e aguarda Jesus passar. É muita vontade de ver Jesus! Anteriormente, na parábola do pobre Lázaro e do rico sem nome (Lc 16,19-31), Jesus mostrava como é difícil um rico se converter e abrir a porta de separação para acolher o pobre Lázaro. Aqui aparece o caso de um rico que não se fecha na sua riqueza. Zaqueu quer algo mais. Quando um adulto, pessoa de destaque na cidade, sobe numa árvore, é porque já nem liga para a opinião dos outros. Algo mais importante o move por dentro. Ele está querendo abrir a porta para o pobre Lázaro.

* Lucas 19,5-7: Atitude de Jesus, reação do povo e de Zaqueu.
Chegando perto e vendo Zaqueu na árvore, Jesus não pergunta nem exige nada. Apenas responde ao desejo do homem e diz: "Zaqueu, desça depressa! Hoje devo ficar em sua casa!" Zaqueu desceu e recebeu Jesus em sua casa, com muita alegria. Todos murmuravam: "Foi hospedar-se na casa de um pecador!" Lucas diz que todos murmuravam! Isto significa que Jesus estava ficando sozinho na sua atitude de dar acolhida aos excluídos, sobretudo aos colaboradores do sistema. Mas Jesus não se importa com as críticas. Ele vai à casa de Zaqueu e o defende contra as críticas. Em vez de pecador, o chama de “filho de Abraão” (Lc 19,9).

* Lucas 19,8: Decisão de Zaqueu
"Dou a metade dos meus bens aos pobres e restituo quatro vezes o que roubei!" Esta é a conversão, produzida em Zaqueu pela acolhida que Jesus lhe deu. Restituir quatro vezes era o que a lei mandava em alguns casos (Ex 21,37; 22,3). Dar a metade dos bens aos pobres era a novidade que o contato com Jesus nele produziu. Era a partilha acontecendo de fato!

* Lucas 19,9-10: Palavra final de Jesus
"Hoje, a salvação entrou nesta casa, porque ele também é um filho de Abraão!" A interpretação da Lei pela Tradição antiga excluía os publicanos da raça de Abraão. Jesus diz que veio procurar e salvar o que estava perdido. O Reino é para todos. Ninguém pode ser excluído. A opção de Jesus é clara, seu apelo também: não é possível ser amigo de Jesus e continuar apoiando um sistema que marginaliza e exclui tanta gente. Denunciando as divisões injustas, Jesus abre o espaço para uma nova convivência, regida pelos novos valores da verdade, da justiça e do amor.

* Filho de Abraão.
"Hoje, a salvação entrou nesta casa, porque ele também é um filho de Abraão!" Através da descendência de Abraão, todas as nações da terra serão benditas (Gn 12,3; 22,18). Para as comunidades de Lucas, formadas por cristãos tanto de origem judaica como de origem pagã, a afirmação de Jesus chamando Zaqueu de “filho de Abraão”, era muito importante. Nela encontravam a confirmação de que, em Jesus, Deus estava cumprindo as promessas feitas a Abraão, dirigidas a todas as nações, tanto judeus como gentios. Estes são também filhos de Abraão e herdeiros das promessas. Jesus acolhe os que não eram acolhidos. Oferece lugar aos que não tinham lugar. Recebe como irmão e irmã as pessoas que a religião e o governo excluíam e rotulavam como:
* imorais: prostitutas e pecadores (Mt 21,31-32; Mc 2,15; Lc 7,37-50; Jo 8,2-11),
* hereges: pagãos e samaritanos (Lc 7,2-10; 17,16; Mc 7,24-30; Jo 4,7-42),
* impuras: leprosos e possessos (Mt 8,2-4; Lc 17,12-14; Mc 1,25-26),
* marginalizadas: mulheres, crianças e doentes (Mc 1,32; Mt 8,16;19,13-15; Lc 8,2-3),
* pelegos: publicanos e soldados (Lc 18,9-14;19,1-10);
* pobres: o povo da terra e os pobres sem poder (Mt 5,3; Lc 6,20; Mt 11,25-26).

Para um confronto pessoal
1. Como nossa comunidade acolhe as pessoas desprezadas e marginalizadas? Somos capazes, como Jesus, de perceber os problemas das pessoas e dar atenção a elas?
2. Como percebemos a salvação entrando hoje na nossa casa e na nossa comunidade? A ternura acolhedora de Jesus provocou uma mudança total na vida de Zaqueu. A ternura acolhedora da nossa comunidade está provocando alguma mudança no bairro? Qual?

sábado, 17 de novembro de 2018

19 de novembro


São Rafael de São José (Kalinowski)
Presbítero de nossa Ordem


Oriundo de uma família polaca, nasceu em Vilna em 1835. Por ter participado no movimento de libertação da Polônia, foi condenado a dez anos de trabalhos forçados na Sibéria. Em 1877 ingressou nos Carmelitas Descalços, onde se ordenou sacerdote em 1882. Distinguiu-se no zelo pela unidade da Igreja e pela incansável dedicação ao ministério de confessor e diretor espiritual. Restaurou a Ordem na Polônia, desempenhando lá vários cargos de governo. Morreu em Wadovice em 1907. Foi beatificado em 22 de junho de 1983 e canonizado em 17 de novembro de 1991.

Salmodia, leitura, responsório breve e preces do dia corrente.

Oração
Senhor, que concedestes a São Rafael o espírito de fortaleza nas adversidades e um extraordinário zelo de caridade em benefício da unidade da Igreja, concedei, por sua intercessão, que, sendo fortes na fé e amando-nos uns aos outros, colaboremos generosamente na unidade de todos os fiéis em Cristo. Ele que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.


Segunda-feira da 33ª semana do Tempo Comum

S. Rafael de São José (Kalinowski)
Presbítero de nossa Ordem

1ª Leitura (Ap 1,1-4; 2,1-5a):
Revelação de Jesus Cristo, que Deus Lhe concedeu para mostrar aos seus servos o que há de acontecer muito em breve. Ele deu-o a conhecer ao seu servo João, pelo Anjo que enviou, e João confirma a palavra de Deus e o testemunho de Jesus Cristo, em tudo o que viu. Feliz de quem ler e dos que ouvirem as palavras desta profecia e observarem o que nela está escrito, porque o tempo está próximo. João às sete Igrejas da Ásia: A graça e a paz vos sejam dadas por Aquele que é, que era e que há de vir, e pelos sete Espíritos que estão diante do seu trono. Eu ouvi o Senhor que me dizia: «Ao Anjo da Igreja de Éfeso, escreve: ‘Eis o que diz Aquele que tem as sete estrelas na sua mão direita e caminha no meio dos sete candelabros de ouro: Conheço as tuas obras, o teu trabalho e a tua perseverança. Sei que não podes suportar os maus, que puseste à prova aqueles que se dizem apóstolos sem o serem e descobriste que eram mentirosos. Tens perseverança e sofreste pelo meu nome, sem desanimar. Mas tenho contra ti que perdeste a tua caridade primitiva. Lembra-te de onde caíste, arrepende-te e pratica as obras anteriores».

Salmo Responsorial: 1
R. Ao vencedor darei a comer da árvore da vida.

Feliz o homem que não segue o conselho dos ímpios, nem se detém no caminho dos pecadores, mas antes se compraz na lei do Senhor, e nela medita dia e noite.

É como árvore plantada à beira das águas: dá fruto a seu tempo e sua folhagem não murcha. Tudo quanto fizer será bem sucedido.

Bem diferente é a sorte dos ímpios: são como palha que o vento leva. O Senhor vela pelo caminho dos justos, mas o caminho dos pecadores leva à perdição.

Aleluia. Eu sou a luz do mundo, diz o Senhor; quem Me segue terá a luz da vida. Aleluia.

Evangelho (Lc 18,35-43): Naquele tempo, quando Jesus se aproximou de Jericó, um cego estava sentado à beira do caminho, pedindo esmola. Ouvindo a multidão passar, perguntou o que estava acontecendo. Disseram-lhe: «Jesus Nazareno está passando». O cego então gritou: «Jesus, Filho de Davi, tem compaixão de mim!» As pessoas que iam na frente mandavam que ele ficasse calado. Mas ele gritava mais ainda: «Filho de Davi, tem compaixão de mim!» Jesus parou e mandou que lhe trouxessem o cego. Quando ele chegou perto, Jesus perguntou: «Que queres que eu te faça?» O cego respondeu: «Senhor, que eu veja». Jesus disse: «Vê! A tua fé te salvou». No mesmo instante, o cego começou a enxergar de novo e foi seguindo Jesus, glorificando a Deus. Vendo isso, todo o povo deu glória a Deus».

«A tua fé te salvou»

Rev. D. Antoni CAROL i Hostench (Sant Cugat del Vallès, Barcelona, Espanha)

Hoje o cego Bartimeu (cf. Mc 10,46) dá-nos toda uma lição de fé, manifestada com franca simplicidade perante Cristo. Quantas vezes nos seria útil repetir a mesma exclamação de Bartimeu: «Jesus, Filho de Davi, tem compaixão de mim!» (Lc 18,37). É tão proveitoso para a nossa alma sentir-nos indigentes! O fato é que o somos, mas, infelizmente, poucas vezes o reconhecemos de verdade. E...., claro está: fazemos o ridículo. São Paulo adverte-nos: «Que tens que não tenhas recebido? Mas, se recebeste tudo que tens, por que, então, te glorias, como se não o tivesses recebido?» (1Cor 4,7).

Bartimeu não tem vergonha de se sentir assim. Em não poucas ocasiões, a sociedade, a cultura do politicamente correto querem fazer-nos calar: com Bartimeu não o conseguiram. Ele não se encolheu. Apesar de o «mandarem ficar calado, (...) ele gritava mais ainda: Filho de Davi, tem compaixão de mim!» (Lc 18,39). Que maravilha! Apetece dizer: —Obrigado, Bartimeu, por esse exemplo.

E vale a pena fazê-lo como ele, porque Jesus ouve. E ouve sempre! Por mais confusão que alguns organizem à nossa roda. A confiança simples -sem preconceitos- de Bartimeu desarma Jesus e rouba-lhe o coração: «Mandou que lhe trouxessem o cego e (...) perguntou-lhe: «Que queres que eu te faça?» (Lc 18,40-41). Perante tanta fé, Jesus não anda com rodeios! E Bartimeu também não: «Senhor, que eu veja!» (Lc 18,41). Dito e feito: «Vê! A tua fé te salvou» (Lc 18,42). Assim, pois, —a fé, se é forte, defende toda a casa— (Santo Ambrósio), quer dizer, tudo pode.

Ele é tudo; Ele dá-nos tudo. Então, que outra coisa podemos fazer perante Ele, se não lhe dar uma resposta de fé? E esta resposta de fé equivale a deixar-se encontrar por este Deus que —movido pelo afeto de Pai— nos procura sempre. Deus não se impõe, mas passa frequentemente muito perto de nós: aprendamos a lição de Bartimeu e ... Não o deixemos passar ao largo!

Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm.

* O evangelho de hoje descreve a chegada de Jesus em Jericó. É a última parada antes da subida para Jerusalém, onde será realizado o “êxodo” de Jesus conforme tinha sido anunciado na sua Transfiguração (Lc 9,31) e nos avisos ao longo da caminhada até Jerusalém (Lc 9,44; 18,31-33).

* Lucas 18,35-37: O cego à beira da estrada
“Quando Jesus se aproximava de Jericó, um cego estava sentado à beira do caminho, pedindo esmolas. Ouvindo a multidão passar, ele perguntou o que estava acontecendo. Disseram-lhe que Jesus Nazareno passava por ali”. No evangelho de Marcos, o cego se chama Bartimeu (Mc 10,46). Por ser cego, ele não podia participar da procissão que acompanhava Jesus. Naquele tempo, havia muitos cegos na Palestina, pois o sol forte que bate na terra pedregosa embranquecida fazia mal aos olhos sem proteção.
* Lucas 18,38-39: O grito do cego e a reação do povo
“Então o cego gritou: "Jesus, filho de Davi, tem piedade de mim!" Ele invoca Jesus sob o título de “Filho de Davi”. O catecismo daquela época ensinava que o messias seria da descendência de Davi, “filho de Davi”, messias glorioso. Jesus não gostava deste título. Citando o salmo messiânico, ele chegou a perguntar: “Como é que o messias pode ser filho de Davi se até o próprio Davi o chama de “meu Senhor” (Lc 20,41-44)? O grito do cego incomodava o povo que acompanhava Jesus. Por isso, “as pessoas que iam na frente mandavam que ele ficasse quieto. Elas tentavam abafar o grito. Mas ele gritava mais ainda: "Filho de Davi, tem piedade de mim!" Até hoje, o grito dos pobres incomoda a sociedade estabelecida: migrantes, aidéticos, mendigos, refugiados, tantos!

* Lucas 18,40-41: A reação de Jesus diante do grito do cego
E Jesus, o que faz? “Parou, e mandou que levassem o cego até ele. Os que queriam abafar o grito incômodo do pobre, agora, a pedido de Jesus, são obrigados a ajudar o pobre a chegar até Jesus. O evangelho de Marcos acrescenta que o cego largou tudo e foi até Jesus. Não tinha muito. Apenas um manto. Mas era o que tinha para cobrir o seu corpo (cf. Ex 22,25-26). Era a sua segurança, o seu chão! Também hoje Jesus escuta o grito calado dos pobres que nós, às vezes, não queremos escutar. Quando o cego chegou perto, Jesus perguntou: "O que quer que eu faça por você?" Não basta gritar. Tem que saber por que grita!  O cego respondeu: "Senhor, eu quero ver de novo."

* Lucas 18,42-43: “Veja! Sua fé curou você!”
Jesus disse: "Veja. A sua fé curou você." No mesmo instante, o cego começou a ver e seguia Jesus, glorificando a Deus. Vendo isso, todo o povo louvou a Deus”. O cego tinha invocado Jesus com ideias não inteiramente corretas, pois o título “Filho de Davi” não era muito bom. Mas ele teve mais fé em Jesus, do que nas suas próprias ideias sobre Jesus. Assinou em branco. Não fez exigências como Pedro (Mc 8,32-33). Soube entregar sua vida aceitando Jesus sem impor condições. A cura é fruto da sua fé em Jesus. Curado, ele segue Jesus e sobe com ele para Jerusalém. Deste modo, tornou-se discípulo modelo para todos nós que queremos “seguir Jesus no caminho” em direção a Jerusalém: acreditar mais em Jesus do que nas nossas ideias sobre Jesus! Nesta decisão de caminhar com Jesus está a fonte da coragem e a semente da vitória sobre a cruz. Pois a cruz não é uma fatalidade, nem uma exigência de Deus. Ela é a consequência do compromisso de Jesus, em obediência ao Pai, de servir aos irmãos e de recusar o privilégio.

* A fé é uma força que transforma as pessoas
A Boa Nova do Reino anunciada por Jesus era como um fertilizante. Fazia crescer a semente da vida que estava escondida no povo, escondida como fogo debaixo das cinzas das observâncias sem vida. Jesus soprou nas cinzas e o fogo acendeu, o Reino desabrochou e o povo se alegrou. A condição era sempre a mesma: crer em Jesus. A cura do cego esclarece um aspecto muito importante da nossa fé. Mesmo invocando Jesus com ideias não inteiramente corretas, o cego teve fé e foi curado! Converteu-se, largou tudo e seguiu Jesus no caminho para o Calvário! A compreensão plena do seguimento de Jesus não se obtém pela instrução teórica, mas sim pelo compromisso prático, caminhando com ele no caminho do serviço, desde a Galileia até Jerusalém. Quem insiste em manter a ideia de Pedro, isto é, do Messias glorioso sem a cruz, nada vai entender de Jesus e nunca chegará a tomar a atitude do verdadeiro discípulo. Quem souber crer em Jesus e fazer a entrega de si (Lc 9,23-24), aceitar ser o último (Lc 22,26), beber o cálice e carregar sua cruz (Mt 20,22; Mc 10,38), este, como o cego, mesmo tendo ideias não inteiramente corretas, conseguirá enxergar e “seguirá Jesus no caminho” (Lc 18,43). Nesta certeza de caminhar com Jesus está a fonte da coragem e a semente da vitória sobre a cruz.

Para um confronto pessoal
1) Como vejo e sinto o grito dos pobres: migrantes, negros, aidéticos, mendigos, refugiados, tantos?
2) Como é a minha fé: fixo-me mais nas minhas ideias sobre Jesus ou em Jesus?

XXXIII Domingo do Tempo Comum


1ª Leitura (Dan 12,1-3): Naquele tempo, surgirá Miguel, o grande chefe dos Anjos, que protege os filhos do teu povo. Será um tempo de angústia, como não terá havido até então, desde que existem nações. Mas nesse tempo, virá a salvação para o teu povo, para aqueles que estiverem inscritos no livro de Deus. Muitos dos que dormem no pó da terra acordarão, uns para a vida eterna, outros para a vergonha e o horror eterno. Os sábios resplandecerão como a luz do firmamento e os que tiverem ensinado a muitos o caminho da justiça brilharão como estrelas por toda a eternidade.

Salmo Responsorial: 15
R. Defendei-me, Senhor: Vós sois o meu refúgio.

Senhor, porção da minha herança e do meu cálice, está nas vossas mãos o meu destino. O Senhor está sempre na minha presença, com Ele a meu lado não vacilarei.

Por isso o meu coração se alegra e a minha alma exulta e até o meu corpo descansa tranquilo. Vós não abandonareis a minha alma na mansão dos mortos, nem deixareis o vosso fiel sofrer a corrupção.

Dar-me-eis a conhecer os caminhos da vida, alegria plena em vossa presença, delícias eternas à vossa direita.

2ª Leitura (Heb 10,11-14.18): Todo o sacerdote da antiga aliança se apresenta cada dia para exercer o seu ministério e oferecer muitas vezes os mesmos sacrifícios, que nunca poderão perdoar os pecados. Cristo, ao contrário, tendo oferecido pelos pecados um único sacrifício, sentou-Se para sempre à direita de Deus, esperando desde então que os seus inimigos sejam postos como escabelo dos seus pés. Porque, com uma única oblação, tornou perfeitos para sempre os que Ele santifica. Onde há remissão dos pecados, já não há necessidade de oblação pelo pecado.

Aleluia. Vigiai e orai em todo o tempo, para poderdes comparecer diante do Filho do homem. Aleluia.

Evangelho (Mc 13,24-32): Naquele tempo, Jesus disse aos discípulos: «Mas, naqueles dias, depois daquela aflição, o sol ficará escuro e a lua perderá sua claridade, as estrelas estarão caindo do céu e as potências celestes serão abaladas. Então verão o Filho do Homem vindo nas nuvens com grande poder e glória. Ele enviará os anjos para reunir os seus eleitos dos quatro cantos da terra, da extremidade da terra à extremidade do céu. Aprendei da figueira a lição: quando seus ramos vicejam e as folhas começam a brotar, sabeis que o verão está perto. Vós, do mesmo modo, quando virdes acontecer estas coisas, ficai sabendo que está próximo, às portas. Em verdade vos digo: esta geração não passará até que tudo isso aconteça. O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão. Ora, quanto àquele dia ou hora, ninguém tem conhecimento, nem os anjos do céu, nem mesmo o Filho. Só o Pai».

«Está próximo»

Rev. D. Pedro IGLESIAS Martínez (Rubí, Barcelona, Espanha)

Hoje, recordamos como a Igreja nos preparava, ao começar o ano litúrgico, para a primeira vinda de Cristo, que nos traz a salvação. A duas semanas do final do ano, prepara-nos para a segunda vinda, aquela em que se pronunciará a última e definitiva palavra sobre cada um de nós.

Perante o Evangelho de hoje podemos pensar que ainda vem longe, mas «Ele está próximo» (Mc 13,29). E, contudo, na nossa sociedade é incômodo - até incorreto! - aludir à morte. Porém, não podemos falar de ressurreição sem pensar que temos de morrer. O fim do mundo, para cada um de nós, ocorre no dia em que falecermos, momento em que terminará o tempo que nos foi dado para optar. O Evangelho é sempre uma Boa Nova e o Deus de Cristo é Deus de Vida: porquê esse medo? talvez pela nossa falta de esperança?

Diante da rapidez com que esse juízo chegará, temos de saber converter-nos em juízes severos, não dos outros, mas de nós próprios. Não cair no engano da auto justificação, do relativismo ou do -eu não acho que seja assim-... Jesus Cristo se nos dá através da Igreja e, com Ele, os meios e recursos para que esse juízo universal não seja o dia da nossa condenação, mas um espetáculo muito interessante, em que finalmente, se tornarão públicas as verdades mais ocultas dos conflitos que tanto atormentaram os homens.

A Igreja anuncia que temos um salvador, Cristo, o Senhor. Menos medos e mais coerência na nossa atuação, de acordo com aquilo em que cremos! «Quando chegarmos à presença de Deus, nos perguntarão duas coisas: se estávamos na Igreja e se trabalhávamos na Igreja; Tudo o resto não tem valor» (Beato J.H. Newman). A Igreja não só nos ensina uma forma de morrer, mas também uma de forma de viver para poder ressuscitar. Porque o que prega não é a sua mensagem, mas a Daquele cuja palavra é fonte de vida. Só partindo desta esperança enfrentaremos com serenidade o juízo de Deus.

Vigiar e preparar-nos para a vinda de Cristo. Só assim evitaremos a angústia e o medo.

Pe. Antonio Rivero, L.C.

Terminamos hoje a leitura do evangelista Marcos, que nos acompanhou durante todo o ano. No próximo domingo, festa de Cristo Rei, leremos São João. Termina o ano litúrgico e por isso as leituras nos orientam à escatologia, o futuro da história, para nos preparar para esse dia. Não necessitamos nem horóscopos nem adivinhos para buscar respostas às interrogações do amanhã. O futuro nos fascina e nos inquieta ao mesmo tempo. Ou porque desejamos ter tudo controlado. Ou porque nos ajudaria planejar o presente. O melhor é confiar em Cristo e na sua vitória.

Em primeiro lugar, quem não tem terror do que Jesus narra no evangelho de hoje? Visões tremendas, de arrepiar; soberbas imagens para um filme de terror: explosão de galáxias, apagão do sol, estrelas arrebentando-se, queda da lua, uma bagunça na criação. Hoje, outro tanto: explosão demográfica, destruição do ecossistema e da casa comum, como o Papa Francisco escreveu na sua encíclica “Lodato si’”, guerra das galáxias e, para que ninguém ficar de fora, nos silos uma bombinha de 180 Kg atômicos por pessoa. Consequências? Homens secos de pessimismo derrotista, agressividade à flor de pele, angústia endêmica, depressões epidêmicas. Filmes atrozes que alertam uma neurose massiva e expansiva –veja na internet-, a bagunça ética-social –novas ideologias contrárias à Lei de Deus- e o homem de bruços no caos. A nossa ciência se tornou horrível, perigosa a nossa insatisfação, mortais os nossos conhecimentos. Isto é, parece estarmos nos aproximando do quadro clinico-psiquiátrico deste evangelho sobre o fim do mundo. O que fazer?

Em segundo lugar, certamente é impressionante a linguagem com a que Jesus descreve hoje o final da história. É uma linguagem pega do gênero literário “apocalíptico” e “escatológico”, com a que tanto os profetas do Antigo Testamento como em geral a literatura rabínica da época descrevem o futuro e a chegada do “dia do Senhor”. Esta descrição, nos lábios de Jesus, não quer ser angustiosa, mas precisamente o contrário, esperançosa, porque imediatamente diz que veremos “vir o Filho do Homem sobre as nuvens (símbolo da divindade) com grande poder e majestade”, e Ele vem para salvar. Se formos sinceros, temos que dizer que ninguém, nem sequer a Igreja, soube explicar o sentido destes discursos escatológicos. Grupos religiosos aproveitam estes discursos para obcecar os seus adeptos, inclinados ao fanatismo (adventistas, testemunhas de Jeová) e circulam de casa em casa infundindo temor com o anúncio do iminente fim do mundo. O que fazer?

Finalmente, se quisermos resumir a mensagem deste domingo, poderia ficar assim: o Senhor veio uma primeira vez –em Belém- e virá uma segunda vez no futuro. A segunda vinda não deve de infundir medo em nós; ela é uma promessa, não uma ameaça. É a promessa da que se nutre toda a experiência cristã. Isso explica aquele fato singular que se nota na Igreja primitiva: os cristãos de então, depois de ter escutado estes discursos que também nós escutamos hoje, começavam a rezar e a invocar tranquilamente: “Maranata: Vem, Senhor Jesus!”. O que fazer? Não esquecer nunca que a nossa vida é uma peregrinação. Quem peregrina tem sempre em conta, não só aonde vai, mas também aonde se dirige, qual é a meta da sua viagem. Do mesmo jeito que um esportista olha desde o começo a meta, ou o estudante que mira à prova final. O que fazer? Se a nossa meta é o céu e a companhia com Deus e com os santos, então temos que vigiar seriamente os nossos passos, os nossos pensamentos, os nossos afetos, para não perder o rumo do caminho. Devemos ter tudo preparado para que o Senhor nos encontre dignos de ser admitidos no seu Reino. Devemos olhar com respeito e com confiança esse Cristo glorioso que vem para julgar todos. Esse juiz é o mesmo em quem cremos, quem escutamos na proclamação do evangelho, quem tentamos seguir, quem recebemos na Eucaristia. Estas leituras não querem nos encher de angústia, mas estão anunciando para nós a vitória e a salvação.  

Para refletir: meditemos estas palavras de São Francisco de Sales: “viver cada dia da nossa vida como se fosse o último dia da nossa vida na terra”. Vivemos desse jeito? Ou evadimos pensar nessa realidade, tão certa como segura, do final da nossa existência – vamos morrer- ou do final dos tempos, – Cristo virá-? Ou talvez pensamos que logo ajeitaremos as coisas, enquanto o melhor que podemos fazer é gozar e viver do jeito que quisermos? Aqui está em jogo nada mais e nada menos que o nosso destino para toda a eternidade!

Para rezar: Façamos esta oração que nos diz São Paulo: “que o Senhor conserve os nossos corações irrepreensíveis na santidade diante de Deus, nosso Pai, até o dia em que venha o nosso Senhor Jesus em companhia de todos os seus santos” (1 Ts 3, 12-4.2). Ou o que nos diz Lucas: “Velem e rezem continuamente, para que possam escapar de tudo que vai acontecer e assim comparecer seguros diante do Filho do Homem” (21,36).

Qualquer sugestão ou dúvida podem se comunicar com o padre Antonio neste e-mail: arivero@legionaries.org

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Sábado XXXII do Tempo Comum

Sta Isabel da Hungria, viúva

Evangelho (Lc 18,1-8): Jesus contou aos discípulos uma parábola, para mostrar-lhes a necessidade de orar sempre, sem nunca desistir: «Numa cidade havia um juiz que não temia a Deus, nem respeitava homem algum. Na mesma cidade havia uma viúva, que vinha à procura do juiz, e lhe pedia: Fazei-me justiça contra o meu adversário! Durante muito tempo, o juiz se recusou. Por fim, ele pensou: Não temo a Deus e não respeito ninguém. Mas esta viúva já está me importunando. Vou fazer-lhe justiça, para que ela não venha, por fim, a me agredir!». E o Senhor acrescentou: «Escutai bem o que diz esse juiz iníquo! E Deus, não fará justiça aos seus escolhidos, que dia e noite gritam por ele? Será que vai fazê-los esperar? Eu vos digo que Deus lhes fará justiça bem depressa. Mas o Filho do Homem, quando vier, será que vai encontrar fé sobre a terra?».

«A necessidade de orar sempre, sem nunca desistir»

+ Rev. D. Joan FARRÉS i Llarisó (Rubí, Barcelona, Espanha)

Hoje, nos últimos dias do tempo litúrgico, Jesus exorta-nos a orar, a dirigir-nos a Deus. Podemos pensar como aqueles pais e mães de família que esperam todos os dias!- que os seus filhos lhes digam algo, que lhes demonstrem o seu afeto amoroso.

Deus, que é Pai de todos, também o espera, Jesus nos o diz muitas vezes no Evangelho, e sabemos que falar com Deus é fazer oração. A oração é a voz da fé, da nossa crença nele, também da nossa confiança, e tomara fosse sempre manifestação do nosso amor.

Para que a nossa oração seja perseverante e confiada, diz São Lucas, que «Jesus contou aos discípulos uma parábola, para mostrar-lhes a necessidade de orar sempre, sem nunca desistir» (Lc 18,1). Sabemos que a oração se pode fazer louvando o Senhor ou dando graças, ou reconhecendo a própria debilidade humana - o pecado-, implorando a misericórdia de Deus, mas na maioria das vezes será pedindo alguma graça ou favor. E, mesmo que no momento não se consiga o que se pede, só o fato de se poder dirigir a Deus, o fato de poder contar a esse Alguém a pena ou a preocupação, já é a obtenção de algo, e seguramente, mesmo que não de imediato, mas no tempo, obterá resposta, porque «Deus, não fará justiça aos seus escolhidos, que dia e noite gritam por ele? (Lc 18,7).

São João Clímaco, a propósito desta parábola evangélica, diz que «aquele juiz que não temia a Deus, cede frente à insistência da viúva para não ter mais o peso de ouvi-la. Deus fará justiça à alma, viúva dele pelo pecado, frente ao Corpo, o seu primeiro inimigo, e frente aos demônios, os seus adversários invisíveis. O Divino Comerciante saberá intercambiar bem as nossas boas mercadorias, pôr à disposição os seus grandes bens com amorosa solicitude e estar pronto para acolher as nossas súplicas».

Perseverança na oração, confiança em Deus. Dizia Tertuliano que «só a oração vence a Deus».

Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm.

* O Evangelho de hoje traz outro assunto muito caro a Lucas, a saber, a oração. É a segunda vez que Lucas traz palavras de Jesus para ensinar como rezar. Na primeira vez (Lc 11,1-13), ensinou o Pai-Nosso e, por meio de comparações e parábolas, ensinou que devemos rezar com insistência sem esmorecer. Agora, nesta segunda vez (Lc 18,1-8), ele recorre novamente a uma parábola tirada da vida para ensinar a insistência na oração. É a parábola da viúva que incômoda o juiz sem moral.  A maneira de apresentar a parábola é muito didática. Primeiro, Lucas dá uma breve introdução que serve como chave de leitura. Em seguida, Jesus conta a parábola. No fim, o próprio Jesus faz a aplicação.

* Lucas 18,1: A introdução
Lucas introduz a parábola com a seguinte frase: "Contou-lhes ainda uma parábola para mostrar a necessidade de orar sempre, sem jamais desanimar". A recomendação para “orar sem desanimar” aparece muitas vezes no Novo Testamento (1 Tes 5,17; Rm 12,12; Ef 6,18; etc). Este é um traço característico da espiritualidade das primeiras comunidades cristãs.

* Lucas 18,2-5: A parábola
Em seguida, Jesus traz dois personagens da vida real: um juiz sem consideração por Deus e sem consideração para com as pessoas, e uma viúva que luta pelos seus direitos junto do juiz. O simples fato de Jesus trazer estes dois personagens revela a consciência crítica que ele tinha da sociedade do seu tempo. A parábola apresenta o povo pobre lutando no tribunal pelos seus direitos. O juiz resolve atender à viúva e fazer-lhe justiça. O motivo é este: ficar livre da chateação da viúva e não ser esbofeteado por ela. Motivo bem interesseiro. Mas a viúva conseguiu o que ela queria! Este é o fato da vida diária, usado por Jesus para ensinar como rezar.

* Lucas 18,6-8: A aplicação
Jesus aplica a parábola: "Escutem o que está dizendo esse juiz injusto. E Deus não faria justiça aos seus escolhidos, que dia e noite gritam por ele? Será que vai fazê-los esperar? Eu lhes declaro que Deus fará justiça para eles, e bem depressa”. Se não fosse Jesus, nós não teríamos tido a coragem de comparar Deus com um Juiz ateu sem moral! No fim, Jesus expressa uma dúvida: "Mas, o Filho do Homem, quando vier, será que vai encontrar a fé sobre a terra?" Ou seja, será que vamos ter a coragem de esperar, de ter paciência, mesmo que Deus demore em atender?

* Jesus orante. Os primeiros cristãos conservaram uma imagem de Jesus orante, em contato permanente com o Pai. De fato, a respiração da vida de Jesus era fazer a vontade do Pai (Jo 5,19). Jesus rezava muito e insistia, para que o povo e seus discípulos também rezassem. Pois é no confronto com Deus, que a verdade aparece e que a pessoa se encontra consigo mesma em toda a sua realidade e humildade.  Lucas é o evangelista que mais nos informa sobre a vida de oração de Jesus. Ele apresenta Jesus em constante oração. Eis alguns dos momentos em que Jesus aparece rezando. Você pode completar a lista:
* Aos doze anos de idade, ele vai ao Templo, na Casa do Pai (Lc 2,46-50).
* Na hora de ser batizado e de assumir a missão, ele reza (Lc 3,21).
* Na hora de iniciar a missão, passa quarenta dias no deserto (Lc 4,1-2).
* Na hora da tentação, ele enfrenta o diabo com textos da Escritura (Lc 4,3-12).
* Jesus tem o costume de participar das celebrações nas sinagogas aos sábados (Lc 4,16)
* Procura a solidão do deserto para rezar (Lc 5,16; 9,18).
* Na véspera de escolher os doze Apóstolos, passa a noite em oração (Lc 6,12).
* Reza antes das refeições (Lc 9,16; 24,30).
* Na hora de fazer levantamento da realidade e de falar da sua paixão, ele reza (Lc 9,18).
* Na crise, sobe o Monte para rezar e é transfigurado enquanto reza (Lc 9,28).
* Diante da revelação do Evangelho aos pequenos, ele diz: “Pai eu te agradeço!” (Lc 10,21)
* Rezando, desperta nos apóstolos vontade de rezar (Lc 11,1).
* Rezou por Pedro para ele não desfalecer na fé (Lc 22,32).
* Celebra a Ceia Pascal com seus discípulos (Lc 22,7-14).
* No Horto das Oliveiras, ele reza, mesmo suando sangue (Lc 22,41-42).
* Na angústia da agonia pede aos amigos para rezar com ele (Lc 22,40.46).
* Na hora de ser pregado na cruz, pede perdão pelos carrascos (Lc 23,34).
* Na hora da morte, ele diz: "Em tuas mãos entrego meu espírito!" (Lc 23,46; Sl 31,6)
* Jesus morre soltando o grito do pobre (Lc 23,46).
* Esta longa lista mostra o seguinte. Para Jesus, a oração estava intimamente ligada à vida, aos fatos concretos, às decisões que devia tomar. Para poder ser fiel ao projeto do Pai, ele buscava ficar a sós com ele. Escutá-lo. Nos momentos difíceis e decisivos de sua vida, Jesus rezava os Salmos. Como todo judeu piedoso, conhecia-os de memória. A recitação dos Salmos não matou nele a criatividade. Pelo contrário. Jesus chegou a fazer um salmo que ele transmitiu para nós. É o Pai Nosso. Sua vida era uma oração permanente: "Eu a cada momento faço o que o Pai me mostra para fazer!" (Jo 5,19.30) A ele se aplica o que diz o Salmo: "Eu sou oração!" (Sl 109,4)

Para um confronto pessoal
1. Tem gente que diz que não sabe rezar, mas conversa com Deus o dia todo. Você conhece pessoas assim? Conte. Há muitas maneiras do povo hoje expressar a sua devoção e oração. Quais?
2. O que estas duas parábolas nos ensinam sobre a oração? O que elas nos ensinam sobre a maneira de ver a vida e as pessoas?

16 de novembro


Beato Luis Morbioli,
Terceiro carmelita, penitente (1433-1485)

Luis passou quase toda a sua vida em Bolonha onde nasceu em 1433. Até aos 30 anos foi grande jogador e bebedor, muito licencioso - mesmo após o seu casamento - e a sua "liberdade de vida" escandalizava a muitos. Uma doença séria fê-lo pensar e levou-o a converter-se radicalmente. Separou-se da sua mulher, vestiu-se de uma roupa de penitência e começou a percorrer a cidade, praticando rudes austeridades e convidando os seus concidadãos a pensar na morte e no seu encontro eterno com Deus, pregando o arrependimento, a penitência e mortificação. Tornou-se terceiro carmelita, ocupou-se do ensino dos jovens e distribuiu aos pobres tudo o que recebeu em esmolas. Morreu em Bolonha em 9 de novembro de 1485 e foi enterrado na catedral de são Pedro de Bolonha. Martirológio Romano diz: deixando o caminho dos vícios, voltou-se -se para Deus, escolheu uma vida muito dura de penitente e levou os seus concidadãos à piedade com a sua palavra e o seu exemplo. O seu culto começou imediatamente após a sua morte devido à devoção popular de que estava rodeado em Bolonha e foi confirmado em 1842.

Oração
Deus de misericórdia, que nos fortaleceis com o exemplo e a proteção dos vossos Santos para avançarmos no caminho da salvação, humildemente Vos pedimos que, celebrando a memória do Beato Luís Morbioli, imitemos a sua vida de contrição e penitência para chegarmos à glória do vosso reino. Por Nosso Senhor...

Sexta-feira da 32ª semana do Tempo Comum


Bto Luís Morbioli, penitente.
Terceiro Carmelita
Evangelho (Lc 17,26-37): «Como aconteceu nos dias de Noé, assim também acontecerá nos dias do Filho do Homem. Comiam, bebiam, homens e mulheres casavam-se, até ao dia em que Noé entrou na arca. Então chegou o dilúvio e fez morrer todos. Acontecerá como nos dias de Ló: comiam e bebiam, compravam e vendiam, plantavam e construíam. Mas no dia em que Ló saiu de Sodoma, Deus fez chover fogo e enxofre do céu e fez morrer todos. O mesmo acontecerá no dia em que se manifestar o Filho do Homem.  Naquele dia, quem estiver no terraço não entre para apanhar objeto algum em sua casa. E quem estiver no campo não volte atrás. Lembrai-vos da mulher de Ló! Quem procurar salvar a vida, vai perdê-la; e quem a perder, vai salvá-la. Eu vos digo: naquela noite, dois estarão na mesma cama; um será tomado e o outro será deixado. Duas mulheres estarão juntas; uma será tomada e a outra será deixada». Os discípulos perguntaram: «Senhor, onde acontecerá isto?». Ele respondeu: «Onde estiver o cadáver, aí se ajuntarão os abutres».

«Quem procurar salvar a vida, vai perdê-la; e quem a perder, vai salvá-la»

Rev. D. Enric PRAT i Jordana (Sort, Lleida, Espanha)

Sta Gertrudes Magna, Virgem
Hoje, no contexto predominante de uma cultura materialista, muitos agem como nos tempos de Noé: «Comiam, bebiam, homens e mulheres casavam-se» (Lc 17,27); acontecerá como nos dias de Ló: Comiam e bebiam, compravam e vendiam, plantavam e construíam» (Lc 17,28). Com uma visão tão míope, a aspiração suprema de muitos se reduz a sua própria vida física temporal e, em consequência, todo seu esforço orienta-se a conservar essa vida, a protegê e enriquecê-la.

No fragmento do Evangelho que estamos comentando, Jesus quer sair ao passo dessa concepção fragmentária da vida que mutila ao ser humano e o leva à frustração. E o faz mediante uma sentença séria e contundente, capaz de remover as consciências e de obrigar a fazer perguntas fundamentais: «Quem procurar salvar a vida, vai perdê-la; e quem a perder, vai salvá-la». (Lc 17,33). Meditando sobre este ensino de Jesus Cristo, diz São Agostinho: «Que dizer, então? Pereceram todos os que fazem essas coisas, isto é, quem se casa, plantam videiras e edificam? Não eles, senão quem presumem dessas coisas, quem antepõem essas coisas a Deus, quem estão dispostos a ofender a Deus ao instante por essas coisas».

De fato, quem perde a vida por conservá-la senão aquele que viveu exclusivamente na carne, sem deixar aflorar o espírito; ou ainda mais, aquele que vive ensimesmado, ignorando por completo aos demais? Porque é evidente que a vida na carne se perde necessariamente e, que a vida no espírito, se não se compartilha, debilita-se.

Toda a vida, por ela mesma, tende naturalmente ao crescimento, à exuberância, à frutificação e a reprodução. Pelo contrário, se é sequestrada e encerrada no intento d
e apodera-se afanosa e exclusivamente, murcha-se, esteriliza-se e morre. Por esse motivo, todos os santos, tomando como modelo a Jesus, que viveu intensamente para Deus e para os homens, deram generosamente sua vida de multiformes maneiras ao serviço de Deus e de seus semelhantes.

Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm.

* O evangelho de hoje continua a reflexão sobre a chegada do fim dos tempos e traz palavras de Jesus sobre como preparar-se para a chegada do Reino. Era um assunto quente que, naquele tempo, provocava muita discussão. Quem determina a hora da chegada do fim é Deus. Mas o tempo de Deus (kairós) não se mede pelo tempo do nosso relógio (chronos). Para Deus, um dia pode ser igual a mil anos, e mil anos igual a um dia (Sl 90,4; 2Pd 3,8). O tempo de Deus corre invisível dentro do nosso tempo, mas independente de nós e do nosso tempo. Nós não podemos interferir no tempo, mas devemos estar preparados para o momento em que a hora de Deus se fizer presente dentro do nosso tempo. Pode ser hoje, pode ser daqui a mil anos. O que dá segurança, não é saber a hora do fim do mundo, mas sim a certeza da presença da Palavra de Jesus presente na vida. O mundo passará, mas a palavra dele jamais passará (cf Is 40,7-8).

* Lucas 17,26-29: Como nos dias de Noé e de Ló
A vida corre normalmente: comer, beber, casar, comprar, vender, plantar, colher. A rotina pode envolver-nos de tal modo que já não conseguimos pensar em outra coisa, em mais nada. E o consumismo do sistema neoliberal contribui para aumentar em muitos de nós esta total desatenção à dimensão mais profunda da vida. Deixamos o cupim entrar na viga da fé que sustenta o telhado da nossa vida. Quando tempestade derrubar a casa, muitos dão a culpa ao carpinteiro: “Mau serviço!” Na realidade, a causa da queda foi a nossa desatenção prolongada. A alusão à destruição de Sodoma como figura do que vai acontecer no fim dos tempos, é uma alusão à destruição de Jerusalém pelos romanos no ano 70 dC (cf Mc 13,14).

* Lucas 17,30-32: Assim será nos dias do Filho do Homem
“O mesmo acontecerá no dia em que o Filho do Homem for revelado”. Difícil para nós imaginar o sofrimento e o trauma que a destruição de Jerusalém causou nas comunidades, tanto dos judeus como dos cristãos. Para ajudá-las a entender e a enfrentar o sofrimento, Jesus usa comparações tiradas da vida: “Nesse dia, quem estiver no terraço, não desça para apanhar os bens que estão em casa, e quem estiver nos campos não volte para trás”. A destruição virá com tal rapidez que não vale a pena descer para casa para buscar alguma coisa dentro da casa (Mc 13,15-16). “Lembrem-se da mulher de Ló” (cf. Gn 19,26), isto é, não olhem para trás, não percam tempo, tomem a decisão e vão em frente: é questão de vida ou de morte.

* Lucas 17,33: Perder a vidas para ganhá-la
“Quem procura ganhar a sua vida, vai perdê-la; e quem a perde, vai conservá-la”. Só se sente realizada na vida a pessoa que for capaz de doar-se inteiramente pelos outros. Perde a vida quem quer conservá-la só para si. Este conselho de Jesus é a confirmação da mais profunda experiência humana: a fonte da vida está na doação da vida. É dando que se recebe. “Eu garanto a vocês: se o grão de trigo não cai na terra e não morre, fica sozinho. Mas se morre, produz muito fruto” (Jo 12,24). Importante é a motivação que o Evangelho de Marcos acrescenta: “Por causa de mim e por causa do Evangelho” (Mc 8,35). Dizendo que ninguém é capaz de conservar sua vida com seu próprio esforço, Jesus evoca o salmo onde se diz que ninguém é capaz de pagar o preço do resgate da vida: “O homem não pode comprar seu próprio resgate, nem pagar a Deus o preço de si mesmo. É tão caro o resgate da vida, que nunca bastará para ele viver perpetuamente, sem nunca ver a cova”.  (Sl 49,8-10).

*  Lucas 17,34-36: Vigilância
“Eu digo a vocês: nessa noite, dois estarão numa cama. Um será tomado, e o outro será deixado. Duas mulheres estarão moendo juntas. Uma será tomada, e a outra deixada. Dois homens estarão no campo. Um será levado, e o outro será deixado". Evoca a parábola das dez moças. Cinco eram prudentes e cinco eram bobas (Mt 25,1-11). O que importa é estar preparado. As palavras “Um será tomado, e o outro será deixado” evocam as palavras de Paulo aos Tessalonicenses (1Tes 4,13-17), quando diz que, na vinda do Filho do homem, seremos arrebatados ao céu junto com Jesus. Estas palavras “deixados para trás” forneceram o título para um terrível e perigoso romance da extrema direita fundamentalista dos Estados Unidos: “Lefted behind!” Este romance não nada tem a ver com o sentido real das palavras de Jesus.

* Lucas 17,37: Onde e quando?
“Os discípulos perguntaram: "Senhor, onde acontecerá isso?”Jesus respondeu: "Onde estiver o corpo, aí se reunirão os urubus". Resposta enigmática. Alguns acham que Jesus evoca a profecia de Ezequiel, retomada no Apocalipse, na qual o profeta se refere à batalha vitoriosa final contra os poderes do mal. As aves de rapina ou os urubus serão convidadas para comer a carne dos cadáveres (Ez 39,4.17-20; Ap 19,17-18). Outros acham que se trata do vale de Josafá, onde será realizado o juízo final conforme a profecia de Joel (Joel 4,2.12). Outros ainda acham que se trata simplesmente de um provérbio popular que significava mais ou menos o mesmo que diz o nosso provérbio: “Onde tem fumaça, tem fogo!”

Para um confronto pessoal
1) Sou dos tempos de Noé e de Ló?
2) Romance da extrema direita. Como me situa diante desta manipulação política da fé em Jesus?