sábado, 8 de agosto de 2020

10 de agosto: São Lourenço, diácono e mártir

 

1ª Leitura (2Cor 9,6-10): Quem semeia pouco também colherá pouco e quem semeia abundantemente também colherá abundantemente. Dê cada um segundo o impulso do seu coração, sem tristeza nem constrangimento, porque Deus ama aquele que dá com alegria. E Deus é poderoso para vos cumular de todas as graças, de modo que, tendo sempre e em tudo o necessário, vos fique ainda muito para toda a espécie de boas obras, como está escrito: «Repartiu com largueza pelos pobres; a sua justiça permanece para sempre». Aquele que dá a semente ao semeador e o pão para alimento também vos dará a semente em abundância e multiplicará os frutos da vossa justiça.

Salmo Responsorial: 111

R. Ditoso o homem de coração bondoso e compassivo.

Feliz o homem que teme o Senhor e ama ardentemente os seus preceitos. A sua descendência será poderosa sobre a terra, será abençoada a geração dos justos.

Ditoso o homem que se compadece e empresta e dispõe das suas coisas com justiça. Este jamais será abalado; o justo deixará memória eterna.

Ele não receia más notícias, seu coração está firme, confiado no Senhor, O seu coração é inabalável, nada teme e verá os adversários confundidos.

Reparte com largueza pelos pobres, a sua generosidade permanece para sempre e pode levantar a cabeça com dignidade.

Aleluia. Quem Me segue não anda nas trevas, mas terá a luz da vida, diz o Senhor. Aleluia.

Evangelho (Jo 12,24-26): Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: «Em verdade, em verdade, vos digo: se o grão de trigo que cai na terra não morre, fica só. Mas, se morre, produz muito fruto. Quem se apega à sua vida, perde-a; mas quem não faz conta de sua vida neste mundo, há de guardá-la para a vida eterna. Se alguém quer me servir, siga-me, e onde eu estiver, estará também aquele que me serve. Se alguém me serve, meu Pai o honrará».

«Se alguém quer me servir, siga-me, e onde eu estiver, estará também aquele que me serve»

Rev. D. Antoni CAROL i Hostench (Sant Cugat del Vallès, Barcelona, Espanha)

Hoje, a Igreja por meio da Liturgia Eucarística que celebra o mártir romano São Lourenço nos lembra que «Existe um testemunho de coerência que todos os cristãos devem estar dispostos a dar cada dia, inclusive à custa de sofrimentos e de grandes sacrifícios» (S. João Paulo II).

A Lei Moral é santa e inviolável. Esta afirmação, certamente, contrasta com o ambiente relativista que impera em nossos dias, onde com facilidade cada um adapta as exigências éticas à própria comodidade pessoal ou às suas próprias debilidades. Não encontraremos ninguém que diga: Eu sou imoral; Eu sou um inconsciente; Eu sou uma pessoa sem verdade... Qualquer pessoa que dissesse isso se desqualificaria a si mesma imediatamente.

Mas a pergunta relevante seria: de que moral, de que consciência e de que verdade estamos falando? É evidente que a paz e a sadia convivência sociais não se podem basear em uma moral à la carte, onde cada um tira conforme lhe pareça, sem levar em conta as inclinações e as aspirações que o Criador dispôs para nossa natureza. Esta moral, longe de nos conduzir por «caminhos seguros» para os «verdes prados» que o Bom Pastor deseja para nós (cf. Sal 23, 1-3), nos levaria irremediavelmente às areias movediças do relativismo moral, onde absolutamente tudo se pode pactuar e justificar.

Os mártires são testemunhas inapeláveis da santidade da lei moral: há exigências de amor básicas que não admitem nunca exceções nem adaptações. De fato, «Na Nova Aliança encontram-se numerosas testemunhas de seguidores de Cristo que (...) aceitaram as perseguições e a morte antes de fazer o gesto idólatra de queimar incenso diante a estátua do Imperador (S. João Paulo II).

No ambiente da Roma do imperador Valeriano, o diácono «São Lourenço amou a Cristo na vida, imitou a Cristo na morte» (Santo Agostinho). E, uma vez mais, cumpriu-se que «quem não faz conta de sua vida neste mundo, há de guardá-la para a vida eterna» (Jo 12, 25). Felizmente para nós, a memória de São Lourenço, ficará para sempre, como sinal de que o seguimento de Cristo merece que se dê a própria vida e, não admitir frívolas interpretações do seu caminho.

A Glorificação do Filho do Homem

Frei Carlos Mesters

A condição da glorificação é ilustrada no grão de trigo, que caindo na terra e morrendo, germinará para a vida produzindo muito fruto. É a vitória da vida sobre a morte, porque é a própria vida que nasce da morte. A imagem do grão de trigo é encontrada também na Parábola do Semeador narrada pelo próprio Jesus, conforme consta no evangelho de Mateus 13:1-23, mas é importante acentuar a diferença entre as duas imagens. Na parábola do Semeador a semente é a palavra do Cristo, e no evangelho de João refere-se à "Hora da Glorificação", isto é, o grão de trigo que cairá na terra é o próprio Cristo que precisa morrer, pois não há ressurreição sem morte.

Jesus simboliza na expressão “Quem ama a sua vida, perdê-la-á” como a procura ansiosa dos gozos que a matéria oferece e que desviam por completo o homem da espiritualidade. Ao acumular fortuna e gozar a vida, o homem se esquece de cuidar da parte divina que possui. Os gozos imorais, os vícios, a dedicação às coisas materiais como única finalidade da vida, perdem a alma, porque a fazem recair nos círculos das reencarnações dolorosas, até que o sofrimento a depure e desperte nela o desejo de trabalhar para sua elevação espiritual, e de outra forma: Quem neste mundo odeia a sua vida, guardá-la-á para a vida eterna é a luta do ser por espiritualizar-se, seguindo os preceitos evangélicos. Neste caso, o que se perde das coisas do mundo, ganha-se em espiritualidade. E quem procura espiritualizar-se, enriquece sua alma com as virtudes que a levarão à ascensão.

Para que possamos crescer e produzir maravilhosos frutos de altruísmo, se faz necessário que seja rompida a casca grossa do personalismo egoísta que nos envolve. Para consegui-lo, um só meio existe: seguir o exemplo do Mestre incomparável, entregando-nos a uma vivência de abnegação, exercitando-nos nas tarefas de auxílio ao próximo. Amando e servindo nossos irmãos em humanidade, estaremos amando e servindo ao Cristo, pois, conforme sua afirmação, cada vez que assistimos a um desses pequeninos é a ele próprio que o fazemos. Empenhando-nos nesse trabalho com perseverança, embora o mundo o ignore ou não lhe reconheça os méritos, no devido tempo o Pai celestial o honrará.

Neste Evangelho, Jesus se apresenta como o Messias predito pelas Escrituras, mostrando sua verdadeira missão. Que para servi-lo, devemos glorificá-lo e seguir os seus preceitos.

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

XIX Domingo do Tempo Comum

SANTA TERESA BENEDITA DA CRUZ.

I Leitura (1 Reis 19,9a.11-13ª):  Naqueles dias, o profeta Elias chegou ao monte de Deus, o Horeb, e passou a noite numa gruta. O Senhor dirigiu-lhe a palavra, dizendo: «Sai e permanece no monte à espera do Senhor». Então, o Senhor passou. Diante d’Ele, uma forte rajada de vento fendia as montanhas e quebrava os rochedos; mas o Senhor não estava no vento. Depois do vento, sentiu-se um terramoto; mas o Senhor não estava no terramoto. Depois do terramoto, acendeu-se um fogo; mas o Senhor não estava no fogo. Depois do fogo, ouviu-se uma ligeira brisa. Quando o ouviu, Elias cobriu o rosto com o manto, saiu e ficou à entrada da gruta.

Salmo Responsorial – Salmo 84 (85)

R. Mostrai-nos, Senhor, o vosso amor e dai-nos a vossa salvação.

- Deus fala de paz ao seu povo e aos seus fiéis e a quantos de coração a Ele se convertem.

A sua salvação está perto dos que O temem e a sua glória habitará na nossa terra.

- Encontraram-se a misericórdia e a fidelidade, abraçaram-se a paz e a justiça.

A fidelidade vai germinar da terra e a justiça descerá do Céu.

- O Senhor dará ainda o que é bom e a nossa terra produzirá os seus frutos.

A justiça caminhará à sua frente e a paz seguirá os seus passos.

II Leitura (Rom 9,1-5):  Irmãos: Eu digo a verdade, não minto, e disso me dá testemunho a consciência no Espírito Santo: Sinto uma grande tristeza e uma dor contínua no meu coração. Quisera eu próprio ser separado de Cristo por amor dos meus irmãos, que são do mesmo sangue que eu, que são israelitas, a quem pertencem a adoção filial, a glória, as alianças, a legislação, o culto e as promessas, a quem pertencem os Patriarcas e de quem procede Cristo segundo a carne, Ele que está acima de todas as coisas, Deus bendito por todos os séculos. Amém.

Aleluia. Eu confio no Senhor, a minha alma espera na sua palavra. Aleluia.

Evangelho (Mt 14,22-33): Logo em seguida, Jesus mandou que os discípulos entrassem no barco e fossem adiante dele para o outro lado do mar, enquanto ele despediria as multidões. Depois de despedi-las, subiu à montanha, a sós, para orar. Anoiteceu, e Jesus continuava lá, sozinho. O barco, entretanto, já longe da terra, era atormentado pelas ondas, pois o vento era contrário. Nas últimas horas da noite, Jesus veio até os discípulos, andando sobre o mar. Quando os discípulos o viram andando sobre o mar, ficaram apavorados e disseram: «É um fantasma». E gritaram de medo. Mas Jesus logo lhes falou: «Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!». Então Pedro lhe disse: «Senhor, se és tu, manda-me ir ao teu encontro, caminhando sobre a água». Ele respondeu: «Vem!». Pedro desceu do barco e começou a andar sobre a água, em direção a Jesus. Mas, sentindo o vento, ficou com medo e, começando a afundar, gritou: «Senhor, salva-me!». Jesus logo estendeu a mão, segurou-o e lhe disse: «Homem de pouca fé, por que duvidaste?». Assim que subiram no barco, o vento cessou. Os que estavam no barco ajoelharam-se diante dele, dizendo: «Verdadeiramente, tu és o Filho de Deus!».

«Começando a afundar, gritou: Senhor, salva-me!»

Rev. D. Joaquim MESEGUER García (Rubí, Barcelona, Espanha)

Hoje, a experiência de Pedro reflexa situações que nós também experimentamos alguma vez. Quem não viu fazer águas os seus projetos e não experimentou a tentação do desânimo ou da desesperação? Em circunstâncias assim, devemos reavivar a fé e dizer como o salmista: «Mostra-nos, Senhor, a tua misericórdia e dá-nos a tua salvação» (Sal 85,8).

Para a mentalidade antiga, o mar era o lugar onde habitavam as feras do mal, o reino da morte, ameaçador para o homem. Ao “caminhar sobre a água” (cf. Mt 14,25), Jesus indica-nos que com a sua morte e ressurreição triunfa sobre o poder do mal e da morte, que nos ameaça e procura destroçar-nos. Nossa existência, não é também como uma frágil embarcação, sacudida pelas ondas que atravessa o mar da vida e que espera chegar a uma meta que tenha sentido?

Pedro creia ter uma fé clara e uma força muito consistente, mas «começando a afundar» (Mt 14,30); Pedro havia assegurado a Jesus que estava disposto a segui-lo até à morrer, mas a sua debilidade o acobardou e negou o Mestre nos feitos da Paixão. Porque Pedro afunda-se justamente quando começa a caminhar sobre a água? Porque, em vez de olhar a Jesus Cristo, olha ao mar e isso lhe fez perder a força e a partir desse instante, a sua confiança no Senhor diminuiu e os pés não lhe responderam. Mas, Jesus «estendeu a mão [e] segurou-o» (Mt 14,31) e salvou-o.

Depois da sua ressurreição, o Senhor não permite que o seu apóstolo afunde no remorso e na desesperação e lhe devolve a confiança com o seu generoso perdão. A quem eu enxergo no combate da vida? Quando noto que o peso dos meus pecados e erros me arrastam e me afundam, deixo que o bom Jesus estenda a sua mão e me salve?

A barca sacudida pelas ondas porque o vento era contrário.

Pe. Antônio Rivero, L.C.

Este é um dos episódios evangélicos que melhor ilustra, por uma parte, a situação da comunidade cristã (a de Mateus e a de todos os tempos) no seu caminho histórico em meio da dificuldade e da tribulação; e por outra, a presença permanente do Senhor ressuscitado na barca de Pedro.

Em primeiro lugar, de que barca se trata? A barca golpeada pelas ondas e pelo vento são bom símbolo de muitas situações pessoais e comunitárias que se repetem na história e na nossa vida. E se trata de ventos fortes. Não só alísios –ventos suaves, regulares, não violentos-, mas monções –quentes com chuvas-, e gélidos e mortais. Elias, depois de muito sucesso contra os profetas e os sacerdotes de Baal, fugiu para o deserto perseguido de morte pela rainha Jezabel. Perdeu a paciência. Já não queria ser profeta. Tudo eram decepções. Para que continuar? Do mesmo modo, vemos o caso de Pedro no Evangelho: sua barca, símbolo da Igreja, cujo primeiro piloto seria ele mesmo, encontra-se em situação comprometida. Parece que vai afundar. Não vai dar pé. Vinte e um séculos de tempestades e ondas encrespadas contra a barca de Pedro, começando com as perseguições romanas, passando pelas heresias e cismas, e hoje por tanta confusão doutrinal, que querem fazer naufragar esta barca em matéria, moral, matrimonial, litúrgica e exegética.

Em segundo lugar, que Pedro e seus companheiros fazem? O medo se apodera deles. Pedro não teme afundar, mas afunda porque teme. A dúvida faz com que perca a segurança e começa a afundar. Mateus quer mostrar o itinerário espiritual do primeiro apóstolo: quando Jesus se apresenta, então ele o reconhece; solicita seu chamado e o segue com confiante audácia. Titubeia, falha na hora do perigo, mas Jesus o salva. Figura exemplar para a Igreja. A comunidade em meio da tormenta se esquece do Jesus da solidariedade e o vê como um fantasma se aproximando na escuridão. Quer ir até Ele, mas se deixa amedrontar pelas forças adversas. O Evangelho nos convida a fazer uma experiência total de Jesus, rompendo nossos prejuízos e nossas seguranças. Devemos deixar que Jesus nos fale através do livro da Bíblia, da Tradição da Igreja e do Magistério, e do livro da vida. Cristo nos convida a não duvidar, pois Ele está na barca. Ele nos diz: “Coragem, sou eu, não tenhais medo”.

Finalmente, que devemos fazer quando parece que nos afogamos num copo d’água? Entre o temor e a esperança, devemos desejar a presença do Senhor. Resignar-se à ausência não é bom sinal para a fé. A fé gera confiança e esta se manifesta na ousadia que vence o medo. Afundamos quando nos apoiamos só em nossas forças ou razões. Não são nosso próprio poder e saber o que nos mantém de pé, mas é a força do Senhor. A autoestima é boa conquanto não degenere na autossuficiência. Não nos cansemos de confessar em nossa barca diariamente: “Realmente, tu és o Filho de Deus”. Este é o anúncio que deve se desprender de nossos lábios e de nossa vida.

Para refletir: quais ondas agitam a minha barca? Clamo a Jesus com a força da fé para que Ele me salve? Quantas vezes escutei de Cristo: “Homem de pouca fé”? Penso que minha vida cristã deve ser sempre um mar de rosas?

Você pode entrar em contato com o Pe. Antonio neste e-mail: arivero@legionaries.org

9 de agosto

Santa Teresa Benedita da Cruz

Virgem e Mártir de nossa Ordem

Edith Stein, filha de pais judaicos, nasceu em Breslau no dia 12 de outubro de 1891. Tendo-se dedicado aos estudos filosóficos, empenhou-se perseverantemente na procura da verdade, até que encontrou a fé em Deus e se converteu à Igreja Católica. Foi batizada no dia 1 de janeiro de 1922. Desde então serviu a Deus na função de professora e escritora. Agregada às irmãs carmelitas em 1933 com o nome Teresa Benedita da Cruz por ela escolhida, dedicou a sua vida ao serviço do povo judaico e do povo alemão. Deixando a Alemanha por causa da perseguição aos judeus, foi recebida a 31 de dezembro de 1938 no convento das carmelitas de Echt (Holanda). No dia 2 de agosto de 1942 foi presa pelas autoridades que exerciam o poder aterrador na Alemanha e enviada para o campo de concentração de Auschwitz-Birkenau (Polônia), destinado ao genocídio do povo judaico. Aí foi cruelmente morta no dia 9 de agosto.

Salmodia, leitura, responsório breve e preces do dia corrente.

Cântico evangélico (Benedictus)

Ant. Quem perder a vida neste mundo, conservá-la-á para a vida eterna.

Oração

Senhor, Deus dos nossos pais, que conduzistes a mártir Teresa Benedita ao conhecimento do vosso Filho crucificado e à sua imitação até à morte, concedei, pela sua intercessão, que todos os homens conheçam o Salvador, Jesus Cristo, e por Ele cheguem à perpétua visão do vosso rosto. Por Nosso Senhor.

Cântico evangélico (Magnificat)

Ant. Se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica só. Mas se morrer, dá muito fruto.

Omite-se esta Memória neste ano por cair na Páscoa Semanal.

quinta-feira, 6 de agosto de 2020

Sábado XVIII do Tempo Comum

São Domingos de Gusmão

1ª Leitura (Hab 1,12—2,4): Não sois Vós, Senhor, desde os tempos antigos, o meu Deus, o meu Santo, o Imortal? Estabelecestes os caldeus, Senhor, para exercerem a justiça e os consolidastes como um rochedo para castigarem. Os vossos olhos são demasiado puros para verem o mal e não podeis contemplar a opressão. Porque olhais então para os malvados, porque ficais em silêncio, quando o ímpio devora o justo? Tratareis os homens como os peixes do mar, ou como os répteis que não têm dono? O inimigo pesca-os a todos no anzol, apanha-os com a rede, recolhe-os com a tarrafa e assim fica alegre e satisfeito. Por isso oferece sacrifícios à sua rede e queima incenso à sua tarrafa, pois fez com elas uma pesca abundante e alcançou alimento com fartura. Continuará ele a utilizar a sua rede, matando os povos impiedosamente? Ficarei no meu posto de sentinela, conservar-me-ei de pé sobre a muralha, estarei alerta para ver o que o Senhor me dirá, como irá responder à minha queixa. Então o Senhor respondeu-me: «Põe por escrito esta visão e grava-a em tábuas com toda a clareza, de modo que a possam ler facilmente. Embora esta visão só se realize na devida altura, ela há de cumprir-se com certeza e não falhará. Se parece demorar, deves esperá-la, porque ela há de vir e não tardará. Vede como sucumbe aquele que não tem alma reta; mas o justo viverá pela sua fidelidade».

Salmo Responsorial: 9

R. Não abandonais, Senhor, aqueles que Vos procuram.

O Senhor é Rei para sempre, firmou o seu trono para julgar. Ele julga a terra com justiça, governa os povos com retidão.

O Senhor é o refúgio dos oprimidos, o seu refúgio nas horas de tribulação. Em Vós confiam os que conhecem o vosso nome, porque não abandonais, Senhor, os que Vos procuram.

Cantai ao Senhor, que tem em Sião a sua morada, anunciai entre os povos os seus feitos gloriosos. O Senhor lembra-Se do sangue derramado e não esquece o clamor dos infelizes.

Aleluia. Jesus Cristo, nosso Salvador, destruiu a morte e fez brilhar a vida por meio do Evangelho. Aleluia.

Evangelho (Mt 17,14-20): Naquele tempo, alguém aproximou-se de Jesus, caiu de joelhos e disse: «Senhor, tem compaixão do meu filho. Ele tem crises de epilepsia e passa mal. Muitas vezes cai no fogo ou na água. Levei-o aos teus discípulos, mas eles não conseguiram curá-lo!». Jesus tomou a palavra: «Ó geração sem fé e perversa! Até quando vou ficar convosco? Até quando vou suportar-vos? Trazei aqui o menino». Então Jesus repreendeu o demônio, e este saiu do menino, que ficou curado a partir dessa hora. Então, os discípulos aproximaram-se de Jesus e lhe perguntaram em particular: «Por que nós não conseguimos expulsar o demônio?». Ele respondeu: «Por causa da fraqueza de vossa fé! Em verdade vos digo: se tiverdes fé do tamanho de um grão de mostarda, direis a esta montanha: 'Vai daqui para lá', e ela irá. Nada vos será impossível».

«Se tiverdes fé do tamanho de um grão de mostarda (...) nada vos será impossível»

Rev. D. Fidel CATALÁN i Catalán (Terrassa, Barcelona, Espanha)

Hoje, uma vez mais, Jesus dá a entender que a medida dos milagres é a medida de nossa fé: «Eu vos asseguro: se tiverdes fé do tamanho de um grão de mostarda, direis a esta montanha: Vai daqui para lá, e ela irá» (Mt 17,20). De fato, como fazem notar São Jerônimo e Santo Agostinho, na obra de nossa santidade (algo que claramente supera as nossas forças) se realiza esse deslocar-se o monte. Por tanto, os milagres aí estão e, se não vemos mais é porque não lhe permitimos os fazer por nossa pouca fé.

Ante uma situação desconcertante e para todos incompreensível, o ser humano reage de diversas maneiras. A epilepsia era considerada como uma doença incurável e que sofriam as pessoas que se encontravam possuídas por algum espírito maligno.

O pai daquela criatura expressa seu amor para o filho buscando sua cura integral, e vai a Jesus. Sua ação é mostrada como um verdadeiro ato de fé. Ele se ajoelha ante Jesus e o impreca diretamente com a convicção interior de que sua petição será escutada favoravelmente. A maneira de expressar a demanda mostra, ao mesmo tempo, a aceitação de sua condição e, o reconhecimento da misericórdia Daquele que pode sentir compaixão dos outros.

Aquele pai menciona o fato de que os discípulos não puderam jogar àquele demônio. Esse elemento introduz a instrução de Jesus fazendo notar a pouca fé dos discípulos. Segui-lo a Ele, se fazer discípulo, colaborar em sua missão pede uma fé profunda e bem fundamentada, capaz de suportar adversidades, contratempos, dificuldades e incompreensões. Uma fé que é efetiva porque está solidamente enraizada. Em outros fragmentos evangélicos, Jesus Cristo mesmo lamenta a falta de fé de seus seguidores. A expressão «nada vos será impossível» (Mt 17,20) expressa com toda a força a importância da fé no seguimento do Mestre.

A Palavra de Deus põe na nossa frente a reflexão sobre a qualidade de nossa fé e, a maneira como a aprofundamos e, nos lembra aquela atitude do pai de família que se aproxima a Jesus e lhe roga com a profundidade do amor de seu coração.

Reflexão

Contexto. Esta passagem apresenta Jesus em sua atividade de curar. Depois de sua permanência com os discípulos na região de Cesareia de Filipe (16,13-28), Jesus vai a um alto monte e transfigurou-se diante de três dos seus discípulos (17,1-10), e depois encontra pessoas (17,14.21) e de novo se dirige para a Galileia (17,22). O que pensar destes deslocamentos geográficos Jesus? Não é de excluir que eles poderiam ter um valor de ordem geográfica, mas Mateus quer expressar a sua função num itinerário espiritual. Em seu caminho de fé, a comunidade está sempre chamada a percorrer o itinerário espiritual traçado pela vida de Jesus: partindo da Galileia de sua atividade pública e desta até a sua ressurreição, atravessando o caminho da cruz. Um itinerário espiritual em que a força da fé desempenha um papel essencial.

A força da fé. Depois de sua transfiguração, Jesus e a pequena comunidade dos seus discípulos se volta para as pessoas antes de regressar para a Galileia (v. 22) e chegar a Cafarnaum (v. 24). Enquanto Jesus está entre as pessoas, se aproxima dele um homem e pede com insistência para que intervenha sobre o mal que mantém aprisionado o filho. A descrição anterior à intervenção de Jesus é verdadeiramente precisa: é um caso de epilepsia com todas as suas consequências patológicas em um nível psíquico. No tempo de Jesus, esse tipo de doença era atribuída a forças do mal, e, especificamente como obra de Satanás, o inimigo de Deus e do homem e, portanto, a origem do mal e de todos os males. Neste caso, onde as forças do mal emergem persistentemente acima da capacidade humana, os discípulos se sentem incapazes de curar o jovem (vv.16-19) por causa de sua pouca fé (v. 20).

Para o evangelista, este jovem epiléptico é símbolo daqueles que desprezam o poder da fé (v. 20), aqueles que não estão cientes da presença de Deus entre eles (v. 17). A presença de Deus em Jesus, que é o Emanuel, não é reconhecida; não é suficiente entender algo sobre Jesus, é necessária a verdadeira fé. Jesus, depois de repreender as pessoas, manda trazer o jovem: "Traga-o aqui" (v. 17), cura-o e o liberta no momento em que o demônio grita. Não basta o milagre da cura de uma única pessoa, é também necessário curar a fé incerta e fraca dos discípulos. Jesus se aproxima deles, que estão confusos ou atordoados com sua impotência: “Por que não pudemos nós expulsar este demônio?” (v. 20). A resposta de Jesus é clara: “Por causa de vossa falta de fé.” Jesus pede uma fé capaz de mover montanhas do próprio coração para se identificar com sua pessoa, com sua missão, com seu poder divino.

É verdade que os discípulos deixaram tudo para seguir a Jesus, mas não puderam curar o menino epiléptico por causa de sua "pouca fé". Não se trata falta de fé e sim de fé fraca, hesitante para os céticos, com predomínio da desconfiança e da dúvida. É uma fé não se enraizada plenamente no relacionamento com Cristo. Jesus se excede na linguagem, quando ele diz: "Se tiverdes fé, como um grão de mostarda", poderão mover montanhas; é uma exortação para deixar-se a conduzir na ação pelo poder da fé, o que se torna especialmente forte nos momentos de provação e sofrimento, e atinge a maturidade, quando não se escandaliza mais com o escândalo da cruz. A fé pode fazer qualquer coisa, desde que se renuncie a confiar nas próprias capacidades humanas, pode mover montanhas. Os discípulos e a comunidade primitiva experimentaram que a incredulidade não se vence só através da oração e do jejum, mas que é necessário unir-se à morte e ressurreição de Jesus.

Para um confronto pessoal

1) Na meditação desta passagem, observamos como os discípulos se situam diante do epilético e diante de próprio Jesus. Você descobre o seu caminho de relacionamento com Jesus e com outros pela força da fé?

2) Jesus, desde a cruz, dá testemunho do Pai e o revela totalmente. A palavra de Jesus que você têm meditado te pede uma adesão total: Você se sente comprometido cada dia em mover as montanhas do seu coração que se interpõem entre o seu egoísmo e a vontade de Deus.

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

7 de agosto

Santo Alberto de Trapani

PRESBÍTERO E PAI DE NOSSA ORDEM


Nasceu em Trapani, na Sicília, no séc. XIII. Distinguiu-se no seu tempo pelo seu amor à pregação evangélica, pela força dos seus milagres e pelo seu temo amor à Virgem Maria. No ano de 1296 governava a Província carmelitana da Sicília como provincial. Célebre pelo seu apaixonado amor à pureza e à oração, morreu em Messina, provavelmente em 1307.

INVITATÓRIO

Ant. Vinde adoremos a Cristo, ornamento dos sacerdotes!

LAUDES

Hino

Celebremos Santo Alberto,

Que a lei teve por guia,

a alma, deu a Maria,

Estrela e Caminho certo.

 

Não importa a pouca idade:

eis que avança alegremente,

casto, pobre e obediente,

na senda da santidade.


No ardor da pregação

sua alma se consome

por tantos que têm fome

do anúncio da Salvação.

 

Sê amparo, Alberto santo,

dos que, abraçados à cruz,

procuram seguir Jesus,

sorrindo por entre o pranto.


Glória ao Pai Onipotente,

glória a Cristo Redentor,

que com o Espírito de Amor

vive e reina eternamente.

Ant. 1 Quem tem mãos inocentes e puro o coração, esse subirá à montanha do Senhor.

Salmos e Cântico do Domingo da I Semana.

Ant. 2 Cristo o glorificou com bondade admirável por causa da pureza do seu coração.

Ant. 3 Por ter abandonado este mundo, Cristo lhe concedeu a vida suspirada.

Leitura breve: Eclo (Sr) 50,6-7.10

Era como a estrela da manhã no meio das nuvens, como a lua nos dias da sua plenitude, como o sol a resplandecer sobre o Templo do Altíssimo, como o arco-íris a brilhar entre névoas de glória, como um vaso de ouro maciço adornado com toda variedade de pedras preciosas.

Responsório breve

R. Foi-me concedida a graça de anunciar as inefáveis

riquezas de Cristo. R. Foi-me concedida.

V. Para que seja manifestada pela Igreja a multiforme sabedoria de Deus. *

As inefáveis. Glória ao Pai. R. Foi-me.

Cântico evangélico

Ant. Santo Alberto, servo de Cristo, guie os nossos passos e nos ensine os caminhos da paz.

Preces

Bendigamos, irmãos, a Jesus Cristo, Pontífice da nossa fé, que é admirável nos seus Santos e adornou também a nossa Ordem com a santidade e a justiça. E peçamos jubilosos:

R. Fazei-nos santos, porque vós sois santo.

Vós, que prometestes a visão de Deus aos puros de coração, - sarai, purificai e inflamai os corações dos vossos servos. R.

Vós, que desejastes que a Boa Nova fosse proclamada até os confins da terra, - concedei zelo e fidelidade aos anunciadores do Reino. R

Vós, que nunca privastes a vossa Igreja da presença do vosso admirável poder, - curai os doentes, aliviai os oprimidos, fortalecei os fracos. R.

Vós, que através dos vossos representantes na terra continuais a ser o único Pastor da Igreja, - tornai-nos dignos de ter guias santos e seguros. R.

Vós, que destes ao Carmelo vossa Mãe como nossa Mãe e Padroeira, - com a sua ajuda e intercessão gravai em nós mais profundamente a vossa imagem. R.

(intenções livres)

Pai Nosso ...

Oração

Senhor, que fizestes de Santo Alberto modelo de pureza e oração, e fiel servidor de Maria, concedei que, investidos destas mesmas virtudes, possamos encontrar-nos no eterno banquete da vossa Glória. Por N.S.J.C.

VÉSPERAS

Hino

Tu, Alberto, foste luz,

que iluminou Messina,

tal como outrora Jesus

nas terras da Palestina.

 

Como Ele tu passaste

fazendo o bem e curando

a todos os que encontraste

duras penas suportando.

 

Quantos foram socorridos

por tua mão benfazeja!

E aqueles que, convertidos,

encontram Cristo na Igreja!

 

Pois que semeaste em paz

a Palavra da Verdade,

como estrela brilharás

por toda a eternidade.

Ant. 1 Quem vive sem mancha e pratica a justiça descansará na montanha do Senhor.

Salmos e Cântico do Comum dos Pastores.

Ant. 2 Como sol refulgente brilhou no templo do Senhor.

Ant. 3 Os Santos cantavam um cântico novo diante do trono de Deus e do Cordeiro, e as suas vozes enchiam a terra.

Leitura breve: Rm 8,28-30

Sabemos que tudo contribui para o bem dos que amam a Deus, daqueles que são chamados para a salvação de acordo com o projeto de Deus, pois os que Deus contemplou com o seu amor desde sempre, a esses predestinou a serem conformes à imagem do seu Filho, para que este seja o Primogênito numa multidão de irmãos. E aqueles que Deus predestinou, também os chamou; e aos que chamou também os tornou justos, e aos que tornou justos também os glorificou.

Responsório breve

R. Santos e justos, * alegrai-vos no Senhor! R. Santos.

V. Deus vos escolheu como sua herança. * Alegrai-vos.

Glória ao Pai. R. Santos.

Cântico evangélico

Ant. Ó Santo Alberto, pai ilustre, que eternamente gozais da alegria da glória, atendei a todos os que na terra vos louvam, e ao Senhor apresentai as nossas orações.

Preces

Roguemos ao Senhor Jesus, que santifica os seus sacerdotes e convida os seus servos e servas a um íntimo trato com Ele. E digamos:

R. Criai em nós, Senhor, um coração que seja puro e aumentai a nossa fé. 

Vós, que às mãos dos sacerdotes confiastes o Pão Eucarístico, - fazei que todos gozem dos frutos do mistério pascal. R.

Concedei a todos os que investigam a verdade que, procurando-a, a encontrem, - e, encontrando-a, a sigam fielmente.    R.

A todos os que amam e cultivam a pureza de coração, - concedei que sejam testemunhas da vossa presença no mundo. R.

Reuni ao redor da vossa mesa os vossos irmãos e irmãs, - para que vos sigam mais de perto, a Vós, Cristo virgem, pobre e obediente. R.

Guardai a todas as que abraçaram o ideal da virgindade consagrada - para que vos sigam a Vós, Cordeiro puro e sem mancha, por onde quer que Vós andeis. R.

(intenções livres)

Acolhei todos nossos irmãos e irmãs falecidos no Reino Eterno,- aonde nós próprios esperamos chegar um dia. R.

Pai Nosso...

Oração

Senhor, que fizestes de Santo Alberto modelo de pureza e oração, e fiel servidor de Maria, concedei que, investidos destas mesmas virtudes, possamos encontrar-nos no eterno banquete da vossa Glória. Por N.S.J.C.

7 de agosto - Santo Alberto de Trapani, Presbítero e Pai de nossa Ordem

São Caetano, Presbítero

1ª Leitura (Na 2,1.3; 3,1-3.6-7): Vede sobre os montes os passos do mensageiro que anuncia a paz. Celebra as tuas festas, Judá, cumpre os teus votos, porque o malfeitor não voltará a passar por ti, ele foi totalmente destruído. O Senhor restaurou o esplendor de Jacob e o esplendor de Israel, porque os salteadores a tinham saqueado, devastando os seus sarmentos. Ai da cidade sanguinária, cheia de perfídia, repleta de despojos, onde não cessa a pilhagem! Ouve-se o estalar do chicote, o estrépito das rodas, o galope dos cavalos, o baloiçar dos carros. Arremetem os cavalos, brilham as espadas, cintilam as lanças. Depois, multidão de feridos, mortos sem conta, cadáveres sem fim, nos quais se tropeça! «Vou cobrir-te de imundície, lançar-te na ignomínia e expor-te à vergonha pública – diz o Senhor –. Quem te vir fugirá de ti, dizendo: ‘Nínive está devastada! Quem terá compaixão dela?’ Onde encontrarei quem te console’».

Salmo Responsorial: Dt 32

R. Eu sou o Senhor da morte e da vida.

Está próximo o dia da ruína, iminente o seu destino, porque o Senhor defenderá o seu povo, terá piedade dos seus servos.

Reconhecei agora que Eu sou Deus e não há outro além de Mim. Sou o Senhor da morte e da vida: nada escapa ao meu poder.

Quando desembainhar a minha espada fulgurante, quando tomar em minhas mãos a sentença, tirarei desforra dos meus inimigos, retribuirei aos meus adversários.

Aleluia. Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça, porque deles é o reino dos Céus. Aleluia.

Evangelho (Mt 16,24-28): Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: «Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e siga-me. Pois quem quiser salvar sua vida a perderá; e quem perder sua vida por causa de mim a encontrará. De fato, que adianta a alguém ganhar o mundo inteiro, se perde a própria vida? Ou que poderá alguém dar em troca da própria vida? Pois o Filho do Homem virá na glória do seu Pai, com os seus anjos, e então retribuirá a cada um de acordo com a sua conduta. Em verdade, vos digo: alguns dos que estão aqui não provarão a morte sem antes terem visto o Filho do Homem vindo com o seu Reino».

«Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e siga-me»

Rev. D. Pedro IGLESIAS Martínez (Rubí, Barcelona, Espanha)

Hoje, o Evangelho nos coloca claramente diante do mundo. É radical na sua abordagem, não admitindo ambiguidades: «Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e siga-me» (Mt 16,24). Em numerosas ocasiões, perante o sofrimento causado por nós mesmos ou pelos outros ouvimos: «Devemos suportar a cruz que Deus nos manda...Deus quis que fosse assim...», e vamos acumulando sacrifícios como cupons em uma cartela, que apresentaremos à auditoria celestial no dia que tivermos que prestar contas.

O sofrimento não tem valor algum em si mesmo. Cristo não era um estoico: sentia sede, fome, cansaço, não gostava de ser deixado só, se deixava ajudar... Onde podia aliviava a dor, física e moral. Que acontece então?

Antes de carregarmos a nossa “cruz”, primeiramente devemos seguir a Cristo. Não se sofre e depois se segue a Cristo... Cristo se segue por Amor, e é a partir daí que se compreende o sacrifício, a negação pessoal: «Quem quiser salvar sua vida a perderá; e quem perder sua vida por causa de mim a encontrará» (Mt 16,25). É o amor e a misericórdia o que nos leva ao sacrifício. Todo amor verdadeiro gera sacrifício de uma forma ou de outra, mas nem todo sacrifício gera amor. Deus não é sacrifício; Deus é Amor, e só esta perspectiva dá sentido à dor, ao cansaço e às cruzes de nossa existência segundo o modelo de homem que o Pai nos revelou em Cristo. Santo Agostinho afirmou: «Quando se ama não se sofre, e se sofre, ama-se o sofrimento».

No correr da nossa vida, não busquemos uma origem divina para os sacrifícios e as penúrias: «Por que Deus me mandou isto?», mas busquemos um “uso divino” para o que nos acontece: «Como posso fazer disso, um ato de fé e de amor?». É assim que seguimos a Cristo e, como — com certeza — seremos merecedores do olhar misericordioso do Pai. O mesmo olhar com que contemplou o seu Filho na Cruz.

Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm.

* Os cinco versículos do evangelho de hoje são a continuidade das palavras de Jesus a Pedro que meditamos ontem. Jesus não esconde nem abranda as exigências do discipulado. Não permitiu que Pedro tomasse a dianteira e o colocou no seu devido lugar: “Atrás de mim!” O evangelho de hoje explicita estas exigências para todos nós.

* Mateus 16,24: Tome a sua cruz e siga-me

Jesus tira as conclusões que valem até hoje: "Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz, e me siga”. Naquele tempo, a cruz era a pena de morte que o império romano impunha aos marginais e bandidos. Tomar a cruz e carregá-la atrás de Jesus era o mesmo que aceitar ser marginalizado pelo sistema injusto que legitimava a injustiça. A Cruz não é fatalismo, nem é exigência do Pai. A Cruz é a consequência do compromisso livremente assumido por Jesus de revelar a Boa Nova de que Deus é Pai e que, portanto, todos e todas devem ser aceitos e tratados como irmãos e irmãs. Por causa deste anúncio revolucionário, Jesus foi perseguido e não teve medo de dar a sua vida. Prova de amor maior não há, que doar a vida pelo irmão (Jo 15,13). O testemunho de Paulo na carta aos Gálatas mostra o alcance concreto de tudo isto: “Quanto a mim, que eu não me glorie, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, por meio do qual o mundo foi crucificado para mim, e eu para o mundo”.  (Gal 6,14) E ele termina aludindo às cicatrizes das torturas que sofreu: “De agora em diante ninguém mais me moleste, pois trago em meu corpo as marcas de Jesus” (Gal 6,17).

* Mateus 16,25-26: Quem perde a vida por causa de mim vai encontrá-la

Estes dois versículos explicitam valores humanos universais que confirmam a experiência de muitos cristãos e não cristãos. Salvar a vida, perder a vida, encontrar a vida. A experiência de muitos ensina o seguinte: Quem vive atrás de bens e de riqueza, nunca fica saciado. Quem se doa aos outros esquecendo-se a si mesmo, sente uma grande felicidade. É a experiência das mães que se doam, e de tanta gente que não pensa em si, mas nos outros. Muitos fazem e vivem assim quase por instinto, como algo que vem do fundo da alma. Outros fazem assim, porque tiveram uma experiência dolorosa de frustração que os levou a mudar de atitude. Jesus tem razão em dizer: Quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas, quem perde a sua vida por causa de mim, vai encontrá-la”. Importante é o motivo: “por causa de mim”, ou como diz em outro lugar: “por causa do Evangelho” (Mc 8,35). E ele termina: “Com efeito, que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro, mas perder a sua vida? O que um homem pode dar em troca da sua vida?” Esta última frase evoca o salmo onde se diz que ninguém é capaz de pagar o preço do resgate da vida: “O homem não pode comprar seu próprio resgate, nem pagar a Deus o preço de si mesmo. É tão caro o resgate da vida, que nunca bastará para ele viver perpetuamente, sem nunca ver a cova”.  (Sl 49,8-10).

* Mateus 16,27-28: O Filho do Homem retribuirá a cada uma conforme a sua conduta

Estes dois versículos se referem à esperança do povo com relação à vinda do Filho do Homem no fim dos tempos como juiz da humanidade, como é apresentado na visão do profeta Daniel (Dn 7,13-14). O primeiro versículo diz: “O Filho do Homem virá na glória do seu Pai, com os seus anjos, e então retribuirá a cada um de acordo com a própria conduta” (Mt 16,27). Nesta frase se fala da justiça do Juiz. Cada um vai receber conforme a sua própria conduta. O segundo versículos diz: “Alguns daqueles que estão aqui, não morrerão sem terem visto o Filho do Homem vindo com o seu Reino”. (Mt 16,28). Esta frase é um aviso para ajudar a perceber a vinda de Jesus como Juiz nos fatos da vida. Alguns achavam que Jesus viria logo (1Ts 4,15-18). Jesus, de fato, veio e já estava presente nas pessoas, sobretudo nos pobres. Mas eles não o percebiam. Jesus mesmo tinha dito: “Aquela vez que você ajudou o pobre, o doente, o sem casa, o preso, o peregrino, era eu!” (Mt 25,34-45)

Para um confronto pessoal

1. Quem perde a vida vai ganhá-la. Qual a experiência que tenho neste ponto?

2. As palavras de Paulo: “Quanto a mim, que eu não me glorie, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, por meio do qual o mundo foi crucificado para mim, e eu para o mundo”. Tenho coragem de repeti-las na minha vida.