terça-feira, 16 de agosto de 2022

Quinta-feira da 20ª semana do Tempo Comum

 Sta. Beatriz da Silva, virgem
Btos. João Baptista Duverneil, Miguel Luís Brulard e Tiago Gagnot, presbíteros e mártires de nossa Ordem

1ª Leitura (Ez 36,23-28): Eis o que diz o Senhor: «Manifestarei a santidade do meu grande nome, profanado por vós entre as nações para onde fostes. E as nações reconhecerão que Eu sou o Senhor – oráculo do Senhor Deus – quando a seus olhos Eu manifestar a minha santidade, a vosso respeito. Então retirar-vos-ei de entre as nações, reunir-vos-ei de todos os países, para vos restabelecer na vossa terra. Derramarei sobre vós água pura e ficareis limpos de todas as imundícies; e purificar-vos-ei de todos os falsos deuses. Dar-vos-ei um coração novo e infundirei em vós um espírito novo. Arrancarei do vosso peito o coração de pedra e dar-vos-ei um coração de carne. Infundirei em vós o meu espírito e farei que vivais segundo os meus preceitos, que observeis e ponhais em prática as minhas leis. Habitareis na terra que dei a vossos pais; sereis o meu povo e Eu serei o vosso Deus».

Salmo Responsorial: 50
R. Derramarei sobre vós água pura e ficareis limpos de toda a iniquidade.
Criai em mim, ó Deus, um coração puro e fazei nascer dentro de mim um espírito firme. Não queirais repelir-me da vossa presença e não retireis de mim o vosso espírito de santidade.

Dai-me de novo a alegria da vossa salvação e sustentai-me com espírito generoso. Ensinarei aos pecadores os vossos caminhos e os transviados hão de voltar para Vós.

Não é do sacrifício que Vos agradais e, se eu oferecer um holocausto, não o aceitareis. Sacrifício agradável a Deus é o espírito arrependido: não desprezeis, Senhor, um espírito humilhado e contrito.

Aleluia. Se hoje ouvirdes a voz do Senhor, não fecheis os vossos corações. Aleluia.

Evangelho (Mt 22,1-14): Naquele tempo, Jesus voltou a falar em parábolas aos sumos sacerdotes e aos anciãos do povo, dizendo: «O Reino dos Céus é como um rei que preparou a festa de casamento do seu filho. Mandou seus servos chamar os convidados para a festa, mas estes não quiseram vir. Mandou então outros servos, com esta ordem: ‘Dizei aos convidados: já preparei o banquete, os bois e os animais cevados já foram abatidos e tudo está pronto. Vinde para a festa!’. Mas os convidados não deram a menor atenção: um foi para seu campo, outro para seus negócios, outros agarraram os servos, bateram neles e os mataram. O rei ficou irritado e mandou suas tropas matar aqueles assassinos e incendiar a cidade deles. Em seguida, disse aos servos: ‘A festa de casamento está pronta, mas os convidados não foram dignos dela. Portanto, ide às encruzilhadas dos caminhos e convidai para a festa todos os que encontrardes’. Os servos saíram pelos caminhos e reuniram todos os que encontraram, maus e bons. E a sala da festa ficou cheia de convidados. Quando o rei entrou para ver os convidados, observou um homem que não estava em traje de festa, e perguntou-lhe: ‘Meu caro, como entraste aqui sem o traje de festa?’. Mas o homem ficou sem responder. Então o rei disse aos que serviam: ‘Amarrai os pés e as mãos desse homem e lançai-o fora, nas trevas! Ali haverá choro e ranger de dentes’. Pois muitos são chamados, mas poucos são escolhidos».

«Já preparei o banquete, os bois e os animais cevados já foram abatidos e tudo está pronto. Vinde para a festa!»

Rev. D. David AMADO i Fernández (Barcelona, Espanha)

Hoje, a parábola evangélica nos fala do banquete do Reino. É uma figura recorrente na predicação de Jesus. Trata-se dessa festa de casamento que acontecerá ao final dos tempos e que será a união de Jesus com a sua Igreja. Ela é a esposa de Cristo que caminha pelo mundo, mas que vai se unir finalmente ao seu Amado para sempre. Deus Padre tem preparado essa festa e quer que todos os homens assistam a ela. Por isso diz a todos os homens: «Vinde para a festa!» (Mt 22,4).

A parábola, no entanto, tem um desenvolvimento trágico, pois muitos, «não deram a menor atenção: um foi para seu campo, outro para seus negócios... » (Mt 22,5). Por isso, a misericórdia de Deus vai se dirigindo a pessoas cada vez mais distantes. É como um noivo que vai se casar e convida a seus familiares e amigos, mas eles não querem assistir; chama depois a conhecidos e colegas de trabalho e vizinhos, mas todos dão desculpas; finalmente convida qualquer pessoa que encontra, pois tem preparado um banquete e quer que haja convidados na mesa. Algo parecido acontece com Deus.

Mas também, os diferentes personagens que aparecem na parábola podem ser imagem dos estados da nossa alma. Pela graça batismal somos amigos de Deus e coerdeiros com Cristo: temos um lugar reservado no banquete. Se esquecermos nossa condição de filhos, Deus passa a nos tratar como conhecidos, mas continua nos convidando. Se deixarmos morrer em nós a graça, convertemo-nos em gente do caminho, transeuntes sem ofício nem benefício sob as coisas do Reino. Mas Deus segue chamando.

A chamada chega a qualquer momento. É por convite. Ninguém tem direito. É Deus quem presta atenção em nós e diz: «Vinde para a festa!». E o convite há de ser aceito com palavras e fatos. Por isso aquele convidado malvestido é expulso: «Meu caro, como entraste aqui sem o traje de festa?» (Mt 22,12).

Pensamentos para o Evangelho de hoje
«Reconhece, oh cristão, a altíssima dignidade desta tua sabedoria, e entende bem qual há de ser a tua conduta e quais os prêmios que te são prometidos» (São Leão Magno)

«O cristão é aquele que está convidado a uma festa, à alegria, à alegria de ser salvo, à alegria de ser redimido, à alegria de participar da vida com Jesus. Tu estás convidado à festa!» (Francisco)

«Entra-se no povo de Deus pela fé e pelo Batismo. ‘Todos os homens são chamados a fazer parte do povo de Deus’ (260), para que, em Cristo, ‘os homens constituam uma só família e um único povo de Deus’ (261)» (Catecismo da Igreja Católica, nº 804)

Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm.

* O evangelho de hoje traz a parábola do banquete que se encontra em Mateus e em Lucas, mas com diferenças significativas, provenientes da perspectiva de cada evangelista. O pano de fundo, porém, que levou os dois evangelistas a conservar esta parábola é o mesmo. Na comunidades dos primeiros cristãos, tanto de Mateus como de Lucas, continuava bem vivo o problema da convivência entre judeus convertidos e pagãos convertidos. Os judeus tinham normas antigas que os impediam de comer com os pagãos. Mesmo depois de terem entrado na comunidade cristã, muitos judeus mantinham o costume antigo de não se sentar à mesma mesa com um pagão. Assim, Pedro teve conflitos na comunidade de Jerusalém, por ter entrado na casa de Cornélio, um pagão, e ter comido com ele (At 11,3). Este mesmo problema, porém, era vivido de maneira diferente nas comunidades de Lucas e nas de Mateus. Nas comunidades de Lucas, apesar das diferenças de raça, classe e gênero, eles tinham um grande ideal de partilha e de comunhão (At 2,42; 4,32; 5,12). Por isso, no evangelho de Lucas (Lc 14,15-24), a parábola insiste no convite feito a todos. O dono da festa, indignado com a desistência dos primeiros convidados, mandou chamar os pobres, os aleijados, os cegos, os mancos para virem participar do banquete. Mesmo assim sobrava lugar. Então, o dono da festa mandou convidar todo mundo, até que a casa ficasse cheia. No evangelho de Mateus, a primeira parte da parábola (Mt 22,1-10) tem o mesmo objetivo de Lucas. Ele chega a dizer que o dono da festa mandou entrar “bons e maus” (Mt 22,10). Mas no fim ele acrescenta uma outra parábola (Mt 22,11-14) sobre o traje de festa, que insiste no que é específico dos judeus, a saber, a necessidade da pureza para poder comparecer diante de Deus.

* Mateus 22,1-2: O convite para todos. Alguns manuscritos dizem que a parábola foi contada para os chefes dos sacerdotes e aos anciãos do povo.  Esta afirmação pode até servir como chave de leitura, pois ajuda a compreender alguns pontos estranhos que aparecem na história que Jesus conta. A parábola começa assim: "O Reino do Céu é como um rei que preparou a festa de casamento do seu filho”. Esta afirmação inicial evoca a esperança mais profunda: o desejo do povo de estar com Deus para sempre. Várias vezes nos evangelhos se alude a esta esperança, sugerindo que Jesus, o filho do Rei, é o noivo que veio preparar o casamento (Mc 2,19; Ap 21,2; 19,9).

* Mateus 22,3-6: Os convidados não quiseram vir. O rei fez dois convites muita insistentes, mas os convidados não quiseram vir. “Um foi para o seu campo, outro foi fazer os seus negócios, e outros agarraram os empregados, bateram neles, e os mataram”.  Em Lucas são os deveres da vida cotidiana que impedem os convidados de aceitar o convite. O primeiro diz: “Comprei um terreno. Preciso vê-lo!” O segundo: “Comprei cinco juntas de bois! Vou experimentá-las!” O terceiro: “Casei. Não posso ir!” (cf. Lc 14,18-20). Dentro das normas e costumes da época, aquelas pessoas tinham o direito e até o dever de recusar o convite que lhes foi feito (cf Dt 20,5-7).

* Mateus 22,7: Uma guerra incompreensível. A reação do rei diante da recusa surpreende. “Indignado, o rei mandou suas tropas, que mataram aqueles assassinos, e puseram fogo na cidade deles. Como entender esta reação tão violenta? A parábola foi contada para os chefes dos sacerdotes e aos anciãos do povo (Mt 22,1), os responsáveis pelos da nação. Muitas vezes, Jesus tinha falado a eles sobre a necessidade da conversão. Ele chegou a chorar sobre a cidade de Jerusalém e dizer: "Se também você compreendesse hoje o caminho da paz! Agora, porém, isso está escondido aos seus olhos! Vão chegar dias em que os inimigos farão trincheiras contra você, a cercarão e apertarão de todos os lados. Eles esmagarão você e seus filhos, e não deixarão em você pedra sobre pedra. Porque você não reconheceu o tempo em que Deus veio para visitá-la." (Lc 14,41-44). A reação violenta do rei na parábola refere-se provavelmente ao que aconteceu de fato de acordo com a previsão de Jesus. Quarenta anos depois, Jerusalém foi destruída (Lc 19,41-44; 21,6;).

*  Mateus 22,8-10:  O convite permanece de pé. Pela terceira vez, o rei convida o povo. Ele disse aos empregados: “A festa de casamento está pronta, mas os convidados não a mereceram. Portanto, vão até as encruzilhadas dos caminhos, e convidem para a festa todos os que vocês encontrarem. Então os empregados saíram pelos caminhos, e reuniram todos os que encontraram, maus e bons. E a sala da festa ficou cheia de convidados“. Os maus que eram excluídos como impuros da participação no culto dos judeus, agora são convidados, especificamente, pelo rei para participar da festa. No contexto da época, os maus eram os pagãos. Eles também são convidados para participar da festa de casamento.

* Mateus 22,11-14: O traje de festa. Estes versos contam como o rei entrou na sala da festa e viu alguém sem o traje da festa. O rei perguntou: 'Amigo, como foi que você entrou aqui sem o traje de festa?' Mas o homem nada respondeu.  A história conta que o homem foi amarrado e jogado fora na escuridão. E conclui: “Muitos são chamados, e poucos são escolhidos”.  Alguns estudiosos acham que aqui se trata de uma segunda parábola que foi acrescentada para abrandar a impressão que ficou da primeira parábola onde se disse que “maus e bons” entraram para a festa (Mt 22,10). Mesmo admitindo que já não é a observância da lei que nos traz a salvação, mas sim a fé no amor gratuito de Deus, isto em nada diminui a necessidade da pureza do coração como condição para poder comparecer diante de Deus.

Para um confronto pessoal
1. Quais as pessoas que normalmente são convidadas para as nossas festas? Por quê?  Quais as pessoas que não são convidadas para as nossas festas? Por quê?

2. Quais os motivos que hoje limitam a participação de muitas pessoas na sociedade e na igreja?  Quais os motivos que certas pessoas alegam para se excluir do dever de participar na comunidade? Será que são motivos justos?

18 de agosto

 BB. João Baptista Duverneil, Miguel Luís Brulard e Tiago Gagnot,
Presbíteros e mártires
 
Na pequena baía de Rochefort, diocese de La Rochelle (França) morreram amontoados em dois navios 547 sacerdotes e religiosos durante a Revolução Francesa. Entre eles estavam, pelos menos, três carmelitas descalços: P. João Baptista Duverneuiln, nascido em Limoges em 1759, que morreu por padecimentos e doenças no dia 1 de julho de 1794, na idade de 35 anos; P. Miguel Luís Brulard, nascido em Chartres no dia 26 de julho de 1758, que morreu no dia 25 de julho de 1794, na idade de 36 anos; e P. Tiago Gagnot, nascido em Frolois em 1753, e que morreu no dia 10 de setembro de 1794, na idade de 41 anos. O amor incondicional a Cristo, o apego e a fidelidade à Igreja, a compaixão para com todos, o perdão para com os próprios perseguidores foram algumas das virtudes destes filhos de Santa Teresa. Foram beatificados no dia 1º de outubro de 1995, juntamente com outros 61 mártires, mortos na mesma circunstância.
 
Salmodia, leitura, responsório breve e preces do dia corrente.
 
 
Oração
Senhor, nosso Deus, que destes aos bem-aventurados João Baptista, Miguel Luís, Tiago e companheiros mártires, a graça da fidelidade e do perdão no meio dos mais duros tormentos, concedei-nos, por sua intercessão e exemplo, que permaneçamos sempre fiéis à Igreja e prontos para a reconciliação com os nossos irmãos. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

segunda-feira, 15 de agosto de 2022

Quarta-feira da 20ª semana do Tempo Comum

 Beato Ângelo Mazzinghi, Presbítero de nossa Ordem

1ª Leitura (Ez 34,1-11): O Senhor dirigiu-me a palavra, dizendo: «Filho do homem, profetiza contra os pastores de Israel, profetiza e diz a esses pastores: Assim fala o Senhor Deus: Ai dos pastores de Israel, que se apascentam a si mesmos! Não deviam os pastores apascentar o rebanho? Vós, porém, bebeis o leite, vestis-vos com a lã, matais as ovelhas mais gordas, mas não apascentais o rebanho. Não fortalecestes as ovelhas débeis, não tratastes as que andavam doentes, nem curastes as que estavam feridas. Não reconduzistes a ovelha tresmalhada, nem pro¬¬curastes a que andava perdida, mas a todas dominastes com crueldade e violência. Elas dispersaram-se por falta de pastor e na debandada tornaram-se presa de todos os animais selvagens. As minhas ovelhas andam errantes por toda a parte, sobre as montanhas e sobre as colinas, dispersaram-se por toda a superfície da terra. Ninguém se interessa por elas, ninguém as procura. Por isso, pastores, escutai a palavra do Senhor: Pela minha vida – diz o Senhor Deus – Eu vos asseguro: Porque as minhas ovelhas, por falta de pastor, foram entregues à pilhagem e se tornaram presa de todos os animais selvagens; porque os meus pastores não se preocupam com o meu rebanho, mas apascentam-se a si mesmos, em vez de apascentar as minhas ovelhas; por isso, pastores, escutai a palavra do Senhor: Assim fala o Senhor Deus: Eu vou pedir contas aos pastores, vou exigir-lhes que entreguem as minhas ovelhas; hei de impedi-los de apascentar o meu rebanho e os pastores não mais se apascentarão a si mesmos. Salvarei as minhas ovelhas da sua boca e elas deixarão de ser uma presa para eles. Assim fala o Senhor Deus: Eu próprio irei em busca das minhas ovelhas, Eu próprio cuidarei do meu rebanho».

Salmo Responsorial: 22
R. O Senhor é meu pastor: nada me faltará.

O Senhor é meu pastor: nada me falta. Leva-me a descansar em verdes prados, conduz-me às águas refrescantes e reconforta a minha alma.

Ele me guia por sendas direitas por amor do seu nome. Ainda que tenha de andar por vales tenebrosos, não temerei nenhum mal, porque Vós estais comigo: o vosso cajado e o vosso báculo me enchem de confiança.

Para mim preparais a mesa à vista dos meus adversários; com óleo me perfumais a cabeça e o meu cálice transborda.

A bondade e a graça hão de acompanhar-me todos os dias da minha vida, e habitarei na casa do Senhor para todo o sempre.

Aleluia. A palavra de Deus é viva e eficaz, conhece os pensamentos e intenções do coração. Aleluia.

Evangelho (Mt 20,1-16): Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos esta parábola: «Pois o Reino dos Céus é como o proprietário que saiu de madrugada para contratar trabalhadores para a sua vinha. Combinou com os trabalhadores a diária e os mandou para a vinha. Em plena manhã, saiu de novo, viu outros que estavam na praça, desocupados, e lhes disse: ‘Ide também vós para a minha vinha. Eu pagarei o que for justo’. E eles foram. Ao meio-dia e em plena tarde, ele saiu novamente e fez a mesma coisa. Saindo outra vez pelo fim da tarde, encontrou outros que estavam na praça e lhes disse: ‘Por que estais aí o dia inteiro desocupados?’. Eles responderam: ‘Porque ninguém nos contratou’. E ele lhes disse: ‘Ide vós também para a minha vinha’. Ao anoitecer, o dono da vinha disse ao administrador: ‘Chama os trabalhadores e faze o pagamento, começando pelos últimos até os primeiros!’. Vieram os que tinham sido contratados no final da tarde, cada qual recebendo a diária. Em seguida vieram os que foram contratados primeiro, pensando que iam receber mais. Porém, cada um deles também recebeu apenas a diária. Ao receberem o pagamento, começaram a murmurar contra o proprietário: ‘Estes últimos trabalharam uma hora só, e tu os igualaste a nós, que suportamos o peso do dia e o calor ardente’. Então, ele respondeu a um deles: ‘Companheiro, não estou sendo injusto contigo. Não combinamos a diária? Toma o que é teu e vai! Eu quero dar a este último o mesmo que dei a ti. Acaso não tenho o direito de fazer o que quero com aquilo que me pertence? Ou estás com inveja porque estou sendo bom?’. Assim, os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos».

«Assim, os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos»

Rev. D. Antoni CAROL i Hostench (Sant Cugat del Vallès, Barcelona, Espanha)

Hoje, a Palavra de Deus nos convida a perceber que a “lógica” divina vai muito além da lógica meramente humana. Enquanto nós homens calculamos («Pensando que iam receber mais»: Mt 20,10), Deus —que é Pai entranhável— simplesmente, ama («Ou estás com inveja porque estou sendo bom?» : Mt 20,15.) E a medida do Amor é não ter medida: «Amo porque amo, amo para amar» (São Bernardo).

Mas isso não torna a justiça inútil: «Eu pagarei o que for justo» (Mt 20,4). Deus não é arbitrário e quer nos tratar como filhos inteligentes: por isso é lógico que tenha “acordos” conosco. De fato, em outros momentos, os ensinamentos de Jesus deixam claro que quem recebe mais também será mais exigido (lembremos da parábola dos talentos). Enfim, Deus é justo, mas a caridade não se desentende da justiça, mas sim, a supera. (cf. 1Cor 13,5).

Um ditado popular afirma que «a justiça por justiça é a pior das injustiças». Felizmente para nós, a justiça de Deus —repitamos, transbordante de seu Amor— supera nossos esquemas. Se unicamente se tratasse de estrita justiça, nós, então, estaríamos pendentes de redenção. Além disso, não teríamos nenhuma esperança de redenção. Em justiça estrita não mereceríamos nenhuma redenção: simplesmente, ficaríamos despossuídos daquilo que se nos tinha dado no momento da criação e que rejeitamos no momento do pecado original. Examinemo-nos, portanto, como agimos nos julgamentos, comparações e cálculos quando tratamos os demais.

Além disso, se falarmos de santidade, temos que partir da base de que tudo é graça. A mostra mais clara é o caso de Dimas, o bom ladrão. Inclusive a possibilidade de merecer diante de Deus, é também uma graça (algo que nos é concedido gratuitamente). Deus é o amo, nosso «proprietário que saiu de madrugada para contratar trabalhadores para a sua vinha» (Mt 20,1). A vinha (quer dizer, a vida, o céu...) é dele; nós somos convidados, e não de qualquer maneira: é uma honra poder trabalhar aí e, assim “ganhar” o céu.

Pensamentos para o Evangelho de hoje
«O Senhor chamou a todos quando estavam com disposição para obedecer, o mesmo fez com o ladrão bom, a quem o Senhor chamou quando viu que obedeceria. O Salvador no excluiu ninguém» (São João Crisóstomo)

«A parábola não foi transmitida para os trabalhadores de outro tempo, mas para nós, que achamos que o "desemprego espiritual” —uma vida sem fé e sem oração— é mais agradável que o serviço espiritual» (Bento XVI)

«O homem é o autor; o centro e o fim de toda a vida económica e social. O ponto decisivo da questão social é que os bens criados por Deus para todos, cheguem de facto a todos, segundo a justiça e com a ajuda da caridade» (Catecismo da Igreja Católica, nº 2.459)

Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm.

* O evangelho de hoje traz uma parábola que só é relatada por Mateus. Ela não existe nos outros três evangelhos. Como em todas as parábolas, Jesus conta uma história feita de elementos do dia a dia da vida do povo. Ele retrata a situação social do seu tempo, na qual os ouvintes se reconhecem. Mas ao mesmo tempo, na história desta parábola, acontecem coisas que nunca acontecem na realidade da vida do povo. É que, ao falar do patrão, Jesus pensa em Deus, seu Pai. Por isso, na história da parábola, o patrão faz coisas surpreendentes que não acontecem no dia a dia da vida dos ouvintes. É nesta atitude estranha do patrão, que deve ser procurada a chave para a compreensão do mensagem da parábola.

* Mateus 20,1-7: As cinco vezes que o patrão sai em busca de operários, "O Reino do Céu é como um patrão, que saiu de madrugada para contratar trabalhadores para a sua vinha. Combinou com os trabalhadores uma moeda de prata por dia, e os mandou para a vinha” Assim começa a história que fala por si e nem precisaria de muito comentário. No que segue, o patrão sai mais quatro vezes chamando operários para trabalhar na sua vinha. Jesus alude ao terrível desemprego daquela época. Alguns detalhes da história: (1) O próprio patrão sai pessoalmente cinco vezes para contratar operários. (2) Na hora de contratar os operários, é só com o primeiro grupo que ele acerta o salário: um denário por dia. Com os da nona hora ele diz: Eu lhes pagarei o que for justo. Com os outros ele não acertou nada. Apenas os contratou para trabalhar na vinha. (3) No fim do dia, na hora de acertar as contas com os operários, o patrão manda que o administrador faça o serviço.

* Mateus 20,8-10: A estranha maneira de acertar as contas no fim do dia. Quando chegou a tarde, o patrão disse ao administrador: Chame os trabalhadores, e pague uma diária a todos. Comece pelos últimos, e termine pelos primeiros. Aqui, na hora de acertar as contas, acontece algo estranho que não acontece na vida comum. Parece a inversão das coisas. O pagamento começa com os que foram contratados por último e que trabalharam apenas uma única hora. O pagamento é o mesmo para todos: um denário, como tinha sido combinado com os que foram contratados no começo do dia. No fim, chegaram os que foram contratados primeiro, e pensavam que iam receber mais. No entanto, cada um deles recebeu também uma moeda de prata.  Por que o patrão faz isso? Você faria assim? É aqui neste gesto surpreendente do patrão que está escondida a chave da mensagem desta parábola.

*  Mateus 20,11-12: A reação normal dos operários diante da estranha atitude do patrão. Os últimos a receber o salário eram os que foram contratados por primeiro. Estes, assim diz a história, ao receberem o pagamento, começaram a resmungar contra o patrão e disseram: “Esses últimos trabalharam uma hora só, e tu os igualaste a nós, que suportamos o cansaço e o calor do dia inteiro!”  É a reação normal do bom senso. Creio que todos nós teríamos a mesma reação e diríamos a mesma coisa ao patrão. Ou não?

*  Mateus 20,13-16: A explicação surpreendente do Patrão que fornece a chave da parábola. A resposta do patrão é esta: “Amigo, eu não fui injusto com você. Não combinamos uma moeda de prata? Tome o que é seu, e volte para casa. Eu quero dar também a esse, que foi contratado por último, o mesmo que dei a você. Por acaso não tenho o direito de fazer o que eu quero com aquilo que me pertence? Ou você está com ciúme porque estou sendo generoso?”  Estas palavras trazem a chave que explica a atitude do patrão e aponta a mensagem que Jesus quer comunicar: (1) O patrão não foi injusto, pois ele agiu de acordo com o que tinha sido combinado com o primeiro grupo de operários: um denário por dia. (2) É decisão soberano do patrão de dar aos últimos o mesmo que tinha sido combinado com os da primeira hora. Estes não têm direito de reclamar. (3) Atuando dentro da justiça, o patrão tem o direito de fazer o bem que ele quer com as coisas que lhe pertencem. O operário da parte dele tem este mesmo direito. (4) A pergunta final toca no ponto central: Ou você está com ciúme porque estou sendo generoso?' Deus é diferente mesmo! Ele não cabe nos nossos pensamentos (Is 55,8-9).

* O pano de fundo da parábola é a conjuntura daquela época, tanto de Jesus como de Mateus. Os operários da primeira hora são o povo judeu, chamado por Deus para trabalhar em sua vinha. Eles sustentaram o peso do dia, desde Abraão e Moisés, bem mais de mil anos. Agora, na undécima hora, Jesus chama os pagãos para ir trabalhar na sua vinha e eles chegam a ter a preferência do coração de Deus. “Assim, os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos”.

Para um confronto pessoal
1) Os da undécima hora chegam, levam vantagem e recebem prioridade na fila diante da entrada do Reino de Deus. Quando você espera duas horas numa fila e chega alguém que, sem mais, se coloca na frente de você, você aceitaria? Dá para comparar as duas situações?
2) A ação de Deus ultrapassa nossos cálculos e nosso jeito humano de atuar. Ele surpreende e às vezes incomoda. Isto já aconteceu alguma vez na sua vida? Qual a lição que tirou?

17 de agosto

 Beato Ângelo Mazzinghi
Presbítero de nossa Ordem
 
De família nobre, nasceu em Florença ou perto desta, em data desconhecida, mas certamente antes de 1386. Entrou no convento do Carmo na capital da Toscana. Foi o primeiro filho da Reforma de Santa Maria das Selvas, da Ordem Carmelita. O nosso Beato veio a ser professor de teologia, várias vezes prior em conventos da Ordem e, depois, provincial da Toscana, consolidando a reforma (Congregação Mantuana). Distinguiu-se na pregação da palavra de Deus. Morreu em Florença em 16 de agosto de 1438. O seu culto foi confirmado por Clemente XIII a 7 de março de 1761. Conservam-se dele, em manuscrito, conferências dirigidas aos seus religiosos, sermões e um comentário dos quatro livros do Mestre das Sentenças.

LAUDES
Hino
Ó Senhor, de ti nos vem
toda a luz e dom perfeito;
só tu és o autor do bem,
que adornou o teu eleito,
 
Tu, que Ângelo abrasaste
de zelo sacerdotal,
e tão valoroso o tornaste
no combate contra o mal.
 
Que a luz do mundo, Senhor,
não se torne em cinza fria!
E o sal, se perde o sabor,
que outra coisa o salgaria?
 
Ajuda-nos, Pai, a rezar;
dá-nos a felicidade
de te podermos louvar
por toda a eternidade.
 
Salmodia, leitura, responsório breve e preces do dia corrente.
 
Cântico evangélico
Ant. Este será abençoado pelo Senhor e recompensado por Deus, seu Salvador, porque esta é a geração dos que procuram o Senhor.
 
Oração
Deus todo-poderoso e eterno, que consagrastes este dia com a gloriosa memória do bem-aventurado Ângelo, fazei que conservemos e manifestemos por obras a fé que ele pregou com incansável ardor. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.
 
VÉSPERAS
Hino
Ângelo, amigo de Deus,
também nosso padroeiro,
ajuda-nos a seguir
por caminho verdadeiro.
 
Servidor do Altíssimo
vigilante e fiel,
ensina-nos a servir
como tu, o Rei que é Deus.
 
Por caminhos de justiça
e por caminhos de amor,
teu exemplo nos conduza
aos convites do Senhor.
 
Louvor a Deus nosso Pai
pela graça que te deu!
Amparai nossa fraqueza
até ao Reino do Céu.
 
Pela glória do teu Santo
nós Te louvamos, Senhor!
Pela sua intercessão
firma-nos no teu amor.
 
A Ti, Deus Pai de bondade,
e a Jesus Nosso Senhor,
e ao Espírito Paráclito,
honra, glória e louvor!
 
Salmodia, leitura, responsório breve e preces do dia corrente.
 
Cântico evangélico
Ant. Vós que deixastes tudo e me seguistes, recebereis cem vezes mais e tereis como herança a vida eterna
 
Oração
Deus todo-poderoso e eterno, que consagrastes este dia com a gloriosa memória do bem-aventurado Ângelo, fazei que conservemos e manifestemos por obras a fé que ele pregou com incansável ardor. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

domingo, 14 de agosto de 2022

Terça-feira da 20ª semana do Tempo Comum

São Roque, leigo
Bta Mª Sacrário de S. Luís de Gonzaga Virgem e Mártir de nossa Ordem

1ª Leitura (Ez 28,1-10): O Senhor dirigiu-me a palavra, dizendo: «Filho do homem, diz ao soberano de Tiro: Assim fala o Senhor Deus: O teu coração encheu-se de orgulho e dizes: ‘Eu sou um deus, estou sentado em trono divino no meio dos mares’. Mas tu que és um homem e não Deus, alimentas em teu coração pretensões divinas! És então mais sábio que Daniel e nenhum segredo é obscuro para ti! Pela tua habilidade e inteligência, adquiriste grandes riquezas e acumulaste ouro e prata nos teus tesouros. Tão grande é a tua habilidade no comércio que multiplicaste a tua fortuna e com ela se encheu de orgulho o teu coração. Por isso, assim fala o Senhor Deus: Porque alimentas em teu coração pretensões divinas, vou fazer que venham estrangeiros contra ti, os mais ferozes de entre os povos. Eles brandirão a espada contra a tua fina habilidade e profanarão o teu esplendor. Far-te-ão descer à cova e morrerás de morte violenta, no meio dos mares. Ainda irás dizer na presença dos teus executores: ‘Eu sou um deus’? Mas tu és um homem e não um deus, nas mãos daqueles que vão matar-te. Terás a morte dos infiéis às mãos dos estrangeiros, porque Eu falei» – diz o Senhor Deus.

Salmo Responsorial:
R. Eu sou o Senhor da morte e da vida.

O Senhor disse: «Vou reduzi-los ao pó da terra e apagar a sua memória de entre os homens. Mas temi a arrogância do inimigo, o desprezo dos seus adversários.

Porque diriam: ‘Triunfou o nosso poder, à nossa força não resiste o seu Deus’; porque são um povo de insensatos, neles não há discernimento.

Como poderia um só homem perseguir mil e dois pôr em fuga dez mil, se o seu Protetor os não tivesse abandonado, se o Senhor não os entregasse às suas mãos?»

Está próximo o dia da ruína, iminente o seu destino, porque o Senhor defenderá o seu povo, terá piedade dos seus servos.

Aleluia. Jesus Cristo, sendo rico, fez-Se pobre, para nos enriquecer na sua pobreza. Aleluia.

Evangelho (Mt 19,23-30): Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: «Em verdade vos digo, dificilmente um rico entrará no Reino dos Céus. E digo ainda: é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha, do que um rico entrar no Reino de Deus». Ouvindo isso, os discípulos ficaram perplexos e perguntaram: «Quem, pois, poderá salvar-se?». Jesus olhou bem para eles e disse: «Para os homens isso é impossível, mas para Deus tudo é possível». Em seguida, Pedro tomou a palavra e disse-lhe: «Olha! Nós deixamos tudo e te seguimos. Que haveremos de receber?». Jesus respondeu: «Em verdade vos digo, quando o mundo for renovado e o Filho do Homem se sentar no trono de sua glória, também vós, que me seguistes, havereis de sentar-vos em doze tronos, para julgar as doze tribos de Israel. E todo aquele que tiver deixado casas, irmãos, irmãs, pai, mãe, filhos ou campos, por causa do meu nome, receberá cem vezes mais e terá como herança a vida eterna. Ora, muitos que são primeiros serão últimos, e muitos que são últimos serão primeiros».

«Dificilmente um rico entrará no Reino dos Céus (...) Quem, pois, poderá salvar-se?»

Rev. D. Fernando PERALES i Madueño (Terrassa, Barcelona, Espanha)

Hoje, contemplamos a reação que suscitou entre os ouvintes o diálogo do jovem rico com Jesus: «Quem, pois, poderá salvar-se?» (Mt 19,25). As palavras do Senhor dirigidas ao jovem rico são manifestamente duras, pretendem surpreender, despertar as nossas sonolências. Não se trata de palavras isoladas, acidentais no Evangelho: repete vinte vezes este tipo de mensagem. Devemos recordá-lo: Jesus adverte contra os obstáculos que implicam as riquezas, para entrar na vida...

E, no entanto, Jesus amou e chamou homens ricos, sem lhes exigir que abandonassem as suas responsabilidades. A riqueza em si mesma não é má, a não ser que a sua origem tenha sido adquirida de forma injusta, ou o seu destino, que se utilize de forma egoísta sem ter em conta os mais desfavorecidos, se fecha o coração aos verdadeiros valores espirituais (onde não há necessidade de Deus).

«Quem, pois, poderá salvar-se?». Jesus responde: «Para os homens isso é impossível, mas para Deus tudo é possível». (Mt 19,26). «Senhor, tu conheces bem as habilidades dos homens para atenuar a tua Palavra. Tenho que o dizer, Senhor ajuda-me! Converte o meu coração».

Depois do jovem rico ter ido embora, entristecido pelo seu apego às suas riquezas, Pedro tomou a palavra e disse: «Concede, Senhor, à tua Igreja, aos teus Apóstolos que sejam capazes de deixar tudo por Ti».

«Quando o mundo for renovado e o Filho do Homem se sentar no trono de sua glória?» (Mt 19,28). O Teu pensamento dirige-se para esse “dia”, até esse futuro. Tu és um homem com tendência para o fim do mundo, para a plenitude do homem. Nesse tempo, Senhor, tudo será novo, renovado, belo.

Jesus Cristo diz-nos: «Vós que deixastes tudo pelo Reino, vos sentareis com o Filho do Homem... Recebereis cem vezes mais do que tiveres deixado... E herdareis a vida eterna...» (cf. Mt 19,28-29).

O futuro que Tu prometes aos teus, aos que te seguiram renunciando a todos os obstáculos... É um futuro feliz, é a abundância da vida, é a plenitude divina.
«Obrigado, Senhor. Conduz-me até esse dia!».

Pensamentos para o Evangelho de hoje
«É mais fácil o sol não brilhar ou não aquecer do que um cristão deixar de iluminar. Não inflija uma ofensa a Deus! se ordenarmos bem a nossa conduta, tudo o resto se seguirá como consequência natural» (São João Crisóstomo)

«A vocação cristã é antes de tudo um apelo de amor que atrai e remete para algo além de si mesmo, para a sua libertação na entrega de si» (Bento XVI)

«A Igreja ora para que ninguém se perca: ‘Senhor [...], não permitais que eu me separe de Vós’. Sendo verdade que ninguém se pode salvar a si mesmo, também é verdade que ‘Deus quer que todos se salvem’ (1Tm 2,4) e que a Ele ‘tudo é possível’ (Mt 19, 26)» (Catecismo da Igreja Católica, nº 1058)

Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm.

* O evangelho de hoje é a continuação imediata do evangelho de ontem. Traz o comentário de Jesus a respeito da reação negativa do jovem rico.

* Mateus 19,23-24: O camelo e o fundo da agulha. Depois que o jovem foi embora,  Jesus comentou a decisão dele e disse: "Eu garanto a vocês: um rico dificilmente entrará no Reino do Céu. E digo ainda: é mais fácil um camelo entrar pelo buraco de uma agulha, do que um rico entrar no Reino de Deus". Duas observações a respeito desta afirmação de Jesus: 1) O provérbio do camelo e do buraco da agulha se usava para dizer que uma coisa era impossível e inviável, humanamente falando. 2) A expressão “um rico entrar no Reino” trata, não em primeiro lugar da entrada no céu depois da morte, mas sim da entrada na comunidade ao redor de Jesus. E até hoje é assim. Os ricos dificilmente entram e se sentem em casa nas comunidades que tentam viver o evangelho de acordo com as exigências de Jesus e que procuram abrir-se para os pobres, os migrantes e os excluídos da sociedade.

* Mateus 19,25-26: O espanto dos discípulos. O jovem tinha observado os mandamentos, mas sem entender o porquê da observância. Algo semelhante estava acontecendo com os discípulos. Quando Jesus os chamou, fizeram exatamente o que Jesus tinha pedido ao jovem: largaram tudo e foram atrás de Jesus (Mt 4,20.22). Mesmo assim, ficaram espantados com a afirmação de Jesus sobre a quase impossibilidade de um rico entrar no Reino de Deus. Sinal de que não tinham entendido bem a resposta de Jesus ao moço rico: “Vai vende tudo, dá para os pobres e vem e segue-me!” Pois, se o tivessem entendido, não teriam ficado tão chocados com a exigência de Jesus. Quando a riqueza ou o desejo da riqueza ocupa o coração e o olhar, a pessoa já não consegue perceber o sentido da vida e do evangelho. Só Deus mesmo para ajudar! "Para os homens isso é impossível, mas para Deus tudo é possível."

*  Mateus 19,27: A pergunta de Pedro. O pano de fundo da incompreensão dos discípulos transparece na pergunta de Pedro: “Olhe, nós deixamos tudo e te seguimos. O que é que vamos receber?” Apesar da generosidade tão bonita do abandono de tudo, eles mantinham a mentalidade anterior. Abandonaram tudo para receber algo em troca. Ainda não entendiam bem o sentido do serviço e da gratuidade.

*  Mateus 19,28-30: A resposta de Jesus. "Eu garanto a vocês: no mundo novo, quando o Filho do Homem se sentar no trono de sua glória, vocês, que me seguiram, também se sentarão em doze tronos para julgar as doze tribos de Israel. E todo aquele que tiver deixado casas, irmãos, irmãs, pai, mãe, filhos, campos, por causa do meu nome, receberá muitas vezes mais, e terá como herança a vida eterna. Muitos que agora são os primeiros, serão os últimos; e muitos que agora são os últimos, serão os primeiros".  Nesta resposta, Jesus descreve o mundo novo, cujos fundamentos estavam sendo lançados pelo trabalho dele e dos discípulos. Jesus acentua três pontos importantes: (1) Os discípulos vão sentar-se nos doze tronos junto com Jesus para julgar as doze tribos de Israel (cf. Ap 4,4). (2) Vão receber em troca muitas vezes aquilo que tinham abandonado casas, irmãos, irmãs, pai, mãe, filhos, campos, e terão a herança da vida eterna garantida. (3) O mundo futuro será a inversão do mundo atual. Nele os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos. A comunidade ao redor de Jesus é semente e amostra deste mundo novo. Até hoje as pequenas comunidades dos pobres continuam sendo semente e amostra do Reino.

*  Cada vez que, na história do povo da Bíblia, surge um movimento para renovar a Aliança, ele começa restabelecendo os direitos dos pobres, dos excluídos. Sem isto, a Aliança não se refaz! Assim faziam os profetas, assim faz Jesus. Ele denuncia o sistema antigo que, em nome de Deus, excluía os pobres. Jesus anuncia um novo começo que, em nome de Deus, acolhe os excluídos. Este é o sentido e o motivo da inserção e da missão da comunidade de Jesus no meio dos pobres. Ela atinge a raiz e inaugura a Nova Aliança.

Para um confronto pessoal
1) Abandonar casas, irmãos, irmãs, pai, mãe, filhos, campos, por causa do nome de Jesus.  Como isto acontece na sua vida? O que já recebeu de volta?
2) Hoje, a maioria dos países pobres não é da religião cristã, enquanto a maioria dos países ricos é da religião cristã. Como se aplica hoje o provérbio do camelo que não passa pelo fundo de uma agulha?

16 de agosto

 Beata Maria Sacrário de São Luís de Gonzaga
Virgem e Mártir de nossa Ordem
 
Maria Sacrário de São Luís Gonzaga nasceu em Lillo, Província de Toledo, Espanha, no dia 8 de janeiro de 1881. Fez o curso de Farmácia, sendo uma das primeiras mulheres que alcançaram o título na Espanha. Em 1915, entrou no mosteiro das Carmelitas Descalças de Santa Ana e São José de Madri, demonstrando ser uma mulher de “caráter forte e enérgico, capaz de levar até ao fim os mais altos ideais de santidade”, como foi testemunhado pela sua Mestra de noviças.  No início de julho de 1936, Madre Maria Sacrário foi de novo eleita Priora da comunidade, e após alguns dias o Carmelo foi assaltado por uma multidão violenta que saqueou e destruiu muitas coisas. No dia 14 de agosto desse mesmo ano, os soldados levaram a Madre prisioneira. No dia 15 de agosto ela foi fuzilada, concretizando-se assim o seu desejo de morrer mártir por Cristo, imolando-se pelo bem da Igreja.
 
Salmodia, leitura, responsório breve e preces do dia corrente.
 
Oração
Deus, Pai de bondade e fonte de toda santidade, que destes a vossa serva, a beata Maria Sacrário de São Luiz Gonzaga o dom da fortaleza para suportar os tormentos do martírio, concedei-nos que seguindo seu exemplo, nossa vida seja uma oferenda agradável a vossos olhos, e participemos também da graça do martírio pelo cumprimento fiel de vossa santa vontade em todos os momentos de nossa vida. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco, na unidade do Espírito Santo.

sábado, 13 de agosto de 2022

15 de agosto: Assunção de Nossa Senhora

1ª Leitura (Ap 11,19; 12,1.3-6.10): O templo de Deus abriu-se no Céu e a arca da aliança foi vista no seu templo. Apareceu no Céu um sinal grandioso: uma mulher revestida de sol, com a lua debaixo dos pés e uma coroa de doze estrelas na cabeça. Estava para ser mãe e gritava com as dores e ânsias da maternidade. E apareceu no Céu outro sinal: um enorme dragão cor de fogo, com sete cabeças e dez chifres e nas cabeças sete diademas. A cauda arrastava um terço das estrelas do céu e lançou-as sobre a terra. O dragão colocou-se diante da mulher que estava para ser mãe, para lhe devorar o filho, logo que nascesse. Ela teve um filho varão, que há de  reger todas as nações com ceptro de ferro. O filho foi levado para junto de Deus e do seu trono e a mulher fugiu para o deserto, onde Deus lhe tinha preparado um lugar. E ouvi uma voz poderosa que clamava no Céu: «Agora chegou a salvação, o poder e a realeza do nosso Deus e o domínio do seu Ungido».

Salmo Responsorial: 44
R. À vossa direita, Senhor, a Rainha do Céu, ornada do ouro mais fino.

Ao vosso encontro vêm filhas de reis, à vossa direita está a rainha, ornada com ouro de Ofir. Ouve, minha filha, vê e presta atenção, esquece o teu povo e a casa de teu pai.

Da tua beleza se enamora o Rei; Ele é o teu Senhor, presta-Lhe homenagem. Cheias de entusiasmo e alegria, entram no palácio do Rei.

2ª Leitura (1Cor 15,20-27): Irmãos: Cristo ressuscitou dos mortos, como primícias dos que morreram. Uma vez que a morte veio por um homem, também por um homem veio a ressurreição dos mortos; porque, do mesmo modo que em Adão todos morreram, assim também em Cristo serão todos restituídos à vida. Cada qual, porém, na sua ordem: primeiro, Cristo, como primícias; a seguir, os que pertencem a Cristo, por ocasião da sua vinda. Depois será o fim, quando Cristo entregar o reino a Deus seu Pai depois de ter aniquilado toda a soberania, autoridade e poder. É necessário que Ele reine, até que tenha posto todos os inimigos debaixo dos seus pés. E o último inimigo a ser aniquilado é a morte, porque Deus tudo colocou debaixo dos seus pés. Mas quando se diz que tudo Lhe está submetido é claro que se exceptua Aquele que Lhe submeteu todas as coisas.

Aleluia. Maria foi elevada ao Céu: alegra-se a multidão dos Anjos. Aleluia.

Evangelho (Lc 1,39-56): Naqueles dias, Maria partiu apressadamente para a região montanhosa, dirigindo-se a uma cidade de Judá. Ela entrou na casa de Zacarias e saudou Isabel. Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança pulou de alegria em seu ventre, e Isabel ficou repleta do Espírito Santo. Com voz forte, ela exclamou: «Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre! Como mereço que a mãe do meu Senhor venha me visitar? Logo que a tua saudação ressoou nos meus ouvidos, o menino pulou de alegria no meu ventre. Feliz aquela que acreditou, pois o que lhe foi dito da parte do Senhor será cumprido!». Maria então disse: «A minha alma engrandece o Senhor, e meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador, porque ele olhou para a humildade de sua serva. Todas as gerações, de agora em diante, me chamarão feliz, porque o Poderoso fez para mim coisas grandiosas. O seu nome é santo, e sua misericórdia se estende de geração em geração sobre aqueles que o temem. Ele mostrou a força de seu braço: dispersou os que tem planos orgulhosos no coração. Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes. Encheu de bens os famintos, e mandou embora os ricos de mãos vazias. Acolheu Israel, seu servo, lembrando-se de sua misericórdia, conforme prometera a nossos pais, em favor de Abraão e de sua descendência, para sempre». Maria ficou três meses com Isabel. Depois, voltou para sua casa.

«A minha alma engrandece o Senhor, e meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador»

Dom Josep ALEGRE Abade emérito de Santa Mª Poblet (Tarragona, Espanha)

Hoje celebramos a solenidade da Assunção de Santa Maria em corpo e alma aos Céus. «Hoje diz São Bernardo sobe ao Céu a Virgem cheia de glória e enche de gozo os cidadãos celestes». E acrescentará essas preciosas palavras: «Que presente mais maravilhoso nossa terra envia hoje ao Céu! Com esse gesto sublime de amizade que é dar e receber se fundem o humano e o divino, o terreno e o celeste, o humilde e o nobre. O fruto mais escolhido da terra está aí, de onde procedem as melhores dádivas, e as oferendas, de maior valor. Elevadas às alturas, a Virgem Santa esbanjará suas graças aos homens».

A primeira graça é a Palavra, que Ela soube guardar com tanta fidelidade no coração e fazê-la frutificar desde seu profundo silêncio acolhedor. Com esta Palavra em seu espaço interior, gerando a Vida em seu ventre para os homens, «Maria partiu apressadamente para a região montanhosa, dirigindo-se a uma cidade de Judá. Ela entrou na casa de Zacarias e saudou Isabel» (Lc 1,39-40). A presença de Maria fez a alegria transbordar: «Logo que a tua saudação ressoou nos meus ouvidos, o menino pulou de alegria no meu ventre» (Lc 1,44), exclama Isabel.

Principalmente, nos faz o dom de seu louvor, sua mesma alegria feita canto, seu Magnificat: «A minha alma engrandece o Senhor, e meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador...» (Lc 1,46-47). Que presente mais formoso nos devolve hoje o céu com o canto de Maria, feito Palavra de Deus! Neste canto achamos os indícios para aprender como se fundem o humano e o divino, o terreno e o celeste, e chegar a responder como Ela ao presente que nos faz Deus em seu Filho, através de sua Santa Mãe: para ser um presente de Deus para o mundo e, amanhã, um presente de nossa humanidade a Deus, seguindo o exemplo de Maria, que nos precede nesta glorificação à qual estamos destinados.

Pensamentos para o Evangelho de hoje
«A festa da Assunção de Nossa Senhora nos propõe a realidade dessa alegre esperança. Ainda somos peregrinos, mas Nossa Mãe nos precedeu e já nos indica o fim do caminho: Ela nos repete que é possível chegar e que, se formos fiéis, chegaremos» (São Josemaria)

«Nesta Solenidade da Assunção olhamos para Maria: Ela nos leva à esperança, a um futuro cheio de alegria e nos ensina o caminho para alcançá-lo: acolher o seu Filho na fé; nunca perder a amizade com Ele, mas deixar-se iluminar e guiar pela sua palavra» (Bento XVI)

«Terminado o curso da sua vida terrena, a santíssima Virgem Maria foi elevada em corpo e alma para a glória do céu, onde participa já na glória da ressurreição do seu Filho, antecipando a ressurreição de todos os membros do Seu Corpo» (Catecismo da Igreja Católica, nº 974)

Vós não quisestes que sofresse a corrupção do túmulo Aquela que gerou e deu à luz o Autor da vida, vosso Filho feito homem.

Fernando Armellini – Celebrando a palavra “Festas” – Editora Ave Maria

Se interpretarmos essa narrativa como um trecho de crônica, deveremos perguntar-nos como é que pôde Lucas escrever isso. O gesto de Maria, que vai congratular-se com a prima que recebeu de Deus o suspirado dom da maternidade, é, sem dúvida nenhuma, um belo ato de cortesia, mas trata-se sempre de um episódio marginal, não constitui uma etapa significativa na vida de Jesus e não representa um importante ponto de referência para a nossa fé. Qual foi a razão importante que levou Lucas a inseri-lo no seu evangelho?

Uma segunda observação: algumas particularidades dessa narrativa são um tanto estranhas. Todas as mães falam de movimentos do filho que trazem no ventre, descrevem as diversas maneiras com que ele reage e mostra que percebe as emoções e as sensações da mãe. Não obstante nós nos perguntamos como Isabel fez para estabelecer que o sobressalto de seu filho era provocado pela alegria. Não é fácil nem mesmo explicar a pressa de Maria (v. 39) para ir visitar a prima que estava no sexto mês de gravidez. É costume dizer que correu a ajudá-la, mas então não se entende como voltou para sua casa três meses depois (v. 56), isto exatamente no momento do parto, quando Isabel, provavelmente, teria tido maior necessidade de assistência.

Uma terceira observação – e é a mais importante: Maria e Isabel, em vez de conversarem de forma simples, como acontece entre amigas, dirigem-se, mutuamente, frases tiradas da Bíblia e escolhidas com muito cuidado. Frases que se referem a episódios e a personagens do Antigo Testamento, escolhidas com cuidado e competência impressionantes. Mais que a uma troca de frases entre mulheres do povo, a impressão que temos é que nos encontramos diante de um diálogo entre dois biblistas muito preparados.

Vejam bem: o evangelho não é uma coletânea de informações, escritas para satisfazer a curiosidade do leitor, mas é um texto de catequese. Tem o objetivo de alimentar a fé do discípulo e quer levar a compreender quem é esse Jesus ao qual somos convidados a dar a nossa adesão. Para entender a mensagem é sempre necessário ter presente a linguagem empregada quando o texto foi escrito e prestar muita atenção às referências – umas vezes explícitas, outras vezes um tanto veladas – ao Antigo Testamento.

Depois dessa premissa, procuremos entender o que é que Lucas nos quer ensinar na passagem evangélica de hoje.

1. Comecemos pela anotação, aparentemente banal e supérflua, com que se inicia a narrativa: assim que entrou na casa de Zacarias, Maria “saudou Isabel” (v. 40). Se se tratasse do costumeiro “bom dia”, o evangelista não o teria salientado. Se o coloca em realce, quer dizer que para ele esta saudação é significativa e, de fato, no versículo seguinte recorda-a novamente: “ouvida a saudação” o menino exultou de alegria.

Os judeus daquele tempo, tal qual os judeus de agora, quando se encontram, dirigem-se uma única saudação: “Paz (shalom)”. A paz indica o acúmulo de todos os bens que Deus prometeu ao seu povo. O estabelecimento da “paz” no mundo é o sinal da presença do Messias. O salmista prometeu: “Florescerá em seus dias a justiça e a abundância da paz, até que cesse a lua de brilhar” (SI 71,7). O Messias é chamado pelo profeta Isaías de “Príncipe da paz” (Is 9,5).

Nos lábios de Maria a palavra “paz” é, pois, uma solene proclamação de que chegou ao mundo o esperado Messias e que com ele teve início o reino de Deus anunciado pelos profetas. Como Maria na montanha da Judéia, como os anjos que em Belém cantaram: “E na terra paz aos homens, objetos da benevolência divina” (Lc 2,14), hoje os discípulos de Cristo desejam a todos somente a paz. “Em toda casa que entrardes – recomenda Jesus – dizei primeiro: Paz a esta casa!” (Lucas 10,5). Perguntamo-nos: as nossas comunidades anunciam a paz? O encontro com um cristão comunica serenidade, alegria, paz? Anunciamos a paz só com a palavra ou a construímos com a nossa vida?

2. As palavras que Isabel dirige a Maria: “Bendita és tu entre as mulheres” não são originais. No Antigo Testamento existem duas mulheres que são saudadas do mesmo modo: trata-se de Jael (Jz 5,24) e de Judite (Jt 13,23). O que elas fizeram de extraordinário? Elas chegaram (empresa inaudita para as mulheres) a aniquilar os opressores do seu povo. A Bíblia não recorda essas histórias para aprovar a guerra, mas só para mostrar, com exemplos compreensíveis para a mentalidade do tempo, como Deus costuma realizar feitos maravilhosos servindo-se de instrumentos inadaptados e sem valor aos olhos dos homens. Aplicando a Maria essa mesma frase, Lucas quer afirmar que também ela pertence à categoria dos instrumentos frágeis e pobres com os quais Deus executa as suas maravilhas. Por intermédio de Maria Deus realizou o acontecimento mais extraordinário da história: deu aos homens o seu Filho. Quem são as pessoas que hoje consideramos “benditas”: as que conseguiram enriquecer, as que obtiveram sucesso, as que se tornaram famosas e importantes. E a irmã de caridade velhinha, talvez esquecida por todos, que gastou sua vida cuidando dos leprosos em uma floresta africana, é ou não “bendita entre as mulheres”?

3. Isabel continua: “Donde me vem esta honra de vir a mim a mãe do meu Senhor?” (v. 43). Também esta frase é copiada do Antigo Testamento. Foi pronunciado por Davi em um momento muito solene, quando se transportou para Jerusalém a arca da aliança na qual se entendia estar presente o Senhor. Ao acolhê-la o rei exclamou: “Como entrará a arca do Senhor em minha casa?” (2Sm 6,9).

Existem também outras particularidades significativas que põem a visita de Maria em paralelo com o episódio da arca da aliança: tanto Maria quanto a arca permanecem “três meses” em uma casa da Judéia. A arca é recebida com danças, gritos de alegria cantos de festas e é motivo de bênçãos para a família que a acho-lhe (2Sm 6,10-11) e Maria, entrando na casa de Zacarias, faz exultar de alegria o pequeno João Batista (que representa todo o povo do Antigo Testamento que aguarda o Messias).

É evidente que Lucas procura apresentar Maria como a nova arca da aliança. Desde que Deus escolheu fazer-se homem, não habita mais em construções de pedra, em um templo, em um lugar sagrado, mas no ventre de uma mulher. O filho de Maria é o próprio Senhor.

Qual pode ser o ensinamento para nós? Levar o Senhor dentro de si não é um privilégio reservado a Maria. Toda a nossa comunidade, cada um de nós é chamado a ser, tal qual Maria, “arca da aliança”, a nós é confiada a tarefa de levar o Senhor aos homens.

4. Existe um sinal evidente que permite verificar se os cristãos de hoje são “arca da aliança”: é a alegria. Onde quer que chegue, Maria provoca uma explosão de alegria – o pequeno Batista exulta de felicidade (v. 41), Isabel proclama a sua alegria por ser visitada pelo Senhor (v. 42), os pobres exultam porque chegou o momento da sua libertação (vv. 46-48).

Procuremos perguntar-nos: a presença dos cristãos nos vários ambientes, no trabalho, nas escolas, nos hospitais, nas festas, nos encontros dos políticos provoca sempre alegria ou é, às vezes, motivo de tristeza? As nossas comunidades comunicam alegria e esperança a todos os habitantes dos povoados e da cidade? Os pobres, aqueles que erraram na vida, quando nos encontram e quando nos escutam se entristecem, têm medo ou exultam?

5. Maria é proclamada “bem-aventurada” porque acreditou no cumprimento das palavras do Senhor (v. 45). Quantas promessas Deus fez pela boca dos profetas! Quando, porém, elas demoraram para realizar-se, os homens duvidaram da fidelidade do Senhor. Preferiram confiar em si mesmos, nos seus raciocínios, nos seus projetos e acabaram por ir ao encontro de insucessos sistemáticos. Maria ao invés é “bem-aventurada” porque confiou em Deus, cultivou a certeza de que, não obstante todas as aparências contrárias, a palavra do Senhor se cumpriria.

“Bem-aventurada és tu que creste”. E essa a primeira bem-aventurança que se encontra no evangelho de Lucas. Maria é bem-aventurada não porque viu, mas porque confiou na palavra de Deus. No evangelho de João esta mesma bem-aventurança encontramo-la no fim. O Ressuscitado a dirige a Tomé: “Felizes os que creem sem ter visto” (Jo 20,29). A fé autêntica – aquela da qual Maria dá prova – não necessita de demonstrações, de verificações, mas funda-se somente sobre a escuta da Palavra e se manifesta na adesão incondicional à própria Palavra.

Não é fácil acreditar especialmente quando nos é pedido que procedamos contra o nosso “bom senso”. E preciso muita coragem para crer que se realizarão as promessas feitas por Deus aos construtores da paz, aos não-violentos, aos que oferecem a outra face, a quem não se vinga, a quem dá a vida por amor. Maria nos ensina que vale a pena confiar nas palavras do Senhor sempre.

6. O trecho evangélico conclui-se com o canto de alegria de Maria: “minha alma glorifica ao Senhor”. Se o lermos com atenção, notaremos por certo que alguns versículos não se ajustam bem nos lábios de Maria. Por exemplo, não é simpático vê-la vangloriar-se da própria “humildade”, ou ouvi-la proclamar: “me proclamarão bem-aventurada todas as gerações”, e também: “realizou em mim maravilhas aquele que é poderoso” (vv. 48-49). Parece que ela pensa só em si mesma e não faz menção nenhuma ao menino que nascerá dela. De fato, este canto, que é copiado do Antigo Testamento, repete quase ao pé da letra as palavras da mãe de Samuel (1Sm 2,1-11) e versículos de alguns salmos.
 
Os biblistas de nossos dias concordam em entender que o “Magnificat” é um canto composto depois da Ressurreição de Cristo. Originalmente era atribuído à “virgem” Israel (o povo de Israel na língua hebraica é feminino), pobre, humilhada, desprezada por todos os povos vizinhos (ricos e poderosos). Depois da Ressurreição, quando os cristãos entenderam que Jesus era o Messias, certificaram-se de que Deus, fiel ao seu pacto e às suas promessas, magnificara a “virgem” Israel, “virgem” que todos os povos para sempre chamarão de bem-aventurada. Lucas retomou este canto e o pôs nos lábios de Maria. É ela efetivamente a virgem Israel porque é dela que nasceu o Salvador. Neste hino são significativas sete intervenções salvíficas do Senhor em favor do seu povo {explicou, dispersou, arruinou, exaltou, preencheu, despediu, socorreu). Assim ele se mostrou fiel às promessas feitas “aos pais, a Abraão e à sua descendência para sempre” (vv. 51 -55).