sábado, 31 de outubro de 2026

2 de novembro: Comemoração de todos os fiéis defuntos

1ª Leitura (Sab Job 19, 1.23-27a ):
Job tomou a palavra e disse: «Quem dera que as minhas palavras fossem escritas num livro, ou gravadas em bronze com estilete de ferro, ou esculpidas em pedra para sempre! Eu sei que o meu Redentor está vivo e no último dia Se levantará sobre a terra. Revestido da minha pele, estarei de pé; na minha carne verei a Deus. Eu próprio O verei, meus olhos O hão de contemplar».
 
Salmo Responsorial: 26
R. Espero contemplar a bondade do Senhor na terra dos vivos.
 
O Senhor é minha luz e salvação: a quem hei de temer? O Senhor é o protetor da minha vida: de quem hei de ter medo?
 
Uma coisa peço ao Senhor, por ela anseio: habitar na casa do Senhor todos os dias da minha vida, para gozar da suavidade do Senhor e visitar o seu santuário.
 
Ouvi, Senhor, a voz da minha súplica, tende compaixão de mim e atendei-me. A vossa face, Senhor, eu procuro: não escondais de mim o vosso rosto.
 
Espero vir a contemplar a bondade do Senhor na terra dos vivos. Confia no Senhor, sê forte. Tem coragem e confia no Senhor.
 
2ª Leitura (Rom 2 Cor 4, 14 – 5, 1 ): Como sabemos, irmãos, Aquele que ressuscitou o Senhor Jesus também nos há-de ressuscitar com Jesus e nos levará convosco para junto d’Ele. Tudo isto é por vossa causa, para que uma graça mais abundante multiplique as ações de graças de um maior número de cristãos para glória de Deus. Por isso, não desanimamos. Ainda que em nós o homem exterior se vá arruinando, o homem interior vai-se renovando de dia para dia. Porque a ligeira aflição dum momento prepara-nos, para além de toda e qualquer medida, um peso eterno de glória. Não olhamos para as coisas visíveis, olhamos para as invisíveis: as coisas visíveis são passageiras, ao passo que as invisíveis são eternas. Bem sabemos que, se esta tenda, que é a nossa morada terrestre, for desfeita, recebemos nos Céus uma habitação eterna, que é obra de Deus e não é feita pela mão dos homens.
 
Aleluia. Bendito sejais, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque revelastes aos pequeninos os mistérios do reino. Aleluia.
 
Evangelho (Lc 23,33.39-43): Quando chegaram ao lugar chamado Calvário, ali crucificaram Jesus e os malfeitores: um à sua direita e outro à sua esquerda. Um dos malfeitores crucificados o insultava, dizendo: Tu não és o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós! Mas o outro o repreendeu: Nem sequer temes a Deus, tu que sofres a mesma pena? Para nós, é justo sofrermos, pois estamos recebendo o que merecemos; mas ele não fez nada de mal. E acrescentou: Jesus, lembra-te de mim, quando começares a reinar. Ele lhe respondeu: Em verdade te digo: hoje estarás comigo no Paraíso
 
«Construís os túmulos dos profetas! No entanto, foram vossos pais que os mataram»
 
Frei. Agustí BOADAS Llavat OFM (Barcelona, Espanha)
 
Hoje, o Evangelho recorda o fato fundamental do Cristianismo: a morte e ressurreição de Jesus. Façamos nossa, agora, a oração do Bom Ladrão: Jesus, lembra-te de mim (Lc 23, 42). A Igreja não reza pelos santos como ora pelos defuntos, que dormem no Senhor, mas encomenda-se às orações daqueles e reza por estes, diz Sto. Agostinho num Sermão. Pelo menos uma vez por ano nós, os cristãos, questionamo-nos sobre o sentido da nossa vida e sobre o sentido da nossa morte e ressurreição. É no dia da comemoração dos fiéis defuntos, da qual Sto. Agostinho nos apontou a diferença em relação à festa de Todos os Santos.
 
Os sofrimentos da Humanidade são os sofrimentos da Igreja e têm em comum, sem dúvida, o fato de todo o sofrimento ser de algum modo privação de vida. Por isso a morte de um ser querido nos causa uma dor tão indescritível que nem a fé sozinha consegue aliviá-la. Assim, os homens sempre quiseram honrar os defuntos. Na verdade, a memória é uma forma de fazer com que os ausentes estejam presentes, de perpetuar a sua vida. Mas os mecanismos psicológicos e sociais, com o tempo, amortecem as recordações. E se, humanamente, esse fato pode levar à angústia, os cristãos, graças à ressurreição, têm paz. A vantagem de nela crermos é que nos permite confiar em que, apesar do esquecimento, voltaremos a encontrar-nos na outra vida.
 
Uma segunda vantagem de crermos consiste em que, ao recordar os defuntos, rezamos por eles. Fazemo-lo no nosso interior, na intimidade com Deus, e cada vez que rezamos juntos, na Eucaristia: não estamos sós perante o mistério da morte e da vida, antes o compartilhamos como membros do Corpo de Cristo. Mais ainda: ao ver a cruz, suspensa entre o céu e a terra, sabemos que se estabelece uma comunhão entre nós e os nossos defuntos. Por isso S. Francisco proclamou agradecido: Louvado sejas, Senhor, pela nossa irmã, a morte corporal.
 
Pensamentos para o Evangelho de hoje
«Por que duvidar que os nossos sacrifícios pelos defuntos lhes levem algum consolo? Não hesitemos, pois, em socorrer os que já partiram e em oferecer as nossas orações por eles» (São João Crisóstomo)
 
«Finalmente seremos revestidos pela alegria, paz e amor de Deus de uma forma completa, sem qualquer limite, e estaremos cara a cara com Ele! É belo pensar nisto! Pensar no céu é belo. Dá força à alma» (Francisco)
 
«A comunhão com os defuntos. Reconhecendo claramente esta comunicação de todo o Corpo místico de Cristo, a Igreja dos que ainda peregrinam venerou, com muita piedade, desde os primeiros tempos do cristianismo, a memória dos defuntos; e, porque é um pensamento santo e salutar rezar pelos mortos, para que sejam livres de seus pecados, por eles ofereceu também sufrágios. A nossa oração por eles pode não só ajudá-los, mas também tornar mais eficaz a sua intercessão em nosso favor» (Catecismo da Igreja Católica, nº 958)
 
“Hoje estarás comigo no Paraíso.”
 
Aldenir Araújo
 
* I. O desespero humano no momento final
A. O malfeitor zombador representa a humanidade endurecida pelo pecado, que ainda exige provas mesmo diante da cruz.
B. Seu tom de escárnio (“Salva-te a ti mesmo e a nós”) revela a mentalidade do mundo: Deus deve servir aos nossos interesses.
C. Muitos hoje vivem como se a graça fosse um direito, não um dom.
D. O desespero, quando não se volta para Deus, gera amargura e blasfêmia.
E. Onde estamos colocando nossas expectativas? Em sinais e maravilhas, ou na Pessoa de Cristo? Mateus 12:39; 1 Coríntios 1:23.
 
* II. O arrependimento que nasce na Cruz
A. O segundo criminoso reconhece sua culpa com humildade: “Nós, com justiça… este nenhum mal fez.”
B. Ele não minimiza seu pecado nem busca justificativas — há transparência diante de Deus.
C. Seu temor a Deus (“Nem sequer temes a Deus?”) mostra que o verdadeiro arrependimento começa com reverência.
D. O grego phobeō (temer) aqui não é terror, mas santo respeito que leva à submissão.
E. Arrependimento genuíno não pede livramento da cruz, mas presença de Cristo nela. Salmo 51:17; 2 Coríntios 7:10.
 
* III. A inocência de Cristo, reconhecida por um pecador
A. Curiosamente, um criminoso percebe o que sacerdotes, escribas e até discípulos não viram plenamente naquele momento.
B. Cristo é chamado de “justo” (dikaios em grego), ecoando Isaías 53:11: “Meu servo justo justificará a muitos.”
C. A inocência de Jesus não é teórica — é prática, provada em Sua resposta cheia de graça.
D. Sua ausência de defesa (Is 53:7) contrasta com a justiça exigida pelo ladrão arrependido.
E. Verdade eterna: Só quem vê a santidade de Cristo é capaz de se enxergar pecador. Lucas 23:47; Atos 3:14.
 
* IV. A coragem de crer contra toda esperança
A. O criminoso não vê milagres, não vê exércitos celestes — só um homem sangrando ao seu lado.
B. Mesmo assim, professa fé no “reino” de Jesus — algo invisível, futuro, mas real.
C. Sua oração é simples, mas poderosa: “Lembra-te de mim.”
D. Essa é a essência da fé salvífica: confiar na promessa, não nas circunstâncias.
E. Nossa fé resiste quando tudo desmorona? Romanos 4:18; Hebreus 11:1.
 
* V. A Graça que não espera pelo mérito
A. Jesus não diz: “Você será salvo quando…” ou “Se você fizer isso primeiro…”
B. A resposta é imediata, incondicional e definitiva: “Hoje estarás comigo.”
C. A palavra “hoje” (sēmeron em grego) enfatiza a certeza e a urgência da salvação.
D. Não houve purgatório, não houve “segunda chance” — houve graça no momento exato.
E. Doutrina central: A salvação é pela graça, mediante a fé, e isso não vem de nós (Ef 2:8–9). Tito 3:4–5; Romanos 5:8.
 
* VI. O Paraíso restaurado pela Cruz
A. “Paraíso” não é apenas um lugar, mas uma condição de comunhão íntima com Deus.
B. Adão perdeu o Éden; Cristo reabre o caminho na cruz.
C. Estar “comigo” é o cerne da promessa — não é uma recompensa abstrata, mas relacionamento pessoal.
D. Jesus não promete riquezas, saúde ou sucesso, mas Sua presença eterna.
E. Visão escatológica: O céu começa quando Cristo habita em nós — hoje. Apocalipse 2:7; 22:1–2; João 14:3.
 
* Conclusão:
Irmãos, a cruz revela duas respostas diante do sofrimento e da graça divina. Um coração endurecido que exige que Deus prove Sua bondade, e um coração quebrantado que crê mesmo sem entender. O ladrão arrependido não teve tempo para grandes feitos, mas teve um coração pronto para crer.
E Jesus — o Rei crucificado — não exigiu perfeição, apenas fé. Ele não disse “talvez”, “depois” ou “se merecer”. Disse: “Hoje”. Hoje há esperança. Hoje há perdão. Hoje há paraíso para quem se volta a Ele com sinceridade.
Que este texto nos lembre que nunca é tarde demais para clamar por misericórdia — mas que também nunca devemos adiar o dia da salvação. Porque o “hoje” de Deus é agora.
 
* Aplicação prática:
1.  Examine seu coração diante da cruz: Você está zombando da graça ou suplicando por ela?
2.  Confesse seus pecados com transparência, como fez o ladrão — sem justificativas, com humildade.
3.  Creia na promessa de Cristo, mesmo quando não há evidências visíveis de mudança.
4.  Não subestime a graça: ninguém é “muito pecador” demais para ser salvo.
5.  Viva como quem já pertence ao paraíso: com esperança, bondade e testemunho, mesmo na dor.
Que o Senhor nos conceda a fé simples e corajosa daquele homem na cruz — e que, como ele, possamos ouvir de Jesus: “Hoje estarás comigo no paraíso.” Amém.

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

1º de novembro: Solenidade de Todos os Santos

1ª Leitura (Ap 7,2-4.9-14):
Leitura do Apocalipse de São João Eu, João, vi um Anjo que subia do Nascente, trazendo o selo do Deus vivo. Ele clamou em alta voz aos quatro Anjos a quem foi dado o poder de causar dano à terra e ao mar: «Não causeis dano à terra, nem ao mar, nem às árvores, até que tenhamos marcado na fronte os servos do nosso Deus». E ouvi o número dos que foram marcados: cento e quarenta e quatro mil, de todas as tribos dos filhos de Israel. Depois disto, vi uma multidão imensa, que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas. Estavam de pé, diante do trono e na presença do Cordeiro, vestidos com túnicas brancas e de palmas na mão. E clamavam em alta voz: «A salvação ao nosso Deus, que está sentado no trono, e ao Cordeiro». Todos os Anjos formavam círculo em volta do trono, dos Anciãos e dos quatro Seres Vivos. Prostraram-se diante do trono, de rosto por terra, e adoraram a Deus, dizendo: «Amém! A bênção e a glória, a sabedoria e a ação de graças, a honra, o poder e a força ao nosso Deus, pelos séculos dos séculos. Amém!». Um dos Anciãos tomou a palavra e disse-me: «Esses que estão vestidos de túnicas brancas, quem são e de onde vieram?». Eu respondi-lhe: «Meu Senhor, vós é que o sabeis». Ele disse-me: «São os que vieram da grande tribulação, os que lavaram as túnicas e as branquearam no sangue do Cordeiro».
 
Salmo Responsorial: 23
R. Esta é a geração dos que procuram o Senhor.
 
Do Senhor é a terra e o que nela existe, o mundo e quantos nele habitam. Ele a fundou sobre os mares e a consolidou sobre as águas.
 
Quem poderá subir à montanha do Senhor? Quem habitará no seu santuário? O que tem as mãos inocentes e o coração puro, o que não invocou o seu nome em vão.
 
Este será abençoado pelo Senhor e recompensado por Deus, seu Salvador. Esta é a geração dos que O procuram, que procuram a face de Deus.
 
2ª Leitura (1Jo 3,1-3): Caríssimos: Vede que admirável amor o Pai nos consagrou em nos chamar filhos de Deus. E somo-lo de facto. Se o mundo não nos conhece, é porque não O conheceu a Ele. Caríssimos, agora somos filhos de Deus e ainda não se manifestou o que havemos de ser. Mas sabemos que, na altura em que se manifestar, seremos semelhantes a Deus, porque O veremos tal como Ele é. Todo aquele que tem n’Ele esta esperança purifica-se a si mesmo, para ser puro, como Ele é puro.
 
Aleluia. Vinde a Mim, vós todos os que andais cansados e oprimidos e Eu vos aliviarei, diz o Senhor. Aleluia.
 
Evangelho (Mt 5,1-12a): Naquele tempo, Vendo as multidões, Jesus subiu à montanha e sentou-se. Os discípulos aproximaram-se, e ele começou a ensinar: Felizes os pobres no espírito, porque deles é o Reino dos Céus. Felizes os que choram, porque serão consolados. Felizes os mansos, porque receberão a terra em herança. Felizes os que têm fome e sede da justiça, porque serão saciados. Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. Felizes os puros de coração, porque verão a Deus. Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus. Felizes os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus. Felizes sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo mal contra vós por causa de mim. Alegrai-vos e exultai, porque é grande a vossa recompensa nos céus. Pois foi deste modo que perseguiram os profetas que vieram antes de vós.
 
«Alegrai-vos e exultai»
 
Mons. F. Xavier CIURANETA i Aymí Bispo Emérito de Lleida (Lleida, Espanha)
 
Hoje, celebramos a realidade de um mistério salvador, expresso no credo, que se torna muito consolador: Creio na comunhão dos santos. Todos os santos que já passaram para a vida eterna, a começar pela Virgem Maria, formam uma unidade: Felizes os puros de coração, porque verão a Deus (Mt 5,8). E também estão, ao mesmo tempo, em comunhão conosco. A fé e a esperança não podem unir-nos, porque eles já gozam da visão eterna de Deus; mas une-nos, por outro lado, o amor que não passa nunca (1Cor 13,13); esse amor que nos une, juntamente com eles, ao mesmo Pai, ao mesmo Cristo Redentor e ao mesmo Espírito Santo. O amor que os torna solidários e solícitos para conosco. Portanto, não veneramos os santos somente pela sua exemplaridade, mas sobretudo pela unidade no Espírito de toda a Igreja, que se fortalece com a prática do amor fraterno.
 
Por esta profunda unidade, devemos sentir-nos perto de todos os santos que, antes de nós, acreditaram e esperaram o mesmo que nós cremos e esperamos e, acima de tudo, amaram Deus Pai e os seus irmãos, os homens, procurando imitar o amor de Cristo.
 
Os santos apóstolos, os santos mártires, os santos confessores que viveram ao longo da história são, portanto, nossos irmãos e intercessores; neles se cumpriram as palavras proféticas de Jesus: Felizes sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo mal contra vós por causa de mim. Alegrai-vos e exultai, porque é grande a vossa recompensa nos céus, (Mt 5,11-12). Os tesouros da sua santidade são bens de família, com que podemos contar. São estes os tesouros do céu, que Jesus convida a juntar (cf. Mt 6,20). Como afirma o Concílio Vaticano II, A nossa fraqueza é assim grandemente ajudada pela sua solicitude de irmãos (Lumen gentium, 49). Esta solenidade traz-nos uma notícia reconfortante, que nos convida à alegria e à festa.
 
Pensamentos para o Evangelho de hoje
«A divindade é pureza, é libertação das paixões e remoção de todo mal: se tudo isso está em você, então Deus está realmente em você» (São Gregório de Nissa)
 
«Não estamos sozinhos; estamos rodeados por uma grande nuvem de testemunhas: com elas formamos o Corpo de Cristo» (Bento XVI)
 
«A sexta bem-aventurança proclama: ‘Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus’ (Mt 5, 8). Os ‘puros de coração’ são os que puseram a sua inteligência e a sua vontade de acordo com as exigências da santidade de Deus, principalmente em três domínios: a caridade; a castidade ou retidão sexual; o amor da verdade e a ortodoxia da fé. Existe um nexo entre a pureza do coração, do corpo e da fé» (Catecismo da Igreja Católica, nº 2.518)
 
Comentário do Pe. Thomaz Hughes, SVD
 
* Esses primeiros versículos de Cap. 5 servem ao mesmo tempo como introdução e como resumo do Sermão da Montanha.
Nos apresentam um retrato das qualidades do verdadeiro(a) discípulo(a), que, no seguimento de Jesus, procura viver os valores do Reino de Deus. Basta uma leitura superficial para ver que a proposta de Jesus está na contramão da proposta da sociedade vigente - tanto a do tempo de Jesus, como de hoje. Embora de uma forma menos contundente do que o texto paralelo do “Sermão da Planície” de Lucas (Lc 6, 20-26), o texto de Mateus deixa claro que o seguimento de Jesus exige uma mudança radical na nossa maneira de pensar e viver.
 
* Um primeiro elemento que chama a atenção é o fato de que a primeira e a última bem-aventurança estão com o verbo no presente - o Reino já é dos pobres em espírito e dos perseguidos por causa da justiça - na verdade, as mesmas pessoas, pois os que buscam a justiça são “pobres em espírito”. Eles já vivem a dependência total de Deus, pois só com Ele esses valores podem vigorar. Mas, quem luta pela justiça será perseguido - e quem não se empenha nessa luta jamais poderá ser “pobre em espírito”.
 
* As outras bem-aventuranças traçam as características de quem é pobre em espírito. É aflito, por causa das injustiças e do sofrimento dos outros, causados por uma sociedade materialista e consumista. É manso, não no sentido de passivo, mas porque não é movido pelo ódio e violência que marcam a ganância e a truculência dos que dominam, “amansando” os pobres e fracos.
 
* Tem fome da justiça do Reino, não a dos homens, que tantas vezes não passa de uma legitimação oficial da exploração e privilégio, pois frequentemente as leis são formuladas e aprovadas por esses mesmos grupos dominantes em prol dos seus próprios interesses e benefício. Tem coração compassivo, como o próprio Pai do Céu, e é “puro de coração”, sem ídolos e falsos valores. Promove a paz, não “a paz que o mundo dá” (Jo 14, 27), mas o “shalom”, a paz que nasce do projeto de Deus, quando existe a justiça do Reino. Cumpre lembrar que “shalom” não é somente a ausência de briga e conflito explícitos, mas é a presença de tudo o que Deus deseja para todos os seus filhos e filhas sem distinção. É a presença do Reino de vida plena!
 
* Mas, Jesus deixa clara a consequência de assumir esse projeto de vida - a perseguição! Pois um sistema baseado em valores anti-evangélicos não pode aguentar quem a contesta e questiona, algo que a história dos mártires do nosso continente testemunha muito bem. Qualquer igreja cristã que é bem aceita e elogiada pelo sistema hegemônico precisaria se questionar sobre a sua fidelidade à vivência das bem-aventuranças do Sermão da Montanha. O martírio (que na sua raiz significa “testemunho”) é a pedra-de-toque dessa fidelidade. O martírio nem sempre se dá pela morte física, mas muitas vezes pela morte lenta ao egoísmo e às ideologias de dominação, em uma vivência fiel da luta pela justiça do Reino de Deus. É a concretização da declaração de Jesus: “quem quiser me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz, e me siga” (Mt 16, 24)
 
* A festa de hoje não é tanto para recordarmos os nomes e façanhas dos grandes Santos/as conhecidos/as, por valioso que isso possa ser, mas também para que lembremos de tantos milhões de pessoas, de todas as raças, culturas e religiões, que viviam a santidade no anonimato das suas vidas diárias, na luta de viver na fidelidade aos valores do Reino. O grande milagre que mostra a santidade é a vivência fiel em busca do bem, na dedicação à família, à comunidade e à sociedade, sempre procurando cumprir a vontade de Deus, seja qual for a nossa experiência d’Ele. Se examinarmos as nossas vidas, veremos que já conhecemos muitas pessoas santas, cujos nomes jamais serão apresentados como tal, mas que servem como exemplo dos verdadeiros valores para nós. Que a celebração nos anime na busca da vivência fiel dos valores do Evangelho, não em grandes milagres, mas no dia a dia da nossa vocação, seja o que for.
 
MEDITAÇÃO
1) É possível ser pobre e feliz ao mesmo tempo? Que tipo de felicidade buscam as pessoas do nosso tempo?
2) Procure recordar os momentos em que se sentiu feliz na sua vida. A sua visão de felicidade é a mesma de Jesus? Como alcançá-la?
3) Com que bem-aventurança se identifica mais? E menos?
4) Como viveu Jesus as bem-aventuranças? Como as vivo eu no meu dia a dia? De que maneira Maria pode inspirar-me a fazê-lo?

quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Sábado XXX do Tempo Comum

Santo Afonso Rodríguez, viúvo e religioso
 
1ª Leitura (Flp 1,18b-26):
Irmãos: Contanto que Cristo seja anunciado, com segundas intenções ou com sinceridade, eu me alegro e me alegrarei sempre. De facto, sei que isto servirá para minha salvação, graças às vossas orações e à assistência do Espírito de Jesus Cristo. Espero-o firmemente e tenho a certeza de que não serei confundido. Estou absolutamente seguro, hoje como sempre, de que Cristo será glorificado no meu corpo, quer eu viva quer eu morra. Porque, para mim, viver é Cristo e morrer é lucro. Mas, se viver neste corpo mortal é útil para o meu trabalho, não sei o que escolher. Sinto-me constrangido por este dilema: desejaria partir e estar com Cristo, que seria muito melhor; mas é mais necessário para vós que eu permaneça neste corpo mortal. Convencido disto, sei que ficarei e permanecerei junto de vós, para o progresso e alegria da vossa fé. Assim espero que, ao tornar a visitar-vos, tereis novos motivos de glória em Cristo Jesus.
 
Salmo Responsorial: 41
R. A minha alma tem sede do Deus vivo.
 
Como suspira o veado pelas correntes das águas, assim minha alma suspira por Vós, Senhor. Minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo: Quando irei contemplar a face de Deus?
 
A minha alma estremece ao recordar quando passava em cortejo para o templo do Senhor, entre as vozes de louvor e de alegria da multidão em festa.
 
Aleluia. Tomai o meu jugo sobre vós, diz o Senhor, e aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração. Aleluia.
 
Evangelho (Lc 14,1.7-11): Num dia de sábado, Jesus foi comer na casa de um dos chefes dos fariseus. Estes o observavam. Jesus notou como os convidados escolhiam os primeiros lugares. Então contou-lhes uma parábola: «Quando fores convidado para uma festa de casamento, não ocupes o primeiro lugar. Pode ser que tenha sido convidado alguém mais importante, e o dono da casa, que convidou os dois, venha a te dizer: ‘Cede o lugar a ele’. Então irás cheio de vergonha ocupar o último lugar. Ao contrário, quando fores convidado, vai sentar-te no último lugar. Quando chegar então aquele que te convidou, ele te dirá: ‘Amigo, vem para um lugar melhor!’ Será uma honra para ti, à vista de todos os convidados. Pois todo aquele que se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado».
 
«Notou como os convidados escolhiam os primeiros lugares....»
 
Rev. D. Josep FONT i Gallart (Getafe, Espanha)
 
je, você reparou no início deste Evangelho? Estes, os fariseus, o observavam. E Jesus também observa: «Notou como os convidados escolhiam os primeiros lugares» (Lc 14,1). Que jeito diferente de observar!
 
A observação, como todas as ações internas e externas, varia conforme a motivação que a provoca, conforme as inseguranças internas, conforme ao que existe no coração do observador. Os fariseus –como diz o Evangelho em diversas partes- observam a Jesus para acusá-lo. E Jesus observa para ajudar, para servir, para fazer o bem. E, como uma mãe atenciosa, aconselha: «Quando fores convidado para uma festa de casamento, não ocupes o primeiro lugar» (Lc 13,8).
 
Jesus disse com palavras o que Ele é e o que leva em seu coração: não procura ser honrado, mas honrar; não pensa em sua honra, mas na honra do Pai. Não pensa nele, mas nos outros. Toda a vida de Jesus é uma revelação de quem é Deus: “Deus é amor”.
 
Por isso, em Jesus se faz realidade –mais que em ninguém- seu ensino: «Por isso Deus o exaltou à mais alta posição e lhe deu o nome que está acima de todo nome» (Flp 2, 9-10).
 
Jesus é o Mestre em obras e palavras. Os cristãos queremos ser seus discípulos. Somente podemos ter a conduta do Mestre se dentro do nosso coração temos o que Ele tinha, se temos seu Espírito, o Espírito do amor. Trabalhemos para nos abrir totalmente ao seu Espírito e para nos deixar tocar e possuir completamente por Ele.
 
E isso sem pensar em ser “exaltados”, sem pensar em nós, mas somente nele. «Mesmo que não existisse o céu, eu te amaria; mesmo que não existisse o inferno, eu te temeria; igual como te quero, te quereria» (Autor anônimo). Levados somente pelo amor.
 
Pensamentos para o Evangelho de hoje
«Oh, como é bela a alma humilde: do seu coração, como se fosse um incensário, sobe um perfume extremamente agradável e, através das nuvens, chega ao próprio Deus» (Santa Faustina Kowalska)
 
«O próprio Cristo assumiu o último lugar no mundo -a cruz- e precisamente com esta humildade radical nos redimiu e nos ajuda constantemente» (Bento XVI)
 
«Assim, a contemplação é a expressão mais simples do mistério da oração. É um dom, uma graça; só pode ser acolhida na humildade e na pobreza (…)» (Catecismo da Igreja Católica, nº 2.713)
 
Reflexão de São Josemaria Escrivá
 
* «Não é possível separar em Cristo o seu ser de Deus-Homem e a sua função de Redentor».  
No decurso da sua passagem pela terra, Jesus Cristo expressava em tudo o que realizava a sua missão redentora. Qualquer atividade que levava a cabo estava alinhada com o seu desejo de nos libertar do pecado. Irradiava continuamente o desejo divino que tinha exposto, a partir de um texto de Isaías, no início da sua atividade pública: «Ungiu-me para anunciar a Boa-nova aos pobres, enviou-me a proclamar a libertação aos cativos e, aos cegos, a recuperação da vista; a mandar em liberdade os oprimidos, a proclamar um ano favorável da parte do Senhor» (Lc 4, 18-19).
 
* Este desejo redentor ficava especialmente patente nos seus milagres e na sua pregação. Além disso, também se manifestava em ações mais quotidianas, como uma conversa à volta de uma mesa ou uma caminhada com os seus discípulos. Por isso, S. Josemaria dizia: «Toda a vida do Senhor me apaixona». Ver Jesus como mais uma pessoa da realidade social da sua época pode ajudar-nos a santificar essas circunstâncias: também esses momentos fazem parte da nossa identidade de cristãos.
 
* S. Lucas conta-nos que num sábado Jesus foi «comer a casa de um dos principais fariseus» (Lc 14,1). Podemos pensar que Cristo aceitou o seu convite para poder anunciar a mensagem de salvação a essa pessoa num contexto mais tranquilo que o da contínua azáfama do dia a dia. Seja num banquete, diante de uma cena quotidiana ou ao contemplar uma dança infantil, Jesus não deixa de lado a sua missão, pelo contrário, esses acontecimentos são o lugar onde se concretiza. Dos relatos evangélicos, S. Josemaria extraía o objetivo de qualquer apóstolo: «Esta é a tua tarefa de cidadão cristão: contribuir para que o amor e a liberdade de Cristo presidam a todas as manifestações da vida moderna: a cultura e a economia, o trabalho e o descanso, a vida de família e a convivência social».
 
* No meio desse banquete, Jesus observa a atitude de alguns que «escolhiam os primeiros lugares» (Lc 14,7). Decide então contar uma parábola: «Quando fores convidado para um banquete, não ocupes o primeiro lugar; não suceda que tenha sido convidado alguém mais digno do que tu, venha o que vos convidou, a ti e ao outro, e te diga: “Cede o teu lugar a este”. Ficarias envergonhado e passarias a ocupar o último lugar» (Lc 14, 8-9).
 
* Jesus começa o seu ensinamento fazendo referência ao reconhecimento que procuravam aqueles que estavam à sua volta. Não menospreza o desejo natural de se distinguir. Cristo é quem melhor sabe descobrir a mão paterna de Deus nesses anseios humanos. Jesus, ao ler cada uma das almas, apoia-se nas aspirações humanas e nobres que encontra para as elevar e sobrenaturalizar. S. Josemaria também procurava sustentar os conselhos que dava às pessoas que se aproximavam dele nos desejos que Deus punha no seu coração: «Deixa que a tua alma se consuma em desejos... Desejos de amor, de esquecimento, de santidade, de Céu... Não te detenhas a pensar se chegarás alguma vez a vê-los realizados (como te sugerirá algum conselheiro sisudo…): aviva-os cada vez mais, porque o Espírito Santo diz que lhe agradam os “varões de desejos”».
 
* Jesus oferece uma maneira de elevar as pretensões de singularização social: «Mas, quando fores convidado, senta-te no último lugar; e assim, quando vier o que te convidou, há de dizer-te: “Amigo, vem mais para cima”. Então, isto será uma honra para ti, aos olhos de todos os que estiverem contigo à mesa» (Lc 14, 10). Cristo anima a não ficar unicamente com os reconhecimentos humanos, sem dúvida legítimos e honrosos, mas a procurar o reconhecimento divino, que é o único realmente valioso. E apesar de em muitas ocasiões o nosso gesto poder passar despercebido para os outros, sabemos com certeza que Deus o viu. Este é o caminho que nos conduz para Ele e, ao mesmo tempo, nos leva «ao essencial da vida, ao seu verdadeiro significado, à razão mais fiável pela qual vale a pena viver a vida. Só a humildade nos abre à experiência da verdade, da alegria genuína, do conhecimento que conta». O importante não é ser grande segundo a lógica do mundo, mas tornar-se pequeno, simples, porque assim encontramos Cristo.
 
* O núcleo do ensinamento que Jesus está a dar em torno deste banquete é a humildade: «Porque todo aquele que se exalta será humilhado, e o que se humilha será exaltado» (Lc 14,11). Para entrar no Reino dos céus, um dos primeiros requisitos é conhecer bem qual é a nossa condição; ou seja, crescer na nossa verdadeira identidade como membros dessa nova família que Jesus está a formar. Para isso é necessário entender o significado profundo da humildade, «a virtude que nos ajuda a conhecer, simultaneamente, a nossa miséria e a nossa grandeza».
 
* A humildade ajuda-nos a dar conta de que recebemos tudo do Senhor. Pelo contrário, a soberba leva-nos a depositar a confiança nas nossas próprias seguranças. Neste sentido, S. Josemaria falava de dois tipos de orgulho: um mau, que ignora as nossas debilidades, e outro bom, que reconhece a verdade e a ação do Senhor na sua própria vida. «É mau o endeusamento se cegar, se não deixar ver com clareza que temos os pés de barro, já que a pedra de toque para distinguir o endeusamento bom do mau é a humildade. Por isso, é bom, na medida em que não se perde a consciência de que essa divinização é um dom de Deus, graça de Deus; é mau, quando a alma se atribui a si mesma − às suas obras, aos seus méritos, à sua excelência – a grandeza espiritual que lhe foi dada»[7].
 
* Esse orgulho bom leva-nos a não rejeitar a nossa miséria e a vê-la como a porta por onde deixamos entrar Deus. E essa é precisamente a nossa grandeza: que Deus tenha querido, pela sua misericórdia, fazer-nos muito valiosos aos seus olhos. A humildade, portanto, ajuda-nos a assumir a pobreza do necessitado para sermos mendigos de Deus, para o deixar entrar, para permitir que ele mude as nossas aparentes seguranças. Quando um coração se sente satisfeito de si mesmo, «não tem espaço para a Palavra de Deus, para amar os irmãos nem para gozar das coisas mais importantes da vida. Deste modo priva-se dos bens maiores. Por isso, Jesus chama felizes aos pobres em espírito, que têm o coração pobre, onde pode entrar o Senhor com a sua incessante novidade»[8]. A Virgem, que só se preocupou com o reconhecimento divino, colocando a sua segurança em Deus, adquiriu a verdadeira riqueza: «Hão de chamar-me bem-aventurada todas as gerações» (Lc 1, 48).
 
Pensamentos para o Evangelho de hoje
1) «Oh, como é bela a alma humilde: do seu coração, como se fosse um incensário, sobe um perfume extremamente agradável e, através das nuvens, chega ao próprio Deus» (Santa Faustina Kowalska)
2) «O próprio Cristo assumiu o último lugar no mundo -a cruz- e precisamente com esta humildade radical nos redimiu e nos ajuda constantemente» (Bento XVI)
3) «Assim, a contemplação é a expressão mais simples do mistério da oração. É um dom, uma graça; só pode ser acolhida na humildade e na pobreza (…)» (Catecismo da Igreja Católica, nº 2.713

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Sexta-feira da 30ª semana do Tempo Comum

Bta. Maria Teresa de São José, virgem de nossa Ordem, fundadora das Irmãs Carmelitas do Divino Coração de Jesus.
 
1ª Leitura (Flp 1,1-11):
Irmãos: Paulo e Timóteo, servos de Cristo Jesus, a todos os fiéis de Cristo Jesus que estão em Filipos, com os seus dirigentes e ministros: A graça e a paz de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo estejam convosco. Dou graças ao meu Deus, todas as vezes que me lembro de vós, e em todas as minhas orações peço sempre por todos com alegria, recordando-me da parte que tomastes na causa do Evangelho, desde o primeiro dia até ao presente. Tenho plena confiança de que Aquele que começou em vós tão boa obra há-de levá-la a bom termo até ao dia de Cristo Jesus. Na verdade, é justo que eu tenha por vós estes sentimentos, porque vos trago no coração, a vós que no meu cativeiro e na defesa e confirmação do Evangelho, participais na graça que me foi concedida. Deus é testemunha de que vos amo a todos no coração de Cristo Jesus. Por isso Lhe peço que a vossa caridade cresça cada vez mais em ciência e discernimento, para que possais distinguir o que é melhor e vos torneis puros e irrepreensíveis para o dia de Cristo. Assim alcançareis a plenitude dos frutos de justiça que se obtêm por Jesus Cristo, para louvor e glória de Deus.
 
Salmo Responsorial: 110
R. São grandes as obras do Senhor.
 
Louvarei o Senhor de todo o coração no conselho dos justos e na assembleia. São grandes as obras do Senhor, admiráveis para os que nelas meditam.
 
A sua obra é esplendor e majestade e a sua justiça permanece eternamente. Instituiu um memorial das suas maravilhas: o Senhor é misericordioso e compassivo.
 
Deu sustento àqueles que O temem e jamais se esquecerá da sua aliança. Fez ver ao seu povo a força das suas obras, para lhe dar a herança das nações.
 
Aleluia. As minhas ovelhas escutam a minha voz, diz o Senhor; Eu conheço as minhas ovelhas e elas seguem-Me. Aleluia.
 
Evangelho (Lc 14,1-6): Num dia de sábado, Jesus foi comer na casa de um dos chefes dos fariseus. Estes o observavam. Em frente de Jesus estava um homem que sofria de hidropisia. Tomando a palavra, Jesus disse aos doutores da Lei e aos fariseus: «Em dia de sábado, é permitido curar ou não?» Eles ficaram em silêncio. Então Jesus tomou o homem pela mão, curou-o e o despediu. Depois lhes disse: «Se algum de vós tem um filho ou um boi que caiu num poço, não o tira logo daí, mesmo em dia de sábado?» E eles não foram capazes de responder a isso.
 
«Em dia de sábado, é permitido curar ou não?»
 
Rev. D. Darío Gustavo GATTI Giorgio ISSDSch (Rosario, Santa Fe, Argentina)
 
Hoje o Evangelho mostra-nos Jesus: firme como o boi, manso como o jumento. Está em casa de um fariseu importante; é sábado. «Estes o observavam» (Lc 14,1). Neste ambiente de julgamento, Jesus olha diante de si e vê um homem hidrópico. A sua pergunta é direta: «Em dia de sábado, é permitido curar ou não?» (Lc 14,3). Uma questão que desafia a rigidez da lei em favor da compaixão, do coração. A lei do sábado, como o nosso domingo, destinava-se ao descanso e à santificação, mas tinha-se tornado um peso. Com a imagem do «filho ou do boi que cai num poço», Jesus denuncia a incoerência daqueles que, preocupados com os seus bens, não hesitariam em resgatá-los, mas adiariam — por ser sábado — a cura de uma pessoa.
 
Um dos que foi resgatado de um poço é Saulo de Tarso. Imaginemos a sua ação de graças, em sintonia com as palavras do Papa Leão XIV: «Ao mesmo tempo que agradecemos ao Senhor a vocação com que transformou a sua vida…, pedimos-lhe que saibamos cultivar e difundir a sua caridade, tornando-nos próximos uns dos outros.» São Beda interpreta o boi e o jumento como «os povos judeu e gentio, chamados a ser libertados do poço da concupiscência.» Jesus resgata todos, sem distinção de condição ou de tempo. Sendo o “Filho”, certamente recordaria aquela noite em Belém, sob o olhar terno de Maria e José, onde um boi e um jumento o contemplavam: esse Menino que vinha tirar-nos do poço do pecado, a todos e para sempre. Hoje, com olhos de misericórdia, anima-nos a olhar primeiro para as pessoas antes das coisas, a dar prioridade à vida, todos os dias.
 
A cura deste dia, e a palavra de Jesus, interpelam-nos: serão as nossas normas, tradições ou comodidades que nos impedem de ver a necessidade do outro? A mesa — símbolo e sacramento da comunidade e da vida eucarística — à qual todos somos convidados, revela uma verdade profunda: a nossa vida tem um valor incalculável. Nela, Jesus lava os pés, dá-se em alimento e recomenda: «Fazei isto em memória de Mim» (Lc 22,19).
 
«Eles ficaram em silêncio»
 
Rev. D. Antoni CAROL i Hostench (Sant Cugat del Vallès, Barcelona, Espanha)
 
Hoje fixamos nossa atenção na pergunta aguçada que Jesus faz aos fariseus: «Em dia de sábado, é permitido curar ou não?» (Lc 14,3), e na significativa anotação que faz são Lucas: «E eles não foram capazes de responder a isso» (Lc 14,4).
 
São muitos os episódios evangélicos nos quais o Senhor joga na cara dos fariseus sua hipocrisia. É notável o empenho de Deus em nos deixar claro até que ponto lhe desagrada esse pecado –a falsa aparência, o engano vaidoso-, que situa-se nas antípodas daquele elogio de Cristo a Natanael: «Aí está um verdadeiro israelita, em quem não há falsidade» (Jo 1,47). Deus ama a simplicidade de coração, a ingenuidade do espírito e, pelo contrário, rechaça energicamente o que é emaranhado, o olhar vago, a dupla moral, a hipocrisia.
 
O significativo da pergunta do Senhor e da resposta silenciosa dos fariseus, é a má consciência que estes, no fundo, tinham. Diante jazia um doente que buscava sua cura por Jesus. O cumprimento da Lei judaica –mera atenção à letra com desprezo ao espírito- e a fátua presunção de sua conduta honorável os leva a escandalizar-se ante a atitude de Cristo que, levado pelo seu coração misericordioso, não se deixa amarrar pelo formalismo de uma lei, e quer devolver a saúde a quem carecia dela.
 
Os fariseus se dão conta de que sua conduta hipócrita não é justificável e, por isso, calam. Nesta parte resplandece uma clara lição: a necessidade de entender que a santidade é seguimento de Cristo –até o enamorar-se plenamente- e não frio cumprimento legal de uns preceitos. Os mandamentos são santos porque procedem diretamente da Sabedoria infinita de Deus, mas que é possível vive-los de uma maneira legalista e vazia, e então se dá a incongruência –autêntico sarcasmo- de pretender seguir a Deus para terminar indo atrás de nós mesmo.
 
Deixemos que a encantadora simplicidade da Virgem Maria se imponha nas nossas vidas.
 
Pensamentos para o Evangelho de hoje
«Esse hidrópico foi curado em presença do fariseu, porque pela doença do corpo de uma pessoa se expressa a doença do coração do outro» (São Gregório Magno)
 
«O caminho para ser fiéis à lei, sem descuidar a justiça, sem descuidar o amor, é o caminho contrário: desde o amor à integridade; desde o amor ao discernimento; desde o amor à lei. Esse é o caminho que nos ensina Jesus» (Francisco)
 
«(...) Os regimes cuja natureza for contrária à lei natural, à ordem pública e aos direitos fundamentais das pessoas, não podem promover o bem comum das nações onde se impuseram» (Catecismo da Igreja Católica, n° 1901)
 
Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm.
 
* O evangelho de hoje traz mais um episódio de discussão entre Jesus e os fariseus, acontecido durante a longa viagem de Jesus desde a Galileia até Jerusalém.
É muito difícil de situar este fato no contexto da vida de Jesus. Existem semelhanças com um fato narrado no evangelho de Marcos (Mc 3,1-6). Provavelmente, trata-se de uma das muitas histórias transmitidas oralmente e que, na transmissão oral, foram sendo adaptadas de acordo com a situação, as necessidades e as esperanças do povo das comunidades.
 
* Lucas 14,1: O convite em dia de sábado. “Num dia de sábado aconteceu que Jesus foi comer em casa de um dos chefes dos fariseus, que o observavam”. Esta informação inicial sobre refeição na casa de um fariseu é o gancho para Lucas contar vários episódios que falam da refeição: cura do homem doente (Lc 14,2-6), escolha dos lugares à mesa (Lc 14,7-11), escolha dos convidados (Lc 14,12-14), convidados que recusam o convite (Lc 14,15-24). Muitas vezes Jesus é convidado pelos fariseus para participar das refeições. No convite deve ter havido também um motivo de curiosidade e um pouco de malícia. Querem observar Jesus de perto para ver se ele observa em tudo as prescrições da lei.
 
* Lucas 14,2: A situação que vai provocar a ação de Jesus. “Havia um homem hidrópico diante de Jesus”. Não se diz como um hidrópico pôde entrar na casa do chefe dos fariseus. Mas se ele está diante de Jesus é porque quer ser curado. Os fariseus que o observam Jesus. Era dia de sábado, e em dia de sábado é proibido curar. O que fazer? Pode ou não pode?
 
* Lucas 14,3: A pergunta de Jesus aos escribas e fariseus. “Tomando a palavra, Jesus falou aos especialistas em leis e aos fariseus: "A Lei permite ou não permite curar em dia de sábado?"  Com a sua pergunta Jesus explicita o problema que estava no ar: pode ou não pode curar em dia de sábado? A lei permite, sim ou não? No evangelho de Marcos, a pergunta é mais provocadora: “Em dia de sábado pode fazer o bem ou o mal, salvar ou matar?” (Mc 3,4).
 
* Lucas 14,4-6: A cura. Os fariseus não responderam e ficaram em silêncio. Diante do silêncio de quem não aprova nem desaprova, Jesus tomou o homem pela mão, o curou, e o despediu. Em seguida, para responder a uma possível crítica, explicitou o motivo que o levou a curar: "Se alguém de vocês tem um filho ou um boi que caiu num poço, não o tiraria logo, mesmo em dia de sábado?"  Com esta pergunta Jesus mostra a incoerência dos doutores e dos fariseus. Se qualquer um deles, em dia de sábado, não vê problema nenhum em socorrer a um filho ou até a um animal, Jesus também tem o direito de ajudar e curar o hidrópico. A pergunta de Jesus evoca o salmo, onde se diz que o próprio Deus socorres a homens e animais (Sl 36,8). Os fariseus “não foram capazes de responder a isso” . Pois diante da evidência não há argumento que a negue.
 
Para um confronto pessoal
1) A liberdade de Jesus diante da situação. Mesmo observado por quem não o aprova, ele não perde a liberdade. Qual a liberdade que existe em mim?
2) Há momentos difíceis na vida, em que somos obrigados a escolher entre a necessidade imediata de um próximo e a letra da lei. Como agir?

terça-feira, 27 de outubro de 2026

30 de outubro

 Beata Maria Teresa de São José
Virgem, fundadora das Irmãs Carmelitas do Divino Coração de Jesus.

A beata Maria Teresa de São José cujo nome do batismo era Anna Maria Tauscher. Nasceu em 1855, em Sandow, então Alemanha e hoje Polônia, filha e neta de pastores luteranos. Desde muito jovem queria consagrar-se por inteiro ao serviço de Deus e da evangelização, adorava a presença de Cristo na Eucaristia, amava a são José e defendia a virgindade perpétua de Nossa Senhora antes, inclusive, de ter qualquer contato com católicos ou com a doutrina católica. Sua definitiva conversão ao catolicismo teve lugar depois de ler o Livro da Vida de santa Teresa de Jesus. Expulsa da família, pobre e enferma, incompreendida pelas autoridades religiosas, nunca desanimou. Depois de muitos sofrimentos e decepções, pode fundar uma congregação religiosa de espiritualidade carmelitana ao serviço dos necessitados: as Irmãs Carmelitas do Divino Coração de Jesus. Confiando sempre na Divina Providência, ela mesma fundou numerosas casas em vários países da Europa e América. Foi beatificada em 2006.
 
Salmodia, Leitura, Responsório breve e Preces do Dia Corrente.
 
Oração
Deus onipotente e misericordioso que inspirastes à beata Maria Teresa de São José um zelo admirável ao serviço de vosso povo, concedei-nos, por sua intercessão, a graça de trabalhar com o mesmo amor para a edificação da Igreja, mesmo em meio das dificuldades. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco, na unidade do Espírito Santo.

Quinta-feira da 30ª semana do Tempo Comum

1
ª Leitura (Ef 6,10-20): Irmãos: Fortalecei-vos no Senhor e na força do seu poder. Revesti-vos da armadura de Deus, para poderdes resistir às ciladas do demónio. Porque nós não temos de lutar contra adversários de carne e osso, mas contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo de trevas, contra os espíritos do mal que habitam as regiões celestes. Portanto, irmãos, tomai a armadura de Deus, para poderdes resistir no dia mau e perseverar firmes, superando todas as provas. Permanecei bem firmes, de rins cingidos com o cinturão da verdade, revestidos com a couraça da justiça, de pés calçados com o zelo de anunciar o Evangelho da paz. Tende sempre nas mãos o escudo da fé, com o qual podereis apagar as setas inflamadas do Maligno. Tomai o capacete da salvação e a espada do Espírito, que é a palavra de Deus. Orai em todo o tempo, movidos pelo Espírito Santo, com toda a espécie de orações e súplicas. Perseverai nas vossas vigílias, com preces por todos os cristãos. Orai também por mim, para que, ao falar, me seja concedida a palavra, a fim de anunciar com firmeza o mistério do Evangelho, do qual sou embaixador nas minhas algemas. Possa eu de facto anunciá-lo com firmeza, como é meu dever.
 
Salmo Responsorial: 143
R. Bendito seja o Senhor, rochedo do meu refúgio.
 
Bendito seja o Senhor, o rochedo do meu refúgio, que adestra as minhas mãos para a luta e os meus dedos para o combate.
 
O Senhor é meu amparo e minha cidadela, meu baluarte e meu libertador. Ele é meu escudo e meu abrigo e submete os povos ao meu poder.
 
Hei-de cantar-Vos, meu Deus, um cântico novo, hei de celebrar-Vos ao som da harpa, a Vós que dais aos reis a vitória e salvastes David, vosso servo.
 
Aleluia. Bendito o que vem em nome do Senhor: Paz no céu e glória nas alturas. Aleluia.
 
Evangelho (Lc 13,31-35): Naquela hora, alguns fariseus aproximaram-se e disseram a Jesus: Sai daqui, porque Herodes quer te matar. Ele disse: Ide dizer a essa raposa: eu expulso demônios e faço curas hoje e amanhã; e no terceiro dia chegarei ao termo. Entretanto, preciso caminhar hoje, amanhã e depois de amanhã, pois não convém que um profeta morra fora de Jerusalém. Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te foram enviados! Quantas vezes eu quis reunir teus filhos, como a galinha reúne os pintainhos debaixo das asas, mas não quiseste! Vede, vossa casa ficará abandonada. Eu vos digo: não mais me vereis, até que chegue o tempo em que digais: Bendito aquele que vem em nome do Senhor.
 
«Jerusalém, Jerusalém! Quantas vezes eu quis reunir teus filhos, mas não quiseste!»
 
Rev. D. Àngel Eugeni PÉREZ i Sánchez (Barcelona, Espanha)
 
Hoje podemos admirar a firmeza de Jesus no cumprimento da missão encomendada pelo Pai do céu. Ele não se deteve por nada: Eu expulso demônios e faço curas hoje e amanhã (Lc 13,32). Com esta atitude, o Senhor marcou a pauta de conduta que ao longo dos séculos seguiriam os mensageiros do Evangelho ante as persecuções: não dobrar-se ante o poder temporário. Santo Agostinho disse que, em tempo de persecuções, os pastores não devem abandonar os fiéis: nem os que sofrerão o martírio nem os que sobreviverão como o Bom Pastor, que quando vê que vem o lobo, não abandona o rebanho, senão que o defende. Mas visto o fervor com que todos os pastores da Igreja se dispunham a derramar o seu sangue, indica que o melhor será jogar a sorte quem dos clérigos se entregarão ao martírio e quais se porão a salvo para logo cuidarem dos sobreviventes.
 
Na nossa época, com frequência, nos chegam notícias de persecuções religiosas, violências tribais ou revoltas étnicas em países do Terceiro Mundo. As embaixadas ocidentais aconselham aos seus concidadãos que abandonem a região e repatriem o seu pessoal. Os únicos que permanecem são os missioneiros e as organizações de voluntários, porque para eles pareceria uma traição abandonar os seus em momentos difíceis.
 
Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te foram enviados! Quantas vezes eu quis reunir teus filhos, como a galinha reúne os pintainhos debaixo das asas, mas não quiseste! (Lc 13,34-35). Esse lamento do Senhor produz em nós, os cristãos do século XXI, uma tristeza especial, devido ao sangrento conflito entre judeus e palestinos. Para nós, essa região do Próximo Oriente é a Terra Santa, a terra de Jesus e de Maria. E o clamor pela paz em todos os países deve ser mais intenso e sentido pela paz em Israel e Palestina.
 
Pensamentos para o Evangelho de hoje
«Deus pede-te fé, não quer a tua morte; Ele anseia pela tua entrega, não pelo teu sangue; é apaziguado, não com a tua morte; mas com a tua boa vontade» (São Pedro Crisólogo)
 
«Jerusalém é a esposa, é a noiva do Senhor: Ele a amava muito! Mas ela não percebe as visitas do Senhor e faz o Senhor chorar. Jerusalém cai por distração, por não receber o Senhor que vem salvá-la» (Francisco)
 
«(…) nas vésperas da sua paixão, Jesus anunciou a ruína deste esplêndido edifício, do qual não ficaria pedra sobre pedra (381). Há aqui o anúncio dum sinal dos últimos tempos, que vão iniciar-se com a sua própria Páscoa (382) (…)» (Catecismo da Igreja Católica, nº 585)
 
Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm.
 
*
O evangelho de hoje nos faz sentir o contexto ameaçador e perigoso no qual Jesus vivia e trabalhava. Herodes, o mesmo que tinha matado João Batista, quer matar Jesus.
 
* Lucas 13,31: O aviso dos fariseus a Jesus. “Nesse momento, alguns fariseus se aproximaram, e disseram a Jesus: "Deves ir embora daqui, porque Herodes quer te matar". É importante notar que Jesus recebeu o aviso da parte dos fariseus. Algumas vezes, os fariseus estão juntos com o grupo de Herodes querendo matar Jesus (Mc 3,6; 12,13). Mas aqui, eles são solidários com Jesus e querem evitar a morte dele. Naquele tempo, o poder do rei era absoluto. Ele não prestava conta a ninguém da sua maneira de governar. Herodes já tinha matado a João Batista e agora está querendo acabar também com Jesus.
 
* Lucas 13,32-33: A resposta de Jesus. “Jesus disse: "Vão dizer a essa raposa: eu expulso demônios, e faço curas hoje e amanhã; e no terceiro dia terminarei o meu trabalho”. A resposta de Jesus é muito clara e corajosa. Ele chama Herodes de raposa. Para anunciar o Reino Jesus não depende da licença das autoridades políticas. Ele até manda um recado informando que vai continuar seu trabalho hoje e amanhã e que só vai embora depois de amanhã, isto é, no terceiro dia. Nesta resposta transparece a liberdade de Jesus frente ao poder que queria impedi-lo da realizar a missão recebida do Pai. Pois quem determina os prazos e a hora é Deus e não Herodes! Ao mesmo tempo, na resposta transparece um certo simbolismo relacionado com a morte e a ressurreição ao terceiro dia em Jerusalém. E para dizer que não vai ser morto na Galileia, mas sim em Jerusalém, capital do seu povo, e que vai ressuscitar no terceiro dia.
 
* Lucas 13,34-35: Lamento de Jesus sobre Jerusalém. "Jerusalém, Jerusalém, você que mata os profetas e apedreja os que lhe foram enviados! Quantas vezes eu quis reunir seus filhos, como a galinha reúne os pintinhos debaixo das asas, mas você não quis!”   Este lamento de Jesus sobre a capital do seu povo evoca a longa e triste história da resistência das autoridades aos apelos de Deus que chegavam a elas através de tantos profetas e sábios. Em outro lugar Jesus fala dos profetas perseguidos e mortos desde Abel até Zacarias (Lc 11,51). Chegando em Jerusalém pouco antes da sua morte, olhando a cidade do alto do Monte das Oliveiras, Jesus chora sobre ela, porque ela não reconheceu o tempo em que Deus veio para visitá-la." (Lc 19,44).
 
Para um confronto pessoal
1) Jesus qualifica o poder político como raposa. O poder político do seu país merece esta qualificação?
2) Jesus tentou muitas vezes converter o povo de Jerusalém, mas as autoridades religiosas resistiram. E eu, quanto vezes resisti?

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

28 de outubro: São Simão e São Judas, apóstolos

1ª Leitura (Ef 2,19-22):
Irmãos: Já não sois estrangeiros nem hóspedes, mas sois concidadãos dos santos e membros da família de Deus, edificados sobre o alicerce dos Apóstolos e dos Profetas, que tem Cristo como pedra angular. Em Cristo, toda a construção, bem ajustada, cresce para formar um templo santo do Senhor; e em união com Ele, também vós sois integrados na construção, para vos tornardes, no Espírito Santo, morada de Deus.
 
Salmo Responsorial: 18
R. A sua mensagem ressoou por toda a terra.
 
Os céus proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos. O dia transmite ao outro esta mensagem e a noite a dá a conhecer à outra noite.
 
Não são palavras nem linguagem cujo sentido se não perceba. O seu eco ressoou por toda a terra e a sua notícia até aos confins do mundo.
 
Aleluia. Nós Vos louvamos, ó Deus; nós Vos bendizemos, Senhor. O coro glorioso dos Apóstolos canta os vossos louvores. Aleluia.
 
Evangelho (Lc 6,12-19): Naqueles dias, Jesus foi à montanha para orar. Passou a noite toda em oração a Deus. Ao amanhecer, chamou os discípulos e escolheu doze entre eles, aos quais deu o nome de apóstolos: Simão, a quem chamou Pedro, e seu irmão André; Tiago e João; Filipe e Bartolomeu; Mateus e Tomé; Tiago, filho de Alfeu, e Simão, chamado zelote; Judas, filho de Tiago, e Judas Iscariotes, que se tornou o traidor. Jesus desceu com eles da montanha e parou num lugar plano. Ali estavam muitos dos seus discípulos e uma grande multidão de gente de toda a Judéia e de Jerusalém, e do litoral de Tiro e Sidônia. Vieram para ouvi-lo e serem curados de suas doenças. Também os atormentados por espíritos impuros eram curados. A multidão toda tentava tocar nele, porque dele saía uma força que curava a todos
 
«Jesus foi à montanha para orar»
 
Rev. D. Albert TAULÉ i Viñas (Barcelona, Espanha)
 
Hoje contemplamos um dia inteiro da vida de Jesus. Uma vida que tem duas vertentes claras: a oração e a ação. Se a vida do cristão há de imitar a vida de Jesus, não podemos prescindir de ambas as dimensões. Todos os cristãos, inclusive aqueles que têm se consagrado à vida contemplativa, temos de dedicar uns momentos à oração e outros à ação, ainda que varie o tempo que dediquemos a cada uma. Até os monges e as freiras de clausura dedicam bastante tempo de sua jornada a um trabalho. Em contrapartida, os que somos mais seculares, se desejamos imitar Jesus, não deveríamos nos mover numa ação desenfreada sem ungi-la com a oração. Ensina-nos São Jerónimo: «Embora o Apóstolo mandou-nos que orássemos sempre, (...) convém que destinemos umas horas determinadas a esse exercício».
 
É que Jesus precisava de longos momentos de oração em solitário quando todos dormiam? Os teólogos estudam qual era a psicologia de Jesus homem: até que ponto tinha acesso direto à divindade e até que ponto era «homem semelhante em tudo a nós, menos no pecado» (He 4,5). Na medida que o consideremos mais cercano, sua prática de oração será um exemplo evidente para nós.
 
Assegurada já a oração, só nos fica imitá-lo na ação. No fragmento de hoje, vemo-lo organizando a Igreja, quer dizer, escolhendo os que serão os futuros evangelizadores, chamados a continuar sua missão no mundo. «Ao amanhecer, chamou os discípulos e escolheu doze entre eles, aos quais deu o nome de apóstolos» (Lc 6,13). Depois encontramo-lo curando todo tipo de doença. «A multidão toda tentava tocar nele porque dele saía uma força que curava a todos» (Lc 6,19), diz-nos o evangelista. Para que nossa identificação com Ele seja total, unicamente nos falta que também saia de nós uma força que cure a todos, o que só será possível se estamos inseridos Nele, para que demos muitos frutos (cf. Jn 15,4)
 
Pensamentos para o Evangelho de hoje
«Cada alma humana é um templo de Deus: isto abre-nos uma perspectiva ampla e inteiramente nova. A vida de oração de Jesus é a chave para compreender a oração da Igreja» (Santa Teresa Benedita da Cruz)
 
«Tanto Simão, o cananeu, como Judas Tadeu, ajudem-nos a sempre redescobrir e viver incansavelmente a beleza da fé cristã, sabendo testemunhá-la com coragem e ao mesmo tempo com serenidade» (Bento XVI)
 
«(…) [Jesus] ora perante os momentos decisivos que vão comprometer a missão dos seus Apóstolos: antes de escolher e chamar os Doze (cf. Lc 6,12),, antes de Pedro O confessar como o ‘Cristo de Deus’ (Lc 9,18-20) e para que a fé do chefe dos Apóstolos não desfaleça na tentação (cf. Lc 22,32) (…)» (Catecismo da Igreja Católica, nº 2.600)
 
Reflexão de Frei Carlos Mesters, O.Carm.
 
* O evangelho de hoje traz dois assuntos:
(1) descreve a escolha dos doze apóstolos (Lc 6,12-16) e (2) informa que uma multidão imensa de gente queria encontrar-se com Jesus para ouvi-lo, tocar nele e ser curada (Lc 6,17-19).
 
* Lucas 6,12-13: Jesus passa noite em oração e escolhe os doze apóstolos. Antes de fazer a escolha definitiva dos doze apóstolos, Jesus subiu a uma montanha e passou uma noite inteira em oração. Rezou para saber a quem escolher e escolheu os Doze, cujos nomes estão registrados nos evangelhos. A eles deu o título de apóstolo. Apóstolo significa enviado, missionário. Eles foram chamados para realizar uma missão, a mesma que Jesus recebeu do Pai (Jo 20,21). Marcos concretiza mais a missão e diz que Jesus os chamou para estar com ele e enviá-los em missão (Mc 3,14).
 
* Lucas 6,14-16: Os nomes dos doze apóstolos. Com pequenas diferenças os nomes dos Doze são iguais nos evangelhos de Mateus (Mt 10,2-4), Marcos (Mc 3,16-19) e Lucas (Lc 6,14-16). Grande parte destes nomes vem do Antigo Testamento: Simeão é o nome de um dos filhos do patriarca Jacó (Gn 29,33). Tiago é o mesmo que o nome de Jacó (Gn 25,26). Judas é o nome de outro filho de Jacó (Gn 35,23). Mateus também se chamava Levi (Mc 2,14), que foi outro filho de Jacó (Gn 35,23). Dos doze apóstolos sete tem nome que vem do tempo dos patriarcas: duas vezes Simão, duas vezes Tiago, duas vezes Judas, e uma vez Levi! Isto revela a sabedoria do povo. Através dos nomes dos patriarcas e das matriarcas, dados aos filhos e filhas, eles mantinham viva a tradição dos antigos e ajudavam seus filhos a não perder a identidade. Quais os nomes que nós damos hoje para os nossos filhos e filhas?
 
* Lucas 6,17-19: Jesus desce da montanha e a multidão o procura. Ao descer da montanha com os doze, Jesus encontrou uma multidão imensa de gente que o procurava para ouvir sua palavra e tocá-lo, porque dele saía uma força de vida. Nesta multidão havia judeus e estrangeiros, pois vinham da Judéia e também lá de Tiro e Sidônia. É o povo abandonado, desorientado. Jesus acolhe a todos que o procuram. Judeus e pagãos! Aqui transparece o ecumenismo, a abertura universal da missão, tema preferido de Lucas que escreve para pagãos convertidos.
 
* As pessoas chamadas por Jesus, consolo para nós. Os primeiros cristãos lembraram e registraram os nomes dos Doze apóstolos e de outros homens e mulheres que seguiram Jesus de perto. Os Doze, chamados por Jesus para formar com ele a primeira comunidade, não eram santos. Eram pessoas comuns, como todos nós, com suas virtudes e seus defeitos. Os evangelhos informam muito pouco sobre o jeito e o caráter de cada um deles. Mas o pouco que informam é motivo de consolo para nós.
* Pedro era uma pessoa generosa e entusiasta (Mc 14,29.31; Mt 14,28-29), mas na hora do perigo e da decisão, o coração dele encolhia e voltava atrás (Mt 14,30; Mc 14,66-72). Chegou a ser satanás (Mc 8,33) e pedra de tropeço (Mt 16,23). Negou Jesus na hora do perigo (Lc 22,56-62). Jesus deu a ele o apelido de Pedra . Pedro, ele por si mesmo, não era Pedra. Tornou-se pedra (rocha), porque Jesus rezou por ele (Lc 22,31-32).
* Tiago e João estavam dispostos a sofrer com e por Jesus (Mc 10,39), mas eram muito violentos (Lc 9, 54). Jesus os chamou “filhos do trovão” (Mc 3,17). João parecia ter um certo ciúme, pois queria Jesus só para o grupo dele e proibiu os outros usar o nome de Jesus para expulsar demônios (Mc 9,38).
* Filipe tinha um jeito acolhedor. Sabia colocar os outros em contato com Jesus (Jo 1,45-46), mas não era muito prático em resolver os problemas (Jo 12,20-22; 6,7). Às vezes, era meio ingênuo. Teve hora em que Jesus perdeu a paciência com ele: “Mas Filipe, tanto tempo que estou com vocês, e ainda não me conhece?” (Jo 14,8-9)
* André, irmão de Pedro e amigo de Filipe, era mais prático. Filipe recorre a ele para resolver os problemas (Jo 12,21-22). Foi André que chamou Pedro (Jo 1,40-41), e foi André que encontrou o menino com cinco pãezinhos e dois peixes (Jo 6,8-9).
* Bartolomeu parece ter sido o mesmo que Natanael. Este era bairrista e não podia admitir que algo de bom pudesse vir de Nazaré (Jo 1,46).
* Tomé foi capaz de sustentar sua opinião, uma semana inteira, contra o testemunho de todos os outros (Jo 20,24-25). Mas quando viu que estava equivocado, não teve medo de reconhecer seu erro (Jo 20,26-28). Era generoso, disposto a morrer com Jesus (Jo 11,16).
* Mateus ou Levi era publicano, cobrador de impostos, como Zaqueu (Mt 9,9; Lc 19,2). Os publicanos eram pessoas comprometidas com o sistema opressor da época.
* Simão, ao contrário, parece ter sido do movimento que se opunha radicalmente ao sistema que o império romano impunha ao povo judeu. Por isso tinha o apelido de Zelota (Lc 6,15). O grupo dos Zelotas chegou a provocar uma revolta armada contra os romanos.
* Judas era o que tomava conta do dinheiro do grupo (Jo 13,29). Ele chegou a trair Jesus.
* Tiago de Alfeu e Judas Tadeu, destes dois os evangelhos nada informam a não ser o nome.
 
Para um confronto pessoal
1) Jesus passou a noite inteira em oração para saber a quem escolher, e escolheu estes doze! Qual a lição que você tira deste gesto de Jesus?
2) Os primeiros cristãos lembravam os nomes dos doze apóstolos que estavam na origem das suas comunidades. Você lembra dos nomes das pessoas que estão na origem da comunidade a que você pertence? Você lembra o nome de alguma catequista ou professora que foi significativa para a sua formação cristã. O que mais lembra delas: o conteúdo que lhe ensinaram ou o testemunho que deram?