terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

M E D I T A Ç Õ E S     Q U A R E S M A I S
Queridos irmãos da OTCarm.

Iniciamos hoje a Quaresma, em preparação para a Páscoa de Jesus.
Durante todos os dias deste tempo de graça, serão colocados, para nossa meditação, textos sobre a Paixão de Nosso Senhor.
Que Ele nos ajude a preparar-nos bem para vivermos o Mistério de sua  Morte e Ressurreição

 O SERVO SOFREDOR - A história da paixão de Cristo
Horst R. Kuchenbecker
1 - Consciências atribuladas (22.02.2012)
Deixai-vos reconciliar com Deus (2 Co 5.20).
     As folias do tumultuoso carnaval abrandam, enquanto isso, muitas consciências começa a se tumultuar. Mais uma vez Satanás conseguiu triunfar em muitas vidas. Os jornais mostram o saldo do carnaval: lares desfeitos, suicídios, vidas arruinadas, etc.  
     Também nós cristãos não conseguimos evitar que a pecaminosidade do carnaval nos afetasse. Vimos pecado pelos meios de comunicação, jornais, revistas e a televisão, bem como na rua. Nossa carne se sentiu atraída e se regozijou. Precisamos exclamamos com o apóstolo Paulo: Desventurado homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte? (Romanos 7.24 RA) Onde buscaremos e encontraremos consolo?
     Eis que Deus em sua grande misericórdia mais uma vez nos estende sua mão, dizendo: Deixai-vos reconciliar com Deus (2 Co 5.20). Mais uma vez ele nos convida, dizendo: Vinde, pois, e arrazoemos, diz o SENHOR; ainda que os vossos pecados sejam como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim, se tornarão como a lã (Isaías 1.18 RA).
    Para que Deus pudesse nos convidar e oferecer o perdão, foi necessário que seu Filho unigênito Jesus Cristo se dispusesse a tomar sobre si os nossos pecados e trilhasse o caminho ao Calvário. Esta sua obediência ao Pai e o carregar de nossos pecados até a morte de cruz, queremos contemplar bem de perto nestas meditações quaresmais, conforme o encontramos relatado nos quatro evangelhos. Nisto não queremos ser meros expectadores, que pasmam e se comovem diante da paixão e morte de Cristo, dizendo: Como os fariseus, os romanos e o povo puderam ser tão injustos e cruéis com Cristo. Queremos antes meditar sobre o porquê da paixão de Cristo. Este por que, o próprio Jesus nos indica dizendo: (Tu) me deste trabalho com os teus pecados e me cansaste com as tuas iniqüidades (Isaías 43.24 RA). Isto vale para cada um de nós. Nós fizemos Jesus sofrer. Cada pecado em pensamentos, palavras e ações são as bofetadas, os açoites, os pregos que feriram Jesus. Por isso confessamos com o poeta sacro: Eu, eu e meu pecado havemos motivado a tua grande dor (HL 94.4).
     Queremos meditar também sobre o proveito desta tão profunda humilhação de Jesus. Tudo isso aconteceu para nós. Jesus foi o substituto de toda a humanidade, também o teu e o meu substituto. Ele trilhou o caminho que tu e eu deveríamos trilhar, mas não éramos capazes disso. Por isso Jesus perguntou a seus discípulos: Podeis vós beber o cálice que eu estou para beber? Responderam-lhe: Podemos (Mateus 20.22 RA) Eles julgaram, naquele momento que sim. Mas isto era impossível. Jesus concluiu a conversa com eles dizendo: O Filho do homem veio para servir... e dar a sua vida em resgate por muitos (isto é, por todos). Ele cumpriu a lei em nosso lugar, carregou nossos pecados e os pagou pelo derramar do seu sangue. Venceu nossos inimigos: pecado, morte e Satanás. Tudo isso para que pudéssemos voltar à comunhão com Deus, pela fé na graça de Cristo. Agora ele nos diz: Deixa-vos reconciliar com Deus (2 Co 5.20).
     Vamos, pois, a ele. Humilhemo-nos em profundo arrependimento, suplicando-lhe perdão. Orando: Cria em mim, ó Deus, um puro coração e renova em mim espírito reto. Não me lances fora da tua presença e não retires de mim o teu Espírito Santo. Torna a dar-me a alegria da tua salvação e sustém-me com um voluntário espírito (Sl 51.10). Amém.

Do Ofício de Leituras
Da Carta aos Coríntios, de São Clemente I, papa
(Cap. 7,4-8,3;8,5-9,1;13,1-4;19,2:
Funk 1,71-73.77-79.87) (Séc. I)
Fazei penitência
     Fixemos atentamente o olhar no sangue de Cristo e compreendamos quanto é precioso aos olhos de Deus seu Pai, esse sangue que, derramado para nossa salvação, ofereceu ao mundo inteiro a graça da penitência.
     Percorramos todas as épocas do mundo e verificaremos que em cada geração o Senhor concedeu o tempo favorável da penitência a todos os que a ele quiseram converter-se. Noé proclamou a penitência, e todos que o escutaram foram salvos. Jonas anunciou a ruína aos ninivitas, reconciliaram-se com Deus por suas súplicas e alcançaram a salvação, apesar de não pertencerem ao povo de Deus.
     Inspirados pelo Espírito Santo, os ministros da graça de Deus pregaram na penitência. O próprio Senhor de todas as coisas também falou da penitência, com juramento: Pela minha vida, diz o Senhor, não quero a morte do pecador, mas que mude de conduta (cf. Ez 33,11); e acrescentou esta sentença cheia de bondade: Deixa de praticar o mal, ó Casa de Israel!Dize aos filhos do meu povo: Ainda que vossos pecados subam da terra até o céu, ainda que sejam mais vermelhos que o escarlate e mais negros que o cilício, se voltardes para mim de todo o coração e disserdes: ‘Pai’, eu vos tratarei como um povo santo e ouvirei as vossas súplicas” (cf. Is 1,18;63,16;64,7; Jr 3,4;31,9).
     Querendo levar à penitência todos aqueles que amava, o Senhor confirmou esta sentença com sua vontade todo-poderosa.
     Obedeçamos, portanto, à sua excelsa e gloriosa vontade. Imploremos humildemente sua misericórdia e benignidade. Convertamo-nos sinceramente sua misericórdia. Abandonemos as obras más, a discórdia e a inveja que conduzem à morte.
     Sejamos humildes de coração, irmãos, evitando toda espécie de vaidade, soberba, insensatez e cólera, para cumprirmos o que está escrito. Pois diz o Espírito Santo: Não se orgulhe o sábio em sua sabedoria, nem o rico em sua riqueza; mas quem se gloria, glorie-se no Senhor, procurando-o e praticando o direito e a justiça (cf. Jr 9,22-23; 1Cor 1,31).
     Antes de mais nada, lembremo-nos das palavras do Senhor Jesus, quando exortava à benevolência e à longanimidade:Sede misericordiosos, e alcançareis misericórdia; perdoai, e sereis perdoados; como tratardes o próximo, do mesmo modo sereis tratados; dai, e vos será dado; não julgueis, e não sereis julgados; fazei o bem, e ele também vos será feito; com a medida com que medirdes, vos será medido (cf. Mt 5,7;6,14;7,1.2).
     Observemos fielmente este preceito e estes mandamentos, a fim de nos conduzirmos sempre, com toda humildade, na obediência às suas santas palavras. Pois eis o que diz o texto sagrado: Para quem hei de olhar, senão para o manso e humilde, que treme ao ouvir minhas palavras? (cf. Is 66,2).
     Tendo assim participado de muitas, grandes e gloriosas ações, corramos novamente para a meta que nos foi proposta desde o início: a paz. Fixemos atentamente nosso olhar no Pai e Criador do universo e desejemos com todo ardor seus dons de paz e seus magníficos e incomparáveis benefícios.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

SANTA MARGARIDA MARIA E O CARNAVAL
"Certa vez, em tempo de Carnaval... Ele (Jesus) se me apresentou na figura de um ECCE HOMO (“Eis aqui o homem” Jo 19,5), carregando sua Cruz, todo coberto de chagas e contusões e brotando, de todo o seu corpo, seu Sangue adorável. Com uma voz dolorosamente triste, dizia:"Não haverá ninguém que tenha piedade de Mim e queira compadecer-se e tomar parte em minha dor vendo o lastimoso estado em que Me põem os pecadores, sobretudo neste tempo de Carnaval?" Prostrando-me aos seus sagrados pés, ofereci-me a Ele, com lágrimas e suspiros. Colocou sobre os meus ombros aquela pesada Cruz , toda eriçada de pontas de pregos, e sentindo-me sucumbida sob o seu peso, comecei a compreender melhor a gravidade e malícia do pecado, a qual sentia tão vivamente no meu coração, que teria preferido mil vezes precipitar-me no Inferno a cometer voluntariamente um único pecado. “Maldito pecado disse que detestável és, pela injúria que fazes a meu soberano Bem!” (Santa Margarida Maria, Autobiografia, capítulo 9)
“Parecia-me que me cravavam em uma cruz dolorosíssima, na qual sofri tanto que dificilmente poderia explicar e nem conhecia a mim mesma, sobretudo nos três últimos dias de Carnaval, nos quais acreditei que estava próximo o meu fim.” (Carta de Santa Margarida Maria à Madre Saumaise – n° 62 – em Março de 1687)
“Meus sofrimentos são tais que acreditava que ia morrer em cada momento, embora já tivessem sido anunciados por este caritativo Coração. Creio que me fez o seguinte pedido: ‘Se queria acompanhá-Lo na Cruz durante este tempo (de Carnaval) em que está tão abandonado pelo empenho que todos tem de divertir-se, e pelas amarguras que me faria sentir, poderia eu, em algum modo, suavizar as que os pecadores derramam sem cessar em seu Sagrado Coração; que devia, sem cessar, gemer com Ele para alcançar misericórdia, a fim de que os pecados não chegassem ao cúmulo, e Deus perdoasse os pecadores pelo amor que tem a este amável Coração, que não cessa de consumir-Se pelo amor que tem aos homens.” (Carta 97 de Santa Margarida Maria à Madre Saumaise)
“Durante os três dias de Carnaval, queria fazer-me em pedaços para reparar os ultrajes que fazem sofrer os pecadores à Sua Divina Majestade; e enquanto me era possível, os passava jejuando a pão e água, dando aos pobres o que recebia para meu alimento.” (Santa Margarida Maria, Escritos Autobiográficos – Tejada SJ – 2ª Edição, p.99).
“Meu Reverendo Padre: Nosso soberano Dono Se dignou infundir-me muito consolo com a leitura de vossa carta, depois de ter-me proibido de lê-la por muito tempo, por causa de certo impulso demasiado impetuoso que me tinha vindo de buscar nela consolo no sensível e doloroso estado de sofrimento em que Ele me havia colocado durante o Carnaval. Ofendem-No e O abandonam tantos pecadores! Parece-me que de tal modo é este o meu tempo de dor e amargura que não posso ver nem gostar de outra coisa do que ao meu Jesus sofredor e abandonado. Compadeço-me de Suas dores e penetra-me tão vivamente com elas o Seu Coração adorável que não conheço mais a mim mesma.” (Carta 135. de 17/1/1690, o.cit. pg. 471).

sábado, 18 de fevereiro de 2012


LECTIO DIVINA PARA A VII SEMANA DO TEMPO COMUM

Ir. Mª das Dores Rodrigues, fma

                Um paralítico. Um catre. Um grupo de amigos. Uma solução: Jesus de Nazaré. Marcos continua a surpreender-nos com tudo o que se move à volta de Jesus. E, verificando o arrojo dos amigos do paralítico, percebemos a força transformante da comunidade que se move ao encontro do seu Senhor. E se a tudo isto somarmos o perdão dos pecados, então também nós poderemos dizer: “Nunca vimos coisa assim”. Diante da unidade entre palavra e ação, teoria e prática, dizer e fazer, encontramos em Jesus a melhor resposta. A Utopia (“o Reino”) não só deve ser anunciado (dito, falado, informado, teorizado) mas deve ser construído (feito, implantando, promovido). Como boa notícia. Como a melhor das notícias. Na história e no mundo.
 
 
EVANGELHO – Mc 2,1-12

Quando Jesus entrou de novo em Cafarnaum e se soube que Ele estava em casa, juntaram-se tantas pessoas que já não cabiam sequer em frente da porta; e Jesus começou a pregar-lhes a palavra. Trouxeram-Lhe um paralítico, transportado por quatro homens; e, como não podiam levá-lo até junto d’Ele, devido à multidão, descobriram o teto por cima do lugar onde Ele Se encontrava e, feita assim uma abertura, desceram a enxerga em que jazia o paralítico.  Ao ver a fé daquela gente, Jesus disse ao paralítico: «Filho, os teus pecados estão perdoados». Estavam ali sentados alguns escribas, que assim discorriam em seus corações: «Porque fala Ele deste modo? Está a blasfemar. Não é só Deus que pode perdoar os pecados?» Jesus, percebendo o que eles estavam a pensar, perguntou-lhes: «Porque pensais assim nos vossos corações? Que é mais fácil? Dizer ao paralítico ‘Os teus pecados estão perdoados’ ou dizer ‘Levanta-te, toma a tua enxerga e anda’?  Pois bem. “Para saberdes que o Filho do homem tem na terra o poder de perdoar os pecados, ‘Eu to ordeno – disse Ele ao paralítico – levanta-te, toma a tua enxerga e vai para casa’». O homem levantou-se, tomou a enxerga e saiu diante de toda a gente, de modo que todos ficaram maravilhados e glorificavam a Deus, dizendo: «Nunca vimos coisa assim».

SEGUNDA-FEIRA

Palavra - Quando Jesus entrou de novo em Cafarnaum e se soube que Ele estava em casa, juntaram-se tantas pessoas que já não cabiam sequer em frente da porta; e Jesus começou a pregar-lhes a palavra.
Estamos diante de um cenário: uma casa onde se encontra Jesus, com uma enorme multidão à sua volta a ocupar todo o espaço disponível. Esta casa situa-se em Cafarnaúm, centro a partir do qual irradia a atividade de Jesus na Galileia. A casa é uma figura da Sinagoga e da comunidade Judaica a quem Jesus dirige a sua Palavra de anúncio do Reino. Desta multidão fazem parte pessoas sedentas da salvação de Jesus, mas também os fariseus e escribas instalados na segurança e domínio da lei. Jesus enfrenta a controvérsia farisaica anunciando a Boa Nova do Reino.

Meditação
            Jesus continua a entrar na ‘casa’ do nosso tempo e da nossa história, na Igreja, nas nossas comunidades, nas famílias, nos grupos… em cada pessoa. Somos parte desta multidão sedenta de sentido profundo e de salvação que deseja encontrar-se com Jesus, acolher a Sua Palavra de vida e salvação. Dou-me conta da proximidade gratuita de Jesus? Acredito e acolho a sua Boa Nova carregada de luz e sentido para mim? Acredito-A portadora de cura e salvação para as minhas ‘paralisias’, os meus fracassos? Estou disposto ‘a por os pés ao caminho’ para me encontrar com Jesus?

 Oração
            Senhor, és o meu Salvador. Tenho sede da Tua presença! Suspiro pela libertação que só Tu realizas. És o meu refúgio; descanso na Tua presença. O Teu amor é o meu amparo. Acorro à Tua presença. Quero escutar e acolher a Tua Palavra de Salvação (cf. Sl 62).

 Ação
            Renovando a minha fé em Jesus Salvador, vou procurá-Lo e encontrar-me com Ele num momento de oração, de reflexão, de leitura da Palavra de Deus… ou de qualquer outra forma.

 Terça-feira

Palavra - Trouxeram-Lhe um paralítico, transportado por quatro homens; e, como não podiam levá-lo até junto d’Ele, devido à multidão, descobriram o teto por cima do lugar onde Ele Se encontrava e, feita assim uma abertura, desceram a enxerga em que jazia o paralítico.
            À casa chega um paralítico, personagem anônimo e sem voz, imagem da incapacidade de caminhar por si mesmo e de quem não tem liberdade de ação. É transportado por quatro homens, também anônimos e sem fala. Sendo quatro simbolizam os quatro pontos cardeais que por sua vez indicam a humanidade inteira. Cinco pessoas a representar as duas facetas da humanidade: a passiva, marcada pelo mal que lhe rouba a vida e impede de caminhar, e a humanidade ativa que não se conforma e busca ansiosamente a salvação aproximando-se de Jesus. Não vai só; arrasta outros consigo, destruindo obstáculos e procurando caminhos novos a fim de aceder à presença salvadora de Jesus.

Meditação
O que nos diz a ousadia destes quatro homens que levam o paralítico à presença de Jesus, de uma forma corajosa e criativa, capaz de ultrapassar tudo e todos? Se somos pessoas de fé, se acreditamos que Jesus é a resposta última e plena para toda a pessoa de qualquer idade e condição, também é nossa missão olhar os ‘paralíticos’ que encontramos a nosso lado, com quem até partilhamos a vida, e ‘transportá-los’ a Jesus! Dizer-lhes que nele está a salvação. Também nós precisamos de nos armar de coragem e ousadia capaz de ‘descobrir’ tetos que encerram falsas imagens de Deus e ‘descer enxergas’ que amarram tantas vidas.

Oração
Senhor, a fé que me concedes impele-me à ação, ao anúncio. Sei que és o Salvador. Acredito no Teu amor que liberta e regenera gratuitamente. Não posso fechar-me com este tesouro. Convidas-me a ‘transportar’ paralíticos de fé, de esperança e de amor que jazem nos leitos da solidão e da indiferença, à espera de uma mão amiga. Dá-me a graça de uma vida coerente que fale da Tua salvação, a coragem de Te dar a conhecer e a sabedoria de conduzir outros à tua presença.

 Ação
Com uma palavra ou um gesto vou aproximar-me de alguém ‘paralisado’ na falta de fé ou distanciado de Jesus, falar-lhe do Seu amor e convidá-lo a acolher a Salvação.

Quarta-feira

Palavra - Ao ver a fé daquela gente, Jesus disse ao paralítico: «Filho, os teus pecados estão perdoados». Estavam ali sentados alguns escribas, que assim discorriam em seus corações: «Porque fala Ele deste modo? Está a blasfemar. Não é só Deus que pode perdoar os pecados?»
Como a multidão que procura Jesus, também aqueles quatro homens que transportam o paralítico são movidos pela fé decidida, capaz de superar obstáculos. Revelam confiança em Jesus. Este comove-se com a fé desta gente. Deixa-se vencer. Realiza o milagre e oferece o perdão. Mas também aí estão os escribas que O observam, censuram e julgam. O paralítico é expressão de uma humanidade ansiosa de salvação, à espera de ser conduzida a Jesus. As palavras de perdão significam que Deus acolhe sempre a vontade de mudança. O passado pecador do paralítico deixa de pesar. Pode começar uma vida nova.

 Meditação
O dom do amor salvífico de Deus ultrapassa sempre as nossas expectativas. Deus conhece-nos profundamente e sabe do que precisamos. Foi assim com este paralítico: obtém o perdão dos pecados, quando pretendia libertar-se da sua enxerga. Jesus vê para além das aparências com um olhar de amor que cura profundamente. Como os escribas, também nós, na nossa pouca fé e com os nossos critérios mesquinhos, não compreendemos, nem aceitamos a grandeza deste Amor. Julgamos, discorremos, criticamos, segundo as nossas categorias e raciocínios. Esquecemos que Deus não pode fazer nada senão amar.

Oração
Senhor, não te limitas a vencer o mal, mas vais até à sua raiz, à origem profunda das minhas ‘paralisias’. Libertas-me do pecado para que eu reconheça Deus como Pai e procure a Sua vontade. Que eu saiba acolher-Te como Salvação, como Vida plena a iluminar e a preencher a minha existência. Move-me, Senhor, a acreditar profundamente na realidade da salvação, aqui e agora, e a acolhê-la como dom do Teu Amor que me renova continuamente.

 Ação
Vou olhar, com coragem e verdade, a minha existência a fim de tomar consciência daquilo que mais profundamente me aprisiona; daquilo que verdadeiramente precisa da libertação que só Deus oferece. Peco-a com humildade e confiança.

 Quinta-feira

 Palavra - Jesus, percebendo o que eles estavam a pensar, perguntou-lhes: «Porque pensais assim nos vossos corações? Que é mais fácil? Dizer ao paralítico ‘Os teus pecados estão perdoados’ ou dizer ‘Levanta-te, toma a tua enxerga e anda’?

Jesus apercebe-se do conflito gerado entre aqueles que não O reconhecem e, por isso, convida-os a medir o alcance da Sua autoridade. Não recorre a teorias doutrinais, mas ao concreto, aos sinais do milagre. Jesus está a agir de um modo totalmente novo: perdoar! Esta será uma prova decisiva da autoridade divina que, não só perdoa, mas dá a vida plena ao homem que jaz prisioneiro na sua enxerga.

 Meditação
Deus não ama teoricamente, mas no concreto, tocando a nossa vida. Mostra-o aos escribas, confrontando-os com aquilo que vêem: um paralítico a receber ordens de caminhar e liberto do seu pecado. Também nós precisamos olhar à nossa volta, com profundidade, fé e esperança, para contemplarmos, no concreto de tantas pessoas e situações, a realidade salvadora de Jesus Cristo. Precisamos discernir e contemplar, em nós e à nossa volta, o Amor que tudo renova.

 Oração
Senhor, reveste-me com o dom de uma fé humilde e confiante, capaz de olhar as pessoas e o mundo com o teu olhar. Dá-me um coração pobre, capaz de Te reconhecer nos caídos que levantas, nos pobres que engrandeces, nos ‘escravos’ que libertas. Dá-me a fé daquela multidão capaz de acorrer à Tua presença, deixar-me tocar pela Tua palavra e conduzir outros à Tua salvação.

 Ação
Vou evitar qualquer juízo ou crítica que alguma pessoa ou situação me suscite, e tentar olhar e contemplar essa realidade com o coração habitado pelo amor de Deus.

Sexta-feira

Palavra - Pois bem. “Para saberdes que o Filho do homem tem na terra o poder de perdoar os pecados, ‘Eu to ordeno – disse Ele ao paralítico – levanta-te, toma a tua enxerga e vai para casa’».
Dada a ordem salvadora, renasce o homem que acolhe a salvação na fé da comunidade. O instrumento que representava a escravidão, a enxerga, já não o subjuga mais. Agora é ele que o domina: ‘toma-o’. Purificado e reconciliado com Deus, é agora um homem novo, livre porque rejeitou a escravidão do comodismo, do egoísmo e do pecado. Deixou-se transportar até Jesus e aderiu ao Seu Reino. Jesus revela o Amor do Pai e manifesta-Se portador da Salvação.

 Meditação
O paralítico é o personagem central, porque é o necessitado da salvação. ‘Paralítico’ sou eu, somos nós, tantas vezes. Prisioneiros nas nossas ‘enxergas’ do comodismo, da indiferença, da superficialidade, da vergonha, do egoísmo, da auto-suficiência orgulhosa. Nem nos damos conta de tantas pessoas que nos tentam ajudar conduzindo-nos a Jesus e à sua proposta de vida autêntica. Este imperativo é para mim, para ti: ‘levanta-te!’ Recomeça uma vida nova! Confiantes na palavra e na proximidade do Senhor, ‘tomemos’ a ‘enxerga’ das nossas ‘paralisias’ para que não mais sejam elas a dominar a nossa vida.

 Oração
Senhor, eis-me na Tua presença, ‘paralítico’ acomodado à enxerga do meu pecado. Acolho o Teu convite, a tua ordem. Quero levantar-me. Recomeçar, neste tempo da Quaresma, uma vida diferente. Quero libertar-me de tudo o que bloqueia a minha dignidade de ‘teu filho’. Quero ir para a ‘casa’ da relação Contigo, onde sou acolhido com misericórdia e ternura. Quero voltar à ‘casa’ da comunhão com as outras pessoas; a casa da comunhão com a Igreja. Obrigado, Senhor, porque me salvas continuamente.

 Ação
Respondendo ao convite de Jesus a ‘levantar-me e voltar para casa’ vou celebrar o sacramento da reconciliação como experiência do Amor de Deus que me salva.

Sábado

Palavra - O homem levantou-se, tomou a enxerga e saiu diante de toda a gente, de modo que todos ficaram maravilhados e glorificavam a Deus, dizendo: «Nunca vimos coisa assim».
O homem transforma-se profundamente no encontro com Jesus. De passivo, porque paralítico, passa a ativo. Liberto, levanta-se, toma a sua vida, senhor das suas limitações, enfrenta toda aquela gente. Homem regenerado, marcado antecipadamente pela força da ressurreição, portador de vida nova, capaz de maravilhar outros e os mover à glorificação de Deus. Em Jesus, Deus manifestou a Sua bondade e o Seu Amor pelo homem, inaugurando o processo de plena libertação.

 Meditação
É Deus quem transforma e salva. Manifestemos-lhe abertura e docilidade, deixemos-Lhe espaço, acolhamos o Seu Amor, e a transformação será uma realidade visível. Seremos sinal de salvação para outros, capaz de maravilhá-los, não por nós, mas por aquilo que o Senhor é capaz de fazer em nós. Que a nossa vida, com as suas limitações e pobrezas, seja um anúncio de Deus a dizer a toda a gente a gratuidade do Seu Amor.

 Oração
Glória a Ti, Senhor, porque és Salvação. Obrigado, pela grandeza insondável do Teu Amor. Obrigado pela ação regeneradora da Tua graça. Obrigado porque colocas no meu caminho pessoas que me ‘transportam’ à Tua presença; pessoas que rezam por mim! Diante dessa fé, o Teu amor não resiste e eis a maravilha: levantar-me e caminhar. Glória a Ti, Senhor!

Ação
          Diante da gente que vou encontrar hoje, em casa, na escola, no trabalho, no grupo… vou manifestar a alegria de me sentir tocado e salvo pelo amor de Deus.


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012


A cruz de Cristo, medida do mundo
Bto. John Henry Newman

Quando for levantado da terra,atrairei todos os homens a Mim (Jo 12, 32)
     Grande número de homens vive e morre sem jamais ter refletido sobre a situação em que se encontra. Aceitam o lhes chega e seguem as suas inclinações até onde as suas oportunidades lho permitem. Guiam-se principalmente pelo prazer e pela dor, não pela razão, pelos princípios ou pela consciência. Também não tentam interpretar este mundo, determinar o que significa ou reduzir o que vêem e sentem a um sistema. Mas, quando começam a contemplar a situação aparente em que nasceram – quer pela sua mente reflexiva, quer por curiosidade intelectual –, logo chegam à conclusão de que é um labirinto e uma perplexidade. É um enigma que não conseguem resolver. Parece cheia de contradições e desprovida de qualquer desígnio. O que é, como proceder nela, como é o que é, de que modo se pode começar a entendê-la, qual é o nosso destino, tudo são mistérios.

CHAVE DO MUNDO

      Mergulhados nessa dificuldade, alguns compuseram uma filosofia de vida e outros, outra, pensando ter descoberto a chave que lhes permitiria ler aquilo que é tão obscuro.
      Dez mil coisas passam diante de nós, uma após a outra, ao longo da vida: que devemos pensar delas? Que cor atribuir-lhes? Devemos vê-las de maneira alegre e gozosa? Ou de maneira melancólica? De maneira desalentada ou esperançosa? Devemos tomá-las levianamente ou conferir gravidade a cada assunto? Devemos tornar maiores as coisas de pouca importância ou tirar peso às de grande importância? Guardar na mente o que foi e passou, olhar para o futuro ou deixar-nos absorver pelo presente?
      Como devemos olhar as coisas? Esta é a pergunta que todas as pessoas reflexivas fazem a si mesmas, e cada uma lhe responde a seu modo. Desejam pensar por meio de regras, mediante algo que esteja dentro delas e ao mesmo tempo lhes permita harmonizar e ajustar o que está fora. Essa é a necessidade experimentada pelas mentes reflexivas. Agora, permiti-me que pergunte: Qual é a chave real, qual a interpretação cristã deste mundo? Qual o critério que a Revelação nos dá para avaliar e medir este mundo? E a resposta é: o grande acontecimento deste tempo litúrgico, a Crucifixão do Filho de Deus.
     A morte do Verbo eterno de Deus feito carne é a nossa grande lição quanto ao modo como devemos pensar e falar deste mundo. A sua Cruz atribuiu a tudo o que vemos o seu devido peso, a todas as riquezas, a todos os benefícios, a todas as categorias, a todas as distinções, a todos os prazeres; à concupiscência da carne, à concupiscência dos olhos e à soberba da vida. Pesou todas as emoções, as rivalidades, as esperanças, os medos, os desejos, os esforços e os triunfos do homem mortal. Deu significado ao instável e vacilante percurso da vida terrena, às suas provações, tentações e sofrimentos. Reuniu e tornou consistente tudo o que parecia discorde e sem propósito. Ensinou-nos como viver, como usar deste mundo, que aguardar, que desejar, que esperar. É a melodia em que se reúnem e harmonizam todas as dissonâncias da música deste mundo.
PESO E MEDIDA
       Olhai à vossa volta e vede o que o mundo vos apresenta tanto de alto como de baixo. Ide à corte dos príncipes. Vede a riqueza e a arte de todas as nações reunidas para honrar o filho de um homem. Observai como os muitos se prostram diante dos poucos. Considerai as formalidades e o cerimonial, a pompa, o luxo, o esplendor – e a vanglória. Quereis saber o valor de tudo isso? Olhai para a Cruz de Cristo.
    Ide ao mundo da política: vede a inveja que opõe nação a nação, a competição entre uma economia e outra, exércitos e frotas enfrentados uns com os outros. Examinai os diversos estamentos da sociedade, os seus partidos e as suas contendas, as aspirações dos ambiciosos e as intrigas dos astutos. Qual é o fim de toda essa agitação? A sepultura. Qual é a sua medida? A Cruz.
     Ide também ao mundo do intelecto e da ciência: considerai as maravilhosas descobertas feitas pela mente humana, a variedade de artes que essas descobertas fizeram surgir, os quase milagres pelas quais demonstra o seu poder, e considerai a seguir o orgulho e a autoconfiança da razão, e a absorção do pensamento em objetos transitórios, que é a sua conseqüência. Quereis julgar retamente tudo isso? Olhai para a Cruz.
      Mais ainda: vede a miséria, vede a pobreza e a indigência, vede a opressão e o cativeiro; ide para onde o alimento é escasso e a moradia insalubre. Considerai a dor e o sofrimento, as doenças longas ou agudas, tudo o que é pavoroso e repugnante. Quereis saber que peso têm todas essas coisas? Olhai para a Cruz.
      Por isso, todas as coisas convergem para a Cruz – e para Aquele que dela pende –; todas as coisas lhe estão subordinadas, todas as coisas necessitam dela. É o seu centro e a sua interpretação. Pois Ele foi levantado sobre ela para que pudesse atrair a si todos os homens e todas as coisas.
O MODO NATURAL DE PENSAR
       Mas, dir-nos-ão, a perspectiva da vida humana e do mundo que a Cruz de Cristo nos confere não é a que teríamos por nós mesmos; que não é um modo de ver evidente por si mesmo; as coisas são muito mais claras e ensolaradas do que nos parecem à luz da Quaresma. O mundo parece ter sido feito precisamente para que um ser como o homem desfrute dele, e o homem foi posto neste mundo; o homem tem a capacidade de desfrutar, e o mundo lhe fornece os meios de fazê-lo.
      Que modo de pensar tão natural, que filosofia simples e ao mesmo tempo agradável! Mas, como é diferente da filosofia da Cruz! A doutrina da Cruz, poder-se-ia dizer, desarranja as duas partes de um sistema que parecem ter sido feitas uma para outra; separa o fruto de quem o come, o prazer de quem o desfruta. Que problema soluciona? Não será que antes cria um problema?
      Respondo, em primeiro lugar, que seja qual for a força desta objeção, não faz senão repetir aquilo que Eva sentiu e Satanás incitou no Éden. Não viu a mulher que o fruto proibido era “bom para comer” e “de aspecto desejável”? Será então de estranhar que também nós, os descendentes do primeiro casal, nos encontremos num mundo onde há um fruto proibido, e que as nossas tentações consistam em que ele está ao nosso alcance, e que a nossa felicidade consista em abster-nos dele? O mundo, à primeira vista, parece feito para o prazer, e o conhecimento da Cruz de Cristo é uma visão solene e triste que interfere com essa aparência. Seja; mas não consistirá o nosso dever em que nos abstenhamos desse prazer, se era um dever até no Éden?

A LIÇÃO DO MUNDO E A DA CRUZ

      Mais ainda: dizer que esta vida está feita para o prazer e para a felicidade é encarar de maneira extremamente superficial as coisas. Para aqueles que olham além da superfície, este mundo conta uma história muito diferente. No fim das contas, a doutrina da Cruz somente nos ensina – embora de maneira infinitamente mais contundente – a mesmíssima lição que este mundo ensina àqueles que nele vivem longo tempo, que dele adquirem muita experiência, que o conhecem. O mundo é doce aos lábios, mas amargo ao paladar. Agrada no começo, mas não no fim. Parece alegre por fora, mas o mal e a miséria estão ocultos nele.
     Quando um homem passou nele um certo número de anos, exclama com o autor do Eclesiastes:    Vaidade das vaidades, tudo é vaidade (Ecl 1, 2). Mais: se não tiver a religião cristã por guia, terá de ir além e dizer: Tudo é vaidade e descontentamento do espírito (Ecl 6, 2); tudo é desapontamento, tudo é tristeza, tudo é dor. As dolorosas sentenças que Deus pronuncia contra o pecado estão embutidas no mundo e obrigam o homem a afligir-se, quer queira quer não. Portanto, a doutrina da Cruz de Cristo apenas antecipa a nossa experiência do mundo. É verdade que nos exorta a chorar os nossos pecados no meio de tudo o que sorri e brilha ao nosso redor; mas, se não lhe fizermos caso, acabaremos por chorá-los quando estivermos submetidos ao seu terrível castigo. Se não reconhecermos que este mundo se tornou miserável por causa do pecado olhando para Aquele sobre quem os nossos pecados recaíram, acabaremos por sentir a miséria deste mundo quando as conseqüências dos nossos pecados recaírem sobre nós.
      Temos de reconhecer, pois, que a doutrina da Cruz não se encontra à superfície do mundo, pois a superfície das coisas é meramente brilhante, e a Cruz é triste. É uma doutrina escondida, encontra-se sob um véu. Amedronta-nos à primeira vista, e sentimo-nos tentados a revoltar-nos contra ela. Tal como São Pedro, exclamamos: Que Deus não o permita, Senhor! Isto não te acontecerá! (Mt 16, 22). No entanto, é uma doutrina verdadeira, pois a verdade não se encontra à superfície das coisas, mas nas suas profundezas.

SABEDORIA ESCONDIDA

      Assim como a doutrina da Cruz não se manifesta ostensivamente à superfície do mundo, mas é a verdadeira interpretação desse mundo, assim, quando é recebida por um coração fiel, permanece nele como um princípio vital, mas profundo e escondido. Os cristãos, nas palavras da Escritura, vivem da fé no Filho de Deus, que os amou e se entregou por eles (cfr. Gál 2, 20), mas não o alardeiam diante de todos, antes deixam os outros descobri-lo por si mesmos. O próprio Cristo ordenou aos seus discípulos que, quando jejuassem, ungissem a cabeça e lavassem o rosto (cfr. Mt 6, 17).
      Por isso, os cristãos têm o dever de não se vangloriar, antes devem contentar-se com parecer exteriormente diferentes do que realmente são no seu íntimo. Devem mostrar um semblante alegre e controlar e regular os seus sentimentos, para que esses sentimentos não se desgastem na superfície, mas possam retirar-se para o fundo do coração, e ali viver. Por isso, Jesus Cristo, e este crucificado, é – como nos diz o Apóstolo – uma sabedoria escondida (cfr. 1 Cor 2, 2.7); escondida no mundo, que à primeira vista parece falar de uma doutrina enormemente diferente, e escondida na alma fiel, que – para as pessoas que não lhe estão próximas, ou para os conhecidos ocasionais – parece levar apenas uma vida ordinária, quando na realidade está secretamente em comunhão com Aquele que foi manifestado na carne (1 Tim 3, 16), crucificado pela fraqueza (2 Cor 13, 4), justificado no Espírito, visto pelos anjos e acolhido na glória (cfr. 1 Tim 3, 16).

CORAÇÃO DA RELIGIÃO
     Se é assim, a grande e tremenda doutrina da Cruz de Cristo, que agora celebramos, pode ser considerada apropriadamente, em linguagem figurada, o coração da religião. O coração costuma ser considerado a sede da vida; é o princípio do movimento, do calor e da atividade; dele parte o sangue até as extremidades do corpo e a ele retorna. Sustenta as forças e faculdades do homem; permite que o cérebro pense; e se for ferido, o homem morre. Da mesma forma, a sagrada doutrina do Sacrifício Redentor de Cristo é o princípio vital do qual vive o cristão, e sem ele não existe cristianismo.
       Sem ela, não se pode sustentar de maneira proveitosa nenhuma outra doutrina; a Divindade de Cristo, ou a sua Humanidade, ou a Santíssima Trindade, ou o Juízo que há de vir, ou a Ressurreição dos mortos seriam crenças falsas, não a fé cristã, se não se aceitasse ao mesmo tempo a doutrina do sacrifício de Cristo. Por outro lado, aceitá-la pressupõe que se aceitem também as outras altas verdades do Evangelho: ela pressupõe a fé na verdadeira Divindade de Cristo, na sua verdadeira Encarnação e no estado pecaminoso do ser humano; e prepara o caminho para crer no sagrado Banquete Eucarístico, no qual Aquele que outrora foi crucificado é entregue sempre de novo às nossas almas e aos nossos corpos, real e verdadeiramente, no seu Corpo e no seu Sangue.
      Mais ainda: o coração está escondido à vista e segura e cuidadosamente guardado; não é como o olho que, inserido na fronte, tudo controla e é visto por todos. Da mesma forma, a sagrada doutrina do Sacrifício Redentor não se destina a ser objeto de conversação, mas deve ser vivida; não se destina a ser enunciada irreverentemente, mas deve ser adorada em segredo; não se destina a ser usada como um instrumento necessário para a conversão dos maus ou para a satisfação dos raciocinadores deste mundo, mas deve ser apresentada aos dóceis e obedientes, às criancinhas que o mundo não corrompeu, aos aflitos que precisam de consolo, aos sinceros e honestos que buscam uma regra de vida, aos inocentes que precisam de advertência, e aos santos que merecem conhecê-la.

ALEGRIAS E ALEGRIA

     Farei mais uma observação para depois concluir. Não se deve presumir que o Evangelho seja uma religião triste porque a doutrina da Cruz nos entristece. O Salmista diz: Os que semeiam entre lágrimas hão de colher com alegria (Sal 125, 6); e nosso Senhor: Os que choram serão consolados (Mt 5, 5). Que ninguém se afaste de nós com a impressão de que o Evangelho nos leva a ter uma visão sombria do mundo e da vida. Não há dúvida de que ele nos impede de alimentar uma visão superficial e de encontrar vãs alegrias transitórias naquilo que vemos; mas, se nos proíbe a alegria imediata, é apenas para nos dar uma alegria verdadeira e plena mais tarde.
      O Evangelho proíbe-nos apenas começar pelo prazer. Diz-nos: “se começares pelo prazer, terminarás na dor”. Convida-nos a começar pela Cruz de Cristo, e nessa Cruz encontraremos primeiro a tristeza, mas em breve a paz e o consolo que nascerão dessa tristeza. A Cruz há de conduzir-nos à contrição, ao arrependimento, à humilhação, à oração, ao jejum; haveremos de entristecer-nos pelos nossos pecados, haveremos de entristecer-nos com os sofrimentos de Cristo; mas toda essa tristeza resultará, ou melhor, será suportada com uma felicidade imensamente maior do que o prazer que o mundo tem a dar.
      É claro que as mentes superficiais e mundanas não crêem nisto, antes riem destas idéias, porque nunca saborearam a sua realidade e consideram tudo mera questão de palavras, palavras que as pessoas religiosas considerariam decoroso e conveniente usar, em que tentariam crer, nas quais pretenderiam levar outros a acreditar, mas que ninguém realmente sentiria. Isto é o que pensam; mas o nosso Salvador disse aos seus discípulos: Assim também vós, sem dúvida, agora estais tristes, mas hei de ver-vos outra vez e o vosso coração se alegrará, e ninguém vos tirará a vossa alegria; e também: Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz. Não vo-la dou como a dá o mundo (Jo 16, 22; 14, 27). E São Paulo: O homem carnal não aceita as coisas do Espírito de Deus, pois para ele são loucura. Nem as pode compreender, porque é pelo Espírito que se devem ponderar; coisas que os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração humano imaginou, tais são os bens que Deus tem preparado para aqueles que o amam (1 Cor 2, 14.9). Assim, a Cruz de Cristo, ao falar-nos tanto da nossa redenção como dos sofrimentos do Senhor, efetivamente nos fere – mas fere para curar.
     Por isso mesmo, tudo o que é brilhante e belo, mesmo que se encontre apenas à superfície deste mundo, e ainda que não tenha substância e não possa ser apreciado convenientemente por si mesmo, é no entanto figura e promessa daquela verdadeira alegria que nasce da Redenção. É uma promessa antecipada do que há de ser: é uma sombra que gera esperança porque a sua substância há de vir, mas que não deve ser confundida precipitadamente com a própria substância. Este é o modo habitual como Deus lida conosco: envia misericordiosamente a sombra antes da substância, para que possamos consolar-nos com aquilo que há de ser antes mesmo de que chegue.
   Assim, antes da sua Paixão, nosso Senhor entrou triunfalmente em Jerusalém enquanto as multidões gritavam “Hosana” e atapetavam o seu caminho com ramos de palmeira e com os seus mantos. Mas tudo não passava de uma encenação vã e oca, na qual o Senhor não podia encontrar alegria. Era uma sombra que não permaneceu, mas se esvaiu. Não podia ser mais que uma sombra, pois Cristo ainda não tinha sofrido a Paixão pela qual havia de forjar o seu verdadeiro triunfo. Não podia entrar na sua glória sem antes ter sofrido. Não podia desfrutar dessa aparência de glória sabendo que era irreal. Mas aquele primeiro triunfo vislumbrado era o anúncio e presságio da verdadeira vitória que havia de vir quando tivesse vencido o aguilhão da morte. Esse triunfo figurado é o que comemoramos no Domingo de Ramos, para alentar-nos no meio da tristeza da Semana Santa e para recordarmos a alegria verdadeira que virá com o dia da Páscoa.
COMEÇAR PELA FÉ

      O mesmo se aplica a este mundo com todas as suas delícias, que são também desencantos. Não confiemos nele; não lhe entreguemos os nossos corações; não comecemos por ele. Comecemos pela fé; comecemos por Cristo; comecemos pela Cruz e pela humilhação a que ela conduz. Deixemo-nos atrair para Aquele que foi levantado, para que Ele possa dar-nos generosamente todas as coisas, juntamente consigo mesmo. Busquemos primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, e então todas as coisas deste mundo nos serão acrescentadas (Mt 6, 33).
      Só aqueles que começam pelo mundo que não se vê são capazes de desfrutar verdadeiramente deste mundo que se vê. Só quem primeiro se absteve dele pode alegrar-se nele. Só quem primeiro jejuou pode verdadeiramente banquetear-se. Só quem aprendeu a não abusar do mundo é capaz de usá-lo. Só quem o aceita como uma sombra da realidade vindoura, e por amor ao vindouro se desprende do presente, é que há de vir a herdá-lo.

() Sermão pregado no Sexto domingo da Quaresma. É do período anglicano de Newman. Nesta tradução acrescentaram-se subtítulos para facilitar a leitura.

domingo, 12 de fevereiro de 2012


LETIO DIVINA PARA A VI SEMANA DO TEMPO COMUM

«Fica Curado»

Sérgio Paulo Pinto

            Narrando a primeira etapa da atividade pública de Jesus, Marcos apresenta-nos o encontro de Jesus com um leproso, um excluído, sem nome. A sua terrível doença tinha-o convertido num marginalizado social e religioso. Afastado do convívio dos seus e de Deus, estava condenado a viver isolado. Esta situação desesperada, sem esperança, levou-o a Jesus: “Se quiseres, podes curar-me”. E este leproso soube aproveitá-la para sua salvação. Jesus olhou-o compadecido, estendeu-lhe a mão, tocou-lhe… e o milagre aconteceu: “Quero, fica limpo”. Seria uma pena se nós não aproveitássemos este caminho de acesso a Jesus, como fez este leproso. Este está disposto a oferecer-nos muito mais do que podemos imaginar.
Evangelho segundo S. Marcos (1, 40-45)
Naquele tempo, veio ter com Jesus um leproso. Prostrou-se de joelhos e suplicou-lhe: «Se quiseres, podes curar-me». Jesus, compadecido, estendeu a mão, tocou-lhe e disse: «Quero: fica limpo». No mesmo instante o deixou a lepra e ele ficou limpo. Advertindo-o severamente, despediu-o com esta ordem: «Não digas nada a ninguém, mas vai mostrar-te ao sacerdote e oferece pela tua cura o que Moisés ordenou, para lhes servir de testemunho». Ele, porém, logo que partiu, começou a apregoar e a divulgar o que acontecera, e assim, Jesus já não podia entrar abertamente em nenhuma cidade. Ficava fora, em lugares desertos, e vinham ter com Ele de toda a parte.

 SEGUNDA FEIRA 
PALAVRA - Naquele tempo, veio ter com Jesus um leproso.
            Um leproso só poderia ser um “grande pecador”… carregando tão horrível fardo por castigo de Deus, segundo a mentalidade de então. O leproso é um impuro por excelência, excluído da convivência dos seus, deveria andar em lugares solitários, não poderia entrar na cidade e muito menos no templo; até o acesso a Deus lhe estava vedado. É um “morto” civil e religioso, que não se podia relacionar com ninguém. Ele deveria guardar distâncias e gritar “impuro, impuro”, como ensina Lv 13,45, alertando, deste modo, quem andava por perto.
MEDITAÇÃO
            Mas, naquele dia, este leproso, vencendo a barreira da lei e da exclusão, não respeitou a distância para as pessoas sãs, correu o risco de ser denunciado e… veio ter com Jesus. Impensável para um “impuro”. O desespero impeliu-o a tamanha loucura. Mas que tem ele a perder, se já nada lhe resta? E assim, naquele dia, o impuro está diante do puro por excelência… e sem mediadores! Que sucederá? Que fará Jesus? Nós já o sabemos; mas, porque tardo eu a ir ter com Jesus? Por mais horrenda que seja a nossa “lepra”, que nos rouba o convívio com os mais queridos e com o próprio Deus… nunca, nunca é tarde para ir ter com Jesus. E o milagre acontecerá!
ORAÇÃO
            Senhor Jesus, tu conheces a minha miséria, conheces a “lepra” que me consome, que me mantém afastado de ti e dos que mais amo. Mas hoje venho até ti, assim como sou, assim como estou, talvez irreconhecível, desfiguradas as minhas mãos, porque não constroem o teu reino, desfigurado o meu rosto, porque não reflete o teu brilho, desfigurado o meu coração, porque se tornou mais frio, longe de ti e dos irmãos… Mas, hoje, Senhor, venho até ti para reencontrar a pureza do meu corpo e do meu coração. Perdoa a minha impureza e o meu atrevimento, mas hoje é um dia especial: hoje estou contigo. É a minha grande oportunidade.
AÇÃO
            Existem hoje cada vez mais “leprosos”, que nós, legalmente correto, excluímos da nossa sociedade, das nossas relações. Hoje não vou permitir que à minha volta se alimentem sinais de exclusão.


TERÇA FEIRA
PALAVRA - Prostrou-se de joelhos e suplicou-lhe: «Se quiseres, podes curar-me».
            Curar a lepra é uma ação exclusiva de Deus: “Serei eu Deus para dar a morte e a vida?” (2Re 5,7), disse Eliseu a quem pretendia que libertasse Naamã da lepra. O querer de Deus é dar a vida. O leproso quer ser purificado, mas como não pode, confia a sua cura à vontade de Jesus.
MEDITAÇÃO
            Este leproso não se limitou a ir ter com Jesus. Certamente ouvira falar dele e depositou nele toda a sua confiança, a sua vida, a sua razão de existir. Jesus era a sua última esperança. Aquela era a sua grande oportunidade. Prostrou-se de joelhos em terra, aceitando a decisão de Jesus, e depois, cheio de fé, suplicou-lhe que o purificasse, que o retirasse do reino dos “mortos” e o restituísse ao convívio dos vivos… “se quiseres, podes curar-me”. Este homem soube depositar a sua sorte nas mãos de Jesus… e não saiu defraudado! Não será isto que Jesus “quer”? Se ainda não conseguimos libertar-nos da nossa “lepra” é porque, talvez, só nos preocupemos com o que “eu quero” e não nos atrevemos a dizer: “Senhor, se quiseres…”. Depois, o resto já o sabemos!
ORAÇÃO
            Senhor, aqui me tens, de joelhos por terra, mãos estendidas para ti e olhos fixos nos teus: “Se quiseres, podes curar-me”. Purifica-me, Senhor, restitui-me à vida, restitui força aos meus braços, para me juntar aos teus, restitui amor ao meu coração, para que a minha vida seja uma explosão desse amor, restitui-me à vida dos irmãos, para que possa ser, entre eles, sinal de ti. Aqui me tens, Senhor: “Se quiseres, podes curar-me”. Em ti deposito a minha esperança, a minha vida. Senhor, “se quiseres…”.
AÇÃO
            Dificilmente poderemos ser grandes apóstolos, se não experimentarmos um verdadeiro encontro com Jesus. Hoje vou ter com Jesus, prostrar-me diante dele e suplicar-lhe humildemente que nos livre das nossas misérias: “Senhor, se quiseres podes curar-me”. Podemos repetir ao longo do dia esta magnífica oração do leproso.

QUARTA FEIRA
PALAVRA - Jesus, compadecido, estendeu a mão, tocou-lhe e disse: «Quero: fica limpo».
            Existe uma relação estreita neste milagre, entre a palavra e o toque. O homem foi transformado pela palavra que lhe toca o coração. A mão estendida indica a intervenção de Deus para salvar o homem (Cfr. Ex 3,20). O Senhor toca o intocável. Deus é Deus, essencialmente, pela sua misericórdia, que toca a nossa miséria. “Fica limpo”: com a sua palavra, Deus criou o universo (Gn 1ss). Agora recria-o igual a si.
MEDITAÇÃO
            Se antes o leproso havia transgredido a lei, agora é Jesus a fazê-lo: toca o impuro, tornando-se Ele mesmo “impuro” aos olhos da lei. Aqui está a grande novidade que Jesus veio trazer: nenhuma lei está acima do irmão, nenhuma lei é de Deus se exclui o irmão da convivência com os seus e com o próprio Deus. Esta é a lógica de Deus. Jesus não podia ficar indiferente a tão grande fé. Toca-lhe. O tacto é o sentido que revela maior proximidade com a pessoa. Tocar é o gesto fundamental de conhecimento recíproco. A fé é sermos tocados por Jesus. E o que nos toca dentro, transforma decididamente a nossa existência, como a daquele leproso. E Jesus diz: “quero”; o Senhor quer sempre; apenas espera que também nós queiramos. Os milagres mostram que Deus quer dar-nos o que nem sequer esperamos: a nossa dignidade de filhos seus.
ORAÇÃO
            Obrigado, Senhor, sempre que me olhas, compadecido, para me compreender. Obrigado, Senhor, quando me estendes a tua mão, para me transformar. Obrigado, Senhor, quando me tocas, para me confortar. Obrigado, Senhor, quando me dizes: “Quero, fica limpo”, para começar tudo de novo, como no primeiro amanhecer. Quanta ternura de um pai, quanta humanidade de um Deus. Toca-nos, Senhor, toca-nos e transforma-nos, toca-nos com o teu dedo criador e recria-nos igual a ti, para que possamos olhar para tantos outros, rejeitados, com o mesmo olhar compadecido com que nos olhas. Toca-nos, Senhor.
AÇÃO
            Só tocamos quem nos é próximo, conhecido. Certamente conheço alguém, próximo, que seja motivo de exclusão. Somos convidados, por Jesus, a olhá-lo compadecido, a estender-lhe a mão, a tocar-lhe e dizer-lhe: ‘quero’!

QUINTA FEIRA
PALAVRA - No mesmo instante o deixou a lepra e ele ficou limpo.
            Jesus, com esta ação, regenera a vida, é Deus, é o Senhor. O leproso curado é a figura de todos os homens que recorrem a Jesus para receberem o dom da vida, livre da morte.
MEDITAÇÃO
            E a lepra deixou-o e ele ficou limpo. A “lepra”, de qualquer tipo, já não exclui da vida, porque é comunhão com Jesus, fonte de vida. O toque interior da sua palavra purifica-nos e transforma-nos em filhos. O estado de “lepra” não será a última palavra de Deus. Antes, aquele homem, com um misto de desespero e fé, cai de joelhos em terra, sem saber que sorte lhe esperava; e agora, ergue-se da terra como homem novo, ergue-se não um excluído, um solitário, mas um discípulo. O deserto já não será a sua morada, mas sim o templo, as praças, para anunciar Jesus; arredado da convivência com os seus, agora será o fermento do Reino entre eles, o suporte da sua fé.
ORAÇÃO
            Sempre que me dirijo suplicante a ti, Senhor, encontro a força regeneradora da tua mão, inunda-me o teu olhar compadecido, sinto esvair-se a minha miséria, e ergo-me purificado, fortalecido com a tua palavra transformadora: “Quero, fica limpo”. Como poderei agradecer tão grande dom, Senhor? Que tenho eu para dar? No entanto, aqui me tens, ofereço-me a ti, Senhor, purificado, disposto a transformar o impuro à minha volta, em puro, como o fizeste em mim.
AÇÃO
            “No mesmo instante o deixou a lepra e ele ficou limpo”. Que “lepra” carrego no meu coração? Quero viver com ela, afastado de Deus e dos meus? Como posso ser purificado? Vou deixar escapar esta oportunidade única de me encontrar com Jesus?

 SEXTA FEIRA

PALAVRA - Advertindo-o severamente, despediu-o com esta ordem: «Não digas nada a ninguém, mas vai mostrar-te ao sacerdote e oferece pela tua cura o que Moisés ordenou, para lhes servir de testemunho».
            Em Marcos, evangelho do catecúmeno, é dominante o segredo missionário: não se pode conhecer o Senhor antes da cruz. Daí a recomendação ao leproso que nada diga (Cfr. Mc 1,34; 5,43; 7,36). Mostrar-se ao sacerdote era a prática da lei (Lv 13,49; 14,2-32; 17,14). Cabia ao sacerdote distinguir o que era santo e profano, o que era puro e impuro (Cfr. Lv 10,10). Por isso, para que este homem fosse reabilitado e reintegrado na santa assembleia de Israel, deveria passar pelo sacerdote, e pelo consequente rito de purificação, prescrito em Levítico 14.

MEDITAÇÃO
            Como podia aquele homem calar semelhante alegria que lhe rebentava o coração? Como calar a gratidão de ter sido readmitido à dignidade humana, com os seus e com Deus, no templo? Jesus manda, também, que o leproso purificado cumpra as práticas da lei, em reconhecimento do dom recebido. Deste modo, o leproso testemunha aos sacerdotes que existe alguém entre eles que pode dar a vida; eles compreenderão que Deus está presente no meio do povo, em Jesus. Deste modo, este “impuro” dá testemunho de Jesus, transforma-se em fermento do amor e da bondade de Deus. Assim, são os impuros agraciados, os melhores profetas de Deus.

ORAÇÃO
            Perdoa-me, Senhor, mas que a minha boca não se canse de falar de ti. Quero correr para os meus, que esperam ansiosos a minha presença, purificada, e correr para os incrédulos, que duvidam da tua legitimidade, para que saibam que tu és o Senhor, o Deus misericordioso que olha compadecido para as nossas misérias, que nos toca bem dentro e nos transforma radicalmente, por muito horrenda que seja a nossa “lepra”. Perdoa-me, Senhor, mas que a minha boca não se canse de falar de ti.

AÇÃO
            Existem tantos incrédulos que, agarrados a preconceitos, condenam os irmãos a viverem excluídos. Vou ter com eles e dar-lhes testemunho da lógica de Deus: também os “impuros”, os excluídos são filhos de Deus e irmãos nossos.

 SÁBADO

PALAVRA - Ele, porém, logo que partiu, começou a apregoar e a divulgar o que acontecera, e assim, Jesus já não podia entrar abertamente em nenhuma cidade. Ficava fora, em lugares desertos, e vinham ter com Ele de toda a parte.

MEDITAÇÃO
            Quem encontra a Jesus, quem nele põe toda a sua sorte, transforma-se no seu testemunho mais eficaz. É impossível calar tamanha graça recebida. E o gesto de Jesus foi motivo de louvor a Deus. O povo percebeu a mão de Deus presente entre eles. Uma vez mais Deus dá provas de fidelidade à sua aliança. E, engraçado, os papéis de Jesus e do leproso inverteram-se: antes o leproso andava só em lugares desertos e Jesus circulava pelas cidades sem ser identificado; agora o leproso circula pelas cidades apregoando o gesto de misericórdia de Jesus e Jesus só pode andar por lugares desertos, pois a sua fama estendeu-se sem limites. Jesus está agora no lugar de origem do leproso, onde há muitos mais, como ele, excluídos, esquecidos pelos seus queridos… Jesus está ali onde já não parece haver esperança… para mais uma vez estender a sua mão e dizer-te: “Quero, fica limpo”.

ORAÇÃO
            Tantas vezes me olhaste compadecido, Senhor, me tocaste… e a minha vida ganhou outro sentido. Não é possível calar semelhante alegria, pois se a minha boca se cala, o meu coração grita agradecido aos quatro cantos… Há tantos outros, que carregam as suas misérias, e esperam que lhes fale de ti, para que depositem só em ti as suas esperanças. Transforma-me em teu discípulo eficaz, na cidade, no templo, em toda a parte, onde existam excluídos, onde existam corações esmagados pelas suas misérias. Senhor, que eu os olhe sempre, compadecido, e lhes estenda a minha mão.

AÇÃO
            Como aquele homem, vou apregoar e divulgar quanto Jesus fez em mim, em ti. Vou dizê-lo com a minha voz, com os meus gestos, com a minha vida.