S. João Henrique Newman,
presbítero e cardeal
Venerável Pio XII, papa
1ª Leitura (Gal 3:7-14): Irmãos:
Procurai compreender: Os verdadeiros filhos de Abraão são os que vivem segundo
a fé. Tendo a Escritura previsto que Deus havia de justificar os gentios pela
fé, anunciou previamente a Abraão esta boa nova: «Em ti serão abençoadas todas
as nações». Assim, os que vivem segundo a fé são abençoados com Abraão, que
acreditou. Na verdade, os que dependem das obras da Lei de Moisés estão sob a
maldição, porque está escrito: «Maldito aquele que não cumpre tudo o que está
escrito no Livro da Lei». Além disso, é evidente que diante de Deus, ninguém é
justificado pela Lei, porque a Escritura diz: «O justo viverá pela fé». A Lei,
porém, não se baseia na fé, porque diz: «Quem cumprir aqueles preceitos viverá
por eles». Mas Cristo resgatou-nos da maldição da Lei de Moisés, tornando-Se
maldição por amor de nós, como está escrito: «Maldito aquele que é suspenso do
madeiro». Assim, por meio de Jesus Cristo, a bênção de Abraão se estendeu-se
aos gentios e nós recebemos, pela fé, o Espírito prometido.
Salmo Responsorial: 110
R. O Senhor recorda a sua aliança para sempre.
Louvarei o Senhor de todo o coração no conselho dos justos e
na assembleia. São grandes as obras do Senhor, admiráveis para os que nelas
meditam.
A sua obra é esplendor e majestade e a sua justiça permanece
eternamente. Instituiu um memorial das suas maravilhas: o Senhor é
misericordioso e compassivo.
Deu sustento àqueles que O temem e jamais se esquecerá da
sua aliança. Fez ver ao seu povo a força das suas obras, para lhe dar a herança
das nações.
Aleluia. Chegou a hora em que vai ser expulso o príncipe
deste mundo, diz o Senhor; e quando Eu for levantado da terra, atrairei todos a
Mim. Aleluia.
Evangelho (Lc 11,15-26): Naquele
tempo, depois de que Jesus expulsou um demônio, alguns disseram: É pelo poder
de Belzebu, o chefe dos demônios, que ele expulsa os demônios. Outros, para
tentar Jesus, pediam-lhe um sinal do céu. Mas, conhecendo seus pensamentos, ele
disse-lhes: Todo reino dividido internamente será destruído; cairá uma casa
sobre a outra. Ora, se até Satanás está dividido internamente, como poderá
manter-se o seu reino? Pois dizeis que é pelo poder de Belzebu que eu expulso
os demônios. Se é pelo poder de Belzebu que eu expulso os demônios, pelo poder
de quem então vossos discípulos os expulsam? Por isso, eles mesmos serão vossos
juízes. Mas, se é pelo dedo de Deus que eu expulso os demônios, é porque o
Reino de Deus já chegou até vós. Quando um homem forte e bem armado guarda o
próprio terreno, seus bens estão seguros. Mas, quando chega um mais forte do
que ele e o vence, arranca-lhe a armadura em que confiava e distribui os
despojos. Quem não está comigo é contra mim; e quem não recolhe comigo,
espalha. Quando o espírito impuro sai de alguém, fica vagando por lugares
áridos, à procura de repouso. Não o encontrando, diz: Vou voltar para minha
casa de onde saí. Chegando aí, encontra a casa varrida e arrumada. Então ele
vai e traz outros sete espíritos piores do que ele, que entram e se instalam
aí. No fim, o estado dessa pessoa fica pior do que antes.
«Alguns disseram: É pelo poder de Beelzebu, o chefe dos
demônios, que ele expulsa os demônios»
Rev. D. Josep PAUSAS i Mas (Sant Feliu de Llobregat,
Espanha)
Hoje, contemplamos comovidos como Jesus é ridiculamente
culpado de expulsar demônios: É pelo poder de Belzebu, o chefe dos demônios,
que ele expulsa os demônios (Lc 11,15). É difícil imaginar um bem maior,
expulsar, afastar das almas ao diabo, o instigador do mal e, ao mesmo tempo,
escutar a acusação mais grave fazê-lo, precisamente, pelo poder do próprio
diabo. É realmente uma incriminação gratuita, que manifesta muita cegueira e
inveja por parte dos acusadores do Senhor. Hoje em dia, também, sem perceber,
eliminamos de raiz o direito que os outros têm a discrepar, a serem diferentes
e, a terem suas próprias posições contrárias e, incluso, opostas às nossas.
Quem o vive fechado em um dogmatismo político, cultural ou
ideológico, facilmente menospreza ao que discrepa, desqualificando todo seu
projeto e negando-lhe competência e, inclusive honestidade. Em tal caso, o
adversário político ou ideológico transforma-se no inimigo pessoal. O confronto
degenera em insulto e agressividade. O clima de intolerância e mútua exclusão
violenta pode, então, nos conduzir à tentação de eliminar de alguma maneira a
quem se nos apresenta como inimigo.
Nesse clima é fácil justificar qualquer atentado contra
pessoas, inclusive, os assassinatos, se o morto não é dos nossos. Quantas
pessoas sofrem hoje com esse ambiente de intolerância e rechaço mútuo que frequentemente
se respira nas instituições públicas, nos locais de trabalho, nas assembleias e
confrontos políticos!
Entre todos devemos criar as condições e um clima de
tolerância, respeito mútuo e confronto leal no qual seja possível ir achando
caminhos de diálogo. Os cristãos, longe de endurecer e sacralizar falsamente
nossas posições manipulando a Deus e identificando-o com nossas próprias
posturas, devemos seguir a este Jesus que quando seus discípulos pretendiam que
impedisse que outros expulsaram demônios em nome dele, os corrigiu
dizendo-lhes: Não o proibais, pois quem não é contra vós, está a vosso favor(Lc
9,50). Todo o inumerável coro de pastores reduz-se ao Corpo de um só Pastor
(Santo Agostinho).
Pensamentos para o Evangelho de hoje
«Já que Cristo, com a sua vinda, expulsou o diabo dos nossos
corações para preparar em nós um templo, façamos todos os esforços com a sua
ajuda para que Cristo não seja desonrado em nós pelas nossas más obras» (São
Cesário de Arles)
«O Diabo está sempre a tentar arruinar a obra de Deus,
semeando a divisão no coração humano, entre o corpo e a alma, entre o homem e
Deus, nas relações sociais, internacionais... O mal semeia a guerra; Deus cria
a paz» (Bento XVI)
«(…) O poder de Satanás não é infinito. Satanás é uma
simples criatura, poderosa pelo facto de ser puro espírito, mas, de qualquer
modo, criatura: impotente para impedir a edificação do Reino de Deus. (…)»
(Catecismo da Igreja Católica, nº 395)
Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm.
* O evangelho de hoje traz uma longa discussão em
torno da expulsão de um demônio mudo que Jesus acabava de realizar diante do
povo.
* Lucas 11,14-16: Três reações diferentes diante da mesma
expulsão. Jesus estava expulsando demônios. Diante deste fato bem visível,
realizado diante de todos, houve três reações diferentes. O povo ficou
admirado, aplaudiu. Outros diziam: "É por Belzebu, o príncipe dos
demônios, que ele expulsa os demônios". O evangelho de Marcos informa que
se tratava dos escribas que tinham vindo de Jerusalém para controlar a
atividade de Jesus (Mc 3,22). Outros ainda pediam um sinal do céu, pois não se
convenceram diante do sinal tão evidente da expulsão realizada diante de todo o
povo.
* Lucas 11,17-19: Jesus mostra a incoerência dos
adversários. Jesus usa dois argumentos para rebater a acusação de estar
expulsando demônio em nome de Beelzebu. Em primeiro lugar, se o demônio expulsa
o próprio demônio, ele se divide a si mesmo e não vai sobreviver. Em segundo
lugar, Jesus lhes devolve o argumento: Se eu expulso em nome de demônio, os
filhos de vocês o fazem em nome de quem? Com outras palavras, eles também
estariam fazendo as expulsões em nome de Beelzebu.
* Lucas 11,20-23: Jesus é o homem mais forte que chegou,
sinal da chegada do Reino. Aqui Jesus chega no ponto central da sua
argumentação: “Quando um homem forte e bem armado guarda a sua casa, os bens
dele estão em segurança. Mas, quando chega um homem mais forte do que ele e o
vence, arranca-lhe a armadura na qual ele confiava, e reparte o que roubou.”.
Na opinião do povo daquele tempo, Satanás dominava o mundo através de demônios
(daimônia). Ele era o homem forte e bem armado que guardava a sua casa. A
grande novidade era o fato de que Jesus conseguia expulsar os demônios. Sinal
de que ele era e é o homem mais forte que chegou. Com a chegada de Jesus o
reino de Beelzebu entrou em declínio: “Se é pelo dedo de Deus que eu expulso os
demônios, então o Reino de Deus chegou para vocês”. Quando os magos do Faraó
viram que Moisés fazia coisas que eles não eram capazes de realizar, foram mais
honestos que os escribas diante de Jesus e disseram: “Aqui tem o dedo de Deus!”
(Ex 8,14-15).
* Lucas 11,24-26: A segunda queda é pior que a primeira. Na
época de Lucas nos anos 80, diante das perseguições, muitos cristãos voltaram
atrás e abandonaram as comunidades. Voltaram à maneira de viver de antes. Para
advertência a eles e a todos nós, Lucas guardou estas palavras de Jesus sobre a
segunda queda que é pior do que a primeira.
* A expulsão dos
demônios. O primeiro impacto que a ação de Jesus causava no povo era a
expulsão dos demônios: “Até mesmo os espíritos impuros ele dá ordens e eles lhe
obedecem!” (Mc 1,27). Uma das principais causas da briga de Jesus com os
escribas era a expulsão dos demônios. Eles o caluniavam dizendo: “Ele está
possuído por Belzebu! É pelo príncipe dos demônios que ele expulsa os
demônios!” O primeiro poder que os apóstolos receberam quando foram enviados em
missão foi o poder de expulsar os demônios: “Deu-lhes poder sobre os espíritos
maus” (Mc 6,7). O primeiro sinal que acompanha o anúncio da ressurreição é a
expulsão dos demônios: “Os sinais que acompanharão aqueles que acreditarem são
estes: expulsarão demônios em meu nome!” (Mc 16,17). A expulsão dos demônios
era o que mais chamava a atenção do povo (Mc 1,27). Ela atingia o centro da Boa
Nova do Reino. Por meio dela Jesus devolvia as pessoas a si mesmas.
Devolvia-lhes o juízo, a consciência (Mc 5,15). É sobretudo o evangelho de
Marcos, do começo ao fim, com palavras quase iguais, repete sem parar a mesma
mensagem: “E Jesus expulsava os demônios!” (Mc 1,26.34.39; 3,11-12.22.30;
5,1-20; 6,7.13; 7,25-29; 9,25-27.38; 16,17). Parece um refrão que sempre volta.
Hoje, em vez de usar sempre as mesmas palavras usaríamos palavras diferentes
para transmitir a mesma mensagem e diríamos: “O poder do mal, o Satanás, que
mete tanto medo no povo, Jesus o venceu, dominou, amarrou, destronou, derrotou,
expulsou, eliminou, exterminou, aniquilou, abateu, destruiu e matou!” O que o
Evangelho nos quer dizer é isto: “Ao cristão é proibido ter medo de Satanás!”
Pela sua ressurreição e pela sua ação libertadora, Jesus afasta de nós o medo
de Satanás, cria liberdade no coração, firmeza na ação e esperança no
horizonte! Devemos caminhar na Estrada de Jesus com sabor de vitória sobre o
poder do mal!
Para um confronto pessoal
1) Expulsar o poder do mal. Qual é hoje o poder do
mal que massifica o povo e roube dele a consciência crítica?
2) Você pode dizer de você mesma que é totalmente
livre e liberta? Caso a resposta for negativa, alguma parte em você está em
poder de outras forças. O que você faz para expulsar este poder que toma conta
de você?
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