sexta-feira, 3 de julho de 2026

XIV Domingo do Tempo Comum

Santo Antônio Maria Zacarias, presbítero
 
1ª Leitura (Zac 9,9-10):
Eis o que diz o Senhor: «Exulta de alegria, filha de Sião, solta brados de júbilo, filha de Jerusalém. Eis o teu Rei, justo e salvador, que vem ao teu encontro, humildemente montado num jumentinho, filho duma jumenta. Destruirá os carros de combate de Efraim e os cavalos de guerra de Jerusalém; e será quebrado o arco de guerra. Anunciará a paz às nações: o seu domínio irá de um mar ao outro mar e do Rio até aos confins da terra».
 
Salmo Responsorial: 144
R. Louvarei para sempre o vosso nome, Senhor, meu Deus e meu Rei.
 
Quero exaltar-Vos, meu Deus e meu Rei, e bendizer o vosso nome para sempre. Quero bendizer-Vos, dia após dia, e louvar o vosso nome para sempre.
 
O Senhor é clemente e compassivo, paciente e cheio de bondade. O Senhor é bom para com todos e a sua misericórdia se estende a todas as criaturas.
 
Graças Vos deem, Senhor, todas as criaturas e bendigam-Vos os vossos fiéis. Proclamem a glória do vosso reino e anunciem os vossos feitos gloriosos.
 
O Senhor é fiel à sua palavra e perfeito em todas as suas obras. O Senhor ampara os que vacilam e levanta todos os oprimidos.
 
2ª Leitura (Rom 8,9.11-13): Irmãos: Vós não estais sob o domínio da carne, mas do Espírito, se é que o Espírito de Deus habita em vós. Mas se alguém não tem o Espírito de Cristo, não Lhe pertence. Se o Espírito d’Aquele que ressuscitou Jesus de entre os mortos habita em vós, Ele, que ressuscitou Cristo Jesus de entre os mortos, também dará vida aos vossos corpos mortais, pelo seu Espírito que habita em vós. Assim, irmãos, não somos devedores à carne, para vivermos segundo a carne. Se viverdes segundo a carne, morrereis; mas, se pelo Espírito fizerdes morrer as obras da carne, vivereis.
 
Aleluia. Bendito sejais, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque revelastes aos pequeninos os mistérios do reino. Aleluia.
 
Evangelho (Mt 11,25-30): Naquela ocasião, Jesus pronunciou estas palavras: «Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, assim foi do teu agrado. Tudo me foi entregue por meu Pai, e ninguém conhece o Filho, senão o Pai, e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar. Vinde a mim, todos vós que estais cansados e carregados de fardos, e eu vos darei descanso. Tomai sobre vós o meu jugo e sede discípulos meus, porque sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para vós. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve».
 
«Vinde a mim, todos vós que estais cansados e carregados de fardos, e eu vos darei descanso»
 
P. Antoni POU OSB Monge de Montserrat (Montserrat, Barcelona, Espanha)
 
Hoje, Jesus mostra-nos duas realidades que o definem: Ele é quem conhece o Pai em toda a profundidade, e é «manso e humilde de coração» (Mt 11,29). Também aí podemos descobrir duas atitudes necessárias para poder entender e viver o que Jesus nos oferece: a simplicidade e o desejo de nos aproximarmos d’Ele.
 
Entrar no mistério do Reino é difícil, muitas vezes, para os sábios e entendidos, porque não estão abertos à novidade da revelação divina; Deus não deixa de se manifestar, mas eles pensam que já sabem tudo e, portanto, Deus já não consegue surpreendê-los. Pelo contrário, os simples, como as crianças nos seus melhores momentos, são receptivos, são como uma esponja que absorve a água, têm capacidade de surpresa e de admiração. Também há excepções, até há homens doutos em ciências humanas que são humildes no que se refere ao conhecimento de Deus.
 
Jesus encontra o seu repouso no Pai, e a sua paz pode ser refúgio para todos os que foram maltratados pela vida: «Vinde a mim, todos vós que estais cansados e carregados de fardos, e eu vos darei descanso» (Mt 11,28). Jesus é humilde e a humildade é irmã da simplicidade. Quando aprendemos a ser felizes através da simplicidade, então desfazem-se muitas complicações, desaparecem muitas necessidades, e podemos enfim descansar. Jesus convida-nos a segui-Lo; não nos engana: estar com Ele é levar o seu jugo, assumir as exigências do amor. O sofrimento não nos será poupado, mas o seu fardo é leve, porque o nosso sofrimento não será causado pelo nosso egoísmo, mas apenas sofreremos o que seja necessário, por amor e com a ajuda do Espírito. Além disso, não esqueçamos que «as tribulações que se sofrem por Deus são suavizadas pela esperança» (Sto. Efrem).
 
Pensamentos para o Evangelho de hoje
«Vamos realmente impor a nós próprios o trabalho de aprender a lição da santidade de Jesus, cujo coração era manso e humilde. A primeira lição desse coração é um exame de consciência; o resto – amor e serviço – segue-se imediatamente —amor e serviço— segue-se imediatamente» (Santa Teresa de Calcutá)
 
«Jesus faz-nos conhecer o Pai. E para quem Ele revela isto? Só quem tem coração de criança é capaz de receber esta revelação» (Francisco)
 
«O Reino é dos pobres e pequenos, quer dizer, dos que o acolheram com um coração humilde (…). [Jesus] identifica-se com os pobres de toda a espécie, e faz do amor ativo para com eles a condição da entrada no seu Reino» (Catecismo da Igreja Católica, nº 544)
 
“Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração.”
 
Fr. Pedro Bravo, O.Carm.
 
Após o “discurso da missão” (9,36-11,1), Mateus introduz uma secção narrativa, onde apresenta as reações e as atitudes que diversas pessoas e grupos têm perante Jesus e o Evangelho do Reino (11,2-12,50). É nesta secção que se insere o presente texto. Ele compõe-se de três “ditos” de Jesus: os dois primeiros (vv. 25-27) são comuns a Lucas (Lc 10,21-22) e o terceiro (vv. 28-30) é exclusivo de Mateus.
 
* v. 25. Jesus tomou a palavra e disse: «Louvo-te, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos. O primeiro dito de Jesus é uma “confissão pública de louvor” (he. todah; gr. exomológesis; lat. confessio: Sl 95,2; 100,1.4; 136,26; Tb 12,6.22; 13,7; Sir 51,1) de Jesus a Deus. Jesus invoca-o como “Pai” (5x, aqui) e confessa ser o único (cf. v. 27: “tudo”) “Senhor do céu e da terra” (cf. 28,18; Js 2,11; 1Rs 8,23; 1Cr 29,11; Ne 9,6; Est 4,17c; Jon 1,9; Is 45,18; Jr 23,24).
 
* Jesus louva o Pai porque escondeu (gr. kryptô: “ocultou”) “estas coisas”, ou seja, “os mistérios do Reino dos céus” (13,11) – guardados desde toda a eternidade em Deus (cf. 10,26; 13,35; Rm 16,25; 1Cor 2,7; Ef 3,9; Cl 1,26s; 2,2s; 1Tm 3,16) e agora revelados por Ele aos homens –, “aos sábios e entendidos” (Is 29,14!), ou seja, aos fariseus, escribas e doutores da Lei, que se consideravam justos, conhecedores e cumpridores da Lei (“sábios”), que interpretam a Palavra de Deus à sua maneira, que confiavam nos seus méritos e se apresentavam a si mesmos como exemplo para os outros, quando, na realidade, não ajudavam, mas impediam as pessoas de chegar a Deus, sobrecarregando-as com as suas normas que não passavam de preceitos humanos (cf. 15,9; Is 29,13).
 
* “Mas as revelaste” (gr. apolalýpto: “des-cobrir”), por Tua graça. “Aos pequeninos” (gr. népios, criança dos 3-7 anos: 21,16), ou seja, aos simples, sem instrução (cf. Sr 51,23), aos que se arrependem, reconhecendo que são pecadores, necessitados de salvação (cf. v. 20; 3,9), e que, por isso, se abrem a Jesus e acolhem com alegria a sua Palavra (cf. 18,3; 19,14).
 
* v. 26. Sim, ó Pai, porque assim foi do teu agrado. É nestes “pequeninos” que o Pai se “compraz” (cf. 18,10), pois é com eles que Jesus, seu Filho, se identifica (cf. 18,5; 25,40.45).
 
* v. 27. Tudo Me foi entregue por meu Pai; ninguém conhece o Filho senão o Pai e ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho O quiser revelar. O segundo dito de Jesus relaciona-se com o anterior. É uma “fórmula de revelação” onde Jesus mostra o que é que foi escondido aos “sábios e entendidos” e revelado aos “pequeninos”: “o mistério” do Reino de Deus, ou seja, o desígnio salvífico de Deus, em Jesus Cristo (cf. Ef 1,9s).
 
* “Tudo” – a revelação definitiva de Deus, do seu desígnio salvífico, a redenção do homem e a obra de salvação – foi “entregue” pelo Pai a Jesus (cf. 28,18; Dn 7,14; Jo 3,35; 13,3), porque Ele é “o Filho”, a “expressão da sua substância” (Hb 1,3).
 
* Os “sábios e entendidos” pensavam que bastava esmiuçar a Lei, para conhecer Deus e fazer a sua vontade. Jesus diz que a vontade de Deus é que todos reconheçam Deus como Pai e O reconheçam a Ele como o seu Filho eterno (cf. Jo 17,3).
 
* “Conhecer” (gr. epiginôskô: “conhecer exatamente”; “reconhecer”) não significa apenas “conhecer”, ter a experiência pessoal, íntima, de Deus, numa vida em união com Ele, mas também “reconhecer”, “perceber” que Deus e Jesus têm uma relação única, exclusiva e divina entre si, em que Deus é “o Pai” de Jesus, e Jesus “o Filho” unigénito, o único que leva ao Pai e O dá a conhecer (Jo 1,18; 14,6) de forma plena e definitiva, pois só Ele, Deus feito homem (1,23), é a revelação do Pai.
 
* v. 28. Vinde a Mim todos os que andais cansados e oprimidos e Eu vos darei descanso. O terceiro dito (vv. 28-30), exclusivo de Mateus, é um convite, uma exortação sapiencial de Jesus a vir a Ele. No seu tríplice apelo – a) “vinde a Mim”, b) “tomai o meu jugo” e c) “aprendei de mim” –, Jesus aplica a si mesmo as palavras da sabedoria divina (Sr 24,14; 51,23.26s), apresentando-se implicitamente como a sabedoria de Deus encarnada (cf. 11,19; 12,42).
 
* Este convite dirige-se: a) a “todos”, não só aos judeus, mas também aos gentios; b) “que estão cansados” (lit. “exaustos”), buscando, com trabalho árduo, o que não sacia (cf. Is 55,2); c) “e oprimidos” pelo fardo da Lei – tornado insuportável pelos rabinos (cf. v. 30; 23,4) –, o “jugo da escravidão” que sobre eles pesava (cf. Gl 5,1; Sr 40,1; Hb 2,15).
 
* Ao convite, segue-se a promessa: “E Eu vos darei descanso”, ou seja, vos restaurarei (gr. anapaúô: v. 29), dando-vos o efetivo repouso sabático, regenerador (cf. Ex 23,12; Dt 5,14), do Espírito Santo (cf. Is 11,2), que vos libertará de todos os vossos inimigos (cf. 2 Sm 7,11; 1Cr 22,9), vos curará e salvará, saciando-vos com o meu manjar (cf. 26,26ss; Ez 34,14s; Sl 23), para que possais caminhar na presença de Deus (cf. Ex 33,14), segundo a minha Palavra (cf. Jr 6,16), gozando da verdadeira paz (cf. Is 32,18; Cl 1,19s; Ef 2,14-18).
 
* v. 29. Tomai o meu jugo sobre vós e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas almas. Os rabinos aplicavam a imagem do “jugo” à Lei de Deus, a suprema norma de vida (cf. Sir 51,26-27;6,24-30). Embora sustentassem que a Lei não era um “jugo” pesado, na realidade tinham feito dela um “jugo” pesadíssimo, pois ninguém conseguia cumprir todos os 613 mandamentos da Lei escrita e oral (cf. At 15,10; Rm 2,17-23). Sendo o jugo uma peça de madeira grossa, adaptada ao cachaço de dois animais, que serve para os apor ao carro ou ao arado, a imagem sugere um trabalho (cf. Jo 6,27ss), a ser feito pelo discípulo em conjunto com Jesus neste caso, o de pôr em prática a Sua palavra, o Evangelho.
 
* Quem toma o jugo de Jesus, é libertado por Ele da escravidão da Lei, para O seguir, como seu único Mestre e Guia (23,9.11), dele aprendendo a viver segundo o Evangelho. A este, Jesus convida-o a entrar na sua escola, para dele aprender a ser um verdadeiro discípulo seu, sendo manso e humilde como Ele, que o é, bem mais do que Moisés (Nm 12,3!).
 
* “Manso” (Mt, 3x: 5,5; 21,5) é aquele que é dócil na sua relação com o próximo (cf. 1Pd 3,4s) e que, mesmo quando é insultado ou privado dos seus direitos, não replica, nem alimenta sentimentos de ódio ou de vingança. Jesus é o “Servo de Iavé” que não levanta a voz (12,18-21; Is 42,2) e que, como “manso cordeiro” que não abre a boca, será conduzido ao matadouro (cf. Jr 11,19; Is 53,1-12), levando a cabo, sem desanimar, nem desfalecer, a sua missão de libertar o homem da escravidão do pecado (cf. Ez 34,27), até que a sua salvação chegue aos confins da terra (cf. Is 42,4).
 
* “Humilde” é o “pobre em espírito” (5,3) que, cônscio da sua fraqueza e impotência, não ambiciona o que é alto (cf. Rm 12,16), mas aceita a realidade, a sua condição de criatura (cf. Tg 1,9), assumindo a sua dependência de Deus, reconhecendo que Deus é tudo e que tudo o que ele é, pode e tem é dom de Deus, aspirando apenas a fazer o que Lhe é agradável (cf. Sf 2,3; 3,12; 1 Pd 5,5), apoiado na Sua graça (cf. 2Cor 12,9s).
 
* Jesus é “manso e humilde de coração”, no seu íntimo, diante de Deus, a partir da raiz do seu ser. Porém, só o reconhecem, dele aprendem e nele “encontram descanso” (v. 28), os “pequeninos” (v. 25) que acolhem a revelação do Pai (cf. 16,17).
 
* v. 30. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve». Para estes, torna-se suave o jugo, e leve, agradável, o fardo que Jesus impõe aos seus seguidores (cf. 1Jo 5,3), ou seja, o Espírito Santo, que não sobrecarrega, mas antes cura, liberta, renova e salva os que creem em Jesus, fazendo‑os caminhar numa vida nova (cf. Rm 7,6; 8,1-17; Gl 5,1. 18; 2Cor 3,17s), indo ao encontro de Jesus com fé viva, esperança firme e caridade ardente, na expectativa da plenitude final (cf. Rm 8,21).
 
MEDITAÇÃO
1. Como cheguei a Deus? Já experimentei o seu amor de Pai? Como ajudar os outros a fazer uma experiência íntima e profunda de Deus?
2. O Senhor está sempre presente nas nossas vidas. Entrego-me a Ele como meu único Senhor e Salvador?
3. Como me situo face ao amor do Pai e à sua proposta em Jesus? Fico fechado no meu comodismo e instalação, orgulho e autossuficiência, olhando para trás e para o que os outros fazem, ou estou aberto e atento à novidade de Jesus, a fim de perceber a sua vontade, imitar os seus gestos e seguir os seus caminhos?

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