São José Bento
Cottolengo, presbítero
1ª Leitura (At 13,13-25): Naqueles
dias, Paulo e os seus companheiros largaram de Pafos e dirigiram-se a Perga da
Panfília. Mas João Marcos separou-se deles para voltar a Jerusalém. Eles
prosseguiram de Perga e chegaram a Antioquia da Pisídia. A um sábado, entraram
na sinagoga e sentaram-se. Depois da leitura da Lei e dos Profetas, os chefes
da sinagoga mandaram-lhes dizer: «Irmãos, se tendes alguma exortação a fazer ao
povo, falai». Paulo levantou-se, fez sinal com a mão e disse: «Homens de Israel
e vós que temeis a Deus, escutai: O Deus deste povo de Israel escolheu os
nossos pais e fez deles um grande povo, quando viviam como estrangeiros na
terra do Egipto. Com seu braço poderoso tirou-os de lá e durante quarenta anos
sustentou-os no deserto e, depois de exterminadas sete nações na terra de
Canaã, deu essas terras como herança ao seu povo. Tudo isto durou cerca de
quatrocentos e cinquenta anos. Em seguida, deu-lhes juízes até ao profeta
Samuel. Então o povo pediu um rei e Deus concedeu-lhes Saul, filho de Cis, da
tribo de Benjamim, que reinou durante quarenta anos. Depois, tendo-o rejeitado,
suscitou-lhes David como rei, de quem deu este testemunho: ‘Encontrei David,
filho de Jessé, homem segundo o meu coração, que fará sempre a minha vontade’.
Da sua descendência, como prometera, Deus fez nascer Jesus, o Salvador de
Israel. João tinha proclamado, antes da sua vinda, um baptismo de penitência a
todo o povo de Israel. Prestes a terminar a sua carreira, João dizia: ‘Eu não
sou quem julgais; mas depois de mim, vai chegar Alguém, a quem eu não sou digno
de desatar as sandálias dos seus pés’».
Salmo Responsorial: 88
R. Senhor, cantarei eternamente a vossa bondade.
Cantarei eternamente as misericórdias do Senhor e para
sempre proclamarei a sua fidelidade. Vós dissestes: «A bondade está
estabelecida para sempre», no céu permanece firme a vossa fidelidade.
Encontrei David, meu servo, ungi-o com o óleo santo. Estarei
sempre a seu lado e com a minha força o sustentarei.
A minha fidelidade e bondade estarão com ele, pelo meu nome
será firmado o seu poder. Ele me invocará: «Vós sois meu Pai, meu Deus, meu
Salvador».
Aleluia. Jesus Cristo, a Testemunha fiel, o Primogénito
dos mortos, amou-nos e purificou-nos dos nossos pecados, pelo seu sangue.
Aleluia.
Evangelho (Jo 13,16-20):
«Em verdade, em verdade, vos digo: o servo não é maior do que seu senhor, e o
enviado não é maior do que aquele que o enviou. Já que sabeis disso, sereis
felizes se o puserdes em prática. Eu não falo de todos vós. Eu conheço aqueles
que escolhi. Mas é preciso que se cumpra o que está na Escritura: ‘Aquele que
come do meu pão levantou contra mim o calcanhar’. Desde já, antes que aconteça,
eu vo-lo digo, para que, quando acontecer, acrediteis que eu sou. Em verdade,
em verdade, vos digo: quem recebe aquele que eu enviar, a mim recebe; e quem me
recebe, recebe aquele que me enviou».
«Depois de lavar os pés dos discípulos...»
Rev. D. David COMPTE i Verdaguer (Manlleu, Barcelona,
Espanha)
Hoje, como naqueles filmes que começam lembrando um fato
passado, a liturgia faz memória de um gesto que pertence à Quinta-feira Santa:
Jesus lava os pés dos discípulos (cf. Jo 13,12). Assim, esse gesto —lido desde
a perspectiva da Páscoa— recobra uma vigência perene. Observemos, somente, três
ideias.
Em primeiro lugar, a centralidade da pessoa. Na nossa
sociedade parece que fazer é o termômetro do valor de uma pessoa. Dentro dessa
dinâmica é fácil que as pessoas sejam tratadas como instrumentos; facilmente
utilizamo-nos uns aos outros. Hoje, o Evangelho nos urge a transformar essa
dinâmica em uma dinâmica de serviço: o outro nunca é um puro instrumento. Tentar-se-ia
de viver uma espiritualidade de comunhão, onde o outro —em expressão de João
Paulo II— chega a ser “alguém que me pertence” e um “ dom para mim”, a quem
temos de “dar espaço”. A nossa língua o tem apanhado felizmente com a
expressão: “estar pelos demais” Estamos pelos demais? Escutamos-lhes quando nos
falam?
Na sociedade da imagem e da comunicação, isto não é uma
mensagem a transmitir, senão uma tarefa a cumprir, a viver cada dia: «sereis
felizes se o puserdes em prática» (Jo 13,17). Talvez por isso, o Mestre não se
limita a uma explicação: imprime o gesto de serviço na memória daqueles
discípulos, passando logo à memória da Igreja; uma memória chamada
constantemente a ser uma vez mais gesto: na vida de tantas famílias, de tantas
pessoas.
Finalmente, um sinal de alerta: «Aquele que come do meu pão
levantou contra mim o calcanhar» (Jo 13,18). Na Eucaristia, Jesus ressuscitado
se faz o nosso servidor, nos lava os pés. Mas não é suficiente com a presença
física. Temos que aprender na Eucaristia e tirar as forças para fazer realidade
que «tendo recebido o dom do amor, morramos ao pecado e vivamos para Deus» (São
Fulgêncio de Ruspe).
Pensamentos para o Evangelho de hoje
«Não há verdadeira amizade senão entre aqueles a quem Tu
unes pela caridade» (Santo Agostinho)
«A comunidade evangelizadora interfere nas obras e nos
gestos da vida quotidiana dos outros, tocando a carne sofredora de Cristo. Os
evangelizadores têm assim “cheiro de ovelha”» (Francisco)
«Em toda a sua vida, Jesus mostra-Se como nosso modelo: é “o
homem perfeito”, que nos convida a tornarmo-nos seus discípulos e a segui-Lo;
com a sua humilhação, deu-nos um exemplo a imitar; com a sua oração,
convida-nos à oração; com a sua pobreza, incita-nos a aceitar livremente o
despojamento e as perseguições» (Catecismo da Igreja Católica, nº 520)
Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm.
* Nos próximos dias, com exceção das festas, o evangelho
diário é tirado da longa conversa de Jesus com os discípulos durante a Última
Ceia (Jo 13 a 17). Nestes cinco capítulos que descrevem a despedida de
Jesus, percebe-se a presença daqueles três fios de que falamos anteriormente e
que tecem e compõem o evangelho de João: a palavra de Jesus, a palavra das
comunidades e a palavra do evangelista que fez a última redação do Quarto
Evangelho. Nestes cinco capítulos, os três fios estão de tal maneira
entrelaçados que o todo se apresenta como uma peça única de rara beleza e
inspiração, onde é difícil distinguir o que é de um e o que é do outro, mas
onde tudo é Palavra de Deus para nós.
* Estes cinco capítulos trazem a conversa que Jesus teve
com os seus amigos, na véspera de ser preso e morto. Era uma conversa
amiga, que ficou na memória do Discípulo Amado. Jesus, assim parece, queria
prolongar ao máximo esse último encontro, momento de muita intimidade. O mesmo
acontece hoje. Há conversa e conversa. Há conversa superficial que gasta
palavras à toa e revela o vazio das pessoas. E há conversa que vai fundo no
coração e fica na memória. Todos nós, de vez em quando, temos esses momentos de
convivência amiga, que dilatam o coração e vão ser força na hora das
dificuldades. Ajudam a ter confiança e a vencer o medo.
* Os cinco versículos do Evangelho de hoje tiram duas
conclusões do lava-pés (Jo 13,1-15). Falam (1) do serviço como
característica principal dos seguidores e seguidoras de Jesus, e (2) da
identidade de Jesus como revelação do Pai.
* João 13,16-17: O servo não é maior que o seu senhor. Jesus acabou de lavar os pés dos discípulos.
Pedro levou susto e não quis que Jesus lhe lavasse os pés. “Se eu não te lavar
os pés, não terás parte comigo” (Jo 13,8). E basta lavar os pés; o resto não
precisa (Jo 13,10). O valor simbólico do gesto do lava-pés consistia em aceitar
Jesus como o Messias Servidor que se entrega a si mesmo pelos outros, e recusar
um messias rei glorioso. Esta entrega de si mesmo como servo de todos é a chave
para entender o gesto do lava-pés. Entender isto é a raiz da felicidade de uma
pessoa: “Se vocês compreenderam isso, serão felizes se o puserem em
prática". Mas havia pessoas, mesmo entre os discípulos, que não aceitavam
Jesus como Messias Servo. Não queriam ser servidores dos outros. Provavelmente,
queriam um messias glorioso como Rei e Juiz, de acordo com a ideologia oficial.
Jesus diz: "Eu não falo de todos vocês. Eu conheço aqueles que escolhi,
mas é preciso que se cumpra o que está na Escritura: Aquele que come pão
comigo, é o primeiro a me trair!” João se refere a Judas, cuja traição vai ser
anunciada logo em seguida (Jo 13,21-30).
* João 13,18-20: Digo isto agora, para que creiais que EU
SOU. Foi por ocasião da libertação
do Egito ao pé do Monte Sinai, que Deus revelou o seu nome a Moisés: “Estou com
você!” (Ex 3,12), “Estou que Estou” (Ex 3,14), “Estou” ou “Eu sou” me mandou
até vocês!” (Ex 3,14), O nome Javé (Ex 3,15) expressa a certeza da presença
libertadora de Deus junto do seu povo. De muitas maneiras e em muitas ocasiões
esta mesma expressão Eu Sou ou Sou Eu é
usada por Jesus (Jo 8,24; 8,28; 8,58; Jo 6,20; 18,5.8; Mc 14,62; Lc 22,70).
Jesus é a presença do rosto libertador de Deus no meio de nós.
Para um confronto pessoal
1) O servo não é maior que o seu senhor. Como faço da
minha vida um serviço permanente aos outros?
2) Jesus soube conviver com pessoas que não o
aceitavam. E eu consigo?
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