quarta-feira, 2 de setembro de 2015

XXIII Domingo do Tempo Comum

Textos: Is 35, 4-7a; Tg 2, 1-5; Mc 7, 31-37

Evangelho (Mc 7,31-37): Jesus deixou de novo a região de Tiro, passou por Sidônia e continuou até o mar da Galileia, atravessando a região da Decápole. Trouxeram-lhe, então, um homem que era surdo e mal podia falar, e pediram que impusesse as mãos sobre ele. Levando-o à parte, longe da multidão, Jesus pôs os dedos nos seus ouvidos, cuspiu, e com a saliva tocou-lhe a língua. Olhando para o céu, suspirou e disse: «Efatá!» (que quer dizer: Abre-te). Imediatamente, os ouvidos do homem se abriram, sua língua soltou-se e ele começou a falar corretamente. Jesus recomendou, com insistência, que não contassem o ocorrido para ninguém. Contudo, quanto mais ele insistia, mais eles o anunciavam. Cheios de grande admiração, diziam: «Tudo ele tem feito bem. Faz os surdos ouvirem e os mudos falarem».

«Trouxeram-lhe, então, um homem que era surdo e mal podia falar, e pediram que impusesse as mãos sobre ele»

Pe. Fernando MIGUENS Dedyn (Buenos Aires, Argentina)

Hoje, a liturgia leva-nos à contemplação da cura de um homem «surdo e mal podia falar» (Mc 7,32). Como em muitas outras ocasiões (o cego de Betsaida, o cego de Jerusalém, etc.), o Senhor acompanha o milagre com uma série de gestos externos. Os Padres da Igreja bem ressaltavam neste fato a participação mediadora da Humanidade de Cristo nos seus milagres. Uma mediação realizada numa dupla direção: por um lado, o abaixamento e a proximidade do Verbo encarnado em nós (o toque dos seus dedos, a profundidade do seu olhar, sua voz doce e próxima); por outro lado, a tentativa de despertar no homem a confiança, a fé e a conversão do coração.

De fato, as curas dos doentes que Jesus realiza vão muito mais além do mero ato de aliviar a dor ou devolver a saúde. Estão dirigidos a conseguir a ruptura com a cegueira, a surdez ou imobilidade atrofiada do espírito naqueles que Ele ama. Como fim último uma verdadeira comunhão de fé e de amor.

Ao mesmo tempo vemos a reação agradecida dos receptores do dom divino que é proclamar a misericórdia de Deus: «Contudo, quanto mais ele insistia, mais eles o anunciavam» (Mc 7,36). Dão testemunho do dom divino, experimentam em profundidade a sua misericórdia e enchem-se de uma profunda e genuína gratidão.

Também para todos nós é de uma importância decisiva saber-nos e sentir-nos amados por Deus, a certeza de ser objeto da sua misericórdia infinita. Esse é o grande motor da generosidade e o amor que Ele nos pede. Muitos são os caminhos pelos quais esse descobrimento há de realizar-se em nós. Algumas vezes será uma experiência intensa e repentina do milagre e o mais frequente, o paulatino descobrimento de que toda a nossa vida é um milagre de amor. Em todo caso, é preciso dar-se as condições de consciência da nossa indigência, uma verdadeira humildade e, a capacidade de escutar reflexivamente a voz de Deus.

A humanidade hoje em certo sentido é surda-muda. Necessita do toque de Cristo para sanar e o grito de Jesus: “Éffeta”.

Pe. Antonio Rivero, L.C

V Centenário do Nascimento
Deus, em Cristo, elegeu aos pobres, inclinou-se sobre aqueles que estão afligidos pela enfermidade e sobre aqueles de coração triste, e agora pede a nós, seus discípulos, que façamos o mesmo, sendo os canais do “Éffeta” de Jesus.

Em primeiro lugar, Jesus acercou-se deste surdo-mudo, como acercou-se aos pobres, aos leprosos, ao paralítico. E acercando-se eleva-os, cura-os, faz que voltem a ser criaturas humanas, enriquece-os de esperança e de fé. E ao acerca-se, toca-os, não só com a sua palavra, mas também com seus gestos humanos, com a sua humanidade. Tocou a este surdo-mudo, humedeceu-lhe a língua. Desde sempre no mundo antigo teve a saliva tais efeitos curativos. Jesus levantou os olhos ao céu como alguém que ora, respirou profundamente como alguém que se apena diante da desgraça alheia ou como alguém que tem impulso curativo, pronunciou a palavra mágica: “Éffeta…abre-te” e o surdo-mudo ouviu e falou como um homem. Estas circunstancias destacam o papel da humanidade de Cristo, instrumento do seu poder divino. Resulta impressionante saber que Deus não se acerca a nós somente com a sua Palavra espiritual, senão que ademais toca-nos. Deus chega a nós através das mãos de Cristo, da sua saliva. E assim cura a nossa alma e o nosso corpo, como Ele fez com o surdo-mudo do evangelho. Os dedos do Senhor, que tocaram nas orelhas do enfermo, não só abriram seus ouvidos ao som humano, senão que também à Palavra de Deus. E a saliva divina, colocada sobre a língua deste tartamudo, não só o liberou da sua trava natural, senão que lhe comunicou a agilidade necessária para orar e para cantar a glória de Deus.

Em segundo lugar, este surdo-mudo é paradigma e protótipo de uma humanidade fechada à voz de Deus e incapaz de louvar ao Senhor. Assim entendeu a Igreja ao escolher os gestos de Jesus para elaborar o seu ritual do Batismo. Sem o batismo estávamos espiritualmente surdos, somente éramos capazes de escutar a voz “da carne e do sangue”, mas não a voz de Deus. Sem o batismo estávamos espiritualmente tartamudos, indignos e privados do direito de chamar a Deus de “Pai-nosso”, incapazes de dizer nem mesmo “Senhor Jesus”, já que como ensina são Paulo, ninguém pode dizer tal coisa “sem a ajuda do Espírito Santo”. Muitos homens de hoje estão surdos como um muro quando Deus lhes fala desde a Bíblia, desde os sacramentos, desde a voz da Igreja, desde o clamor dos pobres. Não conseguem escutar ou não querem escutar o “Éffeta” de Jesus.  Porque? Porque o mundo arrebentou-lhes os tímpanos do espírito; e tanta gargalhada mundana terminou atrofiando-lhes a boca da alma. Outros, graças a Deus, entram no templo e adoram, rezam, cantam, escutam, falam…a Deus. Estes, numa sociedade descristianizada e neo-pagã, são um sinal fluorescente de Deus, um milagre.

Finalmente, Cristo ressuscitado segue curando hoje à humanidade através da Igreja. Durante dois mil anos, a Igreja tem se dedicado, não só a pregar a Palavra e perdoar os pecados, mas também curar aos enfermos, atender aos pobres, anciãos e marginados, lutar contra todo tipo de opressão e injustiça, trabalhar pela libertação integral da pessoa. Basta ver a lista dos santos e santas fundadores, bispos e sacerdotes, que inclusive deram a sua vida por esta causa do evangelho. Esta missão não é só dos ministros sagrados, consagrados e religiosas. É de todo batizado, cada um no seu campo de ação: família, trabalho, amigos, paroquia, periferias. Porém talvez, Jesus quer-nos curar também a nós hoje, porque temos os ouvidos e os lábios fechados.

Para refletir: Sou capaz de ajudar aos cegos que não vem ou não querem ver, para que saibam quais são os caminhos de Deus? E aos surdos, para que saibam da mensagem da salvação de Deus? Ou aos mudos, para que soltem a sua língua e recuperem a fala nos momentos oportunos?

Para rezar: Senhor, quero escutar hoje também na minha vida o “Éffeta…abre-te”, para que meus ouvidos abram-se a tua Palavra e minha boca leve-a por todo o mundo, começando pelos mais próximos. Reza sobre os teus ouvidos e peça: “Éffeta”. Abre-te para a Palavra de Deus. Eu quero escutar a tua voz, Senhor, quero escutar tuas moções. Abre meus ouvidos para as boas palavras. Reza pedindo para que tenhas ouvido de discípulo. Coloca tuas mãos sobre os teus olhos e peça: “Éffeta”. Senhor, quero ter um olhar de misericórdia sobre as situações, sobre as pessoas, não quero ter olhos maliciosos. Quero ver-te nas pessoas, Jesus. Quero ver-te nas situações. Com as mãos na tua boca, grita: “Éffeta”. Quero ter boca de discípulo. Que saiam de minha boca palavras que sanem, salvem, libertem e não palavras de desânimo. Abre meus lábios para que eu seja um anunciador da tua Palavra. E com as mãos sobre teu coração diga: “Éffeta”. Quero ter teu coração, Jesus. Abre meu coração para amar, para perdoar. Abre meu coração para não guardar ódio de ninguém. Eu quero, Senhor. Abre meu coração.

Qualquer sugestão ou dúvida podem comunicar-se com o padre Antonio neste e-mail: arivero@legionaries.org

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