quarta-feira, 28 de setembro de 2022

Sexta-feira da 26ª semana do Tempo Comum

São Jerônimo, presbítero e doutor da Igreja
S. Gregório, o Iluminador, bispo

1ª Leitura (Jó 38,1.12-21; 40,3-5): O Senhor falou a Job do meio da tempestade: «Porventura alguma vez na vida deste ordens à manhã e marcaste à aurora o seu lugar, para que ela agarre as extremidades da terra e dela sacuda os malfeitores? Deste ordens à terra para ela se moldar como a argila debaixo do sinete e tingir-se como um vestido, recusando a luz aos malfeitores e quebrando a força do braço erguido? Acaso desceste às nascentes do mar e andaste pelo fundo do abismo? Foram-te abertas as portas da morte e viste os portões do país das trevas? Abrangeste com o olhar a extensão do mundo? Fala, se sabes tudo isto. Qual é o caminho para a morada da luz e onde residem as trevas, para que as possas levar aos seus domínios e ensinar-lhes o caminho da sua casa? Certamente deves saber isto, porque então já eras nascido e é grande o número dos teus anos!...». Job respondeu ao Senhor: «Sinto-me tão pequeno: que poderei responder-Vos? Ponho a mão sobre a minha boca. Falei uma vez, não replicarei; falei duas vezes, nada mais acrescentarei».

Salmo Responsorial: 138
R. Conduzi-me, Senhor, pelo caminho da eternidade.

Senhor, Vós conheceis o íntimo do meu ser: sabeis quando me sento e quando me levanto. De longe penetrais o meu pensamento: Vós me vedes quando caminho e quando descanso, Vós observais todos os meus passos.

Onde poderei ocultar-me ao vosso espírito? Onde evitarei a vossa presença? Se subir ao céu, Vós lá estais; se descer aos abismos, ali Vos encontrais.

Se voar nas asas da aurora, se habitar nos confins do oceano, mesmo ali a vossa mão me guiará e a vossa direita me sustentará.

Vós formastes as entranhas do meu corpo e me criastes no seio de minha mãe. Dou-Vos graças por me terdes feito tão maravilhosamente: são admiráveis as vossas obras.

Aleluia. Se hoje ouvirdes a voz do Senhor, não fecheis os vossos corações. Aleluia.

Evangelho (Lc 10,13-16): Naquele tempo, disse Jesus: «Ai de ti, Corazim! Ai de ti, Betsaida! Se em Tiro e Sidônia se tivessem realizado os milagres feitos no meio de vós, há muito tempo teriam demonstrado arrependimento, vestindo-se de saco e sentando-se sobre a cinza. Pois bem: no dia do julgamento, Tiro e Sidônia terão uma sentença menos dura do que vós. E tu, Cafarnaum, serás elevada até o céu? Até inferno serás rebaixada! Quem vos escuta, é a mim que está escutando; e quem vos despreza, é a mim que está desprezando; ora, quem me despreza, está desprezando aquele que me enviou».

«Quem vos escuta, é a mim que está escutando»

Rev. D. Jordi SOTORRA i Garriga (Sabadell, Barcelona, Espanha)

Hoje, vemos Jesus dirigir o seu olhar para aquelas cidades da Galileia que tinham sido a causa das suas preocupações e nas quais Ele tinha pregado e realizado as obras do Pai. Em nenhum destes locais como Corazim, Betsaida e Cafarnaum tinha pregado ou feito milagres. A semeadura tinha sido abundante, mas a colheita não foi boa. Nem Jesus os pode convencer...! Que mistério o da liberdade humana! Podemos dizer não a Deus... A mensagem evangélica não se impõe pela força, apenas se oferece e eu posso fechar-me a ela; posso aceitá-la ou recusá-la. O Senhor respeita totalmente a minha liberdade. Que responsabilidade a minha!

As expressões de Jesus: «Ai de ti, Corazim! Ai de ti, Betsaida!» (Lc 10,13) ao terminar a sua missão apostólica expressam mais sofrimento que condenação. A proximidade ao Reino de Deus não foi para aquelas cidades uma chamada à penitência e à mudança. Jesus reconhece que em Sidônia e em Tiro teriam aproveitado melhor toda a graça dispensada aos galileus.

A decepção de Jesus é maior quando se trata de Cafarnaum. «Serás elevada até o céu? Até inferno serás rebaixada!» (Lc 10,15). Aqui tinha Pedro a sua casa e Jesus tinha feito desta cidade o centro da sua pregação. Mais uma vez vemos mais um sentimento de tristeza que uma ameaça com estas palavras. O mesmo poderia dizer de muitas cidades e pessoas da nossa época. Julgam que prosperam quando na realidade estão se afundando.

«Quem vos escuta, é a mim que está escutando» (Lc 10,16). Estas palavras com que o Evangelho termina são uma chamada à conversão e trazem esperança. Se ouvirmos a voz de Jesus ainda estamos a tempo. A conversão consiste em que o amor supere progressivamente o egoísmo na nossa vida, o qual é um trabalho sempre inacabado. São Máximo diz-nos: «Não há nada tão agradável e amado por Deus como o fato dos homens se converterem a Ele com sincero arrependimento».

Pensamentos para o Evangelho de hoje
«É verdade que a nossa fé não é palpável e não depende dos sentidos. É um dom de Deus que Ele infunde na alma humilde, porque a fé não habita naqueles que estão cheios de orgulho» (São Francisco de Sales)

«Apenas a Palavra de Deus, a Palavra de Jesus, nos salva» (Francisco)

«A penitência interior é uma reorientação radical de toda a vida, um regresso, uma conversão a Deus de todo o nosso coração, uma rotura com o pecado, uma aversão ao mal, com repugnância pelas más ações (...)» (Catecismo da Igreja Católica, nº 1.431)

Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm.

* O evangelho de hoje dá continuidade ao envio dos setenta e dois discípulos e discípulas (Lc 10,1-12). No final deste envio Jesus falava de sacudir o pó dos sapatos quando os missionários não fossem bem recebidos (Lc 10,10-12). O evangelho de hoje acentua e amplifica as ameaças aos que se recusam de receber a Boa Nova.

* Lucas 10,13-14: Ai de você Corazim e Betsaida! O espaço por onde Jesus andou durante aqueles três anos da sua vida missionária era pequeno. Abrangia uns poucos quilômetros quadrados ao longo do Mar da Galileia em torno das cidades Cafarnaum, Betsaida e Corazim. Foi neste espaço tão pequeno que Jesus realizou a maior parte dos seus discursos e milagres. Ele veio salvar a humanidade inteira, e quase não saiu do limitado espaço da sua terra. Tragicamente, Jesus teve que constatar que o povo daquelas cidades não quis aceitar a mensagem do Reino e não se converteu. As cidades se fixaram na rigidez das suas crenças, tradições e costumes e não aceitaram o convite de Jesus para mudar de vida. “Ai de você, Corazim! Ai de você, Betsaida! Porque se em Tiro e Sidônia tivessem sido realizados os milagres que foram feitos no meio de vocês, há muito tempo teriam feito penitência, vestindo-se de cilício e sentando-se sobre cinzas”. Jesus compara as duas cidades com Tiro e Sidônia que, no passado, foram inimigos ferrenhos de Israel, maltrataram o povo de Deus. Por isso, foram amaldiçoadas pelos profetas (Is 23,1; Jr 25,22; 47,4; Ez 26,3; 27,2; 28,2; Jl 4,4; Am 1,10). E agora, Jesus diz que estas mesmas cidades, símbolos de toda a malvadeza feita ao povo no passado, já teriam feito conversão se nelas tivessem acontecido tantos milagres como em Corazim e Betsaida.

* Lucas 10,15: Ai de você Cafarnaum! “Ai de você, Cafarnaum! Será erguida até o céu? Será jogada no inferno, isso sim!”  Jesus evoca a condenação que o profeta Isaías lançou contra a Babilônia. Orgulhosa e prepotente, Babilônia pensava:”Vou subir até o céu, vou colocar meu trono acima das estrelas de Deus; vou sentar-me na montanha da Assembleia, no cume da montanha celeste. Subirei até as alturas das nuvens e me tornarei igual ao Altíssimo" (Is 14,13-14). Pensava! Mas enganou-se redondamente. Aconteceu o contrário. Diz o profeta: “Agora, aí está você precipitado na mansão dos mortos, nas profundezas do abismo” (Is 14,15). Jesus compara Cafarnaum a esta terrível Babilônia que destruiu monarquia e o templo e levou o povo para o cativeiro do qual nunca mais se recuperou. Como Babilônia, Cafarnaum pensava ser alguma coisa, mas foi parar no inferno mais profundo. O evangelho de Mateus compara Cafarnaum com a cidade de Sodoma, símbolo da pior perversão, que foi destruída pela ira de Deus (Gn 18,16 a 19,29). Sodoma teria feito a conversão se tivesse visto os milagres que Jesus fez em Cafarnaum (Mt 11,23-24). Hoje continua o mesmo paradoxo. Muitos de nós, que somos católicos desde criança, temos tantas convicções consolidadas, que ninguém é capaz de nos converter. E em alguns lugares, o cristianismo, em vez de ser fonte de mudança e de conversão, tornou-se o reduto das forças mais reacionárias da política do país.

* Lucas 10,16: Quem rejeita vocês, rejeita a mim! “Quem escuta vocês, escuta a mim, e quem rejeita vocês, rejeita a mim; mas quem me rejeita, rejeita aquele que me enviou." A frase acentua a identificação dos discípulos com Jesus enquanto rejeitado pelas autoridades. Em Mateus a mesma frase de Jesus, colocada em outro contexto, acentua a identificação dos discípulos com Jesus enquanto acolhido pelo povo (Mt 10,40). Tanto num como noutro, é na doação total de si que os discípulos se identificam com Jesus e que se realiza o encontro deles com Deus, e que Deus se deixa encontrar por quem o procura.

Para um confronto pessoal
1) Minha cidade e meu país merecem a advertência de Jesus contra Cafarnaum, Corazim e Betsaida?
2) Como me identifico com Jesus?

terça-feira, 27 de setembro de 2022

29 de setembro: Santos Arcanjos Miguel, Gabriel (Anjo da Guarda da Ordem do Carmo) e Rafael

1ª Leitura (Dan 7,9-10.13-14): Eu estava a olhar, quando foram colocados tronos e um Ancião sentou-se. Tinha vestes brancas como a neve e os cabelos eram como a lã pura. O seu trono eram chamas de fogo, com rodas de lume vivo. Um rio de fogo corria, irrompendo diante dele. Milhares de milhares o serviam e miríades de miríades o assistiam. O tribunal abriu a sessão e os livros foram abertos. Contemplava eu as visões da noite, quando, sobre as nuvens do céu, veio alguém semelhante a um Filho do homem. Dirigiu-Se para o Ancião venerável e conduziram-no à sua presença. Foi-lhe entregue o poder, a honra e a realeza, e todos os povos, nações e línguas O serviram. O seu poder é eterno, não passará jamais, e o seu reino jamais será destruído.

Salmo Responsorial: 137
R. Na presença dos Anjos, eu Vos louvarei, Senhor.

De todo o coração, Senhor, eu Vos dou graças, porque ouvistes as palavras da minha boca. Na presença dos Anjos Vos hei de cantar e Vos adorarei, voltado para o vosso templo santo.

Hei de louvar o vosso nome pela vossa bondade e fidelidade, porque exaltastes acima de tudo o vosso nome e a vossa promessa. Quando Vos invoquei, me respondestes, aumentastes a fortaleza da minha alma.

Todos os reis da terra Vos hão de louvar, Senhor, quando ouvirem as palavras da vossa boca. Celebrarão os caminhos do Senhor, porque é grande a glória do Senhor.

2ª Leitura (Ap 12, 7-12a ): Travou-se um combate no Céu: Miguel e os seus Anjos lutaram contra o Dragão. O Dragão e os seus anjos lutaram também, mas foram derrotados e perderam o seu lugar no Céu para sempre. Foi expulso o enorme Dragão, a antiga serpente, aquele que chamam Diabo e Satanás, que seduz o universo inteiro; foi precipitado sobre a terra e os seus anjos foram precipitados com ele. Depois ouvi no Céu uma voz poderosa que dizia: «Agora chegou a salvação, o poder e a realeza do nosso Deus e a autoridade do seu Ungido, porque foi precipitado o acusador dos nossos irmãos, aquele que os acusava dia e noite diante do nosso Deus. Eles venceram-no, graças ao sangue do Cordeiro e à palavra do testemunho que deram, desprezando a própria vida, até aceitarem a morte. Por isso, alegrai-vos, ó Céus, e vós que neles habitais».

Aleluia. Bendizei o Senhor todos os seus exércitos, poderosos executores da sua vontade. Aleluia.

Evangelho (Jo 1,47-51): Naquele tempo, Jesus viu Natanael que vinha ao seu encontro e declarou a respeito dele: Este é um verdadeiro israelita, no qual não há falsidade! Natanael disse-lhe: De onde me conheces? Jesus respondeu: Antes que Filipe te chamasse, quando estavas debaixo da figueira, eu te vi. Natanael exclamou: Rabi, tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel! Jesus lhe respondeu: Estás crendo só porque falei que te vi debaixo da figueira? Verás coisas maiores que estas. E disse-lhe ainda: Em verdade, em verdade, vos digo: vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem.

«Vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem!»

+ Cardeal Jorge MEJÍA Arquivista e Bibliotecário de la S.R.I. (Città del Vaticano, Vaticano)

Hoje, na festa dos Santos Arcanjos, Jesus manifesta aos seus Apostoles e a todos, a presença dos seus arcanjos e, a relação que com Ele mantêm. Os anjos estão na glória celestial, onde louvam perenemente ao Filho do homem, que é o Filho de Deus. O rodeiam e estão ao seu serviço.

Subir e descer nos lembra o episódio do sono do Patriarca Jacob, quem dormindo sobre uma pedra durante sua viagem à terra de origem de sua família (Mesopotâmia), enxerga aos anjos que descem e sobem por uma misteriosa escada que une o céu e a terra, enquanto Deus mesmo está de pé junto dele e lhe comunica sua mensagem. Reparemos a relação entre a comunicação divina e a presença ativa dos anjos.

Desse modo, Gabriel, Miguel e Rafael aparecem na Bíblia como presentes nas vicissitudes terrenas e levando aos homens -como nos diz São Gregório Magno- as comunicações, por meio de sua presença e, a suas mesmas ações, que mudam decisivamente nossas vidas. Chamam-se, precisamente arcanjos, príncipes dos anjos, porque são enviados para as missões mais importantes.

Gabriel foi enviado para anunciar a Maria Santíssima a concepção virginal do Filho de Deus, que é o princípio de nossa redenção (cf. Lc 1). Miguel luta contra anjos rebeldes e os expulsa do céu (cf. Ap 12). Nos anuncia, desse modo, o mistério da justiça divina, que também se exerceu em seus anjos quando rebelaram-se e, dá-nos a segurança de sua vitória e a nossa sobre o mal. Rafael acompanha a Tobias júnior, o defende e, o aconselha e cura finalmente ao pai Tobit (cf. Tob). Por essa via, nos anuncia a presença dos anjos junto a cada uno de nós: o anjo que chamamos da Guarda.

Aprendamos desta celebração dos arcanjos que sobem e descem sobre o Filho do homem, que servem a Deus, mas lhe servem em nosso benefício. Dão glória à Trindade Santíssima e, o fazem também servindo-nos. Em consequência, vejamos que devoção lhes devemos e, quanta gratidão ao Pai que os envia para nosso bem.

Pensamentos para o Evangelho de hoje
«Quando o homem chega a ser verdadeiramente espiritual e transformado pelo amor divino que lhe purifica, recebe a união e a amorosa iluminação de Deus com uma suavidade semelhante à dos anjos» (São João da Cruz)

«A luta é uma realidade diária na vida Cristiana: em nosso coração, em nossa vida, em nossa família, em nossas igrejas... Se não se lutar, seremos derrotados! Afortunadamente, o Senhor deu essa tarefa principalmente aos anjos: lutar e vencer» (Francisco)

«Ei-los, desde a criação e ao longo da toda a história da salvação, anunciando de longe ou de perto esta mesma salvação, e postos ao serviço do plano divino de sua realização: (...), são eles que conduzem o povo de Deus, anunciam nascimentos e vocações assistem os profetas (...). Finalmente, é o anjo Gabriel que anuncia o nascimento do Precursor e o do próprio Jesus» (Catecismo da Igreja Católica, n° 332)

Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm.

* O evangelho de hoje na festa dos Arcanjos Miguel, Gabriel e Rafael traz o diálogo entre Jesus e Natanael, no qual aparece a frase: "Eu lhes garanto: vocês verão o céu aberto, e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem". Esta frase ajuda a esclarecer algo a respeito dos arcanjos, cuja festa hoje celebramos.

* João 1,47-49: A conversa entre Jesus e Natanael. Foi Filipe que levou Natanael até Jesus (Jo 1,45-46). Natanael tinha exclamado: "De Nazaré pode vir coisa boa?" Natanael era de Caná, que ficava perto de Nazaré. Ao ver Natanael, Jesus diz: "Eis um israelita autêntico, sem falsidade!"  E afirma que já o conhecia quando estava debaixo da figueira. Como é que Natanael podia ser um "israelita autêntico" se ele não aceitava Jesus como messias? Natanael "estava debaixo da figueira". A figueira era o símbolo de Israel (cf. Mq 4,4; Zc 3,10; 1Rs 5,5). "Estar debaixo da figueira" era o mesmo que ser fiel ao projeto do Deus de Israel. Israelita autêntico é aquele que sabe desfazer-se das suas próprias ideias quando percebe que estas estão em desacordo com o projeto de Deus. O israelita que não está disposto a fazer esta conversão não é autêntico nem honesto. Natanael é autêntico. Ele esperava o messias de acordo com o ensinamento oficial da época, conforme o qual o Messias viria de Belém na Judéia. O Messias não podia vir de Nazaré na Galileia (Jo 7,41-42.52). Por isso, Natanael resistia em aceitar Jesus como messias. Mas o encontro com Jesus ajudou-o a perceber que o projeto de Deus nem sempre é do jeito que a pessoa imagina ou deseja. Natanael reconhece o seu engano, muda de ideia, aceita Jesus como messias e confessa: "Mestre, tu és o filho de Deus, tu és o rei de Israel!"

* A diversidade do chamado. Os evangelhos de Marcos, Mateus e Lucas apresentam o chamado dos primeiros discípulos de maneira muito mais resumida: Jesus passa na praia, chama Pedro e André. Logo depois, chama Tiago e João (Mc 1,16-20). O evangelho de João tem um outro jeito de descrever o início da primeira comunidade que se formou ao redor de Jesus. Ele traz histórias bem mais concretas. O que chama a atenção é a variedade dos chamados e dos encontros das pessoas entre si e com Jesus. Deste modo, João ensina como se deve fazer para iniciar uma comunidade. É através de contatos e convites pessoais, até hoje! A uns, Jesus chamou diretamente (Jo 1,43). A outros, indiretamente (Jo 1,41-42). Num dia, chamou dois discípulos de João Batista (Jo 1,39). No dia seguinte, chamou Filipe que, por sua vez, chamou Natanael (Jo 1,45). Nenhum chamado se repete, porque cada pessoa é diferente. A gente nunca esquece os chamados e encontros importantes que marcam a vida da gente. Lembra até a hora e o dia (Jo 1,39).

* João 1,50-51: Os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem. A confissão de Natanael é apenas o começo. Quem for fiel, verá o céu aberto e os anjos subindo e descendo sobre o Filho do Homem. Experimentará que Jesus é a nova ligação entre Deus e nós, seres humanos. É a realização do sonho de Jacó (Gn 28,10-22).

* Os anjos subindo e descendo a escada. Hoje é a festa dos três arcanjos: Gabriel, Rafael e Miguel. Gabriel explicava ao profeta Daniel o significado das visões (Dn 8,16; 9,21). Foi o mesmo anjo Gabriel que levou a mensagem de Deus a Zacarias (Lc 1,19) e a Maria, a mãe de Jesus (Lc 1,26). Seu nome significa “Deus é forte”. Rafael aparece no livro de Tobias. Ele acompanhou a Tobias, filho de Tobit e Ana, na viagem e o protegeu de todos os perigos. Ajudou Tobias a livrar Sara de um mau espírito e a curar Tobit, o pai, da cegueira. Seu nome significa “Deus cura”. Miguel ajudou o profeta Daniel nas suas lutas e dificuldades (Dn 10,13.21; 12,1). A carta de Judas diz que Miguel disputou com o diabo o corpo de Moisés (Jd 1,9). Foi Miguel que venceu o satanás, derrubando-o do céu e jogando-o no inferno (Ap 12,7). Seu nome significa “Quem é como Deus!” A palavra anjo significa mensageiro. Ele traz uma mensagem de Deus. Na Bíblia, a natureza inteira pode ser mensageira de Deus, revelando o amor de Deus por nós (Sl 104,4). O anjo pode ser o próprio Deus, enquanto volta a sua face para nós e nos revela a sua presença amorosa.

Para um confronto pessoal
1. Você já teve um encontro marcante na sua vida? Como foi que descobriu a chamada de Deus aí dentro?
2. Você já se interessou alguma vez, como Filipe, em chamar uma outra pessoa para participar da comunidade?

29 de setembro

 São Miguel, SÃO GABRIEL (Anjo da Guarda da nossa Ordem) e São Rafael.

Tudo como na Liturgia das Horas do dia 29 de setembro



 

segunda-feira, 26 de setembro de 2022

Quarta-feira da 26ª semana do Tempo Comum

São Venceslau, mártir
Beato João Paulo I, papa

1ª Leitura (Jó 9,1-12.14-16): Jó tomou a palavra e disse aos seus amigos: «Na verdade, eu sei muito bem que é assim: como pode um homem ter razão contra Deus? Se ele quisesse discutir com Deus, nem uma vez em mil poderia responder-Lhe. O coração de Deus é sábio, a sua força é grande: quem se Lhe opôs e saiu ileso? Ele desloca as montanhas sem elas saberem e as derruba no seu furor. Sacode os alicerces da terra e abala as suas colunas. Dá ordens ao sol e ele não nasce e põe um selo sobre as estrelas. Sozinho Ele estende os céus e caminha sobre as ondas do mar. Criou a Ursa Maior e o Orion, as Plêiades e as Constelações do Sul. Faz prodígios insondáveis e maravilhas sem conta. Se vier junto de mim, não O vejo, se passar a meu lado, não O sinto. Se apanhar uma presa, quem Lho impedirá? Quem Lhe dirá: ‘Que estais a fazer?’. Como iria eu então responder-Lhe e encontrar argumentos contra Ele? Embora eu tivesse razão, não devo replicar, só tenho de implorar Àquele que é meu juiz. Ainda que eu O chamasse e Ele me respondesse, não tenho a certeza de que escutasse a minha voz».

Salmo Responsorial: 87
R. Senhor, chegue até Vós a minha súplica.

A Vós clamo, Senhor, todo o dia, estendo para Vós as minhas mãos. Fareis Vós maravilhas entre os mortos? Irão levantar-se os defuntos para Vos louvar?

Haverá no sepulcro quem fale da vossa bondade ou da vossa fidelidade no reino dos mortos? Serão conhecidas nas trevas as vossas maravilhas, na terra do esquecimento a vossa justiça?

Eu, porém, clamo por Vós, Senhor, de manhã a minha oração sobe à vossa presença. Porque me afastais de Vós, Senhor, por que escondeis de mim o vosso rosto?

Aleluia. Considero todas as coisas como prejuízo, para ganhar a Cristo e n’Ele me encontrar. Aleluia.

Evangelho (Lc 9,57-62): Enquanto estavam a caminho, alguém disse a Jesus: «Eu te seguirei aonde quer que tu vás». Jesus respondeu: «As raposas têm tocas e os pássaros do céu têm ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça». Então disse a outro: «Segue-me». Este respondeu: «Permite-me primeiro ir enterrar meu pai». Jesus respondeu: «Deixa que os mortos enterrem os seus mortos; mas tu, vai e anuncia o Reino de Deus». Um outro ainda lhe disse: «Eu te seguirei, Senhor, mas deixa-me primeiro despedir-me dos de minha casa». Jesus, porém, respondeu-lhe: «Quem põe a mão no arado e olha para trás, não está apto para o Reino de Deus».

«Segue-me»

Frei Lluc TORCAL Monje del Monastério de Sta. Mª de Poblet (Santa Maria de Poblet, Tarragona, Espanha)

Hoje, o Evangelho invita-nos a reflexionar, com muita claridade e não com menos insistência, sobre o ponto central da nossa fé: o seguimento radical de Jesus. «Eu te seguirei aonde quer que tu vás» (Lc 9,57). Com que simplicidade a expressão que propõe um cambio total da vida de uma pessoa! «Segue-me» (Lc 9,59). Palavras do Senhor que não admitem desculpas, demoras, condições, nem traições...

A vida cristã é este seguimento radical de Jesus. Radical, não só porque em toda a sua duração quere estar debaixo da guia do Evangelho (porque compreende, portanto, todo o tempo da nossa vida), mas sim -sobretudo- porque todos os seus aspectos -desde os mais extraordinários até aos mais ordinários- querem ser e hão de ser manifestação do Espírito Santo de Jesus Cristo que nos anima. Efetivamente, desde o Batismo, a nossa já não é a vida de uma pessoa qualquer: levamos a vida de Cristo inserida em nós! Pelo Espírito Santo derramado nos nossos corações, já não somos nós que vivemos, senão que é Cristo que vive em nós. Assim é a vida do cristão, é vida cheia de Cristo, ressume Cristo desde as suas raízes mais profundas: esta é a vida somos chamados a viver.

O Senhor, quando veio ao mundo, ainda que «todo o gênero humano tivesse o seu lugar, Ele não o teve: não encontrou lugar no meio dos homens (...), só numa manjedoura, no meio do gado e dos animais, e ao lado das pessoas mais simples e inocentes. Por isso disse: As raposas têm tocas e os pássaros do céu têm ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça» (São Jerônimo). O Senhor encontrará sítio no meio de nós se como João Batista, deixamos que Ele cresça e que nós diminuamos, quer dizer, se deixamos crescer a Aquele que já vive em nós sendo dúcteis e dóceis ao seu Espírito, a fonte de toda humildade e inocência.

Pensamentos para o Evangelho de hoje
«O consentimento à graça depende muito mais da graça do que apenas da nossa própria vontade; mas a resistência à graça depende unicamente da nossa vontade. Tal é a mão amorosa de Deus» (São Francisco de Sales)

«Deus, a fim de nos dar o movimento do seu poder sem impedir o da nossa vontade, ajusta o seu poder à sua doçura e à liberdade do nosso querer» (Bento XVI)
«(...) A vocação do homem para a vida eterna não suprime, antes reforça, o seu dever de aplicar as energias e os meios recebidos do Criador no serviço da justiça e da paz neste mundo» (Catecismo da Igreja Católica, nº 2.820)

Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm.

* No evangelho de hoje continua a longa e dura caminhada de Jesus desde periferia lá da Galileia para a capital. Saindo da Galileia, Jesus entra na Samaria e segue para Jerusalém. Nem todos o compreendem. Muitos o abandonam, pois as exigências são grandes. Mas outros se aproximam e se apresentam para seguir Jesus. No início da sua atividade pastoral, lá na Galileia, Jesus havia chamado três pessoas: Pedro, Tiago e João (Lc 5,8-11). Aqui na Samaria, também são três que se apresentam ou são chamados. Nas respostas de Jesus, transparece quais as condições para alguém poder ser discípulo ou discípula de Jesus.

* Lucas 9,56-58: O primeiro dos três novos discípulos
“Enquanto iam andando, alguém no caminho disse a Jesus: "Eu te seguirei para onde quer que fores." Mas Jesus lhe respondeu: "As raposas têm tocas e os pássaros têm ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde repousar a cabeça." A esta primeira pessoa que quer ser discípulo, Jesus pede o despojamento total de tudo: não ter onde reclinar a cabeça, nem buscar uma falsa segurança onde reclinar o pensamento da cabeça.

* Lucas 9,59-60: O segundo dos três novos discípulos. “Jesus disse a outro: Siga-me. Esse respondeu: Deixa primeiro que eu vá sepultar meu pai." Jesus respondeu: Deixe que os mortos sepultem seus próprios mortos; mas você, vá anunciar o Reino de Deus." A esta segunda pessoa chamada por Jesus para segui-lo, Jesus pede para deixar que os mortos enterrem seus mortos. Trata-se de um provérbio popular usado para dizer: deixe para lá as coisas do passado. Não perca tempo com o que já passou e olhe para a frente. Depois de ter descoberto a vida nova em Jesus, o discípulo não deve perder tempo com o que já passou.

* Lucas 9,61-62: O terceiro dos três novos discípulos. “Outro ainda lhe disse: Eu te seguirei, Senhor, mas deixa primeiro que eu vá me despedir do pessoal de minha casa. Mas Jesus lhe respondeu: Quem põe a mão no arado e olha para trás, não serve para o Reino de Deus". A esta terceira pessoa chamada para ser discípulo, Jesus pede para romper com os laços familiares. Em outra ocasião ele tinha dito: “Quem ama seu pai e sua mãe mais do que a mim, não pode ser meu discípulo (Lc 14,26; Mt 10,37). Jesus é mais exigente que o profeta Elias que permitiu que Eliseu despedir-se dos seus pais (1Rs 19,19-21). Significa também romper com os laços nacionalistas da raça e com a estrutura da família patriarcal.

* São três exigências fundamentais apresentadas como condição para alguém poder ser discípulo ou discípula de Jesus: (1) abandonar os bens materiais, (2) não se agarrar aos bens pessoais vividos e acumulados no passado, e (3) romper com os laços familiares. Na realidade, ninguém, nem mesmo querendo, pode romper com os laços familiares, nem com as coisas vividas no passado. O que se exige é saber reintegrar tudo (bens materiais, vida pessoal e vida familiar) de maneira nova em torno do novo eixo que é Jesus e a Boa Nova de Deus que ele nos trouxe.

* Jesus, ele mesmo, viveu e realizou o que pedia dos seus seguidores. Com a sua decisão de subir para Jerusalém Jesus revela qual é o seu projeto. A sua viagem a Jerusalém (Lc 9,51 a 19,27) é apresentada como assunção (Lc 9,51), êxodo (Lc 9,31) ou travessia (Lc 17,11). Chegando em Jerusalém, ele realiza o êxodo, a assunção ou a travessia definitiva deste mundo para o Pai (Jo 13,1). Só uma pessoa verdadeiramente livre poderia realizá-lo, pois um tal êxodo supõe a entrega radical da própria vida pelos irmãos (Lc 23,44-46; 24,51). Este é o êxodo, a travessia, a assunção que as comunidades devem realizar para levar adiante o projeto de Jesus.

Para um confronto pessoal
1) Compare cada uma das três exigências com a sua própria vida?
2) Quais os problemas que apareceram em sua vida como consequência da decisão que tomou de seguir Jesus?

domingo, 25 de setembro de 2022

Terça-feira da 26ª semana do Tempo Comum

São Vicente de Paulo, presbítero

1ª Leitura (Jó 3,1-3.11-17.20-23): Jó abriu a boca e amaldiçoou o dia do seu nascimento. Tomou a palavra e disse: «Desapareça o dia em que eu nasci e a noite em que se anunciou: ‘Foi concebido um homem’. Porque não morri no ventre de minha mãe, ou não expirei ao sair do seio materno? Porque houve dois joelhos para me acolherem e dois seios para me amamentarem? Estaria agora deitado e tranquilo, dormiria o sono da morte e teria descanso, como os reis e os grandes da terra, que edificaram os seus túmulos sumptuosos, ou como os poderosos, que possuem ouro e enchem de prata os seus mausoléus. Ou porque não fui eu como o aborto escondido, que já não existiria, como as crianças que não chegaram a ver a luz? Ali acaba a agitação dos maus, aí repousam os homens extenuados. Porque se dá luz ao infeliz e vida aos corações amargurados, que suspiram pela morte que tarda em chegar e a procuram mais avidamente que um tesouro? Ficariam contentes diante de um túmulo, exultariam à vista de um sepulcro. Por que se dá vida ao homem que não vê o seu caminho e que Deus cerca por todos os lados?».

Salmo Responsorial: 87
R. Senhor, chegue até Vós a minha súplica.

Senhor Deus, meu Salvador, dia e noite clamo na vossa presença. Chegue até Vós a minha oração, inclinai o ouvido ao meu clamor.

A minha alma está saturada de sofrimento, a minha vida chegou às portas da morte. Sou contado entre os que descem à sepultura, sou um homem já sem forças.

Estou abandonado entre os mortos, como os caídos que jazem no sepulcro, de quem já não Vos lembrais e que foram sacudidos da vossa mão.

Lançastes-me na cova mais profunda, nas trevas do abismo. Pesa sobre mim a vossa ira, todas as vossas ondas caíram sobre mim.

Aleluia. O Filho do homem veio para servir e dar a vida pela redenção dos homens. Aleluia.

Evangelho (Lc 9,51-56): Quando ia se completando o tempo para ser elevado ao céu, Jesus tomou a firme decisão de partir para Jerusalém. Enviou então mensageiros à sua frente, que se puseram a caminho e entraram num povoado de samaritanos, para lhe preparar hospedagem. Mas os samaritanos não o queriam receber, porque mostrava estar indo para Jerusalém. Vendo isso, os discípulos Tiago e João disseram: «Senhor, queres que mandemos descer fogo do céu, para que os destrua?». Ele, porém, voltou-se e os repreendeu. E partiram para outro povoado».

«Jesus tomou a firme decisão de partir para Jerusalém»

Rev. D. Félix LÓPEZ SHM (Alcalá de Henares, Espanha)

Hoje, o Evangelho nos oferece dois pontos principais para a reflexão pessoal. Em primeiro lugar, nos diz que «quando se completaram os dias em que ia a ser levado ao céu, Jesus tomou a decisão de ir a Jerusalém» (Lc 9,51). O verbo que usa são Lucas significa “completar”, “consumar”; Jesus leva a plenitude o tempo marcado pelo Padre para completar sua missão salvífica por meio da crucificação, morte e ressurreição. Então ele será glorificado, "levado ao céu". Diante dessa perspectiva, Jesus Cristo “tomou a decisão de subir a Jerusalém”, ou seja, a decisão firme de amar o Pai realizando sua vontade redentora. Jesus morre na cruz dizendo: "Tudo está consumado" (Jo 19,30). O Senhor viveu para cumprir a vontade do Pai e manteve essa atitude de fidelidade até a morte.

Assim devemos viver também, mesmo que experimentemos no caminho que nos leva a Deus a oposição ou a rejeição, o desprezo ou a marginalização por ser fiel ao Senhor. Segundo o Papa Francisco: «O verdadeiro progresso da vida espiritual não consiste em multiplicar os êxtases, mas em saber perseverar nos tempos difíceis: caminhar, caminhar, caminhar; se estiver cansado, pare um pouco e volte a andar, com perseverança.

Em segundo lugar, diante da rejeição dos Os samaritanos, Tiago e João querem fazer descer fogo do céu (cf. Lc 9,54). O Senhor os repreende por seu zelo indiscreto. Devemos nos lembrar da paciência que Deus tem conosco, e ser pacientes com nossos irmãos em seu caminho para Deus, mesmo que eles não respondam imediatamente à sua graça. Deus quer que todos os homens sejam salvos e deu seu único Filho na cruz por todos. Deus esgota todas as possibilidades de se aproximar de cada homem e espera com divina paciência o momento em que cada coração se abre à sua Misericórdia.

«Voltou-se e os repreendeu»

Rev. D. Jordi POU i Sabater (Sant Jordi Desvalls, Girona, Espanha)

Hoje no Evangelho contemplamos como «Tiago e João disseram: ‘Senhor, queres que mandemos descer fogo do céu, para que os destrua?’. Ele, porém, voltou-se e os repreendeu. E partirem para outro povoado» (Lc 9,54-55). São defeitos dos Apóstolos, que o Senhor corrige.

Conta a história de um homem que transportava água da Índia, carregava dois cântaros um a cada lado pendurado no extremo de um pau que se apoiava em seus ombros: Um era perfeito, e o outro tinha uma rachadura e perdia água. Este –triste- observava o outro tão perfeito e com vergonha e sentindo-se miserável, disse um dia ao seu amo: sinto muito, que por causa do meu defeito perca metade do meu conteúdo. Ele lhe respondeu: Quando voltarmos para casa repara nas flores que crescem no lado do caminho. E reparou: eram belíssimas flores, mas vendo que continuava a perder água, repetiu: Não sirvo, faço tudo mal. O senhor lhe respondeu: —reparaste que as flores só crescem no teu lado do caminho? Isto porque eu sempre soube que em ti havia uma rachadura, então plantei sementes do teu lado e a cada dia que fazia este trajeto tu regavas as sementes e assim pude recolher estas flores para o altar da Virgem Maria. Sem ti e a tua maneira de ser, não seria possível esta beleza.

Todos, de alguma maneira somos cântaros rachados, mas Deus conhece bem os seus filhos e dá-nos a possibilidade de aproveitar as rachaduras-defeitos para alguma coisa boa. Assim o apóstolo João —que hoje quere destruir—, com a correção do Senhor converte-se no apóstolo do amor nas suas cartas. Não se desanimou com as correções, senão que aproveitou o lado positivo do seu caráter impulsivo —a paixão— para o serviço do amor. Que nós, também sejamos capazes de aproveitar as correções, as contrariedades —sofrimento, fracasso, limitações— para “começar e recomeçar”, tal como São Josemaria definia a santidade: dóceis ao Espírito Santo para convertermos a Deus e sermos seus instrumentos.

Pensamentos para o Evangelho de hoje
«Em nosso tempo, a Esposa de Cristo prefere usar a medicina da misericórdia e não empunhar as armas da severidade» (São João XXIII)

«Como desejo que os anos por vir estejam impregnados de misericórdia para poder ir ao encontro de cada pessoa levando a bondade e a ternura de Deus» (Francisco)

«(...) Toda a Igreja é apostólica, na medida em que é “enviada” a todo o mundo. Todos os membros da Igreja, embora de modos diversos, participam deste envio (...)» (Catecismo da Igreja Católica, n° 863)

Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm.

* O evangelho de hoje conta como Jesus decide ir para Jerusalém. Descreve também as primeiras dificuldades que ele encontra nesta caminhada. Traz o começo da longa e dura caminhada da periferia para a capital. Jesus deixa a Galileia e segue para Jerusalém. Nem todos o compreendem. Muitos o abandonam, pois as exigências são grandes. Hoje acontece o mesmo. Na caminhada das nossas comunidades também há incompreensão e abandono.

* “Jesus decide ir para Jerusalém”. Esta decisão vai marcar a longa e dura viagem de Jesus desde a Galileia até Jerusalém, da periferia até a capital. Esta viagem ocupa mais de uma terça parte de todo o evangelho de Lucas (Lc 9,51 até 19,28). Sinal de que a caminhada até Jerusalém teve uma importância muito grande na vida de Jesus. A longa caminhada simboliza, ao mesmo tempo, a viagem que as comunidades estavam fazendo. Elas procuravam realizar a difícil passagem do mundo judeu para o mundo da cultura grega. Simbolizava também a tensão entre o Novo que continuava avançando e o Antigo que se fechava cada vez mais. E simboliza, ainda, a conversão que cada um de nós tem que fazer, procurando seguir Jesus. Durante a viagem, os discípulos e as discípulas tentam seguir Jesus, sem voltar atrás. Nem sempre o conseguem. Jesus dedica muito tempo à instrução dos que o seguem de perto. Um exemplo concreto desta instrução temos no evangelho de hoje. Logo no início da viagem, Jesus sai da Galileia e leva seus discípulos para dentro do território dos samaritanos. Ele procura formá-los para que possam entender a abertura para o Novo, para o “outro”, o diferente.

* Lucas 9,51: Jesus decide ir para Jerusalém. O texto grego diz literalmente: "Quando se completaram os dias da sua assunção (ou arrebatamento), Jesus firmou o seu rosto para ir a Jerusalém”. A expressão assunção ou arrebatamento evoca o profeta Elias que foi arrebatado ao céu (2 Rs 2,9-11). A expressão firmar o rosto evoca o Servo de Javé que dizia: “Faço meu rosto duro como pedra, certo de não ser enganado” (Is 50,7). Evoca ainda uma ordem que o profeta Ezequiel recebeu de Deus: "Fixa a teu rosto contra Jerusalém!" (Ez 21,7). Usando tais expressões, Lucas sugere que, com a caminhada em direção a Jerusalém, começa uma oposição mais declarada de Jesus contra o projeto da ideologia oficial do Templo de Jerusalém. A ideologia do Templo queria um Messias glorioso e nacionalista. Jesus quer ser o Messias-Servo. Durante a longa viagem, esta oposição vai crescer e, no fim, vai terminar no arrebatamento ou na assunção de Jesus. A assunção de Jesus é a sua morte na Cruz, seguida da ressurreição.

2. Lucas 9,52-53: Fracassa a missão na Samaria. Durante a viagem, o horizonte da missão se alarga. Logo no início, Jesus ultrapassa as fronteiras do território e da raça. Ele manda seus discípulos preparar a sua vinda numa aldeia da Samaria. Mas a missão junto dos samaritanos fracassou. Lucas diz que os samaritanos não receberam Jesus porque ele estava indo para Jerusalém. Porém, se os discípulos tivessem dito aos samaritanos: “Jesus está indo para Jerusalém para criticar o projeto do Templo e para exigir maior abertura”, Jesus teria sido aceito, pois os samaritanos eram da mesma opinião. O fracasso da missão deve-se, provavelmente, aos discípulos. Eles não entenderam por que Jesus “firmou a cara contra Jerusalém”. A propaganda oficial do Messias glorioso e nacionalista impedia-os de enxergar. Os discípulos não entenderam a abertura de Jesus, e a missão fracassou!

3. Lucas 9,54-55: Jesus recusa o pedido de vingança. Tiago e João não querem levar desaforo para casa. Não aceitam que alguém não concorde com a ideia deles. Querem imitar Elias e usar o fogo para se vingar (2 Rs 1,10). Jesus recusa a proposta. Não quer o fogo. Certas Bíblias acrescentam: "Vocês não sabem de que espírito são movidos!" Significa que a reação dos dois discípulos não era do Espírito de Deus. Quando Pedro sugeriu a Jesus para não seguir pelo caminho do Messias Servo, Jesus chamou Pedro de Satanás (Mc 8,33). Satanás é o mau espírito que quer mudar o rumo da missão de Jesus. Recado de Lucas para as comunidades: os que querem impedir a missão junto dos pagãos são movidos pelo mau espírito!

* Durante os dez capítulos que descrevem a viagem até Jerusalém (Lc 9,51 a 19,28), Lucas, constantemente, lembra que Jesus está a caminho de Jerusalém (Lc 9,51.53.57; 10,1.38; 11,1; 13,22.33; 14,25; 17,11; 18,31; 18,37; 19,1.11.28). Raramente, porém, ele diz por onde Jesus passava. Só aqui no começo da viagem (Lc 9,51), no meio (Lc 17,11) e no fim (Lc 18,35; 19,1), você fica sabendo algo a respeito do lugar por onde Jesus estava passando. Isto vale para as comunidades de Lucas e para todos nós. O que é certo é que devemos caminhar. Não podemos parar. Nem sempre, porém, é claro e definido por onde passamos. O que é certo é o objetivo: Jerusalém.

Para um confronto pessoal
1) Quais os problemas que já apareceram em sua vida como consequência da decisão que você tomou de seguir Jesus?
2) O que aprendemos da pedagogia de Jesus com seus discípulos que queriam vingar-se dos samaritanos?

sábado, 24 de setembro de 2022

Segunda-feira da 26ª semana do Tempo Comum

 Santos Cosme e Damião, mártires

1ª Leitura (Jó 1,6-22): Um dia em que os filhos de Deus vieram apresentar-se diante do Senhor, Satanás apareceu também no meio deles. O Senhor disse-lhe: «De onde vens?». Satanás respondeu: «Venho de percorrer a terra, de rondar por toda ela». O Senhor disse-lhe: «Reparaste no meu servo Jo? Não há ninguém como ele na terra: é um homem íntegro e reto, que teme a Deus e se afasta do mal». Satanás respondeu ao Senhor: «Porventura teme Jo a Deus de maneira desinteressada? Não o cercastes Vós com um muro protetor, a ele, à sua casa e a todos seus bens? Abençoastes o trabalho das suas mãos e os seus rebanhos cobrem toda a região. Mas estendei a mão e tocai nos seus bens e vereis que Vos amaldiçoa frente a frente». Disse então o Senhor a Satanás: «Pois bem, tudo o que lhe pertence fica sob o teu poder, mas não estenderás a mão sobre ele». E Satanás saiu da presença do Senhor. Ora um dia em que os filhos e as filhas de Jo comiam e bebiam vinho em casa do irmão mais velho, um mensageiro veio dizer a Jo: «Estavam os teus bois a lavrar e as jumentas a pastar junto deles, quando os sabeus arremeteram contra eles e os levaram e passaram os teus servos ao fio da espada. Só eu escapei, para te vir dar a notícia». Ainda ele estava a falar, quando outro veio dizer: «Caiu do céu o fogo de Deus e queimou e reduziu a cinzas as ovelhas e os teus servos. Só eu escapei, para te vir dar a notícia». Ainda ele falava, quando chegou outro e lhe disse: «Os caldeus, divididos em três grupos, lançaram-se sobre os teus camelos e levaram-nos e passaram os teus servos ao fio da espada. Só eu escapei, para te vir dar a notícia». Ainda ele falava, quando outro entrou e lhe disse: «Os teus filhos e as tuas filhas estavam a comer e a beber vinho em casa do irmão mais velho, quando um vento impetuoso veio do lado do deserto e abalou os quatro cantos da casa. A casa desabou sobre os jovens e morreram todos. Só eu escapei, para te vir dar a notícia». Então Jo levantou-se, rasgou o manto e rapou a cabeça. Depois prostrou-se por terra e disse: «Saí nu do ventre de minha mãe e nu para ele voltarei. O Senhor deu, o Senhor tirou: bendito seja o nome do Senhor». Em tudo isto, Jo não cometeu pecado, nem disse contra Deus nenhuma blasfémia.

Salmo Responsorial: 16
R. Escutai, Senhor, e atendei a minha súplica.

Ouvi, Senhor, uma causa justa, atendei a minha súplica. Escutai a minha oração, feita com sinceridade.

Sede Vós a fazer o meu julgamento, pois vossos olhos veem o que é reto. Se perscrutais o meu coração e o provais com o fogo, não encontrareis em mim iniquidade.

Eu Vos invoco, meu Deus, respondei-me, ouvi-me e escutai as minhas palavras. Mostrai a vossa admirável misericórdia, Vós que salvais quem se acolhe à vossa direita.

Aleluia. O Filho do homem veio para servir e dar a vida pela redenção dos homens. Aleluia.

Evangelho (Lc 9,46-50): Surgiu entre os discípulos uma discussão sobre qual deles seria o maior. Sabendo o que estavam pensando, Jesus pegou uma criança, colocou-a perto de si e disse-lhes: «Quem receber em meu nome esta criança, estará recebendo a mim mesmo. E quem me receber, estará recebendo Aquele que me enviou. Pois aquele que entre todos vós, for o menor, esse é o maior». Tomando a palavra, João disse: «Mestre, vimos alguém expulsar demônios em teu nome, mas nós lhe proibimos, porque não anda conosco». Jesus respondeu: «Não o proibais, pois quem não é contra vós, está a vosso favor».

«Aquele que entre todos vós, for o menor, esse é o maior»

Prof. Dr. Mons. Lluís CLAVELL (Roma, Itália)

Hoje, caminho de Jerusalém em direção à paixão, «surgiu entre os discípulos uma discussão sobre qual deles seria o maior» (Lc 9,46). Cada dia os meios de comunicação e também nossas conversas estão cheias de comentários sobre a importância das pessoas: dos outros e de nós mesmos. Esta lógica só humana produz, frequentemente, desejo de vitória, de ser reconhecido, apreciado, correspondido, e a falta de paz, quando estes reconhecimentos não chegam.

A resposta de Jesus a estes pensamentos -até mesmo comentários- dos discípulos, lembra o estilo dos antigos profetas. Antes das palavras estão os gestos. Jesus «pegou uma criança, colocou-a perto de si» (Lc 9,47). Depois vem o ensinamento: «aquele que entre todas vós, for o menor, esse é o maior» (Lc 9,48). -Jesus, por que custa tanto aceitar que isto não é uma utopia para as pessoas que não estão implicadas no tráfico de uma tarefa intensa, na qual não faltam os golpes de uns contra os outros, e que, com a tua graça, podemos vivê-lo todos? Se o fizéssemos, teríamos mais paz interior e trabalharíamos com mais serenidade e alegria.

Esta atitude é também a fonte de onde brota a alegria, ao ver que outros trabalham bem por Deus, com um estilo diferente do nosso, mas sempre assumindo o nome de Jesus. Os discípulos queriam impedi-lo. Em troca, o Mestre defende aquelas outras pessoas. Novamente, o fato de sentir-nos filhos pequenos de Deus facilita-nos a ter o coração aberto para todos e crescer na paz, na alegria e na gratidão. Estes ensinamentos valeram à Santa Teresinha de Lisieux o título de Doutora da Igreja: em seu livro História de uma alma, ela admira o belo jardim de flores que é a Igreja, e está contenta de perceber-se uma pequena flor. Ao lado dos grandes santos -rosas e açucenas- estão as pequenas flores -como as margaridas ou as violetas- destinadas a dar prazer aos olhos de Deus, quando Ele dirige o seu olhar à terra.

Humildade elogiada; O ciúme reprovado.

Jesus e os doze apóstolos voltaram do Monte da Transfiguração para Cafarnaum com mentalidades muito diferentes. Seus pensamentos estavam fixos na cruz, os deles em lugares de honra no reino que acreditavam que Ele estava para estabelecer na terra. Essa diferença apareceu em seus respectivos enunciados. Jesus falou pela segunda vez sobre os sofrimentos que viriam, enquanto os discípulos disputavam entre si qual deles deveria ser o maior.

Esta disputa é uma revelação humilhante do humor em que os discípulos de Jesus estavam, e mostrou o quão longe eles estavam de obedecer à ordem recentemente ouvida por três deles no monte santo - “Ouvi-O”. A cruz da qual Ele falou, eles não pensaram; ou melhor, eles o baniram de seus pensamentos e fixaram sua atenção nas honras e recompensas que dificilmente poderiam deixar de ser deles quando seu Mestre estabeleceu Seu reino. Portanto, era muito necessário que Jesus banisse esse espírito de ambição egoísta da mente de Seus discípulos, se quisessem cooperar com Ele como ministros do reino de Deus.

I. A lição de humildade. - Ele escolheu uma criança e apresentou-a aos discípulos como um tipo dos fracos, ignorantes e pobres, a quem corriam o risco de desprezar e afastar por assumirem ares de superioridade, e também como um tipo de humilde de espírito. É da própria natureza da ambição tornar rude e desdenhoso aquele que a estima para com os outros, especialmente para com aqueles que são muito fracos e insignificantes para serem rivais.

E, portanto, a fim de serem bondosos, graciosos e amorosos em suas relações com aqueles a quem ministravam, os discípulos precisavam expulsar de sua mente os esquemas egoístas que estavam tramando para assegurar seu próprio progresso e altas posições no reino. É significativo que Cristo não ponha fim a todas as contendas dizendo que não haveria diferença de posição naquele reino - que nele todos seriam iguais.

Ao contrário, Ele diz distintamente que há graus de distinção ali, bem como nos reinos do mundo; e Ele enuncia o princípio segundo o qual a promoção seria dada. “Aquele que é o menor entre vocês, esse será grande.” Esta criança em sua despretensão e simples confiança e amor, representa o tipo de caráter que Ele deseja que imitem; e aquele que chegasse mais perto se tornaria digno de uma alta posição no reino dos céus.

II. O ciúme reprovado. - A consciência dos discípulos parece ter sido tocada pela reprovação de Cristo. Lembrou a alguns deles a atitude que recentemente assumiram ao tratar com alguém que era crente em Cristo, mas que, por uma razão ou outra, se mantivera afastado de sua companhia. Longe de “recebê-lo” e aprovar a boa obra que estava fazendo em nome de Cristo, eles o proibiram de prosseguir.

Eles contam o que fizeram, aparentemente com uma sensação incômoda de que sua ação não teria a aprovação de seu Mestre. Talvez o homem a quem eles interditaram fosse, afinal, “um pequenino” a quem deviam ter levado ao coração, e não um inimigo a ser silenciado. O mesmo espírito egoísta que os levara a disputar entre si quanto a quem deveria ser o maior, os levara a se ressentir de qualquer aparente usurpação de suas prerrogativas como ministros credenciados de Cristo.

O fato menor de que o exorcista não os seguiu obscureceu o fato maior de que ele era um seguidor de seu Senhor. A resposta de Cristo, na qual Ele reivindica como aliados aqueles que na fé Nele fazem um bom trabalho, e na qual Ele não censura aqueles que não estão apegados à Igreja visível, contém uma lição que Seus seguidores em todos os tempos têm sido muito lento para aprender. Se tivesse sido aprendido, não teria havido as muitas exibições de intolerância e falta de caridade que mancharam a história da Igreja e diminuíram seu poder de fazer o bem no mundo.

Todos teriam sido aprovados, encorajados e ajudados os que em nome de Cristo lutassem contra o mal, e provassem a genuinidade de seu apego a Ele pelo sucesso de sua obra. Do jeito que está, é um defeito de toda forma organizada de cristianismo que aqueles ligados a ele olhem para todos os que estão fora dele com uma certa medida de suspeita, ciúme e má vontade.

COMENTÁRIOS SUGESTIVOS SOBRE Lucas 9:46
Lições para os Doze.
I. Humildade (Lucas 9:46).
II. Tolerância (Lucas 9:49).
III. Misericórdia (Lucas 9:51).
IV. Auto-sacrifício (Lucas 9:57)

A disposição que Cristo aprova - O objetivo de toda esta seção é mostrar a mente que nosso Senhor deseja ver em Seus discípulos.
I. Humildade infantil.
II. Amor gentil.
III. Auto-devoção resoluta.

Lucas 9:46. Como Cristo repreendeu o orgulho .
I. O orgulho é um pecado comum.
II. Ele assume várias formas.-
1. Orgulho do lugar (Lucas 9:46).
2. Orgulho da festa (Lucas 9:49).
3. orgulho ofendidos (Lucas 9:51)

Três falhas repreendidas.
Três disposições erradas repreendidas:
(1) ambição de ser o maior;
(2) intolerância, em proibir até mesmo o exorcismo;
(3) vingança, ao propor vingar um insulto invocando fogo do céu.

Lucas 9:46. Exclusividade e fanatismo. - O mesmo espírito de orgulho que levou os apóstolos a competir entre si quanto a quem deveria ser o maior, os levou a manifestar exclusividade e intolerância ao proibir o exorcismo em nome de Cristo porque o exorcista não pertencia ao seu círculo.

Lucas 9:46. “Qual deve ser o maior” - Os discípulos eram culpados de uma dupla falta:
1. Eles estavam inclinados a disputar sobre as recompensas da vitória antes de concluírem sua guerra.
2. Eles eram animados por ambição egoísta e ciúme.

A coroa e a cruz. - As repetidas predições do Salvador sobre Seus sofrimentos não haviam penetrado na mente de Seus discípulos: eles pensavam na coroa, enquanto os olhos de seu Mestre estavam fixos na cruz.

Lucas 9:47. “Põe-no por Ele” - Eles sabiam que o maior no reino dos céus é aquele que está mais próximo de Cristo; mas eles perguntaram qual deles tinha mais direitos sobre o lugar. Provavelmente, o restante dos apóstolos invejou aqueles que estiveram com Cristo no monte, e essa foi a origem de sua contenda.

Lucas 9:48. “Esta criança” - O ponto central de comparação é a humildade da criança.
Essa humildade
(1) liberta a compreensão da criança de imaginações vãs,
(2) o coração da criança da rivalidade e
(3) a vontade da criança da teimosia.

Lucas 9:49. “Nós o proibimos.” - Cf. o ciúme de Josué contra Eldad e Medad, e a nobre resposta de Moisés (Números 11:27).

Lucas 9:50. “Não o proibais.” -
1. Uma reprovação para o passado.
2. Uma direção para o futuro.

“Aquele que não é”, etc. - Quando, na moral aplicada, nos julgamos, devemos, em circunstâncias normais, aplicar a lei estritamente: “Aquele que não está com Cristo está contra ele”. Mas, quando estamos nos sentando para julgar outros, em cujos corações não podemos olhar diretamente, devemos, em circunstâncias normais, aplicar a lei generosamente: “Aquele que não é contra Cristo está com Ele”.

Dois provérbios complementares. - Em Mateus 12:30, temos um provérbio que a princípio contradiz este: “Quem não é comigo é contra mim”. No entanto, ambos são verdadeiros. Na disputa entre o bem e o mal, a neutralidade é tão ruim quanto a inimizade, de modo que aqueles que não são por Cristo estão contra Ele; ainda assim, podemos reconhecer que estão do nosso lado todos os que estão lutando contra o mal, mesmo que não estejam usando nossos métodos ou formalmente ocupando seu lugar ao nosso lado.

Enquanto os apóstolos aprenderam essa lição de tolerância, o homem só recebe elogios negativos. Sempre há fervorosos obreiros cristãos que se recusam a ser ordeiros em seus métodos. Sua irregularidade exige tolerância, não aprovação.

Unidade interior e conformidade exterior. - O ditado em Mateus se refere mais à unidade interior com Cristo: esta à conformidade exterior com Seu povo. O primeiro pode existir independentemente do último, e sua existência une os verdadeiros cristãos, quaisquer que sejam seus nomes e diferenças exteriores.

Lições ministradas pelo incidente.
I. Cuidado com as conclusões precipitadas sobre o estado espiritual dos homens com base em indicações meramente externas.
II. “Não o proibais” lembra-nos o triste fato de que muitas vezes na história da Igreja foi o espírito dos doze, e não o de seu Mestre, que predominou.
III. A união exterior entre os cristãos pode ser impraticável, mas permanece o dever de reconhecer de coração todos os que verdadeiramente amam a Cristo, qualquer que seja a Igreja em que estejam; eles devem ser mais caros para nós do que aqueles em nossa própria Igreja que podem estar em espírito e vida não com Cristo, mas contra ele.

Uma lição de misericórdia. - Este texto nos ensina uma lição de misericórdia. Ele orienta nossa estimativa dos outros. Diz: “Não faça do homem um ofensor por uma palavra; não permita que suas simpatias se restrinjam ao círculo daqueles que expressam as mesmas convicções nas mesmas frases, ou buscam o mesmo fim pelos mesmos meios precisos que você. Esteja preparado para acreditar e agir de acordo com a crença de que Deus não está limitado a um campo de ação ou a um tipo de personagem, mas pode ajudar e abençoar a obra e, no final, aceitará a pessoa de todos aqueles que amam o Senhor Jesus Cristo em sinceridade, e que se valem de Sua ajuda para combater o mal dentro e ao redor deles.”

sexta-feira, 23 de setembro de 2022

XXVI Domingo do Tempo Comum

1ª Leitura (Am 6,1a.4-7): Eis o que diz o Senhor omnipotente: «Ai daqueles que vivem comodamente em Sião e dos que se sentem tranquilos no monte da Samaria. Deitados em leitos de marfim, estendidos nos seus divãs, comem os cordeiros do rebanho e os vitelos do estábulo. Improvisam ao som da lira e cantam como David as suas próprias melodias. Bebem o vinho em grandes taças e perfumam-se com finos unguentos, mas não os aflige a ruína de José. Por isso, agora partirão para o exílio à frente dos deportados e acabará esse bando de voluptuosos».

Salmo Responsorial: 145
R. Ó minha alma, louva o Senhor.

O Senhor faz justiça aos oprimidos, dá pão aos que têm fome e a liberdade aos cativos.

O Senhor ilumina os olhos dos cegos, o Senhor levanta os abatidos, o Senhor ama os justos.

O Senhor protege os peregrinos, ampara o órfão e a viúva e entrava o caminho aos pecadores.

O Senhor reina eternamente. O teu Deus, ó Sião, é Rei por todas as gerações.

2ª Leitura (1Tim 6,11-16): Caríssimo: Tu, homem de Deus, pratica a justiça e a piedade, a fé e a caridade, a perseverança e a mansidão. Combate o bom combate da fé, conquista a vida eterna, para a qual foste chamado e sobre a qual fizeste tão bela profissão de fé perante numerosas testemunhas. Ordeno-te na presença de Deus, que dá a vida a todas as coisas, e de Cristo Jesus, que deu testemunho da verdade diante de Pôncio Pilatos: Guarda o mandamento do Senhor, sem mancha e acima de toda a censura, até à aparição de Nosso Senhor Jesus Cristo, a qual manifestará a seu tempo o venturoso e único soberano, Rei dos reis e Senhor dos senhores, o único que possui a imortalidade e habita uma luz inacessível, que nenhum homem viu nem pode ver. A Ele a honra e o poder eterno. Amém.

Aleluia. Jesus Cristo, sendo rico, fez-Se pobre, para nos enriquecer na sua pobreza. Aleluia.

Evangelho (Lc 16,19-31): «Havia um homem rico, que se vestia com roupas finas e elegantes e dava festas esplêndidas todos os dias. Um pobre, chamado Lázaro, cheio de feridas, ficava sentado no chão junto à porta do rico. Queria matar a fome com as sobras que caíam da mesa do rico, mas, em vez disso, os cães vinham lamber suas feridas. Quando o pobre morreu, os anjos o levaram para junto de Abraão. Morreu também o rico e foi enterrado. Na região dos mortos, no meio dos tormentos, o rico levantou os olhos e viu de longe Abraão, com Lázaro ao seu lado. Então gritou: ‘Pai Abraão, tem compaixão de mim! Manda Lázaro molhar a ponta do dedo para me refrescar a língua, porque sofro muito nestas chamas’. Mas Abraão respondeu: ‘Filho, lembra-te de que durante a vida recebeste teus bens e Lázaro, por sua vez, seus males. Agora, porém, ele encontra aqui consolo e tu és atormentado. Além disso, há um grande abismo entre nós: por mais que alguém desejasse, não poderia passar daqui para junto de vós, e nem os daí poderiam atravessar até nós’. O rico insistiu: ‘Pai, eu te suplico, manda então Lázaro à casa de meu pai, porque eu tenho cinco irmãos. Que ele os avise, para que não venham também eles para este lugar de tormento’. Mas Abraão respondeu: ‘Eles têm Moisés e os Profetas! Que os escutem! ‘ O rico insistiu: ‘Não, Pai Abraão. Mas se alguém dentre os mortos for até eles, certamente vão se converter’. Abraão, porém, lhe disse: ‘Se não escutam a Moisés, nem aos Profetas, mesmo se alguém ressuscitar dos mortos, não acreditarão’».

«Filho, lembra-te de que durante a vida recebeste teus bens e Lázaro, por sua vez, seus males»

Rev. D. Valentí ALONSO i Roig (Barcelona, Espanha)

Hoje, Jesus confronta-nos com a injustiça social que nasce das desigualdades entre ricos e pobres. Como se se tratasse de uma das imagens angustiantes que estamos habituados a ver na televisão, o relato de Lázaro comove-nos, consegue o efeito sensacionalista de remover os sentimentos: «Até os cães vinham lamber suas feridas» (Lc 16,21). A diferença é clara: o rico vestia-se de púrpura; o pobre tinha como vestido as chagas.

A situação de igualdade chega seguidamente: morreram os dois. Porém, ao mesmo tempo, acentua-se a diferença: um chegou ao seio de Abraão; ao outro se limitaram a sepultá-lo. Se nunca tivéssemos ouvido esta história e lhe aplicássemos os valores da nossa sociedade, podíamos concluir que quem ganhou o prêmio devia ser o rico, e o que foi abandonado no sepulcro, era o pobre. Está claro, logicamente.

A sentença chega-nos pela boca de Abraão, o pai na fé, e esclarece-nos quanto ao desenlace: «Filho, lembra-te de que durante a vida recebeste teus bens e Lázaro, por sua vez, seus males» (Lc 16,25). A justiça de Deus inverte a situação. Deus não permite que o pobre permaneça para sempre no sofrimento, na fome e na miséria.

Este relato sensibilizou milhões de corações de ricos ao longo da história e levou multidões à conversão; porém, que mensagem será necessária neste nosso mundo desenvolvido, hiper comunicado, globalizado, para nos fazer tomar consciência das injustiças sociais de que somos autores ou, pelo menos, cúmplices? Todos os que escutavam a mensagem de Jesus tinham o desejo de descansar no seio de Abraão, mas, no nosso mundo quantas pessoas se contentam com ser sepultados quando morrerem, sem querer receber o consolo do Pai do céu? A autêntica riqueza consiste em chegar a ver Deus, e o que faz falta é o que afirmava Sto. Agostinho: «Caminha pelo homem e chegarás a Deus». Que os Lázaros de cada dia nos ajudem a encontrar Deus.

Pensamentos para o Evangelho de hoje
«Aprendei a ser ricos e pobres, tanto os que têm algo neste mundo como os que não têm nada. Pois também vós encontrareis o mendigo que se enaltece e o abastado que se humilha. Deus observa o interior!» (Santo Agostinho)

«Face a uma cultura de indiferença, que muitas vezes acaba por ser impiedosa, o nosso modo de vida deve estar cheio de piedade, empatia, compaixão, misericórdia, que tiramos diariamente do poço da oração» (Francisco)

«(...) O drama da fome no mundo chama os cristãos que oram com sinceridade a assumir uma responsabilidade efetiva em relação aos seus irmãos, tanto nos seus comportamentos pessoais como na solidariedade para com a família humana (...)» (Catecismo da Igreja Católica, nº 2.831)

Durante a vida, tu recebeste bens e Lázaro só males. Agora é ele consolado e tu vives no meio de tormentos.

Escrito por P. Américo – no site DOMUS IESU

* Tu recebeste bens e Lázaro só males. Agora, é ele consolado e tu vives no meio de tormentos. Esta parábola do rico epulão e do pobre Lázaro é, obviamente, uma história e não um facto real. Sendo assim, a sua principal finalidade é transmitir uma mensagem. Mal de nós se a nossa preocupação, em vez disso, fosse ver o que aconteceu de facto. Também não me parece que seja legítimo tirar conclusões sobre a situação do rico ou do pobre Lázaro. Ou seja, o rico não é condenado pelo simples facto de ser rico nem pobre é premiado pelo simples facto de ser pobre. Se assim fosse, então bastava ser pobre - ser miserável, ainda melhor - para ter garantido o reino dos céus. O rico epulão não é condenado sequer por se banquetear todos os dias (o que me parece um exagero natural e próprio duma parábola), mas sim por não temer a Deus e por não partilhar os seus bens com quem jazia à sua porta a morrer de fome. Como insisto com frequência, a parábola tem algum sentido quando nós conseguimos concluir que a sua finalidade é nós pô-la em prática. Quando nos limitamos a ficar encantados com a história e dela não tiramos nada de concreto para a vida, então é sinal de que a sua mensagem ainda não passou. E então, para que a mensagem tenha a hipótese de passar, temos que fazer pelo menos uma pergunta: Não será que aquele rico que não se interessa pelo pobre Lázaro não sou eu também? Será que eu sou incapaz de rever as minhas posições neste ponto, mesmo que alguém dos mortos ressuscite e me venha dizer? Não será que eu só quero deixar de ser rico epulão pura e simplesmente para não ter a sorte que ele teve?

* O alcance duma parábola. O tema da parábola do rico epulão e do pobre Lázaro, que hoje é posta à nossa consideração, é muito simples na sua mensagem central. No fundo, aquele que se gaba de ser rico, diante de Deus é, na realidade, um pobre. O pobre, ao contrário, que está aberto à grandeza de Deus, esse acaba por «possuir» o que importa.

A partir duma leitura superficial, poderá parecer chocante o sentido que na parábola é dado à riqueza e à pobreza. Isto porque alguns, mesmo entre os estudiosos, partem do suposto que a condenação do rico se deve unicamente ao facto de ele possuir bens. Ou seja, até os estudiosos se deixam levar pela impressão de que, segundo este texto, o rico vai para o inferno e o pobre para o seio de Abraão não porque o primeiro seja um pecador e o segundo um justo, mas só pelo facto de um ser rico e o outro pobre.

Mas, bem-vistas as coisas, sobre esse assunto específico, a parábola não diz uma única palavra. Essa é apenas uma ilação que nós temos a tendência a tirar e que não está contida nas premissas. Sim, dá-nos a impressão de que o rico é condenado pela simples razão de ser rico. Mas isso não é senão a tradução do desejo de «vingança» por parte do oprimido, que se alegra com a reviravolta da situação no futuro (cf. K. Kautsky, A origem do cristianismo).

Segundo a interpretação de outros, essa descrição do ressentimento do pobre contra o rico seria o reflexo da situação dos cristãos «proletários» perseguidos na altura em que a página evangélica foi redigida e também dos oprimidos da primitiva Igreja e dos oprimidos de todos os tempos que se identificam com o pobre Lázaro. Ou seja, no fundo, nesta situação paradigmática, esconder-se-ia uma espécie de fundamento da luta de classes.

Ora, seja dito com clareza que chegar a uma conclusão destas é extrapolar da finalidade e do objetivo da parábola; é fazer dizer ao texto em questão aquilo que não está lá nem pode estar, até porque o contexto o não justifica. Como é óbvio, o tema da luta de classes neste contexto é totalmente despropositado.

Parábola religiosa e não política. Segundo a minha maneira de ver, esta hipótese de trabalho não é, pois, correta. Com efeito, a leitura fundamental da Bíblia, como tenho repetido (e não me canso de repetir), tem que ser, em primeiro lugar, de índole religiosa, pois a Bíblia, embora isso pese a alguns leitores demasiado politizados, é primordialmente um livro religioso.

De resto, como já deu para perceber, o rico não é condenado simplesmente pela sua riqueza, mas porque não soube tomar a vida como um dom nem ofereceu dos seus bens ao pobre que estava a morrer de fome à porta da sua casa. O que é condenável não é, pois, a riqueza em si mesma, mas sim a falta de solidariedade, a falta de interesse e amor para com o próximo; no caso concreto, a falta de amor para quem estava em necessidade absoluta.

A riqueza (ou, por outra, os bens) não é em si um pecado, até porque também ela provém de Deus. Se assim fosse, nem sequer se poderiam chamar «bens». O que é pecado é a riqueza que deixa que os pobres morram, o que é pecado é a falta de solidariedade. O rico é merecedor de castigo não por ser rico, mas por se ter afastado de Deus ao recusar ao seu irmão a solidariedade exigida pela mensagem de Jesus. Segundo a mensagem da parábola, Deus, sendo o dom do amor eterno, achou aquele rico (só nos ficou o nome do pobre) inútil e vazio.
Na linha dessa parábola, salvam-se aqueles que reproduzem em si, mais ou menos perfeitamente, a imagem de Deus, que se manifesta nas suas criaturas. E perdem a sua identidade para sempre os que, afastando-se da «essência» de Deus (que é amor), acabam por perder a semelhança com Ele.

* A riqueza que afasta de Deus. O problema da riqueza e da pobreza é um dos problemas que sempre afligiram a humanidade e sempre a dividiram, criando mal-entendidos e confrontos. As interpretações do material bíblico sobre o assunto foram sempre também motivo de contendas. E não há dúvida que para isso contribui uma leitura pouco aprofundada da Bíblia. Em sentido diametralmente oposto, dessa leitura superficial da Bíblia resultam também várias passagens que parecem indiciar que a pobreza é sinal de incapacidade e de pecado, enquanto a riqueza, ao contrário, é sinal e prémio de virtude e de justiça. Outros, da Bíblia tiram razões para afirmar que o homem honesto não pode enriquecer. Riqueza, para eles, é sinónimo de mentira e exploração. Ou seja, o rico a tudo está disposto para defender os privilégios que a riqueza lhe outorga...

Do ponto de vista bíblico, o problema, porém, não se pode equacionar, em primeiro lugar, em termos sociais e políticos. Uma interpretação deste género é sempre redutora das intenções dos autores bíblicos, embora se não possam excluir aplicações práticas nesse campo. Penso, aliás, que os princípios bíblicos só alcançarão efetiva importância quando forem passados à prática do dia a dia.

* Felizes ou ai dos ricos? Na Bíblia, encontramos uma «leitura dupla» da pobreza e da riqueza. Por um lado, é claro que a pobreza é um mal a vencer; não só em si mesmo, mas também porque é como que a cristalização do pecado; e a riqueza, como prémio duma vida laboriosa, supostamente apresenta-se, por vezes, como sinal da bênção de Deus. Mas, por outro lado, na riqueza que pensa só em si, o profetismo e o próprio Jesus veem o caminho e a tendência mais curtos para a autossuficiência e o consequente afastamento de Deus e insensibilidade para com o próximo.

À expressão «Ai de vós, ricos!» contrapõe-se à bem-aventurança evangélica «Felizes os pobres!», que é considerada como uma zona privilegiada da experiência religiosa. Atendendo ao facto de que as expressões que «exaltam» a riqueza em prejuízo da pobreza são anteriores ao profetismo e, com maioria de razão, à nova ordem da era messiânica que, por seu lado, «exalta» a pobreza, o fiel da balança tem que pender para o lado da pobreza, não como simples ausência de bens, mas sobretudo como disponibilidade e abertura de espírito a Deus e às necessidades dos outros.

Só que reduzir o conteúdo bíblico nesta matéria a esta solução interpretativa corresponderia a super-simplificar e a reduzir o problema a uma espécie de operação matemática, segundo a qual a «compra» do Reino seria indiretamente proporcional à soma de riquezas que se tivessem. Ou seja, quanto mais pobre se fosse, mais «direito» se teria ao Reino de Deus. Ora, isto, em termos bíblicos, constitui uma forma de raciocinar e interpretar pelo menos ridícula.

* Mal é toda a forma de desamor. Quer o profetismo quer Jesus condenam, sem ambiguidade, não tanto a riqueza em si, quanto a confiança ilimitada que se possa depositar em bens (riquezas, cidades, templos, montes ou ritos) para encobrir as injustiças e as desordens da vida de todos os dias. A ânsia pelos bens (e, nesse ponto, também o deserdado pode acalentar ânsias de possessão) pode conduzir a pessoa a fazer desses mesmos bens a meta da sua vida.

A parábola do rico avarento não se pode considerar como aceitação fatalista da desordem constituída (em que o rico acaba por eliminar o pobre), com a promessa, porém, de que a situação será diametralmente modificada na outra vida. Dessa forma, a religião seria, de facto, o ópio que adormece e morfiniza os pobres. Isso não seria Evangelho, mas caricatura do Evangelho.

A parábola (não vale a pena esquecer que é uma parábola) tem como finalidade despertar não só a reação, mas também a ação operativa dos ouvintes; e não apenas descrever objetivamente uma determinada situação presente injusta que se modificará no futuro. O Evangelho é, nesse sentido, denúncia da injustiça presente e convite a modificar na prática essa situação, sem ficar à espera que o futuro se encarregue de o fazer automaticamente. Isto, evidentemente, sem prejuízo para o facto de que, mais tarde ou mais cedo, as contas terão que ser feitas. Mas, quanto a este assunto específico, o mais que podemos concluir do Evangelho é que isso é da conta do Pai do céu.

* Transformar o mundo pelo amor. Jesus, como sempre, ultrapassa os simples termos materiais de riqueza e de pobreza, procurando fazer chegar os que O ouvem à prática da solidariedade do amor. E isso é muito mais que um simples manifesto revolucionário ou um calendário programático de reforma social. É algo de mais profundo e essencial. O Evangelho não nos ensina a revolução, mas sim a transformação dos homens e, por conseguinte, das estruturas sociais, mas por dentro. É uma mensagem e um programa que, se calhar, por vezes, não atraem muito. Mas são a única via de solução razoável para as relações humanas. O mundo será transformado de verdade apenas pela mudança do coração e pelo amor. O egoísmo, a insensibilidade e falta de solidariedade não auguram nada de bom.