sábado, 14 de outubro de 2023

15 de outubro

Santa Teresa de Jesus
Virgem de Nossa Ordem e Doutora da Igreja
Patrona da Ordem Terceira do Carmo

Nasceu em Ávila (Espanha) no ano 1515. Tendo entrado na Ordem das Carmelitas, fez grandes progressos no caminho da perfeição e teve revelações místicas. Ao empreender a reforma da Ordem teve de sofrer muitas tribulações, mas tudo suportou com coragem invencível. A doutrina profunda que escreveu nos seus livros é fruto das suas experiências místicas. Morreu em Alba de Tormes (Salamanca) no ano 1582.
 
INVITATÓRIO
R. Ao Senhor, Fonte da Sabedoria, vinde adoremos!
 
LAUDES
Hino
Deixando teus pais, Teresa,
quiseste aos mouros pregar,
trazê-los todos ao Cristo,
ou teu sangue derramar.

Pena, porém, mais suave
o Esposo a ti reservou:
tombares de amor ferida,
ao dardo que te enviou.

Acende, pois, nossas almas,
na chama do eterno amor:
jamais vejamos do inferno
o fogo devorador.

Louvamos contigo ao Filho,
que ao trino Deus nos conduz;
ele é o Jesus de Teresa,
Tu, Teresa de Jesus!
 
Ant 1. A minha alma tem sede de vós e por vós suspira, ó meu Deus.
 
Salmos e cântico do domingo da I Semana
 
Ant 2. Todas as criaturas vos agradeçam, Senhor, e os vossos santos com louvores vos bendigam.
 
Ant. 3. As vossas misericórdias, Senhor, eternamente cantarei na assembleia dos vossos santos.
 
Leitura Breve - 2Cor 4,5-7
Não nos pregamos a nós mesmos, pregamos a Jesus Cristo, o Senhor. Quanto a nós, apresentamo-nos a vós como vossos servos por causa de Jesus. Pois o Deus que disse: "Das trevas brilhe a luz!", foi ele quem reluziu em nossos corações, para que brilhe em todo o seu esplendor o conhecimento da sua glória, que se reflete no rosto de Cristo. Ora trazemos este tesouro em vasos de argila, para que reconheçam todos que este poder extraordinário vem de Deus e não de nós.
 
Responsório breve
R. Falou-me o coração * é a vossa face que eu procuro, Senhor.
R. Falou-me o coração.
V. Senhor, a vossa face eu procuro. * É a vossa face.
Glória ao Pai. R. Falou-me o coração.
 
Cântico evangélico
Ant. Quem me ama será amado por meu Pai. Eu o amarei e a ele me manifestarei.
 
Preces
Aclamemos com alegria o Senhor da Glória, a Coroa de todos os Santos, que nos concedeu hoje a graça de celebrarmos Santa Teresa; e digamos:
 
R. Glória, a vós, Senhor!
 
Senhor, fonte de vida e de santidade, que manifestais nos vossos Santos as maravilhas da vossa graça,
- queremos com Santa Teresa cantar eternamente as vossas misericórdias. R.
 
Vós, que desejais abrasar todo o mundo com o fogo do vosso Amor,
- fazei que sejamos, como Santa Teresa, servidores do vosso Amor entre os nossos irmãos. R.
 
Vós, que revelais aos vossos Anjos os mistérios do vosso coração,
- associai-nos mais a vós, para que, tendo experimentado melhor o vosso amor em nós, conduzamos os irmãos para vós. R.
 
Vós, que proclamastes bem-aventurados os puros de coração e prometestes que haveriam de ver-vos,
- purificai o nosso olhar, para que vos descubramos em todas as criaturas e nos elevemos sempre para vós. R.
 
Vós, que resistis aos soberbos e dais inteligência aos simples,
- fazei que sejamos humildes de coração, para adquirirmos em benefício de toda a Igreja a sabedoria, que nos enriquece. R.
 
(intenções livres)
 
Pai nosso...
 
Oração
Ó Deus, que pelo Espírito Santo fizestes surgir Santa Teresa para recordar à Igreja o caminho da perfeição, dai-nos encontrar sempre alimento em sua doutrina celeste e sentir em nós o desejo da verdadeira santidade. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.
 
VÉSPERAS
Hino
Este é o dia em que Teresa,
qual pomba de branca alvura,
à terra tão pouco presa,
o templo do céu procura.

As falas do Espírito escutas:
Amada, vem do Carmelo!
Esquece, irmã, tua gruta,
que o meu amor é mais belo.

Cantemos o Esposo amado,
que vem desposar Teresa
com seu anel de noivado
e a lâmpada sempre acesa.
 
Ant.1. O Senhor mostrou-me a Cidade Santa, resplandecente da Glória de Deus, e brilhava como pedra preciosíssima.
 
Salmos e Cântico do Comum das Virgens ou dos Doutores da Igreja.
 
Ant.2. Esta é a morada de Deus entre os homens: no meio deles vai habitar o Senhor.
 
Ant.3. Procuro completar na minha própria carne o que falta das tribulações de Cristo, em solidariedade com o seu Corpo, isto é, a Igreja.
 
Leitura breve – Jd 20-21
Vós, porém, caríssimos, edificai-vos mutuamente sobre o fundamento da vossa santíssima fé; rezai no Espírito Santo, de modo que vos mantenhais no amor de Deus, aguardando a misericórdia de Nosso Senhor Jesus Cristo, para a vida eterna.
 
Responsório breve
R. Vós sois * o templo do Deus Vivo. R. Vós sois.
V. E o Espírito de Deus habita em vós. * O templo.
Glória ao Pai. R. Vós sois.
 
Cântico Evangélico
Ant. Não se perturbe o vosso coração: na casa de meu Pai existem muitas moradas e eu vou preparar um lugar para vós.
 
Preces
Glorifiquemos a Cristo, que amou a sua Igreja e se entregou por ela para santificá-la; e pedindo-lhe que a conserve sempre santa e imaculada em todos os seus membros, digamos com muita confiança:
 
R. Protegei, Senhor, a vossa Igreja!
 
Vós, que sois a Cabeça da Igreja, que alimentais e protegeis.
- fazei que todos os fiéis permaneçam sempre unidos convosco pela fé e pela caridade. R.
 
Vós, que edificastes a Igreja sobre o fundamento dos Apóstolos e, por meio deles, nos ensinais a verdade e nos conduzis à vossa mesa,
- iluminai e dirigi aqueles que colocastes à sua frente. R.
 
Vós, que amastes e escolhestes alguns membros do vosso povo, para que anunciassem a vossa palavra aos irmãos,
- enviai trabalhadores para a vossa messe. R.
 
Vós, que não cessais de chamar discípulos que, para edificação da Igreja, vos seguem mais de perto na castidade, pobreza e obediência,
- fazei que todos os religiosos, tendo a Virgem Maria por Mãe e Mestra, vos sigam e sirvam fielmente. R.
 
Vós, que suscitastes na Igreja a família do Carmelo,
- concedei aos Carmelitas a graça da fidelidade ao espírito de oração e de zelo apostólico, a exemplo de Santa Teresa. R.
 
(intenções livres)
 
Vós, que morrestes para nos justificar e ressuscitastes para nos livrar da morte eterna,
- concedei aos nossos irmãos e irmãs falecidos a alegria da Páscoa eterna na comunhão com Maria e todos os vossos Santos. R.
 
Pai Nosso ...
 
Oração
Ó Deus, que pelo Espírito Santo fizestes surgir Santa Teresa para recordar à Igreja o caminho da perfeição, dai-nos encontrar sempre alimento em sua doutrina celeste e sentir em nós o desejo da verdadeira santidade. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

quinta-feira, 12 de outubro de 2023

Sábado XXVII do Tempo Comum

Nossa Senhora Divina Pastora, Padroeira do Estado de Sergipe
 
1ª Leitura (Joel 4,12-21):
Eis o que diz o Senhor: «Levantem-se as nações e encaminhem-se para o Vale de Josafá. Ali estarei sentado a julgar todas as nações vizinhas. Metei a foice, porque a seara está madura; vinde pisar, porque o lagar está cheio: os tanques transbordam, porque é grande a malícia das nações». Multidões e multidões no Vale do Julgamento! Está próximo o dia do Senhor no Vale do Julgamento! O sol e a lua escureceram e as estrelas perderam o seu brilho. O Senhor ruge desde Sião, de Jerusalém faz ouvir a sua voz: tremem os céus e a terra. Mas o Senhor é um refúgio para o seu povo, um abrigo para os filhos de Israel. Então sabereis que Eu sou o Senhor, vosso Deus, que habito em Sião, o meu santo monte. Jerusalém será um lugar sagrado e nunca mais passarão por lá os estranhos». Nesse dia, os montes escorrerão vinho novo, as colinas jorrarão leite e correrão águas em todos os ribeiros de Judá. Do templo do Senhor sairá uma nascente, para regar o Vale das Acácias. O Egipto será terra devastada e Edom um deserto desolado, por causa das violências contra os filhos de Judá, por terem derramado na sua terra sangue inocente. Mas Judá será habitado para sempre e Jerusalém de geração em geração. «Eu vingarei o seu sangue, que não deixarei impune». E o Senhor habitará em Sião.
 
Salmo Responsorial: 96
R. Alegrai-vos, justos, no Senhor.
 
O Senhor é rei: exulte a terra, rejubile a multidão das ilhas. Ao seu redor, nuvens e trevas; a justiça e o direito são a base do seu trono.
 
Derretem-se os montes como cera diante do Senhor de toda a terra. Os céus proclamam a sua justiça e todos os povos contemplam a sua glória.
 
A luz resplandece para os justos e a alegria para os corações retos. Alegrai-vos, justos, no Senhor e louvai o seu nome santo.
 
Aleluia. Felizes os que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática. Aleluia.
 
Evangelho (Lc 11,27-28): Naquele tempo, enquanto Jesus assim falava, uma mulher levantou a voz no meio da multidão e lhe disse: Feliz o ventre que te trouxe e os seios que te amamentaram. Ele respondeu: Felizes, sobretudo, são os que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática.
 
«Feliz o ventre que te trouxe e os seios que te amamentaram»
 
Rev. D. Jaume AYMAR i Ragolta (Badalona, Barcelona, Espanha)
 
Hoje, escutamos o melhor dos louvores que Jesus podia fazer a sua própria Mãe: Felizes (...) são os que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática (Lc 11,28). Com essa resposta, Jesus Cristo não rejeita o apaixonado elogio que aquela simples mulher dedicava a sua Mãe, pelo contrário o aceita e vai além, explicando que Maria Santíssima é bem-aventurada, sobretudo! Pelo fato de ter sido boa e fiel no cumprimento da Palavra de Deus.
 
Às vezes me perguntam se os cristãos acreditam na predestinação, como acreditam outras religiões. Não! Os cristãos acreditamos que Deus tem reservado um destino de felicidade para nós. Deus quer que sejamos felizes, afortunados, bem-aventurados. Prestemos atenção em como essa palavra vai se repetindo nos ensinos de Jesus: Felizes, felizes, felizes... . Felizes os pobres, os mansos, os que têm fome e sede da justiça, os que não viram, e creram! (cf. Mt 5,3-12; Jo 20,29). Deus quer nossa felicidade, uma felicidade que começa já neste mundo, apesar de que os caminhos para chegar lá, não sejam nem a riqueza, nem o poder, nem o êxito fácil, nem a fama, senão o amor pobre e humilde de quem tudo o espera. A alegria de acreditar! Aquela da que falava o converso Jacques Maritain.
 
Trata-se de uma felicidade que é ainda maior do que a alegria de viver, porque acreditamos em uma vida sem fim, eterna. Maria, a Mãe de Jesus, não é somente afortunada por tê-lo trazido ao mundo, por tê-lo amamentado e criado; como percebia aquela espontânea mulher do povoado, senão, sobretudo, por ter sido ouvinte da Palavra e, por pô-la em prática: por ter amado e, por deixar se amar por seu Filho Jesus. Como escrevia o poeta: Poder dizer mãe e ouvir-se dizer filho meu / é a sorte que nos invejava Deus. Que Maria, Mãe do Amor Perfeito, rogue por nós.
 
Pensamentos para o Evangelho de hoje
«O Criador do homem, sendo nascido da raça humana, teve que escolher para si, entre todas, uma mãe como Ele sabia que lhe seria conveniente e agradável» (São Bernardo)
 
«Quem tem tempo para ouvir a sua Palavra e deixar-se fascinar pelo seu amor? A fé em Deus pede o abandono, cheio de confiança, nas mãos do Amor que sustenta o mundo» (Bento XVI)
 
«Deus revelou-Se plenamente enviando o seu próprio Filho, no qual estabeleceu a sua aliança para sempre. O Filho é a Palavra definitiva do Pai, de modo que, depois d'Ele, não haverá outra Revelação.» (Catecismo da Igreja Católica, nº 73)
 
Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm.
 
*
O evangelho de hoje é bem curto, mas tem um significado importante no conjunto do evangelho de Lucas. Ele nos traz a chave para entender o que Lucas ensina a respeito de Maria, a Mãe de Jesus, no assim chamado Evangelho da Infância (Lc 1 e 2).
 
* Lucas 11,27: A exclamação da mulher
“Enquanto Jesus dizia essas coisas, uma mulher levantou a voz no meio da multidão, e lhe disse: "Feliz o ventre que te carregou, e os seios que te amamentaram”. A imaginação criativa de alguns apócrifos sugere que aquela senhora era uma vizinha de Nossa Senhora lá em Nazaré. Tinha um filho, chamado Dimas, que, como tantos outros rapazes da Galileia daquela época, entrou na guerrilha contra os romanos, foi preso e executado junto com Jesus. Era o bom ladrão (Lc 23,39-43). A mãe dele, ouvindo Jesus falar tão bonito ao povo, lembrou de Maria, sua vizinha, e disse: “Como Maria deve ser feliz tendo um filho assim!”.
 
* Lucas 11,28: A resposta de Jesus
Jesus responde, fazendo o maior elogio à sua mãe: “Mais felizes são aqueles que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática”. Lucas fala pouco de Maria: aqui (Lc 11,28) e no Evangelho da Infância (Lc 1 e 2). Para ele, Lucas, Maria é a Filha de Sião, imagem do novo povo de Deus. Ele apresenta Maria como modelo para a vida das comunidades. No Concílio Vaticano II, o documento preparado sobre Maria foi inserido como capítulo final no documento Lumen Gentium sobre a Igreja. Maria é modelo para a Igreja. É sobretudo na maneira de Maria relacionar-se com a Palavra de Deus que Lucas vê o exemplo dela para a vida das comunidades: “Felizes os que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática”. Maria nos ensina como acolher a Palavra de Deus, como encarná-la, vivê-la, aprofundá-la, ruminá-la, fazê-la nascer e crescer, deixar-nos moldar por ela, mesmo quando não a entendemos ou quando ela nos faz sofrer. Esta é a visão que está por de trás do Evangelho de Infância (Lc 1 e 2). A chave para entender estes dois capítulos nos é dada no evangelho de hoje: “Felizes os que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática”. Veja como nestes capítulos Maria se relaciona com a Palavra de Deus.
1. Lucas 1,26-38:
A Anunciação: "Faça-se em mim segundo a tua palavra!"
Saber abrir-se, para que a Palavra de Deus seja acolhida e se encarne.
2. Lucas 1,39-45:
A Visitação: "Bem-aventurada aquela que acreditou!"
Saber reconhecer a Palavra de Deus numa visita e em tantos outros fatos da vida.
3. Lucas 1,46-56:
O Magnificat: “O Senhor fez em mim maravilhas!”
Reconhecer a Palavra na história do povo e produzir um canto de resistência e de esperança
4. Lucas 2,1-20:
O Nascimento: "Ela meditava sobre os fatos em seu coração"
Não havia lugar para eles. Os marginalizados acolhem a Palavra.
5. Lucas 2,21-32:
A Apresentação: "Meus olhos viram a tua salvação!"
Os muitos anos de vida purificam os olhos.
6. Lucas 2,33-38:
Simeão e Ana: "Uma espada vai atravessar sua alma"
Acolher e encarnar a palavra na vida, ser sinal de contradição.
7. Lucas 2,39-52:
Aos doze anos no templo: "Então, não sabiam que devo estar com o Pai?"
Eles não compreenderam a Palavras que lhes foi dita!
8. Lucas 11,27-28:
O Elogio à mãe: "Feliz o ventre que te carregou!"
Feliz quem ouve e pratica a Palavra
 
Para um confronto pessoal
1) Você consegue descobrir a Palavra viva de Deus em sua vida?
2) Como você vive a devoção à Maria, a mãe de Jesus?

quarta-feira, 11 de outubro de 2023

Sexta-feira da 27ª semana do Tempo Comum

 Beata Alexandrina Maria da Costa, virgem
Santo Eduardo III, o Confessor, leigo
 
1ª Leitura (Joel 1,13-15; 2,1-2):
Vesti-vos de luto e chorai, sacerdotes, entoai lamentações, ministros do altar. Vinde passar a noite com vestes de penitência, ministros do meu Deus. Porque no templo de Deus, desapareceram a oferenda e a libação. Proclamai um solene jejum, convocai uma assembleia. Reuni os anciãos e todos os habitantes do país no templo do Senhor, vosso Deus. E clamai ao Senhor: «Ah, que dia este!». Está próximo o dia do Senhor, que vai chegar como devastação que vem do Omnipotente. Tocai a trombeta em Sião, dai o alarme no meu santo monte. Estremeçam todos os habitantes do país, porque está a chegar o dia do Senhor. Sim, ele está próximo: será dia de trevas e de escuridão, dia de nuvens e de sombras. Como a luz da aurora, estende-se sobre os montes um povo numeroso e forte. Nunca houve povo nenhum como ele, nem depois dele haverá outro, até às mais longínquas gerações.
 
Salmo Responsorial: 9
R. O Senhor julgará a terra com justiça.
 
De todo o coração, Senhor, Vos quero louvar e contar todas as vossas maravilhas. Quero alegrar-me e exultar em Vós, quero cantar o vosso nome, ó Altíssimo.
 
Ameaçastes os pagãos, destruístes os ímpios, apagastes o seu nome para sempre. Afundaram-se as nações no fosso que abriram, ficaram presos os seus pés na armadilha que prepararam.
 
O Senhor é rei para sempre, firmou o seu trono para julgar. Ele julga a terra com justiça, governa os povos com retidão.
 
Aleluia. Chegou a hora em que vai ser expulso o príncipe deste mundo, diz o Senhor; e quando Eu for levantado da terra, atrairei todos a Mim. Aleluia.
 
Evangelho (Lc 11,15-26): Naquele tempo, depois de que Jesus expulsou um demônio, alguns disseram: É pelo poder de Beelzebu, o chefe dos demônios, que ele expulsa os demônios. Outros, para tentar Jesus, pediam-lhe um sinal do céu. Mas, conhecendo seus pensamentos, ele disse-lhes: Todo reino dividido internamente será destruído; cairá uma casa sobre a outra. Ora, se até Satanás está dividido internamente, como poderá manter-se o seu reino? Pois dizeis que é pelo poder de Beelzebu que eu expulso os demônios. Se é pelo poder de Beelzebu que eu expulso os demônios, pelo poder de quem então vossos discípulos os expulsam? Por isso, eles mesmos serão vossos juízes. Mas, se é pelo dedo de Deus que eu expulso os demônios, é porque o Reino de Deus já chegou até vós. Quando um homem forte e bem armado guarda o próprio terreno, seus bens estão seguros. Mas, quando chega um mais forte do que ele e o vence, arranca-lhe a armadura em que confiava e distribui os despojos. Quem não está comigo é contra mim; e quem não recolhe comigo, espalha. Quando o espírito impuro sai de alguém, fica vagando por lugares áridos, à procura de repouso. Não o encontrando, diz: Vou voltar para minha casa de onde saí. Chegando aí, encontra a casa varrida e arrumada. Então ele vai e traz outros sete espíritos piores do que ele, que entram e se instalam aí. No fim, o estado dessa pessoa fica pior do que antes.
 
«Alguns disseram: É pelo poder de Beelzebu, o chefe dos demônios, que ele expulsa os demônios»
 
Rev. D. Josep PAUSAS i Mas(Sant Feliu de Llobregat, Espanha)
 
Hoje, contemplamos comovidos como Jesus é ridiculamente culpado de expulsar demônios: É pelo poder de Beelzebul, o chefe dos demônios, que ele expulsa os demônios (Lc 11,15). É difícil imaginar um bem maior, expulsar, afastar das almas ao diabo, o instigador do mal e, ao mesmo tempo, escutar a acusação mais grave fazê-lo, precisamente, pelo poder do próprio diabo. É realmente uma incriminação gratuita, que manifesta muita cegueira e inveja por parte dos acusadores do Senhor. Hoje em dia, também, sem perceber, eliminamos de raiz o direito que os outros têm a discrepar, a serem diferentes e, a terem suas próprias posições contrárias e, incluso, opostas às nossas.
 
Quem o vive fechado em um dogmatismo político, cultural ou ideológico, facilmente menospreza ao que discrepa, desqualificando todo seu projeto e negando-lhe competência e, inclusive honestidade. Em tal caso, o adversário político ou ideológico transforma-se no inimigo pessoal. O confronto degenera em insulto e agressividade. O clima de intolerância e mútua exclusão violenta pode, então, nos conduzir à tentação de eliminar de alguma maneira a quem se nos apresenta como inimigo.
 
Nesse clima é fácil justificar qualquer atentado contra pessoas, inclusive, os assassinatos, se o morto não é dos nossos. Quantas pessoas sofrem hoje com esse ambiente de intolerância e rechaço mútuo que frequentemente se respira nas instituições públicas, nos locais de trabalho, nas assembleias e confrontos políticos!
 
Entre todos devemos criar as condições e um clima de tolerância, respeito mútuo e confronto leal no qual seja possível ir achando caminhos de diálogo. Os cristãos, longe de endurecer e sacralizar falsamente nossas posições manipulando a Deus e identificando-o com nossas próprias posturas, devemos seguir a este Jesus que quando seus discípulos pretendiam que impedisse que outros expulsaram demônios em nome dele, os corrigiu dizendo-lhes: Não o proibais, pois quem não é contra vós, está a vosso favor(Lc 9,50). Todo o inumerável coro de pastores reduz-se ao Corpo de um só Pastor (Santo Agostinho).
 
Pensamentos para o Evangelho de hoje
«Já que Cristo, com a sua vinda, expulsou o diabo dos nossos corações para preparar em nós um templo, façamos todos os esforços com a sua ajuda para que Cristo não seja desonrado em nós pelas nossas más obras» (São Cesário de Arles)
 
«O Diabo está sempre a tentar arruinar a obra de Deus, semeando a divisão no coração humano, entre o corpo e a alma, entre o homem e Deus, nas relações sociais, internacionais... O mal semeia a guerra; Deus cria a paz» (Bento XVI)
 
«(…) O poder de Satanás não é infinito. Satanás é uma simples criatura, poderosa pelo facto de ser puro espírito, mas, de qualquer modo, criatura: impotente para impedir a edificação do Reino de Deus. (…)» (Catecismo da Igreja Católica, nº 395)
 
Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm.
 
*
O evangelho de hoje traz uma última crítica de Jesus contra as autoridades religiosas do seu tempo.
 
* Lucas 12,1ª: Milhares buscam Jesus. “Enquanto isso, milhares de pessoas se reuniram, de modo que uns pisavam nos outros”. Esta frase deixa transparecer a enorme popularidade de Jesus e o desejo do povo de encontrar-se com ele (cf. Mc 6,31; Mt 13,2). Deixa transparecer também o abandono em que se encontrava o povo. “São como ovelhas sem pastor”, dizia Jesus em outra ocasião quando via a multidão aproximar-se dele para ouvir a sua palavra (Mc 6,34).
 
* Lucas 12,1b: Cuidado com a hipocrisia. “Jesus começou a falar, primeiro a seus discípulos: "Tomem cuidado com o fermento dos fariseus, que é a hipocrisia”.  Marcos já falava do fermento dos fariseus e dos herodianos e sugeria que se tratava da mentalidade ou da ideologia dominante da época que esperava um messias glorioso e poderoso (Mc 8,15; 8,31-33). Aqui no nosso texto, Lucas identifica o fermento dos fariseus com a hipocrisia. Hipocrisia é uma atitude que inverte os valores. Esconde a verdade. Mostra uma casca bonita que encobre e disfarça a podridão dentro da casca. No caso, a hipocrisia era a casca aparente da fidelidade máxima à palavra de Deus que escondia a contradição da vida deles. Jesus quer o contrário. Quer a coerência que não deixa no escondido.
 
* Lucas 12,2-3: O escondido será revelado. “Não há nada de escondido que não venha a ser revelado, e não há nada de oculto que não venha a ser conhecido. Pelo contrário, tudo o que vocês tiverem feito na escuridão, será ouvido à luz do dia; e o que vocês tiverem pronunciado em segredo, nos quartos, será proclamado sobre os telhados".  É a segunda vez que Lucas fala deste assunto (cf. Lc 8,17). Em vez da hipocrisia dos fariseus que esconde a verdade, os discípulos devem ter a sinceridade. Não devem ter medo da verdade. Jesus os convida a partilhar com os outros os ensinamentos que dele aprenderam. Os discípulos não podem conservá-los só para si, mas devem divulgá-los. Um dia, as máscaras vão cair e tudo será revelado às claras, proclamado sobre os telhados (cf. Mt 10,26-27).  
 
* Lucas 12,4-5: Não ter medo. “Pois bem, eu digo a vocês, meus amigos: não tenham medo daqueles que matam o corpo, e depois disso nada mais têm a fazer. Vou mostrar a quem vocês devem temer: tenham medo daquele que, depois de ter matado, tem poder de jogá-los no inferno. Eu lhes digo: é a este que vocês devem temer”. Aqui Jesus se dirige aos seus amigos, os discípulos e discípulas. Eles não devem ter medo daqueles que matam o corpo, que torturam, machucam e fazem sofrer. Os torturadores podem até matar o corpo, mas não conseguem matar neles a liberdade e o espírito. Devem ter medo, isto sim, de que o medo do sofrimento os leve a esconder ou a negar a verdade e, assim, os faça ofender a Deus. Pois quem se afasta de Deus se perde para sempre.
 
* Lucas 12,6-7: Vocês valem mais que muitos pardais. “Não se vendem cinco pardais por alguns trocados? No entanto, nenhum deles é esquecido por Deus. Até mesmo os cabelos da cabeça de vocês estão todos contados. Não tenham medo! Vocês valem mais do que muitos pardais”. Os discípulos não devem ter medo de nada, pois eles estão na mão de Deus. Jesus manda olhar os passarinhos. Dois pardais se vendem por poucos centavos e, no entanto, nenhum pardal cai no chão sem o consentimento do Pai. Até os cabelos na cabeça estão contados. Lucas diz que nenhum cabelo cai sem a licença do Pai (Lc 21,18). E caem tantos cabelos! Por isso, “não tenham medo. Vocês valem muito mais que muitos pardais”. É a lição que Jesus tirou da contemplação da natureza. (cf Mt 10,29-31)
 
* A contemplação da natureza. No Sermão da Montanha, a mensagem mais importante, Jesus a tirou da contemplação da natureza. Eles dizem: "Vocês ouviram o que foi dito: 'Ame o seu próximo, e odeie o seu inimigo!' Eu, porém, lhes digo: amem os seus inimigos, e rezem por aqueles que perseguem vocês! Assim vocês se tornarão filhos do Pai que está no céu, porque ele faz o sol nascer sobre maus e bons, e a chuva cair sobre justos e injustos. Portanto, sejam perfeitos como é perfeito o Pai de vocês que está no céu." (Mt 5,43-45.48). A observação do ritmo do sol e da chuva levaram Jesus e esta afirmação revolucionária: “Eu lhes digo amem os seus inimigos!” O mesmo vale para o convite de olhar os lírios do campo e as aves do céu (Mt 6,25-30). Esta surpreendente atitude contemplativa diante da natureza levou Jesus a criticar verdades aparentemente eternas. Seis vezes em seguida ele teve a coragem de corrigir publicamente a Lei de Deus: “Antigamente foi dito, mas eu digo...”. A descoberta feita na contemplação renovada da natureza tornou-se para ele uma luz muito importante para reler a história com outros olhos e descobrir nela luzes que antes não eram percebidas. Hoje está em andamento uma nova visão do universo. As descobertas da ciência a respeito da imensidão do macrocosmo e do microcosmo estão sendo fonte de uma nova contemplação do universo, Já está começando a crítica de muitas verdades aparentemente eternas.
 
Para um confronto pessoal
1) O escondido será revelado. Tem em mim algo do qual tenho medo de que seja revelado?
2) A contemplação dos pardais e das coisas da natureza levaram Jesus a atitudes novas e surpreendentes que revelavam a bondade gratuita de Deus. Tenho costume de contemplar a natureza?

terça-feira, 10 de outubro de 2023

12 de outubro - Nossa Senhora da Conceição Aparecida

Primeira Leitura (Est 5,1b-2;7,2b-3):
Ester revestiu-se com vestes de rainha e foi colocar-se no vestíbulo interno do palácio real, frente à residência do rei. O rei estava sentado no trono real, na sala do trono, frente à entrada. Ao ver a rainha Ester parada no vestíbulo, olhou para ela com agrado e estendeu-lhe o cetro de ouro que tinha na mão, e Ester aproximou-se para tocar a ponta do cetro. Então, o rei lhe disse: “O que me pedes, Ester; o que queres que eu faça? Ainda que me pedisses a metade do meu reino, ela te seria concedida”. Ester respondeu-lhe: “Se ganhei as tuas boas graças, ó rei, e se for de teu agrado, concede-me a vida — eis o meu pedido! — e a vida do meu povo — eis o meu desejo!”
 
Salmo Responsorial Sl 44(45),11-12a.12b-13.14-15a.15b-16 (R. 11.12a)
R. Escutai, minha filha, olhai, ouvi isto: que o Rei se encante com vossa beleza!
 
Escutai, minha filha, olhai, ouvi isto: “Esquecei vosso povo e a casa paterna! Que o Rei se encante com vossa beleza! Prestai-lhe homenagem: é vosso Senhor!
 
O povo de Tiro vos traz seus presentes, os grandes do povo vos pedem favores. Majestosa, a princesa real vem chegando, vestida de ricos brocados de ouro.
 
Em vestes vistosas ao Rei se dirige e as virgens amigas lhe formam cortejo; entre cantos de festa e com grande alegria, ingressam, então, no palácio real”.
 
Segunda Leitura (Ap 12,1.5.13a.15-16a): Apareceu no céu um grande sinal: uma mulher vestida do sol, tendo a lua debaixo dos pés e sobre a cabeça uma coroa de doze estrelas. 5E ela deu à luz um filho homem, que veio para governar todas as nações com cetro de ferro. Mas o filho foi levado para junto de Deus e do seu trono. Quando viu que tinha sido expulso para a terra, o dragão começou a perseguir a mulher que tinha dado à luz o menino. A serpente, então, vomitou como um rio de água atrás da mulher, a fim de a submergir. A terra, porém, veio em socorro da mulher.
 
Aleluia. Disse a mãe de Jesus aos serventes: “Fazei tudo o que ele disser!” Aleluia.
 
Evangelho (Jo 2,1-11): Naquele tempo, houve um casamento em Caná da Galileia. A mãe de Jesus estava presente. Também Jesus e seus discípulos tinham sido convidados para o casamento. Como o vinho veio a faltar, a mãe de Jesus lhe disse: “Eles não têm mais vinho”. Jesus respondeu-lhe: “Mulher, por que dizes isto a mim? Minha hora ainda não chegou”. Sua mãe disse aos que estavam servindo: “Fazei o que ele vos disser!”. Estavam seis talhas de pedra colocadas aí para a purificação que os judeus costumam fazer. Em cada uma delas cabiam mais ou menos cem litros. Jesus disse aos que estavam servindo: “Enchei as talhas de água!”. Encheram-nas até a boca. Jesus disse: “Agora tirai e levai ao mestre-sala!”. E eles levaram. O mestre-sala experimentou a água, que se tinha transformado em vinho. Ele não sabia de onde vinha, mas os que estavam servindo sabiam, pois eram eles que tinham tirado a água. O mestre-sala chamou então o noivo e lhe disse: “Todo mundo serve primeiro o vinho melhor e, quando os convidados já estão embriagados, serve o vinho menos bom. Mas tu guardaste o vinho bom até agora!” Este foi o início dos sinais de Jesus. Ele o realizou em Caná da Galileia e manifestou a sua glória, e seus discípulos creram nele.
 
Reflexão 
 
A primeira parte do Quarto Evangelho é comumente chamada “O Livro dos Sinais”, pois, o evangelista relata uma série de sete sinais que, passo por passo, revelam quem é Jesus, e qual é a missão d’Ele (embora algumas bíblias traduzam o termo grego por “milagre”, a tradução mais correta é: “Sinal”). O primeiro desses sinais aconteceu no contexto das bodas de Caná, o nosso texto de hoje. Como quase todo o Evangelho de João, o relato está carregado de simbolismos, onde pessoas, números e eventos funcionam simbolicamente, para nos levar além da superfície das coisas, em uma caminhada de descoberta sobre a pessoa de Jesus.
 
Um dos temas centrais do quarto evangelho é o da “hora” de Jesus. A “hora” não se refere à cronometria, mas à hora de glorificação de Jesus, por sua morte e ressurreição. Em resposta ao pedido feito por Maria (note que João nunca se refere a Ela pelo nome, mas pelo título “mulher”), usando de uma maneira um tanto estranha este termo para a mãe d’Ele, João quer indicar que Jesus rejeita uma esfera meramente humana de ação para Maria, para reservar para Ela um papel muito mais rico, ou seja, o da mãe dos seus discípulos. Maria somente vai aparecer mais uma vez neste evangelho - ao pé da cruz, onde Ela e o Discípulo Amado assumem um relacionamento de Filho e Mãe. Devemos lembrar que o Discípulo Amado simboliza a comunidade dos discípulos/as do Senhor.
 
Não devemos reduzir a ação da Maria no texto à de uma incomparável intercessora. Embora seja comum esta interpretação na devoção popular, não se sustenta do ponto de vista exegético. É melhor ver Maria aqui como discípula exemplar, pois embora a resposta de Jesus indique um distanciamento entre a sua expectativa e a visão d’Ele, Ela continua com confiança n’Ele e leva outros a acreditar nele: “Façam tudo o que Ele lhes disser”.
 
O simbolismo da água tornada vinho é também importante. Não era qualquer água - era a água da purificação dos judeus. Com essa história, João quer mostrar que doravante os ritos judaicos de purificação estão superados, pois a verdadeira purificação vem através de Jesus. Podemos entender isso como a mudança de uma prática religiosa baseada no medo do pecado, uma prática que excluía muita gente considerada impura, para uma nova relação entre Deus e a humanidade, a partir de Jesus. Assim, em Caná Jesus começa a substituir as práticas do judaísmo do Templo, o que vai continuar ao longo do Evangelho de João.
 
A quantia do vinho chama a atenção - 600 litros! O vinho em abundância era símbolo dos tempos messiânicos, e na tradição rabínica, a chegada do Messias seria marcada por uma colheita abundante de uvas. Assim João quer dizer que a expectativa messiânica se realiza em Jesus. E as talhas transbordantes simbolizam a graça abundante que Jesus traz.
 
A figura do mestre-sala é também simbólica, bem como a dos serventes. Aquele que devia saber a origem do vinho da festa, não o sabia, enquanto estes, sabiam. Assim, o mestre-sala representa os chefes do Templo que não sabiam a origem de Jesus enquanto os servos representam os discípulos que acreditaram n’Ele.
Fazendo comparação entre o vinho antigo e o novo, João quer reconhecer que a Antiga Aliança era boa, mas a Nova a superou. Os ritos e práticas judaicos, ligados à purificação e ao sacrifício, não têm mais sentido, pois uma nova era de relacionamento entre a humanidade e Deus começou em Jesus.
 
O ponto culminante do relato está em v. 11: “Foi em Caná que Jesus começou os seus sinais, e os seus discípulo acreditaram n’Ele”. A fé deles não é intelectual ou teórica, mas o seguimento concreto do Mestre, na formação de novos relacionamentos de amor. Passo por passo, o autor vai revelando Jesus através de sinais para que nós, os leitores, possamos “acreditar que Jesus é o Messias, o Filho de Deus. E para que, acreditando, tenhamos a vida em seu nome” (Jo 20, 31).
 
Para um confronto pessoal
1) Maria diz: “Fazei tudo o que ele vos disser”. Como estou colocando em prática estas palavras da Mãe de Deus?
2) Percebo os sinais de Deus na vida e no mundo? Sou um sinal de Deus para os outros?
 
“Com grande alegria rejubilo-me no Senhor, e minha alma exultará no meu Deus, pois me revestiu de justiça e salvação, como a noiva ornada de suas joias”.
 
Pe Wagner Augusto Portugal
 
O Brasil e o seu povo santo estão unidos, de norte a sul, de leste a oeste, para a grande festa de nossa augusta padroeira: a Virgem da Conceição, Aparecida das águas do Rio Paraíba, no vale do mesmo nome, no ano de 1717.
 
A devoção à Virgem Maria, depois da Fé Católica, é o maior legado que nossos colonizadores nos deixaram. “Em Portugal se conservará o dogma da fé”, predisse Nossa Senhora em Fátima, há mais de 200 anos após a aparição da Virgem Aparecida. No Brasil, por consequência, essa fé há-de ser sempre inabalável, pela forma sólida como sempre foi fundada no coração de nossos fiéis.
 
Poderia a Providência Divina ter, como sinal, conduzido às redes dos dedicados e sofridos pescadores do Paraíba uma cruz – símbolo da nossa fé; ou um ícone do Divino Redentor ou até de algum santo. Mas, não. É a imagem daquela que nos foi dada por Mãe, a Eva do Novo Tempo, numa expressão plácida, orante, imersa no diálogo com o Deus que a criou, como que meditando todas as maravilhas que lhe foi dado conhecer, que vem guiar a espiritualidade daquele povo sofrido, massacrado pelo poder exacerbado, pela injustiça, pela opressão.
 
Essa imagem da Virgem que se apresenta como ícone de veneração, de contemplação e de modelo tornou-se, com o passar do tempo, uma referência para os brasileiros – para o povo e para a nobreza. A similitude com o povo pobre, a cor negra, a simplicidade de sua escultura tem muito em comum com o povo brasileiro, na sua simplicidade, a ponto de ser consagrada como Rainha e Padroeira do Brasil e, por Decreto Pontifício, coroada como tal. Daí o 12 de outubro ser um dia de grande felicidade e de contentamento espiritual.
 
No majestoso Santuário Nacional de Nossa Senhora, na paulista Aparecida, ou nas catedrais, igrejas matrizes e filiais, capelanias e oratórios públicos de todo o imenso território nacional, os fiéis, precedidos de seus Pastores, louvam a Deus, por intermédio de sua Mãe que nos legou o mais simples e profundo modo de seguir a Jesus Cristo, o Redentor: “Fazei tudo o que Ele vos Disser!”.
 
Na solenidade de Nossa Senhora Aparecida a Sagrada Liturgia no-la apresenta como a intercessora de seu povo, mais que súditos ou vassalos, seus filhos amados, nós todos, brasileiros. Assim, a Primeira Leitura nos relata sobre a intervenção da rainha Éster junto ao Rei Assuero em favor do povo judeu, ao qual ela mesma pertencia. Ao mesmo tempo, menciona-se a graciosa beleza desta “flor do seu povo”. É, pois, a Senhora Aparecida a intercessora junto ao trono do Altíssimo, de pé, orante, insistente.
 
Ao meditarmos o relato sagrado, vêm-nos recordações importantes da vida cristã: como a ternura maternal de Maria, sua dedicação a Jesus, mulher de fé e seu serviço prestado a toda a humanidade. Em MARIA temos o mais perfeito exemplo do discípulo de Jesus, que sabe cumprir os mandamentos e fazer realizar a única vontade do Pai, que se concretiza na salvação do povo de Deus.
 
A Virgem Maria deve ser apresentada como o Modelo perfeito de fidelidade do ser humano para com Deus. Maria da fraternidade. Maria da acolhida. Maria da graça. Maria da partilha. Maria da misericórdia. Maria da graça santificante. Maria da generosidade. Maria do serviço. Maria, a Mãe da nova evangelização. Maria, a Mãe que zela pelos seus filhos.
 
Talvez aí esteja o motivo de sua manifestação por ocasião da visita do governador –general de São Paulo e Minas, o Conde de Assumar, em 1717, a Guaratinguetá. Na ocasião, os pescadores Domingos Garcia, João Alves e Felipe Pedroso teriam sido escalados para pescar os peixes que seriam servidos à refeição do ilustre visitante. Era uma sexta-feira e, conforme rígido costume da época, dia de abstinência de carne.
 
E os homens simples do Vale do Paraíba nada pescaram.
 
Quando já estavam quase desanimados, jogaram a rede e retiram uma imagem pequena de Nossa Senhora da Conceição, um pouco enegrecida pela água, sem a cabeça. Outro arremesso, veio a cabeça da imagem. Mais um arremesso, veio a pesca abundante. Deus abençoava, naquele momento, os três pescadores.
 
A imagem da Virgem da Conceição, feita de barro cozido, enegrecida pelas águas e pelo tempo, medindo 36 centímetros, foi levada para o culto divino.
 
Em 1745, foi construída uma capela no alto do Morro dos Coqueiros. Nascia, assim, a devoção à Virgem Aparecida, Mãe do Povo Brasileiro.
 
Em 1888, foi substituída a primitiva capela por uma igreja maior. Em 1894, a Igreja e a devoção a Nossa Senhora foram enriquecidas com a chegada dos primeiros Missionários Redentoristas que passaram a gerir o Santuário Nacional.
 
Desde 1953, a festa de Nossa Senhora Aparecida tem como dia de celebração o 12 de outubro. Desde 1930, Nossa Senhora Aparecida abençoa o povo brasileiro como sua Padroeira Nacional.

segunda-feira, 9 de outubro de 2023

Quarta-feira da 27ª semana do Tempo Comum

São João XXIII, papa
 
1ª Leitura (Jn 4,1-11):
Jonas ficou muito desgostoso e irritado, quando Deus perdoou aos ninivitas, e orou, dizendo: «Ah, Senhor! Não era isto que eu dizia, quando estava ainda na minha terra? Por isso me apressei a fugir para Társis, por saber que sois um Deus clemente e compassivo, lento para a ira, rico de misericórdia e sempre disposto a desistir do castigo. Mas agora, Senhor, tirai-me a vida, porque para mim é melhor morrer do que ficar vivo». O Senhor respondeu-lhe: «Terás razão para te irritares?». Jonas saiu de Nínive e instalou-se a oriente da cidade. Aí fez uma cabana e sentou-se à sua sombra, para ver o que acontecia à cidade. Então o Senhor Deus fez crescer um rícino, que se elevou por cima de Jonas, para lhe dar sombra à cabeça e o livrar do seu mau humor. Jonas ficou muito contente com o rícino. Mas no dia seguinte, ao romper da manhã, Deus mandou um verme, que roeu as raízes do rícino, e ele secou. Ao nascer do sol, Deus fez soprar do oriente um vento abrasador e o sol bateu em cheio na cabeça de Jonas, fazendo-o desmaiar. E Jonas tornou a pedir a morte, exclamando: «Para mim é melhor morrer do que ficar vivo». Então Deus disse a Jonas: «Terás razão para te irritares por causa do rícino?». Jonas respondeu: «Tenho razão de me irritar mortalmente». O Senhor disse-lhe: «Tu tens pena do rícino, que não te deu qualquer trabalho e não fizeste crescer, que nasceu numa noite e numa noite morreu. E Eu não devia ter pena da grande cidade de Nínive, onde há mais de cento e vinte mil pessoas que não sabem distinguir a mão direita da esquerda, além de grande número de animais?».
 
Salmo Responsorial: 85
R. Senhor, sois um Deus paciente e cheio de misericórdia.
 
Tende piedade de mim, Senhor, que a Vós clamo todo o dia. Alegrai a alma do vosso servo, porque a Vós, Senhor, elevo a minha alma.
 
Vós, Senhor, sois bom e indulgente, cheio de misericórdia para com todos os que Vos invocam. Ouvi, Senhor, a minha oração, atendei a voz da minha súplica.
 
Todos os povos que criastes virão adorar-Vos, Senhor, e glorificar o vosso nome, porque Vós sois grande e operais maravilhas, Vós sois o único Deus.
 
Aleluia. Recebestes o espírito de adopção filial; nele clamamos: «Abba, ó Pai». Aleluia.
 
Evangelho (Lc 11,1-4): Um dia, Jesus estava orando num certo lugar. Quando terminou, um de seus discípulos pediu-lhe: «Senhor, ensina-nos a orar, como também João ensinou a seus discípulos». Ele respondeu: «Quando orardes, dizei: Pai, santificado seja teu nome; venha o teu Reino; dá-nos, a cada dia, o pão cotidiano, e perdoa-nos os nossos pecados, pois nós também perdoamos a todo aquele que nos deve; e não nos introduzas em tentação».
 
«Senhor, ensina-nos a orar, como também João ensinou a seus discípulos»
 
Fr. Austin Chukwuemeka IHEKWEME (Ikenanzizi, Nigéria)
 
Hoje vemos como um dos discípulos lhe diz a Jesus: «Senhor, ensina-nos a orar, como também João ensinou a seus discípulos» (Lc 11,1). A resposta de Jesus: «Quando orardes, dizei: Pai santificado seja teu nome; venha o teu Reino; dá-nos a cada dia o pão cotidiano, e perdoa-nos os nossos pecados, pois nós também perdoamos a todo aquele que nos deve; e não nos introduzas em tentação» (Lc 11,2-4), pode ser resumida com uma frase: a correta disposição para a oração cristã é a disposição de uma criança diante do seu pai.
 
Vemos em seguida que a oração, segundo Jesus, é um trato do tipo pai-filho. Isto é, um assunto familiar baseado em uma relação de familiaridade e amor. A imagem de Deus como pai nos fala de uma relação baseada no afeto e na intimidade, e não no de poder e autoridade.
 
Rezar como cristãos supõe em uma situação em que vemos a Deus como pai e lhe falamos, como seus filhos: «Orar é falar com Deus. Mas, de que? -De que? Dele, de você: alegrias, tristezas, êxitos e fracassos, ambições nobres, preocupações diárias..., fraquezas! e ações de graças e petições: e Amor e desagravo. Em duas palavras: conhecer-lhe e conhecer você: tratar-se!» (São Josemaria).
 
Quando os filhos falam com seus pais prestam atenção em uma coisa: transmitir em palavras e linguagem corporal o que sentem no coração. Chegamos a ser melhores mulheres e homens de oração quando nosso trato com Deus se faz mais íntimo, como o de um pai com seu filho. Disso nos deixou como exemplo o próprio Jesus. Ele é o caminho.
 
E, se acode à Virgem, mestra de oração, que fácil lhe será! De fato, «a contemplação de Cristo tem em Maria seu modelo insuperável. O rosto do Filho lhe pertence de um modo especial (...). Ninguém se dedicou com a assiduidade de Maria à contemplação do rosto de Cristo» (João Paulo II).
 
Pensamentos para o Evangelho de hoje
«Não sabe como rezar? -Põe-te na presença de Deus, e assim que começares a dizer: "Senhor, não sei rezar...", certifica-te de que começaste a rezar» (São Josemaría)
 
«Pegue no Evangelho, leia uma pequena passagem, imagine o que aconteceu e discuta-o com Jesus. Desta forma terás os teus olhos fixos em Jesus e não na novela, por exemplo» (Francisco)
 
«Quando ora, Jesus já nos ensina a orar» (Catecismo da Igreja Católica, nº 2.607)
 
Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm.
 
* No Evangelho de hoje continua o relacionamento conflituoso entre Jesus e as autoridades religiosas da época.
Hoje, na igreja acontece o mesmo conflito. Numa determinada diocese, o bispo convocou os pobres a participar ativamente. Eles atenderam ao pedido e em grande número começaram a participar. Surgiu um grave conflito. Os ricos diziam que foram excluídos e alguns sacerdotes começaram a dizer: “O bispo só faz política e esquece o evangelho!”
 
*  Lucas 11,42: Ai de vocês, que deixam de lado a justiça e o amor. “Ai de vocês, fariseus, porque vocês pagam o dízimo da hortelã, da arruda e de todas as outras ervas, mas deixam de lado a justiça e o amor de Deus. Vocês deveriam praticar isso, sem deixar de lado aquilo”.  Esta crítica de Jesus contra os líderes religiosos daquela época pode ser repetido contra muitos líderes religiosos dos séculos seguintes, até hoje. Muitas vezes, em nome de Deus, insistimos em detalhes e esquecemos a justiça e o amor. Por exemplo, o jansenismo tornou árida a vivência da fé, insistindo em observâncias e penitências que desviaram o povo do caminho do amor. A irmã carmelita Santa Teresa de Lisieux foi criada nesse ambiente jansenista que marcava a França no fim do século XIX. Foi a partir de uma dolorosa experiência pessoal, que ela soube recuperar a gratuidade do amor de Deus como a força que deve animar por dentro a observância das normas. Pois, sem a experiência do amor, as observâncias fazem de Deus um ídolo.
 
A observação final de Jesus dizia: “Vocês deveriam praticar isso, sem deixar de lado aquilo”. Esta advertência  faz lembrar uma outra observação de Jesus que serve de comentário: "Não pensem que eu vim abolir a Lei e os Profetas. Não vim abolir, mas dar-lhes pleno cumprimento. Eu garanto a vocês: antes que o céu e a terra deixem de existir, nem sequer uma letra ou vírgula serão tiradas da Lei, sem que tudo aconteça. Portanto, quem desobedecer a um só desses mandamentos, por menor que seja, e ensinar os outros a fazer o mesmo, será considerado o menor no Reino do Céu. Por outro lado, quem os praticar e ensinar, será considerado grande no Reino do Céu. Com efeito, eu lhes garanto: se a justiça de vocês não superar a dos doutores da Lei e dos fariseus, vocês não entrarão no Reino do Céu" (Mt 5,17-20)
 
* Lucas 11,43: Ai de vocês, que gostam dos lugares de honra. “Ai de vocês, fariseus, porque gostam do lugar de honra nas sinagogas, e de serem cumprimentados em praças públicas”.  Jesus chama a atenção dos discípulos para o comportamento hipócrita de alguns fariseus. Estes tinham gosto em circular pelas praças com longas túnicas, receber as saudações do povo, ocupar os primeiros lugares nas sinagogas e os lugares de honra nos banquetes (cf. Mt 6,5; 23,5-7). Marcos acrescenta que eles gostavam de entrar nas casas das viúvas e fazer longas preces em troca de dinheiro! Pessoas assim vão receber um julgamento mais severo (Mc 12,38-40). Hoje acontece o mesmo na nossa igreja.
 
* Lucas 11,44: Ai de vocês, túmulos escondidos. “Ai de vocês, porque são como túmulos que não se veem, e os homens pisam sobre eles sem saber". Lucas modificou a comparação. Em Mateus se diz: “Vocês são como sepulcros caiados: por fora parecem bonitos, mas por dentro estão cheios de ossos de mortos e podridão! Assim também vocês: por fora, parecem justos diante dos outros, mas por dentro estão cheios de hipocrisia e injustiça” (Mt 23,27-28).  A imagem de “sepulcros caiados” fala por si e não precisa de comentário. Por meio dela, Jesus condena os que mantêm uma aparência fictícia de pessoa correta, mas cujo interior é a negação total daquilo que querem fazer aparecer para fora. Lucas fala em sepulcros escondidos: “Ai de vocês, porque são como túmulos que não se veem, e os homens pisam sobre eles sem saber". Quem pisa ou toca num sepulcro torna-se impuro, mesmo quando o sepulcro existe escondido debaixo do chão. A imagem é muito forte: por fora, o fariseu de sempre parece justo e bom, mas esse aspecto é um engano, pois dentro dele existe um sepulcro escondido que, sem o povo se dar conta, espalha um veneno que mata, comunica uma mentalidade que afasta de Deus, sugere uma compreensão errada da Boa Nova do Reino. Uma ideologia que faz do Deus vivo um ídolo morto!
 
*  Lucas 11,45-46: Crítica do doutor da lei e a resposta de Jesus. “Um especialista em leis tomou a palavra, e disse: "Mestre, falando assim insultas também a nós!"  Na resposta Jesus não voltou atrás, mas deixou bem claro que a mesma crítica valia também para os escribas: "Ai de vocês também, especialistas em leis! Porque vocês impõem sobre os homens cargas insuportáveis, e vocês mesmos não tocam essas cargas nem com um só dedo”. No Sermão da Montanha, Jesus expressou a mesma crítica que serve de comentário: “Os doutores da Lei e os fariseus têm autoridade para interpretar a Lei de Moisés. Por isso, vocês devem fazer e observar tudo o que eles dizem. Mas não imitem suas ações, pois eles falam e não praticam. Amarram pesados fardos e os colocam no ombro dos outros, mas eles mesmos não estão dispostos a movê-los, nem sequer com um dedo” (Mt 23,2-4). 
 
Para um confronto pessoal
1) A hipocrisia mantém uma aparência enganadora. Até onde atua em mim a hipocrisia? Até onde a hipocrisia atua na nossa igreja?
2) Jesus criticava os escribas que insistiam na observância disciplinar das coisas miúdas da lei como dízimo da hortelã, da arruda e de todas as ervas, e esqueciam de insistir no objetivo da lei que é a prática da justiça e do amor. Vale para mim esta crítica?

domingo, 8 de outubro de 2023

Terça-feira da 27ª semana do Tempo Comum

1ª Leitura (Jn 3,1-10):
A palavra do Senhor foi dirigida a Jonas nos seguintes termos: «Levanta-te, vai à grande cidade de Nínive e apregoa nela a mensagem que Eu te direi». Jonas levantou-se e foi a Nínive, conforme a palavra do Senhor. Nínive era uma grande cidade aos olhos de Deus; levava três dias a atravessar. Jonas entrou na cidade e caminhou durante um dia, apregoando: «Daqui a quarenta dias, Nínive será destruída». Os habitantes de Nínive acreditaram em Deus, proclamaram um jejum e revestiram-se de saco, desde o maior ao menor. Logo que a notícia chegou ao rei de Nínive, ele ergueu-se do trono e tirou o manto, cobriu-se de saco e sentou-se sobre a cinza. Depois foi proclamado em Nínive um decreto do rei e dos seus ministros, que dizia: «Os homens e os animais, os bois e as ovelhas, não provem alimento, não pastem nem bebam água. Os homens e os animais revistam-se de saco e clamem a Deus com vigor; afaste-se cada um do seu mau caminho e das violências que tenha praticado. Quem sabe? Talvez Deus reconsidere e desista, acalmando o ardor da sua ira, de modo que não pereçamos». Quando Deus viu as suas obras e como se convertiam do seu mau caminho, desistiu do castigo com que os ameaçara e não o executou.
 
Salmo Responsorial: 129
R. Se olhais para os nossos pecados, Senhor, quem poderá salvar-se?
 
Do profundo abismo chamo por Vós, Senhor, Senhor, escutai a minha voz. Estejam os vossos ouvidos atentos à voz da minha súplica.
 
Se tiverdes em conta as nossas faltas, Senhor, quem poderá salvar-se? Mas em Vós está o perdão, para Vos servirmos com reverência.
 
No Senhor está a misericórdia e com Ele abundante redenção. Ele há-de libertar Israel de todas as suas faltas.
 
Aleluia. Felizes os que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática. Aleluia.
 
Evangelho (Lc 10,38-42): Naquele tempo, Jesus entrou num povoado, e uma mulher, de nome Marta, o recebeu em sua casa. Ela tinha uma irmã, Maria, a qual se sentou aos pés do Senhor e escutava a sua palavra. Marta, porém, estava ocupada com os muitos afazeres da casa. Ela aproximou-se e disse: «Senhor, não te importas que minha irmã me deixe sozinha com todo o serviço? Manda, pois, que ela venha me ajudar!». O Senhor, porém, lhe respondeu: «Marta, Marta! Tu te preocupas e andas agitada com muitas coisas. No entanto, uma só é necessária. Maria escolheu a melhor parte e esta não lhe será tirada».
 
«Marta, Marta! Preocupas-te e andas agitada com muitas coisas. No entanto, uma só é necessária»
 
Rev. D. Josep RIBOT i Margarit (Tarragona, Espanha)
 
Hoje, como em cada dia, podemos aprender do Evangelho. Jesus, convidado na casa de Betânia, dá-nos uma lição de humanidade: Ele, que amava as pessoas, deixa-se amar, porque as duas coisas são importantes. Rejeitar as demonstrações de afecto, de Deus e dos outros, seria um erro grave, de consequências nefastas para a santidade.
 
Marta ou Maria? Mas..., por que confrontar aqueles que tanto se queriam, e que tanto queriam a Deus? Jesus amava Marta e Maria, e o seu irmão Lázaro, e ama-nos a cada um de nós.
 
No caminho da santidade não há duas almas iguais. Todos procuramos amar a Deus, mas com um estilo e personalidade próprios, sem imitar ninguém. O nosso modelo está em Cristo e na Virgem. Incomoda-nos a maneira como os outros se relacionam com Deus? Tentemos aprender da sua piedade pessoal.
 
«Senhor, não te importas que minha irmã me deixe sozinha no serviço? Manda, pois, que ela me venha ajudar!» (Lc 10,40). Servir os outros, por amor a Deus, é uma honra, não uma carga. Servimos com alegria, como a Virgem a sua prima Santa Isabel ou nas bodas de Caná, ou como Jesus, no lava-pés na Última Ceia?
 
«Marta, Marta, preocupas-te e andas agitada com muitas coisas. No entanto, uma só é necessária» (Lc 10,41-42). Não percamos a paz, nem o bom humor. E para isso, cuidemos a presença de Deus. «Ficai a saber: escondido nas situações mais comuns há um quê de santo, de divino, que toca a cada um de vós descobrir (…);ou sabemos encontrar Nosso Senhor na nossa vida corrente ou nunca O encontraremos» (São Josemaria).
 
«Maria escolheu a melhor parte, e essa não lhe será tirada» (Lc 10,42). Deus quer-nos felizes. Que a nossa Mãe do Céu nos ajude a experimentar a alegria da entrega.
 
Pensamentos para o Evangelho de hoje
«A alma, embalada pela contemplação, viverá com maior perfeição a vida ativa» (São Gregório o Grande)
 
«O espírito de oração restaura o tempo a Deus; escapa à obsessão de uma vida à qual sempre falta tempo; reencontra a paz das coisas necessárias e descobre a alegria de dons inesperados. Bons guias para este facto são as duas irmãs, Marta e Maria, que aprenderam de Deus a harmonia dos ritmos familiares» (Francisco)
 
«(...) O lar é, assim, a primeira escola de vida cristã e “uma escola de enriquecimento humano”. É aqui que se aprende a tenacidade e a alegria no trabalho, o amor fraterno, o perdão generoso e sempre renovado, e, sobretudo, o culto divino, pela oração e pelo oferecimento da própria vida» (Catecismo da Igreja Católica, nº 1.657)
 
Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm.
 
*  O evangelho de hoje traz o episódio de Marta e Maria, as duas irmãs de Lázaro.
Maria, sentada aos pés de Jesus escutava a sua palavra. Marta, na cozinha, ocupada nos afazeres domésticos. Esta família amiga de Jesus é mencionada somente nos evangelhos de Lucas (Lc 10,38-41) e de João (Jo 11,1-39; 12,2).
 
* Lucas 10,38: A casa amiga em Betânia.  “Enquanto caminhavam, Jesus entrou num povoado, e certa mulher, de nome Marta, o recebeu em sua casa”.  Jesus está a caminho para Jerusalém, onde será preso e morto. Ele chega na casa de Marta que o recebe. Lucas não diz que a casa de Marta ficava em Betânia. É João que nos faz saber que a casa de Marta ficava em Betânia, perto de Jerusalém. A palavra Betânia significa Casa da Pobreza. Era um povoado pobre no alto do Monte das Oliveiras, perto de Jerusalém. Quando ia a Jerusalém Jesus costumava passar na casa de Marta, Maria e Lázaro (Jo 12,2)
 
*  É impressionante verificar como Jesus entrava e vivia nas casas do povo: na casa de Pedro (Mt 8,14), de Mateus (Mt 9,10), de Jairo (Mt 9,23), de Simão o fariseu (Lc 7,36), de Simão o leproso (Mc 14,3), de Zaqueu (Lc 19,5). O oficial reconhece: “Não sou digno de que entres em minha casa” (Mt 8,8). O povo procurava Jesus na casa dele (Mt 9,28; Mc 1,33; 2,1; 3,20). Os quatro amigos do paralítico tiram o telhado para fazer baixar o doente dentro da casa onde Jesus estava ensinando o povo (Mc 2,4). Quando ia a Jerusalém, Jesus parava em Betânia na casa de Marta, Maria e Lázaro (12,2). No envio dos discípulos e discípulas a missão deles é entrar nas casas do povo e levar a paz (Mt 10,12-14; Mc 6,10; Lc 10,1-9).
 
*  Lucas 10,39-40: A atitude das duas irmãs. “Maria, sentou-se aos pés do Senhor, e ficou escutando a sua palavra. Marta estava ocupada com muitos afazeres”. Duas atitudes importantes, sempre presentes na vida dos cristãos: estar atenta à Palavra de Deus e estar atenta às necessidades das pessoas. Cada uma destas duas atitudes exige atenção total. Por isso, as duas vivem em tensão contínua que se expressa na reação de Marta: "Senhor, não te importas que minha irmã me deixe sozinha com todo o serviço? Manda que ela venha ajudar-me!". Expressa-se também na reação dos apóstolos diante do problema que surgiu na comunidade de Jerusalém. O serviço à mesa das viúvas estava tomando todo o tempo deles e já não podiam dedicar-se inteiramente ao anúncio da Palavra. Por isso, eles reuniram a comunidade e disseram: “Não é correto que deixemos a pregação da palavra de Deus para servir às mesas” (At 6,2).
 
*  Lucas 10,41-42: A resposta de Jesus. "Marta, Marta! Você se preocupa e anda agitada com muitas coisas; porém, uma só coisa é necessária, Maria escolheu a melhor parte, e esta não lhe será tirada."  Marta queria que Maria sacrificasse sua atenção à palavra para ajudá-la no serviço da mesa. Mas não se pode sacrificar uma atitude em favor da outra. O que é preciso é alcançar o equilíbrio. Não se trata de escolher entre vida contemplativa e vida ativa, como se aquela fosse melhor que esta. Trata-se de encontrar a justa distribuição das tarefas apostólicas e dos ministérios dentro da comunidade. Baseando-se nesta palavra de Jesus, os apóstolos pediram à comunidade que escolhesse sete diáconos (servidores). O serviço das mesas foi entregue aos diáconos e assim os apóstolos podiam continuar a sua atividade pastoral: “dedicar-se inteiramente à oração e ao serviço da Palavra” (At 6,4). Não se trata de encontrar nesta palavra de Jesus um argumento para dizer que a vida contemplativa nos mosteiros é superior à vida ativa dos que labutam na pastoral. As duas atividades têm a ver com o anúncio da Palavra de Deus. Marta não pode exigir que Maria sacrifique a atenção à palavra.  Bonita é a interpretação do místico medieval, o frade dominicano Mestre Eckhart que dizia: Marta já sabia trabalhar e servir às mesas sem prejudicar em nada sua atenção à presença e à palavra de Deus. Maria, assim ele diz, ainda estava aprendendo junto de Jesus. Por isso, ela não podia ser interrompida. Maria escolheu o que para ela era a melhor parte. A descrição da atitude de Maria diante de Jesus evoca a outra Maria, da qual Jesus dizia: “Felizes os que ouvem a Palavra e a colocam em prática” (Lc 11,27).
 
Para um confronto pessoal
1) Como você equilibra na sua vida o desejo de Maria e a preocupação de Marta?
2) À luz da resposta de Jesus para Marta, os apóstolos souberam encontrar uma solução para o problema da comunidade de Jerusalém. A meditação das palavras e gestos de Jesus me ajuda a iluminar os problemas da minha vida?