sábado, 10 de outubro de 2026

XXVIII Domingo do Tempo Comum

S. João XXIII, papa
 
1ª Leitura (Is 25,6-10a):
Sobre este monte, o Senhor do Universo há-de preparar para todos os povos um banquete de manjares suculentos, um banquete de vinhos deliciosos: comida de boa gordura, vinhos puríssimos. Sobre este monte, há-de tirar o véu que cobria todos os povos, o pano que envolvia todas as nações; destruirá a morte para sempre. O Senhor Deus enxugará as lágrimas de todas as faces e fará desaparecer da terra inteira o opróbrio que pesa sobre o seu povo. Porque o Senhor falou. Dir-se-á naquele dia: «Eis o nosso Deus, de quem esperávamos a salvação; é o Senhor, em quem pusemos a nossa confiança. Alegremo-nos e rejubilemos, porque nos salvou. A mão do Senhor pousará sobre este monte».
 
Salmo Responsorial: 22
R. Habitarei para sempre na casa do Senhor.
 
O Senhor é meu pastor: nada me falta. Leva-me a descansar em verdes prados, conduz-me às águas refrescantes e reconforta a minha alma.
 
Ele me guia por sendas direitas por amor do seu nome. Ainda que tenha de andar por vales tenebrosos, não temerei nenhum mal, porque Vós estais comigo: o vosso cajado e o vosso báculo me enchem de confiança.
 
Para mim preparais a mesa à vista dos meus adversários; com óleo me perfumais a cabeça e o meu cálice transborda.
 
A bondade e a graça hão de acompanhar-me todos os dias da minha vida, e habitarei na casa do Senhor para todo o sempre.
 
2ª Leitura (Fl 4,12-14.19-20): Irmãos: Sei viver na pobreza e sei viver na abundância. Em todo o tempo e em todas as circunstâncias, tenho aprendido a ter fartura e a passar fome, a viver desafogadamente e a padecer necessidade. Tudo posso n’Aquele que me conforta. No entanto, fizestes bem em tomar parte na minha aflição. O meu Deus proverá com abundância a todas as vossas necessidades, segundo a sua riqueza e magnificência, em Cristo Jesus. Glória a Deus, nosso Pai, pelos séculos dos séculos. Amém.
 
Aleluia. Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo ilumine os olhos do nosso coração, para sabermos a que esperança fomos chamados. Aleluia.
 
Evangelho (Mt 22,1-14): Jesus voltou a falar em parábolas aos sumos sacerdotes e aos anciãos do povo, dizendo: «O Reino dos Céus é como um rei que preparou a festa de casamento do seu filho. Mandou seus servos chamar os convidados para a festa, mas estes não quiseram vir. Mandou então outros servos, com esta ordem: ‘Dizei aos convidados: já preparei o banquete, os bois e os animais cevados já foram abatidos e tudo está pronto. Vinde para a festa! ’. Mas os convidados não deram a menor atenção: um foi para seu campo, outro para seus negócios, outros agarraram os servos, bateram neles e os mataram. O rei ficou irritado e mandou suas tropas matar aqueles assassinos e incendiar a cidade deles. Em seguida, disse aos servos: ‘A festa de casamento está pronta, mas os convidados não foram dignos dela. Portanto, ide às encruzilhadas dos caminhos e convidai para a festa todos os que encontrardes’. Os servos saíram pelos caminhos e reuniram todos os que encontraram, maus e bons. E a sala da festa ficou cheia de convidados. Quando o rei entrou para ver os convidados, observou um homem que não estava em traje de festa e perguntou-lhe: ‘Meu caro, como entraste aqui sem o traje de festa?’ Mas o homem ficou sem responder. Então o rei disse aos que serviam: ‘Amarrai os pés e as mãos desse homem e lançai-o fora, nas trevas! Ali haverá choro e ranger de dentes’. Pois muitos são chamados, mas poucos são escolhidos».
 
«Ide às encruzilhadas dos caminhos e convidai para a festa todos os que encontrardes»
 
Pe Julio César RAMOS González SDB (Mendoza, Argentina)
 
Hoje, Jesus nos mostra o rei (o Pai), convidando —por meio de seus “servos” (os profetas), ao banquete da aliança de seu Filho com a humanidade (a salvação). O fez primeiro com Israel, «mas estes não quiseram vir» (Mt 22,3). Diante da negação, o Pai não deixa de insistir: «Já preparei o banquete, (...) e tudo está pronto. Vinde para a festa!» (v.4). Mas esse desdém, de escárnio e morte de seus servos, suscita o envio das tropas, a morte daqueles homicidas e a queima da “sua” cidade (cf. Mt 22,6-7): Jerusalém.
 
Assim, por outros “servos”, (apóstolos) —enviados a irem pelas «encruzilhadas dos caminhos» (Mt 22,9). «Ide, pois, fazer discípulos entre todas as nações e batizai-os...» dirá mais tarde o Senhor Jesus em Mt 28,19— é que fomos convidados, o resto da humanidade, quer dizer, «todos os que encontraram, maus e bons. E a sala da festa ficou cheia de convidados» (Mt 22,10): A Igreja. Mesmo assim, a questão, não é somente estar na sala do casamento pelo convite, mas tem a ver também, e muito, com a dignidade que se tem («traje de festa» cf. v. 12). São Jerônimo comentou ao respeito: «Os trajes da festa são preceitos do Senhor e as obras cumpridas segundo a Lei e o Evangelho que são as vestiduras do homem novo». Ou seja, as obras da caridade devem ser acompanhadas pela fé.
 
Sabemos que a Mãe Tereza, todas as noites, saía às ruas de Calcutá a recolher moribundos para dar-lhes, com amor, uma boa morte: limpos, bem-vestidos e, se era possível, batizados. Certa vez comentou: «Não tenho medo de morrer, porque quando esteja diante do Pai, haverá tantos pobres que lhe entreguei com os trajes de casamento que saberão defender-me» Bem-aventurada ela! — Aprendamos, nós, a lição.
 
Pensamentos para o Evangelho de hoje
«Deus nos livre de ficarmos insensíveis à bondade de Cristo. Se Ele imitasse o nosso modo habitual de atuar, estaríamos perdidos. Por isso, já que nos tornámos seus discípulos, aprendamos a viver segundo o cristianismo» (Santo Inácio de Antioquia)
 
«A medicina prolongou o tempo do homem, mas será que temos tempo ou é o tempo que nos tem? A maioria, em todo o caso, não tem tempo para Deus, precisa do seu tempo para si, para os seus "negócios"...» (Bento XVI)
 
«Este mistério de comunhão bem-aventurada com Deus e com todos os que estão em Cristo ultrapassa toda a compreensão e toda a representação. A Sagrada Escritura fala-nos dele por imagens: vida, luz, paz, banquete de núpcias, vinho do Reino, casa do Pai, Jerusalém celeste, paraíso: aquilo que `nem os olhos viram, nem os ouvidos escutaram, nem jamais passou pelo pensamento do homem, Deus o preparou para aqueles que O amam´(1 Cor 2,9)» (Catecismo da Igreja Católica, nº 1.027)
 
Há pão e vinho sobre a mesa
 
* Continuando a dirigir-se aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos, mas estando presentes também os discípulos e o povo, Jesus conta mais uma parábola.
Desta vez desvia-se do tema da vinha, escolhe como personagem principal um rei que prepara as núpcias do seu filho, prepara um banquete e envia servos para avisar os convidados. A intenção da parábola é apresentar o Reino dos Céus.
 
* A parábola está composta por duas partes. A primeira é preenchida pelo chamamento dos convidados para a festa e a segunda pela situação de um homem que se introduziu na sala do banquete sem a veste própria. Poderíamos ver aqui duas parábolas distintas, mas tal como as apresenta Mateus, numa só, estão no mesmo cenário das núpcias do filho do rei.
 
* Na primeira parte, o rei, que prepara o banquete das núpcias do filho, faz três chamamentos. Os dois primeiros dirigem-se às mesmas pessoas, os previamente convidados que, na primeira vez manifestam não estar interessados em ir ao banquete e na segunda vez se ocupam com outros afazeres e há até quem trate mal e mate os enviados do rei. O terceiro convite é dirigido a outras pessoas, os que nunca seriam convidados, os que não esperam o convite e não estão preparados para a festa, mas, ainda assim, aceitam ir e enchem a sala do banquete. Estes últimos são “bons e maus”.
 
* A segunda parte da parábola conta o diálogo do rei com um intruso que se apresentou sem traje nupcial e sobre quem vai recair uma pesada decisão.
 
* Na parábola podemos identificar o rei como sendo Deus e Jesus o seu filho. Então, estamos a falar das bodas do Cordeiro. Trata-se de um banquete preparado antecipadamente e com os convites feitos e entregues a tempo de os convidados se poderem preparar para a festa.
 
* Em qualquer momento, aquele que receber um convite, pode preparar-se e participar porque não há tempo a perder. O rei não desiste perante as manifestações de recusa, insiste no convite que é para todos não exclui ninguém. Só fica de fora quem se autoexcluir, resposta que será sempre incompreensível, perante a disponibilidade e interesse do rei.
 
* O rei só não admite a agressão aos enviados. Para a recusa ao convite o rei tem misericórdia suficiente para não lhe impor um castigo, mas a morte dos seus servos vai contra o mandamento mais importante “não matarás”, como já tinha acontecido na parábola dos vinhateiros, e vão ser castigados.
 
* Os encontrados nas encruzilhadas e nos caminhos fazem pensar nos amigos de Jesus, aqueles com quem ele come e bebe, os pecadores, publicanos e prostitutas. Já não importa quem vem, mas que a sala fique cheia. E é aqui que começa a segunda parte da parábola que centra a atenção sobre um homem que não tem veste nupcial. Mas, todos foram apanhados de surpresa. São todos pobres, famintos, doentes e pecadores, como podem ter veste nupcial?
 
* Que falta a este homem, a quem o rei chama amigo, para que seja considerado sem traje nupcial? Parece que a única possibilidade é a comunhão com a alegria do rei partilhada por todos os presentes. Este homem entrou, mas não está na festa, vive só para si, vive dentro de si, não partilha das alegrias dos outros, não está em comunhão com o rei nem partilha da sua alegria. O seu único interesse é comer do banquete do rei, mas não fazer festa com ele e com os outros convidados, por isso, não pode permanecer ali, porque está a contaminar o ambiente como seu egoísmo.
 
* Jesus continua a chamar-nos à conversão do coração. É fácil construir um coração que exclui os outros pelas suas diferenças ou pelas suas fragilidades. É fácil construir um mundo onde não cabem todos e onde atitudes contrárias às que entendemos como certas também não podem ter lugar. É fácil impor comportamentos aos outros mesmo que nós nem sempre nos ajustemos à medida que lhes impomos. Com a exclusão de pessoas, excluímos também a Deus, porque ele acolhe a todos. É tão fácil construir uma vida sem Deus, de tal modo que o seu convite para a festa se torna indiferente.
 
* Jesus conta mais uma parábola às autoridades do seu tempo, príncipes dos sacerdotes, anciãos e fariseus, para os fazer pensar num Deus misericordioso que tem lugar na sua casa para todos e apenas aguarda o tempo propício para lhe dizermos sim, ao convite para o seu amor. De facto, somos muitos os que sentimos que o Senhor nos chama para o banquete, mas teimamos em recusar, encontrando sempre motivos, razões e desculpas para não aceitar. Muitos há que até se tornam agressivos perante a possibilidade do chamamento, insistência do Senhor e a inevitabilidade de aceitar o convite. Há homens e mulheres a quem Deus envia como mensageiros e que sofrem na pele a recusa daqueles a quem Deus convidou para entrar no seu banquete.
 
* Na mesma parábola, Jesus, recorda que a sala do banquete vai encher-se, seja com uns ou com outros, com os convidados de lista ou com os convidados de última hora, os improváveis, mas o banquete do reino dos céus vai realizar-se e vai ser alegria para todos os que nele participarem.
 
* Tal como na profecia de Isaías, o banquete de Jesus é para todos. Todos os povos, todas as nações, todos os que choram, todos os que vivem na tristeza e todos os que se sentem oprimidos. Deus liberta de todos os constrangimentos aqueles que aceitarem entrar na sua festa.
 
* Há uma exigência para todos, a comunhão com o coração misericordioso do Pai. Que ninguém se escandalize porque o Pai perdoa a todos, mesmo aos que entendemos não terem ou não merecerem perdão.
 
* Em todos, é sempre a abundância de Deus que preenche e ninguém encontra conforto em si mesmo. Para todos o conforto está no filho do Rei, Jesus. É nele, como diz Paulo, que tudo podemos.
 
* É importante encontrar espaço para todos e também que ninguém se autoexclua do banquete por ter preenchido a sua vida com outras ocupações que impedem aceitar o convite de Deus. Há sempre um dia em que todos os impedimentos são removidos e nesse dia poderemos entrar na festa.
 
* Na parábola Jesus alerta os que preenchem a suas vidas com preocupações deste mundo, o trabalho exagerado, a ocupação permanente, a inquietação constante, a agressividade e violência, a irritabilidade, que impedem reconhecer e valorizar o coração generoso do Senhor, o rei da parábola e do seu filho, Jesus.
 
* Mas alerta também os que aceitam o convite e entram na sala do banquete, mas só pensam em si próprios. No banquete do rei todos se sentam, todos comem, mas todos são chamados a adquirir os sentimentos que encontram no coração do Senhor. A disponibilidade para servir os outros, a capacidade de partilhar, estar ao serviço de todos, preocupar-se para que não fique ninguém de fora, para que todos tenham acesso à comida, não excluir ninguém, satisfazer-se com o essencial, sentir a alegria de se dar, transformar o coração numa sala como a do rei que tem espaço todos. Numa palavra, construir um coração universal, é adquirir a veste própria, é revestir-se de Cristo e dos sentimentos que nele se podem encontrar.
 
* Hoje somos nós os chamados ao monte do Senhor, para participar no banquete das núpcias do Cordeiro. Temos uma resposta para dar que não é feita de palavras, mas de atitudes que transforme a festa na verdadeira comunhão universal dos homens com Deus.

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