800 anos da morte de São
Francisco de Assis, diácono
1ª Leitura (Is 5,1-7): Vou
cantar, em nome do meu amigo, um cântico de amor à sua vinha. O meu amigo
possuía uma vinha numa fértil colina. Lavrou-a e limpou-a das pedras, plantou-a
de cepas escolhidas. No meio dela ergueu uma torre e escavou um lagar. Esperava
que viesse a dar uvas, mas ela só produziu agraços. E agora, habitantes de
Jerusalém, e vós, homens de Judá, sede juízes entre mim e a minha vinha: Que
mais podia fazer à minha vinha que não tivesse feito? Quando eu esperava que
viesse a dar uvas, porque é que apenas produziu agraços? Agora vos direi o que
vou fazer à minha vinha: vou tirar-lhe a vedação e será devastada; vou
demolir-lhe o muro e será espezinhada. Farei dela um terreno deserto: não
voltará a ser podada nem cavada, e nela crescerão silvas e espinheiros; e hei de
mandar às nuvens que sobre ela não deixem cair chuva. A vinha do Senhor do
Universo é a casa de Israel e os homens de Judá são a plantação escolhida. Ele
esperava retidão e só há sangue derramado; esperava justiça e só há gritos de
horror.
Salmo Responsorial: 79
R. A vinha do Senhor é a casa de Israel.
Arrancastes uma videira do Egipto, expulsastes as nações
para a transplantar. Estendia até ao mar as suas vergônteas e até ao rio os
seus rebentos.
Porque lhe destruístes a vedação, de modo que a vindime quem
quer que passe pelo caminho? Devastou-a o javali da selva e serviu de pasto aos
animais do campo.
Deus dos Exércitos, vinde de novo, olhai dos céus e vede,
visitai esta vinha. Protegei a cepa que a vossa mão direita plantou, o rebento
que fortalecestes para Vós.
Não mais nos apartaremos de Vós: fazei-nos viver e
invocaremos o vosso nome. Senhor Deus dos Exércitos, fazei-nos voltar, iluminai
o vosso rosto e seremos salvos.
2ª Leitura (Flp 4,6-9): Irmãos: Não vos inquieteis com
coisa alguma. Mas, em todas as circunstâncias, apresentai os vossos pedidos
diante de Deus, com orações, súplicas e ações de graças. E a paz de Deus, que
está acima de toda a inteligência, guardará os vossos corações e os vossos
pensamentos em Cristo Jesus. Quanto ao
resto, irmãos, tudo o que é verdadeiro e nobre, tudo o que é justo e puro, tudo
o que é amável e de boa reputação, tudo o que é virtude e digno de louvor é o
que deveis ter no pensamento. O que aprendestes, recebestes, ouvistes e vistes
em mim é o que deveis praticar. E o Deus da paz estará convosco.
Aleluia. Eu vos escolhi do mundo, para que vades e deis
fruto e o vosso fruto permaneça, diz o Senhor. Aleluia.
Evangelho (Mt 21,33-43): «Escutai
esta outra parábola: Certo proprietário plantou uma vinha, pôs uma cerca em
volta, cavou nela um lagar para pisar as uvas e construiu uma torre de guarda.
Ele a alugou a uns agricultores e viajou para o estrangeiro. Quando chegou o
tempo da colheita, ele mandou os seus servos aos agricultores para receber seus
frutos. Os agricultores, porém, agarraram os servos, espancaram a um, mataram a
outro, e a outro apedrejaram. Ele ainda mandou outros servos, em maior número
que os primeiros. Mas eles os trataram do mesmo modo. Por fim, enviou-lhes o
próprio filho, pensando: ‘A meu filho respeitarão’. Os agricultores, porém, ao
verem o filho, disseram entre si: ‘Este é o herdeiro. Vamos matá-lo e tomemos
posse de sua herança!’. Então o agarraram, lançaram-no fora da vinha e o
mataram. Pois bem, quando o dono da vinha voltar, que fará com esses agricultores?».
Eles responderam: «Dará triste fim a esses criminosos e arrendará a vinha a
outros agricultores, que lhe entregarão os frutos no tempo certo». Então, Jesus
lhes disse: «Nunca lestes nas Escrituras: ‘A pedra que os construtores
rejeitaram, esta é que se tornou a pedra angular. Isto foi feito pelo Senhor, e
é admirável aos nossos olhos’? Por isso vos digo: o Reino de Deus vos será
tirado e entregue a um povo que produza frutos».
«Por fim, enviou-lhes o próprio filho, pensando: ‘A meu
filho respeitarão’»
P. Jorge LORING SJ (Cádiz, Espanha)
Hoje contemplamos o mistério da recusa de Deus em geral, e
de Cristo em particular. Surpreender-nos a reiterada resistência dos homens
perante o amor de Deus.
Mas a parábola de hoje refere-se mais especificamente à
recusa dos judeus para com Cristo: «Por fim, enviou-lhes o próprio filho,
pensando: ‘A meu filho respeitarão’. Os agricultores, porém, ao verem o filho,
disseram entre si: ‘Este é o herdeiro. Vamos matá-lo e tomemos posse de sua
herança! ’. Então o agarraram, lançaram-no fora da vinha e o mataram» (Mt
21,37-39). Não é fácil entender isto: porque Cristo veio para redimir o mundo
inteiro, e os judeus esperam o seu “messias” particular que lhes dê, a eles, o
domínio de todo o mundo…
Quando estive na Terra Santa deram-me um prospeto turístico
de Israel sobre o local onde estão os judeus mais famosos da história: desde
Moisés, Gedeon e Josué até Bem Gurión, que foi o realizador do Estado de
Israel. Mas, pelo contrário, nesse prospeto não está Jesus Cristo. E Jesus foi
o judeu mais conhecido da história: hoje em dia conhecem-no no mundo inteiro, e
há mais de dois mil anos que morreu…
As grandes personagens, ao cabo do tempo, são admiradas, mas
não são amadas. Hoje em dia ninguém ama Cervantes ou Miguel Ângelo. Pelo
contrário, Jesus é o mais amado de toda a história. Homens e mulheres dão a
vida pelo Seu amor. Uns de repente no martírio, outros “gota a gota”, vivendo
apenas para Ele. São milhares e milhares no mundo inteiro.
E Jesus é quem mais influenciou a história. Valores que hoje
são aceites em todos os lugares, têm origem cristã. Não apenas isto, mas
podemos constatar que existe hoje uma aproximação a Jesus Cristo, também por
parte dos judeus (“nossos irmãos mais velhos na fé”, como dissera João Paulo
II). Peçamos a Deus, particularmente pela conversão dos judeus, pois este povo,
de grandes valores, convertido ao catolicismo, pode trazer em grande benefício
a toda a humanidade.
Pensamentos para o Evangelho de hoje
«Amai a Sagrada Escritura, e a sabedoria amar-vos-á; amai-a
com ternura, e ela guardar-vos-á; honrai-a, e recebereis as suas carícias. Que
ela seja para vós como os vossos colares e os vossos brincos» (São Jerónimo)
«Na Cruz, Jesus já não nos fala com comparações: é Ele
mesmo» (Bento XVI)
«(…) Diante do Sinédrio, à pergunta dos seus acusadores:
«Então, tu és o Filho de Deus?» Jesus respondeu: «É como dizeis, sou» (Lc 22,
70) (55). Já muito antes, Ele Se designara como «o Filho» que conhece o Pai
(56), diferente dos «servos» que Deus anteriormente enviara ao seu povo (57)
(…)» (Catecismo da Igreja Católica, nº 443)
A VINHA DE DEUS: FRUTOS DE JUSTIÇA, RESPONSABILIDADE E
ESPERANÇA
Irmãos e irmãs, queridos caminhantes na fé, neste XXVII
Domingo do Tempo Comum, somos convidados a deter o passo diante de uma das
imagens mais fortes e provocativas de todo o Evangelho. O texto que nos
interpela nesta liturgia traz uma verdade incômoda, ecoando com a força das
palavras que acabamos de contemplar: “A vinha não é tua!” (cf. Mt 21,33-43).
Olhamos para o mundo de hoje, marcado por tantas crises,
polarizações e uma profunda sede de sentido, e percebemos que o drama narrado
por Jesus na parábola dos vinhateiros homicidas não ficou trancado no passado.
Ele pulsa nas nossas ruas, nas nossas famílias e, muitas vezes, nos recantos
mais silenciosos do nosso próprio coração.
Deus plantou uma vinha perfeita. Ele investiu nela todo o
seu amor, cercou-a com carinho, colocou uma torre de proteção e sonhou com
frutos de justiça, paz e fraternidade. No entanto, o ser humano – tantas vezes
seduzido pela ilusão da posse – esquece-se de sua condição de administrador e
passa a agir como dono absoluto.
“Administras. Não és dono. Devolve o fruto. Abre a porta.
A vinha é de Deus, e Ele a entrega a quem de verdade a
cuida.”
Do Site da Ordem do Carmo em Portugal
* Esta parábola faz passar diante de nós toda a
história da salvação, mostra-nos o amor permanente e persistente de Deus, e
faz-nos ver também a qualidade do amor da resposta que somos hoje chamados a
dar.
* Às vezes, pensamos que esta parábola tão ameaçadora
vale para o povo do Antigo Testamento, mas não para nós, que somos o povo da
Nova Aliança, e que temos já a garantia de que Cristo estará sempre conosco. É
um erro. A parábola está, também, a falar de nós. Reproduzimos a seguir o que o
Papa Bento XVI disse no Angelus de 2 de Outubro de 2011 no qual se centrou no
evangelho proclamado neste Domingo
* O Evangelho deste domingo termina com uma admoestação
de Jesus, particularmente severa, dirigida aos chefes dos sacerdotes e aos
anciãos do povo: «O reino de Deus ser-vos-á tirado e será confiado a um povo
que produzirá os seus frutos» (Mt 21, 43). São palavras que fazem pensar na
grande responsabilidade de quem, em todas as épocas, é chamado a trabalhar na
vinha do Senhor, especialmente com uma função de autoridade, e estimulam a
renovar a fidelidade total a Cristo. Ele é «a pedra que os construtores rejeitaram»
(cf. Mt 21, 42), porque o julgaram inimigo da lei e perigoso para a ordem
pública; mas Ele mesmo, rejeitado e crucificado, ressuscitou, tornou-se a
«pedra angular» sobre a qual se podem apoiar com segurança absoluta as bases de
qualquer existência humana e do mundo inteiro. Desta verdade fala a parábola
dos vinhateiros infiéis, aos quais um homem confiou a sua vinha, para que a
cultivassem e recolhessem os frutos. O proprietário da vinha representa o
próprio Deus, enquanto a vinha simboliza o seu povo, assim como a vida que Ele
nos doa para que, com a sua graça e com o nosso compromisso, pratiquemos o bem.
Santo Agostinho comenta que «Deus nos cultiva como um campo para nos tornar
melhores» (Sermo 87, 1, 2: PL 38, 531). Deus tem um projeto para os seus
amigos, mas infelizmente a resposta do homem orienta-se com frequência para a
infidelidade, que se traduz em rejeição. O orgulho e o egoísmo impedem que se
reconheça e acolha até o dom mais precioso de Deus: o seu Filho unigénito. Com
efeito, quando «lhes enviou o seu próprio filho - escreve o evangelista Mateus
- [os vinhateiros] agarrando-o, lançaram-no fora da vinha e mataram-no» (Mt 21,
37.39). Deus entrega-se a si mesmo nas nossas mãos, aceita fazer-se mistério
imperscrutável de debilidade e manifesta a sua omnipotência na fidelidade a um
desígnio de amor que, no final, prevê contudo também a justa punição para os
malvados (cf. Mt 21, 41).
* Firmemente ancorados na fé à pedra angular que é
Cristo, permaneçamos n’Ele como o ramo que não pode dar fruto sozinho se não
permanecer na videira. Só n’Ele, por Ele e com Ele se edifica a Igreja, povo da
nova Aliança. A este propósito, o Servo de Deus Paulo VI escreveu: «O
primeiro fruto do aprofundamento da consciência da Igreja sobre si mesma é a
renovada descoberta da sua relação vital com Cristo. Aspecto notório,
fundamental, indispensável, mas nunca conhecido, meditado nem celebrado o
suficiente» (Enc. Ecclesiam suam, 6 de Agosto de 1964: AAS 56 [1964], 622)”.
* Deus não tem que abençoar um cristianismo estéril, do
qual não recebe os frutos que espera. Não tem que identificar-se com as
nossas incoerências, desvios e pouca fidelidade: “Passam os anos e, ao olhar
para trás, vemos que a nossa vida foi estéril. Não passamos por ela fazendo o
bem. Não melhoramos o mundo que nos deixaram. Não vamos deixar rastros. Fomos
prudentes e cuidamos de nós.
* Porém, para quê? O nosso único ideal não pode ser
atingir a velhice. Estamos a sufocar a vida por egoísmo, por covardia. Seria
terrível desperdiçar esse tesouro de amor que Deus nos deu” (Luis Espinal,
sacerdote jesuíta, assassinado em 1980 na Bolívia).
Também, agora, Deus quer que os trabalhadores indignos da
sua vinha sejam substituídos por um povo que produza frutos dignos do Reino de
Deus.
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