Santo Afonso Rodríguez, viúvo
e religioso
1ª Leitura (Flp 1,18b-26): Irmãos:
Contanto que Cristo seja anunciado, com segundas intenções ou com sinceridade,
eu me alegro e me alegrarei sempre. De facto, sei que isto servirá para minha
salvação, graças às vossas orações e à assistência do Espírito de Jesus Cristo.
Espero-o firmemente e tenho a certeza de que não serei confundido. Estou
absolutamente seguro, hoje como sempre, de que Cristo será glorificado no meu
corpo, quer eu viva quer eu morra. Porque, para mim, viver é Cristo e morrer é
lucro. Mas, se viver neste corpo mortal é útil para o meu trabalho, não sei o
que escolher. Sinto-me constrangido por este dilema: desejaria partir e estar
com Cristo, que seria muito melhor; mas é mais necessário para vós que eu
permaneça neste corpo mortal. Convencido disto, sei que ficarei e permanecerei
junto de vós, para o progresso e alegria da vossa fé. Assim espero que, ao
tornar a visitar-vos, tereis novos motivos de glória em Cristo Jesus.
Salmo Responsorial: 41
R. A minha alma tem sede do Deus vivo.
Como suspira o veado pelas correntes das águas, assim minha
alma suspira por Vós, Senhor. Minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo: Quando
irei contemplar a face de Deus?
A minha alma estremece ao recordar quando passava em cortejo
para o templo do Senhor, entre as vozes de louvor e de alegria da multidão em
festa.
Aleluia. Tomai o meu jugo sobre vós, diz o Senhor, e
aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração. Aleluia.
Evangelho (Lc 14,1.7-11): Num
dia de sábado, Jesus foi comer na casa de um dos chefes dos fariseus. Estes o
observavam. Jesus notou como os convidados escolhiam os primeiros lugares.
Então contou-lhes uma parábola: «Quando fores convidado para uma festa de
casamento, não ocupes o primeiro lugar. Pode ser que tenha sido convidado
alguém mais importante, e o dono da casa, que convidou os dois, venha a te
dizer: ‘Cede o lugar a ele’. Então irás cheio de vergonha ocupar o último
lugar. Ao contrário, quando fores convidado, vai sentar-te no último lugar.
Quando chegar então aquele que te convidou, ele te dirá: ‘Amigo, vem para um
lugar melhor!’ Será uma honra para ti, à vista de todos os convidados. Pois
todo aquele que se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado».
«Notou como os convidados escolhiam os primeiros
lugares....»
Rev. D. Josep FONT i Gallart (Getafe, Espanha)
je, você reparou no início deste Evangelho? Estes, os
fariseus, o observavam. E Jesus também observa: «Notou como os convidados
escolhiam os primeiros lugares» (Lc 14,1). Que jeito diferente de observar!
A observação, como todas as ações internas e externas, varia
conforme a motivação que a provoca, conforme as inseguranças internas, conforme
ao que existe no coração do observador. Os fariseus –como diz o Evangelho em
diversas partes- observam a Jesus para acusá-lo. E Jesus observa para ajudar,
para servir, para fazer o bem. E, como uma mãe atenciosa, aconselha: «Quando
fores convidado para uma festa de casamento, não ocupes o primeiro lugar» (Lc
13,8).
Jesus disse com palavras o que Ele é e o que leva em seu
coração: não procura ser honrado, mas honrar; não pensa em sua honra, mas na
honra do Pai. Não pensa nele, mas nos outros. Toda a vida de Jesus é uma
revelação de quem é Deus: “Deus é amor”.
Por isso, em Jesus se faz realidade –mais que em ninguém-
seu ensino: «Por isso Deus o exaltou à mais alta posição e lhe deu o nome que
está acima de todo nome» (Flp 2, 9-10).
Jesus é o Mestre em obras e palavras. Os cristãos queremos
ser seus discípulos. Somente podemos ter a conduta do Mestre se dentro do nosso
coração temos o que Ele tinha, se temos seu Espírito, o Espírito do amor.
Trabalhemos para nos abrir totalmente ao seu Espírito e para nos deixar tocar e
possuir completamente por Ele.
E isso sem pensar em ser “exaltados”, sem pensar em nós, mas
somente nele. «Mesmo que não existisse o céu, eu te amaria; mesmo que não
existisse o inferno, eu te temeria; igual como te quero, te quereria» (Autor
anônimo). Levados somente pelo amor.
Pensamentos para o Evangelho de hoje
«Oh, como é bela a alma humilde: do seu coração, como se
fosse um incensário, sobe um perfume extremamente agradável e, através das
nuvens, chega ao próprio Deus» (Santa Faustina Kowalska)
«O próprio Cristo assumiu o último lugar no mundo -a cruz- e
precisamente com esta humildade radical nos redimiu e nos ajuda constantemente»
(Bento XVI)
«Assim, a contemplação é a expressão mais simples do
mistério da oração. É um dom, uma graça; só pode ser acolhida na humildade e na
pobreza (…)» (Catecismo da Igreja Católica, nº 2.713)
Reflexão de São Josemaria Escrivá
* «Não é possível separar em Cristo o seu ser de
Deus-Homem e a sua função de Redentor». No
decurso da sua passagem pela terra, Jesus Cristo expressava em tudo o que
realizava a sua missão redentora. Qualquer atividade que levava a cabo estava
alinhada com o seu desejo de nos libertar do pecado. Irradiava continuamente o
desejo divino que tinha exposto, a partir de um texto de Isaías, no início da
sua atividade pública: «Ungiu-me para anunciar a Boa-nova aos pobres, enviou-me
a proclamar a libertação aos cativos e, aos cegos, a recuperação da vista; a
mandar em liberdade os oprimidos, a proclamar um ano favorável da parte do
Senhor» (Lc 4, 18-19).
* Este desejo redentor ficava especialmente patente nos
seus milagres e na sua pregação. Além disso, também se manifestava em ações
mais quotidianas, como uma conversa à volta de uma mesa ou uma caminhada com os
seus discípulos. Por isso, S. Josemaria dizia: «Toda a vida do Senhor me
apaixona». Ver Jesus como mais uma pessoa da realidade social da sua época pode
ajudar-nos a santificar essas circunstâncias: também esses momentos fazem parte
da nossa identidade de cristãos.
* S. Lucas conta-nos que num sábado Jesus foi «comer a
casa de um dos principais fariseus» (Lc 14,1). Podemos pensar que Cristo
aceitou o seu convite para poder anunciar a mensagem de salvação a essa pessoa
num contexto mais tranquilo que o da contínua azáfama do dia a dia. Seja num
banquete, diante de uma cena quotidiana ou ao contemplar uma dança infantil,
Jesus não deixa de lado a sua missão, pelo contrário, esses acontecimentos são
o lugar onde se concretiza. Dos relatos evangélicos, S. Josemaria extraía o
objetivo de qualquer apóstolo: «Esta é a tua tarefa de cidadão cristão:
contribuir para que o amor e a liberdade de Cristo presidam a todas as
manifestações da vida moderna: a cultura e a economia, o trabalho e o descanso,
a vida de família e a convivência social».
* No meio desse banquete, Jesus observa a atitude de
alguns que «escolhiam os primeiros lugares» (Lc 14,7). Decide então contar
uma parábola: «Quando fores convidado para um banquete, não ocupes o primeiro
lugar; não suceda que tenha sido convidado alguém mais digno do que tu, venha o
que vos convidou, a ti e ao outro, e te diga: “Cede o teu lugar a este”. Ficarias
envergonhado e passarias a ocupar o último lugar» (Lc 14, 8-9).
* Jesus começa o seu ensinamento fazendo referência ao
reconhecimento que procuravam aqueles que estavam à sua volta. Não
menospreza o desejo natural de se distinguir. Cristo é quem melhor sabe
descobrir a mão paterna de Deus nesses anseios humanos. Jesus, ao ler cada uma
das almas, apoia-se nas aspirações humanas e nobres que encontra para as elevar
e sobrenaturalizar. S. Josemaria também procurava sustentar os conselhos que
dava às pessoas que se aproximavam dele nos desejos que Deus punha no seu
coração: «Deixa que a tua alma se consuma em desejos... Desejos de amor, de
esquecimento, de santidade, de Céu... Não te detenhas a pensar se chegarás
alguma vez a vê-los realizados (como te sugerirá algum conselheiro sisudo…):
aviva-os cada vez mais, porque o Espírito Santo diz que lhe agradam os “varões
de desejos”».
* Jesus oferece uma maneira de elevar as pretensões de
singularização social: «Mas, quando fores convidado, senta-te no último lugar;
e assim, quando vier o que te convidou, há de dizer-te: “Amigo, vem mais para
cima”. Então, isto será uma honra para ti, aos olhos de todos os que
estiverem contigo à mesa» (Lc 14, 10). Cristo anima a não ficar unicamente com
os reconhecimentos humanos, sem dúvida legítimos e honrosos, mas a procurar o
reconhecimento divino, que é o único realmente valioso. E apesar de em muitas
ocasiões o nosso gesto poder passar despercebido para os outros, sabemos com
certeza que Deus o viu. Este é o caminho que nos conduz para Ele e, ao mesmo
tempo, nos leva «ao essencial da vida, ao seu verdadeiro significado, à razão
mais fiável pela qual vale a pena viver a vida. Só a humildade nos abre à
experiência da verdade, da alegria genuína, do conhecimento que conta». O
importante não é ser grande segundo a lógica do mundo, mas tornar-se pequeno,
simples, porque assim encontramos Cristo.
* O núcleo do ensinamento que Jesus está a dar em torno
deste banquete é a humildade: «Porque todo aquele que se exalta será humilhado,
e o que se humilha será exaltado» (Lc 14,11). Para entrar no Reino dos
céus, um dos primeiros requisitos é conhecer bem qual é a nossa condição; ou
seja, crescer na nossa verdadeira identidade como membros dessa nova família
que Jesus está a formar. Para isso é necessário entender o significado profundo
da humildade, «a virtude que nos ajuda a conhecer, simultaneamente, a nossa
miséria e a nossa grandeza».
* A humildade ajuda-nos a dar conta de que recebemos tudo
do Senhor. Pelo contrário, a soberba leva-nos a depositar a confiança nas
nossas próprias seguranças. Neste sentido, S. Josemaria falava de dois tipos de
orgulho: um mau, que ignora as nossas debilidades, e outro bom, que reconhece a
verdade e a ação do Senhor na sua própria vida. «É mau o endeusamento se cegar,
se não deixar ver com clareza que temos os pés de barro, já que a pedra de
toque para distinguir o endeusamento bom do mau é a humildade. Por isso, é bom,
na medida em que não se perde a consciência de que essa divinização é um dom de
Deus, graça de Deus; é mau, quando a alma se atribui a si mesma − às suas
obras, aos seus méritos, à sua excelência – a grandeza espiritual que lhe foi
dada»[7].
* Esse orgulho bom leva-nos a não rejeitar a nossa
miséria e a vê-la como a porta por onde deixamos entrar Deus. E essa é
precisamente a nossa grandeza: que Deus tenha querido, pela sua misericórdia,
fazer-nos muito valiosos aos seus olhos. A humildade, portanto, ajuda-nos a
assumir a pobreza do necessitado para sermos mendigos de Deus, para o deixar
entrar, para permitir que ele mude as nossas aparentes seguranças. Quando um
coração se sente satisfeito de si mesmo, «não tem espaço para a Palavra de
Deus, para amar os irmãos nem para gozar das coisas mais importantes da vida.
Deste modo priva-se dos bens maiores. Por isso, Jesus chama felizes aos pobres
em espírito, que têm o coração pobre, onde pode entrar o Senhor com a sua
incessante novidade»[8]. A Virgem, que só se preocupou com o reconhecimento
divino, colocando a sua segurança em Deus, adquiriu a verdadeira riqueza: «Hão
de chamar-me bem-aventurada todas as gerações» (Lc 1, 48).
Pensamentos para o Evangelho de hoje
1) «Oh, como é bela a alma humilde: do seu coração,
como se fosse um incensário, sobe um perfume extremamente agradável e, através
das nuvens, chega ao próprio Deus» (Santa Faustina Kowalska)
2) «O próprio Cristo assumiu o último lugar no mundo
-a cruz- e precisamente com esta humildade radical nos redimiu e nos ajuda
constantemente» (Bento XVI)
3) «Assim, a contemplação é a expressão mais simples
do mistério da oração. É um dom, uma graça; só pode ser acolhida na humildade e
na pobreza (…)» (Catecismo da Igreja Católica, nº 2.713
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