quinta-feira, 10 de setembro de 2026

XXIV Domingo Tempo Comum

São João Crisóstomo, bispo e doutor da Igreja
 
1ª Leitura (Si 27,33—28,9):
O rancor e a ira são coisas detestáveis, e o pecador é mestre nelas. Quem se vinga sofrerá a vingança do Senhor, que pedirá minuciosa conta de seus pecados. Perdoa a ofensa do teu próximo e, quando o pedires, as tuas ofensas serão perdoadas. Um homem guarda rancor contra outro e pede a Deus que o cure? Não tem compaixão do seu semelhante e pede perdão para os seus próprios pecados? Se ele, que é um ser de carne, guarda rancor, quem lhe alcançará o perdão das suas faltas? Lembra-te do teu fim e deixa de ter ódio; pensa na corrupção e na morte, e guarda os mandamentos. Recorda os mandamentos e não tenhas rancor ao próximo; pensa na aliança do Altíssimo e não repares nas ofensas que te fazem.
 
Salmo Responsorial: 102
R. O Senhor é clemente e compassivo, paciente e cheio de bondade.
 
Bendiz, ó minha alma, o Senhor e todo o meu ser bendiga o seu nome santo. Bendiz, ó minha alma, o Senhor e não esqueças nenhum dos seus benefícios.
 
Ele perdoa todos os teus pecados e cura as tuas enfermidades. Salva da morte a tua vida e coroa-te de graça e misericórdia.
 
Não está sempre a repreender, nem guarda ressentimento. Não nos tratou segundo os nossos pecados, nem nos castigou segundo as nossas culpas.
 
Como a distância da terra aos céus, assim é grande a sua misericórdia para os que O temem. Como o Oriente dista do Ocidente, assim Ele afasta de nós os nossos pecados.
 
2ª Leitura (Rom 14,7-9): Irmãos: Nenhum de nós vive para si mesmo e nenhum de nós morre para si mesmo. Se vivemos, vivemos para o Senhor, e se morremos, morremos para o Senhor. Portanto, quer vivamos quer morramos, pertencemos ao Senhor. Na verdade, Cristo morreu e ressuscitou para ser o Senhor dos vivos e dos mortos.
 
Aleluia. Dou-vos um mandamento novo, diz o Senhor: amai-vos uns aos outros como Eu vos amei. Aleluia.
 
Evangelho (Mt 18,21-35): Pedro dirigiu-se a Jesus perguntando: «Senhor, quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?» Jesus respondeu: «Digo-te, não até sete vezes, mas até setenta vezes sete vezes. O Reino dos Céus é, portanto, como um rei que resolveu ajustar contas com seus servos. Quando começou o ajuste, trouxeram-lhe um que lhe devia uma fortuna inimaginável. Como o servo não tivesse com que pagar, o senhor mandou que fosse vendido como escravo, junto com a mulher, os filhos e tudo o que possuía, para pagar a dívida. O servo, porém, prostrou-se diante dele pedindo: ‘Tem paciência comigo, e eu te pagarei tudo’. Diante disso, o senhor teve compaixão, soltou o servo e perdoou-lhe a dívida. Ao sair dali, aquele servo encontrou um dos seus companheiros que lhe devia uma quantia irrisória. Ele o agarrou e começou a sufocá-lo, dizendo: ‘Paga o que me deves’. O companheiro, caindo aos pés dele, suplicava: ‘Tem paciência comigo, e eu te pagarei’. Mas o servo não quis saber. Saiu e mandou jogá-lo na prisão, até que pagasse o que estava devendo. Quando viram o que havia acontecido, os outros servos ficaram muito sentidos, procuraram o senhor e lhe contaram tudo. Então o senhor mandou chamar aquele servo e lhe disse: ‘Servo malvado, eu te perdoei toda a tua dívida, porque me suplicaste. Não devias tu também ter compaixão do teu companheiro, como eu tive compaixão de ti? O senhor se irritou e mandou entregar aquele servo aos carrascos, até que pagasse toda a sua dívida. É assim que o meu Pai que está nos céus fará convosco, se cada um não perdoar de coração ao seu irmão».
 
«Senhor, quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar contra mim?»
 
Rev. P. Anastasio URQUIZA Fernández MCIU (Monterrey, México)
 
Hoje, no Evangelho, Pedro consulta Jesus sobre um tema muito concreto que continua guardando no coração de muitas pessoas: pergunta pelo limite do perdão. A resposta é que esse limite não existe: «Digo-te, não até sete vezes, mas até setenta vezes sete vezes» (Mt 18,22). Para explicar esta realidade, Jesus utiliza uma parábola. A pergunta do rei centra o tema da parábola: «Não devias tu também ter compaixão do teu companheiro, como eu tive compaixão de ti?» (Mt 18,33).
 
O perdão é um dom, uma graça que procede do amor e da misericórdia de Deus. Para Jesus, o perdão não tem limites, sempre e quando o arrependimento seja sincero e veraz. Mas exige abrir o coração à conversão, quer dizer, obrar com os outros segundo os critérios de Deus.
 
O pecado grave afasta-nos de Deus (cf. Catecismo da Igreja Católica n. 1470). O veículo ordinário para receber o perdão desse pecado grave da parte de Deus é o sacramento da penitência, e o ato do penitente que o coroa é a sua satisfação. As obras próprias que manifestam essa satisfação são o signo do compromisso pessoal —que o cristão assumiu perante Deus— de começar uma existência nova, reparando, na medida do possível, os danos causados ao próximo.
 
Não pode haver perdão do pecado sem algum tipo de satisfação, cujo fim é: 1. Evitar deslizar-se a outros pecados mais graves; 2. Recusar o pecado (pois as penas satisfatórias são como o feno e tornam o penitente mais cauto e vigilante); 3. Tirar com os atos virtuosos os maus hábitos contraídos pelo mau viver; 4. Assemelhar-nos a Cristo.
 
Como explicou S. Tomás de Aquino, o homem é devedor perante Deus, tanto pelos benefícios recebidos, como pelos pecados cometidos. Pelos primeiros deve tributar-lhe adoração e ação de graças; e pelo segundo, satisfação. O homem da parábola não esteve disposto a realizar o segundo, pelo que se tornou incapaz de receber o perdão.
 
Pensamentos para o Evangelho de hoje
«O perdão atesta que no mundo está presente o amor mais forte que o pecado» (São João Paulo II)
 
«Perante a gravidade do pecado, Deus responde com a plenitude do perdão. A misericórdia será sempre maior do que qualquer pecado, e ninguém pode colocar um limite ao amor de Deus que perdoa» (Francisco)
 
«(…) É aí, de facto, «no fundo do coração», que tudo se ata e desata. Não está no nosso poder deixar de sentir e esquecer a ofensa; mas o coração que se entrega ao Espírito Santo muda a ferida em compaixão e purifica a memória, transformando a ofensa em intercessão» (Catecismo da Igreja Católica, nº 2.843)
 
O perdão que liberta o coração
 
José Cristo Rey García Paredes

*
Há perguntas que parecem simples, mas escondem grandes dramas do coração humano. Pedro pergunta a Jesus: quantas vezes devemos perdoar? Sete vezes seriam suficientes? Pedro ainda pensa em limites, números e medidas. Jesus, porém, rompe toda lógica humana: “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete” (Mt 18,22).
 
* Jesus não está ensinando uma matemática do perdão. Está revelando que o amor cristão não pode viver aprisionado à contabilidade das ofensas. Quem ama segundo o Evangelho não pergunta constantemente: “Até quando devo perdoar?”, mas começa a compreender que também vive diariamente da misericórdia de Deus. A parábola do servo que devia uma quantia imensa torna essa verdade ainda mais profunda. A dívida era impagável. Diante da impossibilidade de pagar, o servo suplica, e o senhor, movido de compaixão, perdoa tudo. Não reduz a dívida. Não estabelece parcelas. Simplesmente a cancela. Aqui encontramos uma imagem poderosa da misericórdia divina. Deus não nos ama porque somos perfeitos. Ele nos ama porque é Pai. Conhece nossas quedas, nossas fragilidades, nossas escolhas equivocadas e, ainda assim, oferece-nos a possibilidade de recomeçar.
 
* “O Senhor é bondoso, compassivo, paciente e cheio de misericórdia.” (Sl 102,8) Entretanto, a parábola apresenta uma contradição dolorosa. O mesmo homem que acabara de experimentar uma misericórdia imensa encontra alguém que lhe devia uma pequena quantia. Em vez de repetir a misericórdia que recebeu, torna-se agressivo, impaciente e incapaz de perdoar.
 
* É justamente aqui que a Palavra de Deus toca nossas feridas: Quantas vezes também recebemos misericórdia, mas temos dificuldade de oferecê-la? Quantas vezes pedimos compreensão para nossas próprias falhas, mas somos implacáveis diante dos erros dos outros? Quantas famílias permanecem divididas por uma palavra dita há anos? Quantas amizades terminaram porque alguém preferiu conservar a ferida em vez de buscar a reconciliação?
 
* O ressentimento possui uma força silenciosa. Ele ocupa espaço dentro de nós, alimenta lembranças dolorosas e, pouco a pouco, transforma uma ferida em identidade. Às vezes, já não sabemos viver sem aquela mágoa. Por isso, perdoar não significa dizer que o mal foi correto. Não significa negar a dor, esquecer injustiças ou permitir novamente uma situação de violência. Perdoar significa não permitir que a ofensa tenha a última palavra sobre nossa vida. O cristão não perdoa porque o outro sempre merece. Perdoa porque ele próprio descobriu que vive da misericórdia.
 
Existe ainda uma palavra de Jesus que merece ser contemplada com especial atenção. No Pai-Nosso, rezamos: “Perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido.” (Mt 6,12). Essa oração é profundamente exigente. Quando pronunciamos essas palavras, colocamos nossa própria vida diante de Deus. Pedimos que o Pai nos trate com a mesma disposição de misericórdia que temos para com nossos irmãos.
 
* O Pai-Nosso, portanto, não é apenas uma oração que repetimos; é também um espelho que revela nosso coração. Podemos rezar com os lábios “perdoai-nos”, mas será que conseguimos abrir as mãos para perdoar? Podemos pedir paz a Deus enquanto alimentamos guerras interiores? Podemos pedir misericórdia enquanto construímos muros contra aqueles que nos feriram?
 
* A Palavra deste domingo nos convida a uma decisão espiritual: deixar de carregar aquilo que Deus nos chama a entregar. “Não guardes rancor contra o teu próximo”. (Lv 19,18) Vivemos tempos marcados por polarizações, julgamentos rápidos, discursos agressivos e relacionamentos frágeis. As redes sociais muitas vezes transformam pequenas divergências em grandes rupturas. Pessoas deixam de conversar, famílias se dividem, comunidades se ferem e até cristãos transformam diferenças em motivos para exclusão.
 
* Nesse cenário, o perdão cristão é profundamente contracultural. Perdoar é interromper o ciclo da violência. É escolher a misericórdia quando o mundo incentiva a vingança. É reconhecer que ninguém se salva sozinho e que todos necessitamos da graça. A estrada iluminada ao amanhecer simboliza o caminho da conversão e da misericórdia divina. As correntes rompidas refletem o perdão que liberta do rancor, enquanto a cruz e a luz convidam a caminhar na partilha e no amor fraterno.
 
* Talvez hoje o Senhor não esteja perguntando quem nos feriu. Talvez esteja perguntando: “O que você ainda carrega dentro de si?”  Há pessoas que precisam perdoar alguém. Outras precisam pedir perdão. Algumas precisam perdoar a si mesmas. E talvez existam situações em que o primeiro passo seja simplesmente pedir a Deus a graça de desejar perdoar.
 
* O perdão pode começar como uma pequena oração: “Senhor, eu ainda não consigo perdoar, mas quero aprender”. Essa oração já abre uma fresta para a graça. A misericórdia recebida torna-se misericórdia oferecida. Quem experimenta o perdão de Deus aprende, lentamente, a construir relações novas.
 
* Hoje, diante do altar, somos convidados a contemplar nossa própria dívida diante de Deus e a pequena dívida que ainda cobramos dos irmãos. Que o Senhor nos conceda um coração livre do ressentimento, capaz de reconciliar, recomeçar e amar. Porque, no Evangelho, o perdão não é fraqueza. É liberdade. E talvez a pergunta mais importante deste domingo não seja “quantas vezes devo perdoar?”, mas esta: quantas vezes Deus já me perdoou e ainda continua acreditando em mim? Que essa consciência transforme nosso coração.
 
“Sede misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso.” (Lc 6,36)

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