São João Crisóstomo,
bispo e doutor da Igreja
1ª Leitura (Si 27,33—28,9): O
rancor e a ira são coisas detestáveis, e o pecador é mestre nelas. Quem se
vinga sofrerá a vingança do Senhor, que pedirá minuciosa conta de seus pecados.
Perdoa a ofensa do teu próximo e, quando o pedires, as tuas ofensas serão
perdoadas. Um homem guarda rancor contra outro e pede a Deus que o cure? Não
tem compaixão do seu semelhante e pede perdão para os seus próprios pecados? Se
ele, que é um ser de carne, guarda rancor, quem lhe alcançará o perdão das suas
faltas? Lembra-te do teu fim e deixa de ter ódio; pensa na corrupção e na
morte, e guarda os mandamentos. Recorda os mandamentos e não tenhas rancor ao
próximo; pensa na aliança do Altíssimo e não repares nas ofensas que te fazem.
Salmo Responsorial: 102
R. O Senhor é clemente e compassivo, paciente e cheio de
bondade.
Bendiz, ó minha alma, o Senhor e todo o meu ser bendiga o
seu nome santo. Bendiz, ó minha alma, o Senhor e não esqueças nenhum dos seus
benefícios.
Ele perdoa todos os teus pecados e cura as tuas
enfermidades. Salva da morte a tua vida e coroa-te de graça e misericórdia.
Não está sempre a repreender, nem guarda ressentimento. Não
nos tratou segundo os nossos pecados, nem nos castigou segundo as nossas
culpas.
Como a distância da terra aos céus, assim é grande a sua
misericórdia para os que O temem. Como o Oriente dista do Ocidente, assim Ele afasta de nós os
nossos pecados.
2ª Leitura (Rom 14,7-9): Irmãos:
Nenhum de nós vive para si mesmo e nenhum de nós morre para si mesmo. Se
vivemos, vivemos para o Senhor, e se morremos, morremos para o Senhor.
Portanto, quer vivamos quer morramos, pertencemos ao Senhor. Na verdade, Cristo
morreu e ressuscitou para ser o Senhor dos vivos e dos mortos.
Aleluia. Dou-vos um mandamento novo, diz o Senhor:
amai-vos uns aos outros como Eu vos amei. Aleluia.
Evangelho (Mt 18,21-35): Pedro
dirigiu-se a Jesus perguntando: «Senhor, quantas vezes devo perdoar, se meu
irmão pecar contra mim? Até sete vezes?» Jesus respondeu: «Digo-te, não até
sete vezes, mas até setenta vezes sete vezes. O Reino dos Céus é, portanto,
como um rei que resolveu ajustar contas com seus servos. Quando começou o
ajuste, trouxeram-lhe um que lhe devia uma fortuna inimaginável. Como o servo
não tivesse com que pagar, o senhor mandou que fosse vendido como escravo,
junto com a mulher, os filhos e tudo o que possuía, para pagar a dívida. O
servo, porém, prostrou-se diante dele pedindo: ‘Tem paciência comigo, e eu te
pagarei tudo’. Diante disso, o senhor teve compaixão, soltou o servo e
perdoou-lhe a dívida. Ao sair dali, aquele servo encontrou um dos seus
companheiros que lhe devia uma quantia irrisória. Ele o agarrou e começou a
sufocá-lo, dizendo: ‘Paga o que me deves’. O companheiro, caindo aos pés dele,
suplicava: ‘Tem paciência comigo, e eu te pagarei’. Mas o servo não quis saber.
Saiu e mandou jogá-lo na prisão, até que pagasse o que estava devendo. Quando
viram o que havia acontecido, os outros servos ficaram muito sentidos,
procuraram o senhor e lhe contaram tudo. Então o senhor mandou chamar aquele
servo e lhe disse: ‘Servo malvado, eu te perdoei toda a tua dívida, porque me
suplicaste. Não devias tu também ter compaixão do teu companheiro, como eu tive
compaixão de ti? O senhor se irritou e mandou entregar aquele servo aos
carrascos, até que pagasse toda a sua dívida. É assim que o meu Pai que está
nos céus fará convosco, se cada um não perdoar de coração ao seu irmão».
«Senhor, quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar
contra mim?»
Rev. P. Anastasio URQUIZA Fernández MCIU (Monterrey, México)
Hoje, no Evangelho, Pedro consulta Jesus sobre um tema muito
concreto que continua guardando no coração de muitas pessoas: pergunta pelo
limite do perdão. A resposta é que esse limite não existe: «Digo-te, não até
sete vezes, mas até setenta vezes sete vezes» (Mt 18,22). Para explicar esta
realidade, Jesus utiliza uma parábola. A pergunta do rei centra o tema da
parábola: «Não devias tu também ter compaixão do teu companheiro, como eu tive
compaixão de ti?» (Mt 18,33).
O perdão é um dom, uma graça que procede do amor e da
misericórdia de Deus. Para Jesus, o perdão não tem limites, sempre e quando o
arrependimento seja sincero e veraz. Mas exige abrir o coração à conversão,
quer dizer, obrar com os outros segundo os critérios de Deus.
O pecado grave afasta-nos de Deus (cf. Catecismo da Igreja
Católica n. 1470). O veículo ordinário para receber o perdão desse pecado grave
da parte de Deus é o sacramento da penitência, e o ato do penitente que o coroa
é a sua satisfação. As obras próprias que manifestam essa satisfação são o
signo do compromisso pessoal —que o cristão assumiu perante Deus— de começar
uma existência nova, reparando, na medida do possível, os danos causados ao
próximo.
Não pode haver perdão do pecado sem algum tipo de
satisfação, cujo fim é: 1. Evitar deslizar-se a outros pecados mais graves; 2.
Recusar o pecado (pois as penas satisfatórias são como o feno e tornam o
penitente mais cauto e vigilante); 3. Tirar com os atos virtuosos os maus
hábitos contraídos pelo mau viver; 4. Assemelhar-nos a Cristo.
Como explicou S. Tomás de Aquino, o homem é devedor perante
Deus, tanto pelos benefícios recebidos, como pelos pecados cometidos. Pelos
primeiros deve tributar-lhe adoração e ação de graças; e pelo segundo,
satisfação. O homem da parábola não esteve disposto a realizar o segundo, pelo
que se tornou incapaz de receber o perdão.
Pensamentos para o Evangelho de hoje
«O perdão atesta que no mundo está presente o amor mais
forte que o pecado» (São João Paulo II)
«Perante a gravidade do pecado, Deus responde com a
plenitude do perdão. A misericórdia será sempre maior do que qualquer pecado, e
ninguém pode colocar um limite ao amor de Deus que perdoa» (Francisco)
«(…) É aí, de facto, «no fundo do coração», que tudo se ata
e desata. Não está no nosso poder deixar de sentir e esquecer a ofensa; mas o
coração que se entrega ao Espírito Santo muda a ferida em compaixão e purifica
a memória, transformando a ofensa em intercessão» (Catecismo da Igreja
Católica, nº 2.843)
O perdão que liberta o coração
José Cristo Rey García Paredes
* Há perguntas que parecem simples, mas escondem
grandes dramas do coração humano. Pedro pergunta a Jesus: quantas vezes devemos
perdoar? Sete vezes seriam suficientes? Pedro ainda pensa em limites, números e
medidas. Jesus, porém, rompe toda lógica humana: “Não te digo até sete vezes,
mas até setenta vezes sete” (Mt 18,22).
* Jesus não está ensinando uma matemática do perdão.
Está revelando que o amor cristão não pode viver aprisionado à contabilidade
das ofensas. Quem ama segundo o Evangelho não pergunta constantemente: “Até
quando devo perdoar?”, mas começa a compreender que também vive diariamente da
misericórdia de Deus. A parábola do servo que devia uma quantia imensa torna
essa verdade ainda mais profunda. A dívida era impagável. Diante da
impossibilidade de pagar, o servo suplica, e o senhor, movido de compaixão,
perdoa tudo. Não reduz a dívida. Não estabelece parcelas. Simplesmente a
cancela. Aqui encontramos uma imagem poderosa da misericórdia divina. Deus não
nos ama porque somos perfeitos. Ele nos ama porque é Pai. Conhece nossas
quedas, nossas fragilidades, nossas escolhas equivocadas e, ainda assim,
oferece-nos a possibilidade de recomeçar.
* “O Senhor é bondoso, compassivo, paciente e cheio de
misericórdia.” (Sl 102,8) Entretanto, a parábola apresenta uma contradição
dolorosa. O mesmo homem que acabara de experimentar uma misericórdia imensa
encontra alguém que lhe devia uma pequena quantia. Em vez de repetir a
misericórdia que recebeu, torna-se agressivo, impaciente e incapaz de perdoar.
* É justamente aqui que a Palavra de Deus toca nossas
feridas: Quantas vezes também recebemos misericórdia, mas temos dificuldade
de oferecê-la? Quantas vezes pedimos compreensão para nossas próprias falhas,
mas somos implacáveis diante dos erros dos outros? Quantas famílias permanecem
divididas por uma palavra dita há anos? Quantas amizades terminaram porque
alguém preferiu conservar a ferida em vez de buscar a reconciliação?
* O ressentimento possui uma força silenciosa. Ele
ocupa espaço dentro de nós, alimenta lembranças dolorosas e, pouco a pouco,
transforma uma ferida em identidade. Às vezes, já não sabemos viver sem aquela
mágoa. Por isso, perdoar não significa dizer que o mal foi correto. Não
significa negar a dor, esquecer injustiças ou permitir novamente uma situação
de violência. Perdoar significa não permitir que a ofensa tenha a última
palavra sobre nossa vida. O cristão não perdoa porque o outro sempre merece.
Perdoa porque ele próprio descobriu que vive da misericórdia.
Existe ainda uma palavra de Jesus que merece ser
contemplada com especial atenção. No Pai-Nosso, rezamos: “Perdoai-nos as
nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido.” (Mt 6,12). Essa
oração é profundamente exigente. Quando pronunciamos essas palavras, colocamos
nossa própria vida diante de Deus. Pedimos que o Pai nos trate com a mesma
disposição de misericórdia que temos para com nossos irmãos.
* O Pai-Nosso, portanto, não é apenas uma oração que
repetimos; é também um espelho que revela nosso coração. Podemos rezar com
os lábios “perdoai-nos”, mas será que conseguimos abrir as mãos para perdoar? Podemos
pedir paz a Deus enquanto alimentamos guerras interiores? Podemos pedir
misericórdia enquanto construímos muros contra aqueles que nos feriram?
* A Palavra deste domingo nos convida a uma decisão
espiritual: deixar de carregar aquilo que Deus nos chama a entregar. “Não
guardes rancor contra o teu próximo”. (Lv 19,18) Vivemos tempos marcados por
polarizações, julgamentos rápidos, discursos agressivos e relacionamentos
frágeis. As redes sociais muitas vezes transformam pequenas divergências em
grandes rupturas. Pessoas deixam de conversar, famílias se dividem, comunidades
se ferem e até cristãos transformam diferenças em motivos para exclusão.
* Nesse cenário, o perdão cristão é profundamente
contracultural. Perdoar é interromper o ciclo da violência. É escolher a
misericórdia quando o mundo incentiva a vingança. É reconhecer que ninguém se
salva sozinho e que todos necessitamos da graça. A estrada iluminada ao
amanhecer simboliza o caminho da conversão e da misericórdia divina. As
correntes rompidas refletem o perdão que liberta do rancor, enquanto a cruz e a
luz convidam a caminhar na partilha e no amor fraterno.
* Talvez hoje o Senhor não esteja perguntando quem nos
feriu. Talvez esteja perguntando: “O que você ainda carrega dentro de si?” Há pessoas que precisam perdoar alguém. Outras
precisam pedir perdão. Algumas precisam perdoar a si mesmas. E talvez existam
situações em que o primeiro passo seja simplesmente pedir a Deus a graça de
desejar perdoar.
* O perdão pode começar como uma pequena oração: “Senhor,
eu ainda não consigo perdoar, mas quero aprender”. Essa oração já abre
uma fresta para a graça. A misericórdia recebida torna-se misericórdia
oferecida. Quem experimenta o perdão de Deus aprende, lentamente, a construir
relações novas.
* Hoje, diante do altar, somos convidados a contemplar
nossa própria dívida diante de Deus e a pequena dívida que ainda cobramos dos
irmãos. Que o Senhor nos conceda um coração livre do ressentimento, capaz
de reconciliar, recomeçar e amar. Porque, no Evangelho, o perdão não é
fraqueza. É liberdade. E talvez a pergunta mais importante deste domingo
não seja “quantas vezes devo perdoar?”, mas esta: quantas vezes Deus já me
perdoou e ainda continua acreditando em mim? Que essa consciência
transforme nosso coração.
“Sede misericordiosos, como também vosso Pai é
misericordioso.” (Lc 6,36)
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