Santo Estêvão, rei da Hungria.
1ª Leitura (Is 56,1.6-7): Eis
o que diz o Senhor: «Respeitai o direito, praticai a justiça, porque a minha
salvação está perto e a minha justiça não tardará a manifestar-se. Quanto aos
estrangeiros que desejam unir-se ao Senhor para O servirem, para amarem o seu
nome e serem seus servos, se guardarem o sábado, sem o profanarem, se forem
fiéis à minha aliança, hei de conduzi-los ao meu santo monte, hei de enchê-los
de alegria na minha casa de oração. Os seus holocaustos e os seus sacrifícios
serão aceites no meu altar, porque a minha casa será chamada 'casa de oração
para todos os povos'».
Salmo Responsorial: 66
R. Louvado sejais, Senhor, pelos povos de toda a terra.
Deus Se compadeça de nós e nos dê a sua bênção, resplandeça
sobre nós a luz do seu rosto. Na terra se conhecerão os vossos caminhos e entre
os povos a vossa salvação.
Alegrem-se e exultem as nações, porque julgais os povos com
justiça e governais as nações sobre a terra.
Os povos Vos louvem, ó Deus, todos os povos Vos louvem. Deus
nos dê a sua bênção e chegue o seu temor aos confins da terra.
2ª Leitura (Rom
11,13-15.29-32): Irmãos: É a vós, os gentios, que eu falo: Enquanto eu
for Apóstolo dos gentios, procurarei prestigiar o meu ministério a ver se
provoco o ciúme dos homens da minha raça e salvo alguns deles. Porque, se da
sua rejeição resultou a reconciliação do mundo, o que será a sua reintegração
senão uma ressurreição de entre os mortos? Porque os dons e o chamamento de
Deus são irrevogáveis. Vós fostes outrora desobedientes a Deus e agora
alcançastes misericórdia, devido à desobediência dos judeus. Assim também eles
desobedecem agora, de modo que, devido à misericórdia obtida por vós, também
eles agora alcancem misericórdia. Efectivamente, Deus encerrou a todos na
desobediência, para usar de misericórdia para com todos.
Aleluia. Jesus proclamava o evangelho do reino e curava
todas as doenças entre o povo. Aleluia.
Evangelho (Mt 15,21-28): Partindo
dali, Jesus foi para a região de Tiro e Sidônia. Uma mulher cananeia, vinda
daquela região, pôs-se a gritar: «Senhor, filho de Davi, tem compaixão de mim:
minha filha é cruelmente atormentada por um demônio!». Ele não lhe respondeu
palavra alguma. Seus discípulos aproximaram-se e lhe pediram: Manda embora essa
mulher, pois ela vem gritando atrás de nós». Ele tomou a palavra: «Eu fui
enviado somente às ovelhas perdidas da casa de Israel». Mas a mulher veio
prostrar-se diante de Jesus e começou a implorar: «Senhor, socorre-me!». Ele
lhe disse: «Não fica bem tirar o pão dos filhos para jogá-lo aos cachorrinhos”.
Ela insistiu: «É verdade, Senhor; mas os cachorrinhos também comem as migalhas
que caem da mesa de seus donos!». Diante disso, Jesus respondeu: «Mulher,
grande é tua fé! Como queres, te seja feito!». E a partir daquela hora, sua
filha ficou curada.
«Senhor; mas os cachorrinhos também comem as migalhas que
caem da mesa de seus donos!»
Rev. D. Joan SERRA i Fontanet (Barcelona, Espanha)
Hoje contemplamos a cena da cananeia: uma mulher pagã, não
israelita, que tinha uma filha muito doente, endemoninhada, e que ouviu falar
de Jesus. Saiu ao seu encontro e aos gritos diz-lhe: «Senhor, filho de Davi,
tem compaixão de mim: minha filha é cruelmente atormentada por um demônio!» (Mt
15,22). Não lhe pede nada, apenas lhe conta a doença de que padece a sua filha,
confiando em que Jesus a curará.
Jesus finge-se surdo. Por quê? Provavelmente porque tinha
visto a fé daquela mulher e desejava que aumentasse. Ela continua suplicando,
de tal forma que até os discípulos pedem a Jesus que a mande embora. A fé desta
mulher manifesta-se, sobretudo, na sua humilde insistência, sublinhada pelas
palavras do discípulo: «Manda embora essa mulher, pois ela vem gritando atrás
de nós» (Mt 15,23).
A Mulher continua suplicando; não se cansa. O silêncio de
Jesus explica-se pois apenas veio para a casa de Israel. Apesar disso, depois
da ressurreição, dirá aos discípulos: «Ide por todo o mundo e proclamai a Boa
Nova a toda a criação» (Mc 16,15).
Este silêncio de Deus, por vezes, atormenta-nos. Quantas
vezes nos queixamos deste silêncio? Mas a cananeia prostra-se, põe-se de
joelhos. É a postura de adoração. Ele responde-lhe que não é correto tirar o
pão dos filhos e dá-lo aos cães. Mas ela responde: «É verdade, Senhor; mas os
cachorrinhos também comem as migalhas que caem da mesa de seus donos!» (Mt
15,26-27).
Esta mulher é muito espevitada. Não se zanga, não lhe parece
mal, e até lhe dá razão: «Tens razão, Senhor». Mas consegue pô-lo do seu lado.
É como se lhe dissesse: —Sou como um cão, mas um cão que está sob a proteção do
seu amo.
A cananeia oferece-nos uma grande lição: dá razão ao Senhor
que sempre a tem. —Não queiras ter razão quando te apresentares perante o
Senhor. Não te queixes nunca e, se te queixares, termina dizendo: «Senhor,
faça-se a tua vontade».
Pensamentos para o Evangelho de hoje
«Aprendamos a humildade, ou melhor, agarremo-la. Se ainda
não a possuímos, aprendamo-la. Se a possuímos, não a percamos» (Santo
Agostinho)
«O Senhor não fecha os olhos diante das necessidades dos
seus filhos e, se por vezes parece insensível às suas súplicas, é somente para
os pôr à prova e para refortalecer a sua fé» (Bento XVI)
«Do mesmo modo que Jesus ora ao Pai e Lhe dá graças antes de
receber os seus dons, assim também nos ensina esta audácia filial: `tudo o que
pedirdes na oração, acreditai que já o alcançastes´ (Mc 11, 24) (...). Assim
como Jesus Se entristece por causa da “falta de fé” dos seus conterrâneos (Mc
6, 6) e da «pouca fé» dos seus discípulos, também Se enche de admiração perante
a “grande fé” do centurião romano e da cananeia» (Catecismo da Igreja Católica,
nº 2.610)
Ó mulher, grande é a tua fé!
D. António Couto (Texto adaptado)
* Nos finais do século primeiro (o Evangelho segundo
Mateus aparece durante a década de oitenta), alguns judeu-cristãos ainda tinham
dificuldade em aceitar a entrada dos pagãos na Igreja de Jesus. Mateus
recorda-lhes, então, que para Jesus o que é decisivo não é a raça, a história,
a eleição, mas a adesão firme e convicta à proposta de salvação que, em Jesus,
Deus faz aos homens. O texto mostra que a proposta de Jesus é para todos. A
comunidade de Jesus é, verdadeiramente, uma comunidade universal. Aquilo que é
decisivo, no acesso à salvação, é a fé, isto é, a capacidade de aderir a Jesus
e à sua proposta de vida.
* O Evangelho deste 20º Domingo do Tempo Comum
serve-nos uma página absolutamente desarmante, retirada de Mateus 15,21-28.
Jesus abandona Genesaré, na costa ocidental do Mar da Galileia, e vai para a
região de Tiro e de Sidon, atual Líbano, terra pagã.
* Uma mulher e mãe «libanesa», carregada com o drama
da sua filha doente, situação verdadeira ontem como hoje, e que hoje bem
podemos estender à Palestina, à Síria e ao Iraque, vem implorar de Jesus, num
grito que lhe sai do fundo das entranhas, que lhe «faça graça» (Mateus 15,22),
isto é, que olhe para ela com bondade e ternura como uma mãe que dirige o seu
olhar embevecido para o bebé que embala nos braços.
* O texto diz que Jesus nem lhe respondeu (Mateus 15,23).
Mas a mulher não desiste, mas insiste e vai mais longe, prostrando-se agora
diante de Jesus (Mateus 15,25). O gesto significa orientar a sua vida toda para
Jesus, pôr-se totalmente na dependência de Jesus. A reação de Jesus é de uma
dureza extrema: afasta a pobre mulher e mãe duramente, catalogando-a na classe
dos cachorros [= pagãos] e não dos filhos [= judeus] (Mateus 15,26). Só para
estes é que ele veio.
* A mulher replica de modo admirável: é verdade, Senhor!
Os filhos estão reclinados à mesa, mas os cachorros comem debaixo da mesa as
migalhas que caem! (Mateus 15,27). «Mulher da grande fé!», replicou Jesus,
«faça-se como queres!» (Mateus 15,28).
* Note-se bem que é a única vez que Jesus fala da «grande
fé». E atribui-a a uma mulher e mãe «libanesa» cujo amor nunca se vergou
perante a dureza e as dificuldades da vida. Em contraponto com esta mulher da
«grande fé», note-se bem que Pedro é o homem da «pequena fé» (Mateus 14,31), do
mesmo modo que os discípulos são também os homens «da pequena fé» (Mateus 6,30;
8,26; 16,8; 17,20). Admirável ainda que Jesus diga a esta mulher que não
desiste, mas insiste e persiste: «faça-se como queres», um paralelo claro da
oração do «Pai Nosso»: «Faça-se a tua vontade» (Mateus 6,10)!
* O episódio é de uma crueza e de uma beleza inauditas.
Mas há ainda mais: é a insistência desta mulher e mãe «libanesa» que, por assim
dizer, obriga Jesus a passar mais uma fronteira: dos hebreus para os pagãos!
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