Bto. Pedro de Cesis, Bispo e 14º Prior General da nossa Ordem
1ª Leitura (Jer 28,1-17): No
quarto ano do reinado de Sedecias, rei de Judá, no quinto mês, Ananias, filho de
Azur, profeta natural de Gabaon, falou deste modo a Jeremias no templo do
Senhor, na presença dos sacerdotes e de todo o povo: «Assim fala o Senhor do
Universo, Deus de Israel: ‘Vou quebrar o jugo do rei de Babilónia. Dentro de
dois anos, farei voltar para este lugar todos os objetos do templo do Senhor,
que o rei de Babilónia, Nabucodosor, tirou deste lugar e levou para Babilónia.
Também farei regressar Jeconias, filho de Joaquim, rei de Judá, e todos os
cativos de Judá que foram para Babilónia, – diz o Senhor – porque vou quebrar o
jugo do rei de Babilónia’». Então o profeta Jeremias respondeu ao profeta
Ananias, na presença dos sacerdotes e de todo o povo, que estavam no templo do
Senhor: «Amén! O Senhor assim o faça. O Senhor realize as palavras que
profetizaste, fazendo voltar de Babilónia para este lugar os objetos do templo
do Senhor e todos os cativos. No entanto, escuta as palavras que vou dizer aos
teus ouvidos e aos ouvidos de todo o povo: Os profetas de outrora, que
existiram antes de mim e antes de ti, anunciaram para muitos países e reinos
poderosos a guerra, a desgraça e a peste. Mas o profeta que anuncia a
prosperidade só é reconhecido como verdadeiro enviado do Senhor quando se
realiza o que ele profetizou». Então o profeta Ananias tirou o jugo do pescoço
do profeta Jeremias e quebrou-o e disse na presença de todo o povo: «Assim fala
o Senhor: ‘Deste modo, dentro de dois anos, Eu quebrarei o jugo de Nabuconosor,
rei de Babilónia, tirando-o do pescoço de todas as nações’». E o profeta
Jeremias foi-se embora. Depois de Ananias ter quebrado o jugo que estava no
pescoço do profeta Jeremias, foi dirigida ao profeta Jeremias a palavra do
Senhor: «Vai dizer a Ananias: Assim fala o Senhor: Tu quebraste um jugo de
madeira, mas Eu farei em seu lugar um jugo de ferro. Porque assim fala o Senhor
do Universo, Deus de Israel: Vou pôr um jugo de ferro no pescoço de todas as
nações, para que sirvam Nabucodonosor, rei de Babilónia. Elas ficar-lhe-ão
submissas e Eu vou entregar-lhe até os animais do campo». O profeta Jeremias
disse ainda ao profeta Ananias: «Escuta, Ananias. O Senhor não te enviou e tu
levas este povo a confiar em mentiras. Por isso, assim fala o Senhor: Vou
expulsar-te da face da terra e morrerás ainda este ano, porque pregaste a
revolta contra o Senhor». E o profeta Ananias morreu no sétimo mês desse ano.
Salmo Responsorial: 118
R. Ensinai-me, Senhor, os caminhos da vossa lei.
Afastai-me do caminho da mentira e dai-me a graça de cumprir
a vossa lei. Não me tireis da boca a palavra da verdade, porque eu espero nos
vossos juízos.
Voltem-se para mim os que Vos temem e conhecem as vossas
ordens. Seja perfeito o meu coração em cumprir os vossos decretos, de modo que
eu não seja confundido.
Os pecadores esforçam-se por me perder, mas eu medito nas
vossas ordens. Não me tenho afastado dos vossos juízos, porque sois Vós quem me
ensina.
Aleluia. Rabbi, tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de
Israel. Aleluia.
Evangelho (Mt 14,13-21): Naquele tempo, ao ser informado
da morte de João, Jesus partiu dali e foi, de barco, para um lugar deserto, a
sós. Quando as multidões o souberam, saíram das cidades e o seguiram a pé. Ao
sair do barco, Jesus viu uma grande multidão. Encheu-se de compaixão por eles e
curou os que estavam doentes. Ao entardecer, os discípulos aproximaram-se dele
e disseram: «Este lugar é deserto e a hora já está adiantada. Despede as
multidões, para que possam ir aos povoados comprar comida!». Jesus porém lhes
disse: «Eles não precisam ir embora. Vós mesmos dai-lhes de comer!». Os
discípulos responderam: «Só temos aqui cinco pães e dois peixes». Ele disse:
«Trazei-os aqui». E mandou que as multidões se sentassem na relva. Então, tomou
os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos para o céu e pronunciou a
bênção, partiu os pães e os deu aos discípulos; e os discípulos os distribuíram
às multidões. Todos comeram e ficaram saciados, e dos pedaços que sobraram
recolheram ainda doze cestos cheios. Os que comeram foram mais ou menos cinco
mil homens, sem contar mulheres e crianças.
«Ergueu os olhos para o céu...»
Rev. D. Xavier ROMERO i Galdeano (Cervera, Lleida, Espanha)
Hoje, o Evangelho toca nossos "esquemas
mentais"... Por isso, hoje, como nos tempos de Jesus, podem surgir as
vozes dos prudentes para sopesar se vale a pena determinado assunto. Os
discípulos, ao ver que se fazia tarde e, como não sabiam como atender àquelas
pessoas reunidas em torno de Jesus, encontraram uma saída honrosa: «Que possam
ir aos povoados comprar comida!» (Mt 14,15). Não podiam esperar que seu Mestre
e Senhor contrariasse esse raciocínio, aparentemente tão prudente,
dizendo-lhes: «Vós mesmos dai-lhes de comer!» (Mt 14,16).
Um ditado popular diz: «Aquele que deixa Deus fora de suas
contas, não sabe contar». E é verdade, os discípulos —e nós também— não sabemos
contar, porque nos esquecemos frequentemente, de acrescentar o elemento de
maior importância na soma: Deus mesmo entre nós.
Os discípulos fizeram bem as contas; contaram com exatidão o
número de pães e peixes, mas ao dividi-los mentalmente entre tanta gente, eles
obtinham sempre um zero periódico; por isso optaram pelo realismo prudente: «Só
temos aqui cinco pães e dois peixes» (Mt 14,17). Não percebem que eles têm a
Jesus —verdadeiro Deus e verdadeiro homem— entre eles!
Parafraseando a São Josemaria, não nos seria mal recordar
aqui que: «os empreendimentos de apostolado, está certo —é um dever— que
consideres os teus meios terrenos (2 + 2 = 4). Mas não esqueças nunca! Que tens
de contar, felizmente, com outra parcela: Deus + 2 + 2...». O otimismo cristão
não é baseado na ausência de dificuldades, de resistências e de erros pessoais,
mas em Deus que nos diz: «Eis que estou convosco todos os dias, até o fim dos
tempos» (Mt 28,20).
Seria bom se você e eu, quando confrontados com as
dificuldades, antes de darmos uma sentença de morte à ousadia e ao otimismo do
espírito cristão, contássemos com Deus. Tomara que possamos dizer como São
Francisco, naquela oração genial: «Onde houver ódio que eu leve o amor», isto
é, onde as contas não baterem, que contemos com Deus.
Pensamentos para o Evangelho de hoje
«Possivelmente não nos encontremos em situação de dar muito,
mas sempre podemos dar a alegria que brota dum coração que ama a Deus» (Santa
Teresa de Calcutá)
«Esses poucos pães e peixes, partilhados e abençoados por
Deus, foram suficientes para todos. E atenção! Não é magia, mas é um 'sinal':
um sinal que convida a ter fé em Deus, Padre providente» (Francisco)
«A sagrada Comunhão do corpo e sangue de Cristo aumenta a
união do comungante com o Senhor, perdoa-lhe os pecados veniais e preserva-o
dos pecados graves. E uma vez que os laços da caridade entre o comungante e
Cristo são reforçados, a recepção deste sacramento reforça a unidade da Igreja,
corpo Místico de Cristo» (Catecismo da Igreja Católica, nº 1.416)
Reflexão
• O capítulo 14 de Mateus, que inclui a história da
multiplicação dos pães, propõe um itinerário que leva o leitor à descoberta
progressiva da fé em Jesus: desde a falta de fé dos conterrâneos de Jesus até o
reconhecimento do Filho de Deus passando pelo dom do pão. Os concidadãos de
Jesus estão surpreendidos com a sua sabedoria, mas não compreendem que ele age
através de suas obras. Tendo até mesmo um conhecimento direto da família de
Jesus, de sua mãe, irmãos e irmãs, não conseguem aceitar a Jesus, a não ser
apenas sua condição humana: é o filho do carpinteiro. Incompreendido em sua
terra natal, a partir de agora Jesus viverá entre o povo ao qual dedicará toda
a sua atenção e solidariedade, curando e alimentando as multidões.
• Dinâmica da narrativa. Mateus narra acuradamente o
episódio da multiplicação dos pães. O episódio está narrado entre duas
expressões de transição nas quais se diz que Jesus se retira "à
parte" das multidões, dos discípulos e da barca (vv.13-14; vv.22-23). O
versículo 13 não só serve como uma transição, mas também fornece o motivo pelo
qual Jesus está em um lugar deserto. Esta estratégia serve para especificar o
ambiente em que ocorre o milagre. O evangelista enfoca a história na multidão e
na atitude de Jesus a respeito da mesma.
• Jesus se comove em seu interior. No momento em que
chega, Jesus encontra uma multidão que o espera; ao ver as multidões se comove
e cura os seus doentes. É uma multidão "cansada e abatida como ovelhas sem
pastor" (9,36; 20,34) O verbo que expressa a compaixão de Jesus é
verdadeiramente expressivo: a Jesus "se lhe despedaça o coração",
corresponde ao verbo hebraico que expressa amor visceral da mãe. É o mesmo
sentimento que tinha Jesus diante do túmulo de Lázaro (Jo 11,38). Compaixão é o
aspecto subjetivo da experiência de Jesus, que se faz efetiva com o dom do pão.
• O dom do pão. O relato da multiplicação dos pães se
abre com uma expressão: "Caía a tarde" (v.15), que também introduz o
relato da Última Ceia (Mt 26,20) e do sepultamento de Jesus (Mt 27,57 ). À
tarde, então, Jesus convida os apóstolos para alimentar a multidão, em meio ao
deserto longe de vilas e cidades. Jesus e os discípulos estão diante de um
problema humano muito forte: alimentar a grande multidão que segue Jesus. Mas
eles não conseguem suprir as necessidades materiais da multidão, sem o poder de
Jesus. A resposta imediata dos discípulos é mandá-los para casa. Diante dos
limites humanos, Jesus intervém e realiza o milagre saciando a todos os que o
seguem. Dar de comer é aqui a resposta de Jesus, de seu coração que se faz em
pedaços diante de uma necessidade humana muito específica. O dom do pão não é
apenas suficiente para satisfazer a multidão, mas é tão abundante que se deve
recolher as sobras. No v. 19b parece que Mateus deu um significado eucarístico
ao episódio da multiplicação dos pães: "elevando os olhos ao céu,
abençoou-os. Partindo em seguida os pães, deu-os aos seus discípulos," o
papel da discípulos também fica muito evidente na função de mediação entre
Jesus e a multidão: "os discípulos distribuíram ao povo" (v. 19c). Os
gestos que acompanham o milagre são idênticos aos que Jesus adotará mais tarde
na "noite em que foi entregue": levanta os olhos, abençoa o pão e o
parte. Disto se deduz o valor simbólico do milagre: pode se considerar uma
antecipação da Eucaristia. Além disso, alimentar a multidão por parte de Jesus
é um "sinal" de que ele é o Messias e de que prepara um banquete de
festa para toda a humanidade. De Jesus, que distribuiu os pães, os discípulos
aprendem o valor da partilha. É um gesto simbólico que contém um fato real que
vai além do episódio mesmo e se projeta para o futuro: o dom da nossa
Eucaristia diária, em que revivemos aquele gesto do pão partido, é necessário
que seja reiterado ao longo do jornada.
Para um confronto pessoal
1. Você se esforça para fazer gestos de solidariedade
com aqueles que estão perto de você partilhando o caminho da vida? Diante dos
problemas concretos de seus amigos ou parentes, você sabe oferecer sua ajuda e
tua disponibilidade de colaborar para encontrar maneiras de resolver?
2. Jesus, antes de partir o pão, levanta os olhos
para o céu, você sabe agradecer ao Senhor pelo dom pão diário? Você sabe
compartilhar seus bens com os outros, especialmente com os pobres?
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