São Domingos de Gusmão, presbítero
1ª Leitura (Hab 1,12—2,4): Não
sois Vós, Senhor, desde os tempos antigos, o meu Deus, o meu Santo, o Imortal?
Estabelecestes os caldeus, Senhor, para exercerem a justiça e os consolidastes
como um rochedo para castigarem. Os vossos olhos são demasiado puros para verem
o mal e não podeis contemplar a opressão. Porque olhais então para os malvados,
porque ficais em silêncio, quando o ímpio devora o justo? Tratareis os homens
como os peixes do mar, ou como os répteis que não têm dono? O inimigo pesca-os
a todos no anzol, apanha-os com a rede, recolhe-os com a tarrafa e assim fica
alegre e satisfeito. Por isso oferece sacrifícios à sua rede e queima incenso à
sua tarrafa, pois fez com elas uma pesca abundante e alcançou alimento com
fartura. Continuará ele a utilizar a sua rede, matando os povos impiedosamente?
Ficarei no meu posto de sentinela, conservar-me-ei de pé sobre a muralha,
estarei alerta para ver o que o Senhor me dirá, como irá responder à minha
queixa. Então o Senhor respondeu-me: «Põe por escrito esta visão e grava-a em
tábuas com toda a clareza, de modo que a possam ler facilmente. Embora esta
visão só se realize na devida altura, ela há-de cumprir-se com certeza e não
falhará. Se parece demorar, deves esperá-la, porque ela há-de vir e não
tardará. Vede como sucumbe aquele que não tem alma reta; mas o justo viverá
pela sua fidelidade».
Salmo Responsorial: 9
R. Não abandonais, Senhor, aqueles que Vos procuram.
O Senhor é Rei para sempre, firmou o seu trono para julgar.
Ele julga a terra com justiça, governa os povos com retidão.
O Senhor é o refúgio dos oprimidos, o seu refúgio nas horas
de tribulação. Em Vós confiam os que conhecem o vosso nome, porque não
abandonais, Senhor, os que Vos procuram.
Cantai ao Senhor, que tem em Sião a sua morada, anunciai
entre os povos os seus feitos gloriosos. O Senhor lembra-Se do sangue derramado
e não esquece o clamor dos infelizes.
Aleluia. Jesus Cristo, nosso Salvador, destruiu a morte e
fez brilhar a vida por meio do Evangelho. Aleluia.
Evangelho (Mt 17,14-20): Naquele
tempo, alguém aproximou-se de Jesus, caiu de joelhos e disse: «Senhor, tem
compaixão do meu filho. Ele tem crises de epilepsia e passa mal. Muitas vezes
cai no fogo ou na água. Levei-o aos teus discípulos, mas eles não conseguiram
curá-lo!». Jesus tomou a palavra: «Ó geração sem fé e perversa! Até quando vou
ficar convosco? Até quando vou suportar-vos? Trazei aqui o menino». Então Jesus
repreendeu o demônio, e este saiu do menino, que ficou curado a partir dessa
hora. Então, os discípulos aproximaram-se de Jesus e lhe perguntaram em
particular: «Por que nós não conseguimos expulsar o demônio?». Ele respondeu:
«Por causa da fraqueza de vossa fé! Em verdade vos digo: se tiverdes fé do
tamanho de um grão de mostarda, direis a esta montanha: 'Vai daqui para lá', e
ela irá. Nada vos será impossível».
«Se tiverdes fé do tamanho de um grão de mostarda (...)
nada vos será impossível»
Rev. D. Fidel CATALÁN i Catalán (Terrassa, Barcelona,
Espanha)
Hoje, uma vez mais, Jesus dá a entender que a medida dos
milagres é a medida de nossa fé: «Eu vos asseguro: se tiverdes fé do tamanho de
um grão de mostarda, direis a esta montanha: Vai daqui para lá, e ela irá» (Mt
17,20). De fato, como fazem notar São Jerônimo e Santo Agostinho, na obra de
nossa santidade (algo que claramente supera as nossas forças) se realiza esse
deslocar-se o monte. Por tanto, os milagres aí estão e, se não vemos mais é
porque não lhe permitimos os fazer por nossa pouca fé.
Ante uma situação desconcertante e para todos
incompreensível, o ser humano reage de diversas maneiras. A epilepsia era
considerada como uma doença incurável e que sofriam as pessoas que se
encontravam possuídas por algum espírito maligno.
O pai daquela criatura expressa seu amor para o filho
buscando sua cura integral, e vai a Jesus. Sua ação é mostrada como um
verdadeiro ato de fé. Ele se ajoelha ante Jesus e o impreca diretamente com a
convicção interior de que sua petição será escutada favoravelmente. A maneira
de expressar a demanda mostra, ao mesmo tempo, a aceitação de sua condição e, o
reconhecimento da misericórdia Daquele que pode sentir compaixão dos outros.
Aquele pai menciona o fato de que os discípulos não puderam
jogar àquele demônio. Esse elemento introduz a instrução de Jesus fazendo notar
a pouca fé dos discípulos. Segui-lo a Ele, se fazer discípulo, colaborar em sua
missão pede uma fé profunda e bem fundamentada, capaz de suportar adversidades,
contratempos, dificuldades e incompreensões. Uma fé que é efetiva porque está
solidamente enraizada. Em outros fragmentos evangélicos, Jesus Cristo mesmo
lamenta a falta de fé de seus seguidores. A expressão «nada vos será
impossível» (Mt 17,20) expressa com toda a força a importância da fé no
seguimento do Mestre.
A Palavra de Deus põe na nossa frente a reflexão sobre a
qualidade de nossa fé e, a maneira como a aprofundamos e, nos lembra aquela
atitude do pai de família que se aproxima a Jesus e lhe roga com a profundidade
do amor de seu coração.
Pensamentos para o Evangelho de hoje
«Com uma confiança firme na palavra de Deus, arrancaríamos
uma montanha de sofrimentos; ao passo que, se a nossa fé vacilar, nem apenas
uma concha se moverá» (S. Tomás More)
«Cada um de nós, na sua vida quotidiana, pode dar testemunho
de Cristo, com a força de Deus, com a força da fé. E onde é que vamos buscar
essa força? Recebemo-la de Deus, na oração. A oração é o sopro da fé»
(Francisco)
«`caminhamos pela fé e não vemos claramente´ (2 Cor 5, 7)
(...). a fé pode ser posta à prova. O mundo em que vivemos parece muitas vezes
bem afastado daquilo que a fé nos diz (...)» (Catecismo da Igreja Católica, nº
164)
Reflexão
• Contexto. Esta passagem apresenta Jesus em sua
atividade de curar. Depois de sua permanência com os discípulos na região de Cesareia
de Filipe (16,13-28), Jesus vai a um alto monte e transfigurou-se diante de
três dos seus discípulos (17,1-10), e depois encontra pessoas (17,14.21) e de
novo se dirige para a Galileia (17,22). O que pensar destes deslocamentos
geográficos Jesus? Não é de excluir que eles poderiam ter um valor de ordem
geográfica, mas Mateus quer expressar a sua função num itinerário espiritual.
Em seu caminho de fé, a comunidade está sempre chamada a percorrer o itinerário
espiritual traçado pela vida de Jesus: partindo da Galileia de sua atividade
pública e desta até a sua ressurreição, atravessando o caminho da cruz. Um
itinerário espiritual em que a força da fé desempenha um papel essencial.
• A força da fé. Depois de sua transfiguração, Jesus e a
pequena comunidade dos seus discípulos se volta para as pessoas antes de
regressar para a Galileia (v. 22) e chegar a Cafarnaum (v. 24). Enquanto
Jesus está entre as pessoas, se aproxima dele um homem e pede com insistência
para que intervenha sobre o mal que mantém aprisionado o filho. A descrição
anterior à intervenção de Jesus é verdadeiramente precisa: é um caso de
epilepsia com todas as suas consequências patológicas em um nível psíquico. No
tempo de Jesus, esse tipo de doença era atribuído a forças do mal, e,
especificamente como obra de Satanás, o inimigo de Deus e do homem e, portanto,
a origem do mal e de todos os males. Neste caso, onde as forças do mal emergem
persistentemente acima da capacidade humana, os discípulos se sentem incapazes
de curar o jovem (vv.16-19) por causa de sua pouca fé (v. 20).
* Para o evangelista, este jovem epiléptico é símbolo
daqueles que desprezam o poder da fé (v. 20), aqueles que não estão cientes da
presença de Deus entre eles (v. 17). A presença de Deus em Jesus, que é o
Emmanuel, não é reconhecida; não é suficiente entender algo sobre Jesus, é
necessária a verdadeira fé. Jesus, depois de repreender as pessoas, manda
trazer o jovem: "Traga-o aqui" (v. 17), cura-o e o liberta no momento
em que o demônio grita. Não basta o milagre da cura de uma única pessoa, é também
necessário curar a fé incerta e fraca dos discípulos. Jesus se aproxima deles,
que estão confusos ou atordoados com sua impotência: “Por que não pudemos nós
expulsar este demônio?” (v. 20). A resposta de Jesus é clara: “Por causa de
vossa falta de fé.” Jesus pede uma fé capaz de mover montanhas do próprio
coração para se identificar com sua pessoa, com sua missão, com seu poder
divino.
* É verdade que os discípulos deixaram tudo para seguir a
Jesus, mas não puderam curar o menino epiléptico por causa de sua "pouca
fé". Não se trata falta de fé e sim de fé fraca, hesitante para os
céticos, com predomínio da desconfiança e da dúvida. É uma fé não se enraizada
plenamente no relacionamento com Cristo. Jesus se excede na linguagem, quando
ele diz: "Se tiverdes fé, como um grão de mostarda", poderão mover
montanhas; é uma exortação para deixar-se a conduzir na ação pelo poder da fé,
o que se torna especialmente forte nos momentos de provação e sofrimento, e
atinge a maturidade, quando não se escandaliza mais com o escândalo da cruz. A
fé pode fazer qualquer coisa, desde que se renuncie a confiar nas próprias
capacidades humanas, pode mover montanhas. Os discípulos e a comunidade
primitiva experimentaram que a incredulidade não se vence só através da oração
e do jejum, mas que é necessário unir-se à morte e ressurreição de Jesus.
Para um confronto pessoal
1) Na meditação desta passagem, observamos como os
discípulos se situam diante do epilético e diante de próprio Jesus. Você
descobre o seu caminho de relacionamento com Jesus e com outros pela força da
fé?
2) Jesus, desde a cruz, dá testemunho do Pai e o
revela totalmente. A palavra de Jesus que você tem meditado te pede uma adesão
total: Você se sente comprometido cada dia em mover as montanhas do seu coração
que se interpõem entre o seu egoísmo e a vontade de Deus
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