São João Eudes, presbítero
1ª Leitura (Ez 34,1-11): O
Senhor dirigiu-me a palavra, dizendo: «Filho do homem, profetiza contra os
pastores de Israel, profetiza e diz a esses pastores: Assim fala o Senhor Deus:
Ai dos pastores de Israel, que se apascentam a si mesmos! Não deviam os pastores
apascentar o rebanho? Vós, porém, bebeis o leite, vestis-vos com a lã, matais
as ovelhas mais gordas, mas não apascentais o rebanho. Não fortalecestes as
ovelhas débeis, não tratastes as que andavam doentes, nem curastes as que
estavam feridas. Não reconduzistes a ovelha tresmalhada, nem pro¬¬curastes a
que andava perdida, mas a todas dominastes com crueldade e violência. Elas
dispersaram-se por falta de pastor e na debandada tornaram-se presa de todos os
animais selvagens. As minhas ovelhas andam errantes por toda a parte, sobre as
montanhas e sobre as colinas, dispersaram-se por toda a superfície da terra.
Ninguém se interessa por elas, ninguém as procura. Por isso, pastores, escutai
a palavra do Senhor: Pela minha vida – diz o Senhor Deus – Eu vos asseguro:
Porque as minhas ovelhas, por falta de pastor, foram entregues à pilhagem e se
tornaram presa de todos os animais selvagens; porque os meus pastores não se
preocupam com o meu rebanho, mas apascentam-se a si mesmos, em vez de
apascentar as minhas ovelhas; por isso, pastores, escutai a palavra do Senhor:
Assim fala o Senhor Deus: Eu vou pedir contas aos pastores, vou exigir-lhes que
entreguem as minhas ovelhas; hei de impedi-los de apascentar o meu rebanho e os
pastores não mais se apascentarão a si mesmos. Salvarei as minhas ovelhas da
sua boca e elas deixarão de ser uma presa para eles. Assim fala o Senhor Deus:
Eu próprio irei em busca das minhas ovelhas, Eu próprio cuidarei do meu
rebanho».
Salmo Responsorial: 22
R. O Senhor é meu pastor: nada me faltará.
O Senhor é meu pastor: nada me falta. Leva-me a descansar em
verdes prados, conduz-me às águas refrescantes e reconforta a minha alma.
Ele me guia por sendas direitas por amor do seu nome. Ainda
que tenha de andar por vales tenebrosos, não temerei nenhum mal, porque Vós
estais comigo: o vosso cajado e o vosso báculo me enchem de confiança.
Para mim preparais a mesa à vista dos meus adversários; com
óleo me perfumais a cabeça e o meu cálice transborda.
A bondade e a graça hão de acompanhar-me todos os dias da
minha vida, e habitarei na casa do Senhor para todo o sempre.
Aleluia. A palavra de Deus é viva e eficaz, conhece os
pensamentos e intenções do coração. Aleluia.
Evangelho (Mt 20,1-16): Naquele
tempo, disse Jesus a seus discípulos esta parábola: «Pois o Reino dos Céus é
como o proprietário que saiu de madrugada para contratar trabalhadores para a
sua vinha. Combinou com os trabalhadores a diária e os mandou para a vinha. Em
plena manhã, saiu de novo, viu outros que estavam na praça, desocupados, e lhes
disse: ‘Ide também vós para a minha vinha. Eu pagarei o que for justo’. E eles
foram. Ao meio-dia e em plena tarde, ele saiu novamente e fez a mesma coisa.
Saindo outra vez pelo fim da tarde, encontrou outros que estavam na praça e
lhes disse: ‘Por que estais aí o dia inteiro desocupados?’. Eles responderam:
‘Porque ninguém nos contratou’. E ele lhes disse: ‘Ide vós também para a minha
vinha’. Ao anoitecer, o dono da vinha disse ao administrador: ‘Chama os
trabalhadores e faze o pagamento, começando pelos últimos até os primeiros!’.
Vieram os que tinham sido contratados no final da tarde, cada qual recebendo a
diária. Em seguida vieram os que foram contratados primeiro, pensando que iam
receber mais. Porém, cada um deles também recebeu apenas a diária. Ao receberem
o pagamento, começaram a murmurar contra o proprietário: ‘Estes últimos
trabalharam uma hora só, e tu os igualaste a nós, que suportamos o peso do dia
e o calor ardente’. Então, ele respondeu a um deles: ‘Companheiro, não estou
sendo injusto contigo. Não combinamos a diária? Toma o que é teu e vai! Eu
quero dar a este último o mesmo que dei a ti. Acaso não tenho o direito de
fazer o que quero com aquilo que me pertence? Ou estás com inveja porque estou
sendo bom?’. Assim, os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os
últimos».
«Assim, os últimos serão os primeiros, e os primeiros
serão os últimos»
Rev. D. Antoni CAROL i Hostench (Sant Cugat del Vallès,
Barcelona, Espanha)
Hoje, a Palavra de Deus nos convida a perceber que a
“lógica” divina vai muito além da lógica meramente humana. Enquanto nós homens
calculamos («Pensando que iam receber mais»: Mt 20,10), Deus —que é Pai
entranhável— simplesmente, ama («Ou estás com inveja porque estou sendo bom?» :
Mt 20,15.) E a medida do Amor é não ter medida: «Amo porque amo, amo para amar»
(São Bernardo).
Mas isso não torna a justiça inútil: «Eu pagarei o que for
justo» (Mt 20,4). Deus não é arbitrário e quer nos tratar como filhos
inteligentes: por isso é lógico que tenha “acordos” conosco. De fato, em outros
momentos, os ensinamentos de Jesus deixam claro que quem recebe mais também
será mais exigido (lembremos da parábola dos talentos). Enfim, Deus é justo,
mas a caridade não se desentende da justiça, mas sim, a supera. (cf. 1Cor
13,5).
Um ditado popular afirma que «a justiça por justiça é a pior
das injustiças». Felizmente para nós, a justiça de Deus —repitamos,
transbordante de seu Amor— supera nossos esquemas. Se unicamente se tratasse de
estrita justiça, nós, então, estaríamos pendentes de redenção. Além disso, não
teríamos nenhuma esperança de redenção. Em justiça estrita não mereceríamos
nenhuma redenção: simplesmente, ficaríamos despossuídos daquilo que se nos
tinha dado no momento da criação e que rejeitamos no momento do pecado original.
Examinemo-nos, portanto, como agimos nos julgamentos, comparações e cálculos
quando tratamos os demais.
Além disso, se falarmos de santidade, temos que partir da
base de que tudo é graça. A mostra mais clara é o caso de Dimas, o bom ladrão.
Inclusive a possibilidade de merecer diante de Deus, é também uma graça (algo
que nos é concedido gratuitamente). Deus é o amo, nosso «proprietário que saiu
de madrugada para contratar trabalhadores para a sua vinha» (Mt 20,1). A vinha
(quer dizer, a vida, o céu...) é dele; nós somos convidados, e não de qualquer
maneira: é uma honra poder trabalhar aí e, assim “ganhar” o céu.
Pensamentos para o Evangelho de hoje
«O Senhor chamou a todos quando estavam com disposição para
obedecer, o mesmo fez com o ladrão bom, a quem o Senhor chamou quando viu que
obedeceria. O Salvador no excluiu ninguém» (São João Crisóstomo)
«A parábola não foi transmitida para os trabalhadores de
outro tempo, mas para nós, que achamos que o "desemprego espiritual” —uma
vida sem fé e sem oração— é mais agradável que o serviço espiritual» (Bento
XVI)
«O homem é o autor; o centro e o fim de toda a vida
económica e social. O ponto decisivo da questão social é que os bens criados
por Deus para todos, cheguem de facto a todos, segundo a justiça e com a ajuda
da caridade» (Catecismo da Igreja Católica, nº 2.459)
Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm.
* O evangelho de hoje traz uma parábola que só é relatada
por Mateus. Ela não existe nos outros três evangelhos. Como em todas as
parábolas, Jesus conta uma história feita de elementos do dia a dia da vida do
povo. Ele retrata a situação social do seu tempo, na qual os ouvintes se
reconhecem. Mas ao mesmo tempo, na história desta parábola, acontecem coisas
que nunca acontecem na realidade da vida do povo. É que, ao falar do patrão,
Jesus pensa em Deus, seu Pai. Por isso, na história da parábola, o patrão faz
coisas surpreendentes que não acontecem no dia a dia da vida dos ouvintes. É
nesta atitude estranha do patrão, que deve ser procurada a chave para a
compreensão do mensagem da parábola.
* Mateus 20,1-7:
As cinco vezes que o patrão sai em busca de operários. "O Reino do Céu
é como um patrão, que saiu de madrugada para contratar trabalhadores para a sua
vinha. Combinou com os trabalhadores uma moeda de prata por dia, e os mandou
para a vinha” Assim começa a história que fala por si e nem precisaria de muito
comentário. No que segue, o patrão sai mais quatro vezes chamando operários
para trabalhar na sua vinha. Jesus alude ao terrível desemprego daquela época.
Alguns detalhes da história: (1) O próprio patrão sai pessoalmente cinco vezes
para contratar operários. (2) Na hora de contratar os operários, é só com o
primeiro grupo que ele acerta o salário: um denário por dia. Com os da nona
hora ele diz: Eu lhes pagarei o que for justo. Com os outros ele não acertou
nada. Apenas os contratou para trabalhar na vinha. (3) No fim do dia, na hora de acertar as contas com
os operários, o patrão manda que o administrador faça o serviço.
* Mateus 20,8-10: A estranha maneira de acertar as contas
no fim do dia. Quando chegou a tarde, o patrão disse ao administrador:
Chame os trabalhadores, e pague uma diária a todos. Comece pelos últimos, e
termine pelos primeiros. Aqui, na hora de acertar as contas, acontece algo
estranho que não acontece na vida comum. Parece a inversão das coisas. O
pagamento começa com os que foram contratados por último e que trabalharam
apenas uma única hora. O pagamento é o mesmo para todos: um denário, como tinha
sido combinado com os que foram contratados no começo do dia. No fim, chegaram
os que foram contratados primeiro, e pensavam que iam receber mais. No entanto,
cada um deles recebeu também uma moeda de prata. Por que o patrão faz isso? Você faria assim?
É aqui neste gesto surpreendente do patrão que está escondida a chave da mensagem
desta parábola.
* Mateus 20,11-12: A reação normal dos operários diante
da estranha atitude do patrão. Os últimos a receber o salário eram os que
foram contratados por primeiro. Estes, assim diz a história, ao receberem o
pagamento, começaram a resmungar contra o patrão e disseram: “Esses últimos
trabalharam uma hora só, e tu os igualaste a nós, que suportamos o cansaço e o
calor do dia inteiro!” É a reação normal
do bom senso. Creio que todos nós teríamos a mesma reação e diríamos a mesma
coisa ao patrão. Ou não?
* Mateus 20,13-16: A explicação surpreendente do Patrão
que fornece a chave da parábola. A resposta do patrão é esta: “Amigo, eu
não fui injusto com você. Não combinamos uma moeda de prata? Tome o que é seu,
e volte para casa. Eu quero dar também a esse, que foi contratado por último, o
mesmo que dei a você. Por acaso não tenho o direito de fazer o que eu quero com
aquilo que me pertence? Ou você está com ciúme porque estou sendo
generoso?” Estas palavras trazem a chave
que explica a atitude do patrão e aponta a mensagem que Jesus quer comunicar: (1) O
patrão não foi injusto, pois ele agiu de acordo com o que tinha sido combinado
com o primeiro grupo de operários: um denário por dia. (2) É
decisão soberano do patrão de dar aos últimos o mesmo que tinha sido combinado
com os da primeira hora. Estes não têm direito de reclamar. (3) Atuando
dentro da justiça, o patrão tem o direito de fazer o bem que ele quer com as
coisas que lhe pertencem. O operário da parte dele tem este mesmo direito. (4) A
pergunta final toca no ponto central: Ou você está com ciúme porque estou sendo
generoso?' Deus é diferente mesmo! Ele não cabe nos nossos pensamentos (Is
55,8-9).
* O pano de fundo da parábola é a conjuntura daquela
época, tanto de Jesus como de Mateus. Os operários da primeira hora são o
povo judeu, chamado por Deus para trabalhar em sua vinha. Eles sustentaram o
peso do dia, desde Abraão e Moisés, bem mais de mil anos. Agora, na undécima
hora, Jesus chama os pagãos para ir trabalhar na sua vinha e eles chegam a ter
a preferência do coração de Deus. “Assim, os últimos serão os primeiros, e os
primeiros serão os últimos”.
Para um confronto pessoal
1) Os da undécima hora chegam, levam vantagem e
recebem prioridade na fila diante da entrada do Reino de Deus. Quando você
espera duas horas numa fila e chega alguém que, sem mais, se coloca na frente
de você, você aceitaria? Dá para comparar as duas situações?
2) A ação de Deus ultrapassa nossos cálculos e nosso
jeito humano de atuar. Ele surpreende e às vezes incomoda. Isto já aconteceu
alguma vez na sua vida? Qual a lição que tirou?
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