sexta-feira, 24 de julho de 2026

XVII Domingo do Tempo Comum

S. Joaquim e Santa Ana, pais da Virgem Maria e Protetores secundários da Ordem
 
1ª Leitura (1Re 3,5.7-12):
Naqueles dias, o Senhor apareceu em sonhos a Salomão durante a noite e disse-lhe: «Pede o que quiseres». Salomão respondeu: «Senhor, meu Deus, Vós fizestes reinar o vosso servo em lugar do meu pai David e eu sou muito novo e não sei como proceder. Este vosso servo está no meio do povo escolhido, um povo imenso, inumerável, que não se pode contar nem calcular. Dai, portanto, ao vosso servo um coração inteligente, para governar o vosso povo, para saber distinguir o bem do mal; pois, quem poderia governar este vosso povo tão numeroso?». Agradou ao Senhor esta súplica de Salomão e disse-lhe: «Porque foi este o teu pedido, e já que não pediste longa vida, nem riqueza, nem a morte dos teus inimigos, mas sabedoria para praticar a justiça, vou satisfazer o teu desejo. Dou-te um coração sábio e esclarecido, como nunca houve antes de ti nem haverá depois de ti».
 
Salmo Responsorial: 118
R. Quanto amo, Senhor, a vossa lei!
 
Senhor, eu disse: A minha herança é cumprir as vossas palavras. Para mim vale mais a lei da vossa boca do que milhões em ouro e prata.
 
Console-me a vossa bondade, segundo a promessa feita ao vosso servo. Desçam sobre mim as vossas misericórdias e viverei, porque a vossa lei faz as minhas delícias.
 
Por isso, eu amo os vossos mandamentos, mais que o ouro, o ouro mais fino. Por isso, eu sigo todos os vossos preceitos e detesto todo o caminho da mentira.
 
São admiráveis as vossas ordens, por isso, a minha alma as observa. A manifestação das vossas palavras ilumina e dá inteligência aos simples.
 
2ª Leitura (Rom 8,28-30): Irmãos: Nós sabemos que Deus concorre em tudo para o bem daqueles que O amam, dos que são chamados, segundo o seu desígnio. Porque os que Ele de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que Ele seja o Primogénito de muitos irmãos. E àqueles que predestinou, também os chamou; àqueles que chamou, também os justificou; e àqueles que justificou, também os glorificou.
 
Aleluia. Bendito sejais, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque revelastes aos pequeninos os mistérios do reino. Aleluia.
 
Evangelho (Mt 13,44-52): «O Reino dos Céus é como um tesouro escondido num campo. Alguém o encontra, deixa-o lá bem escondido e, cheio de alegria, vai vender todos os seus bens e compra aquele campo». O Reino dos Céus é também como um negociante que procura pérolas preciosas. Ao encontrar uma de grande valor, ele vai, vende todos os bens e compra aquela pérola. O Reino dos Céus é ainda como uma rede lançada ao mar e que pegou peixes de todo tipo. Quando ficou cheia, os pescadores puxaram a rede para a praia, sentaram-se, recolheram os peixes bons em cestos e jogaram fora os que não prestavam. Assim acontecerá no fim do mundo: os anjos virão para separar os maus dos justos, e lançarão os maus na fornalha de fogo. Aí haverá choro e ranger de dentes. Entendestes tudo isso?». —«Sim», responderam eles. Então ele acrescentou: «Assim, pois, todo escriba que se torna discípulo do Reino dos Céus é como um pai de família, que tira do seu tesouro coisas novas e velhas».
 
«Um tesouro escondido num campo um negociante que procura pérolas preciosas»
 
 
Rev. D. Enric PRAT i Jordana (Sort, Lleida, Espanha)
 
Hoje, o Evangelho quer ajudar-nos a olhar para dentro, a encontrar algo escondido: «O Reino dos Céus é como um tesouro escondido num campo» (Mt 13,44). Quando falamos de tesouro referimo-nos a algo de valor excepcional, de apreciação máxima, não a coisas ou situações que, ainda que amadas, não deixam de ser fugazes e bijuteria barata, como as satisfações e prazeres temporais: aquilo com que tanta gente se extenua procurando no exterior, e com o que se desencanta uma vez encontrado e experimentado.
 
O tesouro que Jesus propõe está enterrado no mais profundo da nossa alma, no próprio núcleo da nossa alma. É o Reino de Deus. Consiste em encontrar-nos amorosamente, de maneira misteriosa, com a Fonte da vida, da beleza, da verdade e do bem, e em permanecer unidos à mesma Fonte até que, cumprido o tempo da nossa peregrinação, e livres de toda a bijuteria inútil, o Reino do céu que procuramos no nosso coração e que cultivamos na fé e no amor, se abra como uma flor e apareça o brilho do tesouro escondido.
 
Alguns, como São Paulo ou o próprio bom ladrão, encontraram-se subitamente com o Reino de Deus ou de maneira inesperada, porque os caminhos do senhor são infinitos, mas normalmente, para chegar a descobrir o tesouro, há que procurá-lo intencionalmente: «O Reino dos Céus é também como um negociante que procura pérolas preciosas» (Mt 13,45). Talvez este tesouro só seja encontrado por aqueles que não se dão por satisfeitos facilmente, pelos que não se contentam com pouca coisa, pelos idealistas, pelos aventureiros.
 
Na ordem temporal, dos inquietos e inconformados dizemos que são pessoas ambiciosas, e no mundo do espírito, são os santos. Eles estão dispostos a vender tudo para comprar o campo, como diz São João da Cruz: «Para chegar a possuir tudo, não queiras possuir algo em nada»
 
Pensamentos para o Evangelho de hoje
«Considerem, meus filhos: o tesouro do homem cristão não está na terra, mas no céu. Portanto, o nosso pensamento deve estar sempre orientado para onde está o nosso tesouro» (São João Mª Vianney)
 
«A pessoa de Jesus é o tesouro escondido, é a pérola de grande valor. Ele é a descoberta fundamental, que pode dar um rumo decisivo à nossa vida, enchendo-a de sentido» (Francisco)
 
«(…) A fé dos fiéis é a fé da Igreja recebida dos Apóstolos, tesouro de vida que se enriquece na medida em que é partilhada» (Catecismo da Igreja Católica, nº 949)
 
«Por isso, todo o escriba que se torna discípulo do Reino dos Céus é semelhante a um pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e coisas velhas».
 
Fr. Pedro Bravo, O.Carm.
 
Conclui-se hoje a leitura do “discurso das parábolas” (13,1-52), que nos acompanha já há dois domingos. Nele, Jesus ilustra como se deve acolher o reino dos céus. O texto de hoje apresenta-nos quatro parábolas, todas elas exclusivas de Mateus, correspondendo à quinta, sexta, sétima e oitava parábola do referido discurso: a) a parábola do tesouro escondido (v. 44); b) a parábola da pérola preciosa (vv. 45s); c) a parábola da rede lançada ao mar (vv. 47-50); d) e a parábola do escriba, discípulo do Reino dos céus (vv. 51s), a oitava deste discurso, que também lhe serve de conclusão.
 
v. 44. «O reino dos Céus é semelhante a um tesouro escondido no campo. O homem que o encontrou voltou a escondê-lo e, na sua alegria, vai e vende tudo quanto tem e compra aquele campo.
 
* A quinta parábola do "discurso das parábolas" é a do “tesouro escondido”, uma imagem da sabedoria no AT (Pv 2,4 LXX; Sir 20,30; 41,14). Este tesouro (cf. 19,21), mal é encontrado, logo se volta a “esconder” (gr. krypto), uma nota que se compreende porque se pretende comprar aquele campo sem que ninguém saiba – inclusive o proprietário – o que nele se achou. Transpondo para o tema da “procura” do “encontro” do Reino dos céus (v. 46; cf. 7,7-18; Jo 1,41.45), Jesus dá a entender que antes de se alcançar a verdadeira sabedoria, a do Reino, e a comunicar, há que “guardá-la” no coração (gr. krypto, he. tsaphan, “acumular”, “entesourar”: Pv 2,1), aprendê-la e pô-la em prática (cf. Pv 2,1-4).
 
* De fato, a sabedoria do Reino é loucura aos olhos do mundo (1Cor 1,17-25), permanecendo “escondida” “aos sábios e entendidos”, sendo só revelada aos “pequeninos” (11,25) e dada aos “pobres em espírito” (5,3). Por isso, quem o encontra, “na sua alegria” (gr. khará) – a alegria escatológica do Reino dos céus (25,21.33; Rm 14,17; Gl 5,22 cf. Lc 15,10) –, “vai e vende tudo quanto tem” (v. 46; 19,21), para o adquirir.
 
v. 45. O reino dos Céus é também semelhante a um comerciante que procura boas margaritas.
 
* Semelhante à parábola anterior, é a sexta parábola, a “parábola da margarita de grande valor” (do gr. margarítes, “pérola preciosa”), à “procura” da qual um comerciante de pérolas preciosas anda.
 
v. 46. Ao encontrar uma margarita de grande valor, foi, vendeu tudo quanto tinha e comprou-a.
 
* O comerciante vai procurando até que “encontra” uma margarita de grande valor. Faz então o mesmo que o homem da parábola anterior: “foi, vendeu tudo quanto tinha” (cf. v. 44; Lc 14,33; cf. Fl 3,7) “e comprou-a”.
 
* Ambas as parábolas realçam que a única riqueza, que tem real valor, é o Reino de Deus, que o homem deve preferir e eleger como sendo o seu bem mais precioso, o fim último da própria existência, o valor fundamental pelo qual se rege toda a sua vida e em favor do qual renuncia a tudo quanto possui – ou é incompatível com ele – estando disposto a “vendê-lo” (para depois o dar aos pobres: 19,21), a fim de o possuir, pois só o Reino pode dar um sentido definitivo à vida e enchê-la de alegria.
 
v. 47. O reino dos Céus é ainda semelhante a uma rede que, lançada ao mar, apanha todo o género [de peixes].
 
* Na sétima parábola (vv. 47-50), o Reino é comparado a “uma rede que, lançada ao mar, apanha todo o género”. “De peixes” é um acrescento das traduções. Mas não é exato, pois Jesus fala da sagena (gr. sagéne: Hab 1,15s; no NT, só aqui), uma rede de pesca que tanto pode ser usada em águas pouco profundas, como na pesca de arrasto. Nela podem cair peixes de “todo o género”, mas também ser arrastadas todo o tipo de coisas, incluindo lixo.
 
* A “rede”, nos Evangelhos, é imagem da atividade evangelizadora da Igreja (cf. 4,19sp; Mc 1,16, Lc 5,5s; Jo 21,6.8.11). Tal como a semente da Palavra é semeada em todo o tipo de terreno (vv. 4-8.18-22), também a “rede” da pregação do Evangelho se estende a todo o tipo de pessoas, acolhendo o Reino dos céus bons e maus, como o ilustra a parábola do trigo e da cizânia (vv. 25-30).
 
v. 48. Quando fica cheia, puxam-na para a praia e, sentando-se, escolhem os bons para os cestos e deitam fora o que não presta.
 
* A rede (sagena) do Reino “fica cheia” quando “se cumprirem os tempos das nações” (Lc 21,24) e chegar “a plenitude dos gentios. Então todo o Israel será salvo” (Rm 11,25s), ou seja, “na consumação do tempo” (v. 49). Só nessa ocasião é que a rede será puxada para a “praia” (gr. aigialós: “margem” arenosa de um rio, lago ou mar: v. 2; Jo 21,4s; At 27,39s) e se separará o peixe bom, que será “escolhido” e juntado nos “cestos”, do “que não presta”, seja ele lixo ou peixe. É o mesmo que se diz na parábola do trigo e da cizânia: o Reino não é um condomínio fechado, onde só há gente boa e santa, mas é uma realidade onde o mal e o bem crescem simultaneamente e convivem juntos (cf. 22,10).
 
v. 49. Assim será na consumação do tempo: os anjos sairão para separar os maus do meio dos justos.
 
* O momento da “separação” de ambos só ocorrerá na “consumação do tempo” (gr. syntéleia tõy aiônos, “consumação do século”). Esta expressão, no singular, exclusiva de Mateus (vv. 39s; 24,3; 28,20; cf. Hb 9,26, no plural), designa o último dia do “fim dos tempos” (a era messiânica em que se cumprem as Escrituras: Dn 8,19; 9,25; 11,35; 12,4; Hb 1,2; 9,26; Gl 4,4; Ef 1,10), em que Jesus, “o Filho do Homem,” virá na sua glória (25,31). Então os mortos ressuscitarão e todos, bons e maus, serão julgados por Ele (13,49; 24,3; 25,32), como Jesus o diz na parábola do trigo e do joio sob a imagem da “ceifa” (v. 39), substituída aqui por outra imagem: “Ele enviará os seus anjos” (v. 41; 24,31), que “sairão para separar os maus do meio dos justos”. Então o universo será consumido pelo fogo (daí a palavra “consumação”) e desaparecerá (13,40; 2Pd 3,12), dando lugar aos novos céus e à nova terra (2Pd 3,13), a eternidade prometida (13,43; 25,46).
 
* A referência ao envio dos “anjos” a “separar” (25,32; 2Cor 6,17) “os maus do meio dos justos” (cf. Sl 1,5), é uma forma de exortar as pessoas a acolherem a palavra anunciada pelos “anjos” (gr. “mensageiro”: 11,10), ou seja, pelos “enviados” (gr. apóstolos) e “mensageiros” de Jesus Cristo. O juízo final já começa aqui, dependendo a salvação e a condenação da decisão de cada um de acolher o Evangelho e de o pôr em prática pelas obras de misericórdia (5,7; 9,13; 12,7; 23,23; 25,35s) ou não.
 
v. 50. E lançá-los na fornalha ardente; aí haverá choro e ranger de dentes.
 
* É o que Jesus explicita em seguida, repetindo aqui à letra o que já dissera no v. 42, na conclusão da parábola do trigo e da cizânia.
 
* “A fornalha ardente” (cf. 3,12; 25,31) é uma imagem retirada de Dn 3,6, referida à fornalha de fogo onde eram castigados os que não adorassem a estátua de Nabucodonosor. Daí que a fornalha de fogo e a Geena (5,22.29s; 10,28; 23,15.33) se tivessem tornado figuras do suplício do inferno, expresso na forma popular do pranto e do ranger de dentes: o “choro” como expressão de sofrimento e luto irremediável, e “o ranger de dentes”, como símbolo da inveja e do desespero dos réprobos ao ver a sua irremediável condenação e a felicidade eterna dos justos (cf. 8,12; 22,13;24,51;25,30; Lc 13,28).
 
* Em suma: Deus não tem pressa de condenar e destruir, porque não quer a morte do pecador (Ez 18,23.32); por isso, dá ao homem o tempo necessário e suficiente para que tome consciência do que faz, se arrependa e opte pela vida verdadeira.
 
v. 51. «Entendestes tudo isto?» Eles responderam-lhe: «Sim!»
 
* Na terceira parte, conclui-se o discurso das parábolas com um breve diálogo entre Jesus e os discípulos (vv. 51-52). Jesus certifica-se que os seus discípulos “compreenderam” (gr. syníemi, 6x em Mt 13: vv. 13-15.19.23; Is 6,9) o que Ele lhes disse, pois esta é a condição fundamental para acolher a palavra de Jesus e de a pôr em prática, dando muito fruto (v. 23). Eles respondem afirmativamente.
 
v. 52. Então Ele disse-lhes: «Por isso, todo o escriba que se torna discípulo do Reino dos Céus é semelhante a um pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e coisas velhas».
 
* Jesus termina o “discurso das parábolas” com uma oitava e última parábola, a do escriba que “se torna discípulo do Reino dos céus” e como tal permanece, não se impondo como instrutor e juiz dos outros, como no judaísmo (cf. 23,2-10), mas esforçando-se por compreender e pôr em prática o que aprendeu (5,19) a fim de dar muito fruto (v. 23).
 
* A referência ao fato do “escriba” (23,34) “tirar do seu tesouro” (v. 44; 12,35; cf. 6,19ss; 19,21) – o tesouro do coração, onde se guarda aquilo que se viu e ouviu (12,35) –, “coisas novas e velhas” refere-se antes de mais aos judeus, profundos conhecedores do AT (o “velho”), mas também se pode referir a todos os cristãos que encontraram o tesouro escondido e que agora são convidados a refletirem sobre os ensinamentos e as promessas do AT, vendo-as realizadas e levadas à perfeição por Jesus no Evangelho (o “novo”). O Evangelho, por sua vez, só manifesta todo o seu valor, alcance, sentido e novidade se lido à luz do AT.
 
MEDITAÇÃO
1) O que é que comanda a minha vida? Quais são os valores que ponho em primeiro lugar? Que significado têm para mim as propostas de Jesus?
2) O Reino é para mim fonte de paz, alegria e generosidade? A minha opção por ele é sincera ou pactua com desvios, hipocrisias e incoerências?

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