Santos Zélia e Luís Martin, leigos
1ª Leitura (Is 55,10-11): Eis
o que diz o Senhor: «Assim como a chuva e a neve que descem do céu não voltam
para lá sem terem regado a terra, sem a terem fecundado e feito produzir, para
que dê a semente ao semeador e o pão para comer, assim a palavra que sai da
minha boca não volta sem ter produzido o seu efeito, sem ter cumprido a minha
vontade, sem ter realizado a sua missão».
Salmo Responsorial: 64
R. A semente caiu em boa terra e deu muito fruto.
Visitastes a terra e a regastes, enchendo-a de fertilidade.
As fontes do céu transbordam em água e fazeis brotar o trigo.
Assim preparais a terra; regais os seus sulcos e aplanais as
leivas, Vós a inundais de chuva e abençoais as sementes.
Coroastes o ano com os vossos benefícios, por onde passastes
brotou a abundância. Vicejam as pastagens do deserto e os outeiros vestem-se de
festa.
Os prados cobrem-se de rebanhos e os vales enchem-se de
trigo. Tudo canta e grita de alegria.
2ª Leitura (Rom 8,18-23): Irmãos:
Eu penso que os sofrimentos do tempo presente não têm comparação com a glória
que se há-de manifestar em nós. Na verdade, as criaturas esperam ansiosamente a
revelação dos filhos de Deus. Elas estão sujeitas à vã situação do mundo, não
por sua vontade, mas por vontade d’Aquele que as submeteu, com a esperança de
que as mesmas criaturas sejam também libertadas da corrupção que escraviza,
para receberem a gloriosa liberdade dos filhos de Deus. Sabemos que toda a
criatura geme ainda agora e sofre as dores da maternidade. E não só ela, mas
também nós, que possuímos as primícias do Espírito, gememos interiormente,
esperando a adopção filial e a libertação do nosso corpo.
Aleluia. A semente é a palavra de Deus e o semeador é
Cristo. Quem O encontra viverá eternamente. Aleluia.
Evangelho (Mt 13,1-23): Naquele
dia, Jesus saiu de casa e sentou-se à beira-mar. Uma grande multidão ajuntou-se
em seu redor. Por isso, ele entrou num barco e sentou-se ali, enquanto a
multidão ficava de pé, na praia. Ele falou-lhes muitas coisas em parábolas. Dizendo:
«O semeador saiu para semear. Enquanto semeava, algumas sementes caíram à beira
do caminho, e os pássaros vieram e as comeram. Outras caíram em terreno cheio
de pedras, onde não havia muita terra. Logo brotaram, porque a terra não era
profunda. Mas, quando o sol saiu, ficaram queimadas e, como não tinham raiz,
secaram. Outras caíram no meio dos espinhos, que cresceram sufocando as
sementes. Outras caíram em terra boa e produziram frutos: uma, cem, outra,
sessenta, outra, trinta. Quem tem ouvidos, ouça!». Os discípulos aproximaram-se
e disseram a Jesus: «Por que lhes falas em parábolas?». Ele respondeu: «Porque
a vós foi dado conhecer os mistérios do Reino dos Céus, mas a eles não. Pois a
quem tem será dado ainda mais, e terá em abundância; mas a quem não tem será
tirado até o que tem. Por isto eu lhes falo em parábolas: porque olhando não enxergam
e ouvindo não escutam, nem entendem. Deste modo se cumpre neles a profecia de
Isaías: ‘Por mais que escuteis, não entendereis, por mais que olheis, nada
vereis. Pois o coração deste povo se endureceu, e eles ouviram com o ouvido
indisposto. Fecharam os seus olhos, para não verem com os olhos, para não
ouvirem com os ouvidos, nem entenderem com o coração, nem se converterem para
que eu os pudesse curar’. Felizes são vossos olhos, porque veem, e vossos
ouvidos, porque ouvem! Em verdade vos digo, muitos profetas e justos desejaram
ver o que estais vendo, e não viram; desejaram ouvir o que estais ouvindo, e
não ouviram. «Vós, portanto, ouvi o significado da parábola do semeador. A todo
aquele que ouve a palavra do Reino e não a compreende, vem o Maligno e rouba o
que foi semeado em seu coração; esse é o grão que foi semeado à beira do
caminho. O que foi semeado nas pedras é quem ouve a palavra e logo a recebe com
alegria; mas não tem raiz em si mesmo, é de momento: quando chega tribulação ou
perseguição por causa da palavra, ele desiste logo. O que foi semeado no meio
dos espinhos é quem ouve a palavra, mas as preocupações do mundo e a ilusão da
riqueza sufocam a palavra, e ele fica sem fruto. O que foi semeado em terra boa
é quem ouve a palavra e a entende; este produz fruto: um cem, outro sessenta e
outro trinta».
«O semeador saiu para semear»
P. Jorge LORING SJ (Cádiz, Espanha)
Hoje consideramos a parábola do semeador. Tem uma força e um
encanto especiais porque é palavra do próprio Senhor Jesus.
A mensagem é clara: Deus é generoso semeando, mas a
concretização dos frutos de sua semeadura dependem também —e ao mesmo tempo— da
nossa livre correspondência. A experiência de todos os dias confirma-nos que o
fruto depende da terra onde cai. Por exemplo, os alunos da mesma escola e sala,
alguns acabam com vocação religiosa e outros ateus. Ouviram o mesmo, mas a
semente caiu em terra diferente.
A terra boa é nosso coração. Em parte é coisa da natureza;
mas sobretudo depende da nossa vontade. Há pessoas que preferem desfrutar antes
que ser melhores. Nelas cumpre-se a parábola: as ervas más (ou seja, as
preocupações do mundo e a sedução das riquezas) «sufocam a palavra, e ele fica
sem fruto» (Lc 13,22).
Mas aqueles que, pelo contrário, valoram o ser, acolhem com
amor a semente de Deus e a fazem frutificar. Ainda tenham que mortificar-se.
Cristo já disse: «se o grão de trigo que cai na terra não morre, fica só. Mas,
se morre, produz muito fruto» (Jo 12,24). Também, o Senhor nos advertiu que o
caminho da salvação é estreito e reduzido (cf. Mt 7,14): aquilo que vale muito,
custa muito. Nada de valor se consegue sem esforço.
Quem se deixa levar pelos seus apetites, terá o coração como
uma floresta selvagem. Pelo contrário, as árvores frutíferas que se podam dão
melhor fruto. Assim, as pessoas santas não tiveram uma vida fácil, mas têm sido
um modelo para a humanidade. «Não todos somos chamados ao martírio, com
certeza, mas a alcançar a perfeição cristã. Mas a virtude precisa de uma força
que (...) pede uma obra comprida e diligente, que não devemos interromper, até
morrer. Desse jeito, pode ser chamado de martírio lento e continuado» (Pio
XII).
Pensamentos para o Evangelho de hoje
«É necessário recordar-se de Deus com mais frequência de
quanto se respire» (São Gregório de Nazianzo)
«A semente, contudo, depara-se com a aridez do nosso coração
e, mesmo quando é acolhida, corre o risco de permanecer estéril. Ao contrário,
com o dom da fortaleza, o Espírito Santo liberta o terreno do nosso coração»
(Francisco)
«O decálogo, o sermão da montanha e a catequese apostólica
descrevem-nos os caminhos que conduzem ao Reino dos céus. Por eles avançamos,
passo a passo, pelos atos de cada dia, amparados pela graça do Espírito Santo.
Fecundados pela Palavra de Cristo, pouco a pouco, damos frutos na Igreja para a
glória de Deus» (Catecismo da Igreja Católica, nº 1.724)
A Palavra que nos faz viver
Pe. Jorge Guarda
* Jesus usa a parábola do semeador para revelar a força
do reino de Deus e pôr os seus ouvintes a pensar como escutam, acolhem e deixam
frutificar neles a Palavra que lhes oferece. O texto da liturgia inclui a
parábola do semeador e a sua explicação, mas aqui focamo-nos apenas na
parábola, permitindo que nos toque o coração e nos provoque com a sua força
comunicativa. Hoje, somos nós os terrenos onde é lançada a Palavra de Deus.
* A parábola é uma narração com imagens e comparações
para interpelar e comunicar uma mensagem ou ensinamento. Tem grande poder
comunicativo e de envolvimento dos ouvintes, evocando e provocando sentimentos,
pensamentos e reações imediatas. Não deixa indiferente quem a ouve.
* “Jesus, quando falava, usava uma linguagem simples e
servia-se também de imagens, que eram exemplos tirados da vida diária, a fim de
poder ser compreendido facilmente por todos. Por isso, gostavam de o ouvir
e apreciavam a sua mensagem, que ia diretamente ao coração; e não era aquela
linguagem difícil de compreender que usavam os doutores da Lei da época, que
não se entendia bem, era rígida e afastava o povo. Com esta linguagem, Jesus
fazia compreender o mistério do Reino de Deus; não era uma teologia complicada.
E o Evangelho de hoje dá-nos um exemplo: a parábola do semeador (cf. Mt 13,
1-23).
* O semeador é Jesus. Observamos que, com esta
imagem, Ele se apresenta como alguém que não se impõe, mas se propõe; não nos
atrai conquistando-nos, mas doando-se: lança a semente. Ele espalha com
paciência e generosidade a sua Palavra, que não é uma gaiola nem uma armadilha,
mas uma semente que pode dar fruto. E como pode dar fruto? Se a acolhermos.
(Papa Francisco, Angelus, 16.6.2017)
* Hoje, somos nós que estamos diante desta Palavra de
Jesus. Ele “faz, por assim dizer, uma «radiografia espiritual» do nosso
coração, que é o terreno sobre o qual a semente da Palavra cai. O nosso
coração, como um terreno, pode ser bom e então a Palavra dá fruto — e muito —
mas pode também ser duro, impermeável. Isto acontece quando ouvimos a Palavra,
mas ela escorrega, precisamente como numa estrada: não entra.” (Papa Francisco,
Angelus, 16.6.2017)
* «Reuniu-se à sua volta tão grande multidão… Disse
muitas coisas em parábolas» As pessoas gostavam de ouvir Jesus e ele
correspondia, ensinando-lhes “muitas coisas”. Jesus deixou à Igreja a sua
mensagem, fazendo dela e de cada cristão portador das suas palavras. A primeira parte da celebração da Eucaristia
oferece-as a quantos frequentam as igrejas. Através delas, tornamo-nos ao mesmo
tempo ouvintes e mensageiros da Palavra com que Deus revela o seu amor,
comunica a sua vida e ensina a viver sob a sua inspiração.
* «Saiu o semeador a semear». A semente é a Palavra
de Deus e Ele “espalha-a por toda a parte com generosidade, sem se preocupar
com o desperdício. Assim é o coração de Deus! Cada um de nós é um solo onde cai
a semente da Palavra, sem excluir ninguém. A Palavra é dada a cada um de nós.”
(Papa Francisco, 12/7/2020). E nós somos enviados para a partilhar com os
nossos semelhantes, para que também recebam o amor, a vida e a força de Deus.
* «Quando semeava, caíram algumas sementes ao longo do
caminho: vieram as aves e comeram-nas.» A
Palavra de Deus, simbolizada nas sementes, cai em quatro tipos diferentes de
solo: o caminho, onde a Palavra não entra; o solo pedregoso, onde a semente
brota depressa, mas logo seca, porque não ganha raízes profundas; a terra de
arbustos espinhosos, onde a semente desabrocha, mas cresce pouco, é sufocada e
morre, sem dar fruto; há, por fim, o bom terreno, onde a semente ganha raízes,
cresce e dá fruto. Conforme as atitudes com que a Palavra é acolhida, assim dá
ou não fruto. “Se quisermos, com a graça de Deus, podemos tornar-nos terreno
fértil, lavrado e cultivado com cuidado, para que a semente da Palavra
amadureça. Já está presente nos nossos corações, mas fazê-la frutificar depende
de nós, depende do acolhimento que reservarmos a esta semente.” (Papa Francisco,
12/7/2020)
* «Outras caíram em boa terra e deram fruto: umas, cem;
outras, sessenta; outras, trinta por um.» Somente se for acolhida no bom
terreno do coração, a Palavra de Deus ganha raízes e dá frutos. Isso acontece
em quem a escuta, a acolhe no coração e a põe em prática na vida quotidiana.
Esta Palavra gera em nós a fé em Deus, fortalece a nossa confiança, ilumina os
nossos caminhos, diz-nos como viver e perseverar como cristãos, tornando-nos
santos, e encoraja-nos na prática do bem, entre outros frutos possíveis.
Viveremos assim na alegria que brota do Evangelho, conforme testemunha a vida
de muitos santos.
Para reflexão
1 - Escuto com atenção e gosto as Palavras de Deus na missa?
Leio com frequência, entendo e encontro proveito na Palavra de Deus? Partilho
com outros os dons que recebo e as experiências vividas?
2 - Olhemos para o íntimo do coração e examinemos se está
aberto, limpo e disponível para receber e fazer frutificar a Palavra de Deus.
Na convivência e relação com os outros, partilhamos a sabedoria que nos vem
dessa Palavra e as experiências que ela nos proporciona, quando a pomos em
prática?
3 - A que tipo de terreno se assemelha o meu coração? Cuido
dele e da atenção na escuta da Palavra de Deus, para saber distinguir entre
tantas vozes e palavras aquela que realmente me faz viver e me torna livre?
4 - A Palavra de Deus que leio e escuto está a produzir frutos
em mim? Reconheço nos cristãos que me rodeiam, nomeadamente nos que se podem
considerar “santos de ao pé da porta”, exemplos de bons terrenos onde brotam
com abundância os frutos da Palavra de Deus? Que me inspira o Senhor para me
tornar “boa terra”?
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