sexta-feira, 10 de julho de 2026

XV Domingo do Tempo Comum

Santos Zélia e Luís Martin, leigos
 
1ª Leitura (Is 55,10-11):
Eis o que diz o Senhor: «Assim como a chuva e a neve que descem do céu não voltam para lá sem terem regado a terra, sem a terem fecundado e feito produzir, para que dê a semente ao semeador e o pão para comer, assim a palavra que sai da minha boca não volta sem ter produzido o seu efeito, sem ter cumprido a minha vontade, sem ter realizado a sua missão».
 
Salmo Responsorial: 64
R. A semente caiu em boa terra e deu muito fruto.
 
Visitastes a terra e a regastes, enchendo-a de fertilidade. As fontes do céu transbordam em água e fazeis brotar o trigo.
 
Assim preparais a terra; regais os seus sulcos e aplanais as leivas, Vós a inundais de chuva e abençoais as sementes.
 
Coroastes o ano com os vossos benefícios, por onde passastes brotou a abundância. Vicejam as pastagens do deserto e os outeiros vestem-se de festa.
 
Os prados cobrem-se de rebanhos e os vales enchem-se de trigo. Tudo canta e grita de alegria.
 
2ª Leitura (Rom 8,18-23): Irmãos: Eu penso que os sofrimentos do tempo presente não têm comparação com a glória que se há-de manifestar em nós. Na verdade, as criaturas esperam ansiosamente a revelação dos filhos de Deus. Elas estão sujeitas à vã situação do mundo, não por sua vontade, mas por vontade d’Aquele que as submeteu, com a esperança de que as mesmas criaturas sejam também libertadas da corrupção que escraviza, para receberem a gloriosa liberdade dos filhos de Deus. Sabemos que toda a criatura geme ainda agora e sofre as dores da maternidade. E não só ela, mas também nós, que possuímos as primícias do Espírito, gememos interiormente, esperando a adopção filial e a libertação do nosso corpo.
 
Aleluia. A semente é a palavra de Deus e o semeador é Cristo. Quem O encontra viverá eternamente. Aleluia.
 
Evangelho (Mt 13,1-23): Naquele dia, Jesus saiu de casa e sentou-se à beira-mar. Uma grande multidão ajuntou-se em seu redor. Por isso, ele entrou num barco e sentou-se ali, enquanto a multidão ficava de pé, na praia. Ele falou-lhes muitas coisas em parábolas. Dizendo: «O semeador saiu para semear. Enquanto semeava, algumas sementes caíram à beira do caminho, e os pássaros vieram e as comeram. Outras caíram em terreno cheio de pedras, onde não havia muita terra. Logo brotaram, porque a terra não era profunda. Mas, quando o sol saiu, ficaram queimadas e, como não tinham raiz, secaram. Outras caíram no meio dos espinhos, que cresceram sufocando as sementes. Outras caíram em terra boa e produziram frutos: uma, cem, outra, sessenta, outra, trinta. Quem tem ouvidos, ouça!». Os discípulos aproximaram-se e disseram a Jesus: «Por que lhes falas em parábolas?». Ele respondeu: «Porque a vós foi dado conhecer os mistérios do Reino dos Céus, mas a eles não. Pois a quem tem será dado ainda mais, e terá em abundância; mas a quem não tem será tirado até o que tem. Por isto eu lhes falo em parábolas: porque olhando não enxergam e ouvindo não escutam, nem entendem. Deste modo se cumpre neles a profecia de Isaías: ‘Por mais que escuteis, não entendereis, por mais que olheis, nada vereis. Pois o coração deste povo se endureceu, e eles ouviram com o ouvido indisposto. Fecharam os seus olhos, para não verem com os olhos, para não ouvirem com os ouvidos, nem entenderem com o coração, nem se converterem para que eu os pudesse curar’. Felizes são vossos olhos, porque veem, e vossos ouvidos, porque ouvem! Em verdade vos digo, muitos profetas e justos desejaram ver o que estais vendo, e não viram; desejaram ouvir o que estais ouvindo, e não ouviram. «Vós, portanto, ouvi o significado da parábola do semeador. A todo aquele que ouve a palavra do Reino e não a compreende, vem o Maligno e rouba o que foi semeado em seu coração; esse é o grão que foi semeado à beira do caminho. O que foi semeado nas pedras é quem ouve a palavra e logo a recebe com alegria; mas não tem raiz em si mesmo, é de momento: quando chega tribulação ou perseguição por causa da palavra, ele desiste logo. O que foi semeado no meio dos espinhos é quem ouve a palavra, mas as preocupações do mundo e a ilusão da riqueza sufocam a palavra, e ele fica sem fruto. O que foi semeado em terra boa é quem ouve a palavra e a entende; este produz fruto: um cem, outro sessenta e outro trinta».
 
«O semeador saiu para semear»
 
P. Jorge LORING SJ (Cádiz, Espanha)
 
Hoje consideramos a parábola do semeador. Tem uma força e um encanto especiais porque é palavra do próprio Senhor Jesus.
 
A mensagem é clara: Deus é generoso semeando, mas a concretização dos frutos de sua semeadura dependem também —e ao mesmo tempo— da nossa livre correspondência. A experiência de todos os dias confirma-nos que o fruto depende da terra onde cai. Por exemplo, os alunos da mesma escola e sala, alguns acabam com vocação religiosa e outros ateus. Ouviram o mesmo, mas a semente caiu em terra diferente.
 
A terra boa é nosso coração. Em parte é coisa da natureza; mas sobretudo depende da nossa vontade. Há pessoas que preferem desfrutar antes que ser melhores. Nelas cumpre-se a parábola: as ervas más (ou seja, as preocupações do mundo e a sedução das riquezas) «sufocam a palavra, e ele fica sem fruto» (Lc 13,22).
 
Mas aqueles que, pelo contrário, valoram o ser, acolhem com amor a semente de Deus e a fazem frutificar. Ainda tenham que mortificar-se. Cristo já disse: «se o grão de trigo que cai na terra não morre, fica só. Mas, se morre, produz muito fruto» (Jo 12,24). Também, o Senhor nos advertiu que o caminho da salvação é estreito e reduzido (cf. Mt 7,14): aquilo que vale muito, custa muito. Nada de valor se consegue sem esforço.
 
Quem se deixa levar pelos seus apetites, terá o coração como uma floresta selvagem. Pelo contrário, as árvores frutíferas que se podam dão melhor fruto. Assim, as pessoas santas não tiveram uma vida fácil, mas têm sido um modelo para a humanidade. «Não todos somos chamados ao martírio, com certeza, mas a alcançar a perfeição cristã. Mas a virtude precisa de uma força que (...) pede uma obra comprida e diligente, que não devemos interromper, até morrer. Desse jeito, pode ser chamado de martírio lento e continuado» (Pio XII).
 
Pensamentos para o Evangelho de hoje
«É necessário recordar-se de Deus com mais frequência de quanto se respire» (São Gregório de Nazianzo)
 
«A semente, contudo, depara-se com a aridez do nosso coração e, mesmo quando é acolhida, corre o risco de permanecer estéril. Ao contrário, com o dom da fortaleza, o Espírito Santo liberta o terreno do nosso coração» (Francisco)
 
«O decálogo, o sermão da montanha e a catequese apostólica descrevem-nos os caminhos que conduzem ao Reino dos céus. Por eles avançamos, passo a passo, pelos atos de cada dia, amparados pela graça do Espírito Santo. Fecundados pela Palavra de Cristo, pouco a pouco, damos frutos na Igreja para a glória de Deus» (Catecismo da Igreja Católica, nº 1.724)
 
A Palavra que nos faz viver
 
Pe. Jorge Guarda
 
* Jesus usa a parábola do semeador para revelar a força do reino de Deus e pôr os seus ouvintes a pensar como escutam, acolhem e deixam frutificar neles a Palavra que lhes oferece.
O texto da liturgia inclui a parábola do semeador e a sua explicação, mas aqui focamo-nos apenas na parábola, permitindo que nos toque o coração e nos provoque com a sua força comunicativa. Hoje, somos nós os terrenos onde é lançada a Palavra de Deus.
 
* A parábola é uma narração com imagens e comparações para interpelar e comunicar uma mensagem ou ensinamento. Tem grande poder comunicativo e de envolvimento dos ouvintes, evocando e provocando sentimentos, pensamentos e reações imediatas. Não deixa indiferente quem a ouve.
 
* “Jesus, quando falava, usava uma linguagem simples e servia-se também de imagens, que eram exemplos tirados da vida diária, a fim de poder ser compreendido facilmente por todos. Por isso, gostavam de o ouvir e apreciavam a sua mensagem, que ia diretamente ao coração; e não era aquela linguagem difícil de compreender que usavam os doutores da Lei da época, que não se entendia bem, era rígida e afastava o povo. Com esta linguagem, Jesus fazia compreender o mistério do Reino de Deus; não era uma teologia complicada. E o Evangelho de hoje dá-nos um exemplo: a parábola do semeador (cf. Mt 13, 1-23).
 
* O semeador é Jesus. Observamos que, com esta imagem, Ele se apresenta como alguém que não se impõe, mas se propõe; não nos atrai conquistando-nos, mas doando-se: lança a semente. Ele espalha com paciência e generosidade a sua Palavra, que não é uma gaiola nem uma armadilha, mas uma semente que pode dar fruto. E como pode dar fruto? Se a acolhermos. (Papa Francisco, Angelus, 16.6.2017)
 
* Hoje, somos nós que estamos diante desta Palavra de Jesus. Ele “faz, por assim dizer, uma «radiografia espiritual» do nosso coração, que é o terreno sobre o qual a semente da Palavra cai. O nosso coração, como um terreno, pode ser bom e então a Palavra dá fruto — e muito — mas pode também ser duro, impermeável. Isto acontece quando ouvimos a Palavra, mas ela escorrega, precisamente como numa estrada: não entra.” (Papa Francisco, Angelus, 16.6.2017)
 
* «Reuniu-se à sua volta tão grande multidão… Disse muitas coisas em parábolas» As pessoas gostavam de ouvir Jesus e ele correspondia, ensinando-lhes “muitas coisas”. Jesus deixou à Igreja a sua mensagem, fazendo dela e de cada cristão portador das suas palavras.  A primeira parte da celebração da Eucaristia oferece-as a quantos frequentam as igrejas. Através delas, tornamo-nos ao mesmo tempo ouvintes e mensageiros da Palavra com que Deus revela o seu amor, comunica a sua vida e ensina a viver sob a sua inspiração.
 
* «Saiu o semeador a semear». A semente é a Palavra de Deus e Ele “espalha-a por toda a parte com generosidade, sem se preocupar com o desperdício. Assim é o coração de Deus! Cada um de nós é um solo onde cai a semente da Palavra, sem excluir ninguém. A Palavra é dada a cada um de nós.” (Papa Francisco, 12/7/2020). E nós somos enviados para a partilhar com os nossos semelhantes, para que também recebam o amor, a vida e a força de Deus.
 
* «Quando semeava, caíram algumas sementes ao longo do caminho: vieram as aves e comeram-nas.»  A Palavra de Deus, simbolizada nas sementes, cai em quatro tipos diferentes de solo: o caminho, onde a Palavra não entra; o solo pedregoso, onde a semente brota depressa, mas logo seca, porque não ganha raízes profundas; a terra de arbustos espinhosos, onde a semente desabrocha, mas cresce pouco, é sufocada e morre, sem dar fruto; há, por fim, o bom terreno, onde a semente ganha raízes, cresce e dá fruto. Conforme as atitudes com que a Palavra é acolhida, assim dá ou não fruto. “Se quisermos, com a graça de Deus, podemos tornar-nos terreno fértil, lavrado e cultivado com cuidado, para que a semente da Palavra amadureça. Já está presente nos nossos corações, mas fazê-la frutificar depende de nós, depende do acolhimento que reservarmos a esta semente.” (Papa Francisco, 12/7/2020)
 
* «Outras caíram em boa terra e deram fruto: umas, cem; outras, sessenta; outras, trinta por um.» Somente se for acolhida no bom terreno do coração, a Palavra de Deus ganha raízes e dá frutos. Isso acontece em quem a escuta, a acolhe no coração e a põe em prática na vida quotidiana. Esta Palavra gera em nós a fé em Deus, fortalece a nossa confiança, ilumina os nossos caminhos, diz-nos como viver e perseverar como cristãos, tornando-nos santos, e encoraja-nos na prática do bem, entre outros frutos possíveis. Viveremos assim na alegria que brota do Evangelho, conforme testemunha a vida de muitos santos.

Para reflexão

1 - Escuto com atenção e gosto as Palavras de Deus na missa? Leio com frequência, entendo e encontro proveito na Palavra de Deus? Partilho com outros os dons que recebo e as experiências vividas?
2 - Olhemos para o íntimo do coração e examinemos se está aberto, limpo e disponível para receber e fazer frutificar a Palavra de Deus. Na convivência e relação com os outros, partilhamos a sabedoria que nos vem dessa Palavra e as experiências que ela nos proporciona, quando a pomos em prática?
3 - A que tipo de terreno se assemelha o meu coração? Cuido dele e da atenção na escuta da Palavra de Deus, para saber distinguir entre tantas vozes e palavras aquela que realmente me faz viver e me torna livre?
4 - A Palavra de Deus que leio e escuto está a produzir frutos em mim? Reconheço nos cristãos que me rodeiam, nomeadamente nos que se podem considerar “santos de ao pé da porta”, exemplos de bons terrenos onde brotam com abundância os frutos da Palavra de Deus? Que me inspira o Senhor para me tornar “boa terra”?

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