domingo, 29 de setembro de 2013

CELEBRAÇÃO DO TRÂNSITO DE SANTA TERESINHA DO MENINO JESUS, VIRGEM DA II ORDEM E DOUTORA DA IGREJA

Por volta das 19h 20min , hora que  Santa Teresa do Menino Jesus “entra na vida”, a comunidade, tendo nas mãos velas acesas no Círio Pascal, se reúna para celebrar o início da missão da "pequena Teresa": “passar o Céu fazendo o bem sobre a Terra”.
Antes do início das primeiras vésperas do Ofício Divino, lê-se o relato do piedoso trânsito de Sta Teresa do Menino Jesus da Sagrada Face, feito por sua irmã, Madre Inês de Jesus.


Leitura relato do último dia de Sta Teresa do Menino Jesus na terra, numa quinta-feira do dia 30 de setembro de 1897, feito pela madre Inês de Jesus:

  “Durante a manhã eu (irmã Inês) a (Santa Teresinha) vigiava durante a Missa. Ela não me dizia nada. Ela estava esgotada, ofegante; seus sofrimentos, eu presumia, eram inexprimíveis. Num determinado momento, ela juntou as mãos e olhando à estátua da Virgem Maria disse:
  - Oh! Eu rezei a ela com grande fervor! Mas é uma agonia pura, sem mistura alguma de consolação.
  Eu lhe disse algumas palavras de compaixão e de afeição e acrescentava que ela tinha bem me edificado durante sua convalescença.
  - E você, as consolações que tinha me dado! Ah! Como elas são enormes!
  Durante todo o dia, sem um instante de trégua, ela permaneceu, podemos dizer sem exageros, sob verdadeiros tormentos. Ela parecia estar no fim de suas forças e, todavia, para nosso espanto, ela podia se mexer, se sentar no seu leito.
 - …Veja, nos dizia ela, como tenho forças hoje! Não, eu não vou morrer! Eu ainda tenho forças por vários meses, talvez até mesmo vários anos!
 E se o bom Deus o quisesse, diz a Nossa Madre, você o aceitaria?
 Ela começou a responder, na sua agonia:
 - Seria bem necessário…
 Mas se corrigindo na mesma hora, ela diz com um tom de resignação sublime e caindo novamente sobre seu travesseiro:
 - Eu quero com certeza!
 Eu pude recolher essas exclamações, mas é bem difícil de transmitir o seu tom:
 - Eu não creio mais na morte para mim… Eu creio apenas no sofrimento… melhor assim!
 - Ó meu Deus!… Eu amo o bom Deus! O minha boa Virgem Maria, venha em meu socorro!
 - Se isso é a agonia, o que é então a morte?!…
 - Ah! Meu bom Deus!… Sim, ele é muito bom, eu o vejo muito bom…
 E olhando para a Virgem Maria:
 - Oh! A senhora sabe que estou me sufocando!
 Para mim:
 - Se você soubesse o que é se sufocar!
 O bom Deus vai ajudá-la, minha pobrezinha, e terminará logo mais.
 - Sim, mas quando?
 - …Meu Deus, tenha piedade de vossa pobre menina! Tenha piedade!
 Para Nossa Madre:
 - Ó minha Madre, eu vos garanto que o cálice está cheio até a boca!…
 - …Mas o bom Deus não vai me abandonar, certamente… …Ele nunca me abandonou.
 - …Sim, meu Deus, tudo o que quiser, mas tenha piedade de mim!
 - …Minhas irmãzinhas! Minhas irmãzinhas rezem por mim!
 - …Meu Deus! Meu Deus! Vós que sois tão bom!!!
 - …Oh! Sim, vós sois bom! Eu o sei…
 Depois do ofício de Vésperas, Nossa Madre colocou sobre seus joelhos uma imagem de Nossa Senhora do Monte Carmelo. Ela olhou por um instante e disse o quanto Nossa Madre lhe tinha garantido que ela logo mais iria acariciar Nossa Senhora como também o Menino Jesus nessa imagem:
 - Ó minha Madre, apresentai-me logo à Virgem Maria, eu sou um bebê que não aguenta mais! … Prepare-me para bem morrer.
 Nossa Madre lhe respondeu que tendo sempre compreendido e praticado a humildade, sua preparação já estava feita. Ela refletiu por um instante e pronunciou humildemente essas palavras:
 - Sim, me parece que nunca busquei outra coisa senão a verdade; sim, eu compreendi a humildade de coração… parece-me que sou humilde.
 Ela repetiu ainda:
 - Tudo o que escrevi sobre meus desejo de sofrimento. Oh! É bem verdadeiro!
 - Eu não me arrependo de me ter entregado ao Amor.
 Com insistência:
 - Oh! Não, eu não me arrependo, muito pelo contrário!
 Um pouco depois:
 - Eu nunca teria crido que era possível sofrer tanto [nota: nunca aplicamos nela injeção alguma de morfina]! Nunca! Nunca! Eu não posso compreender tal coisa senão pelos desejos ardentes que tive de salvar as almas.
 Por volta das 5 horas, eu estava sozinha perto dela. Seu rosto mudou de repente, compreendi que era a última agonia. Quando a Comunidade entrou na enfermaria, ela acolheu todas as irmãs com um doce sorriso. Ela segurava seu Crucifixo e o olhava constantemente. Durante mais de duas horas, a respiração rouca arranhava seu peito. Seu rosto estava congestionado, suas mãos roxas, ela tinha os pés congelados e tremia todos seus membros. Um suor abundante caia em gotas enormes sobre seu rosto e inundava suas bochechas. Ela estava sob uma opressão cada vez maior e lançava às vezes pequenos gritos involuntários para respirar.
 Durante esse tempo tão cheio de agonia para nós, escutávamos pela janela – e eu sofria bastante – o canto de vários pássaros, mas tão fortemente, de tão perto e durante tanto tempo! Eu rezava para o bom Deus de os fazer calar, esse concerto me perfurava o coração e tinha medo que ele cansasse nossa Terezinha.
 Durante outro momento, ela parecia ter a boca tão ressecada que a irmã Genoveva, achando que a aliviaria, lhe colocava nos lábios um pequeno pedaço de gelo. Ela o aceitou lhe fazendo um sorriso que nunca me esquecerei. Era como um supremo adeus.
 Às 6 horas o Angelus soou, ela olhou longamente para a estátua da Virgem Maria.
 Enfim, às 7 horas e pouco, Nossa Madre tendo despedido a Comunidade, ela suspirou:
 - Minha Madre! Não é isso a agonia?… Não irei morrer?…
 Sim, minha pobrezinha, é a agonia, mas o bom Deus quer talvez prolongá-la por algumas horas. Ela retoma com coragem:
 - Ora bem!… Vamos!… Vamos!… Oh! Eu não quereria sofrer menos tempo…
 E olha seu Crucifixo:
 - Oh! Eu o amo!.... Meu Deus… Eu vos amo….
 De uma hora para outra, após ter pronunciado essas palavras, ela caiu suavemente para trás, com a cabeça inclinada para a direita. Nossa Madre fez soar imediatamente o sino da enfermaria para chamar a Comunidade. “Abram-se todas as portas” dizia a Madre no mesmo instante. Essas palavras tinha algo de solene, e me fizeram pensar que no Céu o bom Deus o dizia também a seus anjos.
 As irmãs tiveram o tempo de se ajoelhar em torno do leito e foram testemunhas do êxtase da pequena Santa que morria. Seu rosto tinha tomado a cor de uma flor-de-lis que tinha quando em plena saúde, seus olhos estavam fixados no alto, brilhantes de paz e de alegria. Ela fazia alguns movimentos de cabeça, como se Alguém a tivesse divinamente ferido com uma flecha de amor, depois retirado a flecha para a ferir novamente… A irmã Maria da Eucaristia se aproximou com uma vela para ver de mais perto seu olhar sublime. Diante da luz dessa vela, não houve movimento algum de suas pálpebras. Esse êxtase durou o tempo de um “Credo”, e ela deu seu último suspiro.
 Após sua morte, ela conservou um sorriso celeste. Ela estava com uma beleza encantadora. Ela segurava tão forte seu Crucifixo que foi necessário arrancá-lo de suas mãos para enterrá-la. A irmã Maria do Sagrado-Coração e eu fizemos tal serviço, com a irmã Amada de Jesus, e notamos que ela não parecia ter mais do que 12 ou 13 anos. Os membros do seu corpo permaneceram flexíveis até o dia do seu enterro, numa segunda-feira, no dia 4 de outubro de 1897.”

Apagam-se as velas


Vésperas I

V. Vinde, ó Deus em meu auxílio.
R. Socorrei-me sem demora.
V. Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo.
R. Como era no princípio, agora e sempre. Amém.

Hino
Um atalho de luz, eis a Pequena Via:
O ascensor é Jesus, sob o olhar de Maria!

Teresinha e seu sonho, bem maior que a vida:
Escalar a montanha, ao encontro do Amor!
Decidiu que vai fazer esta subida,
Sem medir sacrifícios, buscando o Senhor.

Contemplando o mistério santo da humildade,
Ela toma nos braços a Criança-Jesus.
Em momento de paz, na simplicidade,
Faz nascer, para nós, o atalho de luz!

Tempestades a fazem crescer na esperança.
"Oh! Não vou despertar-te!" diz ela ao Senhor.
Puro nda sou, mas Deus é segunraça.
Só por Ele é que vive a santa do Amor!

Por caminhos de paz, na doce descoberta,
O Senhor, generoso, Teresinha conduz.
é segredo de Deus que, enfim, a liberta.
Vai ser vítima santa do Amor que a seduz.

Instruindo os pequenos na segura via,
A santinha nos lega a divina lição:
O ascensor é Jesus, à luz de Maria.
Aprovada no Céu, de Teresa a invenção.

Salmodia
Ant. 1 Vinde, filhas, contemplai o Senhor e ficareis radiantes.

Salmo 112 (113)
1 Louvai, servos do Senhor, *
louvai o nome do Senhor.
2 Bendito seja o nome do Senhor, *
agora e para sempre.
3 Desde o nascer ao pôr do sol, *
seja louvado o nome do Senhor.

4 O Senhor domina sobre todos os povos, *
a sua glória está acima dos céus.
5 Quem se compara ao Senhor nosso Deus, *
que tem o seu trono nas alturas,
6 e Se inclina lá do alto *
a olhar o céu e a terra?

7 Levanta do pó o indigente *
e tira o pobre da miséria,
8 para o fazer sentar com os grandes, *
com os grandes do seu povo,
9 e, no lar, transforma a estéril *
em ditosa mãe de família.

Ant. Vinde, filhas, contemplai o Senhor e ficareis radiantes.

Ant. 2 Nós Vos seguimos de todo o coração, nós Vos adoramos e procuramos o vosso rosto; não nos abandoneis, Senhor.

Salmo 147 (147 B)
12 Glorifica, Jerusalém, o Senhor, *
louva, Sião, o teu Deus.

13 Ele reforçou as tuas portas *
e abençoou os teus filhos.
14 Estabeleceu a paz nas tuas fronteiras *
e saciou-te com a flor da farinha.

15 Envia à terra a sua palavra, *
corre veloz a sua mensagem.
16 Faz cair a neve como lã, *
espalha a geada como cinza.

17 Faz cair o granizo como migalhas de pão *
e com o seu frio gelam as águas.
18 Envia a sua palavra e derrete-as, *
faz soprar o vento e correm as águas.

19 Revelou a sua palavra a Jacó, *
suas leis e preceitos a Israel.
20 Não fez assim com nenhum outro povo, *
a nenhum outro manifestou os seus juízos.

Ant. Nós Vos seguimos de todo o coração, nós Vos adoramos e procuramos o vosso rosto; não nos abandoneis, Senhor.

Ant. 3 Alegrai-vos, ó Virgens de Cristo, exultai, esposas do Cordeiro.

Cântico Ef 1,3-10
3 Bendito seja Deus, *
Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo,
que do alto do Céu nos abençoou, *
com todas as bênçãos espirituais em Cristo.

4 Ele nos escolheu, antes da criação do mundo, *
para sermos santos e irrepreensíveis, †
em caridade, na sua presença.
5 Ele nos predestinou, de sua livre vontade, *
para sermos seus filhos adotivos, por Jesus Cristo,

6 para que fosse enaltecida a glória da sua graça, *
com a qual nos favoreceu em seu amado Filho;
7 n’Ele temos a redenção, pelo seu Sangue, *
a remissão dos nossos pecados;
segundo a riqueza da sua graça *

8 que Ele nos concedeu em abundância,
com plena sabedoria e inteligência, *
9 deu-nos a conhecer o mistério da sua vontade,
segundo o beneplácito que n’Ele de antemão estabelecera, *

10 para se realizar na plenitude dos tempos:
instaurar todas as coisas em Cristo, *
tudo o que há nos céus e na terra.

Ant. Alegrai-vos, ó Virgens de Cristo, exultai, esposas do Cordeiro.

Leitura breve 1 Cor 7, 32.34
Quem não é casado preocupa-se com os interesses do Se­nhor, procura agradar ao Senhor. A mulher solteira e a virgem preocupam-se com os interesses do Senhor, para serem santas de corpo e de espírito.

Responsório breve
V. Diz-me o coração: o Senhor é a minha herança.
R. Diz-me o coração: o Senhor é a minha herança.
V. O Senhor é bom para a alma que O procura.
R. O Senhor é a minha herança.
V. Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo.
R. Diz-me o coração: o Senhor é a minha herança.

Cântico evangélico
Ant. Quando chegou o Esposo, a Virgem prudente entrou com a lâmpada acesa para o banquete nupcial do seu Senhor.

Preces
"Ó meu Jesus! amo-te, amo a Igreja, minha Mãe. Não me esqueço que para ela o mínimo impulso de puro amor é mais proveitoso do que todas as demais obras em sua totalidade". A oração de Santa Teresinha é uma oração fundamentalmente eclesial, oração aberta, que abrange toda as necessidades da Igreja. Invoquemos a misericórdia de Deus, inspirados na insistência de Santa Teresinha em implorar ao Pai por todos os seus irmãos.

Respondamos: Por intercessão de Santa Teresinha, ouvi-nos Senhor.

1. Senhor, que dais ao vosso povo a graça de celebrar hoje a festa da virgem Santa Teresa do Menino Jesus,
— concedei-lhe que se alegre sempre com a sua intercessão. R.

2. Senhor concedei à vossa Igreja,  por intercessão de Santa Teresinha, crescer na necessidade de encontrar em vossa Palavra a fonte de sua ação evangelizadora,
— para se tornar uma comunidade sempre mais orante e participativa. R.

3. Senhor, como Santa Teresinha, queremos vos pedir de modo especial pelos sacerdotes,
— a fim de que sejam dignos ministros de Cristo, pastores fiéis, acolhedores e misericordiosos. R.

4. Senhor, como Santa Teresinha, queremos interceder por todos aqueles que sofrem longe de vós,
— por aqueles que se esqueceram que podem encontrar em vosso Coração refúgio e alívio para suas dores. R.

5. Senhor, unidos a Santa Teresinha, queremos interceder por aqueles que padecem de secura espiritual,
— que não encontram consolo na oração e por aqueles que não têm sede de vós. R.

6. Senhor, que o ardor missionário de nossa comunidade seja sempre revigorado por uma autêntica vivência da fé,
— e sustentado na escuta amorosa de vossa Palavra. R.

7. Senhor, vos pedimos por toda a grande Família Carmelita,
—  para que todos mantenham acesa a chama de sua vocação contemplativa e, a exemplo de Maria Santíssima sejam conduzidos pela oração a uma atitude de pronto serviço, de modo especial aos irmãos necessitados. R.

8. Senhor, que recebestes santa Teresa do Menino Jesus no banquete das núpcias eternas,
— admiti benignamente os defuntos ao convívio do vosso reino. R.

(Intenções Particulares)
PAI NOSSO

Oração
Deus de infinita bondade, que abris as portas do vosso reino aos pequeninos e humildes, fazei que sigamos confiadamente o caminho espiritual de Santa Teresa do Menino Jesus, para que, por sua intercessão, cheguemos à revelação da vossa glória. Por Nosso Senhor.


Ao final da Liturgia das Horas, a comunidade, em dois coros,  e com as velas acesas, rezará com as palavras de Sta Teresa do Menino Jesus o ATO DE OFERECIMENTO

T. Oferecimento de mim mesma como Vítima de Holocausto ao Amor Misericordioso do Bom Deus

1. Meu Deus! Trindade Bem-aventurada, desejo AMAR-VOS e vos fazer AMAR, trabalhar para a glorificação da Santa Igreja, salvando as almas que estão sobre a terra e libertando as que sofrem no purgatório. 

2.Desejo cumprir, perfeitamente, vossa vontade e chegar ao grau de glória que me preparastes, em vosso reino, numa palavra, desejo ser Santa, mas sinto minha impotência e vos peço, ó meu Deus! Sejais vós mesmo minha SANTIDADE.

1. Pois que me amastes, a ponto de dar-me vosso Filho único para ser meu Salvador e meu Esposo, os tesouros infinitos de seus méritos são meus, eu vo-los ofereço, com alegria, suplicando-vos que me olheis através da Face de Jesus e em seu Coração ardente de AMOR.

2. Ofereço-vos, ainda, todos os méritos dos Santos (que estão no Céu e sobre a terra), seus atos de AMOR e os dos Santos Anjos; enfim, ofereço-vos, ó BEM-AVENTURADA TRINDADE! o Amor e os méritos da SANTÍSSIMA VIRGEM, MINHA MÃE QUERIDA, é a ela que abandono minha oferta, suplicando-lhe vo-la apresentar. 

1. Seu Divino Filho, meu Esposo Bem-Amado, disse-nos durante sua vida mortal: "Tudo o que pedirdes a meu Pai em meu nome, ele vo-lo dará!" Portanto, estou certa de que atendereis a meus desejos; eu o sei, ó meu Deus! quanto mais quereis dar, tanto mais fazeis desejar. Sinto em meu coração desejos imensos e é, com confiança, que vos peço vir tomar posse de minha alma. 

2. Ah! não posso receber a santa comunhão tantas vezes quanto desejo, mas, Senhor, não sois ONIPOTENTE?... Ficai em mim, como no tabernáculo, não vos afasteis jamais de vossa hostiazinha...

1. Quisera consolar-vos da ingratidão dos maus e suplico-vos tirar-me a liberdade de vos desagradar; se por fraqueza, cair alguma vez, que, logo vosso Divino Olhar purifique minha alma, consumindo todas as minhas imperfeições, como o fogo que transforma em si todas as coisas...

2. Agradeço-vos, ó meu Deus, todas as graças que me concedestes, em particular, de me ter feito passar pelo cadinho do sofrimento. É com júbilo que vos contemplarei, no último dia, empunhando o cetro da Cruz; pois que vos dignastes fazer-me partilhar desta Cruz tão preciosa, espero, no Céu, assemelhar-vos a Vós e ver brilhar em meu corpo glorificado os sagrados estigmas de vossa Paixão...

1. Após o exílio da terra, espero ir gozar de vós na Pátria, mas não quero acumular méritos para o Céu, quero trabalhar só por vosso AMOR, com o único fim de vos agradar, consolar vosso Coração Sagrado e salvar almas que vos amem eternamente.

2. Na tarde desta vida, comparecerei perante vós com as mãos vazias, pois não vos peço, Senhor, contar minhas obras. Toda nossa justiça é manchada a vossos olhos. Quero, pois, revestir-me de vossa própria justiça, e receber de vosso Amor a posse eterna de Vós mesmo. Não quero outro Trono e outra Coroa senão Vós, ó meu Bem-Amado.

1. Para vós, o tempo não é nada. Um único dia é como se fossem mil anos. Podeis, então, preparar-me num instante para comparecer diante de vós...

2. A fim de viver num ato de perfeito amor, OFEREÇO-ME COMO VÍTIMA DE HOLOCAUSTO A VOSSO AMOR MISERICORDIOSO suplicando-vos me consumir, sem cessar, deixando transbordar em minha alma as ondas de Ternura Infinita que estão encerradas em vós, e que assim eu me torne Mártir de vosso Amor, ó meu Deus!...

1. Que este Martírio após me ter preparado para comparecer perante vós, faça-me, enfim, morrer e que minha alma precipite-se, sem tardar, no eterno abraço de vosso Amor Misericordioso...

T. Quero, ó meu Bem-amado, em cada palpitar de meu coração, renovar-vos este oferecimento um número infinito de vezes, até que, dissipadas as sombras, possa repetir-vos meu Amor, num Face a Face Eterno!..

Após o ato de oferecimento a comunidade renova seus votos com as mesmas palavras da nossa Santa em seu BILHETE DE PROFISSÃO

T. Oh, Jesus, meu divino Esposo!
Que eu jamais perca a segunda veste de meu Batismo!
Tira-me deste mundo, antes que cometa a mais leve falta voluntária.
Que eu não procure e não encontre senão a ti.
Que as criaturas nada sejam para mim, e eu nada seja para elas,
 mas que tu, Jesus, sejas tudo!...
Que as coisas da terra jamais possam perturbar a minha alma;
que nada perturbe minha paz!
Jesus, não te peço senão a paz e também o amor,
o amor infinito, sem outro limite senão tu mesmo...
Amor que jã não seja eu, mas sejas tu, meu Jesus.
Por ti, Jesus, morra eu mártir,
o martírio do coração ou do corpo, antes, os dois...
Dá-me cumprir meus votos em toda a sua perfeição,
e leva-me a compreender o que uma esposa tua deve ser.
Faze que nunca eu seja um peso para a comunidade,
e que ninguém se ocupe de mim;
que eu seja vista, espezinhada, esquecida,
qual um grãozinho de areia que te pertence, Jesus.
Faça-se em mim tua vontade de maneira perfeita.
Que eu possa chegar à morada que antecipadamente me foste preparar...
Deixa-me, Jesus, salvar muitas almas;
que no dia de hoje, nenhuma seja condenada,
e que todas as almas do Purgatório sejam salvas...
Perdoa-me, Jesus, se digo coisas que não devo dizer.
Só quero alegrar-te e consolar-te.

Se houver padre, este dará a benção solene, conforme o Missal. Caso contrário, encerra-se como no ofício de Vésperas.

Segunda-feira da 26ª semana do Tempo Comum

São Jerônimo
Evangelho (Lc 9,46-50): Surgiu entre os discípulos uma discussão sobre qual deles seria o maior. Sabendo o que estavam pensando, Jesus pegou uma criança, colocou-a perto de si e disse-lhes: «Quem receber em meu nome esta criança, estará recebendo a mim mesmo. E quem me receber, estará recebendo Aquele que me enviou. Pois aquele que entre todos vós for o menor, esse é o maior». Tomando a palavra, João disse: «Mestre, vimos alguém expulsar demônios em teu nome, mas nós lhe proibimos, porque não anda conosco». Jesus respondeu: «Não o proibais, pois quem não é contra vós, está a vosso favor».

Comentário: Prof. Dr. Mons. Lluís CLAVELL (Roma, Italia)

Aquele que entre todos vós for o menor, esse é o maior

Hoje, caminho de Jerusalém em direção à Paixão, «surgiu entre os discípulos uma discussão sobre qual deles seria o maior» (Lc 9,46). Cada dia os meios de comunicação e também nossas conversas estão cheias de comentários sobre a importância das pessoas: dos outros e de nós mesmos. Esta lógica só humana produz, freqüentemente, desejo de vitoria, de ser reconhecido, apreciado, correspondido, e a falta de paz, quando estes reconhecimentos não chegam.

A resposta de Jesus a estes pensamentos -até mesmo comentários- dos discípulos, lembra o estilo dos antigos profetas. Antes das palavras estão os gestos. Jesus «pegou uma criança, colocou-a perto de si» (Lc 9,47). Depois vem o ensinamento: «aquele que entre todos vós for o menor, esse é o maior» (Lc 9,48). -Jesus, por que custa tanto aceitar que isto não é uma utopia para as pessoas que não estão implicadas no tráfico de uma tarefa intensa, na qual não faltam os golpes de uns contra os outros, e que, com a tua graça, podemos vivê-lo todos? Se o fizéssemos, teríamos mais paz interior e trabalharíamos com mais serenidade e alegria.

Esta atitude é também a fonte da onde brota a alegria, ao ver que outros trabalham bem por Deus, com um estilo diferente do nosso, mas sempre assumindo o nome de Jesus. Os discípulos queriam impedi-lo. Em troca, o Mestre defende aquelas outras pessoas. Novamente, o fato de sentir-nos filhos pequenos de Deus facilita-nos a ter o coração aberto para todos e crescer na paz, na alegria e na gratidão. Estes ensinamentos valeram à Santa Teresinha de Lisieux o titulo de Doutora da Igreja: em seu livro História de uma alma, ela admira o belo jardim de flores que é a Igreja, e está contenta de perceber-se uma pequena flor. Ao lado dos grandes santos -rosas e açucenas- estão as pequenas flores -como as margaridas ou as violetas- destinadas a dar prazer aos olhos de Deus, quando Ele dirige o seu olhar à terra.

sábado, 28 de setembro de 2013

29 de setembro - São Gabriel Arcanjo, Anjo da Guarda de nossa Ordem

Rezemos pela nossa Ordem, nossa Província e nosso Sodalício

LADAINHA DE SÃO GABRIEL, ANJO DA GUARDA DA ORDEM DO CARMO.

Senhor tende piedade de nós.
Cristo tende piedade de nós.
Senhor tende piedade de nós.

Cristo ouvi-nos.
Cristo atendei-nos.

Deus Pai do Céu, tende piedade de nós.
Deus Filho Redentor do mundo, tende piedade de nós.
Deus Espírito Santo, tende piedade de nós.
Santíssima Trindade, um só Deus, tende piedade de nós.

Santa Maria, Rainha dos Anjos, rogai por nós.
Santa Maria, honra e esplendor do Carmelo.

São Gabriel, glorioso Arcanjo,
São Gabriel, força de Deus,
São Gabriel, defensor dos carmelitas,
São Gabriel, Anjo da Guarda da Ordem do Carmo,
São Gabriel, que assistis diante do trono de Deus,
São Gabriel, embaixador de Deus Pai,
São Gabriel, servidor do Verbo,
São Gabriel, adorador da Luz eterna,
São Gabriel, mensageiro da esperança,
São Gabriel, mensageiro da Revelação de Deus,
São Gabriel, portador da Boa-Nova da Redenção,
São Gabriel, embaixador de Deus junto a Zacarias e a Maria,
São Gabriel, amigo e conselheiro da Mãe de Deus,
São Gabriel, guardião da Virgem Imaculada,
São Gabriel, que predissestes a grandeza de Jesus,
São Gabriel, guia e auxiliador de São José,
São Gabriel, anjo consolador de Jesus no Getsemani,
São Gabriel, mestre e apoio do profeta Daniel,
São Gabriel, patrono dos pais e mestres,
São Gabriel, guia para a união com Maria,
São Gabriel, consolador dos que sofrem,
São Gabriel, fortaleza dos fracos,
São Gabriel, protetor contra o maligno,
São Gabriel, guardião de nosso Batismo,
São Gabriel, patrono dos sacerdotes,
São Gabriel, escudo da castidade,
São Gabriel, guia dos desorientados,
São Gabriel, conselheiro dos confundidos,
São Gabriel, modelo de oração,
São Gabriel, arauto da Encarnação do Verbo,
São Gabriel, que revelastes as glórias de Maria,
São Gabriel, Príncipe do Céu,
São Gabriel, paz e luz das almas,
São Gabriel, flagelo dos incrédulos,
São Gabriel, mestre admirável,
São Gabriel, força dos justos,
São Gabriel, protetor dos fiéis,
São Gabriel, primeiro adorador da Palavra divina,
São Gabriel, defensor da Fé,
São Gabriel, zeloso pela honra de Jesus Cristo,
Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, perdoai-nos, Senhor.
Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, ouvi-nos, Senhor.
Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, tende misericórdia de nós.

V. Rogai por nós, santo Arcanjo Gabriel,
R. para que sejamos dignos das promessas de Jesus Cristo.

Oremos:
Ó Deus que de entre todos os anjos vos dignastes escolher o Arcanjo Gabriel para anunciar o Mistério da vossa Encarnação, fazei com que, celebrando a sua festa na terra, mereçamos no Céu a sua proteção. Vós que viveis e reinais para sempre. Amém.

XXVI Domingo do Tempo Comum

«… não se deixarão convencer, se alguém ressuscitar dos mortos»

Pe. Tarcízio Morais, sdb

Uma parábola. Dois mundos em contraste: um feito de riqueza e indiferença; o outro feito de pobreza e sofrimento. Duas histórias de vida com fins distintos. E uma pergunta que a todos deve questionar: depois do anúncio de Jesus, das suas bem-aventuranças, da sua morte e ressurreição, também nós nos deixamos convencer pela Sua mensagem e testemunho, ou continuamos a viver indiferentes ao que nos rodeia? Que fazemos, afinal com os dons que recebemos de Deus? Escutar a realidade do irmão que passa necessidade é a medida da nossa fé e afinal aquilo que dá sentido à vida e garante uma realização feliz ou infeliz para todo o sempre.

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas (Lc 16, 19-31) - Naquele tempo, disse Jesus aos fariseus: «Havia um homem rico, que se vestia de púrpura e linho fino e se banqueteava esplendidamente todos os dias. Um pobre, chamado Lázaro, jazia junto do seu portão, coberto de chagas. Bem desejava saciar-se do que caía da mesa do rico, mas até os cães vinham lamber-lhe as chagas. Ora sucedeu que o pobre morreu e foi colocado pelos Anjos ao lado de Abraão. Morreu também o rico e foi sepultado. Na mansão dos mortos, estando em tormentos, levantou os olhos e viu Abraão com Lázaro a seu lado. Então ergueu a voz e disse: ‘Pai Abraão, tem compaixão de mim. Envia Lázaro, para que molhe em água a ponta do dedo e me refresque a língua, porque estou atormentado nestas chamas’. Abraão respondeu-lhe: ‘Filho, lembra-te que recebeste os teus bens em vida e Lázaro apenas os males. Por isso, agora ele encontra-se aqui consolado, enquanto tu és atormentado. Além disso, há entre nós e vós um grande abismo, de modo que se alguém quisesse passar daqui para junto de vós, ou daí para junto de nós, não poderia fazê-lo’. O rico insistiu: ‘Então te peço, ó pai, que mandes Lázaro à minha casa paterna – pois tenho cinco irmãos – para que os previna, a fim de que não venham também para este lugar de tormento’. Disse-lhe Abraão: ‘Eles têm Moisés e os Profetas: que os ouçam’. Mas ele insistiu: ‘Não, pai Abraão. Se algum dos mortos for ter com eles, arrepender-se-ão’. Abraão respondeu-lhe: ‘Se não dão ouvidos a Moisés nem aos Profetas, também não se deixarão convencer, se alguém ressuscitar dos mortos’».

MEDITAÇÃO

«Naquele tempo, disse Jesus aos fariseus: «Havia um homem rico, que se vestia de púrpura e linho fino e se banqueteava esplendidamente todos os dias. Um pobre, chamado Lázaro, jazia junto do seu portão, coberto de chagas.»

Os destinatários primeiros desta parábola são os fariseus que está apenas presente em Lucas. Dois mundos, duas realidades antagônicas, duas vidas em paralelo, sem se encontrarem nunca. Um rico e um pobre. Um veste púrpura e linho fino, banqueteando-se com as melhores iguarias. O outro, coberto de chagas, de nome Lázaro, nome derivado do hebraico que significa “Deus ajuda”. Na sua pobreza, a bem-aventurança; na sua riqueza, a perdição eterna.
A uma riqueza sem nome, corresponde a pobreza com nome próprio. A Lázaro tocou-lhe a pior parte desta vida: mendigo de existência, como tantos milhares de seres humanos hoje, está prostrado à porta da casa do rico sem nome. Coberto das chagas da indiferença, do esquecimento de todos, vive já sem viver em si. Com a pobreza de bem-aventurado. Com o sofrimento e a tristeza que lhe darão a vida inteira. Lázaro, “Deus ajuda”, parece aqui esquecido por Deus e esquecido por todos. Como também nós queremos esquecer as mil necessidades de quem passa à nossa porta, ou nos entra pelos media, porta dentro, em nossa casa. Se o pecado maior que podemos admitir é a indiferença, muito há a perdoar. De muito nos temos que arrepender. Basta pensar: que fazes quando te dás, cara-a-cara, com um pobre miserável?

«Bem desejava saciar-se do que caía da mesa do rico, mas até os cães vinham lamber-lhe as chagas. Ora sucedeu que o pobre morreu e foi colocado pelos Anjos ao lado de Abraão. Morreu também o rico e foi sepultado. Na mansão dos mortos, estando em tormentos, levantou os olhos e viu Abraão com Lázaro a seu lado.»

Nesta primeira parte da parábola, percebemos a vida no âmbito terrestre dos dois protagonistas. Bem desejava Lázaro, apenas, o que caía da mesa do rico. A cena muda de forma drástica com a morte de ambos que, para o pobre, é início de uma vida nova (no seio de Abraão, que significa a plenitude da vida no além da morte) enquanto que para o rico é uma condenação lapidária (“foi sepultado) por uma vida dissipada em coisas secundárias.
Esquecido, abandonado, em tormento e sofrimento, muito pouco desejava. Contentava-se com pouco, mas nem sequer as poucas migalhas lhe eram destinadas, quanto mais participar do banquete. E é nos cães da rua (“animais impuros”) onde encontra compaixão e atenção (uma imagem fortíssima e inquietante). Na hora da eternidade, Lázaro participa de outro banquete de eternidade, ao contrário do rico, condenado à mansão de tormentos, no inferno da distância de Deus. Quantas vezes nos condenamos à distância de Deus, porque demasiado desatentos a tudo o que nos rodeia? Esta é a parábola do nosso presente: enquanto muitos vivemos numa casa cômoda, outros a esta hora, estão na rua, sem outra manta que uns poucos cartões, sem outra luz que os candeeiros da rua. E tu, quê?

«Então ergueu a voz e disse: ‘Pai Abraão, tem compaixão de mim. Envia Lázaro, para que molhe em água a ponta do dedo e me refresque a língua, porque estou atormentado nestas chamas’. Abraão respondeu-lhe: ‘Filho, lembra-te que recebeste os teus bens em vida e Lázaro apenas os males. Por isso, agora ele encontra-se aqui consolado, enquanto tu és atormentado.»

Pensando poder aproximar-se do novo banquete da abundância, o rico pede a intervenção de Abraão. Parece ainda não consciente da sua realidade, fazendo ainda de Lázaro seu servo. Invade-o uma sede que antes nunca sentira. Se um é consolado, o outro é atormentado e esquecido. Agora a riqueza transformou-se em condenação e a miséria em alegria. E Abraão recorda a história: recebeste os bens em vida, Lázaro apenas males. Mais não seria de esperar… afinal sempre se confirma: “bem aventurados os pobres, porque deles é o reino dos céus”.
Neste rico, encontramos a nossa civilização opulenta, consagrada aos bens materiais. Estamos ali personificados cada um de nós. O mundo da riqueza é substancialmente um mundo auto-referencial, suficiente por si mesmo e para si mesmo, fechado de forma hermética. A imagem do rico é a imagem de quem se sente entusiasmado pelas coisas e as coisas que prendem. Impedem a solidariedade e a entrega de si aos outros. É preciso colocar um “basta” na nossa cegueira, no nosso viver, na nossa opção de vida fundamental. É preciso despertar para o mundo que nos rodeia para que, descobrindo o verbo amar, vivamos construindo a nossa morada na eternidade! Afinal quem preferes ser: rico… ou Lázaro?

«Além disso, há entre nós e vós um grande abismo, de modo que se alguém quisesse passar daqui para junto de vós, ou daí para junto de nós, não poderia fazê-lo’. O rico insistiu: ‘Então te peço, ó pai, que mandes Lázaro à minha casa paterna – pois tenho cinco irmãos – para que os previna, a fim de que não venham também para este lugar de tormento’.»

O clamor do rico é agora impossível. É dramática esta situação: depois de um pouco de água, pede agora que envie Lázaro à sua casa para impedir que o seu mundo permaneça como até ali; para que os seus irmãos despertem da sua cegueira e da sua surdez, para que não tenham semelhante fim. Mas eis que o abismo que o rico escavou com a sua indiferença, torna impossível tal reencontro. Por isso esta parábola se dirige ao presente, aos cinco irmãos ainda em vida na abundância. Ao nosso presente. O rico pensa que para mudar a vida dos seus irmãos faz falta um milagre… e tu?
Deus, diante do abismo da nossa indiferença, não sabe como conquistar-nos, como amar-nos, como conduzir-nos a si. Deixemo-nos cativar, deixando-nos encher de compaixão e abertura a quem precisa e a quem sofre. Que é que nos leva a não poder ouvir, a sermos insensíveis à palavra e às situações dos outros? Esta parábola quer despertar-nos da nossa apatia e de impassibilidade em que caímos, chamando-nos à novidade da escuta da Palavra. Quem escuta a Palavra e a aceita na sua vida, abre os olhos ao mundo. Quem escuta a Palavra, encontra caminhos de conversão: e este é o verdadeiro milagre da vida. E todos os Lázaros desta terra experimentarão a alegria da proximidade, da ajuda, do compromisso, no amor de Deus, tornado amor experimentado, incondicionado e benevolente de cada um de nós. Interpelados nós também, que resposta damos? Ou estamos ainda à espera do milagre?

«Disse-lhe Abraão: ‘Eles têm Moisés e os Profetas: que os ouçam’. Mas ele insistiu: ‘Não, pai Abraão. Se algum dos mortos for ter com eles, arrepender-se-ão’.»

…Um milagre: que um morto, viva de novo. Trata-se de um realismo cru de quem conhece a dinâmica do dinheiro que fecha o coração humano à evidência da palavra profética, à dor e ao sofrimento do pobre, à exigência de justiça, ao amor e até à voz de Deus. Nem Moisés, nem os Profetas. É preciso um arrependimento que venha de dentro. Um verdadeiro arrependimento, mudança, transformação, escuta e novidade. Um milagre…
É interessante (e subtil) a descrição de Lucas que coloca na boca do rico vestido de púrpura, agora condenado, palavras de piedade e misericórdia “só” no momento do seu “Sheol”, morada dos mortos. Mas agora é já demasiado tarde. Torna-se nesta circunstância e ainda (de novo) magnânimo e preocupado com os seus semelhantes, os seus cinco irmãos, esquecendo o princípio fundamental. Mais ainda: o pobre Lázaro continua a ser protagonista da sua serventia. Ordena agora a Abraão que o envie aos seus irmãos. Mas Abraão corta a direito, fazendo apelo a Moisés e aos profetas. Não servem para nada as aparições miraculosas de defuntos… “Se Deus viesse ter comigo e falasse comigo de viva voz”… “Se houvesse um sinal concreto”… Que sinal precisamos ainda para a nossa conversão? Se a profecia dos pobres e o seu grito não nos são suficientes, que mais podemos esperar? Como é grande a nossa surdez e falta de fé…

«Abraão respondeu-lhe: ‘Se não dão ouvidos a Moisés nem aos Profetas, também não se deixarão convencer, se alguém ressuscitar dos mortos’».

A escuta da mensagem de Deus e a implicação da própria vida nessa mensagem são os motivos primeiros do seguimento dos cristãos. A escuta da Escritura é mais importante, segundo o evangelista, que um visível milagre – uma leitura que se dirige, certamente, aos cristãos da segunda geração que não gozam já das aparições do ressuscitado, e também a nós que por vezes pensamos que um “fato prodigioso” confirmaria a nossa fé vacilante.
Escutar a realidade do irmão que passa necessidade é a medida para escutar a Deus. Deus é supérfluo para quem não se comove perante a necessidade do próximo. Deus habita no pobre, Deus habita nas chagas de quem sofre, diria Madre Teresa. Hoje esta parábola questiona-nos profundamente: de que vale a minha oração, se estou cheio de tudo? De que vale a minha união com Deus se não entro em relação com o outro, com o pobre, com o necessitado de mim? De que vale o meu batismo se não arrisco a partilhar a minha alegria, o meu ser de Cristo e do seu Evangelho? Este texto convida-nos a voltarmos ao amor, à opção pelos pobres, à esperança na justiça de Deus, à confiança na sua Palavra. Mas, sobretudo a reencontrarmos a nossa vocação cristã à generosidade, à doação. A ressuscitarmos para uma vida nova!