domingo, 11 de setembro de 2022

Terça-Feira da 24ª semana do Tempo Comum

 São João Crisóstomo, bispo e doutor da Igreja

1ª Leitura (1Cor 12,12-14.27-31a): Irmãos: Assim como o corpo é um só e tem muitos membros e todos os membros do corpo, apesar de numerosos, constituem um só corpo, assim sucede também em Cristo. Na verdade, todos nós – judeus e gregos, escravos e homens livres – fomos batizados num só Espírito para constituirmos um só corpo; e a todos nos foi dado a beber um só Espírito. De fato, o corpo não é constituído por um só membro, mas por muitos. Vós sois o corpo de Cristo e sois os seus membros, cada um por sua parte. Assim, Deus estabeleceu na Igreja em primeiro lugar apóstolos, em segundo profetas, em terceiro, doutores. Vêm a seguir os dons dos milagres, das curas, da assistência, de governar, de falar diversas línguas. Serão todos apóstolos? Todos profetas? Todos doutores? Todos farão milagres? Todos terão o poder de curar? Todos falarão línguas? Terão todos o dom de as interpretar? Aspirai com ardor aos dons mais elevados.

Salmo Responsorial: 99
R. Nós somos o povo de Deus, somos as ovelhas do seu rebanho.

Aclamai o Senhor, terra inteira, servi o Senhor com alegria, vinde a Ele com cânticos de júbilo.

Sabei que o Senhor é Deus, Ele nos fez, a Ele pertencemos, somos o seu povo, as ovelhas do seu rebanho.

Entrai pelas suas portas, dando graças, penetrai em seus átrios com hinos de louvor, glorificai-O, bendizei o seu nome.

Porque o Senhor é bom, eterna é a sua misericórdia, a sua fidelidade estende-se de geração em geração.

Aleluia. Apareceu no meio de nós um grande profeta: Deus visitou o seu povo. Aleluia.

Evangelho (Lc 7,11-17): Naquele tempo, Jesus foi a uma cidade chamada Naim. Os seus discípulos e uma grande multidão iam com ele. Quando chegou à porta da cidade, coincidiu que levavam um morto para enterrar, um filho único, cuja mãe era viúva. Uma grande multidão da cidade a acompanhava. Ao vê-la, o Senhor encheu-se de compaixão por ela e disse: «Não chores!». Aproximando-se, tocou no caixão, e os que o carregavam pararam. Ele ordenou: «Jovem, eu te digo, levanta-te!». O que estava morto sentou-se e começou a falar. E Jesus o entregou à sua mãe. Todos ficaram tomados de temor e glorificavam a Deus dizendo: «Um grande profeta surgiu entre nós», e: «Deus veio visitar o seu povo». Esta notícia se espalhou por toda a Judeia e pela redondeza inteira.

«Jovem, eu te digo, levanta-te!»

+ Rev. D. Joan SERRA i Fontanet (Barcelona, Espanha)

Hoje se encontram duas comitivas. Uma comitiva que acompanha à morte e a outra que acompanha à vida. Uma pobre viúva seguida por seus familiares e amigos, levava o seu filho ao cemitério e de repente, vê a multidão que ia com Jesus. As duas comitivas se cruzam e se param, e Jesus lhe diz à mãe que ia enterrar o seu filho: «Não chores» (Lc 7,13). Todos ficam olhando Jesus, que não permanece indiferente a dor e ao sofrimento daquela pobre mãe, mas, pelo contrário, se compadece e lhe devolve a vida ao seu filho. E, é que encontrar a Jesus é encontrar a vida, pois Jesus disse de si mesmo: «Eu sou a ressurreição e a vida» (Jo 11,25). São Bráulio de Saragoça escreve: «A esperança da ressurreição deve-nos confortar, porque voltaremos a ver no céu a quem perdemos aqui».

Com a leitura do fragmento do Evangelho que nos fala da ressurreição do jovem de Naim, poderia salientar a divindade de Jesus e insistir nela, dizendo que somente Deus pode voltar um jovem à vida; mas hoje preferiria salientar a sua humanidade, para não ver Jesus como um ser alheio, como um personagem tão diferente de nós, ou como alguém tão excessivamente importante que não nos inspire a confiança que pode nos inspirar um bom amigo.

Os cristãos devemos saber imitar Jesus. Devemos pedir a Deus a graça de ser Cristo para os demais. Tomara que todo aquele que nos veja, possa contemplar uma imagem viva de Jesus na terra! Quem via São Francisco de Assis, por exemplo, via a imagem viva de Jesus. Os santos são aqueles que levam Jesus nas suas palavras e obras e imitam seu modo de atuar e a sua bondade. A nossa sociedade precisa de santos e você pode ser um deles no seu lugar.

Pensamentos para o Evangelho de hoje
«Cristo é a encarnação definitiva da misericórdia, seu sinal vivente » (São Joao Paulo II)

«O que mexia a Jesus em todas as circunstâncias não era senão a misericórdia, com a qual leia o coração dos interlocutores e respondia a suas necessidades mais reais» (Francisco)

«Jesus liga a fé na ressurreição a sua própria pessoa: “Eu sou a Ressurreição e a Vida” (Jo 11,25). (...) Ele dá um sinal disto mesmo e uma garantia, restituindo a vida a alguns mortos e preanunciando assim a sua própria ressurreição» (Catecismo da Igreja Católica, n° 994)

Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm.

* O evangelho de hoje traz o episódio da ressurreição do filho da viúva de Naim. É esclarecedor o contexto literário deste episódio no capítulo 7 do Evangelho de Lucas. O evangelista quer mostrar como Jesus vai abrindo o caminho, revelando a novidade de Deus que avança através do anúncio da Boa Nova. A transformação e a abertura vão acontecendo: Jesus acolhe o pedido de um estrangeiro não judeu (Lc 7,1-10) e ressuscita o filho de uma viúva (Lc 7,11-17). A maneira como Jesus revela o Reino surpreende aos irmãos judeus que não estavam acostumados com tão grande abertura. Até João Batista ficou perdido e mandou perguntar: “É o senhor ou devemos esperar por outro?” (Lc 7,18-30). Jesus chegou a denunciar a incoerência dos seus patrícios: "Vocês parecem crianças que não sabem o que querem!" (Lc 7,31-35). E no fim, a abertura de Jesus para com as mulheres (Lc 7,36-50).

* Lucas 7,11-12: O encontro das duas procissões
“Jesus foi para uma cidade chamada Naim. Com ele iam os discípulos e uma grande multidão. Quando chegou à porta da cidade, eis que levavam um defunto para enterrar; era filho único, e sua mãe era viúva. Grande multidão da cidade ia com ela”. Lucas é como um pintor. Com poucas palavras consegue pintar o quadro tão bonito do encontro das duas procissões: a procissão da morte que sai da cidade e acompanha a viúva que leva seu filho único para o cemitério; a procissão da vida que entra na cidade e acompanha Jesus. As duas se encontram na pequena praça junto à porta da cidade de Naim.

* Lucas 7,13: A compaixão entra em ação. “Ao vê-la, o Senhor teve compaixão dela, e lhe disse: Não chore!" É a compaixão que leva Jesus a falar e a agir. Compaixão significa literalmente “sofrer com”, assumir a dor da outra pessoa, identificar-se com ela, sentir com ela a dor. É a compaixão que aciona em Jesus o poder, o poder da vida sobre a morte, poder criador.

* Lucas 7,14-15: "Jovem, eu lhe ordeno, levante-se!" Jesus se aproxima, toca no caixão e diz: "Jovem, eu lhe ordeno, levante-se!" O morto sentou-se, e começou a falar. E Jesus o entregou à sua mãe”. Às vezes, na hora de um grande sofrimento provocado pelo falecimento de uma pessoa querida, as pessoas dizem: “Naquele tempo, quando Jesus andava pela terra havia esperança de não perder uma pessoa querida, pois Jesus poderia ressuscitá-la”. Elas olham o episódio da ressurreição do filho da viúva de Naim como um evento do passado que apenas suscita saudade e uma certa inveja. A intenção do evangelho, porém, não é suscitar saudade nem inveja, mas sim ajudar-nos a experimentar melhor a presença viva de Jesus em nós. É o mesmo Jesus, capaz de vencer a morte e a dor da morte, que continua vivo no meio de nós. Ele está hoje conosco e, diante dos problemas e do sofrimento que nos abatem, ele nos diz: “Eu lhe ordeno: levante-se!”

* Lucas 7,16-17: A repercussão. “Todos ficaram com muito medo, e glorificavam a Deus, dizendo: "Um grande profeta apareceu entre nós, e Deus veio visitar o seu povo." E a notícia do fato se espalhou pela Judéia inteira, e por toda a redondeza”.  É o profeta que foi anunciado por Moisés (Dt 18,15). O Deus que nos veio visitar é o “Pai dos órfãos e o protetor das viúvas” (Sl 68,6; cf. Judite 9,11).

Para um confronto pessoal
1) Foi a compaixão que levou Jesus a ressuscitar o filho da viúva. Será que o sofrimento dos outros provoca em nós a mesma compaixão? O que faço para ajudar o outro a vencer a dor e criar vida nova?
2) Deus visitou o seu povo. Percebo as muitas visitas de Deus na minha vida e na vida do povo?

12 de setembro

Beata Maria de Jesus Lopez Rivas
Virgem de nossa Ordem
 
Nasceu em Tartanedo, Espanha, em 1560. Entrou para as carmelitas descalças de Toledo em 1577 e fez sua profissão religiosa em 1578. Aí passou toda a sua vida consagrada ao louvor divino, com exceção do tempo que dedicou à fundação do mosteiro de Cuerva, em 1585. Morreu em Toledo, no dia 13 de setembro de 1640. Santa Teresa de Jesus, apreciou-a muito. Foi insigne pela contemplação dos mistérios de Cristo, vividos, intimamente na sagrada Liturgia e numa plena experiência pessoal.
 
salmodia, leitura, responsório breve e preces do dia corrente.
 
LAUDES
Cântico Evangélico
Ant. Bendito seja Deus que nos abençoou com toda sorte de bênçãos espirituais, nos céus, em Cristo.
 
Oração
Ó Deus que concedestes à beata Maria de Jesus o dom da contemplação dos mistérios de vosso, Filho até tomar-se imagem viva de seu amor, concedei-nos. por sua intercessão, o ardor da fé que vê Jesus em todos e a caridade operosa que em vós revela sua presença. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho na unidade do Espírito Santo.
                   
VÉSPERAS
Cântico Evangélico
Ant
. Sede alegres ao compartilhardes os sofrimentos de Cristo para que, ao se manifestar sua glória, exulteis de gozo.

sábado, 10 de setembro de 2022

Segunda-feira da 24ª semana do Tempo Comum

Santíssimo Nome de Maria
Bta Maria de Jesus Lopez Rivas. Virgem de nossa Ordem

1ª Leitura (1Cor 11,17-26.33): Irmãos: Ao dar-vos as minhas instruções, não posso louvar as vossas assembleias, que, em vez de serem proveitosas, se tornam prejudiciais. Em primeiro lugar, ouço dizer que há entre vós divisões, quando vos reunis em assembleia; e em parte, acredito nisso. Na verdade, é preciso que haja divisões entre vós, para se manifestarem aqueles que resistem a esta prova. Quando vos reunis em comum, já não é para comer a ceia do Senhor, pois cada um se adianta a comer a sua própria ceia e, enquanto um passa fome, outro fica embriagado. Será que não tendes as vossas casas para comer e beber? Ou desprezais a Igreja de Deus e envergonhais aqueles que são pobres? Que vos direi? Devo louvar-vos? Nisto não vos louvo. Porque eu recebi do Senhor o que também vos transmiti: o Senhor Jesus, na noite em que ia ser entregue, tomou o pão e, dando graças, partiu-o e disse: «Isto é o meu Corpo, entregue por vós. Fazei isto em memória de Mim». Do mesmo modo, no fim da ceia, tomou o cálice e disse: «Este cálice é a nova aliança no meu Sangue. Todas as vezes que o beberdes, fazei-o em memória de Mim». Na verdade, todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, anunciareis a morte do Senhor, até que Ele venha. Portanto, irmãos, quando vos reunis para comer a ceia do Senhor, esperai uns pelos outros.

Salmo Responsorial: 39
R. Anunciai a morte do Senhor, até que Ele venha.

Não Vos agradaram sacrifícios nem oblações, mas abristes-me os ouvidos; não pedistes holocaustos nem expiações, então clamei: «Aqui estou».

«De mim está escrito no livro da Lei que faça a vossa vontade. Assim o quero, ó meu Deus, a vossa lei está no meu coração».

Proclamarei a justiça na grande assembleia, não fechei os meus lábios, Senhor, bem o sabeis.

Alegrem-se e exultem em Vós todos os que Vos procuram. Digam sempre: «Grande é o Senhor» os que desejam a vossa salvação.

Aleluia. Deus amou tanto o mundo que lhe deu o seu Filho unigénito; quem acredita n’Ele tem a vida eterna. Aleluia.

Evangelho (Lc 7,1-10): Quando terminou de falar estas palavras ao povo que o escutava, Jesus entrou em Cafarnaum. Havia um centurião que tinha um servo a quem estimava muito. Estava doente, à beira da morte. Tendo ouvido falar de Jesus, o centurião mandou alguns anciãos dos judeus pedir-lhe que viesse curar o seu servo. Quando eles chegaram a Jesus, recomendaram com insistência: «Ele merece este favor, porque ama o nosso povo. Ele até construiu uma sinagoga para nós». Jesus foi com eles. Quando já estava perto da casa, o centurião mandou alguns amigos dizer-lhe: «Senhor, não te incomodes, pois não sou digno de que entres em minha casa. Por isso, nem fui pessoalmente ao teu encontro. Mas dize uma palavra, e meu servo ficará curado. Pois eu, mesmo na posição de subalterno, tenho soldados sob as minhas ordens, e se ordeno a um: ‘Vai!’, ele vai; e a outro: ‘Vem!’, ele vem; e se digo a meu escravo: ‘Faze isto!’, ele faz». Ao ouvir isso, Jesus ficou admirado. Voltou-se para a multidão que o seguia e disse: «Eu vos digo que nem mesmo em Israel encontrei uma fé tão grande». Aqueles que tinham sido enviados voltaram para a casa do centurião e encontraram o servo em perfeita saúde.

«Eu vos digo que nem mesmo em Israel encontrei uma fé tão grande»

Fr. John A. SISTARE (Cumberland, Rhode Island, Estados Unidos)

Hoje somos confrontados com uma questão interessante. Porque o Centurião do Evangelho não foi pessoalmente ter com Jesus, mas preferiu mandar mensageiros com o pedido de cura para seu servo? O Centurião nos responde essa pergunta na passagem do Evangelho. «[...] nem fui pessoalmente ao teu encontro. Mas dize uma palavra, e meu servo ficará curado». (Lc 7,7).

O Centurião possuía a virtude da fé, acreditava que Jesus poderia fazer esse milagre se estivesse de acordo com sua divina vontade. A fé permitiu ao Centurião acreditar que onde quer que Jesus esteja, ele poderia curar o servo doente. O Centurião acreditava que nenhuma distância poderia impedir ou deter o Cristo de fazer sua obra de salvação.

Em nossas próprias vidas, somos chamados a ter esse mesmo tipo de fé. Há momentos em que somos tentados a pensar que Jesus está distante e não ouve nossas orações. Entretanto, a fé ilumina nossas mentes e corações, para que acreditemos que Jesus está sempre ao nosso lado para nos ajudar. Em verdade, a presença curativa de Jesus na Eucaristia é um lembrete de que Jesus está sempre conosco. Santo Agostinho, com os olhos da fé, acreditava nesta realidade: «O que vemos é o pão e o cálice; isso é o que nossos olhos nos mostram. Mas o que nossa fé nos obriga a aceitar é que o pão é o Corpo de Cristo e o cálice é o Sangue de Cristo».

A Fé ilumina nossas mentes para que possamos enxergar a presença de Cristo em nosso meio. Como o Centurião, dizemos, «Não sou digno de que entreis em minha morada» (Lc 7,6). Da mesma forma, nos humilhamos diante de Nosso Senhor e Salvador e Ele ainda se aproxima para nos curar. Deixemos Jesus entrar em nossa alma, em nossa morada, para curar e fortalecer nossa fé para que possamos continuar nosso caminho em direção à Vida Eterna.

Pensamentos para o Evangelho de hoje
«Sabemos, pelas obras que são fruto da caridade, se a fé é viva ou morta. A fé viva é excelente porque, estando unida à caridade e vivificada por ela, é firme e constante. Faz muitas e boas obras, pelas quais merece ser louvada dizendo: "Oh, que fé tão grande!» (S. Francisco de Sales)

«O nosso tempo requer cristãos que cresçam na fé através da familiaridade com a Sagrada Escritura e os sacramentos. Pessoas que sejam quase um livro aberto que narra a experiência da vida nova no Espírito» (Bento XVI)

«Antes de mais, a fé é uma adesão pessoal do homem a Deus. Ao mesmo tempo, e inseparavelmente, é o assentimento livre a toda a verdade revelada por Deus (...)» (Catecismo da Igreja Católica, nº 150)

Reflexão

* O capítulo 7 do Evangelho de Lucas nos ajuda a acolher o chamado aos gentios para aderir à fé no Senhor Jesus. A figura do centurião abre o caminho para todos aqueles que querem aderir à fé de Israel e depois encontrar e conhecer o rosto do Pai em Jesus. Na meditação deste Evangelho, também é feita a proposta de nos abrirmos à fé ou fazer forte a nossa confiança na Palavra do Senhor. Tentemos, então, seguir, com o coração, os passos deste centurião romano, pois nele estamos presentes também nós.

* Talvez um primeiro aspecto, que emerge da leitura do trecho, é a situação de sofrimento em que se encontra o centurião. Tento ouvir mais atentamente todas as palavras que iluminam esta realidade. Cafarnaum, cidade de fronteira, fora de mão, à margem, cidade onde a bênção de Deus parece difícil de chegar. A doença grave; a morte iminente de um ente querido.

* Mas vejo imediatamente que o Senhor entra nesta situação, para compartilhá-la, para vivê-la com sua presença amorosa. Sublinho todos os verbos que confirmam esta verdade: "pedindo-lhe para ir", "foi com eles", "não era muito distante." É maravilhoso ver este movimento de Jesus, que vai para aquele que o chama, que o busca e lhe pede salvação. Assim Ele faz com cada um de nós.

* Mas, para mim, é muito útil entrar em contato com a figura do centurião, que aqui é um pouco como o meu mestre, meu guia no caminho da fé. "Tendo ouvido falar de Jesus." Ele recebeu o anúncio, ouviu a boa notícia e a guardou em seu coração, se não a deixou fugir, não fechou os ouvidos e a vida. Lembrou-se de Jesus e agora o busca.

* "Mandou." Por duas vezes ele executa essa ação, primeiro para enviar a Jesus os anciãos do povo, pessoas importantes, depois para enviar alguns de seus amigos. Lucas usa dois verbos diferentes e isso ajuda-me ainda mais para perceber que algo aconteceu neste homem, havia uma mudança: ele foi gradualmente se abrindo para o encontro com Jesus. Mandar os amigos é um pouco como enviar a si mesmo. "Para pedir-lhe para vir e salvar." Dois belíssimos verbos que expressam a intensidade de seu pedido a Jesus. Quer que Jesus venha, que se aproxime, que entre em sua pobre vida, que venha visitar a sua dor. É uma declaração de amor, de grande fé, porque é como se lhe dissesse: “Eu sem você não posso mais viver. Venha!” Ele não pede uma salvação qualquer, a cura superficial, como nos faz entender o verbo que Lucas escolhe. Na verdade, aqui se fala de uma salvação transversal, capaz de atravessar toda a vida, toda a pessoa e capaz de levar a pessoa mais, mais além de qualquer obstáculo, dificuldade ou prova, além de até mesmo a morte.

* "Não sou digno". Duas vezes Lucas coloca nos lábios do centurião estas palavras, que ajudam a compreender a grande mudança acontecida dentro dele. Ele se sente indigno, incapaz, insuficiente, como eles expressam os dois termos gregos aqui utilizados. Talvez a primeira conquista na caminhada de fé com Jesus é esta: a descoberta de nossa grande necessidade dele, da sua presença e consciência cada vez mais certa que sozinhos não podemos fazer nada, porque somos pobres, somos pecadores. Mas justamente por isso somos amados de modo infinito!

* "Dize uma palavra." Aqui está o grande salto, o grande passo para a fé. O centurião agora acredita de uma maneira clara, serena, confiante. Enquanto Jesus caminhava em direção a ele, ele também estava fazendo seu caminho interior, estava mudando, estava se tornando um novo homem. Antes aceitou a pessoa de Jesus e depois a sua palavra. Para ele é o Senhor e, como tal, a sua palavra é eficaz, verdadeira, poderosa, capaz de operar o que ele diz. Todas as dúvidas desabam; só resta é a fé e a confiança certa na salvação em Jesus.

Para um confronto pessoal
1) Faço minha a oração do centurião dirigida a Jesus para vir e salvá-lo? Eu estou pronto para expressar ao Senhor que tenho necessidade dele?
2) E se eu abro o meu coração à oração, à invocação, se convido o Senhor para vir, qual é a atitude profunda do meu coração? Há também em mim, como no centurião, a consciência de ser indigno/a?

sexta-feira, 9 de setembro de 2022

XXIV Domingo do Tempo Comum

São João Gabriel Perboyre, presbítero e mártir

1ª Leitura (Ex 32,7-11.13-14): Naqueles dias, o Senhor falou a Moisés, dizendo: «Desce depressa, porque o teu povo, que tiraste da terra do Egito, corrompeu-se. Não tardaram em desviar-se do caminho que lhes tracei. Fizeram um bezerro de metal fundido, prostraram-se diante dele, ofereceram-lhe sacrifícios e disseram: ‘Este é o teu Deus, Israel, que te fez sair da terra do Egito’». O Senhor disse ainda a Moisés: «Tenho observado este povo: é um povo de dura cerviz. Agora deixa que a minha indignação se inflame contra eles e os destrua. De ti farei uma grande nação». Então Moisés procurou aplacar o Senhor seu Deus, dizendo: «Por que razão, Senhor, se há de inflamar a vossa indignação contra o vosso povo, que libertastes da terra do Egito com tão grande força e mão tão poderosa? Lembrai-Vos dos vossos servos Abraão, Isaac e Israel, a quem jurastes pelo vosso nome, dizendo: ‘Farei a vossa descendência tão numerosa como as estrelas do céu e dar-lhe-ei para sempre em herança toda a terra que vos prometi’». Então o Senhor desistiu do mal com que tinha ameaçado o seu povo.

Salmo Responsorial: 50
R. Vou partir e vou ter com meu pai.

Compadecei-Vos de mim, ó Deus, pela vossa bondade, pela vossa grande misericórdia, apagai os meus pecados. Lavai-me de toda a iniquidade e purificai-me de todas as faltas.

Criai em mim, ó Deus, um coração puro e fazei nascer dentro de mim um espírito firme. Não queirais repelir-me da vossa presença e não retireis de mim o vosso espírito de santidade.

Abri, Senhor, os meus lábios e a minha boca anunciará o vosso louvor. Sacrifício agradável a Deus é um espírito arrependido: não desprezeis, Senhor, um espírito humilhado e contrito.

2ª Leitura (1Tim 1,12-17): Caríssimo: Dou graças Àquele que me deu força, Jesus Cristo, Nosso Senhor, que me julgou digno de confiança e me chamou ao seu serviço, a mim que tinha sido blasfemo, perseguidor e violento. Mas alcancei misericórdia, porque agi por ignorância, quando ainda era descrente. A graça de Nosso Senhor superabundou em mim, com a fé e a caridade que temos em Cristo Jesus. É digna de fé esta palavra e merecedora de toda a aceitação: Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores e eu sou o primeiro deles. Mas alcancei misericórdia, para que, em mim primeiramente, Jesus Cristo manifestasse toda a sua magnanimidade, como exemplo para os que hão de acreditar n’Ele, para a vida eterna. Ao Rei dos séculos, Deus imortal, invisível e único, honra e glória pelos séculos dos séculos. Amém.

Aleluia. Em Cristo, Deus reconcilia o mundo consigo e confiou-nos a palavra da reconciliação. Aleluia.

Evangelho (Lc 15,1-32): Todos os publicanos e pecadores aproximavam-se de Jesus para o escutar. Os fariseus e os escribas, porém, murmuravam contra ele. «Este homem acolhe os pecadores e come com eles». Então ele contou-lhes esta parábola: «Quem de vós que tem cem ovelhas e perde uma, não deixa as noventa e nove no deserto e vai atrás daquela que se perdeu, até encontrá-la? E quando a encontra, alegre a põe nos ombros e, chegando em casa, reúne os amigos e vizinhos, e diz: ‘Alegrai-vos comigo! Encontrei a minha ovelha que estava perdida ’ Eu vos digo: assim haverá no céu alegria por um só pecador que se converte, mais do que por noventa e nove justos que não precisam de conversão. E se uma mulher tem dez moedas de prata e perde uma, não acende a lâmpada, varre a casa e procura cuidadosamente até encontrá-la? Quando a encontra, reúne as amigas e vizinhas, e diz: ‘Alegrai-vos comigo! Encontrei a moeda que tinha perdido!’ Assim, eu vos digo, haverá alegria entre os anjos de Deus por um só pecador que se converte». E Jesus continuou. «Um homem tinha dois filhos. O filho mais novo disse ao pai: ‘Pai, dá-me a parte da herança que me cabe’. E o pai dividiu os bens entre eles. Poucos dias depois, o filho mais novo juntou o que era seu e partiu para um lugar distante. E ali esbanjou tudo numa vida desenfreada. Quando tinha esbanjado tudo o que possuía, chegou uma grande fome àquela região, e ele começou a passar necessidade. Então, foi pedir trabalho a um homem do lugar, que o mandou para seu sítio cuidar dos porcos. Ele queria matar a fome com a comida que os porcos comiam, mas nem isto lhe davam. Então caiu em si e disse: «Quantos empregados do meu pai têm pão com fartura, e eu aqui, morrendo de fome. Vou voltar para meu pai e dizer-lhe: ‘Pai, pequei contra Deus e contra ti; já não mereço ser chamado teu filho. Trata-me como a um dos teus empregados’. Então ele partiu e voltou para seu pai. Quando ainda estava longe, seu pai o avistou e foi tomado de compaixão. Correu-lhe ao encontro, abraçou-o e o cobriu de beijos. O filho, então, lhe disse: ‘Pai, pequei contra Deus e contra ti. Já não mereço ser chamado teu filho’. Mas o pai disse aos empregados: «Trazei depressa a melhor túnica para vestir meu filho. Colocai-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés. Trazei um novilho gordo e matai-o, para comermos e festejarmos. Pois este meu filho estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi encontrado’. E começaram a festa. O filho mais velho estava no campo. Ao voltar, já perto de casa, ouviu música e barulho de dança. Então chamou um dos criados e perguntou o que estava acontecendo. Ele respondeu: ‘É teu irmão que voltou. Teu pai matou o novilho gordo, porque recuperou seu filho são e salvo’. Mas ele ficou com raiva e não queria entrar. O pai, saindo, insistiu com ele. Ele, porém, respondeu ao pai: ‘Eu trabalho para ti há tantos anos, jamais desobedeci a qualquer ordem tua. E nunca me deste um cabrito para eu festejar com meus amigos. Mas quando chegou esse teu filho, que esbanjou teus bens com as prostitutas, matas para ele o novilho gordo’. Então o pai lhe disse: ‘Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu. Mas era preciso festejar e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e tornou a viver, estava perdido e foi encontrado’».

«Haverá (...) alegria entre os anjos de Deus por um só pecador que se converte»

Rev. D. Alfonso RIOBÓ Serván (Madrid, Espanha)

Hoje consideramos uma das parábolas mais conhecidas do Evangelho: a do filho pródigo, que, advertindo a gravidade da ofensa feita ao seu pai, regressa a ele e é acolhido com grande alegria.

Podemos retornar ao começo da passagem, para encontrar a ocasião que permite a Jesus Cristo expor esta parábola. Sucedia, segundo nos diz a Escritura, que «Todos os publicanos e pecadores aproximavam-se de Jesus para o escutar» (Lc 15,1), e isto surpreendia aos fariseus e escribas, que murmuravam: «Os fariseus e os escribas, porém, murmuravam contra ele. «Este homem acolhe os pecadores e come com eles» (Lc 15,2). Parece-lhes que o Senhor não deveria compartilhar seu tempo e sua amizade com pessoas de vida pouco correta. Fecham-se ante quem, longe de Deus, necessita conversão.

Mas, se a parábola ensina que ninguém está perdido para Deus, e anima a todo pecador enchendo-lhe de confiança e fazendo-lhe conhecer sua bondade, encerra também um importante ensinamento para quem, aparentemente, não necessita converter-se: não julgue que alguém é “mal” nem exclua a ninguém, procure atuar em todo momento com a generosidade do pai que aceita a seu filho. O receio do filho mais velho, relatado ao final da parábola, coincide com o escândalo inicial dos fariseus.

Nesta parábola não somente é convidado à conversão quem patentemente a necessita, mas também quem não acha necessitá-la. Seus destinatários não são somente os publicanos e pecadores, mas igualmente os fariseus e escribas; não são somente os que vivem dando as costas a Deus, e talvez nós, que recebemos tanto Dele e que, no entanto, nos conformamos com o que lhe damos em troca e não são generosos no tratamento com os outros. Introduzido no mistério do amor de Deus — nos diz o Concilio Vaticano II— recebemos uma chamada a começar uma relação pessoal com Ele mesmo, a empreender um caminho espiritual para passar do homem velho ao novo homem perfeito segundo Cristo.

A conversão que necessitamos poderia ser menos chamativa, mas talvez haja de ser mais radical e profunda, e mais constante e mantida: Deus nos pede que nos convertamos ao amor.

Pensamentos para o Evangelho de hoje
«A alegria é um dom cristão. Só se oculta quando ofende a Deus, porque o pecado é produto do egoísmo, e o egoísmo é causa de tristeza. Se nos purificarmos no santo Sacramento da Penitência, Deus vem ao nosso encontro e perdoa-nos» (São Josemaria)

«Ele é o Deus da misericórdia: ele nunca se cansa de nos perdoar. Somos nós que nos cansamos de pedir perdão, mas Ele não se cansa; Ele ganha no amor» (Francisco)

«Ao celebrar o sacramento da Penitência, o sacerdote exerce o ministério do Bom Pastor que procura a ovelha perdida: do bom Samaritano que cura as feridas; do Pai que espera pelo filho pródigo e o acolhe no seu regresso (...) Em resumo, o sacerdote é sinal e instrumento do amor misericordioso de Deus para com o pecador» (Catecismo da Igreja Católica, nº 1.465)

Este meu filho estava morto, mas agora está vivo.

Escrito por P. Américo no site DOMUS IESU

Este texto evangélico faz parte dum conjunto de três parábolas sobre a misericórdia de Deus: a da ovelha perdida, a da dracma perdida e a do chamado filho pródigo (que, pessoalmente, prefiro chamar «Parábola do Pai misericordioso»). Têm todas o mesmo fundo comum: Jesus responde aos fariseus e escribas que O criticam por privilegiar nas suas atitudes de compreensão e bondade os que eram marginalizados: «Este acolhe os pecadores e come com eles» (Lc 15,2b). O evangelista Lucas tem um gosto especial em realçar a misericórdia de Deus (por isso mesmo se diz que o seu é o Evangelho da Misericórdia) e as parábolas de hoje são disso o exemplo mais cabal, nomeadamente a do Pai Misericordioso. O pai da parábola, como é óbvio, é a figura central da história e, no fundo, o convite que é feito àqueles que se julgam justos e cumpridores (como o filho mais velho, que simboliza os fariseus e escribas) é no sentido de que tenham um coração grande, capaz de acolher a todos, incluindo os pecadores. Sem necessidade de fazermos uma leitura social ou política das parábolas (que não é essa a intenção da Bíblia), há que chegar à conclusão de que, para Deus, nada é impeditivo de que os mais marginalizados sejam objeto do seu perdão e do seu amor. Aliás, é o próprio Deus que toma a iniciativa de «correr» para os necessitados, para os filhos pródigos, a fim de os acolher nos braços infinitos da sua bondade. As histórias contadas por Jesus são de facto um convite explícito a que saibamos abrir o coração para acolher aqueles que mais precisam.

* A experiência do perdão. Eu disse num comentário às leituras dum dos domingos precedentes que ao cristão não compete julgar as pessoas, mas sim amá-las e compreendê-las. O tema deste domingo que é, sem dúvida, o do perdão, insere-se perfeitamente na mesma lista de princípios. O texto básico, como não podia deixar de ser, é o evangélico (exclusivo de S. Lucas), ou seja, a «Parábola do Pai Misericordioso, popularmente mais conhecida por «Parábola do Filho Pródigo».

É escusado dizer que o pai da parábola a quem se refere Jesus é o próprio Deus, cuja maneira de «ver» as pessoas e as coisas é muito diferente da maneira de ver dos homens. Trata-se de uma parábola totalmente em oposição à mentalidade dos contemporâneos de Jesus e também à mentalidade dos dias de hoje. Nesse sentido, é estranha. Como me parece estranha outra parábola: a parábola do patrão que sai a várias horas do dia para convidar operários para a sua vinha e, no fim da jornada, paga a todos a mesma coisa, ou seja, o que tinha combinado com todos.

E a conclusão pode ser mais ou menos a mesma: «Porventura tu hás de ser mau só porque eu sou bom?» (comparar Lc 15,1-32 com Mt 20,1-16).

* A face de Deus é o amor. A atitude de Jesus em relação aos pecadores e aos marginalizados abate as barreiras de carácter religioso e social. Perante isso, os representantes religiosos de Israel murmuram, sentem-se orgulhosos da sua segurança moral, pensam que a religião é uma prerrogativa deles e não podem suportar que alguém (no caso, Jesus) fale dum Deus que «pertence» também aos outros.

O «Deus de Jesus Cristo» destrói as estruturas de pensamento dos que pensam que lhes é possível apropriarem-se de Deus. Obviamente, ao contar a parábola em questão, Jesus não tem a intenção de louvar os pecadores, as prostitutas, os publicanos, o filho pródigo, mas dizer sem margem para dúvidas que é errado apresentar a Deus exclusivamente como um juiz impiedoso que está só à espera do mínimo deslize para mandar as pessoas para as profundezas do inferno.
Deus dá sempre novas oportunidades às pessoas (sejam quais forem os caminhos que porventura tenham seguido) para voltar à casa paterna, onde lhes oferece, perdão, amor e um ambiente de festa para morar. E ainda bem, acrescento eu, porque essas pessoas - quem sabe - podemos ser precisamente nós.

É este, antes de mais, o rosto de bondade do Pai que Jesus quer mostrar aos homens. Seria incorreto afirmar que, no fim, quaisquer que sejam as opções que os homens façam, tudo é passado com uma esponja. Pessoalmente, acho que não temos necessidade de nos aventurarmos nesse campo. Agora, o que me parece incorreto afirmar categoricamente que Deus, ao conceder oportunidades contínuas às pessoas, está a ser «injusto», porque - somos nós sempre a pensar - os injustos merecem o castigo. Mas por que carga de água é que nunca nos pomos na categoria dos injustos?

* O ponto fulcral da parábola. A parábola do «Pai Misericordioso» não termina nem atinge o seu ponto mais alto nesta cena encantadora do abraço paterno ao filho pródigo (embora na apresentação da leitura evangélica eu tenha omitido a segunda parte por falta de espaço). Esse abraço fraterno é algo de estupendo para cada um de nós, porque também nós, duma maneira ou doutra, somos precisamente esse filho pródigo.

Para Jesus, o amor do pai que perdoa é um fato descontado e Ele limita-se a confirmar essa bondade de um Pai que manda fazer festa pelo filho pródigo que volta a casa. Agora, o que me parece que a Ele mais lhe importe é realçar a maneira de reagir do chamado «filho bom», que nunca tinha feito nada de mal e que se recusa a entrar em casa para fazer festa em honra do «malvado» filho mais novo que tinha voltado. E, já agora, posso acrescentar que, hoje, esse filho bom pode ser qualquer um de nós. No contexto do Evangelho, o filho bom é o próprio Israel que, por sua vez, é o paradigma de qualquer outro povo e também de qualquer indivíduo.

Dito de outra maneira, os justos de Israel (como o irmão mais velho da parábola como que se «mordem» todos pelo facto de o Pai acolher os pecadores e de lhes oferecer o seu banquete. Eles pensavam que a salvação era propriedade sua e assim julgavam que podiam organizar à sua vontade as leis do bem e do mal. Agora, porém, descobrem que a lei daquele Pai é diversa e, com isso, sentem-se traídos e desiludidos.

Daqui podemos tirar pelos menos três grandes conclusões: Deus revela-se nas parábolas (e não apenas na do presente trecho evangélico) como princípio dum amor que procura o que estava perdido, que perdoa e que recria continuamente. No fundo, o Evangelho define-se partindo desta revelação de amor. S. João dirá mais tarde simplesmente que Deus é amor. Em segundo lugar, quando nos escandizamos pela maneira de proceder de Deus, isso está a indicar, no fundo, que, no fundo, recusamos a verdadeira natureza de Deus, que é bondade de amor. É que, afinal de contas, temos que reconhecer, pela parábola, que Deus não é aquele que nós julgamos que é, porque o rosto de Deus é o amor e o perdão, como nos é revelado por Jesus Cristo.

* Perdoai-nos a nós pecadores. Normalmente, pode acontecer que, quando lemos qualquer página do Evangelho (como, por exemplo, esta parábola) fiquemos de fora como espectadores neutrais. No caso desta parábola que temos entre mãos, somos bem capazes de julgar o jovem que sai de casa como rebelde, estroina e malcomportado e, depois, quem sabe, acabar por julgar também o irmão mais velho, que não teve a generosidade suficiente para perdoar ao seu irmão mais novo. E nós lá nos vamos acomodando numa espécie de meio termo, em que não temos que nos responsabilizar nem quanto ao comportamento do mais novo nem quanto ao do mais velho, cuja característica é a indiferença.

Ora, aqui é preciso proceder a uma inversão purificadora de mentalidade. E a operação, no fundo, é muito simples. Trata-se de aplicar a nós próprios os textos que lemos, que não aos outros e somente aos outros. De resto, é para isso mesmo que a Igreja no-los apresenta. Culpabilizar os dois jovens da parábola e inclusivamente culpabilizar as pessoas de hoje é relativamente fácil. Culpabilizar-se a si mesmo é que é mais difícil, mas mais necessário. Mas culpabilizar-se não quer dizer deixar-me invadir por um sentimento de pessimismo e de falta de confiança nas minhas possibilidades, mas, sim, para criar aquele ambiente que me permita regressar ao Pai, exatamente como fez o filho mais novo, depois de ter levado uma vida que não tinha nada de recomendável.

* O perdão é uma necessidade. Quer a nossa vida se assemelhe à do filho mais novo, quer se assemelhe à do mais velho, é certo que não estamos livres de ter que levar alguma «reprimenda», sobretudo quando baseamos as nossas exigências em princípios de justiça como nós a entendemos e que imaginamos sempre como a verdadeira. Só que a justiça de Deus não é exatamente a nossa justiça. Como diz Isaías da maneira de ser de Deus, «os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos os meus caminhos, diz o Senhor. Porque assim como os céus são mais altos do que a terra, assim são os meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos, e os meus pensamentos mais altos do que os vossos pensamentos» (Is 55,8-9).

A salvação como tal depende unicamente do amor de Deus. Isso não significa que não tenhamos sequer que a aceitar. É que, efetivamente, a salvação de Deus só será «nossa» quando a aceitarmos na nossa vida. Mas não podemos esquecer que, como criaturas, não podemos nunca nos colocar em pé de igualdade com Deus.
Discutir, pois, com Deus sobre a justeza ou não das suas atitudes equivale a querer que Ele seja feito à nossa imagem e semelhança. Ora é precisamente ao contrário que as coisas se passam. Que direito nós temos de «pleitear» com Ele?
Era esta uma pergunta que se fazia já o autor do livro de Jó. E é uma pergunta que me parece eternamente atual. Por conseguinte, o que podemos fazer é pedir perdão pelo mal que fizemos ou pelo bem que deixarmos de fazer, ao mesmo tempo que alimentamos uma confiança ilimitada na bondade e no amor de Deus, que enviou o seu filho não propriamente por causa dos justos, mas por causa dos pecadores, dos abandonados, dos pobres e dos necessitados. E Jesus não veio por causa dos «justos», porque esses, pelas suas atitudes, demonstram que não querem saber dele para nada.

* O homem hodierno precisa de Deus. Há na sociedade de hoje uma profunda inquietação. Vivemos submersos pelo movimento, pelas multidões, estamos sempre a empurrar-nos uns aos outros. E, no entanto, são incontáveis as pessoas que não são amadas por ninguém. Dá a impressão que não conta mais nada senão a eficiência económica. E, no entanto, parece que mesmo os que se apresentam como modelos supremos de eficiência económica não são felizes.

É que a felicidade só nasce se realmente as pessoas são reconhecidas como tais, se são estimadas, apreciadas e sobretudo amadas. Não existe «verdadeira experiência humana» sem esse respeito pela pessoa como tal.

Ora bem, Jesus revelou-nos um Deus que se interessa por cada um de nós, independentemente do que possamos ter. Ele é um Deus de amor e misericórdia, um Deus que vê os corações e que nos trata não com as regras da «justiça», mas nos envolve com o abraço do amor e do perdão. Mais, Ele é um Deus que quer que nós tratemos também os nossos irmãos com critérios que privilegiem a pessoa humana na sua profundidade e não nas vantagens que possa representar para a nossa conta bancária.

quinta-feira, 8 de setembro de 2022

Sábado XXIII do Tempo Comum

São Nicolau de Tolentino, presbítero

1ª Leitura (1Cor 10,14-22): Irmãos: Evitai adorar os falsos deuses. Falo-vos como a pessoas sensatas: ajuizai por vós o que vou dizer. Não é o cálice de bênção que abençoamos a comunhão com o Sangue de Cristo? Não é o pão que partimos a comunhão com o Corpo de Cristo? Visto que há um só pão, nós, embora sejamos muitos, formamos um só corpo, porque participamos do único pão. Olhai para o povo de Israel: Não estão os que comem as vítimas em comunhão com o altar? Que quero dizer com isto? Que a carne imolada aos ídolos é alguma coisa? Ou que o ídolo é alguma coisa? Pelo contrário, afirmo que as vítimas que os gentios sacrificam são imoladas aos demónios e não a Deus. E eu não quero que entreis em comunhão com os demónios. Não podeis beber do cálice do Senhor e do cálice dos demónios, não podeis participar da mesa do Senhor e da mesa dos demónios. Ou queremos desafiar o Senhor? Seremos nós mais fortes do que Ele?

Salmo Responsorial: 115
R. Oferecer-Vos-ei, Senhor, um sacrifício de louvor.

Como agradecerei ao Senhor tudo quanto Ele me deu? Elevarei o cálice da salvação, invocando o nome do Senhor.

Oferecer-Vos-ei um sacrifício de louvor, invocando, Senhor, o vosso nome. Cumprirei as minhas promessas ao Senhor na presença de todo o povo.

Aleluia. Se alguém me ama, guardará a minha palavra, diz o Senhor; meu Pai o amará e faremos nele a nossa morada. Aleluia.

Evangelho (Lc 6,43-49): Naquele tempo, Jesus disse a seus discípulos: «Não existe árvore boa que dê frutos ruins, nem árvore ruim que dê frutos bons. Cada árvore se reconhece pelo seu fruto. Não se colhem figos de espinheiros, nem uvas de urtigas. Quem é bom tira coisas boas do tesouro do seu coração, que é bom; mas quem é mau tira coisas más do seu tesouro, que é mau. Pois a boca fala daquilo de que o coração está cheio. Por que me chamais: Senhor! Senhor! mas não fazeis o que vos digo? Vou mostrar-vos com quem se parece todo aquele que vem a mim, ouve as minhas palavras e as põe em prática. É semelhante a alguém que, para construir uma casa, cavou fundo e firmou o alicerce sobre a rocha. Veio a enchente, a correnteza atingiu a casa, mas não conseguiu derrubá-la, porque estava bem construída. Aquele, porém, que ouve e não põe em prática, é semelhante a alguém que construiu uma casa no chão, sem alicerce. A correnteza atingiu a casa, e ela, imediatamente, desabou e ficou totalmente destruída».

«Cada árvore se reconhece pelo seu fruto»

P. Raimondo M. SORGIA Mannai OP (San Domenico di Fiesole, Florença, Itália)

Hoje, o Senhor nos surpreende fazendo “publicidade” de si mesmo. Não tenho a intenção de “escandalizar” ninguém com essa afirmação. É nossa publicidade em sentido mundano o que minimiza as coisas grandes e sobrenaturais. É prometer, por exemplo, que daqui a poucas semanas uma pessoa gorda possa perder cinco ou seis quilogramas usando um determinado “produto-engano” (e outras promessas semelhantes) o que nos faz olhar a publicidade com desconfiança. Mas quando a gente tiver um “produto” garantido cem por cento, —e como o Senhor— não vende nada por dinheiro, somente nos pede que acreditemos tendo Ele como guia e modelo de um perfeito estilo de vida, então essa “publicidade” não nos surpreenderá e nos parecerá a mais lícita do mundo. Não tem sido Jesus o maior “publicitário” ao dizer de si mesmo «Eu sou o Caminho, a Verdade, e a Vida» (Jo 14,6)?

Hoje afirma que quem «vem a mim, ouve as minhas palavras e as põe em prática» é prudente, «semelhante a alguém que, para construir uma casa, cavou fundo e firmou o alicerce sobre a rocha» (Lc 6,47-48), desse jeito obtém uma construção sólida e firme, que pode desafiar as batidas do mau tempo. Se, do outro jeito, quem edifica não tiver prudência, encontrará à casa derrubada, e se ele mesmo estiver no interior, no momento da batida da chuva, perderá a casa, mas também à vida.

Não é suficiente aproximar-se de Jesus, também é preciso ouvir com muita atenção seus ensinamentos e, principalmente, pô-los em prática, já que, inclusive, o curioso se aproxima dele, também o herege, o estudioso da história e da filologia…, Mas apenas será aproximando-nos, ouvindo, e fundamentalmente praticando a doutrina de Jesus, que levantaremos o edifício da santidade cristã, para exemplo de fiéis peregrinos e para glória da Igreja celestial.

Pensamentos para o Evangelho de hoje
«Os preceitos evangélicos nada mais são do que ensinamentos divinos, fundamentos que edificam a esperança, fundamentos que corroboram a fé, alimentos para o coração, garantia para a obtenção da salvação» (São Cipriano)

«Sejam prudentes e sábios, construam as vossas vidas sobre o firme fundamento que é Cristo. Então sereis bem-aventurados e a vossa alegria contagiará aos outros» (Bento XVI)

«(…) Os preceitos do Decálogo assentam os alicerces da vocação do homem, feito à imagem de Deus: proíbem o que é contrário ao amor de Deus e do próximo e prescrevem o que lhe é essencial (…)» (Catecismo da Igreja Católica, nº 1962)

Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm.

*
O evangelho de hoje traz a parte final do Sermão da Planície que é a versão que Lucas dá do Sermão da Montanha do evangelho de Mateus. Neste final, Lucas reúne

* Lucas 6,43-45: A parábola da árvore que dá bons frutos. "Não existe árvore boa que dê frutos ruins, nem árvore ruim que dê frutos bons; porque toda árvore é conhecida pelos seus frutos. Não se colhem figos de espinheiros, nem se apanham uvas de plantas espinhosas”. A carta do apóstolo Tiago serve como comentário para esta palavra de Jesus: “Por acaso, a fonte pode fazer jorrar da mesma mina água doce e água salobra?  Meus irmãos, por acaso uma figueira pode dar azeitonas, e uma videira pode dar figos? Assim também uma fonte salgada não pode produzir água” (Tiago 3,11-12). A pessoa bem formada na tradição da convivência comunitária faz crescer dentro de si uma boa índole que a leva a praticar o bem. Ele “tira coisas boas do bom tesouro do seu coração”, mas a pessoa que descuidou da sua formação terá dificuldade de produzir coisas boas. Ao contrário, “ele tira do seu mal coisas más, porque a boca fala daquilo de que o coração está cheio".  A respeito do “bom tesouro do coração” vale a pena lembrar o que diz o livro do Eclesiástico sobre o coração como fonte do bom conselho: “Siga o conselho do seu próprio coração, porque mais do que este ninguém será fiel a você. O coração do homem frequentemente o avisa melhor do que sete sentinelas colocadas em lugar alto. Além disso tudo, peça ao Altíssimo que dirija seu comportamento conforme a verdade” (Eclo 37,13-15).

* Lucas 6,46: Não basta dizer Senhor, Senhor. O importante não é falar bonito sobre Deus, mas é fazer a vontade do Pai e ser assim uma revelação do seu rosto e da sua presença no mundo.

* Lucas 6,47-49: Construir a casa sobre a rocha. Ouvir e praticar, esta é a conclusão final do Sermão da Montanha. Muita gente procurava segurança e poder religioso através de dons extraordinários ou de observâncias. Mas a segurança verdadeira não vem do poder, não vem de nada disso. Ela vem de Deus! E Deus se torna fonte de segurança, quando procuramos praticar a sua vontade. Aí, Ele será a rocha que nos sustenta na hora das dificuldades e das tempestades.

* Deus como rocha da nossa vida. No livro dos Salmos, frequentemente encontramos a expressão: “Deus é a minha rocha e a minha fortaleza... Meus Deus, rocha minha, meu refúgio, meu escudo, força que me salva...” (Sl 18,3). Ele é a defesa e a força de quem nele acredita e busca a justiça (Sl 18,21.24). As pessoas que confiam neste Deus, tornam-se, por sua vez, uma rocha para os outros. Assim, o profeta Isaías faz um convite ao povo que estava no cativeiro: "Vocês que estão à procura da justiça e que buscam a Deus! Olhem para a rocha da qual foram talhados, para a pedreira da qual foram extraídos. Olhem para Abraão, seu pai, e para Sara, sua mãe” (Is 51,1-2). O profeta pede para o povo não esquecer o passado e lembrar como Abraão e Sara pela fé em Deus se tornaram rocha, começo do povo de Deus. Olhando para esta rocha, o povo devia criar coragem para lutar e sair do cativeiro. Do mesmo modo, Mateus exorta as comunidades para que tenham como alicerce a mesma rocha (Mt 7,24-25) e possam, dessa maneira, elas mesmas ser rocha para fortalecer os seus irmãos na fé. Este é também o sentido do nome que Jesus deu a Pedro: “Você é Pedro e sobre esta pedra construirei a minha Igreja” (Mt 16,18). Esta é a vocação das primeiras comunidades, chamadas a unir-se a Jesus, a pedra viva, para tornarem-se, também elas, pedras vivas pela escuta e pela prática da Palavra (Pd 2,4-10; 2,5; Ef 2,19-22).

Para um confronto pessoal
1) Qual a qualidade do meu coração?
2) Minha casa está construída sobre a rocha?

quarta-feira, 7 de setembro de 2022

Sexta-feira da 23ª semana do Tempo Comum

São Pedro Claver, presbítero

1ª Leitura (1Cor 9,16-19.22b-27): Irmãos: Anunciar o Evangelho não é para mim um título de glória, é uma obrigação que me foi imposta. Ai de mim se não anunciar o Evangelho! Se o fizesse por minha iniciativa, teria direito a recompensa. Mas, como não o faço por minha iniciativa, desempenho apenas um cargo que me está confiado. Em que consiste, então, a minha recompensa? Em anunciar gratuitamente o Evangelho, sem fazer valer os direitos que o Evangelho me confere. Livre como sou em relação a todos, de todos me fiz escravo, para ganhar o maior número possível. Fiz-me tudo para todos, a fim de ganhar alguns a todo o custo. E tudo faço por causa do Evangelho, para me tornar participante dos seus bens. Não sabeis que na corrida dos estádios correm todos, mas só um recebe o prémio? Correi de modo que o alcanceis. Todo o atleta impõe a si mesmo rigorosas privações, para obter uma coroa corruptível; nós, porém, para recebermos uma coroa incorruptível. Eu corro, não como quem corre às cegas; eu luto, não como quem açoita o ar; mas castigo o meu corpo e reduzo-o à escravidão, não aconteça que, tendo pregado aos outros, venha eu a ser eliminado.

Salmo Responsorial: 83
R. Como é agradável a vossa morada, Senhor do Universo!

A minha alma suspira ansiosamente pelos átrios do Senhor. O meu ser e a minha carne exultam no Deus vivo.

Até as aves do céu encontram abrigo e as andorinhas um ninho para os seus filhos, junto dos vossos altares, Senhor dos Exércitos, meu Rei e meu Deus.

Felizes os que moram em vossa casa: podem louvar-Vos continuamente. Felizes os que em Vós encontram a sua força, os que trazem em seu coração os caminhos do santuário.

Porque o Senhor Deus é sol e escudo, Ele dá a graça e a glória. O Senhor não recusa os seus bens aos que procedem com retidão.

Aleluia. A vossa palavra, Senhor, é a verdade: consagrai-nos na verdade. Aleluia.

Evangelho (Lc 6,39-42): Naquele tempo, Jesus contou a seus discípulos uma parábola: «Pode um cego guiar outro cego? Não cairão os dois no buraco? O discípulo não está acima do mestre; todo discípulo bem formado será como o mestre. Por que observas o cisco que está no olho do teu irmão, e não reparas na trave que está no teu próprio olho? Como podes dizer a teu irmão: Irmão, deixa-me tirar o cisco do teu olho, quando não percebes a trave que está no teu próprio olho? Hipócrita! Tira primeiro a trave que está no teu olho e, então, enxergarás bem para tirar o cisco do olho do teu irmão».

«Todo discípulo bem formado será como o mestre»

Rev. D. Antoni CAROL i Hostench (Sant Cugat del Vallès, Barcelona, Espanha)

Hoje, as palavras do Evangelho nos fazem refletir sobre a importância do exemplo e de procurar para os outros uma vida de exemplo. Por tanto, o ditado popular diz que «Pai Exemplo é o melhor predicador», e o outro que diz «vale mais uma imagem do que mil palavras». Não podemos esquecer, que no cristianismo, todos -sem exceção! - somos guias, já que o Batismo nos dá uma participação no sacerdócio (mediação salvadora) de Cristo: por tanto, todos os batizados temos recebido o sacerdócio batismal. E todo sacerdócio, além da missão de santificar e ensinar aos outros, incorpora também o múnus -a tarefa- de encaminhar ou conduzir.

Sim, todos -queiramos ou não- com nosso comportamento, temos a oportunidade de ser modelo estimulante para os que nos rodeiam. Pensemos, por exemplo, na ascendência que os pais têm sobre os filhos, os professores sobre os alunos, as autoridades sobre os cidadãos, etc. O cristão, no entanto, deve ter uma consciência particularmente viva a respeito de tudo isto. Mas... «Pode um cego guiar outro cego?» (Lc 6,39).

Para nós, cristãos, é uma chamada de atenção aquilo que os judeus e as primeiras gerações de cristãos falavam de Jesus Cristo: «Ele fez bem todas as coisas» (Mc 7,37); «O Senhor começou fazer e ensinar» (At 1,1).

Devemos tentar fazer em obras tudo aquilo que cremos e professamos de palavra. Numa ocasião, o Papa Bento XVI, quando ainda era Cardeal Ratzinger, afirmava que «o perigo mais grave, são os cristãos adaptados», portanto, é o caso das pessoas que de palavra se professam católicas, mas na prática, com seu comportamento, não demonstram o radical próprio do Evangelho.

Ser radical, não é ser fanático (já que a caridade é paciente e tolerante) nem exagerado (pois, no amor não é possível exagerar). Como afirmou São João Paulo II, «o Senhor crucificado é um testemunho insuperável de amor paciente e mansa humildade»: não se trata de um fanático nem de um exagerado. Mas é radical até dizer como o centurião que assistiu sua morte «Na verdade, este homem era um justo» (Lc 23,47).

Pensamentos para o Evangelho de hoje
«Procurai adquirir as virtudes que julgais faltar aos vossos irmãos, e já não vereis os seus defeitos, porque não os tereis» (Santo Agostinho)

«A oração e os sacramentos obtêm para nós aquela luz da verdade, graças à qual podemos ser ao mesmo tempo ternos e fortes, usar de doçura e firmeza, calar e falar no tempo certo, repreender e corrigir com justiça» (Bento XVI)

«Pela caridade, amamos a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos, por amor de Deus. A caridade é o ‘vínculo da perfeição’ (Cl 3, 14) e a forma de todas as virtudes» (Catecismo da Igreja Católica, nº 1844)

Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm.

* O evangelho de hoje traz mais alguns trechos do discurso que Jesus pronunciou na planície depois de ter passado uma noite em oração (Lc 6,12) e de ter chamado o doze para serem seus apóstolos (Lc 6,13-14). Grande parte das frases reunidas neste discurso foram pronunciadas em outras ocasiões, mas Lucas, imitando Mateus, as reuniu aqui neste Sermão da Planície.

* Lucas 6,39: A parábola do cego guiando outro cego, Jesus contou uma parábola aos discípulos: "Pode um cego guiar outro cego? Não cairão os dois num buraco?” Parábola de uma linha só que tem muita semelhança com as advertências que, no evangelho de Mateus, são dirigidas aos fariseus: “Ai de vocês, guias cegos!” (Mt 23,16.17.19.24.26) Aqui no contexto do evangelho de Lucas, esta parábola é dirigida aos animadores das comunidades que se consideram donos da verdade, superiores aos outros. Por isso são guias cegos.

* Lucas 6,40: Discípulo - Mestre. “Nenhum discípulo é maior do que o mestre; e todo discípulo bem formado será como o seu mestre”. Jesus é Mestre. Não é professor. Professor dá aula em várias matérias, mas não convive. Mestre não dá aula, mas convive. A sua matéria é ele mesmo, o seu testemunho de vida, sua maneira de viver as coisas que ensina. A convivência com o mestre tem três aspectos: (1) O mestre é o modelo ou o exemplo a ser imitado (cf. Jo 13,13-15).  (2) O discípulo não só contempla e imita, mas também se compromete com o destino do mestre, com a suas tentações (Lc 22,28), perseguição (Mt 10,24-25), e morte (Jo 11,16).  (3) Não só imita o modelo, não só assume o compromisso, mas chega a identificar-se: "Vivo, mas já não sou eu, é Cristo que vive em mim" (Gl 2,20). Este terceiro aspecto é a dimensão mística do seguimento de Jesus, fruto da ação do Espírito.

* Lucas 6,41-42: O cisco no olho do irmão. “Por que você fica olhando o cisco no olho do seu irmão, e não presta atenção na trave que há no seu próprio olho?  Como é que você pode dizer ao seu irmão: 'Irmão, deixe-me tirar o cisco do seu olho', quando você não vê a trave no seu próprio olho? Hipócrita! Tire primeiro a trave do seu próprio olho, e então você enxergará bem, para tirar o cisco do olho do seu irmão". No Sermão da Montanha, Mateus trata do mesmo assunto e explica um pouco melhor a parábola do cisco no olho. Jesus pede uma atitude criativa que nos torne capazes de ir ao encontro do outro sem julgá-lo, sem preconceitos e racionalizações, acolhendo-o como irmão (Mt 7,1-5). Esta total abertura para o outro como irmão só nascerá em nós quando soubermos relacionar-nos com Deus em total confiança de filhos (Mt 7,7-11).

Para um confronto pessoal
1) Cisco e trave no olho. Como eu me relaciono com os outros em casa na família, no trabalho com os colegas, na comunidade com os irmãos e as irmãs?
2) Mestre e discípulo. Como sou discípulo de Jesus?