terça-feira, 6 de setembro de 2022

8 de setembro: Natividade de Nossa Senhora

1ª Leitura (Miq 5,1-4a): Eis o que diz o Senhor: «De ti, Belém-Efrata, pequena entre as cidades de Judá, de ti sairá aquele que há de reinar sobre Israel. As suas origens remontam aos tempos de outrora, aos dias mais antigos. Por isso Deus os abandonará até à altura em que der à luz aquela que há de ser mãe. Então voltará para os filhos de Israel o resto dos seus irmãos. Ele se levantará para apascentar o seu rebanho pelo poder do Senhor, pelo nome glorioso do Senhor, seu Deus. Viver-se-á em segurança, porque ele será exaltado até aos confins da terra. Ele será a paz».

Salmo Responsorial: 12
R/. Exulto de alegria no Senhor.

Eu confiei na vossa bondade, o meu coração alegra-se com a vossa salvação.
E cantarei ao Senhor pelo bem que me fez.

2ª Leitura (Rom 8, 28-30): Irmãos: Nós sabemos que Deus concorre em tudo para o bem daqueles que O amam, dos que são chamados, segundo o seu desígnio. Porque os que Ele de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que Ele seja o Primogénito de muitos irmãos. E àqueles que predestinou, também os chamou; àqueles que chamou, também os justificou; e àqueles que justificou, também os glorificou. Palavra do Senhor.

Aleluia. Sois ditosa, ó Virgem Santa Maria, sois digníssima de todos os louvores, porque de Vós nasceu o sol da justiça, Cristo, nosso Deus.

Evangelho (Mt 1,1-16.18-23): Livro da origem de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão: Abraão gerou Isaac, Isaac gerou Jacó, Jacó gerou Judá e seus irmãos, Judá gerou Farés e Zara, de Tamar. Farés gerou Esrom; Esrom gerou Aram; Aram gerou Aminadab; Aminadab gerou Naasson; Naasson gerou Salmon; Salmon gerou Booz, de Raab. Booz gerou Obed, de Rute. Obed gerou Jessé. Jessé gerou o rei Davi. Davi gerou Salomão, da mulher de Urias. Salomão gerou Roboão; Roboão gerou Abias; Abias gerou Asa; Asa gerou Josafá; Josafá gerou Jorão; Jorão gerou Ozias; Ozias gerou Jotão; Jotão gerou Acaz; Acaz gerou Ezequias; Ezequias gerou Manassés; Manassés gerou Amon; Amon gerou Josias. Josias gerou Jeconias e seus irmãos, no tempo do exílio na Babilônia. Depois do exílio na Babilônia, Jeconias gerou Salatiel; Salatiel gerou Zorobabel; Zorobabel gerou Abiud; Abiud gerou Eliaquim; Eliaquim gerou Azor; Azor gerou Sadoc; Sadoc gerou Aquim; Aquim gerou Eliud; Eliud gerou Eleazar; Eleazar gerou Matã; Matã gerou Jacó. Jacó gerou José, o esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, que é chamado o Cristo. No total, pois, as gerações desde Abraão até Davi são quatorze; de Davi até o exílio na Babilônia, quatorze; e do exílio na Babilônia até o Cristo, quatorze. Ora, a origem de Jesus Cristo foi assim: Maria, sua mãe, estava prometida em casamento a José e, antes de passarem a conviver, ela encontrou-se grávida pela ação do Espírito Santo. José, seu esposo, sendo justo e não querendo denunciá-la publicamente, pensou em despedi-la secretamente. Mas, no que lhe veio esse pensamento, apareceu-lhe em sonho um anjo do Senhor, que lhe disse: «José, Filho de Davi, não tenhas receio de receber Maria, tua esposa; o que nela foi gerado vem do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho, e tu lhe porás o nome de Jesus, pois ele vai salvar o seu povo dos seus pecados». Tudo isso aconteceu para se cumprir o que o Senhor tinha dito pelo profeta: «Eis que a virgem ficará grávida e dará à luz um filho. Ele será chamado pelo nome de Emanuel, que significa: Deus-conosco».

«Eis que a virgem ficará grávida e dará à luz um filho. Ele será chamado pelo nome de Emanuel»

+ Frei Agustí ALTISENT i Altisent Monje de Santa Mª de Poblet (Tarragona, Espanha)

Hoje, a genealogia de Jesus, o Salvador que tinha que vir e, nascer de Maria, nos mostra como a obra de Deus está entrelaçada na história humana, e como Deus atua no segredo e no silêncio de cada dia. Ao mesmo tempo, vemos sua seriedade em cumprir suas promessas. Inclusive Rute e Raab (cf. Mt 1,5), estrangeiras convertidas à fé no único Deus (e Raab era uma prostituta!), são antepassados do Salvador.

O Espírito Santo, que havia de realizar em Maria a encarnação do Filho, penetrou, pois em nossa história desde muito longe, desde muito cedo e, traçou um rumo até chegar a Maria de Nazaré e, através dela, a seu filho Jesus. «Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho, e ele será chamado Emanuel» (Mt 1,23). Quão espiritualmente delicadas deviam ser as entranhas de Maria, seu coração e sua vontade, ao ponto de atrair a atenção do Pai e a convertê-la em mãe do Deus-com-os-homens! Ele que tinha que levar a luz e a graça sobrenaturais para a salvação de todos. Tudo, nesta obra, nos leva a contemplar, admirar e adorar, na oração, a grandeza, a generosidade e a simplicidade da ação divina, que enaltece e resgatará nossa estirpe humana implicando-se de una maneira pessoal.

Mais além, no Evangelho de hoje, vemos como foi notificado a Maria que traria a Deus, o Salvador do Povo. E pensemos que esta mulher, virgem e mãe de Jesus, tinha que ser ao mesmo tempo, nossa mãe. Esta especial escolha de Maria —«bendita entre todas as mulheres» (Lc 1,42) — faz com que nos admiremos da ternura de Deus, na maneira de proceder; porque não nos redimiu —por assim dizer— à distância, e sim se vinculando pessoalmente com nossa família e nossa história. Quem podia imaginar que Deus ia ser tão grande, e ao mesmo tempo tão condescendente, aproximando-se intimamente a nós?

Pensamentos para o Evangelho de hoje
«Virgem em seu corpo, virgem em sua alma, virgem por sua decisão. Não achada recentemente nem por casualidade, se não elegida desde a eternidade, predestinada e preparada pelo Altíssimo para Ele mesmo» (São Bernardo)

«A vida humana atravessa diversas etapas de transição, com frequência difíceis e exigentes, que requerem decisões obrigatórias, renúncias e sacrifícios. A Mae de Jesus tem sido colocada pelo Senhor em momentos decisivos da história da salvação» (Bento XVI)

«Na plenitude dos tempos, o Espírito Santo realiza em Maria todas as preparações para a vinda de Cristo ao povo de Deus. Pela ação do Espírito Santo em Ela, o pai dá ao mundo o Emanuel, “Deus conosco” (Mt 1,23)» (Catecismo da Igreja Católica, n° 744)

Reflexão de Frei Carlos Mesters, O.Carm.

* Hoje, 8 de setembro, festa da Natividade de Nossa Senhora, o evangelho traz a genealogia ou a carteira de identidade de Jesus. Por meio de uma lista de nomes dos antepassados, o evangelista conta para as comunidades quem é Jesus e como Deus agiu de modo surpreendente para cumprir nele a sua promessa. As nossas carteiras de identidade têm o nosso nome e o nome dos nossos pais. Algumas pessoas, para dizer quem são, lembram também os nomes dos avôs e avós. Outras, têm vergonha de alguns antepassados da sua família, e se escondem atrás de aparências que enganam. A carteira de identidade de Jesus tem muitos nomes. Na lista destes nomes há uma grande novidade. Naquele tempo, as genealogias traziam somente os nomes dos homens. Por isso, surpreende o fato de Mateus colocar cinco mulheres entre os antepassados de Jesus: Tamar, Raab, Rute, a mulher de Urias e Maria. Por que ele escolheu precisamente estas cinco mulheres, e não outras? Esta é a pergunta que o evangelho de Mateus deixa na nossa cabeça.

* Mateus 1,1-17: A longa lista dos nomes – o começo e o fim da genealogia. No começo e no final da genealogia, Mateus deixa claro qual é a identidade de Jesus: ele é o Messias, filho de Davi e filho de Abraão. Como descendente de Davi, Jesus é a resposta de Deus às expectativas do povo judeu (2 Sm 7,12-16). Como descendente de Abraão, ele é uma fonte de bênção e de esperança para todas as nações da terra (Gn 12,13). Assim, tanto os judeus como os pagãos que faziam parte das comunidades da Síria e da Palestina na época de Mateus, ambos podiam ver suas esperanças realizadas em Jesus.

Ao elaborar a lista dos antepassados de Jesus, Mateus adotou um esquema de 3 x 14 gerações (Mt 1,17). O número 3 é o número da divindade. O número 14 é duas vezes 7, que é o número da perfeição. Naquele tempo, era comum interpretar ou calcular a ação de Deus através de números e datas. Por meio destes cálculos simbólicos, Mateus revela a presença de Deus ao longo das gerações e exprime a convicção das comunidades de que Jesus apareceu no tempo estabelecido por Deus. Com a sua chegada a história alcançou o seu pleno cumprimento.

*  A mensagem das cinco mulheres citadas na genealogia. Jesus é a resposta de Deus às expectativas tanto de judeus como de pagãos, sim, mas o é de uma forma totalmente surpreendente. Nas histórias das quatro mulheres do AT, citadas na genealogia, existe algo de anormal. As quatro eram estrangeiras, conceberam seus filhos fora dos padrões normais do comportamento da época e não satisfaziam às exigências das leis da pureza do tempo de Jesus. Tamar, uma cananeia, viúva, se vestiu de prostituta para obrigar Judá a ser fiel à lei e dar-lhe um filho (Gn 38,1-30).  Raab, uma Cananeia, prostituta de Jericó, fez aliança com os israelitas. Ajudou-os a entrar na Terra Prometida e professou a fé no Deus libertador do Êxodo (Js 2,1-21).  Betsabea, uma hitita, mulher de Urias, foi seduzida, violentada e engravidada pelo rei Davi, que, além disso, mandou matar o marido dela (2 Sm 11,1-27).  Rute, uma moabita, viúva pobre, optou para ficar com Noemi e aderiu ao Povo de Deus (Rt 1,16-18). Aconselhada pela sogra Noemi, Rute imitou Tamar e passou a noite na eira, junto com  Booz, forçando-o a observar a lei e dar-lhe um filho. Da relação entre os dois nasceu Obed., o avô do rei Davi (Rt 3,1-15;4,13-17). Estas quatro mulheres questionam os padrões de comportamento impostos pela sociedade patriarcal. Mesmo assim, suas iniciativas pouco convencionais deram continuidade à linhagem de Jesus e trouxeram a salvação de Deus para todo o povo. Foi através delas que Deus realizou seu plano e enviou o Messias prometido. Realmente, o jeito de agir de Deus surpreende e faz pensar! No fim, o leitor ou a leitora fica com a pergunta: “E Maria? Existe nela também alguma irregularidade nela? Qual?” A resposta é dada na história de São José que segue no texto (Mt 1,18-23).

* Mateus 1,18-23: São José era justo. A irregularidade em Maria é que ela ficou grávida antes de conviver com José, seu prometido esposo, que era justo. Jesus disse: “Se a justiça de vocês não for maior que a justiça dos fariseus e escribas, não vão poder entrar no Reino dos céus”. Se José tivesse sido justo conforme a justiça dos fariseus, ele deveria ter denunciado Maria e ela teria sido apedrejada. Jesus teria morrido. Graças à verdadeira justiça de José, Jesus pôde nascer.

Para um confronto pessoal
1. Quando me apresento aos outros, o que digo de mim mesmo e da minha família?
2. Se o evangelista coloca apenas estas cinco mulheres ao lado de mais de quarenta homens, ele, sem dúvida, quer comunicar uma mensagem. Qual é esta mensagem? O que tudo isto nos diz sobre a identidade de Jesus? E o que diz sobre nós mesmos?

segunda-feira, 5 de setembro de 2022

Quarta-feira da 23ª semana do Tempo Comum

Santo Anjo da Guarda do Brasil

1ª Leitura (1Cor 7,25-31): Irmãos: Quanto às pessoas solteiras, não tenho mandato do Senhor, mas dou o meu conselho, como homem que, pela misericórdia do Senhor, merece toda a confiança. Estou convencido de que é boa a condição das pessoas solteiras, por causa das dificuldades do tempo presente. É bom para o homem permanecer como está. Estás ligado a uma mulher? Não te separes. Estás livre de mulher? Não a procures. Mas se te casares, não pecas; e se a jovem se casar, não peca. Essas pessoas, porém, terão de suportar as tribulações da natureza e eu desejaria poupar-vos a elas. O que tenho a dizer-vos, irmãos, é que o tempo é breve. Doravante, os que têm esposas procedam como se as não tivessem; os que choram, como se não chorassem; os que andam alegres, como se não andassem; os que compram, como se não possuíssem; os que utilizam este mundo, como se realmente não o utilizassem. De facto, o cenário deste mundo é passageiro.

Salmo Responsorial: 44
R. Escuta e inclina-te diante do Senhor.

Ouve, filha, vê e presta atenção, esquece o teu povo e a casa de teu pai. Da tua beleza se enamora o Rei, Ele é o teu Senhor, presta-Lhe homenagem.

A filha do Rei avança cheia de esplendor, de brocados de ouro são os seus vestidos. Com um manto multicolor é apresentada ao Rei, seguem-na as donzelas, suas companheiras.

Cheias de alegria e entusiasmo, entram no palácio do Rei. Teus filhos substituirão os teus pais, estabelecê-los-ás príncipes sobre toda a terra.

Aleluia. Alegrai-vos e exultai, diz o Senhor, porque é grande nos Céus a vossa recompensa. Aleluia.

Evangelho (Lc 6,20-26): Naquele tempo, Jesus levantou o olhar para os seus discípulos e disse-lhes: «Felizes vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus! Felizes vós que agora passais fome, porque sereis saciados! Felizes vós que agora estais chorando, porque haveis de rir! Felizes sereis quando os homens vos odiarem, expulsarem, insultarem e amaldiçoarem o vosso nome por causa do Filho do Homem. Alegrai-vos, nesse dia, e exultai, porque será grande a vossa recompensa no céu, pois era assim que os seus antepassados tratavam os profetas. Mas, ai de vós, ricos, porque já tendes vossa consolação! Ai de vós que agora estais fartos, porque passareis fome! Ai de vós que agora estais rindo, porque ficareis de luto e chorareis! Ai de vós quando todos falarem bem de vós, pois era assim que seus antepassados tratavam os falsos profetas».

«Felizes vós, os pobres (...). Ai de vós, ricos!»

Rev. D. Joaquim MESEGUER García (Rubí, Barcelona, Espanha)

Hoje, Jesus mostra-nos onde está a verdadeira felicidade. Na versão de São Lucas, as bem-aventuranças são acompanhadas de dolorosas imprecações por aqueles que não aceitam a mensagem de salvação, fechando-se numa vida autossuficiente e egoísta. Com as bem-aventuranças e as imprecações, Jesus faz uma aplicação da doutrina dos dois caminhos: o caminho da vida e o caminho da morte. Não há uma terceira possibilidade, neutra: quem não segue o caminho da vida encaminha-se para a morte; quem não segue a luz, vive nas trevas.

«Felizes vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus» (Lc 6,20). Esta bem-aventurança é a base de todas as outras, pois quem é pobre será capaz de receber o Reino de Deus como um dom. Quem é pobre sabe de que coisas deve ter fome e sede: não de bens materiais, mas da Palavra de Deus; não de poder, mas de justiça e de amor. Quem é pobre sabe chorar perante o sofrimento do mundo. Quem é pobre sabe que Deus é toda a sua riqueza e que, por isso, sofrerá incompreensões e perseguições.

«Mas, ai de vós, ricos, porque já tendes vossa consolação» (Lc 6,24). Esta imprecação é também o fundamento de todas as que se seguem, pois quem é rico e autossuficiente, quem não sabe pôr as suas riquezas ao serviço dos outros, encerra-se no seu egoísmo e constrói a sua própria desgraça. Que Deus nos livre do afã de riquezas, de correr atrás das promessas do mundo e de pôr o nosso coração nos bens materiais; que Deus não permita que fiquemos satisfeitos com os louvores e adulações humanas, já que isso significaria ter posto o coração na glória do mundo e não na de Jesus Cristo. Será de grande proveito lembrar o que diz São Basílio: «Quem ama o próximo como a si mesmo não acumula coisas desnecessárias que possam ser indispensáveis para os outros».

Pensamentos para o Evangelho de hoje
«O que deveis temer não é serdes amaldiçoados, mas sim que apareçais envolvidos na comum hipocrisia: então sim que vos teríeis tornado insípidos e serieis espezinhados pelo povo» (São João Crisóstomo)

«As Bem-aventuranças são promessas nas quais resplandece a nova imagem do mundo e do homem que Jesus inaugura, e nas quais "os valores se invertem". Quando o homem caminha com Jesus, então ele vive com novos critérios» (Bento XVI)

«As bem-aventuranças estão no coração da pregação de Jesus. O seu anúncio retorna as promessas feitas ao povo eleito, desde Abraão. A pregação de Jesus completa-as, ordenando-as, não já somente à felicidade resultante da posse dum tema, mas ao Reino dos céus» (Catecismo da Igreja Católica, nº 1.716)

Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm.

* O evangelho de hoje traz as quatro bem-aventuranças e as quatro maldições do Evangelho de Lucas. Há uma revelação progressiva na maneira de Lucas apresentar o ensinamento de Jesus. Até 6,16, ele disse muitas vezes que Jesus ensinava o povo, mas não chegou a relatar o conteúdo do ensinamento (Lc 4,15.31-32.44; 5,1.3.15.17; 6,6). Agora, depois de informar que Jesus viu a multidão desejosa de ouvir a palavra de Deus, Lucas traz o primeiro grande discurso que começa com as exclamações: "Felizes vocês pobres!" e "Ai de vocês, ricos!", e ocupa todo o resto do capítulo (Lc 6,12-49). Alguns chamam este discurso de "Sermão da Planície", pois, segundo Lucas, Jesus desceu da montanha e parou num lugar plano onde fez o discurso. No evangelho de Mateus, este mesmo discurso é feito na montanha (Mt 5,1) e é chamado "Sermão da Montanha". Em Mateus, o sermão traz oito bem-aventuranças, que traçam um programa de vida para as comunidades cristãs de origem judaica. Em Lucas, o sermão é mais breve e mais radical. Ele traz quatro bem-aventuranças e quatro maldições, dirigidas para as comunidades helenistas, constituídas de ricos e pobres. Este discurso de Jesus vai ser meditado no evangelho diário dos próximos dias.

* Lucas 6,20: Felizes vocês, pobres! Olhando para os discípulos, Jesus declara: "Felizes vocês pobres, porque o Reino de Deus é de vocês!" Esta declaração identifica a categoria social dos discípulos. Eles são pobres!  E a eles Jesus promete: “O Reino é de vocês!” Não é uma promessa para o futuro. O verbo está no presente. O Reino já é deles. Eles são felizes desde já. No evangelho de Mateus, Jesus explicita o sentido e diz: "Felizes os pobres em Espírito!" (Mt 5,3). São os pobres que têm o Espírito de Jesus. Pois há pobres com cabeça ou espírito de rico. Os discípulos de Jesus são pobres com cabeça de pobre. Como Jesus, não querem acumular, mas assumem a sua pobreza e, com ele, lutam por uma convivência mais justa, onde haja fraternidade e partilha de bens, sem discriminação.

* Lucas 6,21-22: Felizes vocês, que agora têm fome e choram! Na 2ª e 3ª bem-aventurança Jesus diz: "Felizes vocês que agora estão com fome, porque serão saciados! Felizes vocês que agora choram, porque vão dar risada!" Uma parte das frases está no presente e outra no futuro. Aquilo que agora vivemos e sofremos não é o definitivo. O definitivo é o Reino que estamos construindo hoje na força do Espírito de Jesus. Construir o Reino traz sofrimento e perseguição, mas uma coisa é certa: o Reino vai chegar e “vocês serão saciados e vão dar risada!”.

* Lucas 6,23: Felizes serão, quando os homens os odiarem...! A 4ª bem-aventurança se refere ao futuro: "Felizes serão vocês, quando os homens os odiarem e rejeitarem por causa do Filho do Homem! Fiquem alegres naquele dia, porque grande será a sua recompensa, porque assim também foram tratados os profetas!" Com estas palavras de Jesus, Lucas anima as comunidades do seu tempo, que estavam sendo perseguidas. O sofrimento não é estertor de morte, mas sim dor de parto. Fonte de esperança! A perseguição era um sinal de que o futuro anunciado por Jesus estava chegando para elas. Elas estavam no caminho certo.
*  Lucas 6,24-25:  Ai de vocês, ricos!  Ai de vocês que agora têm fartura e riem! Após as quatro bem-aventuranças a favor dos pobres e excluídos, seguem quatro ameaças ou maldições contra os ricos e os que passam bem e são elogiados por todos. As quatro ameaças têm a mesma forma literária que as quatro bem-aventuranças. A 1ª está no presente. A 2ª e a 3ª têm uma parte no presente e outra no futuro. E a 4ª se refere inteiramente ao futuro. Estas ameaças só se encontram no evangelho de Lucas e não no de Mateus. Lucas é mais radical na denúncia da injustiça.

Diante de Jesus, naquela planície não havia ricos. Só havia gente pobre e doente, vinda de todos os lados (Lc 6,17-19). Mesmo assim, Jesus diz: "Ai de vocês, ricos!" É que Lucas, ao transmitir estas palavras de Jesus, estava pensando mais nas comunidades do seu tempo. Nelas havia ricos e pobres, e havia discriminação dos pobres pelos ricos, a mesma que marcava a estrutura do Império Romano (cf. Tg 5,1-6; Ap 3,17-19). Jesus faz uma crítica dura e direta aos ricos: Vocês, ricos, já têm sua consolação! Vocês têm fartura, mas vão passar fome! Vocês estão rindo, mas vão ficar aflitos e vão chorar! Sinal de que para Jesus, a pobreza não é uma fatalidade, nem é fruto de preguiça, mas é fruto de enriquecimento injusto dos outros.

*   Lucas 6,26:  Ai de vocês quando todos os elogiarem! “Ai de vocês quando todos os elogiarem, porque assim seus pais tratavam os falsos profetas!” Esta quarta ameaça se refere aos filhos dos que no passado elogiavam os falsos profetas. É que algumas autoridades dos judeus usavam o seu prestígio e a sua autoridade para criticar Jesus.

Para um confronto pessoal
1. Será que nós olhamos a vida e as pessoas com o mesmo olhar de Jesus? Dentro do seu coração, o que você acha: uma pessoa pobre e faminta é realmente feliz? As novelas da Televisão e a propaganda do comércio, qual o ideal de felicidade que elas nos apresentam?
2. Dizendo “Felizes os pobres”, será que Jesus estava querendo dizer que os pobres devem continuar na pobreza?

Terça-feira da 23ª semana do Tempo Comum

1ª Leitura (1Cor 6,1-11): Irmãos: Quando algum de vós tem uma questão com outro, como ousais levá-la para ser julgada pelos pagãos e não pelo povo santo? Não sabeis que havemos de julgar o mundo? E se é por vós que o mundo será julgado, seríeis indignos de julgar questões de menor importância? Não sabeis que havemos de julgar os anjos? Quanto mais os assuntos desta vida! No entanto, quando tendes estas queixas, escolheis como juízes aqueles que não têm autoridade na Igreja. Para vossa vergonha o digo. Não há então no meio de vós um único homem sábio, para poder julgar entre os seus irmãos? Mas como é que um irmão entra em litígio com o seu irmão e isto diante dos infiéis? De qualquer modo, já é para vós humilhação bastante que tenhais questões uns com os outros. Não seria melhor sofrer uma injustiça e permitir ser defraudado? Mas sois vós que praticais a injustiça e defraudais os outros, e isto com os vossos irmãos! Não sabeis que os injustos não receberão como herança o reino de Deus? Não tenhais ilusões: nem os imorais, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os depravados, nem os pervertidos, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os ébrios, nem os caluniadores, nem os salteadores receberão como herança o reino de Deus. E assim eram alguns de vós. Mas fostes purificados, fostes santificados, fostes justificados em nome do Senhor Jesus Cristo e pelo Espírito do nosso Deus.

Salmo Responsorial: 149
R. O Senhor ama o seu povo.

Cantai ao Senhor um cântico novo, cantai ao Senhor na assembleia dos santos. Alegre-se Israel em seu Criador, rejubilem os filhos de Sião em seu Rei.

Louvem o seu nome com danças, cantem ao som do tímpano e da cítara, porque o Senhor ama o seu povo, coroa os humildes com a vitória.

Exultem de alegria os fiéis, cantem jubilosos em suas casas; em sua boca os louvores de Deus. Esta é a glória de todos os seus fiéis.

Aleluia. Eu vos escolhi do mundo, para que vades e deis fruto e o vosso fruto permaneça, diz o Senhor. Aleluia.

Evangelho (Lc 6,12-19): Naqueles dias, Jesus foi à montanha para orar. Passou a noite toda em oração a Deus. Ao amanhecer, chamou os discípulos e escolheu doze entre eles, aos quais deu o nome de apóstolos: Simão, a quem chamou Pedro, e seu irmão André; Tiago e João; Filipe e Bartolomeu; Mateus e Tomé; Tiago, filho de Alfeu, e Simão, chamado zelote; Judas, filho de Tiago, e Judas Iscariotes, que se tornou o traidor. Jesus desceu com eles da montanha e parou num lugar plano. Ali estavam muitos dos seus discípulos e uma grande multidão de gente de toda a Judéia e de Jerusalém, e do litoral de Tiro e Sidônia. Vieram para ouvi-lo e serem curados de suas doenças. Também os atormentados por espíritos impuros eram curados. A multidão toda tentava tocar nele, porque dele saía uma força que curava a todos.

«Jesus foi à montanha para orar e passou a noite toda em oração a Deus»

Frei Lluc TORCAL Monje del Monastério de Sta. Mª de Poblet (Santa Maria de Poblet, Tarragona, Espanha)

Hoje gostaria de centrar a nossa reflexão nas primeiras palavras deste Evangelho: «Naqueles dias, Jesus foi à montanha para orar. Passou a noite toda em oração a Deus» (Lc 6,12). Introduções como esta podem passar despercebidas na nossa leitura quotidiana do Evangelho, mas, —de fato— são da máxima importância. Concretamente, hoje nos dizem que a eleição dos doze apóstolos —decisão central para a vida futura da Igreja— foi precedida por toda uma noite de oração de Jesus, sozinho, perante Deus, seu Pai.

Como era essa oração do Senhor? Do que se infere da sua vida, deveria ser uma prece cheia de confiança no Pai, de total abandono à sua vontade —«não procuro fazer a minha própria vontade, mas a vontade do que me enviou» (Jo 5,30) - , de manifesta união à sua obra de salvação. Apenas desde esta profunda, longa e constante oração, sempre sustentada pela ação do Espírito Santo que, já presente no momento da sua Encarnação, tinha descido sobre Jesus no seu Batismo; apenas assim, dizíamos, o Senhor podia obter a força e a luz necessárias para continuar a sua missão de obediência ao Pai para cumprir a sua obra vicária de salvação dos homens. A eleição subsequente dos Apóstolos, que como nos recorda São Cirilo de Alexandria, «O próprio Cristo afirma ter-lhes dado a mesma missão que recebera do Pai», mostra-nos como a Igreja nascente foi fruto desta oração de Jesus ao Pai no Espírito e que, portanto, é obra da Santíssima Trindade. «Ao amanhecer, chamou os discípulos e escolheu doze entre eles, aos quais deu o nome de apóstolos» (Lc 6,13).

Oxalá toda a nossa vida de cristãos de — discípulos de Cristo— esteja sempre submersa na oração e continuada por ela.

«Procura ser, tu próprio, o sacrifício e o sacerdote de Deus. Não desprezes o que o poder de Deus te deu e te concedeu. Reveste-te com o manto da santidade, faz do teu coração um altar, e assim, confiante em Deus, apresenta o teu corpo ao Senhor como sacrifício» (São Pedro Crisólogo)

«É bonito ver como no grupo dos seus seguidores, todos, apesar das suas diferenças, conviviam juntos, superando as inimagináveis dificuldades: de facto, o próprio Jesus é a razão dessa coesão, na qual todos se encontram» (Bento XVI)

«Cristo, ao instituir os Doze, «deu-lhes a forma dum corpo colegial, quer dizer, dum grupo estável, e colocou à sua frente Pedro, escolhido de entre eles. Assim como, por instituição do Senhor, Pedro e os outros apóstolos formam um só colégio apostólico, assim de igual modo o pontífice romano, sucessor de Pedro, e os bispos, sucessores dos Apóstolos, estão unidos entre si (Concilio Vaticano II)» (Catecismo da Igreja Católica, nº 880)

Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm.

* O evangelho de hoje traz dois assuntos: a escolha dos doze apóstolos (Lc 6,12-16) e a multidão enorme de gente querendo encontrar-se com Jesus (Lc 6,17-19). O evangelho de hoje nos convida a refletir sobre os Doze que foram escolhidos para conviver com Jesus como apóstolos. Os primeiros cristãos lembraram e registraram os nomes destes Doze e de alguns outros homens e mulheres que seguiram a Jesus e que, depois da ressurreição, foram criando as comunidades pelo mundo afora. Hoje também, todo mundo lembra o nome de alguma catequista ou professora que foi significativa para a sua formação cristã.

* Lucas 6,12-13: A escolha dos 12 apóstolos. Antes de fazer a escolha definitiva dos doze apóstolos, Jesus passou uma noite inteira em oração. Rezou para saber a quem escolher e escolheu os Doze, cujos nomes estão nos evangelhos e que receberam o nome de apóstolo. Apóstolo significa enviado, missionário. Eles foram chamados para realizar uma missão, a mesma que Jesus recebeu do Pai (Jo 20,21). Marcos concretiza mais e diz que Deus os chamou para estar com ele e enviá-los em missão (Mc 3,14).

* Lucas 6,14-16: Os nomes dos 12 apóstolos. Com pequenas diferenças os nomes dos Doze são iguais nos evangelhos de Mateus (Mt 10,2-4), Marcos (Mc 3,16-19) e Lucas (Lc 6,14-16). Grande parte destes nomes vem do AT. Por exemplo, Simeão é o nome de um dos filhos do patriarca Jacó (Gn 29,33). Tiago é o mesmo que o nome de Jacó (Gn 25,26). Judas é o nome de outro filho de Jacó (Gn 35,23). Mateus também tinha o nome de Levi (Mc 2,14), que foi outro filho de Jacó (Gn 35,23). Dos doze apóstolos sete tem nome que vem do tempo dos patriarcas: duas vezes Simão, duas vezes Tiago, duas vezes Judas, e uma vez Levi! Isto revela a sabedoria e a pedagogia do povo. Através dos nomes dos patriarcas e das matriarcas, dados aos filhos e filhas, eles mantinham viva a tradição dos antigos e ajudavam seus filhos a não perder a identidade. Quais os nomes que nós damos hoje para os nossos filhos e filhas?

* Lucas 6,17-19: Jesus desce da montanha e a multidão o procura. Ao descer da montanha com os doze, Jesus encontrou uma multidão imensa de gente que o procurava para ouvir sua palavra e tocá-lo, porque dele saía uma força de vida. Nesta multidão havia judeus e estrangeiros, gente da Judéia e também de Tiro e Sidônia. É o povo abandonado, desorientado. Jesus acolhe a todos que o procuram. Judeus e pagãos! Este é um dos temas preferidos de Lucas!

* Estas doze pessoas, chamadas por Jesus para formar a primeira comunidade, não eram santas. Eram pessoas comuns, como todos nós. Tinham suas virtudes e seus defeitos. Os evangelhos informam muito pouco sobre o jeito e o caráter de cada uma delas. Mas o pouco que informam é motivo de consolo para nós.

* Pedro era uma pessoa generosa e entusiasta (Mc 14,29.31; Mt 14,28-29), mas na hora do perigo e da decisão, o coração dele encolhia e ele voltava atrás (Mt 14,30; Mc 14,66-72). Chegou a ser satanás para Jesus (Mc 8,33). Jesus deu a ele o apelido de Pedra (Pedro). Pedro, ele por si mesmo, não era Pedra. Tornou-se pedra (rocha), porque Jesus rezou por ele (Lc 22,31-32).

* Tiago e João estavam dispostos a sofrer com e por Jesus (Mc 10,39), mas eram muito violentos (Lc 9,54). Jesus os chamou “filhos do trovão” (Mc 3,17). João parecia ter um certo ciúme. Queria Jesus só para o grupo dele (Mc 9,38).

* Filipe tinha um jeito acolhedor. Sabia colocar os outros em contato com Jesus (Jo 1,45-46), mas não era muito prático em resolver os problemas (Jo 12,20-22; 6,7). Às vezes, era meio ingênuo. Teve hora em que Jesus perdeu a paciência com ele: “Mas Filipe, tanto tempo que estou com vocês, e ainda não me conhece?” (Jo 14,8-9)

* André, irmão de Pedro e amigo de Filipe, era mais prático. Filipe recorre a ele para resolver os problemas (Jo 12,21-22). Foi André que chamou Pedro (Jo 1,40-41), e foi André que encontrou o menino com cinco pãezinhos e dois peixes (Jo 6,8-9).

* Bartolomeu parece ter sido o mesmo que Natanael. Este era bairrista e não podia admitir que algo de bom pudesse vir de Nazaré (Jo 1,46).

* Tomé foi capaz de sustentar sua opinião, uma semana inteira, contra o testemunho de todos os outros (Jo 20,24-25). Mas quando viu que estava equivocado, não teve medo de reconhecer seu erro (Jo 20,26-28). Era generoso, disposto a morrer com Jesus (Jo 11,16).

* Mateus ou Levi era publicano, cobrador de impostos, como Zaqueu (Mt 9,9; Lc 19,2). Eram pessoas comprometidas com o sistema opressor da época.

* Simão, ao contrário, parece ter sido do movimento que se opunha radicalmente ao sistema que o império romano impunha ao povo judeu. Por isso tinha o apelido de Zelota (Lc 6,15). O grupo dos Zelotas chegou a provocar uma revolta armada contra os romanos.

* Judas Tadeu, durante a última ceia, foi quem perguntou a Jesus: "Senhor, por que razão hás de manifestante a nós e não ao mundo?" (Jo 14,22). dois os evangelhos nada informam a não

* Judas Iscariotes era o que tomava conta do dinheiro do grupo (Jo 13,29). Ele chegou a trair Jesus.

* Tiago de Alfeu, deste os evangelhos nada informam a não ser o nome.

Para um confronto pessoal
1) Jesus passou a noite inteira em oração para saber a quem escolher, e escolheu estes doze! Qual a lição que você tira daí?
2) Você lembra dos nomes das pessoas que estão na origem da comunidade a que você pertence? O que mais lembra delas: o conteúdo que lhe ensinaram ou o testemunho que deram?

sábado, 3 de setembro de 2022

Segunda-feira da 23ª semana do Tempo Comum

Santa Teresa de Calcutá, virgem

1ª Leitura (1Cor 5,1-8): Irmãos: É voz corrente que existe entre vós um caso de imoralidade, que nem entre os pagãos se encontra, a ponto de um de vós viver com a mulher de seu pai. E vós andais cheios de orgulho, quando deveríeis andar tristes e obrigar a sair da vossa comunidade quem praticou tal ação. Quanto a mim, ausente de corpo, mas presente em espírito, já tenho a sentença lavrada, como se estivesse presente, contra quem procedeu desse modo: Em nome de Nosso Senhor Jesus, quando vos reunirdes em assembleia, – e eu em espírito convosco – entregareis esse homem a Satanás, pelo poder de Nosso Senhor Jesus. Será para ruína do seu corpo, a fim de o espírito ser salvo no dia do Senhor. Não vos fica bem essa jactância. Não sabeis que um pouco de fermento leveda toda a massa? Purificai-vos do velho fermento, para serdes uma nova massa, visto que sois pães ázimos. Cristo, o nosso cordeiro pascal, foi imolado. Celebremos a festa, não com fermento velho, nem com fermento de malícia e perversidade, mas com os pães ázimos da pureza e da verdade.

Salmo Responsorial: 5
R. Senhor, guiai-me na vossa justiça.

Vós não sois um Deus que se agrade do mal, o perverso não tem aceitação junto de Vós, nem os ímpios suportam o vosso olhar.

Vós detestais todos os malfeitores e exterminais os que dizem mentiras: o Senhor abomina os sanguinários e fraudulentos.

Alegrem-se e rejubilem para sempre os que em Vós confiam: Vós protegeis e alegrais os que amam o vosso nome.

Aleluia. As minhas ovelhas escutam a minha voz, diz o Senhor; Eu conheço as minhas ovelhas e elas seguem-Me. Aleluia.

Evangelho (Lc 6,6-11): Num outro sábado, Jesus entrou na sinagoga e começou a ensinar. Lá estava um homem que tinha a mão direita seca. Os escribas e os fariseus observavam Jesus, para ver se ele faria uma cura no dia de sábado, a fim de terem motivo para acusá-lo. Ele, porém, conhecendo-lhes os pensamentos, disse ao homem da mão seca: Levanta-te e fica aqui no meio! Ele se levantou e ficou de pé. Jesus disse-lhes: Eu vos pergunto: em dia de sábado, o que é permitido, fazer o bem ou fazer o mal? Salvar uma vida ou deixar morrer? Passando o olhar sobre todos eles, Jesus disse ao homem: Estende a mão! O homem assim o fez e a mão ficou curada. Eles se encheram de raiva e começaram a discutir entre si sobre o que fariam contra Jesus.

«Levanta-te e fica aqui no meio (...). Estende a mão»

P. Júlio César RAMOS González SDB (Mendoza, Argentina)

Hoje Jesus nos dá exemplo de liberdade. Falamos muitíssimo dela nos nossos dias. Mas a diferença do que hoje se apregoa e até se vive como liberdade, a de Jesus, é uma liberdade totalmente associada e aderida à ação do Pai. Ele mesmo dirá: Vos garanto que o Filho do homem não pode fazer nada por si só e sim somente o que vê o Pai fazer; o que faz o Pai, faz o Filho (Jo 5,19). E o Pai só obra, só age por amor.

O amor não se impõe, mas faz agir, mobiliza devolvendo com amplidão a vida. Aquele mandato de Jesus: Levanta-te e fica aqui no meio (Lc 6,8); tem a força recriadora daquele que ama, e pela palavra age. Mas ainda, o outro: Estende tua mão, (Lc 6,10), que termina conseguindo o milagre, restabelece definitivamente a força e a vida daquele que estava débil e morto. Salvar é arrancar da morte e, é a mesma palavra que se traduz por sanar. Jesus curando, salva o que havia de morto nesse pobre homem doente, e isso é um claro signo do amor de Deus Pai para com suas criaturas. Assim, na nova criação onde o Filho não faz outra coisa mais do que vê fazer ao Pai, a nova lei que imperará será a do amor que se põe em obra e, não a de um descanso que inativa, inclusive, para fazer o bem ao irmão necessitado.

Então, liberdade e amor conjugados é a chave para hoje. Liberdade e amor conjugados à maneira de Jesus. Aquilo de: ama e faz o que queiras, de Santo Agostinho tem hoje vigência plena, para aprender a configurar-se totalmente com Cristo Salvador.

Pensamentos para o Evangelho de hoje
«O projeto de Deus vai além da capacidade do homem de conhecer e compreender, enquanto, pelo contrário, só Ele conhece nossos pensamentos, nossas ações e até nosso futuro» (S João Damasceno)

«Sem a ideia do Redentor, não se pode suportar a verdade da própria culpa e recorre-se à primeira falsidade: a cegueira dessa culpa, da qual nascem todas as outras falsidades e, finalmente, a incapacidade geral de enfrentar a verdade» (Bento XVI)

«(…)Cheio de compaixão, Cristo autoriza-Se, em dia de sábado, a fazer o bem em vez do mal, a salvar uma vida antes que perdê-la (87). O sábado é o dia do Senhor das misericórdias e da honra de Deus (88). ‘O Filho do Homem é Senhor do próprio sábado’ (Mc 2,28)» (Catecismo da Igreja Católica, nº 2.173)

Reflexão

• Contexto. Esta passagem apresenta Jesus curando um homem que tinha uma das mãos atrofiada. Ao contrário do contexto dos capítulos 3-4, onde Jesus aparece sozinho, aqui Jesus aparece rodeado por seus discípulos e mulheres que o acompanhavam. Nos estágios iniciais desta jornada, o leitor encontrará diferentes formas de ouvir a palavra de Jesus, seguindo o que em última análise, poderia ser resumida em duas experiências que exigem, por sua vez, dois tipos de aproximação para Jesus: a de Pedro (5,1-11) e a do centurião (7,1-10). Pedro encontra Jesus depois da pesca milagrosa. Jesus o convida para ser um pescador de homens, e Pedro cai depois ajoelhando-se diante de Jesus: "Afasta-te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador" (5,8). O centurião não tem comunicação direta com Jesus: ouviu falar coisas boas sobre Jesus e, por isso envia-lhe intermediários para pedir a cura de seu servo que está morrendo; ele não pede algo para si, mas sim para uma pessoa muito querida. A figura de Pedro representa a atitude daquele que, sentindo-se pecador, coloca seu trabalho sob a influência da Palavra de Jesus. O centurião, mostrando sua solicitude pelo servo, aprende a ouvir a Deus. Pois bem, a cura do homem com a mão seca se coloca entre estas vias ou atitudes que caracterizam a itinerância da vida de Jesus. O milagre ocorre em um contexto de discussão ou controvérsia: as espigas arrancadas no sábado e uma cura também no sábado, precisamente a mão atrofiada. Entre as duas discussões, a palavra de Jesus desempenha um papel crucial: "O Filho do Homem é senhor do sábado" (6,5). Indo para a nossa passagem, perguntamo-nos o que significa esta mão atrofiada? É um símbolo da salvação do homem que é conduzido à sua situação original, a da criação. Além disso, a mão direita expressa atividade humana. Jesus devolve a este dia, o sábado, seu sentido mais profundos: é o dia da alegria, da restauração e não da limitação. O sábado Jesus que apresenta é o sábado messiânico, não o sábado legalista; as curas realizadas por ele são sinais do tempo messiânico, da restauração e libertação do homem.   

• Dinâmica do milagre. Lucas coloca diante de Jesus um homem com uma mão sem força, seca, paralisada. Ninguém se interessa em pedir a sua cura e menos ainda ele diretamente está interessado. Mas a doença não era apenas um problema individual, mas os seus efeitos repercutem em toda a comunidade. Neste relato não emerge tanto o problema da doença, mas sim a sua relação com o sábado. Jesus é criticado porque ele curou em dia de sábado. A diferença entre Jesus e os fariseus consiste em que estes, em dia de sábado, não trabalham com base no mandamento do amor que é a essência da lei. Jesus, depois de ordenar ao homem para se pôr no meio da assembleia, faz uma pergunta decisiva: "É lícito curar no sábado, ou não?". Os espaços de resposta são reduzidos: curar ou não curar (v. 9). Imagine a dificuldade dos fariseus: tinham que excluir que num sábado se pudesse fazer o mal ou conduzir o homem à perdição e menos ainda curar, visto que ajudar no sábado somente era permitido em casos de extrema necessidade. Os fariseus se sentem provocados e isto por sua vez provoca sua agressividade. Aparece evidente que a intenção de Jesus ao curar no sábado é procurar o bem do homem, a pessoa que está doente. Esta motivação de amor nos convida a refletir sobre o nosso comportamento e fundamentá-lo no comportamento de Jesus que salva. Jesus não presta atenção apenas para a cura do enfermo, mas também está interessado no comportamento dos adversários: curá-los de sua distorcida atitude ao observar a lei. Observar o sábado sem ajudar o próximo em suas doenças não está em conformidade com a vontade de Deus. Para o evangelista, a função do sábado é fazer o bem, salvar como Jesus fez em sua vida terrena.   

Para um confronto pessoal
1. Você se sente interpelado pelas palavras de Jesus? Como você se compromete em seu serviço à vida? Você sabe criar condições para que o outro viva melhor?
2. Você sabe colocar no centro da sua atenção a todos os homens e suas necessidades?

sexta-feira, 2 de setembro de 2022

XXIII Domingo do Tempo Comum

Nossa Senhora Consoladora dos Aflitos

1ª Leitura (Sab 9,13-18):
Qual o homem que pode conhecer os desígnios de Deus? Quem pode sondar as intenções do Senhor? Os pensamentos dos mortais são mesquinhos e inseguras as nossas reflexões, porque o corpo corruptível deprime a alma e a morada terrestre oprime o espírito que pensa. Mal podemos compreender o que está sobre a terra e com dificuldade encontramos o que temos ao alcance da mão. Quem poderá então descobrir o que há nos céus? Quem poderá conhecer, Senhor, os vossos desígnios, se Vós não lhe dais a sabedoria e não lhe enviais o vosso espírito santo? Deste modo foi corrigido o procedimento dos que estão na terra, os homens aprenderam as coisas que Vos agradam e pela sabedoria foram salvos.

Salmo Responsorial: 89
R. Senhor, tendes sido o nosso refúgio através das gerações.

Vós reduzis o homem ao pó da terra e dizeis: «Voltai, filhos de Adão». Mil anos a vossos olhos são como o dia de ontem que passou e como uma vigília da noite.

Vós os arrebatais como um sonho, como a erva que de manhã reverdece; de manhã floresce e viceja, à tarde ela murcha e seca.

Ensinai-nos a contar os nossos dias, para chegarmos à sabedoria do coração. Voltai, Senhor! Até quando...Tende piedade dos vossos servos.

Saciai-nos desde a manhã com a vossa bondade, para nos alegrarmos e exultarmos todos os dias. Desça sobre nós a graça do Senhor nosso Deus. Confirmai, Senhor, a obra das nossas mãos.

2ª Leitura (Flm 9b-10.12-17): Caríssimo: Eu, Paulo, prisioneiro por amor de Cristo Jesus, rogo-te por este meu filho, Onésimo, que eu gerei na prisão. Mando-o de volta para ti, como se fosse o meu próprio coração. Quisera conservá-lo junto de mim, para que me servisse, em teu lugar, enquanto estou preso por causa do Evangelho. Mas, sem o teu consentimento, nada quis fazer, para que a tua boa ação não parecesse forçada, mas feita de livre vontade. Talvez ele se tenha afastado de ti durante algum tempo, a fim de o recuperares para sempre, não já como escravo, mas muito melhor do que escravo: como irmão muito querido. É isto que ele é para mim e muito mais para ti, não só pela natureza, mas também aos olhos do Senhor. Se me consideras teu amigo, recebe-o como a mim próprio.

Aleluia. Fazei brilhar sobre mim, Senhor, a luz do vosso rosto e ensinai-me os vossos mandamentos. Aleluia.

Evangelho (Lc 14,25-33): Grandes multidões acompanhavam Jesus. Voltando-se, ele lhes disse: «Se alguém vem a mim, mas não me prefere a seu pai e sua mãe, sua mulher e seus filhos, seus irmãos e suas irmãs, e até à sua própria vida, não pode ser meu discípulo. Quem não carrega sua cruz e não caminha após mim, não pode ser meu discípulo. De fato, se algum de vós quer construir uma torre, não se senta primeiro para calcular os gastos, para ver se tem o suficiente para terminar? Caso contrário, ele vai pôr o alicerce e não será capaz de acabar. E todos os que virem isso começarão a zombar: ‘Este homem começou a construir e não foi capaz de acabar!’ Ou ainda: um rei que sai à guerra contra um outro não se senta primeiro e examina bem se com dez mil homens poderá enfrentar o outro que marcha contra ele com vinte mil? Se ele vê que não pode, envia uma delegação, enquanto o outro ainda está longe, para negociar as condições de paz. Do mesmo modo, portanto, qualquer um de vós, se não renunciar a tudo o que tem, não pode ser meu discípulo!».

«Qualquer um de vós, se não renunciar a tudo o que tem, não pode ser meu discípulo!»

Rev. D. Joaquim MESEGUER García (Rubí, Barcelona, Espanha)

Hoje, Jesus indica-nos o lugar que deve ocupar o próximo na nossa hierarquia de amor e fala-nos sobre o seguimento a sua pessoa, que é o que deve caracterizar a vida cristã, um itinerário que transcorre por diferentes períodos no qual acompanhamos Jesus Cristo com nossa cruz: «Quem não carrega sua cruz e não caminha após mim, não pode ser meu discípulo» (Lc 14,27).

Entra Jesus em conflito com a Lei de Deus, que nos ordena honrar os nossos pais e amar ao próximo, quando diz: «Se alguém vem a mim, mas não me prefere a seu pai e sua mãe, sua mulher e seus filhos, seus irmãos e suas irmãs, e até à sua própria vida, não pode ser meu discípulo?» (Lc 14,26) Naturalmente que não. Jesus Cristo disse que não veio para derrogar a Lei, mas para levá-la a sua plenitude; por isso Ele lhe dá a interpretação justa. Ao exigir um amor incondicional, próprio de Deus, declara que Ele é Deus, que devemos amá-lo sobre todas as coisas e que devemos ordená-lo em seu amor. Em nosso amor a Deus, que nos leva a entregar-nos confiadamente a Jesus Cristo, amaremos ao próximo com um amor sincero e justo. Diz Santo Agostinho: «Te arrasta o afã pela verdade de Deus e de perceber sua vontade nas Santas Escrituras».

A vida cristã é uma constante viagem com Jesus. Hoje, muitos acreditam, teoricamente, ser cristãos, mas não viajam com Jesus: ficam no ponto de partida e não começam o caminho, ou o abandonam em seguida, ou fazem outra viagem com outros parceiros. A bagagem para viajar nesta vida com Jesus é a Cruz, cada um com a sua; mas junto à porção de dor que corresponde aos seguidores de Cristo, inclui-se também, o consolo com o qual Deus conforta suas testemunhas em qualquer classe de prova. Deus é a nossa esperança e nele está a fonte de vida.
Pensamentos para o Evangelho de hoje
«Aproveita ainda mais os pequenos sofrimentos do que os grandes. Deus não olha tanto para o que se sofre, mas para a maneira como se sofre. Sofrer pouco ou muito, sofrer por Deus, é sofrer como santo» (São Luís Mª Grignion de Montfort)

«Há sempre este caminho que Ele fez primeiro: o caminho da humildade, o caminho também da humilhação, de negar-se a si mesmo e depois ressuscitar. Este é o caminho!» (Francisco)

«(…) Desde o princípio, os primeiros discípulos arderam no desejo de anunciar Cristo: ‘Nós é que não podemos deixar de dizer o que vimos e escutamos' (At 4, 20). E convidam os homens de todos os tempos a entrar na alegria da sua comunhão com Cristo» (Catecismo da Igreja Católica, nº 425)

Quem não renuncia a todos os seus bens, não pode ser discípulo de Jesus.

Escrito por P. Américo no site DOMUS IESU

* Quem não renuncia a todos os bens, não pode ser discípulo de Jesus. Independentemente das duas pequenas parábolas que se referem aos cálculos que é preciso fazer para construir uma torre e para vencer uma batalha (no caso, seriam dispensáveis), creio que a ideia básica e mais importante deste trecho é aquilo que, de resto, afinal, faz a essência do cristianismo. Ou seja, a condição para seguir a Jesus implica amá-lo a Ele mais do que à própria família, tomar a cruz e renunciar a todos os bens pelo Reino. Perante a forma como a proposta é apresentada, não pode haver dúvidas: o núcleo essencial do cristianismo é a pessoa de Jesus Cristo, pois Ele está acima de todas as coisas. Por outras palavras, se nos interrogarmos sobre o que distingue o cristão dos fiéis de outras religiões (nomeadamente as monoteístas), temos que responder que o Deus do cristão é o «Deus Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo», ou seja, o Deus que Jesus Cristo nos revelou como Pai. Por outro lado, Jesus, na medida em que ultrapassa todos os laços mais sagrados que possam existir, é proposto como absoluto. Daí poder-se concluir que a fé é uma escolha radical e o seu objeto é, digamos, precisamente Jesus Cristo. Dito de outra maneira, sem a aceitação desta opção radical, não há sequer cristianismo.

* A fé é escolha radical. Por se tratar de um tema que pode causar não poucas perplexidades, vou limitar-me a comentar o texto evangélico. E, para o efeito, vou servir-me das reflexões dum autor versado no texto de Lucas. Minhas são apenas as ligações entre umas partes e outras, bem como os subtítulos; além da tradução e adaptação, naturalmente.
«O texto que comentamos é composto por duas parábolas (14,27-30 e 14,31-32) e por três sentenças/conclusões fundamentais (16,26; 14,27; 14,33). O tema geral é o das exigências que o seguimento de Jesus Cristo impõe. As parábolas mostram-no de maneira humanamente razoável e compreensível. As sentenças, ou conclusões, acentuam, ao contrário, o aspecto paradoxal e mais duro deste seguimento. As parábolas fazem pensar na esperteza e no cálculo dos homens deste mundo. O que constrói reflete bem primeiro sobre os custos, a ver se pode sustentar todas as despesas necessárias. Assim também, o rei que pretende travar uma batalha, calcula primeiro a consistência das suas forças e as possibilidades que têm de chegar à vitória».

* O risco de ser discípulo. «É com este pano de fundo que é apresentado o tema do discípulo. Seguir a Jesus é uma empresa dura e custosa. Por isso, aquele que decide ser cristão deve calcular muito bem as forças, os deveres que assume e os riscos que corre».
«O ensino destas parábolas é muito simples. Os projetos deste mundo impõem despesas, planos e sacrifícios. Não se pode ter a pretensão de resolver o problema do seguimento de Cristo ao calhar, sem uma ordem, sem uma lógica, sem esforço... Por isso, é necessário que calculemos com "frieza" o que essa opção implica. Eventualmente, poder-se-á chegar à conclusão de que, por esse preço, não vale a pena "construir a torre" ou "vencer a guerra"... Nesse caso, seria preferível confessar pura e simplesmente que não temos intenção de ser discípulos de Cristo».

* Condições do seguimento. «A primeira condição de todo o seguimento de Jesus está expressa em Lc 14,27: "Quem não toma a sua própria cruz e não me segue não pode ser meu discípulo". Isso significa que esta "guerra" não tem outra lei senão a de Cristo: o seu ir ter com os pequenos, a sua mensagem de esperança e o seu caminho de verdade (fidelidade) até à morte».
«Tal é o custo e a riqueza que implica ser cristão. Esta lei fundamental apoia-se em duas condições que definem o sentido verdadeiro da renúncia. Construir uma grande torre ou vencer uma batalha comporta sacrifícios que podem chegar a ser enormes, tanto em termos de bens materiais como em desgaste (ou até morte) de pessoas. Seguir a Cristo exige uma renúncia ao amor da família e a renúncia a todo o domínio do dinheiro» (cf. Lc 14,26; 14,33).

* Os limites da parentela. "Se alguém quer ser dos meus e não odeia o seu pai, a sua mãe, a mulher, os filhos, os irmãos, as irmãs e até a própria vida, não pode ser meu discípulo". As palavras do texto original falam de "ódio" à família e têm provocado o escândalo de milhões de cristãos. Todavia, elas aí estão no centro da mensagem de Jesus, constituindo um dos aspectos mais consoladores e fecundos da sua doutrina».
«Por família (pai, mãe, mulher, filhos e irmãos) entende-se o clã onde se vive, a comunhão biológica de sangue, a segurança da raça, o ideal dum destino comum. Fechar-se no amor desta família, baseada em vínculos de sangue, nos interesses da raça, nas funções dum partido político, nas fronteiras dum estado que se absolutiza... fechar-se nestes limites quer dizer confundir o amor com o egoísmo, o bem dos outros com os próprios interesses».
«Cristo veio criar o amor que abate as fronteiras. Por isso, oferece o seu auxílio aos marginalizados, aos pecadores, aos estrangeiros. Só na medida em que seguirmos o seu exemplo, só na medida em que procurarmos fazer o bem a todos, sem limites, é que seremos capazes de abater as fronteiras da indiferença e do ódio que separam clãs, raças e nações. Só nessa medida seremos seguidores de Jesus Cristo...».

* Os limites da riqueza. «É nesta perspectiva que se compreende também a segunda implicação do seguimento de Jesus: "Quem de vós não renunciar a todos os seus bens, não pode ser meu discípulo". Renunciar aos bens não quer dizer desinteressar-se do mundo. Renunciar quer dizer pôr tudo à disposição do Reino, usar as coisas para o bem dos outros no campo do amor, aberto a quem quer que tenha necessidade».
«Neste sentido, Lucas condena, por exemplo, aquele tipo de propriedade privada na qual o patrão crê poder usar a riqueza simplesmente para satisfazer os seus caprichos. A propriedade privada é cristã na medida em que é posta ao serviço da comunidade humana» (Javier Pikaza).

* As exigências do discipulado. Para alcançar o Reino de Deus, é indispensável obedecer ao chamamento de Jesus. Ora, na parábola do «grande banquete», à qual Lucas dá uma configuração toda característica (comparar Lc 14,15-24 com Mt 22,1-14), aparecem já as dificuldades de ordem material e afetiva que impedem de acolher o convite do servo. O Servo do Senhor é o próprio Jesus. É ele, segundo Lucas, que tem a responsabilidade e missão de anunciar o Reino.
O trecho de hoje toma em consideração as dificuldades de ordem afetiva, material e de aceitação da cruz, insistindo por três vezes no tema da renúncia pelo Reino. Cada um veja quais são as próprias forças e decida. O cristianismo é uma escolha. Diante de Jesus Cristo, tudo o resto é relativo.

quinta-feira, 1 de setembro de 2022

Sábado XXII do Tempo Comum

São Gregório Magno, papa e doutor da Igreja

1ª Leitura (1Cor 4,6b-15):
Irmãos: Aprendei de mim e de Apolo a sentença: «não se deve ir além do que está escrito», para que nenhum de vós se encha de orgulho, tomando partido de um contra o outro. Pois quem te considera superior aos demais? Que possuis que não tenhas recebido? E, se o recebeste, porque te orgulhas, como se não o tivesses recebido? Já estais saciados, já estais ricos! Sem nós vos tornastes reis! Quem dera que vos tivésseis tornado reis, para nós reinarmos também convosco! Na verdade, parece-me que Deus nos expôs a nós, os Apóstolos, no último lugar, como homens condenados à morte, porque nos tornámos espetáculo para o mundo, para os Anjos e para os homens. Nós somos loucos por causa de Cristo, vós sábios em Cristo; nós somos fracos, vós sois fortes; vós sois honrados, nós desprezados. Ainda agora, suportamos a fome e a sede, andamos malvestidos, somos maltratados, não temos morada certa e cansamo-nos a trabalhar com as próprias mãos. Insultam-nos e abençoamos; perseguem-nos e suportamos; somos difamados e respondemos com bondade. Temos sido considerados até ao presente como o lixo deste mundo, como a escória da humanidade. Não é para vos envergonhar que vos escrevo estas palavras, mas para vos advertir como a filhos caríssimos. Na verdade, podíeis ter dez mil tutores em Cristo, mas não tendes muitos pais; e fui eu que vos fiz nascer, por meio do Evangelho, como membros de Cristo Jesus.

Salmo Responsorial: 144
R. O Senhor está perto de quantos O invocam.

O Senhor é justo em todos os seus caminhos e perfeito em todas as suas obras. O Senhor está perto de quantos O invocam, de quantos O invocam em verdade.

Atende os desejos daqueles que O temem, ouve os seus clamores e os salva. O Senhor vela por aqueles que o amam e extermina todos os ímpios.

Cante a minha boca os louvores do Senhor e todo o ser vivo bendiga eternamente o seu nome santo.

Aleluia. Eu sou o caminho, a verdade e a vida, diz o Senhor; ninguém vai ao Pai senão por Mim. Aleluia.

Evangelho (Lc 6,1-5): Num sábado, Jesus estava passando pelas plantações de trigo, e os discípulos arrancavam as espigas, debulhavam e comiam. Alguns fariseus disseram: «Por que fazeis o que não é permitido em dia de sábado?». Jesus respondeu-lhes: «Nunca lestes o que fez Davi, quando ele teve fome, e seus companheiros também? Ele entrou na casa de Deus, pegou os pães da oferenda, comeu e ainda deu aos seus companheiros esses pães, que só aos sacerdotes era permitido comer». E acrescentou: «O Filho do Homem é Senhor também do sábado».

«O Filho do Homem é Senhor também do sábado»

Fr. Austin Chukwuemeka IHEKWEME (Ikenanzizi, Nigéria)

Hoje, frente à acusação dos fariseus, Jesus explica o sentido correto do descanso sabático, invocando um exemplo de Antigo Testamento (cf. Dt 23,26): «Nunca lestes o que fez Davi (...) pegou os pães da oferenda, comeu e ainda deu aos seus companheiros esses pães, que só aos sacerdotes era permitido comer» (Lc 6,3-4).

A conduta de Davi antecipou a doutrina que Cristo ensina nesta passagem. Já no Antigo Testamento, Deus tinha estabelecido uma ordem nos preceitos da Lei, de forma que os de menor hierarquia cedem frente aos principais.

À luz disto, explica-se que um preceito cerimonial (como o que comentamos) cedesse ante um preceito de lei natural. Igualmente, o preceito do sábado não está por cima das necessidades elementares de subsistência.

Nesta passagem, Cristo ensina qual era o sentido da instituição divina do sábado: Deus o tinha instituído no bem do homem, para que pudesse descansar e se dedicar com paz e alegria ao culto divino. A interpretação dos fariseus tinha convertido esse dia em ocasião de angústia e preocupação a causa da quantia das prescrições e proibições.

O sábado tinha sido feito não só para que o homem descansasse, mas também para que desse glória a Deus: este é o autêntico sentido da expressão «o sábado foi feito para o homem» (Mc 2,27).

Adicionalmente, ao declarar-se senhor também do sábado (cf. Lc 6,5), manifesta abertamente que Ele é o mesmo Deus que deu o preceito ao povo de Israel, afirmando assim a sua divindade e o seu poder universal. Por essa razão, pode estabelecer outras leis, ao igual que Javé no Antigo Testamento. Jesus bem pode chamar-se senhor do sábado, porque é Deus.

Peçamos ajuda à Virgem para acreditar e entender que o sábado pertence a Deus e é uma forma —adaptado à natureza humana— de render glória e honra ao Todo-Poderoso. Como tem escrito São João Paulo II, «o descanso é uma coisa sagrada» e ocasião para «tomar consciência de que tudo é obra de Deus».

Pensamentos para o Evangelho de hoje
«Neste tempo de graça, o cristão observa um sábado perpétuo se fizer todas as boas obras com a esperança do descanso futuro» (Santo Agostinho)

«Viver segundo o domingo significa viver consciente da libertação trazida por Cristo e desenvolver a própria vida como oferenda de si mesmo a Deus» (Bento XVI)

«A celebração do domingo é o cumprimento da prescrição moral, naturalmente inscrita no coração do homem, de prestar a Deus um culto exterior, visível, público e regular, sob o signo da sua bondade universal para com os homens (…)» (Catecismo da Igreja Católica, nº 2.176)

Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm.

* O evangelho de hoje traz o conflito em torno da observância do sábado. A observância do sábado era uma lei central, um dos Dez Mandamentos. Lei muito antiga que foi revalorizada na época do cativeiro. No cativeiro, o povo devia trabalhar sete dias por semana de sol a sol, sem condições de se reunir para ouvir e meditar a Palavra de Deus, para rezar juntos e para partilhar sua fé, seus problemas e sua esperança. Daí apareceu a necessidade urgente de parar ao menos um dia por semana para reunir e animar-se mutuamente naquela condição tão dura do cativeiro. Do contrário, perderiam a fé. Foi aí que renasceu e foi restabelecida com vigor a observância do sábado.

* Lucas 6,1-2: A causa do conflito. Num dia de sábado, os discípulos passam pelas plantações e abrem caminho arrancando espigas. Mateus 12,1 diz que eles estavam com fome (Mt 12,1). Os fariseus invocam a Bíblia para dizer que isto é transgressão da lei do Sábado: "Por que vocês estão fazendo o que não é permitido em dia de sábado?" (cf Ex 20,8-11).

* Lucas 6,3-4: A resposta de Jesus. Imediatamente, Jesus responde lembrando que o próprio Davi também fez coisas proibidas, pois tirou os pães sagrados do templo e os deu de comer aos soldados que estavam com fome (1 Sm 21,2-7). Jesus conhecia a Bíblia e a invocava para mostrar que os argumentos dos outros não tinham fundamento. Em Mateus, a resposta de Jesus é mais completa. Ele não só invoca a história de Davi, mas cita também a Legislação que permitia aos sacerdotes de trabalhar no sábado e cita ainda a frase do profeta Oséias: “Quero misericórdia e não sacrifício”. Citou um texto histórico, um texto legislativo e um texto profético (cf. Mt 12,1-18). Naquele tempo, não havia Bíblias impressas como temos hoje em dia. Em cada comunidade só havia uma única Bíblia, escrita à mão, que ficava na sinagoga. Se Jesus conhecia tão bem a Bíblia, é sinal de que ele, durante os 30 anos da sua vida em Nazaré, deve ter participado intensamente da vida da comunidade, onde todo sábado se liam as escrituras. Ainda falta muito para nós termos a mesma familiaridade com a Bíblia e a mesma participação na comunidade.

* Lucas 6,5: A conclusão para todos nós. E Jesus termina com esta frase: O Filho do Homem é dono até do sábado!  Jesus , como Filho do Homem que vive na intimidade com Deus, descobre o sentido da Bíblia não de fora para dentro, mas de dentro para fora, isto, ele descobre o sentido a partir da raiz, a partir da sua intimidade com o autor da Bíblia que é o próprio Deus. Por isso, ele se diz dono do sábado. No evangelho de Marcos, Jesus relativiza a lei do sábado dizendo: “O ser humano não existe para o sábado, mas o sábado existe para o ser humano” (Mc 2,27).

Para um confronto pessoal
1) Como você passa o Domingo, nosso “Sábado”? Você vai à missa por obrigação para evitar pecado ou para poder estar com Deus?
2) Jesus conhecia a Bíblia quase de memória. E eu, o que a Bíblia representa para mim?