VENERÁVEL ORDEM TERCEIRA DO CARMO DE SERGIPE FUNDAÇÃO 1666 REFUNDAÇÃO 2003-PROVÍNCIA CARMELITANA PERNAMBUCANA
quarta-feira, 5 de janeiro de 2022
Sexta-feira depois da Epifania
Beata Lindalva Justo de Oliveira, Virgem e Mártir
Salmo Responsorial: 147
R. Jerusalém, louva o
teu Senhor.
Glorifica, Jerusalém, o Senhor, louva, Sião, o teu Deus. Ele
reforçou as tuas portas e abençoou os teus filhos.
Estabeleceu a paz nas tuas fronteiras e saciou-te com a flor
da farinha. Envia à terra a sua palavra, corre veloz a sua mensagem.
Revelou a sua palavra a Jacob, suas leis e preceitos a
Israel. Não fez assim com nenhum outro povo, a nenhum outro manifestou os seus
juízos.
Aleluia. Jesus proclamava o Evangelho do reino e curava todas as
doenças entre o povo. Aleluia.
Evangelho (Lc 5,12-16): Estando Jesus numa das
cidades, apareceu um homem coberto de lepra. Ao ver Jesus, ele caiu com o rosto
em terra e suplicou-lhe: «Senhor, se queres, tens o poder de purificar-me».
Estendendo a mão, Jesus tocou nele e disse: «Quero, fica purificado». E
imediatamente a lepra desapareceu. E ordenou-lhe que não o contasse a ninguém.
«Mas», disse, «vai mostrar-te ao sacerdote e apresenta por tua purificação a
oferenda prescrita por Moisés. Isso lhes servirá de testemunho». Cada vez mais,
sua fama se espalhava, e as multidões acorriam para ouvi-lo e para serem
curadas de suas doenças. Ele, porém, se retirava para lugares desertos, onde se
entregava à oração.
«Cada vez mais, sua fama se espalhava»
Rev. D. Santi COLLELL i
Aguirre (La Garriga, Barcelona, Espanha)
Mas, este contágio não será possível se antes nós não temos
sido capazes de reconhecer nossas próprias “lepras” particulares e de nos
acercar a Cristo tendo consciência de que somente Ele nos pode liberar de
maneira eficaz de todos nossos egoísmos, invejas, orgulhos e rancores...
Que a fama de Cristo se estenda a todos os cantos de nossa
sociedade depende, em grande medida, dos ”encontros particulares” que tivemos
com Ele. Quanto mais e mais intensamente nos impregnemos de seu Evangelho, de
seu amor, de sua capacidade de escutar, de acolher, de perdoar, de aceitar o
outro (por diferente que seja), mais capazes seremos nós de dá-lo a conhecer a
nosso entorno.
O leproso do Evangelho que hoje se lê na Eucaristia é alguém
que tem feito um duplo exercício de humildade. O de reconhecer qual é seu mal
e, o de aceitar a Jesus como seu Salvador. Cristo é quem nos dá a oportunidade
de fazer uma mudança radical e profunda na nossa vida. Diante de tudo aquilo
que é impedimento para o amor e que tem se enquistado nos nossos corações e em
nossas vidas, Cristo, com seu testemunho de vida e de Vida Nova, propõem-nos
uma alternativa totalmente real e possível. A alternativa do amor, da ternura
da misericórdia. Jesus, diante de quem é diferente a Ele (o leproso) não
escapa, não o ignora, não o “despacha” à administração, nem às instituições ou
às “ong’s”. Cristo aceita o reto do encontro e, ao “enfermo” lhe oferece aquilo
que necessita, a cura/purificação.
Nós temos que ser capazes de oferecer aos que se aproximam a
nossas vidas aquilo que recebemos do Senhor. Mas, antes será necessário
encontrar-nos com Ele e renovar nosso compromisso de viver seu Evangelho nos
pequenos detalhes de cada dia.
Pensamentos para o
Evangelho de hoje
«Aquele homem se ajoelha prostrando-se no chão —o que é um
sinal de humildade e de vergonha— para que cada um se envergonhe das nódoas da
sua vida. A sua confissão está cheia de piedade y de fé: esto é, reconheceu que
curar-se estava nas mãos do Senhor» (Santo Beda o Venerável)
«Através da sua Mãe é sempre Jesus quem sai ao nosso
encontro para liberar-nos de toda doença do corpo e da alma. ¡Deixemo-nos tocar
e purificar por Ele!» (Bento XVI)
«Jesus acompanha as suas palavras com numerosos ‘milagres,
prodígios e sinais, (Act 2,22), os quais manifestam que o Reino está presente n'Ele.
Comprovam que Ele é o Messias anunciado (289)» (Catecismo da Igreja Católica,
nº 547).
Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm
* O leproso, para
poder entrar em contato com Jesus, tinha transgredido as normas da lei. Da
mesma forma, Jesus, para poder ajudar aquele excluído e, assim, revelar um
rosto novo de Deus, transgride as normas da sua religião e toca no leproso.
Naquele tempo, quem tocava num leproso tornava-se um impuro perante as
autoridades religiosas e perante a lei da época.
* Jesus não só
cura, mas também quer que a pessoa curada possa conviver. Ele reintegra a
pessoa na convivência. Naquele tempo, para um leproso ser novamente acolhido na
comunidade, ele precisava ter um atestado de cura assinado por um sacerdote. É
como hoje. O doente só sai do hospital com o documento assinado pelo médico de
plantão. Jesus obrigou o fulano a buscar o documento, para que ele pudesse
conviver normalmente. Obrigou as autoridades a reconhecer que o homem tinha
sido curado.
* Jesus tinha
proibido o leproso de falar sobre a cura. O Evangelho de Marcos informa que
esta proibição não adiantou nada. O leproso, assim que partiu, começou a
divulgar a notícia, de modo que Jesus já não podia entrar publicamente numa
cidade. Permanecia fora, em lugares desertos (Mc 1,45). Por que? É que Jesus
tinha tocado no leproso. Por isso, na opinião da religião daquele tempo, agora
ele mesmo era um impuro e devia viver afastado de todos. Já não podia entrar
nas cidades. E Marcos mostra ainda que o povo pouco se importava com estas
normas oficiais, pois de toda a parte vinham a ele (Mc 1,45). Subversão total!
* O duplo recado
que Lucas e Marcos dão às comunidades do seu tempo e a todos nós é este: 1) anunciar a Boa Nova é dar testemunho da
experiência concreta que se tem de Jesus. O leproso, o que ele anuncia? Ele
conta aos outros o bem que Jesus lhe fez. Só isso! Tudo isso! E é este
testemunho que leva os outros a aceitar a Boa Nova de Deus que Jesus nos
trouxe. 2)
Para levar a Boa Nova de Deus ao povo, não se deve ter medo de transgredir
normas religiosas que são contrárias ao projeto de Deus e que dificultam a
comunicação, o diálogo e a vivência do amor. Mesmo que isto traga dificuldades
para a gente, como trouxe para Jesus.
Para um confronto
pessoal
1. Para ajudar o
próximo, Jesus transgrediu a lei da pureza. Existem hoje leis na igreja que
dificultam ou impedem a prática do amor ao próximo?
2. O leproso para
poder ser curado teve coragem a opinião pública do seu tempo. E eu?
terça-feira, 4 de janeiro de 2022
Quinta-feira depois da Epifania
São Raimundo de Peñafort, presbítero
Salmo Responsorial: 71
R. Virão adorar-Vos,
Senhor, todos os povos da terra.
Deus, concedei ao rei o poder de julgar e a vossa justiça ao
filho do rei. Ele governará o vosso povo com justiça e os vossos pobres com
equidade.
Ele os libertará da opressão e da violência e o sangue deles
será precioso a seus olhos; por ele hão de rezar sempre e todos os dias o
bendirão.
O seu nome será eternamente bendito e durará tanto como a
luz do sol; nele serão abençoadas todas as nações, todos os povos da terra o
hão de bendizer.
Aleluia. O Senhor enviou-me a anunciar aos pobres a boa nova, a
proclamar aos cativos a redenção. Aleluia.
Evangelho (Lc 4,14-22): Jesus voltou para a Galileia,
com a força do Espírito, e sua fama se espalhou por toda a região. Ele ensinava
nas sinagogas deles, e todos o elogiavam. Foi então a Nazaré, onde se tinha
criado. Conforme seu costume, no dia de sábado, foi à sinagoga e levantou-se
para fazer a leitura. Deram-lhe o livro do profeta Isaías. Abrindo o livro,
encontrou o lugar onde está escrito: «O Espírito do Senhor está sobre mim, pois
ele me consagrou com a unção, para anunciar a Boa Nova aos pobres: enviou-me
para proclamar a libertação aos presos e, aos cegos, a recuperação da vista;
para dar liberdade aos oprimidos e proclamar um ano de graça da parte do
Senhor». Depois, fechou o livro, entregou-o ao ajudante e sentou-se. Os olhos
de todos, na sinagoga, estavam fixos nele. Então, começou a dizer-lhes: “Hoje
se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir”. Todos
testemunhavam a favor dele, maravilhados com as palavras cheias de graça que
saíam de sua boca. E perguntavam: «Não é este o filho de José?».
«O Espírito do Senhor está sobre mim, pois ele me consagrou com a
unção»
Rev. D. Jordi POU i
Sabater (Sant Jordi Desvalls, Girona, Espanha)
A vocação do homem é o amor, é vocação a se entregar,
procurando a felicidade do outro e, assim encontrar a própria felicidade. Como
diz São João da Cruz, «No crepúsculo da vida, seremos julgados no amor». Vale a
pena que nos perguntemos ao terminar cada jornada, cada dia, num breve exame de
consciência, com foi este amor e, pontualizar algum aspecto a melhorar para o
dia seguinte.
«O Espírito do Senhor está sobre mim» (Lc 4,18), dirá Jesus,
fazendo seu este texto messiânico. É o Espírito do Amor que assim como fez o do
Messias a «que consagrou com a unção, para anunciar a Boa Nova aos pobres» (cf.
Lc 4,18), também “repousa” sobre nós e nos conduz até o amor perfeito: Como diz
o Concilio Vaticano II: «Todos os fiéis cristãos, de qualquer estado ou ordem,
são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade». O Espírito
Santo nos transformará como fez com os Apóstolos, para que possamos agir sob
sua moção, nos outorgando seus frutos e, assim levá-los a todos os corações: «O
fruto do Espírito, porém, é: amor, alegria, paz, paciência, amabilidade,
bondade, lealdade, mansidão, domínio próprio» (Gal 5,22-23).
Pensamentos para o
Evangelho de hoje
«Nosso Salvador foi verdadeiramente homem, e Ele conseguiu a
salvação do homem inteiro. Porque de forma nenhuma nossa salvação é fictícia
nem afeta só o corpo, se não que a salvação de todo o homem foi realizada
naquele que é o Verbo» (Santo Atanásio)
«Tem muitos cristãos com uma esperança com demasiada água.
Para ser “cristãos vencedores” devemos crer confessando a fé, e custodiando a
fé, e encomendando-nos a Deus, ao Senhor. E esta é a vitória que venceu o
mundo: nossa fé» (Francisco)
«Cremos e confessamos que Jesus de Nazaré, nascido judeu de
uma filha de Israel, (..) é o Filho eterno de Deus feito homem; “vindo de Deus”
(Jo 13,3), “decido do céu” (Jo 3,13; 6,33), “veio na carne”, (1Jo 4,2) (...).
De sua plenitude todos nós recebemos, graça por graça” (Jo 1,14.16)» (Catecismo
da Igreja Católica, n°423)
Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm
* Jesus se
levantou para fazer a leitura. Escolheu o texto de Isaías que falava dos pobres,
presos, cegos e oprimidos. O texto refletia a situação do povo da Galileia no
tempo de Jesus. Em nome de Deus, Jesus toma posição em defesa da vida do seu
povo e, com as palavras de Isaías, define a sua missão: anunciar a Boa Nova aos
pobres, proclamar a libertação aos presos e a recuperação da vista aos cegos,
restituir a liberdade aos oprimidos. Retomando a antiga tradição dos profetas,
ele proclama “um ano de graça da parte do Senhor”. Proclama o ano do jubileu.
Jesus quer reconstruir a comunidade, o clã, para que fosse novamente expressão
da sua fé em Deus! Pois, se Deus é Pai/Mãe, todos e todas devemos ser irmãos e
irmãs uns dos outros.
* No antigo
Israel, a grande família, o clã ou a comunidade, era a base da convivência
social. Era a proteção das famílias e das pessoas, a garantia da posse da
terra, o veículo principal da tradição e a defesa da identidade do povo. Era a
maneira concreta de se encarnar o amor de Deus no amor ao próximo. Defender o
clã, a comunidade, era o mesmo que defender a Aliança com Deus. Na Galileia do
tempo de Jesus, um duplo cativeiro marcava a vida do povo e estava contribuindo
para a desintegração do clã, da comunidade: o cativeiro da política do governo
de Herodes Antipas (4 aC a 39 dC) e o cativeiro da religião oficial. Por causa
do sistema de exploração e de repressão da política de Herodes Antipas, apoiada
pelo Império Romano, muita gente ficava sobrando e sem lugar, excluída e sem
emprego (Lc 14,21; Mt 20,3.5-6). O clã, a comunidade, ficou enfraquecida. As
famílias e as pessoas ficaram sem ajuda, sem defesa. E a religião oficial,
mantida pelas autoridades religiosas da época, em vez de fortalecer a
comunidade, para que ela pudesse acolher os excluídos, reforçava ainda mais
esse cativeiro. A Lei de Deus era usada para legitimar a exclusão de muita
gente: mulheres, crianças, samaritanos, estrangeiros, leprosos, possessos,
publicanos, doentes, mutilados, paraplégicos. Era o contrário da fraternidade
que Deus sonhou para todos! Assim, tanto a conjuntura política e econômica como
a ideologia religiosa, tudo conspirava para enfraquecer a comunidade local e
impedir, assim, a manifestação do Reino de Deus. O programa de Jesus, baseado
no profeta Isaías oferecia uma alternativa.
* Terminada a
leitura, Jesus atualizou o texto e o ligou com a vida do povo dizendo: “Hoje se
cumpriu esta escritura nos ouvidos de vocês!” A sua maneira de ligar a Bíblia
com a vida do povo, provocou uma dupla reação. Uns acreditaram e ficaram
admirados. Outros tiveram uma reação de descrédito. Ficaram escandalizados e já
não queriam saber dele. Diziam: “Não é este o filho de José?” (Lc 4,22) Por que
ficaram escandalizados? É que Jesus falou em acolher os pobres, os cegos, os
oprimidos. Mas eles não aceitaram a sua proposta. E assim, no momento em que apresentou
o seu projeto de acolher os excluídos, ele mesmo foi excluído!
Para um confronto
pessoal
1. Jesus ligou a
fé em Deus com a situação social do seu povo. E eu, como vivo a minha fé em
Deus?
2. No lugar onde
eu moro existem cegos, presos, oprimidos? O que faço?
segunda-feira, 3 de janeiro de 2022
Quarta-feira depois da Epifania
Salmo Responsorial: 71
R. Virão adorar-Vos,
Senhor, todos os povos da terra.
Deus, concedei ao rei o poder de julgar e a vossa justiça ao
filho do rei. Ele governará o vosso povo com justiça e os vossos pobres com
equidade.
Os reis de Társis e das ilhas virão com presentes, os reis
da Arábia e de Sabá trarão suas ofertas. Prostrar-se-ão diante dele todos os
reis, todos os povos o hão de servir.
Socorrerá o pobre que pede auxílio e o miserável que não tem
amparo. Terá compaixão dos fracos e dos pobres e defenderá a vida dos
oprimidos.
Aleluia. Glória a Vós, Jesus Cristo, anunciado aos gentios; glória a
Vós, Jesus Cristo, acreditado no mundo. Aleluia.
Evangelho (Mc 6,45-52): Logo em seguida, Jesus
mandou que os discípulos entrassem no barco e fossem na frente para Betsaida,
na outra margem, enquanto ele mesmo despediria a multidão. Depois de os
despedir, subiu a montanha para orar. Já era noite, o barco estava no meio do
mar e Jesus, sozinho, em terra. Vendo-os com dificuldade no remar, porque o
vento era contrário, nas últimas horas da noite, foi até eles, andando sobre as
águas; e queria passar adiante. Quando os discípulos o viram andar sobre o mar,
acharam que fosse um fantasma e começaram a gritar. Todos o tinham visto e
ficaram apavorados. Mas ele logo falou: «Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!»
Ele subiu no barco, juntando-se a eles, e o vento cessou. Mas os discípulos
ficaram ainda mais espantados. De fato, não tinham compreendido nada a respeito
dos pães. O coração deles continuava sem entender.
«Depois de os despedir, subiu a montanha para orar»
Rev. D. Melcior QUEROL
i Solà (Ribes de Freser, Girona, Espanha)
Achar tempo e espaço para a oração pede um requisito prévio:
o desejo de encontro com Deus com a consciência clara de que nada nem ninguém o
pode substituir. Se não há sede de comunicação com Deus, facilmente
transformaremos a oração num monólogo, porque a utilizamos para tentar
solucionar os problemas que nos incomodam. Também é fácil que, nos momentos de
oração, nos distraiamos porque nosso coração e nossa mente estão invadidos
constantemente por pensamentos e sentimentos de todo tipo. A oração não é
charlatanice, senão um simples e sublime encontro com o Amor; é relação com
Deus: comunicação silenciosa do “Eu necessitado” com o “Você rico e transcendente”.
O prazer da oração é se saber criatura amada diante do Criador.
Oração e vida cristã vão unidas, são inseparáveis. Nesse
sentido, Orígenes diz que «reza sem parar aquele que une a oração às obras e as
obras à oração. Somente assim podemos considerar realizável o princípio de
rezar sem parar». Sim, é necessário rezar sem parar porque as obras que
realizamos são fruto da contemplação e, feitas para sua glória. Devemos agir
sempre desde o diálogo contínuo que Jesus oferece-nos, no sossego do espírito.
A partir dessa certa passividade contemplativa veremos que a oração é o
respirar do amor. Se não respiramos morremos, se não rezamos expiramos
espiritualmente.
Pensamentos para o
Evangelho de hoje
«Não quero (…) desconfiar da bondade de Deus, por mais fraco
e frágil me sinta. Além disso, se por causa do medo e do espanto visse que
estou prestes a ceder, lembrar-me-ei de São Pedro, quando, devido à sua pouca
fé, começou a afundar-se por causa de uma única rajada de vento, e farei o que
ele fez. Clamarei a Cristo: Senhor, salva-me» (Santo Tomás More)
«[Hoje em dia] Deus pode agir na esfera espiritual, mas não
na matéria. Isto atrapalha-nos! Se Deus não tem poder também sobre a matéria, então
ele não é Deus» (Bento XVI)
«Nada existe que não deva a sua existência a Deus Criador: O
mundo começou quando foi tirado do nada pela Palavra de Deus: todos os seres
existentes, toda a Natureza, toda a história humana radicam neste acontecimento
primordial: é a própria génese, pela qual o mundo foi constituído e o tempo
começado» (Catecismo da Igreja Católica, nº 338)
Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm
* Marcos descreve com
arte os acontecimentos. De um lado, Jesus sobe o monte para rezar. De outro
lado, os discípulos descem para o mar e entram no barco. Parece até um quadro
simbólico que prefigura o futuro: é como se Jesus já subisse para o céu,
deixando os discípulos sozinhos em meio às contradições da vida, no barquinho
frágil da comunidade. Era noite. Eles estavam em alto mar, todos juntos num
pequeno barco, querendo avançar remando, mas o vento era contrário. Estavam
cansados. Já era a quarta vigília, isto é, entre 3 e 6 da madrugada. As
comunidades do tempo de Marcos eram como os discípulos. Noite! Vento contrário!
Não conseguiam nada, apesar de todo o esforço que faziam! Jesus parecia
ausente! Mas ele estava presente e vinha até elas, mas elas, como os discípulos
de Emaús, não o reconheciam (Lc 24,16).
* No tempo de
Marcos, em torno do ano 70, o barquinho das comunidades enfrentava o vento
contrário tanto de alguns judeus convertidos que queriam reduzir o mistério de
Jesus ao tamanho das profecias e figuras do Antigo Testamento, como de alguns
pagãos convertidos que pensavam ser possível uma certa aliança da fé em Jesus
com o império. Marcos procura ajudar os cristãos a respeitar o mistério de
Jesus e a não querer reduzir Jesus ao tamanho dos próprios desejos e ideias.
* Jesus chega andando
sobre as águas do mar da vida. Eles gritam de medo, porque pensam que se
trata de um fantasma. Como na história dos discípulos de Emaús, Jesus faz de
conta que quer seguir adiante (Lc 24,28). Mas o grito deles faz com que ele
mude de rumo, se aproxime deles e diga: “Calma, gente! Sou eu! Não tenham
medo!” Aqui, de novo, quem conhece a história do Antigo Testamento, lembra
alguns fatos muito importantes: (1) Lembra
como o povo, protegido por Deus, atravessou sem medo o Mar Vermelho. (2) Lembra como Deus, ao chamar Moisés, declarou
várias vezes o seu nome dizendo: “Sou eu!” (cf. Ex 3,15). (3) Lembra
ainda o livro de Isaías que apresenta o retorno do exílio como um novo êxodo,
onde Deus aparece repetindo inúmeras vezes: “Sou eu!” (cf. Is 42,8; 43,5.11-13;
44,6.25; 45,5-7). Esta maneira de evocar o Antigo Testamento, de usar a Bíblia,
ajudava as comunidades a perceber melhor a presença de Deus em Jesus e nos
fatos da vida. Não tenham medo!
* Jesus sobe no barco
e o vento pára. Mas o espanto dos discípulos, em vez de terminar, aumenta.
O próprio evangelista Marcos faz um comentário crítico e diz: “Eles não tinham
entendido nada a respeito dos pães. O coração deles estava endurecido” (6,52).
A afirmação coração endurecido evoca o coração endurecido do faraó (Ex
7,3.13.22) e do povo no deserto (Sl 95,8) que não queria ouvir Moisés e só
pensava em voltar para o Egito (Nm 20,2-10), onde havia pão e carne com fartura
(Ex 16,3).
Para um confronto
pessoal
1. Noite, mar
agitado, vento contrário! Você já se sentiu assim alguma vez? Como fez para
vencer?
2. Você já se espantou alguma vez porque não reconheceu Jesus presente e atuante em sua vida?
domingo, 2 de janeiro de 2022
Terça-feira depois da Epifania
São Manuel Gonzalez Garcia, Bispo
Salmo Responsorial: 71
R. Virão adorar-Vos,
Senhor, todos os povos da terra.
Deus, concedei ao rei o poder de julgar e a vossa justiça ao
filho do rei. Ele governará o vosso povo com justiça e os vossos pobres com
equidade.
Os montes trarão a paz ao povo e as colinas a justiça. Ele
fará justiça aos humildes e salvará os indigentes.
Florescerá a justiça nos seus dias e uma grande paz até ao
fim dos tempos. Ele dominará de um ao outro mar, do grande rio até aos confins
da terra.
Aleluia. O Senhor
enviou-me a anunciar aos pobres a boa nova, a proclamar aos cativos a redenção.
Aleluia.
Evangelho (Mc 6, 34-44): Ao sair do barco, Jesus
viu uma grande multidão e encheu-se de compaixão por eles, porque eram como
ovelhas que não têm pastor. E começou, então, a ensinar-lhes muitas coisas. Já
estava ficando tarde, quando os discípulos se aproximaram de Jesus e disseram:
«Este lugar é deserto e já é tarde. Despede-os, para que possam ir aos sítios e
povoados vizinhos e comprar algo para comer» Mas ele respondeu: «Vós mesmos,
dai-lhes de comer»! Os discípulos perguntaram: «Queres que gastemos duzentos
denários para comprar pão e dar de comer a toda essa gente?» Jesus perguntou:
«Quantos pães tendes? Ide ver». Eles foram ver e disseram: «Cinco pães e dois
peixes». Então, Jesus mandou que todos se sentassem, na relva verde, em grupos
para a refeição. Todos se sentaram, em grupos de cem e de cinquenta. Em
seguida, Jesus tomou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos ao céu,
pronunciou a bênção, partiu os pães e ia dando-os aos discípulos, para que os
distribuíssem. Dividiu, também, entre todos, os dois peixes. Todos comeram e
ficaram saciados, e ainda encheram doze cestos de pedaços dos pães e dos peixes.
Os que comeram dos pães foram cinco mil homens».
«Porque eram como ovelhas que não têm pastor»
Rev. D. Xavier SOBREVÍA
i Vidal (Sant Just Desvern, Barcelona, Espanha)
O tempo passa depressa. Quando você ama é fácil que o tempo
passe muito depressa. E Jesus, que ama muito, está explicando a doutrina de uma
maneira prolongada. Estava ficando tarde, os discípulos lhe avisaram ao Mestre,
lhes preocupa que a multidão possa comer. Então Jesus faz uma proposta
incrível: «Vós mesmos, dai-lhes de comer» (Mc 6,37). Não somente lhe preocupa
dar o alimento espiritual com seus ensinos, senão também o alimento do corpo.
Os discípulos põe dificuldades, que são reais, muito reais: Os pães custam
muito dinheiro (cf. Mc 6,37). Veem as dificuldades materiais, mas seus olhos
ainda não reconhecem que quem lhes fala o pode tudo; lhes falta fé.
Jesus não manda fazer uma fila; faz sentar às pessoas em
grupos. Comunitariamente descansarão e compartilharão. Pediu aos discípulos a
comida que levavam: somente são cinco pães e dois peixes. Jesus os pega, invoca
a benza de Deus e os reparte. Uma comida tão escassa que servirá para alimentar
milhares de homens e ainda restarão doze cestas. Milagre que prefigura o
alimento espiritual da Eucaristia, Pão de vida que se estende gratuitamente a
todos os povos da Terra para dar vida e vida eterna.
Pensamentos para o
Evangelho de hoje
«Pedimos-te, Senhor, que sejas a nossa ajuda e amparo. Que
todos os povos da terra saibam que Tu és Deus e que não há outro, e que Jesus
Cristo é Teu servo e que nós somos o Teu povo, o rebanho que Tu guias» (São
Clemente Romano)
«Apenas a misericórdia de Deus pode libertar a humanidade de
tantas formas do mal, por vezes monstruosas, que o egoísmo nela gera. Ele traz
a esperança: onde Deus nasce, nasce a paz, não há lugar nem para o ódio nem
para a guerra» (Francisco)
«A compaixão de Cristo para com os doentes e as suas
numerosas curas de enfermos de toda a espécie são um sinal claro de que «Deus
visitou o seu povo» (Lc 7,16) e de que o Reino de Deus está próximo» (Catecismo
da Igreja Católica, nº 1.503)
Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm
* No evangelho de
Marcos a multiplicação dos pães é muito importante. Ela aparece duas vezes:
aqui em Mc 6,35-44 e em Mc 8,1-9. E o próprio Jesus faz questão de interrogar o
discípulos a respeito da multiplicação dos pães (Mc 8,14-21). Por isso, vale a
pena você pesquisar e refletir até descobrir em que consiste exatamente esta
importância da multiplicação dos pães.
* Jesus tinha
convidado os discípulos para descansar um pouco num lugar deserto (Mc 6,31). O
povo percebeu que Jesus tinha ido para o outro lado do lago, foi atrás dele e
chegou antes (Mc 6,33). Quando Jesus, ao descer do barco, viu aquela multidão
esperando por ele, ficou com dó, “pois eles estavam como ovelhas sem pastor”.
Esta frase evoca o salmo do bom pastor (Sl 23). Diante do povo sem pastor, Jesus
esquece o descanso e começa a ensinar, começa a ser pastor. Com suas palavras
ele orienta e guia o povo no deserto da vida, e o povo podia cantar: “O Senhor
é meu pastor! Nada me falta!” (Sl 23,1).
* O tempo foi
passando e começava a escurecer. Os discípulos estavam preocupados e pedem a
Jesus para despedir o povo. Acham que lá no deserto não é possível conseguir
comida para tanta gente. Jesus diz: “Deem vocês de comer ao povo!” Eles levam
susto: “Então quer que vamos comprar pão por 200 denários?” (i.é, salário de
200 dias!) Os discípulos procuram a solução fora do povo e para o povo. Jesus
não busca solução fora, mas dentro do povo e a partir do povo, pois pergunta:
“Quantos pães vocês têm? Vão verificar!” A resposta é: “Cinco pães e dois
peixes!” É pouco para tanta gente! Jesus manda o povo se acomodar em grupos e
pede aos discípulos para distribuir os pães e os peixes. Todos comeram à
vontade!
* É importante
notar como Marcos descreve o fato. Ele diz: “Jesus tomou os cinco pães e os
dois peixes, olhou para o céu, abençoou os pães e os partiu e deu aos seus
discípulos, para que os distribuíssem”. Esta maneira de falar faz as
comunidades pensar em que? Sem dúvida nenhuma, fazia pensar na eucaristia. Pois
estas mesmas palavras eram usadas (até hoje) na celebração da Ceia do Senhor.
Assim, Marcos sugere que a eucaristia deve levar à partilha. Ela é o pão da
vida que dá coragem e leva a enfrentar os problemas do povo de maneira
diferente, não a partir de fora, mas a partir de dentro do povo.
* Na maneira de
descrever os fatos, Marcos evoca a Bíblia para iluminar o sentido dos fatos.
Dar de comer ao povo faminto no deserto, foi Moisés quem o fez por primeiro
(cf. Ex 16,1-36). E pedir para o povo se organizar em grupos de 50 e 100 lembra
o recenseamento do povo no deserto depois da saída do Egito (cf. Nm, cap. 1 a
4). Marcos sugere assim que Jesus é o novo Moisés. O povo das comunidades
conhecia o Antigo Testamento, e para o bom entendedor meia palavra já bastava.
Assim, eles iam descobrindo, aos poucos, o mistério que envolvia a pessoa de
Jesus.
Para um confronto
pessoal
1. Jesus esqueceu
o descanso para poder servir ao povo. Que mensagem eu encontro aqui para mim?
2. Se houvesse partilha hoje, não haveria fome no mundo. Que posso fazer eu?
sábado, 1 de janeiro de 2022
3 de janeiro
São Ciríaco Elias Chavara
Presbítero de nossa Ordem
Nasceu em Kainakary (Kerala, Índia) a 10 de fevereiro de 1805. Entrou no Seminário em 1818 e foi ordenado sacerdote em 1829. Homem de profunda oração, cultivou especialmente as virtudes da simplicidade de coração, fé viva, fiel obediência, devoção ao Santíssimo Sacramento, à Imaculada Virgem Maria e a São José. Em 1831 fundou em Mannanam a Congregação dos Carmelitas de Maria Imaculada e emitiu os votos religiosos em 1855. Nomeado Vigário-Geral da Igreja sírio-malabar em 1861, trabalhou denodadamente em prol da renovação espiritual dos seus fiéis. Conservou uma extraordinária devoção à Santa Sé, tendo sofrido muito pela unidade da Igreja, particularmente durante o cisma de Rocos. Colaborou ainda na fundação da Congregação das Irmãs da Mãe do Carmelo, em 1866. Após dois anos de dolorosa enfermidade, expirou aos 65 anos, a 3 de janeiro de 1871, em Koonammavu. Antes da sua morte pôde declarar que nunca perdera a sua inocência batismal. Os seus restos mortais repousam desde 1899 em Mannanam. Foi beatificado por João Paulo II em Kottayam (Índia) a 8 de fevereiro de 1986. Canonizado pelo Papa Francisco em 2014
Salmodia, Leitura, Responsório breve e Preces do Dia Corrente.
3 de janeiro: O Santíssimo Nome de Jesus
São Ciríaco Elias Chavara, Presbítero de nossa Ordem
Salmo Responsorial Is 12, 2.3 e 4bcd.5-6 (R. 4a)
R: Agradecei ao
Senhor, invocai o seu nome.
Deus é o meu Salvador, tenho confiança e nada temo. O Senhor
é a minha herança e o meu louvor, Ele é a minha salvação.
Tirareis água com alegria das fontes da salvação. Agradecei
ao Senhor, invocai o seu nome;
anunciai aos povos a grandeza das suas obras, proclamai a
todos que o seu nome é santo.
Cantai ao Senhor, porque Ele fez maravilhas, anunciai-as em
toda a terra. Entoai cânticos de alegria e exultai, habitantes de Sião, porque
é grande no meio de vós o Santo de Israel.
Aleluia. Bendito seja o vosso
nome glorioso e santo, digno de louvor e de glória para sempre. Aleluia.
Evangelho (Lc 2,21-24): Completados que foram os
oito dias para ser circuncidado o menino, foi-lhe posto o nome de Jesus, como
lhe tinha chamado o anjo, antes de ser concebido no seio materno.
«Foi-lhe posto o nome de Jesus»
Rev. D. Antoni CAROL i
Hostench (Sant Cugat del Vallès, Barcelona, Espanha)
Depois de diversas vicissitudes litúrgicas, S. João Paulo II
restabeleceu esta celebração no missal romano. Neste dia – precisamente - os
jesuítas celebram o título da sua “Companhia de Jesus”.
É próprio das pessoas – anjos e homens, quer dizer, seres
espirituais – distinguir-se na sua singularidade única com um nome próprio.
Porém o caso de Deus é especial: propriamente, não lhe convém nenhum nome. Ele,
pela sua infinita perfeição está acima de tudo e de todos, está acima de todos
os nomes (cf. Fil 2,9), é o Inefável, é o Inominável…
Contudo, pela sua infinita Misericórdia, debruçou-se sobre o
homem e até aceitou ter um “nome próprio”. A primeira revelação do seu nome foi
feita por Ele próprio no deserto quando Moisés lhe pediu: «’Quando me
perguntarem qual é o teu nome, que lhes responderei?’ Deus respondeu a Moisés:
‘Eu sou aquele que sou’» (Ex 3, 13-14).
Enquanto nós temos de dizer que “sou homem”, “sou mulher”,
“sou arquiteto”… (temos de especificar de muitas maneiras o que somos), Deus -
pelo contrário - simplesmente “É”. Portanto, podíamos dizer que “Eu sou aquele
que sou” é o nome filosófico que de algum modo se adapta a Deus.
Porém, na sua generosa condescendência, Deus Filho encarnou
para nos salvar: Ele é perfeito Deus e perfeito homem. E, como tal, os seus
pais «puseram-lhe o nome de Jesus» (Lc 2,21). “Jeshua” significa “Deus salva”.
Aqui está um Nome - o Santíssimo Nome de Jesus - que merece toda a veneração e
total respeito. Assim o indica o segundo mandamento da Lei de Deus… E assim nos
ensinou o próprio Jesus: «Pai-Nosso que estais no céu, santificado seja o vosso
Nome…».
Santíssimo Nome de Jesus
Este nome adorável, que significa salvação, foi predito
pelos profetas, que chamaram ao Messias “Emanuel” (Is. 7, 14), isto é, Deus
conosco, para assim designar “a causa da nossa salvação, que é a união da
natureza divina com a humana, na pessoa do Filho de Deus, que, como Deus, fica
conosco, participando da nossa natureza”. Chamaram-no (Is. 9, 6) “admirável,
conselheiro, Deus forte, Pai do futuro século, Príncipe da paz”, títulos estes
que designam todos o “caminho e o fim da nossa salvação, sendo nós, pelo
admirável conselho e pela virtude divina, conduzidos à herança do futuro
século, em que gozaremos da paz perfeita dos filhos de Deus, sob a própria
soberania de Deus”. Chamaram-no: (Zac. 6, 12) “o homem, o nascituro”, para
exprimir todo o mistério da Encarnação”. (São Tomás).
O nome de Jesus é o nome próprio do Verbo encarnado; é o
nome que nos relembra o maior das obras de Deus e o maior benefício que d´Ele
nos veio. O nome de Deus Redentor inclui o de Deus Criador, se bem que este não
contenha aquele, pois a Redenção supõe a criação e a criação não encerra em si
necessariamente a Redenção.
O nome de Jesus relembra-nos não só o Salvador e a salvação,
que por Ele nos veio, mas também o modo admirável por que fomos salvos. Poderia
salvar-nos por meio de uma só palavra, como por uma palavra só criou o mundo;
mas quis tomar sobre si nossa enfermidade, para curar e tirar os nossos
pecados; quis encarnar-se, nascer num estábulo, viver pobre, sofrer, ser
crucificado e morrer por nós. Levou a humildade e obediência até a morte, para
assim merecer o nome de Jesus. Aniquilou-se a si mesmo, tomando a forma de
servo – diz São Paulo – “fazendo-se semelhante aos homens e sendo reconhecido
pelo exterior como homem. Humilhou-se a si mesmo, feito obediente até a morte e
morte de cruz. Pelo que também Deus o exaltou, e lhe deu um nome, que está
acima de todo nome. A fim de que ao nome de Jesus todo o joelho se dobre no
céu, na terra e nos infernos; e toda a língua confesse que o Senhor Jesus
Cristo está na glória de Deus Padre”. (Fil. 2, 7-11).
O nome de Jesus produz admiráveis efeitos naqueles que
devotamente o invocam. Como os sacramentos não só significam a graça, mas
também a produzem, assim o nome de Jesus não só significa, mas também produz a
salvação de quem devotamente o invoca.
“Todo aquele que invocar o nome do Senhor, será salvo”. (Joel,
2, 22; At. 2, 21; Rom. 10, 12). “Do céu abaixo, nenhum outro nome foi dado aos
homens pelo o qual nos cumpra fazer a nossa salvação”. (Rom. 4, 12).
O nome de Jesus, devotamente invocado, salva-nos do perigo
de sermos vítima do inimigo infernal. Satanás tem um verdadeiro pavor deste
Nome. “Os demônios têm medo deste Nome, que os faz tremer. E nós podemos
afugentá-los, invocando o Nome de Jesus crucificado”. (São Jerônimo).
O nome de Jesus dá vigor aos mártires e a todos os fiéis que
lutam pela fé. Fá-los triunfar generosamente de todos os obstáculos, de todas
as perseguições e da própria morte. O mundo, à semelhança do demônio, seu
soberano, se agita ao ouvir o Nome de Jesus. Queria que não mais se
pronunciasse este Nome e cheio de ódio, com o Sinédrio de Jerusalém, até hoje
declara: “Ameacemo-los, para que daqui em diante não falem neste nome a homem
nenhum”. (At. 4, 17). Mas em virtude deste Santo Nome os eleitos, para a
confusão do mundo, operam verdadeiros milagres, segundo a profecia do próprio Salvador:
“Em meu nome expulsarão os demônios, falarão novas línguas, manusearão as
serpentes e, se beberem alguma coisa mortífera, não lhes fará mal; porão as
mãos sobre os enfermos e serão curados”. (Mc. 16, 17).
O nome de Jesus produz sempre grande milagre de aplacar as
mais furiosas tempestades na alma daqueles que o invocam devotamente. “Há entre
vós alguém que se ache triste? Entre-lhe Jesus no coração e digam-no os lábios;
e eis que, ao pronunciar este Nome, as nuvens se dissipam e volta a serenidade.
Se entre vós houver quem tenha caído em falta grave e, deixando-se levar pelo
desespero, nutrir ideias de suicídio: não voltará ao amor da vida, se invocar
este nome da vida?” (São Bernardo)
Invoquemos, pois, o Santíssimo Nome de Jesus nas tentações,
nas perseguições, na aflição. Invoquemo-lo sempre. “Por ele ofereçamos sempre a
Deus um sacrifício de louvor, isto é, o fruto dos lábios que lhe confessam o
nome”. (Hebr. 13, 15). “Tudo quanto fizerdes, por palavra ou por obra, tudo
seja em nome do Senhor Jesus Cristo, rendendo raças por ele a Deus Padre”.
(Col. 3, 17). Pronunciemos muitas vezes em vida este Nome de salvação, para que
o possamos pronunciar na morte, qual penhor seguro da felicidade eterna.
REFLEXÕES
Inácio respondeu: “Não é espírito mau aquele que tem Deus no coração”. O imperador: “É a Jesus de Nazaré que te referes?” O bispo respondeu afirmativamente e disse mais umas palavras de desaprovação do culto pagão. Trajano enfureceu-se e condenou Inácio “ad leones”, a ser atirado aos leões no circo. Inácio foi levado para Roma, onde sofreu o martírio. Dois leões esfomeados esperavam impacientes a presa. Antes de ser triturado pelos dentes das feras, Inácio disse em voz alta uma oração e terminou com estas palavras: “O Nome de Jesus não desaparecerá dos meus lábios; se isto fosse possível, continuaria inextinguível em meu coração”. Os leões mataram-no e comeram-no, deixando apenas ossos e o coração. O coração apresentava nitidamente os traços do nome de Jesus, formados por veias azuis. As preciosas relíquias foram levadas para Antioquia, onde os discípulos do mártir as depositaram sobre o altar. Isto aconteceu em 107. Deus honrou aquele Santo, devido à grande devoção que tinha ao SS. Nome de Jesus.
A Invocação ao Nome de Jesus
A Igreja celebra hoje, 3 de janeiro, o Santíssimo Nome de
Jesus, que, obviamente, foi honrado e venerado na Igreja desde os primeiros
tempos (cf. Fp 2,10), mas em cuja honra só se formalizou um culto litúrgico a
partir do século XIV.
O grande propagador desta devoção foi o franciscano São
Bernardino de Siena (1380-1444), que costumava divulgar uma imagem da
Eucaristia emitindo raios de luz, sob o monograma “IHS“, abreviação do Nome de
Jesus em grego. Mais adiante, a piedade popular daria a esta mesma sigla uma
nova interpretação: “Iésus Hóminum Salvátor“, que, em latim, quer dizer “Jesus
Salvador dos Homens“. Santo Inácio de Loyola, aliás, faria deste monograma o
emblema dos padres jesuítas.
O nome Jesus vem do hebraico “Jeshua“, “Joshua” ou
“Jehoshua”, que significa “Javé é Salvação“.
O Santíssimo Nome de Jesus foi dado pelo céu. São Lucas nos
diz em seu Evangelho:
“Completados que foram os oito dias para ser circuncidado o
menino, foi-lhe posto o Nome de Jesus, como lhe tinha chamado o anjo, antes de
ser concebido no seio materno” (Lc 2, 21).
E o Novo Testamento afirma: “Por isso Deus o exaltou
soberanamente e lhe outorgou o Nome que está acima de todos os nomes, para que
ao Nome de Jesus se dobre todo joelho no céu, na terra e nos infernos. E toda
língua confesse, para a glória de Deus Pai, que Jesus Cristo é Senhor” (Fil 2,
9-11).
A “Oração a Jesus“ ou “Invocação ao Nome de Jesus“ é uma
prece antiquíssima, cuja popularização contou com grande influência dos Padres
do Deserto. Uma primeira forma desta oração foi mencionada por São Diádoco de
Foticeia, monge asceta da Grécia no início do século V. A prece foi depois
inserida na coletânea de textos espirituais conhecida como Filocalia (ou
Philokalia), que veio a se tornar um livro básico da tradição cristã oriental,
tornando-se muito popular nas igrejas ortodoxas, particularmente na Rússia,
onde foi ainda mais difundida por outro clássico da literatura espiritual:
Relatos de um Peregrino Russo, do século XIX.
É uma simples e riquíssima tradição, focada em Jesus e na
Sua misericórdia. Estas são algumas das várias formas diferentes de fazer a
mesma prece:
Senhor Jesus Cristo, tende piedade de mim!
Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tende piedade de mim,
pecador!
Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tende piedade de nós,
pecadores!
Jesus Cristo, Filho de Deus, Senhor, tende piedade de nós,
pecadores!
Senhor Jesus, misericórdia!
Alguns frutos da
confiante invocação do Nome de Jesus:
– Oferece ajuda nas necessidades corporais, segundo a
promessa de Cristo: “Estes milagres acompanharão os que crerem: expulsarão os
demônios em meu nome, falarão novas línguas, manusearão serpentes e, se beberem
algum veneno mortal, não lhes fará mal; imporão as mãos aos enfermos e eles
ficarão curados” (Mc 16,17-18).
– No Nome de Jesus, os Apóstolos deram força aos aleijados
(At 3,6; 9,34) e vida aos mortos (At 9,40).
– Dá confiança nas provações espirituais. O Nome de Jesus
recorda ao pecador o “pai do filho pródigo” e o bom samaritano; ao justo,
recorda o sofrimento e a morte do inocente Cordeiro de Deus.
– Protege-nos de Satanás e de suas artimanhas, pois o diabo
teme ao Nome de Jesus, quem o venceu na Cruz.
– No Nome de Jesus, obtemos toda bênção e graça no tempo e
na eternidade, pois Cristo disse: “O que pedirdes ao Pai em meu nome, ele vo-lo
dará” (Jo 16,23). A Igreja costuma terminar as suas orações com as palavras
“Por Jesus Cristo, nosso Senhor”, cumprindo assim o que escreveu São Paulo:
“Para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho no céu, na terra e nos
infernos” (Fl 2,10).