quinta-feira, 12 de março de 2015

VIA SACRA BÍBLICA COM SANTA TERESA DE JESUS

P – Concedei-nos, Senhor nosso Deus, sermos encontrados também nós, por vossa graça, caminhando sempre alegremente na mesma caridade com a qual, por amor do mundo, vosso Filho entregou-se à morte. Por Cristo, nosso Senhor.

T – Amém.

I: Jesus no Horto das Oliveiras.

C - Bendita e louvada seja a sagrada Paixão e Morte de Jesus Cristo, Nosso Senhor.
T - Que quis padecer e morrer na cruz por nosso amor.

C - Disse-lhes Jesus: "A minha alma está profundamente triste, numa tristeza mortal. Fiquem aqui e vigiem comigo". Indo um pouco mais adiante, prostrou-se com o rosto em terra e orou: "Meu Pai, se for possível, afasta de mim este cálice; contudo, não seja como eu quero, mas sim como tu queres". (Mt 26, 38-39)

L - “Procurava representar Cristo dentro de mim e sentia-me melhor - a meu parecer - nos passos onde o encontrava mais só. Em especial achava-me muito bem na oração do Horto; ali era o fazer-lhe eu companhia. Pensava naquele suor e aflição que ali tinha tido. Se pudesse, desejaria limpar-lhe aquele tão penoso suor, mas recordo-me de que jamais ousava determinar-me a fazê-lo, pois se me representavam os meus tão graves pecados. Ficava-me ali com ele o mais que me permitiam meus pensamentos”. (Vida 9, 4)

C - Nós Vos adoramos, Santíssimo Senhor Jesus Cristo, e Vos bendizemos.
R - Porque pela Vossa Santa Cruz remistes o mundo.

Pai Nosso, Ave Maria e Glória

C - Santa Mãe, isto eu vos peço: que fiquem no meu peito, bem impressas,
R - As chagas de Jesus crucificado e as dores do vosso maternal Coração.

II: Jesus traído por Judas e aprisionado

C - Bendita e louvada seja a sagrada Paixão e Morte de Jesus Cristo, Nosso Senhor.
T - Que quis padecer e morrer na cruz por nosso amor.

C- O traidor tinha combinado com eles um sinal, dizendo: «Jesus é aquele que eu beijar; prendam». Judas logo se aproximou de Jesus, e disse: «Salve, Mestre»! E o beijou. (Mt 26, 48-49)

L - “Ó amigo verdadeiro, quão mal vos paga quem é traidor! Ó cristãos verdadeiros, ajudai vosso Deus a chorar, porque não são só por Lázaro essas lágrimas, mas pelos que não haveriam de querer ressuscitar mesmo que sua Majestade os chamasse em altos brados. Ó bem meu, como tínheis presentes as faltas que cometi contra vós”! (Exclamações 10)

C - Nós Vos adoramos, Santíssimo Senhor Jesus Cristo, e Vos bendizemos.
R - Porque pela Vossa Santa Cruz remistes o mundo.

Pai Nosso, Ave Maria e Glória

C - Santa Mãe, isto eu vos peço: que fiquem no meu peito, bem impressas,
R - As chagas de Jesus crucificado e as dores do vosso maternal Coração.

III: Jesus condenado pelo Sinédrio

C - Bendita e louvada seja a sagrada Paixão e Morte de Jesus Cristo, Nosso Senhor.
T - Que quis padecer e morrer na cruz por nosso amor.

C - Os chefes dos sacerdotes e todo o Sinédrio procuravam algum falso testemunho contra Jesus, a fim de condenarem Jesus à morte. (Mt 26, 59)

L - “Verdadeiramente, é de grande humildade ver-se condenar sem culpa e calar, e é perfeita imitação do Senhor que tomou sobre si todas as culpas. E assim, rogo-vos para terdes nisto grande cuidado, porque traz consigo grandes lucros”. (Caminho de Perfeição 15,1)

C - Nós Vos adoramos, Santíssimo Senhor Jesus Cristo, e Vos bendizemos.
R - Porque pela Vossa Santa Cruz remistes o mundo.

Pai Nosso, Ave Maria e Glória

C - Santa Mãe, isto eu vos peço: que fiquem no meu peito, bem impressas,
R - As chagas de Jesus crucificado e as dores do vosso maternal Coração.

IV: Jesus negado por Pedro

C - Bendita e louvada seja a sagrada Paixão e Morte de Jesus Cristo, Nosso Senhor.
T - Que quis padecer e morrer na cruz por nosso amor.

C - Pedro estava sentado fora, no pátio. Uma criada chegou perto dele, e disse: «Você também estava com Jesus, o galileu»! Mas Pedro negou diante de todos: «Não sei o que você está dizendo» (Mt 26, 69)

L - “Ó cristãos, cristãos! Vede a irmandade que tendes com esse grande Deus; conhecei-o e não o deprecieis. Ó irmãos, ó irmãos e filhos desse Deus! Esforcemo-nos, pois sabeis o que disse sua Majestade: se nos arrependermos de tê-lo ofendido, ele não se recordará de nossas culpas e maldades. Ó piedade tão sem medida! Que mais queremos? Esta é a hora de tomar o que nos dá esse Senhor tão piedoso e Deus nosso. Ele quer amizade. Quem a negará a quem não se recusou a derramar todo o seu sangue e a perder a vida por nós? Vede: o que ele pede não é nada; para nosso proveito vale a pena fazê-lo”. (Exclamações 14).

C - Nós Vos adoramos, Santíssimo Senhor Jesus Cristo, e Vos bendizemos.
R - Porque pela Vossa Santa Cruz remistes o mundo.

Pai Nosso, Ave Maria e Glória

C - Santa Mãe, isto eu vos peço: que fiquem no meu peito, bem impressas,
R - As chagas de Jesus crucificado e as dores do vosso maternal Coração.

V: Jesus julgado por Pilatos

C - Bendita e louvada seja a sagrada Paixão e Morte de Jesus Cristo, Nosso Senhor.
T - Que quis padecer e morrer na cruz por nosso amor.

C - O povo todo respondeu: «Que o sangue dele caia sobre nós e sobre os nossos filhos. » Então Pilatos soltou Barrabás, mandou flagelar Jesus, e o entregou para ser crucificado. (Mt 27, 25-26).

L - “Também acontece, assim muito de repente e de maneira que nem se sabe dizer, mostrar Deus em si mesmo uma verdade que parece deixa obscurecidas todas as que há nas criaturas, e muito claramente dá a entender que só ele é a verdade que não pode mentir; e dá-se bem a entender o que diz David em um salmo, que todo o homem é mentiroso; coisa que nunca jamais se entenderia assim, ainda que se ouvisse muitas vezes, e é verdade que não pode falhar. Lembro-me de Pilatos, o muito que perguntava a Nosso Senhor, quando em sua Paixão lhe disse: «O que é a verdade?», e de quão pouco aqui entendemos desta suma Verdade”. (VI Moradas 10,5)

C - Nós Vos adoramos, Santíssimo Senhor Jesus Cristo, e Vos bendizemos.
R - Porque pela Vossa Santa Cruz remistes o mundo.

Pai Nosso, Ave Maria e Glória

C - Santa Mãe, isto eu vos peço: que fiquem no meu peito, bem impressas,
R - As chagas de Jesus crucificado e as dores do vosso maternal Coração.

VI: Jesus flagelado e coroado de espinhos

C - Bendita e louvada seja a sagrada Paixão e Morte de Jesus Cristo, Nosso Senhor.
T - Que quis padecer e morrer na cruz por nosso amor.

C - Então Pilatos pegou Jesus e o mandou flagelar. Os soldados trançaram uma coroa de espinhos e a colocaram na cabeça de Jesus. Vestiram Jesus com um manto vermelho. 3 Aproximaram-se dele e diziam: «Salve, rei dos judeus! » E lhe davam bofetadas. (Jo 19, 1-3)

L - “Pois, voltando ao que dizia, de pensar em Cristo atado à coluna, é bom discorrer um pouco e pensar nas penas que ali teve e por que as teve e quem é aquele que as teve e o amor com que as passou. Mas não se canse em andar sempre a buscar isto, antes se fique ali com ele, aquietado o entendimento”. (Vida 13, 22)

C - Nós Vos adoramos, Santíssimo Senhor Jesus Cristo, e Vos bendizemos.
R - Porque pela Vossa Santa Cruz remistes o mundo.

Pai Nosso, Ave Maria e Glória

C - Santa Mãe, isto eu vos peço: que fiquem no meu peito, bem impressas,
R - As chagas de Jesus crucificado e as dores do vosso maternal Coração.

VII:  Jesus carrega a Cruz

C - Bendita e louvada seja a sagrada Paixão e Morte de Jesus Cristo, Nosso Senhor.
T - Que quis padecer e morrer na cruz por nosso amor.

C - Jesus carregou a cruz nas costas e saiu para um lugar chamado «Lugar da Caveira», que em hebraico se diz «Gólgota.» (Jo 19, 17).

L - “Se estais em trabalhos ou tristes... vede-o carregado com a cruz, que nem o deixavam tomar fôlego. Olhar-vos-á, com olhos tão formosos e piedosos, cheios de lágrimas, e esquecerá suas dores para consolar as vossas, só por irdes consolar-vos com ele”. (Caminho de Perfeição 26, 5).

C - Nós Vos adoramos, Santíssimo Senhor Jesus Cristo, e Vos bendizemos.
R - Porque pela Vossa Santa Cruz remistes o mundo.

Pai Nosso, Ave Maria e Glória

C - Santa Mãe, isto eu vos peço: que fiquem no meu peito, bem impressas,
R - As chagas de Jesus crucificado e as dores do vosso maternal Coração.

VIII: Jesus ajudado pelo Cirineu.

C - Bendita e louvada seja a sagrada Paixão e Morte de Jesus Cristo, Nosso Senhor.
T - Que quis padecer e morrer na cruz por nosso amor.

C - Passava por aí um homem, chamado Simão Cireneu, pai de Alexandre e Rufo. Ele voltava do campo para a cidade. Então os soldados obrigaram Simão a carregar a cruz de Jesus. (Mc 23, 21).

L - “Juntos andemos, Senhor: por onde fores tenho de ir. Pegai, irmãos, naquela cruz. Não façais caso do que vos disserem. Fazei-vos surdos às murmurações. Tropeçando, caindo com o vosso Esposo, não vos aparteis da cruz, nem a deixeis”.  (Caminho 26, 7; Cartas. 233, 7) .

C - Nós Vos adoramos, Santíssimo Senhor Jesus Cristo, e Vos bendizemos.
R - Porque pela Vossa Santa Cruz remistes o mundo.

Pai Nosso, Ave Maria e Glória

C - Santa Mãe, isto eu vos peço: que fiquem no meu peito, bem impressas,
R - As chagas de Jesus crucificado e as dores do vosso maternal Coração.

IX: Jesus encontra com as mulheres de Jerusalém

C - Bendita e louvada seja a sagrada Paixão e Morte de Jesus Cristo, Nosso Senhor.
T - Que quis padecer e morrer na cruz por nosso amor.

C - Uma grande multidão do povo o seguia. E mulheres batiam no peito, e choravam por ele. Jesus, porém, voltou-se, e disse: “Mulheres de Jerusalém, não chorem por mim! Chorem por vocês mesmas e por seus filhos!” (Lc 23, 27-28)

L - “Por que havemos de querer tantos bens e deleites e glória para sempre sem fim e todos à custa do bom Jesus? Não choraremos, ao menos, com as filhas de Jerusalém, já que o não ajudamos a levar a cruz como o Cireneu”? (Vida 27, 13)

C - Nós Vos adoramos, Santíssimo Senhor Jesus Cristo, e Vos bendizemos.
R - Porque pela Vossa Santa Cruz remistes o mundo.

Pai Nosso, Ave Maria e Glória

C - Santa Mãe, isto eu vos peço: que fiquem no meu peito, bem impressas,
R - As chagas de Jesus crucificado e as dores do vosso maternal Coração.

X: Jesus crucificado

C - Bendita e louvada seja a sagrada Paixão e Morte de Jesus Cristo, Nosso Senhor.
T - Que quis padecer e morrer na cruz por nosso amor.

C - Eram nove horas da manhã quando crucificaram Jesus. E aí estava uma inscrição, com o motivo da condenação: «O Rei dos judeus. » Com ele crucificaram dois bandidos, um à direita e outro à esquerda. As pessoas que passavam por aí o insultavam, balançando a cabeça e dizendo: «Ei! Você que ia destruir o Templo, e construí-lo de novo em três dias, salve-se a si mesmo! Desça da cruz! » (Mc 15, 25-27. 29-30).

L - “Os contemplativos hão de levar bem alto a bandeira da humildade e sofrer quantos golpes lhes derem, sem dar nenhum; porque o seu ofício é padecer como Cristo, levar alçada a cruz, não largá-la das mãos, por mais perigos em que se vejam, nem mostrar fraqueza no padecer; por isso lhe dão tão honroso ofício”. (Caminho de perfeição 18,5).

C - Nós Vos adoramos, Santíssimo Senhor Jesus Cristo, e Vos bendizemos.
R - Porque pela Vossa Santa Cruz remistes o mundo.

Pai Nosso, Ave Maria e Glória

C - Santa Mãe, isto eu vos peço: que fiquem no meu peito, bem impressas,
R - As chagas de Jesus crucificado e as dores do vosso maternal Coração.

XI: Jesus promete seu Reino ao Bom Ladrão

C - Bendita e louvada seja a sagrada Paixão e Morte de Jesus Cristo, Nosso Senhor.
T - Que quis padecer e morrer na cruz por nosso amor.

C - Um dos criminosos crucificados insultava Jesus, dizendo: «Não és tu o Messias? Salva a ti mesmo e a nós também!» Mas o outro o repreendeu, dizendo: «Nem você teme a Deus, sofrendo a mesma condenação»? E acrescentou: «Jesus, lembra-te de mim, quando vieres em teu Reino.» Jesus respondeu: «Eu lhe garanto: hoje mesmo você estará comigo no Paraíso.» (Lc 23, 42-43)

L - “Oh, que coisa difícil vos peço, verdadeiro Deus meu: que queirais a quem não vos quer, que abrais a porta a quem não vos chama, que deis saúde a quem gosta de ficar doente e procura a enfermidade! Dizeis, Senhor meu, que vindes buscar os pecadores; esses, Senhor, são os verdadeiros pecadores. Não percebais nossa cegueira, meu Deus, mas o sangue que vosso Filho derramou por nós. Resplandeça vossa misericórdia”. (Exclamações 8).

C - Nós Vos adoramos, Santíssimo Senhor Jesus Cristo, e Vos bendizemos.
R - Porque pela Vossa Santa Cruz remistes o mundo.

Pai Nosso, Ave Maria e Glória

C - Santa Mãe, isto eu vos peço: que fiquem no meu peito, bem impressas,
R - As chagas de Jesus crucificado e as dores do vosso maternal Coração.

XII: Jesus crucificado, a Mãe e o Discípulo amado

C - Bendita e louvada seja a sagrada Paixão e Morte de Jesus Cristo, Nosso Senhor.
T - Que quis padecer e morrer na cruz por nosso amor.

C - Jesus viu a mãe e, ao lado dela, o discípulo que ele amava. Então disse à mãe: «Mulher, eis aí o seu filho» Depois disse ao discípulo: «Eis aí a sua mãe» E dessa hora em diante, o discípulo a recebeu em sua casa. (Jo 19, 26-27)

L - “Sua Majestade não no-lo pode fazer mais que em dar-nos vida que seja imitando a que viveu seu Filho tão amado; e assim tenho por certo, serem estas mercês, para fortalecer a nossa fraqueza, para podê-lo imitar no muito padecer. Aqueles que mais de perto acompanhavam a Cristo Nosso Senhor, foram os que tiveram maiores trabalhos. Vejamos os que passou sua gloriosa Mãe”. (VII Moradas 4, 4-5).

C - Nós Vos adoramos, Santíssimo Senhor Jesus Cristo, e Vos bendizemos.
R - Porque pela Vossa Santa Cruz remistes o mundo.

Pai Nosso, Ave Maria e Glória

C - Santa Mãe, isto eu vos peço: que fiquem no meu peito, bem impressas,
R - As chagas de Jesus crucificado e as dores do vosso maternal Coração.

XIII: Jesus morre na Cruz

C - Bendita e louvada seja a sagrada Paixão e Morte de Jesus Cristo, Nosso Senhor.
T - Que quis padecer e morrer na cruz por nosso amor.

C - Então Jesus deu outra vez um forte grito, e entregou o espírito. Imediatamente a cortina do santuário rasgou-se em duas partes, de alto a baixo; a terra tremeu, e as pedras se partiram. (Mt 27, 50-51)

L - “Ponde os olhos no Crucificado e tudo se vos fará pouco. Se Sua Majestade nos mostrou o Seu amor com tão espantosas obras e tormentos, como quereis contentá-lo só com palavras? Onde há o amor, é impossível ficar-se sem trabalhar”. (VII Moradas 4,8-9).

C - Nós Vos adoramos, Santíssimo Senhor Jesus Cristo, e Vos bendizemos.
R - Porque pela Vossa Santa Cruz remistes o mundo.

Pai Nosso, Ave Maria e Glória

C - Santa Mãe, isto eu vos peço: que fiquem no meu peito, bem impressas,
R - As chagas de Jesus crucificado e as dores do vosso maternal Coração.

XIV: Jesus sepultado

C - Bendita e louvada seja a sagrada Paixão e Morte de Jesus Cristo, Nosso Senhor.
T - Que quis padecer e morrer na cruz por nosso amor.

C - José, tomando o corpo, o envolveu num lençol limpo, e o colocou num túmulo novo, que ele mesmo havia mandado escavar na rocha. Em seguida, rolou uma grande pedra para fechar a entrada do túmulo, e retirou-se. (Mt 27, 59-60)

L - “Ó meu Senhor e meu Bem! Como quereis que se deseje vida tão miserável, se não é com esperança de perdê-la por vós ou gastá-la em vosso serviço?  Porque não é outra coisa senão morrer muitas vezes o viver sem vós”. (III Moradas 1, 2).

C - Nós Vos adoramos, Santíssimo Senhor Jesus Cristo, e Vos bendizemos.
R - Porque pela Vossa Santa Cruz remistes o mundo.

Pai Nosso, Ave Maria e Glória

C - Santa Mãe, isto eu vos peço: que fiquem no meu peito, bem impressas,
R - As chagas de Jesus crucificado e as dores do vosso maternal Coração.

MÊS DE SÃO JOSÉ - Sexta-feira da 3ª semana da Quaresma

Evangelho (Mc 12,28b-34): Então aproximou-se dele e perguntou: «Qual é o primeiro de todos os mandamentos?» Jesus respondeu: «O primeiro é este: ‘Ouve, Israel! O Senhor nosso Deus é um só. Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento e com toda a tua força!’ E o segundo mandamento é: ‘Amarás teu próximo como a ti mesmo’! Não existe outro mandamento maior do que estes». O escriba disse a Jesus: «Muito bem, Mestre! Na verdade, é como disseste: ‘Ele é único, e não existe outro além dele’. Amar a Deus de todo o coração, com toda a mente e com toda a força, e amar o próximo como a si mesmo, isto supera todos os holocaustos e sacrifícios». Percebendo Jesus que o escriba tinha respondido com inteligência, disse-lhe: «Tu não estás longe do Reino de Deus». E ninguém mais tinha coragem de fazer-lhe perguntas.

Comentário: Rev. D. Pere MONTAGUT i Piquet (Barcelona, Espanha)

Não existe outro mandamento maior do que estes.

Hoje, a liturgia da quaresma nos apresenta o amor como a raiz mais profunda da auto-comunicação de Deus: «A alma não pode viver sem amor, sempre quer amar alguma coisa, porque está feita de amor, que eu por amor a criei» (Santa Catarina de Sena). Deus é amor todo poderoso, amor até o extremo, amor crucificado: «É na cruz onde se pode contemplar esta verdade» (Bento XVI). Este Evangelho não é somente uma auto-revelação de como Deus mesmo —em seu Filho— quer ser amado. Com um mandamento de Deuteronômio: «Portanto, ame a Javé seu Deus com todo o seu coração, com toda a sua alma e com toda a sua força» (Dt 6,5) e outro do Levítico: «Não seja vingativo, nem guarde rancor contra seus concidadãos. Ame o seu próximo como a si mesmo. Eu sou Javé» (Lev 19,18), Jesus leva ao extremo a plenitude da Lei. Ele ama o Padre como Deus verdadeiro nascido do Deus verdadeiro e, como Verbo feito homem, cria a nova Humanidade dos filhos de Deus, irmãos que se amam com o amor do Filho.

O chamado de Jesus à comunhão e à missão pede uma participação em sua mesma natureza, é uma intimidade na que devemos nos introduzir. Jesus não reivindica nunca ser a meta de nossa oração e amor. Agradece ao Pai y vive continuamente em sua presença. O mistério de Cristo atrai ao amor a Deus —invisível e inacessível— enquanto que, ao mesmo tempo, é caminho para reconhecer, verdade no amor e vida para o irmão visível e presente. O mais valioso não são as oferendas queimadas no altar, e sim Cristo que queima como único sacrifício y oferenda para que sejamos Nele um só altar, um único amor.

Esta unificação de conhecimento e de amor entrelaçada pelo Espírito Santo permite que Deus ame em nós e utilize todas nossas capacidades e nos conceda poder amar como Cristo, com seu mesmo amor filial e fraterno. O que Deus uniu no amor, o homem não o pode separar. Esta é a grandeza de quem se submete ao Reino de Deus: o amor a si mesmo já não é obstáculo e sim êxtase para amar ao único Deus e a uma multidão de irmãos.

Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm.

V Centenário do Nascimento (1515-2015)
* No Evangelho de hoje (Mc 12,28b-34), os escribas ou doutores da Lei querem saber de Jesus qual o maior mandamento. Hoje também muita gente quer saber o que é o mais importante na religião. Uns dizem que é ser batizado. Outros, que é rezar. Outros dizem: ir à Missa ou participar do culto no domingo. Outros ainda: amar o próximo e lutar por um mundo mais justo! Outros estão preocupados só com as aparências ou com os cargos na igreja.

* Marcos 12,28: A pergunta do doutor da Lei. Pouco antes da pergunta do escriba, a discussão tinha sido com os saduceus em torno da fé na ressurreição (Mc 12,23-27). O doutor, que tinha assistido ao debate, gostou da resposta de Jesus, percebeu a grande inteligência dele e quis aproveitar da ocasião para fazer uma pergunta de esclarecimento: “Qual é o maior de todos os mandamentos?” Naquele tempo, os judeus tinham uma grande quantidade de normas para regulamentar na prática a observância dos Dez Mandamentos da Lei de Deus. Alguns diziam: “Todas estas normas têm o mesmo valor, pois todas vêm de Deus. Não compete a nós introduzir distinções nas coisas de Deus”. Outros diziam: “Algumas leis são mais importantes que as outras e, por isso, obrigam mais!” O doutor quer saber qual a opinião de Jesus.

* Marcos 12,29-31: A resposta de Jesus.  Jesus responde citando um trecho da Bíblia para dizer que o mandamento maior é “amar a Deus com todo o coração, com toda a alma, com todo o entendimento e com toda a força!” (Dt 6,4-5). No tempo de Jesus, os judeus piedosos recitavam esta frase três vezes ao dia: de manhã, ao meio dia e à noite. Era tão conhecida entre eles como entre nós, hoje, o Pai-Nosso. E Jesus acrescenta, citando novamente a Bíblia: “O segundo é este: ‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo’ (Lv 19,18). Não existe outro mandamento maior do que estes dois”. Resposta breve e muito profunda! É o resumo de tudo que Jesus ensinou sobre Deus e sobre a vida (Mt 7,12).

* Marcos 12,32-33: A resposta do doutor da lei. O doutor concordou com Jesus e concluiu: “Sim, amar a Deus e amar ao próximo é muito mais importante do que todos os holocaustos e todos os sacrifícios”. Ou seja, o mandamento do amor é mais importante que os mandamentos relacionados com o culto e os sacrifícios do Templo. Esta afirmação já vinha desde os profetas do Antigo Testamento (Os 6,6; Sl 40,6-8; Sl 51,16-17). Hoje diríamos que a prática do amor é mais importante que novenas, promessas, missas, rezas e procissões.

* Marcos 12,34: O resumo do Reino. Jesus confirma a conclusão do doutor e diz: “Você não está longe do Reino!” De fato, o Reino de Deus consiste em unir os dois amores: amor a Deus e amor ao próximo. Pois se Deus é Pai/Mãe, nós todos somos irmãos e irmãs, e temos que mostrar isto na prática, vivendo em comunidade. "Destes dois mandamento dependem toda a lei e os profetas!" (Mt 22,40) Os discípulos e as discípulas, que coloquem na memória, na inteligência, no coração, nas mãos e nos pés esta lei maior, pois não se chega a Deus a não ser através da doação total ao próximo!

* Jesus tinha dito ao doutor da Lei: "Você não está longe do Reino!" (Mc 12,34). O doutor já estava perto, mas para poder entrar no Reino teria que dar mais um passo. No AT o critério do amor ao próximo era ““Amar o próximo como a si mesmo”. No NT, Jesus alargou o sentido do amor: “Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros como eu vos tenho amado! (Jo 15,12-13). Agora o critério será “Amar o próximo como Jesus nos amou!”. É o caminho certo para se chegar a uma convivência mais justa e mais fraterna.

Para um confronto pessoal
1. Para você, o que é o mais importante na religião?
2. Nós, hoje, estamos mais perto ou mais longe do Reino de Deus do que o doutor que foi elogiado por Jesus? O que você acha?

quarta-feira, 11 de março de 2015

MÊS DE SÃO JOSÉ - Quinta-feira da 3ª semana da Quaresma

Evangelho (Lc 11,14-23): Jesus estava expulsando um demônio que era mudo. Quando o demônio saiu, o mudo começou a falar, e as multidões ficaram admiradas. Alguns, porém, disseram: «É pelo poder de Belzebu, o chefe dos demônios, que ele expulsa os demônios». Outros, para tentar Jesus, pediam-lhe um sinal do céu. Mas, conhecendo seus pensamentos, ele disse-lhes: «Todo reino dividido internamente será destruído; cairá uma casa sobre a outra. Ora, se até Satanás está dividido internamente, como poderá manter-se o seu reino? Pois dizeis que é pelo poder de Belzebu que eu expulso os demônios. Se é pelo poder de Belzebu que eu expulso os demônios, pelo poder de quem então vossos discípulos os expulsam? Por isso, eles mesmos serão vossos juízes. Mas, se é pelo dedo de Deus que eu expulso os demônios, é porque o Reino de Deus já chegou até vós. Quando um homem forte e bem armado guarda o próprio terreno, seus bens estão seguros. Mas, quando chega um mais forte do que ele e o vence, arranca-lhe a armadura em que confiava e distribui os despojos. Quem não está comigo é contra mim; e quem não recolhe comigo, espalha».

Comentário: Rev. D. Josep GASSÓ i Lécera (Ripollet, Barcelona, Espanha).

Se é pelo dedo de Deus que eu expulso os demônios, é porque o Reino de Deus já chegou até vós.

Hoje, na proclamação da Palavra de Deus, reaparece a figura do diabo: «Jesus estava expulsando um demônio que era mudo. Quando o demônio saiu, o mudo começou a falar, e as multidões ficaram admiradas» (Lc 11,14). Cada vez que os textos nos falam do demônio, nos sentimos um pouco incômodos. Em todo caso, é verdade que o mal existe, e que tem raízes tão profundas que nós não podemos conseguir eliminá-las totalmente. Também é verdade que o mal tem uma dimensão muito ampla: vai “trabalhando” e não podemos de nenhuma maneira dominá-lo. Mas Jesus veio combater essas forças do mal, ao demônio. Ele é o único que o pode expulsar.

Jesus foi caluniado e acusado: o demônio é capaz de conseguir tudo. Enquanto que as pessoas se maravilham do que Jesus Cristo tem feito, «Mas alguns disseram: ‘É por Belzebu, o príncipe dos demônios, que ele expulsa os demônios’» (Lc 11,15).

A resposta de Jesus mostra o absurdo do argumento de quem o contradiz. Esta resposta é para nós um chamado à unidade, à força que supõe a união. A desunião, no entanto, é um fermento maléfico e destruidor. Exatamente, um dos signos do mal é a divisão e a falta de entendimento entre uns e outros. Infelizmente, o mundo atual está marcado por este tipo de espírito do mal que impede a compreensão e o reconhecimento entre uns e outros.

É bom que meditemos qual é nossa colaboração neste “expulsar demônios” ou eliminar o mal. Perguntamo-nos: Ponho o necessário para que o Senhor expulse o mal de meu interior? Colaboro suficientemente neste “expulsar”? Porque «Pois é do coração que vêm as más intenções: crimes, adultério, imoralidade, roubos, falsos testemunhos, calúnias» (Mt 15,19). É muito importante a resposta de cada um, ou seja, a colaboração necessária a nível pessoal.

Que Maria interceda ante Jesus, seu Filho amado, para que expulse de nosso coração e do mundo qualquer tipo de mal (guerras, terrorismo, maus tratos, qualquer tipo de violência). Maria, Mãe da Igreja e Rainha da Paz, rogai por nós!

Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm.

V Centenário do Nascimento (1515-2015)
* O evangelho de hoje é de Lucas (Lc 11,14-23). O texto paralelo de Marcos (Mc 3,22-27) já foi meditado na 2ª-feira da 3ª Semana do Tempo Comum.

* Lucas 11,14-16: As diferentes reações diante da expulsão de um demônio. Jesus tinha expulsado um demônio que era mudo. A expulsão provocou duas reações diferentes. De um lado, a multidão do povo que ficou admirado e maravilhado. O povo aceita Jesus e acredita nele. Do outro lado, os que não aceitam Jesus e não acreditam nele. Destes últimos, alguns diziam que Jesus expulsava os demônios em nome de Belzebu, o príncipe dos demônios, e outros queriam dele um sinal do céu. Marcos informa que se tratava de escribas vindos de Jerusalém (Mc 3,22), que não concordavam com a liberdade de Jesus. Queriam defender a Tradição contra as novidades de Jesus.

* Lucas 11,17-22: A resposta de Jesus tem três partes:
1ª parte: comparação do reino dividido (vv. 17-18ª) Jesus denuncia o absurdo da calúnia escribas. Dizer que ele expulsa os demônios com a ajuda do príncipe dos demônios é negar a evidência. É o mesmo que dizer que a água é seca, e que o sol é escuridão. Os doutores de Jerusalém o caluniavam, porque não sabiam explicar os benefícios que Jesus realizava para o povo. Estavam com medo de perder a liderança. Sentiam-se ameaçados na sua autoridade junto ao povo.

2ª parte: por quem expulsam vossos filhos? (vv.18b-20) Jesus provoca os acusadores e pergunta: “Se eu expulso em nome de Belzebu, em nome de quem os discípulos de vocês expulsam os demônios? Que eles respondam e se expliquem! Se eu expulso o demônio pelo dedo de Deus, é porque chegou o Reino de Deus!”.

3ª parte: chegando o mais forte ele vence o forte (vv.21-22) Jesus compara o demônio com um homem forte. Ninguém, a não ser uma pessoa mais forte, poderá roubar a casa de um homem forte. Jesus é este mais forte que chegou. Por isso, ele consegue entrar na casa e amarrar o homem forte. Consegue expulsar os demônios. Jesus amarrou o homem forte e agora rouba a casa dele, isto é, liberta as pessoas que estavam no poder do mal. O profeta Isaías já tinha usado a mesma comparação para descrever a vinda do messias (Is 49,24-25). Por isso Lucas diz que a expulsão do demônio é um sinal evidente de que chegou o Reino de Deus.

* Lucas 11,23: Quem não está comigo é contra mim.  Jesus termina sua resposta com esta frase: “Quem não está comigo, está contra mim. E quem não recolhe comigo, dispersa”. Em outra ocasião, também a propósito de uma expulsão de demônio, os discípulos impediram um homem de usar o nome de Jesus para expulsar um demônio, pois ele não era do grupo dele. Jesus respondeu: “Não impeçam! Quem não é contra vocês é a vosso favor!” (Lc 9,50). Parecem duas frases contraditórias, mas não são. A frase do evangelho de hoje é dita contra os inimigos que tem preconceito contra Jesus: “Quem não está comigo, está contra mim. E quem não recolhe comigo, dispersa”. Preconceito e não aceitação tornam o diálogo impossível e rompe a união. A outra frase é dita para os discípulos que pensavam ter o monopólio de Jesus: “Quem não é contra vocês é a vosso favor!” Muita gente que não é cristão pratica o amor, a bondade, a justiça, muitas vezes até melhor do que os cristãos. Não podemos excluí-los. São irmãos e parceiros na construção do Reino. Nós cristãos não somos donos de Jesus. É o contrário: Jesus é o nosso dono!

Para um confronto pessoal
1) “Quem não está comigo, está contra mim. E quem não recolhe comigo, dispersa” Como isto acontece na minha vida?
2) “Não impeçam! Quem não é contra vocês é a vosso favor!” Como isto acontece na minha vida?


terça-feira, 10 de março de 2015

A Cruz nos escritos de Santa Teresa de Jesus

Nos escritos de Teresa, como na tradição espiritual cristã, a cruz é realidade e símbolo.

Realidade histórica: a cruz na qual Jesus morreu (“morte de cruz”- Fl 2,8).

Realidade objetiva  materializada nas cruzes que recordam aquela e ao mesmo tempo a simbolizam: a cruz como sinal do cristão.

Por sua vez, prolongamento e símbolo retrospectivo da cruz de Cristo são os sofrimentos que selam e acrisolam a vida do crente, enquanto aceitos em mística simbiose com o crucificado.

As duas coisas, realidade e símbolo, foram celebradas por Teresa em seus poemas. Seguiremos esse esquema na seguinte exposição.

1. A cruz na base da experiência mística de Teresa

Na liturgia anual carmelita do tempo da Santa, eram revestidas de um caráter especial a celebração da Sexta-Feira Santa e a festa da Exaltação da Santa Cruz (14 de setembro). A primeira, porque a liturgia carmelita seguia  rito jerosolimitano (Rito do Santo Sepulcro ou da Paixão: cf. MHCT,3, doc. 295), e porque a própria Teresa vivia com especial intensidade o final da Semana Santa (Cf. R 15). A festa da Exaltação da Santa Cruz, porque nela começava para a comunidade carmelita a preparação penitencial para a Páscoa do Senhor. Quando ela fomentar o novo estilo festivo de vida em seus Carmelos, festejará com alegria e poemas celebrativos da cruz a chegada dessa festa.

Porém,  já antes, a Cruz do Senhor havia entrado na vida de Teresa não só porque em seu tempo ocupava um lugar de destaque nos altares, nas casas ou nas estradas (como o Cruzeiro dos “Quatro Postes”, à saída de Ávila, por onde ela empreenderia, quando criança, a fuga para a terra dos mouros (V. 1,4); mas porque, de fato, impregnava o mais profundo da religiosidade popular e, no caso de Teresa, a piedade familiar. Uma das recordações da presença da cruz de Jesus na sua vida é a devoção de seu pai, dom Alonso: em sua última enfermidade, “algumas vezes era tão intensa (a dor das costas), que o afligia muito. Disse-lhe que, visto ser tão devoto de quando o Senhor levava a cruz às costas, pensasse que Sua Majestade lhe queria dar a sentir alguma coisas do que Ele tinha” (V 7,16).  Ideia que reaparece mais tarde, com toda força na pedagogia da Santa.

Em nível muito mais profundo, o mistério da cruz de Jesus penetra a experiência mística de Teresa. No começo de sua experiência, foi determinante o drama provocado pelos teólogos assessores, maus conselheiros, que a obrigaram a rechaçar as visões cristológicas  desprezando-as: “Mandaram-me, visto não me ser possível resistir, que me benzesse quando visse alguma visão, e fizesse figas…” (V 29,5). Quando a repugnância dela chega ao cúmulo, Teresa opta por substituir as figas pela cruz. “Dava-me grandíssima pena ter de fazer figas (…) e, para não me andar tanto a benzer, tomava uma cruz na mão..” (Ibidem 6).  É o momento em que lhe sobrevém o inesperado: “Uma vez, tendo eu a cruz na mão, que a trazia num rosário, pegou nela o Senhor com a Sua e quando ma tornou a dar tinha quatro pedras grandes, muito mais preciosas que diamantes, e isto sem comparação, pois quase não se pode comparar o visível com o sobrenatural; (…) Tinha as cinco chagas de muito linda feitura. Disse-me o Senhor que assim a veria de aí em diante, e assim foi que não via a madeira de que era feita, senão estas pedras; mas isto a ninguém acontecia senão a mim (V 29,7 – Comenta o primeiro biógrafo de Teresa padre Ribera: “Assim aconteceu a Santa Catarina de Sena, como contam frei Raimundo e São Antonino, que o Senhor colocou em seu dedo um anel de ouro e pérolas, que permaneceu nele, visto só por ela e por mais ninguém”: Vida de la M. T., 1,c. 13, p.86; cf Glanes, p.19). Místico rito esponsal com o crucificado, que culminará anos  mais tarde com a entrega do cravo do crucificado, “em sinal que serás minha esposa” (R 35).

A esse mesmo contexto de experiências místicas pertence a reação de Teresa frente aos medos de diabolismo,  que lhe inculcaram os teólogos em termos grotescos: “…sendo eu serva deste Senhor e Rei, que mal me podem eles fazer a mim? Porque não hei de ter fortaleza para bater-me com todo o inferno? Tomava uma cruz na mão e parecia-me verdadeiramente dar-me Deus ânimo (…) e não temeria lutar com eles a braços, parecia-me que facilmente, com aquela cruz, os venceria a todos ( V 25,19).

Na realidade, a experiência da cruz introduzia Teresa na experiência do crucificado ( V 29, 4; 33,14; 38,14), de suas chagas (R 15; V 35,2; 36,1; 39,1), de sua Paixão e sofrimentos (R 26,1; 36,1), de sua humanidade (V 22). Daí seu ensinamento: “ponde os olhos no Crucificado, e tudo se vos fará pouco (M 7,4,8; C 2,1).

2. A Cruz do Crucificado

No tempo da santa era normal e inevitável a formação à oração e meditação, tendo como fundamento a Paixão de Jesus. Não parece que ela tenha conhecido a prática da Via crucis, que adquirirá sua forma definitiva no século seguinte. Apesar disso, para Teresa o mistério de Jesus carregando a cruz, caído sob o peso da cruz, pendurado na cruz, morto na cruz… constituiu parte de seu próprio caminho espiritual e passou a ser o conteúdo principal de seu itinerário de oração. Os momentos mais recordados por ela são ao mesmo tempo históricos e simbólicos: ajuda-lo a levar a cruz com o Cirineu (V 27,13), não deixá-lo cair sob o peso da cruz (V 11,10; C 26,5); estar ao pé da cruz como São João ( C 25,5), ou como a Virgem (CAD 3,11); ceder ao assombro ante o silêncio de Jesus que cravado não se queixa nem sequer à sua mãe, a Virgem Maria: “pois com esta mesma razão se queixaria à sua Mãe (…): e sempre nos consola mais queixar-nos aos que sabemos que sentem os nossos sofrimentos e nos amam mais”. (CAD 3,11) .E por fim a morte de Jesus na cruz: “Olhai o que custou ao nosso Esposo o amor que nos teve: para nos livrar da morte, a padeceu tão penosa como a morte na Cruz” (M 5,3,12).

Em sua glosa ao Cântico dos Cânticos, Teresa recolherá a tradicional identificação da cruz de Jesus com a macieira do epitalâmio bíblico: “Eu entendo  que a macieira é a árvore da cruz, porque está escrito  noutra passagem dos Cânticos: sob a macieira eu te despertei. E isso é, para uma alma rodeada de cruzes de sofrimentos e perseguições, um grande remédio para não ficar muito amiúde entregue ao prazer da contemplação” (CAD 7,8). “Como baixa seus ramos essa divina macieira para que, algumas vezes, a alma colha seus frutos, considerando suas grandezas e a multiplicidade de suas misericórdias, e veja e saboreie o fruto que Jesus Cristo, Nosso Senhor, tirou da sua Paixão, regando essa árvore com seu sangue precioso, com tão admirável amor”. (CAD 5,5)

É provável que esse simbolismo “macieira-cruz” Teresa o tenha recebido do primeiro magistério oral de Frei João da Cruz, que,  ao comentar no Cântico Espiritual a passagem dos Cânticos, escreverá: “Debaixo da macieira, entendendo pela macieira a árvore da cruz onde o Filho de Deus redimiu e… se desposou com a natureza humana, e consequentemente com cada alma” (CA 28,2: com pequenos matizes variantes em CB 23,3).

Já nos primeiros anos de sua experiência mística, quando arrancaram de Teresa, por decreto, seus livros espirituais, o Senhor lhe havia prometido: “Não tenha medo, eu te darei livro vivo”. E o livro vivo foi para ela o Crucificado: “Quem pode ver o Senhor coberto de chagas e aflito por perseguições sem que as  abrace e ame e deseje?” (V 26,5). Livro vivo é uma versão original do bíblico “livro da vida” (Ap 3,5; 20,15…). Outras passagens bíblicas das quais se alimenta a piedade de Teresa são: a palavra de Jesus “toma tua cruz e segue-me” (V 15,13); ou o texto de São Paulo: não gloriar-se senão na cruz (carta 279), ou a experiência da qual diz São Paulo. ‘que está crucificado para o mundo’…” (V 20,11).

Porém, Teresa leu e meditou inúmeras vezes a Paixão de Jesus: desde os anos em que “era tão duro meu coração que, se lesse toda a Paixão, não chorava uma lágrima; isto causava-me pena” (V 3,1), até os anos de sua conversão em que “se começava a chorar pela Paixão, não sabia acabar” (M 4,1,6).

3. O sinal da Cruz

Teresa também é humilde testemunha da religiosidade popular no afeto e veneração da cruz e das cruzes que materializavam  – mas que agora – a cruz histórica de Jesus. É fácil documentar em seus escritos várias dessas práticas populares, adotadas sem exageros por uma mística como ela:

Teresa leva sempre em seu rosário uma cruz, que utiliza, como vimos, em seus pseudos exorcismos antidiabólicos (V 29,7). Está convencida, como a gente simples de seu tempo, do poder da cruz contra as insídias  do demônio (V 25,10; 31, 4.10…).

Teresa é amiga de persignar-se (fazer o sinal da cruz sobre si mesma). Recorda que o fazia desde criança antes de dormir (V 9,4). Aconselha fazê-lo ao começar a oração (C 26,1). Persignar-se é, para ela, gesto de invocação ou de simples assombro (V 37,9). Porém, tanto para ela quanto para a religiosidade popular, o ato de benzer-se era um reconhecimento do poder salvador da cruz de Jesus. “Todos os males desterra”; sob seu amparo “o mais fraco será mais forte”, cantará ela em seus poemas.

Na primeira visita ao convento de Duruelo, “portalzinho de Belém”, segundo ela, lhe encanta a pobre e desnuda cruz que adornava “a ermidazinha”: “nunca vou esquecer de uma cruzinha de madeira que estava perto da água benta. Tinha pregada uma representação de Cristo em papel. Ela me parecia produzir mais devoção do que se fosse uma peça bem lavrada” (F 14,7). Também ela faria colocar uma cruz de madeira, desnuda de todo ornamento, em cada cela de seus carmelos.

Ainda que não tenha viajado a Caravaca, venerou e levou consigo uma pequena cópia da famosa “Cruz de Caravaca”. Fez chegar outra cópia da mesma à sua amiga Dona Luisa de la Cerda (Carta 158,6).

Teresa também compartilhou da simples devoção popular em sua última viagem de fundadora, ao chegar a Burgos. Em toda Castela era famoso o Santo Cristo de Burgos. Já ao planejar a viagem de Palência à capital de Castela, tinha incluído em sua agenda a visita ao crucifixo desse lugar (Carta 430,3). E ao chegar a cidade, ainda que estivesse encharcada de água e com frio, foi “primeiramente ver o Santo Crucifixo, para encomendar-lhe a empresa” da fundação (F 31,18).

4. Como levar a cruz de Cristo na própria vida

Além de realidade e mistério, a cruz é para Teresa uma lição de vida. “Na cruz está a vida”, é o primeiro verso de um dos seus poemas. Lição plena, de alcance universal, de ascese e de mística.

No plano ascético, é fundamental a aceitação das cruzes que não podem faltar na vida. Jesus também as aceitou. Ela inculca isso aos principiantes nos capítulos dedicados ao primeiro grau de oração (V 11-13). Porém a instrução vale para todo o caminho: “…primeiros, medianos e últimos (=principiantes, aproveitados e perfeitos), todos levem suas cruzes embora diferentes. Por este caminho, por onde foi Cristo, hão de ir os que O seguem” (V 11,5). Condição indispensável para que o principiante se coloque a caminho é a determinada determinação de levar com Ele a cruz e segui-lO “até à morte de cruz, determinado a ajudar a levá-la e a não deixá-lO só com ela. Quem vir em si esta determinação, de modo algum deve temer! (V 11,12). Insistirá: “importa começarem as almas a terem oração indo se desapegando de todo o gênero de contentamentos e entrarem nela, determinadas única e somente a ajudarem Cristo a levar a cruz, como bons cavaleiros que, sem soldo algum, querem servir a seu Rei…”(V 15,11). Isso é cofirmado às jovens leitoras do Caminho  ao fazê-las confrontarem-se com a cruz de Jesus, de modo que “a que não quiser carregar a cruz, a não ser aquela que muito se fundamente em razões, não sei para que está no mosteiro” ( C 13,1; cf. 10,11).

É revelador o episódio acontecido no final de sua vida (maio de 1582). No Carmelo de Soria havia  ingressado uma jovem da alta nobreza navarra, após levar a cabo um gesto realmente heroico. No noviciado  surpreende-a um período de secura e de novas provas familiares. A noviça comunica tudo à Santa. E esta lhe responde: “Não se aflija com isto. É necessário ajudar Cristo a carregar a cruz. Não tenha pressa em receber regalos, como costumam fazer os soldados civis, que querem receber logo o soldo. Sirva gratuitamente como fazem os grandes ao rei”  (Carta 446,4). A dita pessoa era Leonor de Ayanz e Beamonte.

O lema fundamental da ascese teresiana é: determinada determinação em ajudar Cristo a carregar sua cruz, abraçando as que surgem na própria vida. “Ajudar Cristo a levar a cruz” é célula germinal da mística da cruz, presente simultaneamente na experiência e no magistério da Santa. Já ao propor essa instrução ao principiante, lhe adverte que será válida para todo o caminho espiritual: “Ajude-O a levar a cruz e pense que toda a vida nela viveu . Não queira aqui seu reino (…) ; e assim determine-se – embora esta aridez lhe dure toda a vida – a não deixar Cristo cair sob o peso da cruz” (V 11,10).

Porém tanto ela como seus leitores terão que penetrar no profundo mistério da cruz, cume do processo de abaixamento do Verbo Encarnado e consumação de sua obra redentora. Morte por amor e dor. Dor e amor que se compenetram; porém, de sorte que o amor seja a medida da capacidade da dor: não só na Paixão de Jesus mas na capacidade de compartilhar sua cruz por parte de seus seguidores: “São estes os Seus dons (os de Deus) neste mundo. Dá conforme ao amor que nos tem: aos que mais ama, dá mais destes dons; àqueles que menos ama, dá menos, e conforme ao ânimo que vê em cada um e o amor que têm à Sua Majestade. A quem O amar muito, verá que pode padecer muito por Ele; ao que O amar pouco, pouco. Tenho para mim que a medida de se poder levar cruz grande ou pequena, é a do amor” (C 32,7; cf. M 4,2,9).

A partir dessa experiência do mistério da cruz, na dor por amor, sobrevieram a Teresa duas grandes surpresas. A primeira, que o crucificado pudesse dar-lhe sofrimentos: dar-lhos, como próprio, para que os apresentasse ao Pai. A segunda, que nela surgisse e crescesse até ao extremo do possível o “desejo de padecer” por e com Cristo. Basta documentar um e outro aspecto:

O primeiro fato Teresa o refere em um de seus apontamentos íntimos, Relação 51. Ela escuta esta palavra interior: “… o que Eu tenho é teu, e assim te dou todos os sofrimentos e dores que passei; com isso, podes pedir a Meu Pai como se fossem coisas próprias tuas. (…) Desde então olho de modo muito diferente o que o Senhor padeceu – como coisa própria – , o que me dá grande alívio.” Quando, dois anos mais tarde, ela vai redatar o Castelo Interior recordará esse acontecimento místico na altura das sextas moradas, emoldurando-o na experiência da própria pobreza: “estava muito aflita neste ponto diante de um crucifixo, considerando que nunca tinha tido nada que dar a Deus… Disse-lhe o mesmo Crucificado consolando-a, que Ele lhe dava todas as dores e trabalhos que tinha passado em Sua Paixão, que os tivesse por próprios para os oferecer a Seu Pai” (M 6,5,6) .

A segunda surpresa foi o irreprimível desejo de padecer – algo talvez mais surpreendente e paradoxal para nós que para o místico. Para este – e para Teresa – o normal no caminho de “ajuda ao Senhor com a cruz”, é que surja o desejo de compartilhá-la com Ele e por Ele, na alternância crescente de amor e dor. Teresa o documentará pela última vez no final do Castelo Interior ao descrever a situação de quem chegou à última morada: Ela vive já “com um grande desejo de padecer, mas não de modo a inquietá-la, como costumava…” (M 7,3,4). Muito em contraste com a conclusão do relato da Vida, onde uma de suas orações culminantes era: “Senhor, ou morrer ou padecer: não vos peço outra coisa” (V 40,20)

Nesse processo de imersão no mistério da cruz, os dois últimos significados serão: a necessidade absoluta de configurar-se ao Servo de Javé ( M 7,4,8); e a segurança do valor e dignidade acrescentados aos mínimos atos humanos pela incorporação à cruz de Jesus (M 7,4,15, já na conclusão do livro). “Sabeis o que é ser espiritual deveras? É fazer-se escravos de Deus, para que, marcados com o Seu selo que é a cruz, possa vendê-los por escravos de todo o mundo, como Ele próprio foi; e não lhes faz nenhum agravo nem pequena mercê” (M 7,4,8).

5. Poemas à cruz de Jesus

No exíguo florilégio de poemas teresianos que chegaram até nós, há ao menos três dedicados à cruz de Jesus, ambos literalmente primorosos e de profundo conteúdo espiritual e teológico. Além deles, a cruz está presente em vários outros poemas a Santa.

Provavelmente, os três primeiros (18,19 e 29) foram compostos por ela para celebrar a festa da Exaltação da Santa da Cruz nas recreações que aconteciam em preparação ao subsequente tempo de jejum, que começava nessa data. Poemas festivos, portanto, porém de intensa vibração poética e com clara referência autobiográfica.

O poema primeiro (n. 18) começa com o estribilho: “Cruz, descanso saboroso de minha vida, sede bem vinda” . A imagem central, cruz-bandeira, com a qual celebra o “triunfo” de Jesus é eco prolongado do hino litúrgico: “Vexilla Regis prodeunt fulget crucis mysterium”. Os versos da santa retêm o tom desse hino marcial, porém com matizes intimistas, que permitem a autora dialogar com a cruz: “Foste vós a liberdade de nosso grande cativeiro”.


O segundo poema (n. 9) é talvez o mais original dos poemas teresianos. “Canto de cisne” da autora, segundo seu editor crítico Angel C. Vega. Quase todas as suas estrofes são inspiradas no Cântico dos Cânticos. Começam com a expressão: “na cruz está a vida”; segue cada uma das estrofes inspiradas em um motivo bíblico: “na cruz está o Senhor do céu e da terra” (primeira estrofe);  a cruz é “a palma preciosa” dos Cânticos (segunda); ela é “a oliveira preciosa” (terceira), também do Cântico dos Cânticos, que segue inspirando a estrofe quarta: a cruz é “a árvore preciosa e desejada”. Há um eco do Apocalipse ou do Gênesis na seguinte: a cruz é “a árvore da vida”. E por fim, a última estrofe contém um eco do pensamento paulino: “Na cruz está a glória e a honra”… Toda uma série de motivos bíblicos poeticamente encadeados.

O terceiro poema é um canto de vitória ao triunfo da cruz à maneira de hino triunfal místico. Grito de guerra e paz. A parte inicial fala de militância, bandeiras, paz e terra. A bandeira é a cruz. Capitão forte é o crucificado. Militantes são as destinatárias do poema: carmelitas e a autora. “Não haja entre nós covarde!Aventuremos a vida”.  O triunfo da cruz é a morte do crucificado, que “se oferece para morrer na cruz para dar-nos a todos a luz”. As duas primeiras estrofes cantam a gesta da cruz. As outras duas são o grito do chamado a seguir o crucificado: “Sigamos estas bandeiras pois Cristo vai  à dianteira”.

A santa introduziu o tema da cruz em vários outros poemas: números 20,22,26,30 e 31. Porém dedicou todo o poema 21 ao apóstolo André, que morreu enamorado da cruz de Jesus. A última estrofe põe na boca do apóstolo um imitação do hino litúrgico: “Salve crux pretiosa“. Assim diz:

“Ó cruz! madeiro precioso,
De sublime majestade,
pois jazendo na humildade,
tomaste a Deus por esposo!
Sem merecer tanto gozo,
venho a ti, cheio de amor
Ao ver-te, ó cruz, do senhor!”

Frei Tomas Álvares, OCD.
Em Diccionario de Santa Teresa de Jesús.
Editorial Monte Carmelo. España.
Tradução Província Carmelitana Pernambucana


MÊS DE SÃO JOSÉ - Quarta-feira da 3ª semana da Quaresma

Evangelho (Mt 5,17-19): «Não penseis que vim abolir a Lei e os Profetas. Não vim para abolir, mas para cumprir. Em verdade, eu vos digo: antes que o céu e a terra deixem de existir, nem uma só letra ou vírgula serão tiradas da Lei, sem que tudo aconteça. Portanto, quem desobedecer a um só destes mandamentos, por menor que seja, e assim ensinar os outros, será considerado o menor no Reino dos Céus. Porém, quem os praticar e ensinar será considerado grande no Reino dos Céus».

Comentário: Rev. D. Vicenç GUINOT i Gómez (Sitges, Barcelona, Espanha)

Não penseis que vim abolir a Lei e os Profetas, mas para cumprir.

Hoje em dia há muito respeito pelas distintas religiões. Todas elas expressam a busca da transcendência por parte do homem, a busca do além, das realidades eternas. No entanto, no cristianismo, que afunda suas raízes no judaísmo, esse fenômeno é inverso: é Deus quem procura o homem.

Como lembrou João Paulo II, Deus deseja se aproximar do homem, Deus quer dirigir-lhe suas palavras, mostrar-lhe o seu rosto porque procura a intimidade com ele. Isto se faz realidade no povo de Israel, povo escolhido por Deus para receber suas palavras. Essa é a experiência que tem Moisés quando diz: «Pois qual é a grande nação que tem deuses tão próximos como o SENHOR nosso Deus, sempre que o invocamos?» (Dt 4,7). E, ainda, o salmista canta que Deus «Anuncia a Jacó a sua palavra, seus estatutos e suas normas a Israel. Não fez assim com nenhum outro povo, aos outros não revelou seus preceitos. Aleluia!» (Sal 147,19-20).

Jesus, pois, com sua presença leva a cumprimento o desejo de Deus de aproximar-se do homem. Por isto diz que: «Não penseis que vim abolir a Lei e os Profetas. Não vim para abolir, mas para cumprir» (Mt 5,17). Vem a enriquecê-los, a iluminá-los para que os homens conheçam o verdadeiro rosto de Deus e possam entrar na intimidade com Ele.

Neste sentido, menosprezar as indicações de Deus, por insignificantes que sejam, comporta um conhecimento raquítico de Deus e, por isso, um será tido por pequeno no Reino dos Ceús. E é que, como dizia São Teófilo de Antioquia, «Deus é visto pelos que podem ver-lhe, só precisam ter abertos os olhos do espírito (...), mas alguns homens os têm empanados».

Aspiremos, pois, na oração seguir com grande fidelidade todas as indicações do Senhor. Assim, chegaremos a uma grande intimidade com Ele e, portanto, seremos tidos por grandes no Reino dos Céus.

Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm.

V Centenário do Nascimento (1515-2015)
* O Evangelho de hoje (Mt 5,17-19) ensina como observar a lei de Deus de tal maneira que a sua prática mostre em que consiste o pleno cumprimento da lei (Mt 5,17-19). Mateus escreve para ajudar as comunidades de judeus convertidos a superar as críticas dos irmãos de raça que as acusavam dizendo: “Vocês são infiéis à Lei de Moisés”. O próprio Jesus tinha sido acusado de infidelidade à lei de Deus. Mateus traz a resposta esclarecedora de Jesus aos que o acusavam. Assim ele traz uma luz para ajudar as comunidades a resolver seu problema.

* Usando imagens do quotidiano, com palavras simples e diretas, Jesus tinha dito que a missão da comunidade, a sua razão de ser, é ser sal e ser luz! A respeito de cada uma das duas imagens ele tinha dado alguns conselhos. Em seguida, vêm os três breves versículos do Evangelho de hoje:

* Mateus 5,17-18: Nenhuma vírgula da lei vai cair. Havia várias tendências nas comunidades dos primeiros cristãos. Uns achavam que já não era necessário observar as leis do Antigo Testamento, pois é pela fé em Jesus que somos salvos e não pela observância da Lei (Rm 3,21-26). Outros aceitavam Jesus como Messias, mas não aceitavam a liberdade de Espírito com que algumas comunidades viviam a presença de Jesus ressuscitado. Achavam que eles, sendo judeus, deviam continuar observando as leis do AT (At 15,1.5). Havia ainda cristãos que viviam tão plenamente na liberdade do Espírito, que já não olhavam mais nem para a vida de Jesus de Nazaré nem para o AT e chegavam a dizer: “Anátema Jesus!” (1Cor 12,3). Diante destas tensões, Mateus procura um equilíbrio para além dos extremos. A comunidade deve ser o espaço, onde este equilíbrio possa ser alcançado e vivido. A resposta dada por Jesus aos que o criticavam continuava bem atual para as comunidades: “Não vim abolir a lei, mas dar-lhe pleno cumprimento!”. As comunidades não podiam ser contra a Lei, nem podiam fechar-se dentro da observância da lei. Como Jesus, deviam dar um passo e mostrar, na prática, qual o objetivo que a lei quer alcançar na vida das pessoas, a saber, a prática perfeita do amor.

* Mateus 5,17-18: Nenhuma vírgula da lei vai cair. E aos que queriam desfazer-se de toda a lei, Mateus lembra a outra palavra de Jesus: “Portanto, quem desobedecer a um só desses mandamentos, por menor que seja, e ensinar os outros a fazer o mesmo, será considerado o menor no Reino do Céu. Por outro lado, quem os praticar e ensinar, será considerado grande no Reino do Céu”. A grande preocupação do Evangelho de Mateus é mostrar que o AT, Jesus de Nazaré e a vida no Espírito não podem ser separados. Os três fazem parte do mesmo e único projeto de Deus e nos comunicam a certeza central da fé: o Deus de Abraão e Sara está presente no meio das comunidades pela fé em Jesus de Nazaré que nos manda o seu Espírito.

Para um confronto pessoal
1. Como vejo e vivo a lei de Deus: como horizonte de liberdade crescente ou como imposição que delimita minha liberdade?
2. E o que podemos fazer hoje para os irmãos e irmãs que consideram toda esta discussão como ultrapassada e sem atualidade? O que podemos aprender deles?

segunda-feira, 9 de março de 2015

MÊS DE SÃO JOSÉ - Terça-feira da 3ª semana da Quaresma

Evangelho (Mt 18,21-35): Pedro dirigiu-se a Jesus perguntando: «Senhor, quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?» Jesus respondeu: «Digo-te, não até sete vezes, mas até setenta vezes sete vezes. O Reino dos Céus é, portanto, como um rei que resolveu ajustar contas com seus servos. Quando começou o ajuste, trouxeram-lhe um que lhe devia uma fortuna inimaginável. Como o servo não tivesse com que pagar, o senhor mandou que fosse vendido como escravo, junto com a mulher, os filhos e tudo o que possuía, para pagar a dívida. O servo, porém, prostrou-se diante dele pedindo: ‘Tem paciência comigo, e eu te pagarei tudo’. Diante disso, o senhor teve compaixão, soltou o servo e perdoou-lhe a dívida. Ao sair dali, aquele servo encontrou um dos seus companheiros que lhe devia uma quantia irrisória. Ele o agarrou e começou a sufocá-lo, dizendo: ‘Paga o que me deves’. O companheiro, caindo aos pés dele, suplicava: ‘Tem paciência comigo, e eu te pagarei'. Mas o servo não quis saber. Saiu e mandou jogá-lo na prisão, até que pagasse o que estava devendo. Quando viram o que havia acontecido, os outros servos ficaram muito sentidos, procuraram o senhor e lhe contaram tudo. Então o senhor mandou chamar aquele servo e lhe disse: ‘Servo malvado, eu te perdoei toda a tua dívida, porque me suplicaste. Não devias tu também ter compaixão do teu companheiro, como eu tive compaixão de ti? O senhor se irritou e mandou entregar aquele servo aos carrascos, até que pagasse toda a sua dívida. É assim que o meu Pai que está nos céus fará convosco, se cada um não perdoar de coração ao seu irmão».

Comentário: Rev. D. Enric PRAT i Jordana (Sort, Lleida, Espanha)

O senhor teve compaixão, (…) perdoou-lhe a dívida.

Hoje, o Evangelho de Mateus convida-nos a uma reflexão sobre o mistério do perdão, propondo um paralelismo entre o estilo de Deus e o nosso na hora de perdoar.

O homem atreve-se a medir e a levar em conta a sua magnanimidade perdoadora: «Senhor, quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?» (Mt 18,21). A Pedro parece-lhe que sete vezes já é muito e que é, talvez, o máximo que podemos suportar. Bem visto, Pedro continua esplêndido, se o compararmos com o homem da parábola que, quando encontrou um companheiro seu que lhe devia cem denários, «Ele o agarrou e começou a sufocá-lo, dizendo: ‘Paga o que me deves’» (Mt 18,28), negando-se a escutar a sua súplica e a promessa de pagamento.

Fechadas as contas, o homem, ou se nega a perdoar, ou mede estritamente a medida do seu perdão. Verdadeiramente ninguém diria que receberíamos da parte de Deus um perdão infinitamente reiterado e sem limites. A parábola diz: «o senhor teve compaixão, soltou o servo e perdoou-lhe a dívida» (Mt 18,27). E a divida era muito grande.

Mas a parábola que comentamos põe acento no estilo de Deus na hora de outorgar o perdão. Depois de chamar à ordem o seu devedor em atraso e de fazê-lo ver a gravidade da situação, deixou-se enternecer repentinamente pelo seu pedido contrito e humilde: «‘Tem paciência comigo, e eu te pagarei tudo’. Diante disso, o senhor teve compaixão…» (Mt 18, 26-27). Este episódio põe à vista aquilo que cada um de nós conhece por experiência própria e com profundo agradecimento: que Deus perdoa sem limites ao arrependido e convertido. O final negativo e triste da parábola, contudo, faz honras de justiça e manifesta a veracidade daquela outra sentença de Jesus em Lc 6,38: «Com a medida com que medirdes sereis medidos».

Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm.

* O Evangelho de hoje fala da necessidade do perdão. Não é fácil perdoar. Pois certas mágoas continuam machucando o coração. Há pessoas que dizem: "Eu perdoo, mas não esqueço!" Rancor, tensões, brigas, opiniões diferentes, ofensas, provocações dificultam o perdão e a reconciliação. Vamos meditar as palavras de Jesus que falam da reconciliação (Mt 18,21-22) e que trazem a parábola do perdão sem limites (Mt 18,23-35).

* Mateus 18,21-22: Perdoar setenta vezes sete! Jesus tinha falado sobre a importância do perdão e sobre a necessidade de saber acolher os irmãos e as irmãs para ajudá-los a se reconciliar com a comunidade (Mt 18,15-20). Diante destas palavras de Jesus, Pedro pergunta: “Quantas vezes devo perdoar ao irmão que pecar contra mim? Até sete vezes?” O número sete indica uma perfeição. No caso, era sinônimo de sempre. Jesus vai mais longe do que a proposta de Pedro. Ele elimina todo e qualquer possível limite para o perdão: "Não te digo até sete, mas até setenta vezes sete!” Ou seja, setenta vezes sempre!  Pois não há proporção entre o perdão que recebemos de Deus e o perdão que nós devemos oferecer ao irmão, como ensinará a parábola do perdão sem limites.

* A expressão setenta vezes sete era uma alusão clara às palavras de Lamec que dizia: “Por uma ferida, eu matei um homem, e por uma cicatriz matei um jovem. Se a vingança de Caim valia por sete, a de Lamec valerá por setenta vezes sete" (Gn 4,23-24). Jesus quer reverter a espiral da violência que entrou no mundo pela desobediência de Adão e Eva, pelo assassinato de Abel por Caim e pela vingança de Lamec. Quando a violência desenfreada toma conta da vida, tudo desanda e a vida se desintegra. Surge o Dilúvio e aparece a Torre de Babel da dominação universal (Gn 2,1 a 11,32).

* Mateus 18,23-35: A parábola do perdão sem limite.  A dívida de dez mil talentos valia em torno de 164 toneladas de ouro. A dívida de cem denários valia 30 gramas de ouro. Não existe meio de comparação entre os dois! Mesmo que o devedor junto com mulher e filhos fossem trabalhar a vida inteira, jamais seriam capazes de juntar 164 toneladas de ouro. Diante do amor de Deus que perdoa gratuitamente nossa dívida de 164 toneladas de ouro, é nada mais do que justo que também nós perdoemos ao irmão a insignificante dívida de 30 gramas de ouro, setenta vezes sempre! O único limite para a gratuidade do perdão de Deus é a nossa incapacidade de perdoar o irmão! (Mt 18,34; 6,15)

* A comunidade como espaço alternativo de solidariedade e de fraternidade. A sociedade do Império Romano era dura e sem coração, sem espaço para os pequenos. Estes buscavam um abrigo para o coração e não o encontravam. As sinagogas também eram exigentes e não ofereciam um lugar para eles. E nas comunidades cristãs, o rigor de alguns na observância da Lei levava para dentro da convivência os mesmos critérios da sinagoga. Além disso, lá para o fim do primeiro século, nas comunidades cristãs começavam a aparecer as mesmas divisões que existiam na sociedade entre rico e pobre (Tg 2,1-9). Em vez da comunidade ser um espaço de acolhimento, ela corria o risco de tornar-se um lugar de condenação e de conflitos. Mateus quer iluminar as comunidades, para que sejam um espaço alternativo de solidariedade e de fraternidade. Devem ser uma Boa Notícia para os pobres.

Para um confronto pessoal
1. Por que será que é tão difícil perdoar?
2. Na nossa comunidade existe espaço para a reconciliação? De que maneira?