sexta-feira, 25 de abril de 2014

DESAFIOS DA REALIDADE DE HOJE PARA A FAMÍLIA CARMELITANA

Frei Carlos Mesters, O. Carm.

No Monte Carmelo, bem perto da fonte do profeta Elias sai do chão um tronco de árvore, velho e ressequido. Parece que já nasce cansado, pois não se rege em pé e se curva quase até o chão, estendendo-se, seco e sem folhas, por mais de um metro. Bem no fim, de repente, saem brotos verdes, dezenas, em todas as direções. É a imagem perfeita da Família Carmelitana. Como que de repente, nos últimos dois séculos, ela renasce nos vários cantos do mundo e da Igreja. Somos desafiados a fazer renascer o carisma. Chamados a recriar, não a repetir!

Os três pólos que geram os desafios para nós
Estamos sempre entre três pólos que geram os desafios para nós:
(1) De um lado, estão a realidade de hoje e as necessidades do povo.
(2) Do outro lado, está o nosso carisma, nossa origem, a tradição mística do Carmelo; estão os nossos santos e santas, nossas fundadoras e fundadores.
(3) Entre os dois, estamos nós como Família Carmelitana.

Os três, em nome de Deus, nos desafiam e fazem apelo à nossa consciência, cada um a seu modo. O Carisma nos oferece a forma concreta de como nós, carmelitas, devemos viver a Boa Nova de Deus que Jesus nos trouxe. A Realidade, o povo, os pobres, no meio do qual vivemos e ao qual servimos, denunciam qualquer forma de riqueza acumulada que é causa de privação para os outros, inclusive a riqueza acumulada da tradição religiosa. A Família Carmelitana é a forma concreta com que o carisma procura responder às exigências da realidade. Muitas vezes, porém, nossa forma de vida está desatualizada e exige maior fidelidade tanto ao carisma como às exigências da realidade de hoje.
Vejamos, sucessivamente, os desafios que nos vêm de cada um destes três pólos: do carisma, da realidade dos pobres e da situação concreta da nossa Família.

1. DESAFIOS QUE NOS VEM DA NOSSA ORIGEM, DO CARISMA
Nosso carisma é aquilo que, vindo do passado, desde a Regra dada por Santo Alberto, nos define e nos dá identidade. É a forma sob a qual a Boa Nova de Deus que Jesus nos trouxe se apresenta a nós. Desta nossa origem não podemos abrir mão, sob pena de perdermos nossa identidade e nossa razão de ser. Não há carmelita que não seja sensível aos apelos que lhe vêm do seu passado, dos seus santos e santas, de suas fundadoras e fundadores. É como uma saudade que se coloca lá na nossa frente, como um ideal a ser alcançado, um grande e permanente desafio que se apresenta a nós sob muitas formas:

1. Viver e inculturar o Carisma do Carmelo em cada continente e cultura.
O nosso maior desafio será sempre o mesmo, até o fim da nossa vida: viver o ideal do Carmelo, para que penetre em nós; ideal que, sempre de novo, deve ser relido e inculturado em cada época, cada cultura, cada situação. Não podemos impor o modelo europeu para os países da Ásia, nem o modelo da América latina para os países da África. Neste ponto pecamos e continuamos pecando. Europa não é superior aos outros países, e os outros povos não podem criar complexo de inferioridade. Muitas vezes, exportamos um modelo de carisma e não o recriamos na cultura do povo a que servimos. Como fariam nossos fundadores e fundadoras se tivessem de recriar hoje o nosso carisma?

2. Recuperar a magia original do Carisma para que fale à juventude:
No seu livro “Como Pedras Vivas” frei Emanuel Boaga mostra que os primeiros irmãos nossos, depois que vieram do Monte Carmelo para Europa em 1238, em menos de 70 anos, de 1238 até o fim daquele século, fundaram em torno de 160 mosteiros em quase todos os países da Europa. Só este fato tão simples que a história registra, mostra uma coisa muito importante. Eles souberam apresentar o evangelho como um forte apelo para a juventude da época. Este é um desafio para nós hoje: recuperar a magia e o frescor do Carisma, para que fale à juventude de hoje. A juventude de hoje está cansada do sistema consumista e busca experiências novas. Muitos as buscam nas drogas. Será que o Carmelo pode ser uma resposta para eles? Penso que sim, e muito!

3. Nossa origem mendicante como forma de vida
Um aspecto da nossa origem é a mendicância. Nascemos como alternativa de Vida Religiosa numa época de transformação social, nos séculos XII e XIII. Os Mendicantes surgiram como resposta aos apelos da realidade: servir aos “menores”, os pobres da época. No mundo de hoje, a maior produção é a exclusão e a pobreza. Somos desafiados a despertar dentro de nós a origem mendicante como resposta aos problemas de hoje, e isto em três níveis: 
(1) entre as nossas próprias Congregações, sem que isto nos desvie do nosso carisma; 
(2) em parceria com os outros mendicantes que, como nós, surgiram na mesma época; 
(3) no processo de formação, para que esta nossa origem comum ocupe um lugar privilegiado nas várias etapas da formação inicial e na formação permanente?

4. Origem leiga da nossa família
Na origem, nossos primeiros confrades eram leigos na sua maioria. Alguns nem sabiam ler. Pouco a pouco, por força das circunstâncias e para poder servir melhor aos “menores”, o ramo masculino tornou-se uma ordem “clericalis”. As religiosas já não são vistas como leigas. Sem definição clara, elas estão entre o clero e os leigos. Hoje, porém, em muitos lugares, a vivência do carisma começa a ser partilhada e vivida com e pelos leigos e leigas. Esta re-descoberta de que o carisma não é propriedade das Congregações, mas sim da Igreja como um todo, não é fruto de uma concessão benévola da parte do clero, mas é um sopro do Espírito, um Sinal dos Tempos. Estamos sendo desafiados a fazer com que a vivência do carisma deixe de ser algo do clero e se torne propriedade da Família inteira. O desafio é criar um ambiente de participação que permita a partilha das experiências, em pé de igualdade, entre frades, monjas, irmãs, leigos e leigas, e que crie também estruturas jurídicas para esta participação, pois novas formas de vida carmelitana já estão surgindo em várias partes do mundo, para as quais anda não há lugar concreto dentro do direito normal que rege a nossa vida. Por exemplo, a fraternidade carmelitana leiga de Belo Horizonte; o mosteiro Monte Carmelo composto de ex-drogados; os Pequenos Carmelos da Delegação Geral de Colômbia; as comunidades na Holanda e em Cartagena, onde convivem frades e irmãs e leigas; os múltiplos encontros da Família Carmelitana em toda parte, etc.

5. A Origem própria de cada Congregação ligada à Família Carmelitana
Cada Congregação Carmelitana tem a sua origem própria, tem o seu carisma e, por isso mesmo, tem a sua maneira de viver o carisma comum a todos nós. É um grande desafio fazer
(1) com que cada Congregação aprofunde e explicite para si e para todos nós o seu jeito próprio de viver o carisma carmelitano
(2) criar mecanismos para partilhar entre nós nossa vivência e, assim, enriquecer-nos mutuamente para aprofundar o carisma comum e melhorar nosso serviço ao povo de Deus e aumentar, assim, o louvor devido a Deus.
(3) Algumas Congregações ou mosteiros estão no fim. Humanamente falando, na atual forma em que estão organizadas, não têm futuro. Mas o seu carisma faz parte da vida da Igreja e deve continuar. Somos desafiados a fazer renascer o carisma para além da morte da instituição. É uma forma de crer na ressurreição.

2. DESAFIOS QUE NOS VEM DA SITUAÇÃO DE HOJE NO MUNDO
Nunca na história da humanidade houve tantas mudanças em tantos setores e níveis diferentes em tão curto espaço de tempo como agora neste nosso tempo. Elas estão mudando os esquemas do nosso pensamento e o modo de viver a vida, a fé, os costumes ancestrais, o contato entre as pessoas, entre os povos, entre os continentes, entre as religiões. Mudanças que se expressam nos fenômenos da secularização, da pos-modernidade, do pentecostalismo, do interesse tão marcante pelo religioso, nas formas múltiplas do fundamentalismo, na massificação crescente. Diante disto, duas grandes tendências se enfrentam tanto na Igreja como na humanidade como um todo: os que querem renovar e os que querem restaurar. Esta realidade de hoje traz consigo desafios imensos que exprimem apelos de Deus para nós e afetam nossa maneira de viver o carisma.

1. O sistema neoliberal e o silêncio profético que a Regra recomenda
O sistema neoliberal que hoje é hegemônico no mundo está gerando uma pobreza crescente em toda parte. Nós não temos o controle das forças econômicas que geram esta situação anti-evangélica de injustiça e de exploração, mas como seguidores e seguidoras de Jesus não podemos ficar impassíveis diante do que está acontecendo no mundo. Pois, a partir da sua experiência de Deus, Jesus disse que veio anunciar a Boa Nova aos pobres. Na realidade, muitos cristãos, dominados e enganados pelo barulho da propaganda do sistema, perderam a visão crítica das coisas. Já não sabem quem é “O Deus da nossa contemplação”. Como carmelitas, não podemos ser ingênuos diante desta situação de injustiça. A Regra nos ensina que a justiça deve ser cultivada pelo silêncio. A prática do silêncio ajuda a combater a injustiça. De que maneira? Devemos fazer silenciar dentro de nós o barulho da propaganda. Este silêncio exige disciplina e controle, estudo e análise da realidade, para que possamos perceber os mecanismos escondidos que geram esta situação de injustiça. Nossas comunidades devem ou deveriam ser lugares, onde silencia a voz do sistema opressor e onde aparece uma alternativa de convivência humana, uma amostra e uma prova de que “um outro mundo é possível”. Quantos carmelitas estavam no Fórum Social Mundial? Na guerra do Iraque, em torno de 70% do povo americano era a favor de Bush, apesar de o Papa e o mundo inteiro gritar: “A guerra é satanás!” Como explicar? Quando as pessoas são dominadas pelos meios de comunicação fica mais difícil formar consciência crítica. Como fazer com que nós religiosos possamos ter consciência crítica e não sermos dominados pelos meios de comunicação?

2. O pluralismo religioso e o conceito tradicional da Missão
Muitos de nós entramos na Vida Religiosa para ser missionários e levar a Boa Nova para outros povos. Muitas Congregações nasceram como o mesmo objetivo. Hoje, uma nova experiência de Deus, do mundo, da humanidade e da cultura está mudando o conceito de missão e o jeito de anunciar a Boa Nova de Deus que Jesus nos trouxe. O contato com outras religiões e culturas e o estudo da história das missões mostram que, no passado, muitas vezes, fomos mais colonizadores do que missionários. Descobrimos que Deus está presente também nas outras religiões e povos. O anúncio da Boa Nova de Deus trazida por Jesus não pode ser um proselitismo que quer ganhar almas para Deus nem um anúncio autoritário que ameaça com condenação eterna, mas deverá ser marcado pelo respeito às convicções do outro, pelo diálogo de quem quer aprender do outro, pela defesa da vida humana e luta pela Justiça e Paz, pelo entusiasmo do testemunho de coerência de vida de acordo com a Boa Nova de Deus que Jesus nos trouxe, e pela atitude de amor gratuito que deseja compartir com os irmãos e as irmãs o bem maior da presença de Deus que ele ou ela mesma experimentou na vida . Nosso modo de pensar e de sentir já está mudando, mas a estrutura da nossa vida ainda continua antiga. O vento já mudou, mas o navio ainda não. O canal é muito estreito, e o navio é largo e pesado.

3. O avanço das ciências e a imagem que temos de Deus
A imagem que temos de Deus depende muito da educação que recebemos e da visão do mundo dentro do qual fomos criados. Diante do progresso das ciências, tanto no micro (a descoberta do segredo do átomo) como no macro (a descoberta da origem do universo), a imagem que tínhamos de Deus já não corresponde mais. Dois fenômenos, aparentemente opostos entre si, revelam a mudança que está em andamento. De um lado, o processo generalizado de secularização nos países ditos cristãos é um atestado de que a imagem de Deus que revelamos já não corresponde ao que a humanidade deseja e precisa. De outro lado, existem o crescimento dos movimentos pentecostais e o fundamentalismo religioso em todas as religiões: fundamentalismo cristão, evangélico, muçulmano, judeu, hindu, e até secularizado. Esta tendência fundamentalista se manifesta no fortalecimento do autoritarismo e dos movimentos conservadores, que buscam o fundamento da certeza nas observâncias. Sem certeza não se vive. Mas que certeza nós, carmelitas, buscamos? A certeza baseada nas nossas observâncias, no que nós fazemos por Deus, ou a certeza mais evangélica de gratuidade e de entrega que se baseia no que Deus faz por? Será que, como o profeta Elias, temos a coragem de andar pelo deserto, quarenta dias ou quarenta anos, até re-descobrir o novo rosto de Deus que responde ao desejo da humanidade de hoje?

4. O movimento feminista e as congregações religiosas femininas
Uma revolução está em andamento contra o patriarcalismo que dominou durante milênios e que teve e tem muita influência tanto na Bíblia como na organização da Igreja. Qual a função das religiosas, mulheres consagradas, nesta revolução tão importante? Podemos ignora-la? Já é triste de constatar que tanto esta como tantas outras revoluções nasceram fora da Igreja e, muitas vezes, combatidas por ela! O movimento feminista critica a visão patriarcal de Deus que se infiltrou em setores da vida eclesiástica e que leva as pessoas a não se sentir mais em casa dentro da Igreja oficial e até dentro da Bíblia, onde transparece esta mesma visão patriarcal.

5. Ecumenismo e defesa da vida
A preocupação ecológica com a preservação da vida leva a uma atitude ecumênica que já não consegue interessar-se tanto pelas diferenças doutrinais e rituais, mas busca unir pessoas de diferentes credos e religiões em defesa da vida que Deus criou. A preocupação holística, para além das divisões e preocupações confessionais e doutrinais, busca situar a vida como um todo no conjunto da harmonia da natureza e do universo. Também aqui, o movimento ecológico e profundamente ecumênico em defesa da vida no planeta nasceu fora da Igreja. E nós carmelitas? Até hoje, o santo mais ecumênico é Elias. O santo que mais lutou em defesa da vida e da saúde do povo é Eliseu!

3.DESAFIOS QUE NOS VEM DE NÓS MESMOS COMO FAMÍLIA HOJE
Carmelitas, somos muitos! Milhares, no mundo inteiro, irmãos e irmãs das várias Ordens e Congregações, das Ordens Terceiras, dos movimentos e associações carmelitanas. Somos aquilo que fazemos: família, trabalho profissional, missões, paróquias, colégios, orfanatos, pastorais, administração, etc. Esta é a nossa realidade concreta e atual, o peso de cada dia, cheio de ambivalências. Também dela chegam até nós os apelos de Deus, os desafios. É a fidelidade que devemos às nossas famílias e comunidades, aos nossos confrades e irmãs, à igreja e ao povo que nos foi confiado. É esta realidade ambivalente que mais pesa na tomada das decisões, pois, muitas vezes, esta realidade nos faz entrar em conflito com as exigências do nosso carisma e da opção pelos pobres. Daqui nascem vários e dolorosos desafios:

1. Itinerância mendicante e a passagem do primeiro mundo para o terceiro mundo
Dois fatos que nos questionam e desafiam:
(1) Atualmente, no ramo masculino, a maior parte dos membros ainda vive no primeiro mundo. Mas a previsão é que dentro de menos de dez anos, a maioria estará nos países do assim chamado terceiro mundo: Ásia, África e América Latina. Como nos preparamos para esta mudança inevitável, por exemplo, no nível da cultura, da construção das casas, na escolha dos lugares, na preparação de formadoras, na escolha dos assuntos para os nossos encontros, na tomada das decisões, etc.  
(2) Temos um convento numa cidade do Brasil. Quando foi escolhido o lugar, nos anos 40, aquilo era uma favela. Hoje é bairro rico de classe média alta. Uma casa não se abandona com facilidade. O que fazer quando, devido às circunstâncias históricas acabamos envolvidos em situações que certamente não queríamos anteriormente? As novas situações em que nos encontramos exigem mudança. Muitas vezes, nosso modo de viver perdeu a capacidade de itinerância que é uma característica dos mendicantes. Congregações fundadas para ensinar a juventude pobre, vivem fechadas e imobilizadas em colégios de ricos.

2. Tendência restauradora na Igreja, vida no meio dos pobres e imagem de Deus
Apesar da abertura do último sínodo, o vento restaurador cresce na Igreja. A Igreja institucional é cada vez mais clerical e disciplinar. Isto é fonte de muitas tensões no interior das Congregações e das pessoas. É muito frequente o conflito entre a visão de igreja que anima as comunidades inseridas no meio dos pobres e a que orienta a pastoral das Dioceses. Em nível local, isto se concretiza no conflito com o vigário que não concorda com as religiosas inseridas e as marginaliza. Nas periferias das grandes cidades, a vida do povo está sendo massacrada, o número dos excluídos aumenta cada vez mais, a violência já acontece entre os próprios pobres. Pobre explorando o pobre! Parece a ausência total do Reino! Viver no meio deste mundo tão violento e desumano é muito exigente. É o que muitas religiosas sentem e vivem. Eles dizem: “Como viver consagrada a um Deus que permite tal coisa. É possível?” É urgente que se tome consciência dos limites e da deficiência da imagem que temos de Deus. A tentação restauradora é grande! É mais cômodo buscar a certeza nas nossas observâncias, isto é, naquilo que nós fazemos por Deus, do que naquilo que Deus faz por nós. Só uma nova experiência autêntica de Deus, como a do profeta Elias, poderá ajudar a superar esta crise. Eficiência e gratuidade. A eficiência das observâncias marca a vida do sistema da vida moderna. A gratuidade é uma característica do amor. Como combinamos no concreto estes dois valores tão importantes na vida? Como aparecem na nossa vida comunitária? Como viver a gratuidade do amor num mundo marcado pela eficiência?

3. A necessidade de um processo da formação permanente e estilo de vida
Antigamente, havia uma estrutura de vida dentro da qual as pessoas cresciam e que as ajudava na formação da sua consciência e no fortalecimento das suas convicções. Hoje, tudo mudou. O amadureci­mento psicológico tornou-se mais lento e mais problemático. As pessoas necessitam de mais tempo e necessitam de estruturas comunitárias adequadas, sobretudo nas casas de formação. A dispersão e a desintegração são grandes. Existe uma perda de valores. Como fazer para refazer a pessoa, para que ela tenha uma experiência real de Deus e seja um sinal de Deus. Qual a formação que damos? Formamos em função de que e para que? Quais as opções pastorais que marcam nossa vida? Qual a visão de Igreja que nos anima e que marca o estilo da nossa vida: a restauradora ou a renovadora? Qual o estilo de vida religiosa que apresentamos aos que nos procuram na inserção? Qual o estilo de vida religiosa inserida que poderia oferecer aos jovens, ao mesmo tempo, uma resposta à sua busca pessoal interior e uma resposta à sua preocupação social, ao seu desejo de contribuir para a reconstrução da convivência humana? Como criar um caminho de inserção gradual que leve em conta estes problemas?

4. A vivência dos votos e o questionamento que vem dos pobres.
Hoje, a vida religiosa está sendo questionada. Pois muitos pobres, que não são religiosos, vivem melhor o evangelho do que muitos de nós que professamos a Vida Evangélica. Qual a relevância da nossa vida religiosa inserida para a vida dos pobres com que convivemos? O que representamos para eles? O que eles esperam de nós? O que eles veem em nós? Como viver a radicalidade do Evangelho num mundo em que parece não haver lugar para tal radicalidade? A impotência da Vida Religiosa inserida, sentida diante da situação de opressão e de exploração em que se encontra o povo. Uma pergunta que se ouve: “O que fazer como religioso e como religiosa diante do número crescente dos pobres que enchem as ruas das cidades, sem esperança nenhuma de que possa ocorrer uma mudança sócio-política e econômica? Depois de vinte anos ou mais de inserção no meio dos pobres, nada mudou e, em vez de melhorar, a situação piorou. A previsão é de que o número dos pobres irá aumentando sempre mais”. Qual é mesmo o objetivo da nossa Vida Religiosa?


Sábado da oitava da Páscoa

Evangelho (Mc 16,9-15): Ressuscitado na madrugada do primeiro dia depois do sábado, Jesus apareceu primeiro a Maria Madalena, de quem tinha expulsado sete demônios. Ela foi anunciar o fato aos seguidores de Jesus, que estavam de luto e choravam. Quando ouviram que ele estava vivo e tinha sido visto por ela, não acreditaram. Depois disso, Jesus apareceu a dois deles, sob outra aparência, enquanto estavam indo para o campo. Eles contaram aos outros. Também não acreditaram nesses dois. Por fim, Jesus apareceu aos onze discípulos, enquanto estavam comendo. Ele os criticou pela falta de fé e pela dureza de coração, porque não tinham acreditado naqueles que o tinham visto ressuscitado. E disse-lhes: «Ide pelo mundo inteiro e anunciai a Boa Nova a toda criatura!».

Comentário: P. Raimondo M. SORGIA Mannai OP (San Domenico di Fiesole, Florencia, Italia)

Maria Madalena foi anunciar o fato aos seguidores de Jesus, não acreditaram

Hoje, o Evangelho nos oferece a oportunidade de meditar alguns aspectos que cada um de nós tem experiência: estamos certos de amar a Jesus, o consideramos o maior dos nossos amigos; não obstante, quem de nos poderia afirmar não tê-Lo traído nunca? Pensemos se, pelo menos alguma vez, não O vendemos mal, por algo ilusório de péssima envoltura. Em segundo lugar, ainda que estejamos frequentemente tentados a nos valorizar demais como cristãos, porém, o testemunho da nossa própria consciência nos impõe calar-nos e humilhar-nos, imitando o publicano que não ousava nem mesmo levantar a cabeça, batendo-se no peito, enquanto repetia: «Ó Deus, tem piedade de mim, que sou pecador» (Lc 18,13).

Dito tudo isto, não pode surpreender-nos a conduta dos discípulos. Conheceram pessoalmente Jesus, apreciaram-lhe seus dotes da mente, do coração, as qualidades incomparáveis de sua predicação. Contudo, quando Jesus já havia ressuscitado, uma das mulheres do grupo —Maria Madalena— «Foi ela noticiá-lo aos que estiveram com ele, os quais estavam aflitos e chorosos» (Mc 16,10) e, ao invés de interromperem as lágrimas e começarem dançar de alegria, não lhe crêem. É o sinal de que nosso centro de gravidade é a terra.

Os discípulos tinham ante eles próprios o anuncio inédito da Ressurreição, e, no entanto, preferem continuar afligindo-se deles mesmos. Pecamos, sim! Traímos-lhe, sim! Celebramos-lhe uma espécie de exéquias pagãs, sim! Depois de bater o peito, joguemo-nos aos seus pés, com a cabeça bem alta, olhando para cima, e... de frente! Em marcha seguindo-o, seguindo o seu ritmo. Disse sabiamente o escritor francês Gustave Flaubert: «Acho que se olhássemos sempre para o céu, acabaríamos adquirindo asas». O homem que estava imerso no pecado, na ignorância e na tibieza, desde hoje e para sempre saberá que, graças à Ressurreição de Cristo, «encontra-se como imerso na luz do meio dia».

Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm

* O evangelho de hoje faz parte de uma unidade literária mais ampla (Mc 16,9-20) que traz uma lista ou um resumo de várias aparições de Jesus:
(1) Jesus aparece a Maria Madalena, mas os discípulos não aceitam o testemunho dela (Mc 16,9-11);
(2) Jesus aparece a dois discípulos, mas os outros não creram no testemunho deles (Mc 16,12-13);
(3) Jesus aparece aos Onze, critica a falta de fé e dá ordem de anunciar a Boa Nova a todos (Mc 16,14-18);
(4) Jesus sobe ao céu e continua cooperando com os discípulos (Mc 16,19-20).

* Além desta lista de aparições do evangelho de Marcos, existem outras listas de aparições que nem sempre coincidem entre si. Por exemplo, a lista conservada por Paulo na carta aos Coríntios é bem diferente (1 Cor 15,3-8). Esta variedade mostra que, inicialmente, os cristãos não se preocupavam em provar a ressurreição por meio das aparições. Para eles a fé na ressurreição era tão evidente e tão vivida, que não havia necessidade de prova. Uma pessoa que toma banho de sol na praia não se preocupa em provar que o sol existe. Ela mesma, bronzeada, é a prova viva de que o sol existe. As comunidades, elas mesmas, existindo no meio daquele império imenso, eram uma prova viva da ressurreição. As listas das aparições começam a aparecer mais tarde, na segunda geração, para rebater as críticas dos adversários.

* Marcos 16,9-11: Jesus aparece a Maria de Mágdala, mas os outros discípulos não creram nela. 
Jesus aparece primeiro a Maria Madalena. Ela foi anunciá-lo aos outros. Para vir ao mundo, Deus quis depender do sim de uma jovem de 15 ou 16 anos, chamada Maria, lá de Nazaré (Lc 1,38). Para ser reconhecido como vivo no meio de nós, quis depender do anúncio de uma moça que tinha sido libertada de sete demônios, também chamada Maria, lá de Mágdala! (Por isso, era chamada Maria Magdalena). Mas os outros não acreditaram nela. Marcos diz que Jesus apareceu primeiro a Madalena. Na lista das aparições, transmitida na carta aos Coríntios (1 Cor 15,3-8), já não constam as aparições de Jesus às mulheres. Os primeiros cristãos tiveram dificuldade de crer no testemunho das mulheres. É pena!

* Marcos 16,12-13: Jesus aparece a dois discípulos, mas os outros não creram neles. 
Sem muitos detalhes, Marcos se refere a uma aparição de Jesus a dois discípulos, “enquanto estavam a caminho do campo”. Trata-se, provavelmente, de um resumo da aparição de Jesus aos discípulos de Emaús, narrada por Lucas (Lc 24,13-35). Marcos insiste em dizer que “os outros não acreditaram nem mesmo nestes”.

* Marcos 16,14-15: Jesus critica a incredulidade e manda anunciar a Boa Nova a todas as criaturas. 
Por fim, Jesus aparece aos onze discípulos e os repreende por não terem acreditado nas pessoas que o tinham visto ressuscitado. Novamente, Marcos se refere à resistência dos discípulos em crer no testemunho daqueles e daquelas que experimentaram a ressurreição de Jesus. Por que será? Provavelmente, para ensinar três coisas. Primeiro, que a fé em Jesus passa pela fé nas pessoas que dão testemunho dele. Segundo, que ninguém deve desanimar, quando a dúvida e a descrença nascem no coração. Terceiro, para rebater as críticas dos que diziam que cristão é ingênuo e aceita sem crítica qualquer notícia, pois os onze discípulos tiveram muita dificuldade em aceitar a verdade da ressurreição!

* O evangelho de hoje termina com o envio: “Ide pelo mundo inteiro e proclamai a Boa Nova a toda criatura!” Jesus lhes confere a missão de anunciar a Boa Nova a toda a criatura.

Para um confronto pessoal
1)  Maria Madalena, os dois discípulos de Emaús e os onze discípulos: quem é que teve maior dificuldade em crer na ressurreição? Por que? Eu me identifico com qual deles?
2) Quais são os sinais que mais convencem as pessoas da presença de Jesus no nosso meio?

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Ordenação de Frei Paulino

Queridos irmãos no Carmelo:
Hoje a nossa Ordem ganha mais um sacerdote.
Rezemos por ele.




Sexta-feira da oitava da Páscoa

Evangelho (Jo 21,1-14): Depois disso, Jesus apareceu de novo aos discípulos, à beira do mar de Tiberíades. A aparição foi assim: Estavam juntos Simão Pedro, Tomé, chamado Gêmeo, Natanael, de Caná da Galileia, os filhos de Zebedeu e outros dois discípulos dele. Simão Pedro disse a eles: «Eu vou pescar». Eles disseram: «Nós vamos contigo». Saíram, entraram no barco, mas não pescaram nada naquela noite.  Já de manhã, Jesus estava aí na praia, mas os discípulos não sabiam que era Jesus. Ele perguntou: «Filhinhos, tendes alguma coisa para comer?». Responderam: «Não». Ele lhes disse: «Lançai a rede à direita do barco e achareis». Eles lançaram a rede e não conseguiam puxá-la para fora, por causa da quantidade de peixes. Então, o discípulo que Jesus mais amava disse a Pedro: «É o Senhor!». Simão Pedro, ouvindo dizer que era o Senhor, vestiu e arregaçou a túnica (pois estava nu) e lançou-se ao mar. Os outros discípulos vieram com o barco, arrastando as redes com os peixes. Na realidade, não estavam longe da terra, mas somente uns cem metros.  Quando chegaram à terra, viram umas brasas preparadas, com peixe em cima e pão. Jesus disse-lhes: «Trazei alguns dos peixes que apanhastes». Então, Simão Pedro subiu e arrastou a rede para terra. Estava cheia de cento e cinquenta e três grandes peixes; e apesar de tantos peixes, a rede não se rasgou. Jesus disse-lhes: «Vinde comer». Nenhum dos discípulos se atrevia a perguntar quem era ele, pois sabiam que era o Senhor. Jesus aproximou-se, tomou o pão e deu a eles. E fez a mesma coisa com o peixe. Esta foi a terceira vez que Jesus, ressuscitado dos mortos, apareceu aos discípulos.

Comentário: Rev. D. Joaquim MONRÓS i Guitart (Tarragona, Espanha)

Esta foi a terceira vez que Jesus, ressuscitado dos mortos, apareceu aos discípulos.

Hoje, pela terceira vez Jesus aparece aos discípulos desde que ressuscitou. Pedro voltava ao seu trabalho de pescador e os outros se encorajam para acompanhá-lo. É lógico que como ele era pescador antes de seguir a Jesus, o continue sendo depois, não obstante haja quem ache estranho que ele não tenha abandonado seu honrado trabalho para seguir a Cristo.

Naquela noite eles não pescaram nada! Quando ao amanhecer Jesus aparece, eles não o reconhecem, até que Ele lhes pede algo para comer. Ao dizer-lhe que não têm nada, Ele lhes indica onde devem lançar a rede. Muito embora os pescadores saibam de todas as coisas, e neste caso tinham lutado sem conseguir resultados, eles lhe obedecem. «Oh, poder da obediência! — O lago de Genezaré negava seus peixes à rede de Pedro. Uma noite inteira em vão. – Agora, obediente, tornou a lançar a rede na água e pescaram (...) uma grande quantidade de peixes. Creiam em mim: o milagre se repete a cada dia» (São Josemaria Escrivá)

O evangelista faz notar que eram «cento e cinquenta e três» grandes peixes (cf. Jo 21,11) e, embora sendo tantos, as redes não se romperam. São detalhes que se deve ter em conta, já que a Redenção foi realizada com obediência responsável e em meio às tarefas habituais.

Todos sabiam «que era o Senhor. Jesus aproximou-se, tomou o pão e deu a eles» (cf. Jo 21, 12-13). Fez o mesmo com os peixes. Tanto o alimento espiritual como também o alimento material não faltarão, se obedecemos. Ele ensina aos seus seguidores mais próximos e nos torna a dizer através de João Paulo II: «No início do novo milênio ressoam no nosso coração as palavras com que um dia Jesus (...) convidou o Apóstolo a ‘fazer-se ao largo” para a pesca: ‘Duc in altumc’ (Lc 5,4). Pedro e os primeiros companheiros confiaram na palavra de Cristo e ‘pegaram uma grande quantidade de peixes’ (cf. Lc 5, 6). Estas palavras ressoam hoje aos nossos ouvidos».

Pela obediência, como a de Maria, pedimos ao Senhor que continue dando frutos apostólicos para toda a Igreja.

Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm

* O Capítulo 21 do evangelho de São João parece um apêndice que foi acrescentado mais tarde depois que o evangelho já estava terminado. A conclusão do capítulo anterior (Jo 20,30-31) ainda deixa perceber que se trata de um acréscimo. De qualquer maneira, acréscimo ou não, é Palavra de Deus que traz uma bonita mensagem de ressurreição para esta sexta-feira da semana de Páscoa.

* João 21,1-3: O pescador de homens volta a ser pescador de peixes. 
Jesus morreu e ressuscitou. No fim daqueles três anos de convivência com Jesus, os discípulos voltaram para a Galileia. Um grupo deles está de novo diante do lago. Pedro retoma o passado e diz: “Eu vou pescar!” Os outros disseram: “Nós vamos com você!” Assim, Tomé, Natanael, João e Tiago junto com Pedro saíram de barco e foram pescar. Retomaram a vida do passado como se nada tivesse acontecido. Mas algo aconteceu. Algo estava acontecendo! O passado não voltou! “Não pegaram nada!” Voltaram à praia, cansados. Foi uma noite frustrante.

* João 21,4-5: O contexto da nova aparição de Jesus. 
Jesus estava na praia, mas eles não o reconheceram. Jesus pergunta: “Moços, por acaso vocês alguma coisa para comer?” Responderam: “Não!” Na resposta negativa reconheceram que a noite tinha sido frustrante e que não pescaram nada. Eles tinham sido chamados para serem pescadores de homens (Mc 1,17; Lc 5,10), e voltaram a ser pescadores de peixes. Mas algo mudou em suas vidas! A experiência de três anos com Jesus provocou neles uma mudança irreversível. Já não era possível voltar para trás como se nada tivesse acontecido, como se nada tivesse mudado.

* João 21,6-8: Lancem a rede do lado direito do barco e vocês vão encontrar.
Eles fizeram algo que, provavelmente, nunca tinham feito na vida. Cinco pescadores experimentados obedecem a um estranho que mandou fazer algo que contrastava com a experiência deles.  Jesus, aquela pessoa desconhecida que estava na praia, mandou que jogassem a rede do lado direito do barco. Eles obedeceram, jogaram a rede, e foi um resultado inesperado. A rede ficou cheia de peixes! Como era possível! Como explicar esta surpresa fora de qualquer previsão? O amor faz descobrir. O discípulo amado diz: “É o Senhor!” Esta intuição clareou tudo. Pedro se jogou na água para chegar mais depressa perto de Jesus. Os outros discípulos vieram mais devagar com o barco arrastando a rede cheia de peixes.

* João 21,9-14: A delicadeza de Jesus. 
Chegando em terra, viram que Jesus tinha acendido umas brasas e que estava assando peixe e pão. Ele pediu que trouxessem mais uns peixes. Imediatamente, Pedro subiu no barco, arrastou a rede com cento e cinquenta e três peixes. Muito peixe, e a rede não se rompeu. Jesus chamou a turma: “Venham comer!” Ele teve a delicadeza de preparar algo para comer depois de uma noite frustrada sem pescar nada. Gesto bem simples que revela algo do amor com que o Pai nos ama. “Quem vê a mim vê o Pai” (Jo 14,9). Nenhum dos discípulos se atrevia a perguntar quem era ele, pois sabiam que era o Senhor. E evocando a eucaristia, o evangelista João completou: “Jesus se aproximou, tomou o pão e distribuiu para eles”. Sugere assim que a eucaristia é o lugar privilegiado para o encontro com Jesus ressuscitado.

Para um confronto pessoal
1) Já aconteceu com você ter que te pediram jogar a rede do lado direito do barco da sua vida, contrariando toda a sua experiência? Você obedeceu? Jogou a rede?
2) A delicadeza de Jesus. Como é a sua delicadeza nas coisas pequenas da vida?

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Quinta-feira da oitava da Páscoa

Evangelho (Lc 24,35-48): Então os dois contaram o que tinha acontecido no caminho, e como o tinham reconhecido ao partir o pão. Ainda estavam falando, quando o próprio Jesus apareceu no meio deles e lhes disse: «A paz esteja convosco!». Eles ficaram assustados e cheios de medo, pensando que estavam vendo um espírito. Mas ele disse: «Por que estais preocupados, e por que tendes dúvidas no coração? Vede minhas mãos e meus pés: sou eu mesmo! Tocai em mim e vede! Um espírito não tem carne, nem ossos, como estais vendo que eu tenho». E dizendo isso, ele mostrou-lhes as mãos e os pés. Mas eles ainda não podiam acreditar, tanta era sua alegria e sua surpresa. Então Jesus disse: «Tendes aqui alguma coisa para comer?». Deram-lhe um pedaço de peixe assado. Ele o tomou e comeu diante deles. Depois disse-lhes: «São estas as coisas que eu vos falei quando ainda estava convosco: era necessário que se cumprisse tudo o que está escrito sobre mim na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos». Então ele abriu a inteligência dos discípulos para entenderem as Escrituras, e disse-lhes: «Assim está escrito: o Cristo sofrerá e ressuscitará dos mortos ao terceiro dia, e no seu nome será anunciada a conversão, para o perdão dos pecados, a todas as nações, começando por Jerusalém. Vós sois as testemunhas destas coisas».

Comentário: Rev. D. Joan Carles MONTSERRAT i Pulido (Cerdanyola del Vallès, Barcelona, Espanha)

A paz esteja convosco

Hoje, Cristo ressuscitado saúda os discípulos, novamente, com o desejo da paz: «A paz esteja convosco» (Lc 24,36). Assim afasta os temores e pressentimentos que os Apóstolos acumularam durante os dias de paixão e de solidão.

Ele não é um fantasma, é totalmente real, mas, às vezes, o medo na nossa vida vai tomando corpo como se fosse a única realidade. Em ocasiões é a falta de fé e de vida interior o que vai mudando as coisas: o medo passa a ser a realidade e Cristo vai-se desbotando da nossa vida. Por outro lado, a presença de Cristo na vida do cristão afasta as dúvidas, ilumina a nossa existência, especialmente os recantos que nenhuma explicação humana pode esclarecer. São Gregório de Nazianzo exorta-nos: «Deveríamos envergonharmo-nos ao prescindir da saudação da paz, que o Senhor nos deixou quando ia sair do mundo. A paz é um nome e uma coisa saborosa, que sabemos provem de Deus, segundo diz o Apóstolo aos filipenses: “A paz de Deus”; e que é de Deus o mostra também quando diz aos efésios: “Ele é a nossa paz”».

A ressurreição de Cristo é o que dá sentido a todas as vicissitudes e sentimentos, o que nos ajuda a recuperar a calma e a serenarmos nas trevas da nossa vida. As outras pequenas luzes que encontramos na vida só têm sentido nesta Luz.

«Era necessário que se cumprisse tudo o que está escrito sobre mim na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos». Então «ele abriu a inteligência dos discípulos para entenderem as Escrituras» (Lc 24, 44-45), como já o havia feito com os discípulos de Emaús. Também quer o Senhor abrir-nos a nós o sentido das Escrituras para a nossa vida; deseja transformar o nosso pobre coração num coração que seja também ardente, como o seu: com a explicação da Escritura e a fração do Pão, a Eucaristia. Por outras palavras: a tarefa do cristão é ir vendo como a sua história Ele a quer converter em história de salvação.

Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm

* Nestes dias depois da Páscoa, os textos do evangelho relatam as aparições de Jesus. No início, nos primeiros anos depois da morte e ressurreição de Jesus, os cristãos não se preocupavam em defender a ressurreição por meio das aparições. Eles mesmos, a comunidade viva, era a grande aparição de Jesus ressuscitado. Mas na medida em que cresciam as críticas dos inimigos contra a fé na ressurreição e que, internamente, surgiam críticas e dúvidas a respeito das várias funções nas comunidades (cf. 1Cor 1,12), eles começaram a lembrar as aparições de Jesus. Há dois tipos de aparições: 
(1) as que acentuam as dúvidas e resistências dos discípulos em crer na ressurreição, 
(2) as que chamam a atenção para as ordens de Jesus aos discípulos e discípulas conferindo-lhes alguma missão. 
As primeiras respondem às críticas vindas de fora. Elas mostram que os cristãos não são pessoas ingênuas e crédulas que aceitam qualquer coisa. Pelo contrário. Eles mesmos tiveram muitas dúvidas em crer na ressurreição. As outras respondem às críticas de dentro e fundamentam as funções e tarefas comunitárias não nas qualidades humanas sempre discutíveis, mas sim na autoridade e nas ordens recebidas do próprio Jesus ressuscitado. A aparição de Jesus narrada no evangelho de hoje combina os dois aspectos: as dúvidas dos discípulos e a missão de anunciar e perdoar recebida de Jesus.

* Lucas 24,35: O resumo de Emaús. 
De retorno a Jerusalém, os dois discípulos encontram a comunidade reunida e comunicam a experiência que tiveram. Narram o que aconteceu no caminho e como reconheceram Jesus na fração do pão. A comunidade reunida, por sua vez, comunica a eles como Jesus aparecera a Pedro. Foi uma partilha mútua da experiência de ressurreição, como até hoje acontece quando as comunidades se reúnem para partilhar e celebrar sua fé, sua esperança e seu amor.

* Lucas 24,36-37: A aparição de Jesus causa espanto nos discípulos.
Neste momento, Jesus se faz presente no meio deles e diz: “A Paz esteja com vocês!”  É a saudação mais frequente de Jesus: “A Paz esteja com vocês!” (Jo 14,27; 16,33; 20,19.21.26). Mas os discípulos, ao verem Jesus, ficam com medo. Eles se espantam e não reconhecem Jesus. Diante deles está o Jesus real, mas eles imaginam estar vendo um espírito, um fantasma. Há um desencontro entre Jesus de Nazaré e Jesus ressuscitado. Não conseguem crer.

* Lucas 24,38- 40: Jesus os ajuda a superar o medo e a incredulidade. 
Jesus faz duas coisas para ajudar os discípulos a superar o espanto e a incredulidade. Ele mostra as mãos e os pés, dizendo: “Sou eu!”, e manda apalpar o corpo, dizendo: “Espírito não tem carne nem osso como vocês estão vendo que eu tenho!” Jesus mostra as mãos e os pés, porque é neles que estão as marcas dos pregos (cf. Jo 20,25-27). O Cristo ressuscitado é Jesus de Nazaré, o mesmo que foi morto na Cruz, e não um Cristo fantasma como imaginavam os discípulos ao vê-lo. Ele mandou apalpar o corpo, porque a ressurreição é ressurreição da pessoa toda, corpo e alma. A ressurreição não tem nada a ver com a teoria da imortalidade da alma, ensinada pelos gregos.

* Lucas 24,41-43: Outro gesto para ajuda-los a superar a incredulidade. 
Mas não bastou. Lucas diz que por causa de tanta alegria eles não podiam crer. Jesus pede que lhe deem algo para comer. Eles deram um pedaço de peixe e ele comeu diante deles, para ajuda-los a superar a dúvida.

* Lucas 24,44-47: Uma chave de leitura para compreender o sentido novo da Escritura.
Uma das maiores dificuldades dos primeiros cristãos era aceitar um crucificado como sendo o messias prometido, pois a própria lei de Deus ensinava que uma pessoa crucificada era “um maldito de Deus” (Dt 21,22-23). Por isso, era importante saber que a própria Escritura já tinha anunciado que “o Cristo devia sofrer e ressuscitar dos mortos ao terceiro dia e que em seu nome fosse proclamado o arrependimento para o perdão dos pecados a todas as nações”. Jesus mostrou a eles como isto já estava escrito na Lei de Moisés, nos profetas e nos Salmos. Jesus ressuscitado, vivo no meio deles, se torna a chave para abrir o sentido total da Sagrada Escritura.

* Lucas 24,48: Vocês são testemunhas disso.
Nesta ordem final está toda a missão das comunidades cristãs: ser testemunha da ressurreição, para que se torne manifesto o amor de Deus que nos acolhe e nos perdoe, e quer que vivamos em comunidade como seus filhos e filhas, irmãos e irmãs uns dos outros.

Para um confronto pessoal
1) Às vezes, a incredulidade e a dúvida se aninham no coração e procuram enfraquecer a certeza que a fé nos dá a respeito da presença de Deus em nossa vida. Você já viveu isto alguma vez? Como o superou?
2) Ser testemunha do amor de Deus revelado em Jesus é a nossa missão, a minha missão. Será que eu sou?

terça-feira, 22 de abril de 2014

Quarta-feira da oitava da Páscoa

Evangelho (Lc 24,13-35): Naquele mesmo dia, o primeiro da semana, dois dos discípulos iam para um povoado, chamado Emaús, a uns dez quilômetros de Jerusalém. Conversavam sobre todas as coisas que tinham acontecido. Enquanto conversavam e discutiam, o próprio Jesus se aproximou e começou a caminhar com eles. Os seus olhos, porém, estavam como vendados, incapazes de reconhecê-lo.  Então Jesus perguntou: «O que andais conversando pelo caminho?». Eles pararam, com o rosto triste, e um deles, chamado Cléofas, lhe disse: «És tu o único peregrino em Jerusalém que não sabe o que lá aconteceu nestes dias?». Ele perguntou: «Que foi?». Eles responderam: «O que aconteceu com Jesus, o Nazareno, que foi um profeta poderoso em obras e palavras diante de Deus e diante de todo o povo. Os sumos sacerdotes e as nossas autoridades o entregaram para ser condenado à morte e o crucificaram. Nós esperávamos que fosse ele quem libertaria Israel; mas, com tudo isso, já faz três dias que todas essas coisas aconteceram! É verdade que algumas mulheres do nosso grupo nos assustaram. Elas foram de madrugada ao túmulo e não encontraram o corpo dele. Então voltaram, dizendo que tinham visto anjos e que estes afirmaram que ele está vivo. Alguns dos nossos foram ao túmulo e encontraram as coisas como as mulheres tinham dito. A ele, porém, ninguém viu». Então ele lhes disse: «Como sois sem inteligência e lentos para crer em tudo o que os profetas falaram! Não era necessário que o Cristo sofresse tudo isso para entrar na sua glória?». E, começando por Moisés e passando por todos os Profetas, explicou-lhes, em todas as Escrituras, as passagens que se referiam a ele.  Quando chegaram perto do povoado para onde iam, ele fez de conta que ia adiante. Eles, porém, insistiram: «Fica conosco, pois já é tarde e a noite vem chegando!». Ele entrou para ficar com eles. Depois que se sentou à mesa com eles, tomou o pão, pronunciou a bênção, partiu-o e deu a eles.  Neste momento, seus olhos se abriram, e eles o reconheceram. Ele, porém, desapareceu da vista deles. Então um disse ao outro: «Não estava ardendo o nosso coração quando ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?». Naquela mesma hora, levantaram-se e voltaram para Jerusalém, onde encontraram reunidos os Onze e os outros discípulos. E estes confirmaram: «Realmente, o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão!». Então os dois contaram o que tinha acontecido no caminho, e como o tinham reconhecido ao partir o pão.

Comentário: P. Luis PERALTA Hidalgo SDB (Lisboa, Portugal)

Não estava ardendo o nosso coração quando ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?

Hoje o Evangelho assegura-nos que Jesus está vivo e continua a ser o centro à volta do qual se constrói a comunidade dos discípulos. É precisamente nesse contexto eclesial — no encontro comunitário, no diálogo com os irmãos que partilham a mesma fé, na escuta comunitária da Palavra de Deus, no amor partilhado em gestos de fraternidade e de serviço— que os discípulos podem fazer a experiência do encontro com Jesus ressuscitado.

Os discípulos carregados de tristes pensamentos, não imaginavam que aquele desconhecido fosse precisamente o seu Mestre, já ressuscitado. Mas sentiam «arder» o seu íntimo (cf. Lc 24,32), quando Ele lhes falava, «explicando» as Escrituras. A luz da Palavra ia dissipando a dureza do seu coração e «abria-lhes os olhos» (Lc 24, 31).

O ícone dos discípulos de Emaús presta-se bem para nortear um longo caminho das nossas dúvidas, inquietações e às vezes amargas desilusões, o divino Viajante continua a fazer-se nosso companheiro para nos introduzir, com a interpretação das Escrituras, na compreensão dos mistérios de Deus. Quando o encontro se torna pleno, à luz da Palavra segue-se a luz que brota do «Pão da vida», pelo qual Cristo cumpre de modo supremo a sua promessa de «estar conosco todos os dias até ao fim do mundo» (Mt 28,20).

O Papa Bento XVI explica que «o anúncio da Ressurreição do Senhor ilumina as zonas escuras do mundo em que vivemos».

Comentário: Rev. D. Xavier PAGÉS i Castañer (Barcelona, Espanha)

Neste momento, seus olhos se abriram, e eles o reconheceram.

Hoje «é o dia que o senhor fez: regozijemo-nos e alegremo-nos nele» (Sal 117,24). Assim nos convida a rezar a liturgia desses dias da oitava de Páscoa. Alegremo-nos de ser conhecedores de que Jesus ressuscitado, hoje e sempre, está conosco. Ele permanece ao nosso lado em todo momento. Mas é necessário que nós deixemos que ele nos abra os olhos da fé para reconhecer que está presente em nossas vidas. Ele quer que gozemos de sua companhia, cumprindo o que nos disse: «Eis que estarei com vocês todos os dias, até o fim do mundo» (Mt 28,20).

Caminhemos com a esperança que nos dá o fato de saber que o Senhor nos ajuda a encontrar sentido a todos os acontecimentos. Sobretudo, naqueles momentos em que, como os discípulos de Emaús passemos por dificuldades, contrariedades, desânimos... Ante os diversos acontecimentos, nos convém saber escutar sua Palavra, que nos levará a interpretá-los à luz do projeto salvador de Deus. Mesmo que às vezes, equivocadamente, possa nos parecer que não nos escuta, Ele nunca se esquece de nós; Ele sempre nos fala. Só a nós pode faltar a boa disposição para escutar, meditar e contemplar o que Ele quer nos dizer.

Nos variados âmbitos onde nos movemos, frequentemente podemos encontrar pessoas que vivem como se Deus não existisse, carentes de sentido. Convém dar-nos conta da responsabilidade que temos de chegar a ser instrumentos aptos para que o Senhor possa, através de nós, aproximar-se “abrir caminho” com os que nos rodeiam. Busquemos como fazê-los conhecedores da condição de filhos de Deus e de que Jesus nos tem amado tanto, que não só morreu e ressuscitou para nós, mas que quis ficar para sempre na Eucaristia. Foi no momento de partir o pão quando aqueles discípulos de Emaús reconheceram que era Jesus quem estava ao seu lado.

Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm

* O evangelho de hoje traz o episódio tão conhecido da aparição de Jesus aos discípulos de Emaús. Lucas escreve nos anos 80 para as comunidades da Grécia que na sua maioria eram de pagãos convertidos. Os anos 60 e 70 tinham sido muito difíceis. Houve a grande perseguição de Nero em 64. Seis anos depois em 70, Jerusalém foi totalmente destruída pelos romanos. Em 72, em Massada no deserto de Judá, foi o massacre dos últimos judeus revoltosos. Nesses anos todos, os apóstolos, testemunhas da ressurreição, foram desaparecendo. O cansaço ia tomando conta da caminhada. Onde encontrar força e coragem para não desanimar? Como descobrir a presença de Jesus nesta situação tão difícil? A narração da aparição de Jesus aos discípulos de Emaús procura ser uma resposta para estas perguntas angustiantes. Lucas quer ensinar as comunidades como interpretar a Escritura para poder redescobrir a presença de Jesus na vida.

* Lc 24,13-24: 1º Passo: partir da realidade. 
Jesus encontra os dois amigos numa situação de medo e de descrença. As forças de morte, a cruz, tinham matado neles a esperança. Era a situação de muita gente no tempo de Lucas e continua sendo a situação de muitos hoje em dia. Jesus se aproxima e caminha com eles, escuta a conversa e pergunta: "De que estão falando?" A ideologia dominante, isto é, a propaganda do governo e da religião oficial da época, impedia-os de enxergar. "Nós esperávamos que ele fosse o libertador, mas...".  Qual é hoje a conversa do povo que sofre?

O primeiro passo é este: aproximar-se das pessoas, escutar sua realidade, sentir seus problemas; ser capaz de fazer perguntas que ajudem as pessoas a olhar a realidade com um olhar mais crítico.

* Lc 24,25-27: 2º Passo: usar a Bíblia para iluminar a vida. 
Jesus usa a Bíblia e a história do povo de Deus para iluminar o problema que fazia sofrer os dois amigos, e para esclarecer a situação que eles estavam vivendo. Usa-a também para situá-los dentro do conjunto do projeto de Deus que vinha desde Moisés e os profetas. Ele mostra assim que a história não tinha escapado da mão de Deus. Jesus usa a Bíblia não como um doutor que já sabe tudo, mas como o companheiro que vem ajudar os amigos a lembrar o que estes tinham esquecido. Jesus não provoca complexo de ignorância nos discípulos, mas procura despertar neles a memória: “Como vocês demoram para entender o que os profetas anunciaram!”.

O segundo passo é este: com a ajuda da Bíblia, ajudar as pessoas a descobrir a sabedoria que já existe dentro delas mesmas, e transformar a cruz, sinal de morte, em sinal de vida e de esperança. Aquilo que as impedia de caminhar, torna-se agora força e luz na caminhada. Como fazer isto hoje?

3. Lc 24,28-32: 3º Passo: partilhar na comunidade. 
A Bíblia, ela por si, não abre os olhos. Apenas faz arder o coração. O que abre os olhos e faz enxergar, é a fração do pão, o gesto comunitário da partilha, rezar juntos, a celebração da Ceia. No momento em que os dois reconhecem Jesus, eles renascem e Jesus desaparece. Jesus não se apropria da caminhada dos amigos. Não é paternalista. Ressuscitados, os discípulos são capazes de caminhar com seus próprios pés.

O terceiro passo é este: saber criar um ambiente de fé e de fraternidade, de celebração e de partilha, onde possa atuar o Espírito Santo. É ele que nos faz descobrir e experimentar a Palavra de Deus na vida e nos leva a entender o sentido das palavras de Jesus (Jo 14,26; 16,13).

4. Lc 24,33-35: O resultado: Ressuscitar e voltar para Jerusalém. 
Os dois criam coragem e voltam para Jerusalém, onde continuavam ativas as mesmas forças de morte que tinham matado Jesus e que tinham matado neles a esperança. Mas agora tudo mudou. Se Jesus está vivo, então nele e com ele está um poder mais forte do que o poder que o matou. Esta experiência os faz ressuscitar! Realmente tudo mudou! Coragem, em vez de medo! Retorno, em vez de fuga! Fé, em vez de descrença! Esperança, em vez de desespero! Consciência crítica, em vez de fatalismo frente ao poder! Liberdade, em vez de opressão! Numa palavra: vida, em vez de morte! Em vez da má noticia da morte de Jesus, a Boa Notícia da sua Ressurreição! Os dois experimentam a vida, e vida em abundância! (Jo 10,10). Sinal do Espírito de Jesus atuando neles!

Para um confronto pessoal
1. Os dois disseram: “Nós esperávamos, mas…!” Você já viveu uma situação de desânimo que o levou a dizer: “Eu esperava, mas...!”?
2. Como você lê, usa e interpreta a Bíblia? Já sentiu arder o coração ao ler e meditar a Palavra de Deus? Lê a Bíblia sozinho ou faz parte de algum grupo bíblico?

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Terça-feira da oitava da Páscoa


Evangelho (Jo 20,11-18): Maria tinha ficado perto do túmulo, do lado de fora, chorando. Enquanto chorava, inclinou-se para olhar dentro do túmulo. Ela enxergou dois anjos, vestidos de branco, sentados onde tinha sido posto o corpo de Jesus, um à cabeceira e outro aos pés. Os anjos perguntaram: «Mulher, por que choras». Ela respondeu: «Levaram o meu Senhor e não sei onde o colocaram». Dizendo isto, Maria virou-se para trás e enxergou Jesus, de pé, mas ela não sabia que era Jesus. Jesus perguntou-lhe: «Mulher, por que choras? Quem procuras? ». Pensando que fosse o jardineiro, ela disse: «Senhor, se foste tu que o levaste, dize-me onde o colocaste, e eu irei buscá-lo». Então, Jesus falou: «Maria! ». Ela voltou-se e exclamou, em hebraico: «Rabone! » (que quer dizer: Mestre). Jesus disse: «Não me segures, pois ainda não subi para junto do Pai. Mas vai dizer aos meus irmãos: subo para junto do meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus». Então, Maria Madalena foi anunciar aos discípulos: «Eu vi o Senhor», e contou o que ele lhe tinha dito.

Comentário: Rev. D. Antoni ORIOL i Tataret (Vic, Barcelona, Espanha)

Maria Madalena foi anunciar aos discípulos: ‘Eu vi o Senhor’

Hoje, na figura de Maria Madalena, podemos contemplar dois níveis de aceitação de nosso Salvador: imperfeito, o primeiro; completo, o segundo. Desde o primeiro, Maria se nos apresenta como uma sincera discípula de Jesus. Ela o segue, mestre incomparável; está heroicamente ligada, crucificado por amor; o busca, mais além da morte, sepultado e desaparecido. Quão impregnadas de admirável entrega ao seu “Senhor” são as duas exclamações que nos conservou, como pérolas incomparáveis, o evangelista João: «Levaram o meu Senhor e não sei onde o colocaram! » (Jo 20,13); «Senhor, se foste tu que o levaste, diz-me onde o colocaste, e eu irei buscá-lo» (Jo 20,15). Poucos discípulos contemplaram a história, tão carinhosos e leais como a Madalena.

No entanto, a boa noticia de hoje, desta terça-feira, oitava de Páscoa, supera infinitamente toda bondade ética e toda fé religiosa em um Jesus admirável, mas, em último término, morto; e nos traslada ao âmbito da fé no Ressuscitado. Aquele Jesus que, em um primeiro momento, deixando-a no nível da fé imperfeita, se dirige à Madalena perguntando-lhe: «Mulher, por que você está chorando» (Jo 20,15) e à qual ela, com olhos míopes, responde como corresponde a um hortelão que se interessa pelo seu sentimento; aquele Jesus, agora, em um segundo momento, definitivo, a interpelou com seu nome: «Maria! » e a comove até o ponto estremecê-la de ressurreição e de vida, isto é, Dele mesmo, o Ressuscitado, o Vivente por sempre. Resultado? Madalena crente e Madalena apóstolo: «Então Maria Madalena foi e anunciou aos seus discípulos: eu vi o senhor» e contou o que Jesus tinha dito (Jo 20,18).

Hoje não deixa de ser frequente o caso dos cristãos que não veem claro o mais além desta vida, assim, que duvidam da ressurreição de Jesus. Estarei entre eles? De modo semelhante são numerosos os cristãos que têm suficiente fé como para seguir-lhe privadamente, mas que temem proclamar apostolicamente. Faço parte desse grupo? Se assim for, como Maria Madalena, digamos-lhe: Mestre! Abracemos os seus pés e vamos encontrar os nossos irmãos para dizer-lhes: O Senhor ressuscitou e eu o vi.

Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm

* O evangelho de hoje descreve a aparição de Jesus a Maria Madalena. A morte do seu grande amigo levou Maria a uma perda do sentido da vida. Mas ela não desistiu da busca. Foi ao sepulcro para reencontrar aquele que a morte lhe tinha roubado. Há momentos na vida em que tudo desmorona. Parece que tudo acabou. Morte, desastre, doença, decepção, traição! Tantas coisas que podem tirar o chão debaixo dos pés e jogar-nos numa crise profunda. Mas também acontece o seguinte. Como que de repente, o reencontro com uma pessoa amiga pode refazer a vida e nos fazer redescobrir que o amor é mais forte do que a morte e a derrota.

* O Capítulo 20 de João, além da aparição de Jesus a Madalena, traz vários outros episódios que revelam a riqueza da experiência da ressurreição:
(1) do discípulo amado e de Pedro (Jo 20,1-10);
(2) de Maria Madalena (Jo 20,11-18);
(3) da comunidade dos discípulos (Jo 20,19-23) e
(4) do apóstolo Tomé (Jo 20,24-29).
O objetivo da redação do Evangelho é levar as pessoas a crer em Jesus e, acreditando nele, ter a vida (Jo 20,30-3).

* Na maneira de descrever a aparição de Jesus a Maria Madalena transparecem as etapas da travessia que ela teve de fazer, desde a busca dolorosa até o reencontro da Páscoa. Estas são também as etapas pelas quais passamos todos nós, ao longo da vida, na busca em direção a Deus e na vivência do Evangelho.

João 20,11-13Maria Madalena chora, mas busca.  
Havia um amor muito grande entre Jesus e Maria Madalena. Ela foi uma das poucas pessoas que tiveram a coragem de ficar com Jesus até a hora da sua morte na cruz. Depois do repouso obrigatório do sábado, ela voltou ao sepulcro para estar no lugar onde tinha encontrado o Amado pela última vez. Mas, para a sua surpresa, o sepulcro estava vazio! Os anjos perguntam: "Por que você chora?" Resposta: "Levaram meu senhor e não sei onde o colocaram!" Maria Madalena buscava o Jesus, o mesmo Jesus, que ela tinha conhecido e com quem tinha convivido durante três anos.

João 20,14-15Maria Madalena conversa com Jesus sem reconhecê-lo.
Os discípulos de Emaús viram Jesus mas não o reconheceram (Lc 24,15-16). O mesmo acontece com Maria Madalena. Ela vê Jesus, mas não o reconhece. Pensa que é o jardineiro. Como os anjos, Jesus pergunta: "Por que você chora?" E acrescenta: "A quem está procurando?" Resposta: "Se foi você que o levou, diga-me, que eu vou buscá-lo!" Ela ainda busca o Jesus do passado, o mesmo de três dias atrás. É a imagem de Jesus do passado que a impede de reconhecer o Jesus vivo, presente na frente dela.

João 20,16Maria Madalena reconhece Jesus.
Jesus pronuncia o nome: "Maria!" Foi o sinal de reconhecimento: a mesma voz, o mesmo jeito de pronunciar o nome. Ela responde: "Mestre!" Jesus tinha voltado, o mesmo que tinha morrido na cruz. A primeira impressão é que a morte foi apenas um incidente doloroso de percurso, mas que agora tudo tinha voltado a ser como antes. Maria abraça Jesus com força. Era o mesmo Jesus que ela tinha conhecido e amado. Realiza-se o que dizia a parábola do Bom Pastor: "Ele as chama pelo nome e elas conhecem a sua voz". - "Eu conheço as minhas ovelhas e elas me conhecem" (Jo 10,3.4.14).

4. João 20,17-18: Maria Madalena recebe a missão de anunciar a ressurreição aos apóstolos
De fato, é o mesmo Jesus, mas a maneira de ele estar junto dela já não é mais a mesma. Jesus lhe diz: "Não me segure, porque anda não subi para o Pai!" Ele vai para junto do Pai. Maria Madalena deve soltar Jesus e assumir sua missão: anunciar aos irmãos que ele, Jesus, subiu para o Pai. Jesus abriu o caminho para nós e fez com que Deus ficasse, de novo, perto de nós.

Para um confronto pessoal
1. Você já passou por uma experiência que lhe deu um sentimento de perda e de morte? Como foi? O que foi que lhe trouxe vida nova e lhe devolveu a esperança e a alegria de viver?
2. Qual a mudança que se operou em Maria Madalena ao longo do diálogo? Maria Madalena buscava Jesus de um jeito e o reencontrou de outro jeito. Como isto acontece hoje na nossa vida?