sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

Imaculada Conceição da Virgem Maria

1ª Leitura (Gen 3,9-15.20):
Leitura do Livro do Génesis Depois de Adão ter comido da árvore, o Senhor Deus chamou-o e disse-lhe: «Onde estás?». Ele respondeu: «Ouvi o rumor dos vossos passos no jardim e, como estava nu, tive medo e escondi-me». Disse Deus: «Quem te deu a conhecer que estavas nu? Terias tu comido dessa árvore, da qual te proibira comer?». Adão respondeu: «A mulher que me destes por companheira deu-me do fruto da árvore e eu comi». O Senhor Deus perguntou à mulher: «Que fizeste?» E a mulher respondeu: «A serpente enganou-me e eu comi». Disse então o Senhor Deus à serpente: «Por teres feito semelhante coisa, maldita sejas entre todos os animais domésticos e entre todos os animais selvagens. Hás de rastejar e comer do pó da terra todos os dias da tua vida. Estabelecerei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a descendência dela. Esta te esmagará a cabeça e tu a atingirás no calcanhar». O homem deu à mulher o nome de ‘Eva’, porque ela foi a mãe de todos os viventes.
 
Salmo Responsorial: 97
R. Cantai ao Senhor um cântico novo: o Senhor fez maravilhas.
 
Cantai ao Senhor um cântico novo, pelas maravilhas que Ele operou. A sua mão e o seu santo braço Lhe deram a vitória.
 
O Senhor deu a conhecer a salvação, revelou aos olhos das nações a sua justiça. Recordou-Se da sua bondade e fidelidade em favor da casa de Israel.
 
Os confins da terra puderam ver a salvação do nosso Deus. Aclamai o Senhor, terra inteira, exultai de alegria e cantai.
 
2ª Leitura (Ef 1,3-6.11-12): Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Efésios Bendito seja Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, que do alto dos Céus nos abençoou com toda a espécie de bênçãos espirituais em Cristo. N’Ele nos escolheu, antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis, em caridade, na sua presença. Ele nos predestinou, conforme a benevolência da sua vontade, a fim de sermos seus filhos adoptivos, por Jesus Cristo, para louvor da sua glória e da graça que derramou sobre nós, por seu amado Filho. Em Cristo fomos constituídos herdeiros, por termos sido predestinados, segundo os desígnios d’Aquele que tudo realiza conforme a decisão da sua vontade, para sermos um hino de louvor da sua glória, nós que desde o começo esperámos em Cristo.
 
Aleluia. Ave, Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco, bendita sois Vós entre as mulheres. Aleluia.
 
Evangelho (Lc 1,26-38): Quando Isabel estava no sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia, chamada Nazaré, a uma virgem prometida em casamento a um homem de nome José, da casa de Davi. A virgem se chamava Maria. O anjo entrou onde ela estava e disse: «Alegra-te, cheia de graça! O Senhor está contigo». Ela perturbou-se com estas palavras e começou a pensar qual seria o significado da saudação. O anjo, então, disse: «Não tenhas medo, Maria! Encontraste graça junto a Deus. Conceberás e darás à luz um filho, e lhe porás o nome de Jesus. Ele será grande; será chamado Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai. Ele reinará para sempre sobre a descendência de Jacó, e o seu reino não terá fim». Maria, então, perguntou ao anjo: «Como acontecerá isso, se eu não conheço homem?». O anjo respondeu: «O Espírito Santo descerá sobre ti, e o poder do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. Por isso, aquele que vai nascer será chamado santo, Filho de Deus. Também Isabel, tua parenta, concebeu um filho na sua velhice. Este já é o sexto mês daquela que era chamada estéril, pois para Deus nada é impossível». Maria disse: «Eis aqui a serva do Senhor! Faça-se em mim segundo a tua palavra». E o anjo retirou-se».
 
«Alegra-te, cheia de graça! O Senhor está contigo»
 
Rev. D. David COMPTE i Verdaguer (Manlleu, Barcelona, Espanha)
 
Hoje, o Evangelho toca um acorde de três notas. Três notas, nem sempre bem afinadas na nossa sociedade: a do fazer, a da amizade e a da coerência de vida. Hoje em dia, fazemos muitas coisas, mas, temos um projeto? Hoje, que navegamos na sociedade da comunicação, cabe nos nossos corações a solidão? Hoje, na era da informação, esta permite-nos formar a nossa personalidade?
 
Um projeto. Maria, uma mulher «prometida em casamento a um homem de nome José, da casa de Davi» (Lc 1,28). Maria tem um projeto. Evidentemente, de proporções humanas. Porém, Deus irrompe na sua vida para apresentar-lhe outro projeto... de proporções divinas. Também hoje, quer entrar em nossa vida e dar proporções divinas ao nosso dia a dia humano.
 
Uma presença. «Não tenhas medo, Maria!» (Lc 1,30). Não construamos de qualquer jeito! Não seja que a adição ao “fazer” esconda um vazio. O matrimônio, a vida de serviço, a profissão não têm de ser uma fuga para diante. «Cheia de graça! O Senhor está contigo» (Lc 1,28). Presença que acompanha e dá sentido. Confiança em Deus, que — por conseguinte— nos leva à confiança com os outros. Amizade com Deus que revigora a amizade com os outros.
 
Formar-nos. Hoje, recebemos tantos estímulos muitas vezes opostos, que é preciso dar forma e unidade à nossa vida. Maria, diz São Luís Maria Grignion, «é o molde vivo de Deus». Existem duas maneiras de fazer uma escultura, expõe Grignion: uma, a mais difícil, à base de batidas de cinzel. A outra, usando um molde. Esta é mais simples do que a primeira. Mas o sucesso depende de que a matéria seja maleável e o molde desenhe com perfeição a imagem. Maria é o molde perfeito. Procuramo-la, sendo matéria maleável?
 
Pensamentos para o Evangelho de hoje
«Deus é o pai das coisas criadas; e Maria é a mãe das cosas recriadas. Pois Deus engendrou àquele por quem tudo foi feito; e Maria deu à luz àquele por quem tudo foi salvo» (São Anselmo)
 
«O cumprimento do anjo está entretecido com os fios do Antigo Testamento. Maria é o rebento que, na escura noite invernal da história, floresce do tronco abatido de David: de Ela germina a árvore da redenção. Deus não tem fracassado, como podia parecer no início da história: Deus salvou e salva o seu povo» (Bento XVI)
 
«Este esplendor de uma santidade de todo singular, com que foi enriquecida desde o primeiro instante da sua conceição (141), vem-lhe totalmente de Cristo: foi remida dum modo mais sublime, em atenção aos méritos de seu Filho (142)» (Catecismo da Igreja Católica, nº 492)
 
“Salve, ó cheia de graça, o Senhor está contigo”
 
*
A primeira palavra da parte de Deus aos homens, quando o Salvador se aproxima do mundo, é um convite à alegria. É o que escuta Maria: Alegra-te.
 
* Jürgen Moltmann, o grande teólogo da esperança, expressou-se assim: “A palavra última e primeira da grande libertação que vem de Deus não é o ódio, mas a alegria; não é a condenação, mas a absolvição. Cristo nasce da alegria de Deus e morre e ressuscita para trazer a sua alegria a este mundo contraditório e absurdo”.
 
* O Concílio Vaticano II apresenta Maria, Mãe de Jesus Cristo, como “protótipo e modelo para a Igreja”, e descreve-a como mulher humilde que escuta Deus com confiança e alegria. A partir dessa mesma atitude devemos escutar Deus na Igreja atual.
 
* Entretanto, a alegria não é fácil. Não se pode obrigar ninguém a estar alegre nem lhe impor a alegria pela força. A verdadeira alegria deve nascer e crescer no mais íntimo de nós mesmos. Do contrário, será riso exterior, gargalhada vazia, euforia fabricada, quem sabe, num “salão de festas”, porém a alegria ficará fora, à porta do nosso coração.
 
* A alegria é um dom bonito, porém também muito vulnerável. Um dom que se deve saber cultivar com humildade e generosidade no fundo da alma. Hermann Hesse explica os rostos atormentados, nervosos e tristes de tantos homens e mulheres, desta maneira muito simples: “É porque a felicidade somente pode senti-la a alma, não a razão, não o ventre, nem a cabeça, nem a bolsa”.
 
* Alegra-te. É a primeira coisa que Maria escuta de Deus e a primeira coisa que devemos escutar também hoje. Entre nós falta alegria. Com frequência deixam-nos contagiar pela tristeza. Jesus não é mais a Boa Notícia? Não sentimos alegria de ser seus seguidores? Quando falta a alegria, a fé perde frescura, a cordialidade desaparece, a amizade entre os crentes esfria. Tudo se torna mais difícil. É urgente despertar a alegria nas nossas comunidades e recuperar a paz que Jesus nos deixou como herança.
 
* O Senhor está contigo. Não é fácil a alegria na Igreja dos nossos dias. Somente pode nascer da confiança em Deus. Não estamos órfãos. Vivemos invocando, cada dia, um Deus Pai que nos acompanha, nos defende e busca sempre o bem de todo o ser humano. Esta Igreja, às vezes tão desconcertada e perdida, que não consegue voltar ao Evangelho, não está sozinha. Jesus, o Bom Pastor, procura-nos. O seu Espírito atrai-nos. Contamos com o seu alento e compreensão. Jesus não nos abandonou. Com Ele tudo é possível.
 
* Não temas. São muitos os medos que paralisam os seguidores de Jesus. O medo causa muitos estragos. Impede-nos de caminhar para o futuro com esperança. Fecha-nos na conservação estéril do passado. Crescem os nossos fantasmas. Desaparece o realismo sadio e a sensatez cristã. É urgente construir uma Igreja da confiança.
 
* Darás à luz um filho, e lhe porás o nome de Jesus. Também a nós, como a Maria, nos é confiada uma missão: contribuir a pôr luz na noite escura. Não somos chamados a julgar o mundo, mas a semear esperança. A nossa tarefa não é apagar o pavio que se extingue, mas estimular a fé que, em muitos, quer brotar.
 
* A partir das nossas comunidades, cada vez menores e mais humildes, podemos ser fermento de um mundo mais sadio e fraterno. Estamos em boas mãos. Deus não está em crise. Somos nós que não nos atrevemos a seguir Jesus com alegria e confiança!
 
* Ao contrário de nós, Maria, visitada por Deus, não foge, não se esconde de si mesma, não se esconde de Deus, não esconde Deus na sua vida. Tinha consagrado a Deus toda a sua vida, a sua virgindade. Maria não se esconde de Deus nem esconde Deus. Expõe-se, na sua verdade e simplicidade, ao imenso clarão de Deus. É assim que se expõe a Deus e que expõe Deus, recebendo e aceitando com amor intenso a sua nova Vocação que lhe vem de Deus. Maria vai ser a Mãe, não de um filho, mas do Filho há muito ansiado, esperado e anunciado nas páginas da Escritura Santa Antiga. É o Filho de Deus, totalmente consubstancial a Deus, e é o Filho de Maria, totalmente consubstancial à sua Mãe. Por isso, «Alegra-te, Maria, não tenhas medo», «o Senhor está contigo»
 
* «Eis a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua Palavra». Deus chama, mas não impõe. A Maria, e a cada um de nós. Podemos sempre aceitar Deus ou esconder-nos de Deus. Deixar Deus entrar, ou fechar-lhe a porta. Maria aceitou, e, por isso, todas as gerações a proclamarão Bem-aventurada.
 
* Esta celebração da Mãe de Deus e nossa Mãe é um desafio imenso para o homem que se esconde de si mesmo, que continua a esconder-se de Deus, e que pretende esconder Deus, retirando-o da via pública e da vida pública.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

Sábado I do Advento

Santo Ambrósio, bispo e doutor da Igreja
 
1ª Leitura (Is 30,19-21.23-26):
Eis o que diz o Senhor Deus, o Santo de Israel: «Povo de Sião, que habitas em Jerusalém, tu não voltarás a chorar. À voz da tua súplica, o Senhor terá compaixão de ti; logo que ouvir os teus clamores, Ele te responderá. O Senhor poderá dar-te a comer o pão da angústia e a beber a água da tribulação; mas Aquele que te ensina não Se esconderá mais e os teus olhos verão Aquele que te ensina. Se te desvias para a direita ou para a esquerda, os teus ouvidos ouvirão dizer atrás de ti: ‘É este o caminho; segui por ele’. O Senhor te dará a chuva para a semente que tiveres lançado à terra e o pão que a terra produzir será farto e nutritivo. Nesse dia, os teus rebanhos pastarão em extensos prados; os bois e os jumentos que lavram a terra comerão forragem com sal, limpa com a pá e a joeira. Em todo o alto monte e em toda a colina elevada, haverá regatos e águas correntes, no dia da grande mortandade, quando as torres se desmoronarem. Então a claridade da lua será como a luz do sol e a luz do sol ficará sete vezes mais forte; nesse dia, o Senhor tratará as chagas do seu povo e curará as feridas dos seus golpes».
 
Salmo Responsorial: 146
R. Felizes os que esperam no Senhor.
 
Louvai o Senhor, porque é bom cantar, é agradável e justo celebrar o seu louvor. O Senhor edificou Jerusalém, congregou os dispersos de Israel.
 
Sarou os corações dilacerados e ligou as suas feridas. Fixou o número das estrelas e deu a cada uma o seu nome.
 
Grande é o nosso Deus e todo-poderoso, é sem limites a sua sabedoria. O Senhor conforta os humildes e abate os ímpios até ao chão.
 
Aleluia. O Senhor é o nosso legislador, o nosso juiz, o nosso rei: Ele próprio vem salvar-nos. Aleluia.
 
Evangelho (Mt 9,35-10,1.6-8): Naquele tempo, Jesus começou a percorrer todas as cidades e povoados, ensinando em suas sinagogas, proclamando a Boa Nova do Reino e curando todo tipo de doença e de enfermidade. Ao ver as multidões, Jesus encheu-se de compaixão por elas, porque estavam cansadas e abatidas, como ovelhas que não têm pastor. Então disse aos discípulos: «A colheita é grande, mas os trabalhadores são poucos. Pedi, pois, ao Senhor da colheita que envie trabalhadores para sua colheita!». Chamando os doze discípulos, Jesus deu-lhes poder para expulsar os espíritos impuros e curar todo tipo de doença e de enfermidade. «Ide, antes, às ovelhas perdidas da casa de Israel! No vosso caminho, proclamai: O Reino dos Céus está próximo. Curai doentes, ressuscitai mortos, purificai leprosos, expulsai demônios. De graça recebestes, de graça deveis dar!».
 
«Pedi (...) ao Senhor da colheita que envie trabalhadores para sua colheita»
 
Rev. D. Xavier PAGÉS i Castañer (Barcelona, Espanha)
 
Hoje, depois de uma semana dentro do itinerário de preparação para a celebração do Natal, já constatamos que uma das virtudes que queremos fomentar durante o Advento é a esperança. Mas, não passivamente, como quem espera que passe o trem e, sim uma esperança ativa, que nos move a dispor-nos, pondo da nossa parte o que seja necessário para que Jesus possa nascer novamente em nossos corações.
 
Mas devemos tentar não nos conformar somente com o que esperamos, mas — sobretudo — descobrir o que é que Deus espera de nós. Como os doze Apóstolos, nós também estamos chamados a seguir os seus caminhos. Tomara que hoje possamos escutar a voz do Senhor que —por meio do profeta Isaías — nos diz: «O caminho é este: por aqui deves andar!» (Is 30,21, da primeira leitura de hoje). Seguindo cada um o seu caminho, Deus espera de todos que com a nossa vida anunciemos que «O Reino dos Céus está próximo» (Mt 10,7).
 
O Evangelho de hoje narra como, diante daquela multidão, Jesus teve compaixão e lhes disse: «A colheita é grande, mas os trabalhadores são poucos. Pedi, pois, ao Senhor da colheita que envie trabalhadores para sua colheita» (Mt 9,37-38). Ele quis confiar em nós e quer que nas mais diversas circunstâncias respondamos à vocação de nos convertermos em apóstolos de nosso mundo. A missão para a qual Deus Pai enviou o seu Filho ao mundo requer que nós sejamos seus continuadores. Nos nossos dias também encontramos uma multidão desorientada e sem esperança, que tem sede da Boa Nova da Salvação que Cristo nos trouxe, da qual somos mensageiros. É uma missão confiada a todos. Conhecedores de nossas fraquezas e handicaps, apoiemo-nos na oração constante e estejamos contentes por chegar a ser assim colaboradores do plano redentor que Cristo nos revelou.
 
Pensamentos para o Evangelho de hoje
«Para uma colheita abundante, há poucos trabalhadores. Ao ouvir isso, não podemos deixar de sentir uma grande tristeza, porque devemos reconhecer que, embora existam pessoas que desejam ouvir coisas boas, existem poucos que se dedicam a anunciá-las. Rogai também por nós, para que a nossa voz nunca cesse de vos exortar» (São Gregório Magno)
 
«O mundo não é uma coleção de tristezas e dores. Todas as angústias que existem nele são protegidas por uma misericórdia amorosa. Quem assim celebra o Advento, pode falar de um Natal alegre, abençoado e misericordioso» (Bento XVI)
 
«Com o Credo Niceno-Constantinopolitano respondemos confessando: 'Para nós, homens e para a nossa salvação, ele desceu do céu e, pela força do Espírito Santo, encarnou-se de Maria, a Virgem, e tornou-se homem'» (Catecismo do Igreja Católica, nº 456)
 
Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm
 
* O evangelho de hoje consta de duas partes:
(1) Um breve resumo da atividade apostólica de Jesus (Mt 9,35-38) e
(2) o início do “Sermão da Missão” (Mt 10,1.5-8). O evangelho da liturgia de hoje omite os nomes dos apóstolos que constam no evangelho de Mateus (Mt 10,2-4).
 
* Mateus 9,35: Resumo da atividade missionária de Jesus. “Jesus percorria todas as cidades e povoados, ensinando em suas sinagogas, pregando a Boa Notícia do Reino, e curando todo tipo de doença e enfermidade”. Em poucas palavras Mateus descreve os pontos centrais da atividade missionária de Jesus: (1) Percorrer todas as cidades e povoados.  Jesus não espera até que o povo venha até ele, mas ele mesmo vai em busca do povo percorrendo todas as cidades e povoados. (2) Ensinar nas sinagogas, isto é, nas comunidades. Jesus vai lá onde o povo está reunido ao redor da sua fé em Deus. É lá que ele anuncia a Boa Nova do Reino, isto é, a Boa Nova de Deus. Jesus não ensina doutrinas como se a Boa Nova fosse um novo catecismo, mas em tudo que diz e faz ele deixa transparecer algo da grande Boa Nova que o anima por dentro, a saber, Deus, o Reino de Deus. (3) Curar todo tipo de doença e enfermidade. O que mais marcava a vida do povo pobre era a doença, todo tipo de doença, e o que mais marca a atividade de Jesus, é consolar o povo, aliviar sua dor.
 
* Mateus 9,36: Compaixão de Jesus frente à situação do povo.  “Vendo as multidões, Jesus teve compaixão, porque estavam cansadas e abatidas, como ovelhas sem pastor”. Jesus acolhe as pessoas do jeito que elas se encontram diante dele: doentes, abatidas, cansadas. Ele se comporta como o Servo de Isaías, cuja mensagem central consistia em “consolar o povo” (cf. Is 40,1). A atitude de Jesus para com o povo era como a atitude do Servo, cuja missão era definida assim: “Ele não grita, nem levanta a voz, não solta berros pelas ruas, não quebra  a planta machucada, nem apaga o pavio de vela que ainda solta um pouco de fumaça” (Is 42,2-3). Como o Servo, Jesus se comove diante da situação sofrida do seu povo “cansado e abatido, como ovelhas sem pastor”. Ele começa a ser Pastor identificando-se com o Servo que dizia: “O Senhor me concedeu o dom de falar como seu discípulo, para eu saber dizer uma palavra de conforto a quem está desanimado” (Is 49,4ª). Como o Servo, Jesus se faz discípulo do Pai e do povo e diz: “Cada manhã, ele me desperta, para que eu o escute, de ouvidos abertos, como o fazem os discípulos” (Is 49,4b). É do contato com o Pai que Jesus colhe a palavra de consolação a ser comunicada aos pobres.
 
* Mateus 9,37-38: Jesus envolve os discípulos na missão. Diante da imensidão da tarefa missionária, a primeira coisa que Jesus pede aos discípulos é rezar: “A colheita é grande, mas os trabalhadores são poucos! Por isso, peçam ao dono da colheita que mande trabalhadores para a colheita". A oração é a primeira forma de compromisso dos discípulos com a missão. Pois se você acredita na importância da missão que você tem, você fará todo o possível para que ela não morra com você, mas que continue nos outros através de você e depois de você.
 
* Mateus 10,1: Jesus confere aos discípulos o poder de curar e de expulsar os demônios. “Então Jesus chamou seus discípulos e deu-lhes poder para expulsar os espíritos maus, e para curar qualquer tipo de doença e enfermidade". A segunda coisa que Jesus pede aos discípulos não é que eles comecem a ensinar doutrinas e leis, mas sim que ajudem o povo a vencer o medo dos maus espíritos e que o ajudem na luta contra as enfermidades. Hoje, os que mais metem medo nos pobres são certos missionários que ameaçam o povo com o castigo de Deus e com o perigo do demônio. Jesus faz o contrário. O que ele mais faz é ajudar o povo a vencer o medo do demônio: “Se eu expulso os demônios, é sinal de que chegou para vocês o Reino de Deus” (Lc 11,20). É triste dizê-lo, mas hoje existem pessoas que precisam do demônio para poder expulsá-lo e assim ganhar dinheiro. Para estes vale a pena ler o que Jesus falou contra os fariseus e doutores da lei que roubavam as casas das viúvas (Mt 23,14).
 
* Mateus 10,5-6: Vão primeiro para as ovelhas perdidas de Israel. “Jesus enviou os Doze com estas recomendações: "Não tomem o caminho dos pagãos, e não entrem nas cidades dos samaritanos. Vão primeiro às ovelhas perdidas da casa de Israel”. Inicialmente, a missão de Jesus era dirigida para “as ovelhas perdidas de Israel”. Quem eram estas ovelhas perdidas de Israel? Eram as pessoas excluídas, como as prostitutas, os publicanos, os impuros, considerados perdidos e condenados pelas autoridades religiosas da época? Eram os dirigentes como os fariseus, saduceus, anciãos e sacerdotes que se consideravam o povo fiel de Israel? Ou eram as multidões que estavam cansadas e abatidas, como ovelhas que não têm pastor? Provavelmente, aqui no contexto do evangelho de Mateus, trata-se deste povo pobre e abandonado que é acolhido por Jesus (Mt 9,36-37). Jesus queria que os discípulos participassem com ele na missão junto a esse povo. Mas na medida em que ele ia atendendo a este povo, o próprio Jesus ia alargando o horizonte. No contato com a mulher Cananéia, ovelha perdida de outra raça e de outra religião, que pedia para ser atendida, Jesus repetiu aos discípulos: "Eu fui enviado somente para as ovelhas perdidas do povo de Israel" (Mt 15,24). E diante da insistência da mãe que desistia de interceder pela filha, Jesus se defendeu dizendo: "Não está certo tirar o pão dos filhos, e jogá-lo aos cachorrinhos" (Mt 15,26). Mas a reação da mãe derrubou a defesa de Jesus: "Sim, Senhor, é verdade; mas também os cachorrinhos comem as migalhas que caem da mesa de seus donos" (Mt 15,27). E de fato, havia muitas migalhas! Doze cestos cheios de pedaços que sobraram da multiplicação do pão para as ovelhas perdidas de Israel (Mt14,20). A resposta da mulher desfez os argumentos de Jesus. Ele atendeu a mulher: Jesus atende a mulher: "Mulher, é grande a sua fé! Seja feito como você quer." E desde esse momento a filha dela ficou curada”. (Mt 15,28). Foi através da atenção contínua dada às ovelhas perdidas de Israel que Jesus descobriu que no mundo inteiro existem ovelhas perdidas que querem comer das migalhas.
 
* Mateus 10,7-8: Resumo da atividade de Jesus. “Vão e anunciem: O Reino do Céu está próximo. Curem os doentes, ressuscitem os mortos, purifiquem os leprosos, expulsem os demônios. Vocês receberam de graça, deem também de graça!”. Como revelar a proximidade do Reino? A resposta é simples e concreta: curando doentes, ressuscitando os mortos, purificando os leprosos, expulsando os demônios e servindo de graça, sem se enriquecer pelo serviço ao povo. Onde isto acontece o Reino se revela.
 
Faça um confronto pessoal da leitura com a vida
1) Todos nós recebemos a mesma missão que Jesus deu aos discípulos e discípulas. Você tem consciência de ter esta missão? Como você vive sua missão?
2) Na sua vida você já teve algum contato com as ovelhas perdidas, com o povo cansado e abatido? Qual a lição que você tirou?

quarta-feira, 4 de dezembro de 2024

Sexta-feira da 1ª semana do Advento

São Nicolau, bispo de Mira
 
1ª Leitura (Is 29,17-24):
Assim fala o Senhor Deus: Daqui a muito pouco tempo, não há de o Líbano transformar-se num jardim e o jardim parecer uma floresta? Nesse dia, os surdos ouvirão ler as palavras do livro; libertos da escuridão e das trevas, os olhos dos cegos tornarão a ver. Os humildes alegrar-se-ão cada vez mais no Senhor e os mais pobres dos homens rejubilarão no Santo de Israel. O tirano deixará de existir, o escarnecedor desaparecerá e serão exterminados os que só pensam no mal: aqueles que fazem condenar os outros pelas suas palavras, os que armam ciladas no tribunal a quem promove a justiça e sem razão arruínam o justo. Por isso, o Senhor, que libertou Abraão, assim fala à casa de Jacob: ‘Doravante Jacob não terá de que se envergonhar, o seu rosto não voltará a empalidecer, porque, ao verem no meio dele os seus filhos, obras das minhas mãos, proclamarão santo o meu nome’. Proclamarão a santidade do Santo de Jacob e temerão o Deus de Israel. Os espíritos desnorteados aprenderão a sabedoria e os murmuradores hão de aceitar a instrução».
 
Salmo Responsorial: 26
R. O Senhor é a minha luz e a minha salvação.
 
O Senhor é minha luz e salvação: a quem hei de temer? O Senhor é protetor da minha vida: de quem hei de ter medo?
 
Uma coisa peço ao Senhor, por ela anseio: habitar na casa do Senhor todos os dias da minha vida, para gozar da suavidade do Senhor e visitar o seu santuário.
 
Espero vir a contemplar a bondade do Senhor na terra dos vivos. Confia no Senhor, sê forte. Tem coragem e confia no Senhor.
 
Aleluia. O Senhor virá com poder e majestade e iluminará os olhos dos seus fiéis. Aleluia.
 
Evangelho (Mt 9,27-31): Partindo Jesus dali, dois cegos o seguiram, gritando: «Tem compaixão de nós, filho de Davi!» Quando entrou em casa, os cegos se aproximaram dele, e Jesus lhes perguntou: «Acreditais que eu posso fazer isso?» Eles responderam: «Sim, Senhor». Então tocou nos olhos deles, dizendo: «Faça-se conforme a vossa fé». E os olhos deles se abriram. Jesus os advertiu: «Tomai cuidado para que ninguém fique sabendo». Mas eles saíram e espalharam sua fama por toda aquela região.
 
«Jesus lhes perguntou: Acreditais que eu posso fazer isso? Eles responderam: Sim, Senhor»
 
Frei Josep Mª MASSANA i Mola OFM (Barcelona, Espanha)
 
Hoje, nesta primeira Sexta-Feira de Advento, o Evangelho apresenta-nos três personagens: Jesus no centro da cena, e dois cegos que se aproximam cheios de fé e com o coração esperançado. Tinham ouvido falar Dele, da sua ternura para com os doentes e do seu poder. Estes traços identificavam-No como o Messias. Quem melhor que Ele podia tomar a seu cargo a sua desgraça?
 
Os dois cegos unem-se e, em comunidade, dirigem-se ambos a Jesus. Em uníssono fazem uma oração de petição ao Enviado de Deus, ao Messias, a quem chamam “Filho de Davi”. Querem, com a sua oração, provocar a compaixão de Jesus: «Tem compaixão de nós, filho de Davi!» (Mt 9,27).
 
Jesus interpela a sua fé: «Acreditais que eu posso fazer isso?» (Mt 9,28). Se eles se aproximaram do Enviado de Deus é precisamente porque acreditam Nele. A uma só voz fazem uma bela profissão de fé, respondendo: «Sim, Senhor» (Ibidem). E Jesus concede a vista àqueles que já viam pela fé. De fato, acreditar é ver com os olhos do nosso interior.
 
Este tempo de Advento é o adequado, também para nós, para procurar Jesus com um grande desejo, como o dos cegos, fazendo comunidade, fazendo Igreja. Com a Igreja proclamamos no Espírito Santo: «Vem, Senhor Jesus» (cf, Ap 22,17-20). Jesus vem com o seu poder de abrir completamente os olhos do nosso coração, e fazer que vejamos, que acreditemos. O Advento é um tempo forte de oração: tempo para fazer oração de petição e, sobretudo, oração de profissão de fé. Tempo de ver e de acreditar.
 
Recordemos as palavras do Pequeno Príncipe: «O essencial só se vê com o coração».
 
Pensamentos para o Evangelho de hoje
«Ensina-me a procurar-te e mostra-te a quem te procura; porque não posso procurar por ti, a menos que me ensines, e não posso encontrar-te se não te manifestares. Desejando, te procurarei; procurando, te desejarei; amando, te encontrarei e encontrando-te, te amarei» (Santo Anselmo)
 
«Jesus mesmo, quando ensinava a rezar, dizia que se fizera como um amigo inoportuno. Rezar é um pouco como incomodar a Deus para que nos escute. É atrair os olhos, atrair o coração de Deus para conosco» (Francisco)
 
«O pedido insistente dos cegos: “Tem compaixão de nós, filho de Davi” (Mt 9,27) ou “Jesus, Filho de Davi, tem compaixão de mim” (Mc 10,47) foi retomado na tradição da oração a Jesus: “Jesus Cristo, Filho de Deus, Senhor, tem piedade de mim, pecador!”. Quer na cura das enfermidades, quer na remissão dos pecados, Jesus responde sempre à oração que implora com fé: “Vai em paz, tua fé te salvou!”» (Catecismo da Igreja Católica, n° 2616)
 
Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm
 
* Novamente, o evangelho de hoje coloca diante de nós o encontro de Jesus com a miséria humana.
Jesus não se retrai nem se esquiva. Ele acolhe as pessoas e na sua acolhida cheia de ternura revela o amor de Deus.
 
* Dois cegos seguem Jesus e gritam: “Filho de Davi, tem piedade de nós!”. Jesus não gostava muito deste título Filho de Davi. Ele chegou a criticar o ensinamento dos escribas que diziam que o Messias devia ser filho de Davi: “Se o próprio Davi o chama Senhor, como pode ser seu filho? (Mc 12,37).
 
* Chegando em casa, Jesus pergunta aos cegos: “Vocês acreditam que eu possa fazer isso?” Eles respondem: “Sim, Senhor!” Uma coisa é ter a doutrina correta na cabeça, outra é ter a fé correta no coração e nos pés. A doutrina dos dois cegos não era muito correta, pois eles chamam Jesus de Filho de Davi. Mas Jesus não se importa se o chamam assim. Ele quer saber se eles têm a fé correta.
 
* Ele toca nos olhos e diz: “Aconteça conforme a fé de vocês!” Imediatamente, os olhos se abriram. Apesar de não terem a doutrina correta, os dois cegos tinham uma fé correta. Hoje muita gente está mais preocupada com a doutrina correta do que com a fé correta.
 
* Vale a pena anotar um pequeno detalhe de hospitalidade. Jesus chega em casa e os dois cegos também entram com ele na casa dele, como se fosse a coisa mais normal do mundo. Eles se sentem em casa na casa de Jesus! E hoje? Uma religiosa dizia: “Hoje, a situação do mundo é tal que fico desconfiada até dos pobres!” Mudou muito, de lá para cá!
 
* Jesus pede para não divulgar o milagre. Mas a proibição não adiantou muito. Os dois saíram e espalharam a Boa Notícia. Anunciar o Evangelho, isto é, a Boa Notícia, é partilhar com os outros o bem que Deus nos faz na vida.
 
Para um confronto pessoal
1. Será que tenho alguma Boa Notícia de Deus na minha vida a partilhar com os outros?
2. Em que ponto eu insisto mais: em ter doutrina correta ou em ter a fé correta?

terça-feira, 3 de dezembro de 2024

Quinta-feira da 1ª semana do Advento

Bto. Bartolomeu Fanti, presbítero de nossa Ordem.
Stos Martinho de Dume, Frutuoso e Geraldo, bispos de Braga
 
1ª Leitura (Is 26,1-6):
Naquele dia, cantarão este hino na terra de Judá: «Nós temos uma cidade forte; muralhas e fortificações foram postas para nos proteger. Abri as portas para que entre um povo justo, um povo que pratica a fidelidade. O seu coração está firme: dar-lhe-eis a paz, porque em Vós tem confiança». Confiai sempre no Senhor, porque o Senhor é a nossa fortaleza eterna. Humilhou os habitantes das alturas, abateu a cidade inacessível, derrubou-a por terra, arrasou-a até ao solo. Ela é calcada aos pés, os pés dos infelizes, os passos dos pobres.
 
Salmo Responsorial: 117
R/. Bendito o que vem em nome do Senhor.
 
Dai graças ao Senhor, porque Ele é bom, porque é eterna a sua misericórdia. Mais vale refugiar-se no Senhor, do que fiar-se nos homens. Mais vale refugiar-se no Senhor, do que fiar-se nos poderosos.
 
Abri-me as portas da justiça: entrarei para dar graças ao Senhor. Esta é a porta do Senhor: os justos entrarão por ela. Eu Vos dou graças porque me ouvistes e fostes o meu salvador.
 
Senhor, salvai os vossos servos, Senhor, dai-nos a vitória. Bendito o que vem em nome do Senhor, da casa do Senhor nós vos bendizemos. O Senhor é Deus e fez brilhar sobre nós a sua luz.
 
Aleluia. Procurai o Senhor, enquanto Se pode encontrar, invocai-O, enquanto está perto. Aleluia.
 
Evangelho (Mt 7,21.24-27): Naquele tempo, Jesus disse aos discípulos: «Nem todo aquele que me diz: ‘Senhor! Senhor!’, entrará no Reino dos Céus, mas só aquele que põe em prática a vontade de meu Pai que está nos céus. Portanto, quem ouve estas minhas palavras e as põe em prática é como um homem sensato, que construiu sua casa sobre a rocha. Caiu a chuva, vieram as enchentes, os ventos deram contra a casa, mas a casa não desabou, porque estava construída sobre a rocha. Por outro lado, quem ouve estas minhas palavras e não as põe em prática é como um homem sem juízo, que construiu sua casa sobre a areia. Caiu a chuva, vieram as enchentes, os ventos sopraram e deram contra a casa, e ela desabou, e grande foi a sua ruína!».
 
«Nem todo aquele que me diz: ‘Senhor! Senhor!’, entrará no Reino dos Céus»
 
Abbé Jean-Charles TISSOT (Freiburg, Suíça)
 
Hoje, o Senhor pronuncia estas palavras no final do Seu “Sermão da Montanha”, no qual dá um sentido novo e mais profundo aos Preceitos do Antigo Testamento, a “palavra” de Deus aos homens. Manifesta-se como Filho de Deus, e como tal pede-nos que recebamos o que nos diz como palavras de suma importância; palavras de vida eterna que devem ser postas em prática, e não são só para serem ouvidas, mas sem implicação pessoal – com o risco de serem esquecidas ou de nos contentarmos em admirá-las ou em admirar o seu autor.
 
«Construir uma casa sobre a areia» (cf. Mt 7,26) é uma imagem para descrever um comportamento insensato, que não leva a nenhum resultado e acaba no fracasso de uma vida, depois de um esforço longo e penoso para construir algo. “Bene curris, sed extra viam”, dizia Sto. Agostinho: corres bem, mas fora do curso aprovado, podemos traduzir assim. Que pena só chegar até aí: o momento da prova, das tempestades e das inundações que a nossa vida necessariamente contém!
 
O Senhor quer ensinar-nos a usar um fundamento sólido, cujo crescimento deriva do esforço para pôr em prática os seus ensinamentos, vivendo-os todos os dias com pequenas decisões que tentaremos seguir. A nossa resolução diária de viver os ensinamentos de Cristo deve terminar em propósitos concretos, se não definitivos, mas dos quais possamos tirar alegria e reconhecimento na hora do nosso exame de consciência, à noite. A alegria de ter conseguido uma pequena vitória sobre nós próprios é uma preparação para outras batalhas, e – com a graça de Deus – não nos faltará a força para perseverar até ao fim.
 
«Entrará no Reino dos Céus(...)aquele que põe em prática a vontade de meu Pai que está nos céus»
 
Rev. D. Antoni ORIOL i Tataret (Vic, Barcelona, Espanha)
 
Hoje, a palavra do Evangelho convida-nos a meditar com seriedade sobre a infinita distância que há entre o mero “escutar-invocar” e o “fazer” quando se trata da mensagem e da pessoa de Jesus. E dizemos “mero” porque não podemos esquecer que há modos de escutar e de invocar que não comportam o fazer. De fato, todos os que —tendo escutado o anúncio evangélico— acreditam, não serão confundidos; e todos os que, tendo acreditado, invocam o nome do Senhor, se salvarão ensina-o São Paulo na Carta aos Romanos (ver 10,9-13). Trata-se, neste caso, dos que acreditam com fé autêntica, aquela que «atua mediante a caridade», como escreve também o Apóstolo.
 
Mas é um fato que muitos acreditam e não fazem. A carta do apóstolo Santiago denuncia-o de uma maneira impressionante: «Sede, pois executores da palavra e não vos conformeis com ouvi-la somente, enganando-vos a vós mesmos» (1,22); «a fé, se não tem obras, está verdadeiramente morta» (2,17); «como o corpo sem alma está morto, assim também a fé sem obras está morta» (2,26). É o que rejeita, também inolvidavelmente, São Mateus quando afirma: «Nem todo aquele que me diz: ‘Senhor! Senhor!’, entrará no Reino dos Céus, mas só aquele que põe em prática a vontade de meu Pai que está nos céus» (7,21).
 
É necessário, portanto, escutar e cumprir; é assim que construímos sobre a rocha e não em cima da areia. Como cumprir? Perguntemo-nos: Deus e o próximo enchem-me a cabeça —sou crente por convicção? E quanto ao bolso, compartilho os meus bens com critério de solidariedade?; No que se refere à cultura, contribuo para consolidar os valores humanos no meu país?; No aumento do bem, fujo do pecado de omissão?; Na conduta apostólica, procuro a salvação eterna dos que me rodeiam? Numa palavra: sou uma pessoa sensata que, com obras, edifico a casa da minha vida sobre a rocha de Cristo?
 
Pensamentos para o Evangelho de hoje
«Permanecei vigilantes porque, quando a alma está dominada por um pesado torpor, é o inimigo que a domina e a conduz, mesmo contra a sua vontade. Por isso, o Senhor recomendou ao homem a vigilância tanto da alma como do corpo» (Santo Efrém)
 
«O Evangelho de hoje (Mt 7,21ss) trata de uma equação matemática: Eu conheço a Palavra e a coloco em prática. Eu sou construído sobre a rocha. Agora, como faço para colocar a palavra em prática? É mesmo como construir uma casa na rocha, onde a imagem da pedra refere-se ao Senhor» (Francisco)
 
«A oração de fé não consiste somente em dizer «Senhor, Senhor!», mas em preparar o coração para fazer a vontade do Pai (Mt 7,21). Jesus exorta os seus discípulos a levar para a oração esta solicitude em cooperar com o desígnio de Deus (cf. Mt 9,38)» (Catecismo da Igreja Católica,2.611)
 
Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm
 
* O evangelho de hoje traz a parte final do Sermão da Montanha.
O Sermão da Montanha é uma nova leitura da Lei de Deus. Começa com as bem-aventuranças (Mt 5,1-12) e termina aqui com a casa na rocha.
 
* Trata-se de adquirir a verdadeira sabedoria. A fonte da sabedoria é a Palavra de Deus expressa na Lei de Deus. A verdadeira sabedoria consiste em ouvir e praticar a Palavra de Deus (Lc 11,28). Não basta dizer “Senhor, Senhor!” O importante não é falar bonito sobre Deus, mas sim fazer a vontade do Pai e, desse modo, ser uma revelação do seu amor e da sua presença no mundo.
 
* Quem ouve e pratica a palavra constrói a casa sobre a rocha. A firmeza da casa não vem da casa em si, mas vem do terreno, da rocha. O que significa a rocha? É a experiência do amor de Deus que se revelou em Jesus (Rom 8,31-39). Tem gente que pratica a palavra para poder merecer o amor de Deus. Mas amor não se compra nem se merece (Ct 8,7). O amor de Deus se recebe de graça. Praticamos a Palavra não para merecer, mas para agradecer o amor recebido. Este é o terreno bom, a rocha, que dá segurança à casa. A segurança verdadeira vem da certeza do amor de Deus! É a rocha que nos sustenta na hora das dificuldades e das tempestades.
 
* O evangelista encerra o Sermão da Montanha (Mt 7,27-28) dizendo que a multidão ficou admirada com o ensinamento de Jesus, pois "ele ensinava com autoridade, e não como os escribas". O resultado do ensino de Jesus é a consciência crítica do povo com relação às autoridades religiosas da época. Admirado e agradecido, o povo aprovava os ensinamentos tão bonitos e tão diferentes de Jesus.
 
Para um confronto pessoal
1. Sou dos que dizem “Senhor, Senhor”, ou dos que praticam a palavra?
2. Observo a lei para merecer o amor e a salvação ou para agradecer o amor e a salvação de Deus?

5 de dezembro

 Beato Bartolomeu Fanti
Presbítero de nossa Ordem
           
Nasceu em Mântua (Itália), desconhecendo-se o ano do seu nascimento. Em 1452 já era sacerdote carmelita da Congregação Mantuana. Foi durante 35 anos, na Igreja carmelita da sua cidade, diretor espiritual e reitor da Confraria da B. Virgem Maria, para a qual escreveu a Regra e os Estatutos. Distinguiu-se pelo seu amor à Eucaristia. Morreu em 1495. O seu culto foi confirmado por S. Pio X a 18 de março de 1909.
 
LAUDES E VÉSPERAS
Hino
Ó Eterno e Imenso Ser,
Deus de infinita grandeza,
quem pode compreender
vossos abismos de riqueza?
 
Juventude sempre nova!
Ó Graça de pura luz!
Em nossa alma renova
a imagem de Jesus!
 
É ele a Sabedoria,
a Justiça, a Santidade,
que por meio de Maria
deu o Pai à humanidade.
 
Dom gratuito do Amor,
Misericórdia sem par,
que se glorie no Senhor
quem se quiser gloriar.
 
Espírito vivo e operante,
que entre nós a caridade
seja o louvor incessante
à Santíssima Trindade.
 
Salmodia, leitura, responsório breve e preces do dia corrente.
 
Oração
Deus, nosso Pai, fizestes do Beato Bartolomeu Fanti um apóstolo do culto à Divina Eucaristia e da devoção à Santíssima Virgem Maria, concedei-nos, a nós também, a mesma riqueza espiritual, que ele encontrou mediante a prática destas devoções.  Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus, e convosco vive e reina, na unidade do Espírito Santo.  
 

segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

Quarta-feira da 1ª semana do Advento

São João Damasceno, presbítero e doutor da Igreja
Santa Bárbara, virgem e mártir
 
1ª Leitura (Is 25,6-10a):
Sobre este monte, o Senhor do Universo há-de preparar para todos os povos um banquete de manjares suculentos, um banquete de vinhos deliciosos: comida de boa gordura, vinhos puríssimos. Sobre este monte, há-de tirar o véu que cobria todos os povos, o pano que envolvia todas as nações; Ele destruirá a morte para sempre. O Senhor Deus enxugará as lágrimas de todas as faces e fará desaparecer da terra inteira o opróbrio que pesa sobre o seu povo. Porque o Senhor falou. Dir-se-á naquele dia: «Eis o nosso Deus, de quem esperávamos a salvação; é o Senhor, em quem pusemos a nossa confiança. Alegremo-nos e rejubilemos, porque nos salvou. A mão do Senhor pousará sobre este monte».
 
Salmo Responsorial: 22
R. Habitarei para sempre na casa do Senhor.
 
O Senhor é meu pastor: nada me falta. Leva-me a descansar em verdes prados, conduz-me às águas refrescantes e reconforta a minha alma.
 
Ele me guia por sendas direitas por amor do seu nome. Ainda que tenha de andar por vales tenebrosos, não temerei nenhum mal, porque Vós estais comigo: o vosso cajado e o vosso báculo me enchem de confiança.
 
Para mim preparais a mesa à vista dos meus adversários; com óleo me perfumais a cabeça e o meu cálice transborda.
 
A bondade e a graça hão de acompanhar-me todos os dias da minha vida, e habitarei na casa do Senhor para todo o sempre.
 
Aleluia. O Senhor vem salvar o seu povo: felizes os que estão preparados para ir ao seu encontro. Aleluia.
 
Evangelho (Mt 15,29-37): Partindo dali, Jesus foi para as margens do mar da Galileia, subiu a montanha e sentou-se. Grandes multidões iam até ele, levando consigo coxos, aleijados, cegos, mudos, e muitos outros doentes. Eles os trouxeram aos pés de Jesus, e ele os curou. A multidão ficou admirada, quando viu mudos falando, aleijados sendo curados, coxos andando e cegos enxergando. E glorificaram o Deus de Israel. Jesus chamou seus discípulos e disse: «Sinto compaixão dessa multidão. Já faz três dias que estão comigo, e não têm nada para comer. Não quero mandá-los embora sem comer, para que não desfalecem pelo caminho». Os discípulos disseram: «De onde vamos conseguir, num lugar deserto, tantos pães que possamos saciar tão grande multidão?» Jesus perguntou: «Quantos pães tendes?» Eles responderam: «Sete, e alguns peixinhos». Jesus mandou que a multidão se sentasse pelo chão. Depois tomou os sete pães e os peixes, deu graças, partiu-os e os deu aos discípulos, e os discípulos os distribuíram às multidões. Todos comeram e ficaram saciados; e encheram sete cestos com os pedaços que sobraram.
 
«Quantos pães tendes? Eles responderam: Sete, e alguns peixinhos»
 
Rev. D. Joan COSTA i Bou (Barcelona, Espanha)
 
Hoje, contemplamos no Evangelho a multiplicação dos pães e peixes. Muitas pessoas —comenta o evangelista Mateus — «iam até ele» (Mt 15,30) ao Senhor. Homens e mulheres que necessitam de Cristo, cegos, coxos e doentes de todo tipo, assim como outros que os acompanhavam. Todos nós também temos necessidade de Cristo, de sua ternura, do seu perdão, da sua luz, da sua misericórdia... Nele acha-se a plenitude do humano.
 
O Evangelho de hoje nos ajuda a dar-nos conta, também, da necessidade de homens que conduzam outros a Jesus Cristo. Os que levam os doentes a Jesus para que os cure são imagem de todos aqueles que sabem que o maior ato de caridade para com o próximo é aproximá-lo a Cristo, fonte de toda a Vida. A vida de fé exige, portanto, a santidade e o apostolado.
 
São Paulo exorta a ter os mesmos sentimentos de Cristo Jesus (cf. Fl 2,5). Nosso relato mostra como é o coração: «Sinto compaixão dessa multidão» (Mt 15,32). Não pode deixá-los porque estão famintos e fatigados. Cristo busca o homem em toda a necessidade e faz-se encontrado. Que bom é o Senhor conosco!; e que importantes somos as pessoas diante dos seus olhos! Só em pensá-lo dilata-se o coração humano cheio de agradecimento, admiração e desejo sincero de conversão.
 
Esse Deus feito homem, que tudo pode, e que nos ama apaixonadamente e a quem necessitamos em tudo e para tudo —«sem mim, nada podeis fazer» (Jo 15,5)— precisa, paradoxalmente, também de nós: esse é o significado dos sete pães e os poucos peixes que usará para alimentar a multidão do povo. Se nos déssemos conta de como Jesus se apoia em nós, e do valor que tem tudo o que fazemos para Ele, por pequeno que seja, nos esforçaríamos mais e mais para Lhe corresponder com todo o nosso ser.
 
Pensamentos para o Evangelho de hoje
«Doente, a nossa natureza precisava ser curada; decaída, ser reerguida; morta, ser ressuscitada. Havíamos perdido a posse do bem, era preciso no-la restituir. Enclausurados nas trevas, era preciso trazer-nos à luz» (São Gregório de Nissa)
 
«A Misericórdia é o segundo nome do Amor» (Francisco).
 
«A compaixão de Cristo (...) para com todos os que sofrem vai ao ponto de identificar-Se com eles: «Estive doente e visitastes-Me» (Mt 25, 36). O seu amor de predileção para com os enfermos não cessou, ao longo dos séculos, de despertar a atenção particular dos cristãos para aqueles que sofrem no corpo ou na alma. Ele está na origem de incansáveis esforços para os aliviar» (Catecismo da Igreja Católica, nº 1.503).
 
Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm
 
* O evangelho de cada dia é como o sol que se levanta.
Sempre o mesmo sol, todos os dias, a alegrar a vida e a fertilizar as plantas. O maior perigo é a rotina. A rotina mata o evangelho, e apaga o sol da vida.
 
* São sempre os mesmos elementos que compõem o quadro do evangelho: Jesus, a montanha, o mar, a multidão, os doentes, os necessitados, os problemas da vida. Apesar de já bem conhecidos, como o sol de cada dia, estes mesmos elementos sempre trazem uma nova mensagem.
 
* Como Moisés, Jesus sobe a montanha e o povo reúne ao redor. Eles trazem consigo seus problemas: os doentes, os coxos, aleijados, cegos, mudos, tantos... Não são os grandes, mas os pequenos. Eles são o começo do novo povo de Deus que se reúne ao redor do novo Moisés. Jesus cura a todos.
 
* Jesus chama os discípulos. Ele sente compaixão do povo que não têm o que comer. Para os discípulos, a solução deve vir de fora: “Onde conseguir pão para tanta gente?” Para Jesus, a solução deve vir de dentro do povo: “Quantos pães vocês têm?” – “Sete e uns peixinhos”. Com este pouco Jesus matou a fome de todos, e ainda sobrou. Se houvesse partilha hoje, não haveria fome no mundo. Sobrava, e muito! Realmente, um outro mundo é possível!
 
* A narração da multiplicação dos pães evoca a eucaristia e dela revela o valor, ao dizer: “Jesus tomou o pão em suas mãos, deu graças, o partiu e deu aos seus discípulos”. 
 
Para um confronto pessoal
1. Jesus teve compaixão. Existe compaixão em mim pelos problemas da humanidade? Faço algo?
2. Os discípulos esperam a solução de fora. Jesus desperta para a solução de dentro. E eu?

domingo, 1 de dezembro de 2024

Terça-feira I do Advento

São Francisco Xavier, presbítero
 
1ª Leitura (Is 11,1-10):
Naquele dia, sairá um ramo do tronco de Jessé e um rebento brotará das suas raízes. Sobre ele repousará o espírito do Senhor: espírito de sabedoria e de inteligência, espírito de conselho e de fortaleza, espírito de conhecimento e de temor de Deus. Animado assim do temor de Deus, não julgará segundo as aparências, nem decidirá pelo que ouvir dizer. Julgará os infelizes com justiça e com sentenças retas os humildes do povo. Com o chicote da sua palavra atingirá o violento e com o sopro dos seus lábios exterminará o ímpio. A justiça será a faixa dos seus rins e a lealdade a cintura dos seus flancos. O lobo viverá com o cordeiro e a pantera dormirá com o cabrito; o bezerro e o leãozinho andarão juntos e um menino os poderá conduzir. A vitela e a ursa pastarão juntamente, suas crias dormirão lado a lado; e o leão comerá feno como o boi. A criança de leite brincará junto ao ninho da cobra e o menino meterá a mão na toca da víbora. Não mais praticarão o mal nem a destruição em todo o meu santo monte: o conhecimento do Senhor encherá o país, como as águas enchem o leito do mar. Nesse dia, a raiz de Jessé surgirá como bandeira dos povos; as nações virão procurá-la e a sua morada será gloriosa.
 
Salmo Responsorial: 71
R. Nos dias do Senhor nascerá a justiça e a paz para sempre.
 
Ó Deus, dai ao rei o poder de julgar e a vossa justiça ao filho do rei. Ele governará o vosso povo com justiça e os vossos pobres com equidade.
 
Florescerá a justiça nos seus dias e uma grande paz até ao fim dos tempos. Ele dominará de um ao outro mar, do grande rio até aos confins da terra.
 
Socorrerá o pobre que pede auxílio e o miserável que não tem amparo. Terá compaixão dos fracos e dos pobres e defenderá a vida dos oprimidos.
 
O seu nome será eternamente bendito e durará tanto como a luz do sol; nele serão abençoadas todas as nações, todos os povos da terra o hão de bendizer.
 
Aleluia. O Senhor virá com poder e majestade e iluminará os olhos dos seus fiéis. Aleluia.
 
Evangelho (Lc 10,21-24): Naquele mesma hora, ele exultou no Espírito Santo e disse: «Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste essas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, assim foi do teu agrado. Tudo me foi entregue por meu Pai, e ninguém conhece o Filho, a não ser o Pai; e ninguém conhece o Pai, a não ser o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar». E voltando-se para os discípulos em particular, disse-lhes: «Felizes os olhos que veem o que vós estais vendo! Pois eu vos digo: muitos profetas e reis quiseram ver o que vós estais vendo, e não viram; quiseram ouvir o que estais ouvindo, e não ouviram».
 
« Eu te louvo, Pai»
 
Abbé Jean GOTTIGNY (Bruxelles, Bélgica)

Hoje lemos um extrato do capítulo dez do Evangelho segundo São Lucas. O Senhor enviou a setenta e dois discípulos aos lugares onde Ele mesmo iria. E voltaram exultantes. Ouvindo contar suas proezas «Naquele mesma hora, Jesus exultou de alegria no Espírito Santo e disse, Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra» (Lc 10,21).
 
A gratidão é uma das facetas da humildade. O arrogante considera que não deve nada a ninguém. Mas para estar agradecido, primeiro, devemos ser capazes de descobrir nossa insignificância. “Obrigado” é uma das primeiras palavras que ensinamos às crianças. «Naquela mesma hora, Jesus exultou de alegria no Espírito Santo e disse: "Pai, Senhor do céu e da terra, eu te dou graças porque escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, bendigo-te porque assim foi do teu agrado». (Lc 10,21)
 
Bento XVI, ao falar sobre a atitude de adoração, afirma que ela pressupõe um «reconhecimento da presença de Deus, Criador y Senhor do universo. É um reconhecimento pleno em gratidão, que brota desde o mais fundo do coração e abrange todo o ser, porque o homem só pode realizar-se plenamente a si mesmo adorando e amando a Deus acima de todas as coisas».
 
Uma alma sensível experimenta a necessidade de manifestar seu reconhecimento. É o mínimo que podemos fazer para responder aos favores divinos. «O que há de superior em ti? Que é que possuis que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que te glorias, como se o não tivesses recebido?» (1Cor 4,7). Lógico que, nos faz falta «agradecer a Deus Pai, através do seu filho, no Espírito Santo; com a grande misericórdia com que nos tem amado, tem sentido compaixão por nós, e quando estávamos mortos por nossos pecados, nos fez reviver com Cristo para que sejamos Nele uma nova criação» (São Leão Magno).
 
«Felizes os olhos que veem o que vós estais vendo»
 
Rev. D. Joaquim MESEGUER García (Rubí, Barcelona, Espanha)
 
Hoje e sempre, os cristãos estão convidados a participar da alegria de Jesus. Ele, cheio do Espírito Santo, disse: «Naquele mesma hora, Jesus exultou de alegria no Espírito Santo e disse: Pai, Senhor do céu e da terra, eu te dou graças porque escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, bendigo-te porque assim foi do teu agrado» (Lc 10,21). Com muita razão, esse fragmento do Evangelho foi chamado por alguns autores como o “Magníficat de Jesus”, pois a ideia subjacente é a mesma que recorre o Canto de Maria (cf. Lc 1,46-55).
 
A alegria é uma atitude que acompanha a esperança. Dificilmente uma pessoa que nada espera poderá estar alegre. E, que é o que nós os cristãos esperamos? A chegada do Messias e do seu Reino, no qual florescerá a justiça e a paz; uma nova realidade na qual «Então o lobo será hóspede do cordeiro, a pantera se deitará ao pé do cabrito, o touro e o leão comerão juntos, e um menino pequeno os conduzirá» (Is 11,6). O Reino de Deus que esperamos se abre caminho dia a dia, e vamos saber descobrir sua presença entre nós. Para o mundo em que vivemos, tão sem paz e de concórdia, de justiça e de amor, quão necessária é a esperança dos cristãos! Uma esperança que não nasce de um otimismo natural ou de uma falsa ilusão, e sim que vem do próprio Deus.
 
No entanto, a esperança cristã, que é luz e calor para o mundo, só poderá ter aquele que seja puro e humilde de coração, porque Deus escondeu aos sábios e inteligentes — isto é, a aqueles que sejam soberbos em sua ciência— o conhecimento e o gozo do mistério de amor do seu Reino.
 
Uma boa maneira de preparar os caminhos do Senhor neste Advento será exatamente cultivar a humildade e a simplicidade para abrir-nos ao dom de Deus, para viver com esperança e chegar a ser cada dia melhores testemunhas do Reino de Jesus Cristo.
 
Pensamentos para o Evangelho de hoje
«Antigamente, ¿qual a ideia de Deus que poderia ter o homem, para além da ideia de um ídolo fabricado pelo seu coração? Era incompreensível. Mas agora tem querido ser compreendido. ¿De que jeito? Deitado em uma manjedoura. Quando medito nisso, o meu pensamento vai até Deus» (São Bernardo)
 
«Jesus encheu-se de alegria no Espírito Santo e louvou ao Pai. Esta é a vida interior de Jesus: o seu relacionamento com o Pai no Espírito. Jesus é a proximidade da ternura do Pai para nós» (Francisco)
 
«Compreende-se então a dupla dimensão da liturgia cristã, como resposta de fé e de amor às «bênçãos espirituais» com que o Pai nos gratifica. Por um lado, a Igreja, unida ao seu Senhor e «sob a ação do Espírito Santo» (Lc 10,21), bendiz o Pai «pelo seu Dom inefável» (2 Cor 9, 15), mediante a adoração, o louvor e a ação de graças. Por outro lado... a Igreja não cessa de oferecer ao Pai «a oblação dos seus próprios dons» e de Lhe implorar que envie o Espírito Santo sobre esta oblação, sobre si própria, sobre os fiéis e sobre o mundo inteiro, a fim de que... estas bênçãos divinas produzam frutos de vida” (Catecismo da Igreja Católica, nº 1.083)
 
Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm
 
*
O texto de hoje revela o fundo do coração de Jesus, o motivo da sua alegria. Os discípulos tinham ido em missão e, na volta, partilham com Jesus a alegria da sua experiência missionária (Lc 10,17-21).
 
* O motivo da alegria de Jesus é a alegria dos amigos. Ao ouvir a experiência deles e ao perceber a sua alegria, Jesus também sente uma profunda alegria. A causa da alegria de Jesus é o bem-estar dos outros.
 
* Não é uma alegria superficial. Ela vem do Espírito Santo. O motivo da alegria é que os discípulos e as discípulas experimentaram algo de Deus durante a sua experiência missionária.
 
* Jesus os chama “pequenos”. Quem são os “pequenos”? São os setenta e dois discípulos (Lc 10,1) que voltaram da missão: pais e mães de família, rapazes e moças, casados e solteiros, velhos e jovens. Eles não são doutores. São pessoas simples, sem muito estudo, mas que entendem as coisas de Deus melhor do que os doutores .
 
* “Sim, Pai, assim é do teu agrado!” Frase muito séria. É do agrado do Pai que os doutores e os sábios não entendam as coisas do Reino e que os pequenos as entendam. Portanto, se os grandes quiserem entender as coisas do Reino, devem fazer-se discípulos dos pequenos!
 
* Jesus olha para eles e diz: “Felizes vocês!” E por que são felizes? Porque estão vendo coisas que os profetas quiseram ver, mas não conseguiram. O que eles viram? Eles perceberam a ação do Reino nas coisas comuns da vida: curar doentes, alegrar os aflitos, expulsar os males da vida.
 
Para um confronto pessoal
1. Coloco-me na posição do povo: eu me considero dos pequenos ou dos doutores? Por quê?
2. Coloco-me na posição de Jesus: qual a raiz da minha alegria? Superficial ou profunda?