quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Quinta-feira da 7ª semana do Tempo Comum

São Policarpo, Bispo e Mártir
Evangelho (Mc 9,41-50): «Quem vos der um copo de água para beber porque sois de Cristo, não ficará sem receber a sua recompensa. E quem provocar a queda um só destes pequenos que creem em mim, melhor seria que lhe amarrassem uma grande pedra de moinho ao pescoço e o lançassem no mar. Se tua mão te leva à queda, corta-a! É melhor entrares na vida tendo só uma das mãos do que, tendo as duas, ires para o inferno, para o fogo que nunca se apaga. Se teu pé te leva à queda, corta-o! É melhor entrar na vida tendo só um dos pés do que, tendo os dois, ser lançado ao inferno. Se teu olho te leva à queda, arranca-o! É melhor entrar no Reino de Deus tendo um olho só do que, tendo os dois, ir para o inferno, onde o verme deles não morre e o fogo nunca se apaga. Todos serão salgados pelo fogo. O sal é uma coisa boa; mas se o sal perder o sabor, como devolver-lhe o sabor? Tende sal em vós mesmos e vivei em paz uns com os outros».

«Quem vos der um copo de água para beber porque sois de Cristo, não ficará sem receber a sua recompensa»

Rev. D. Xavier PARÉS i Saltor (La Seu d'Urgell, Lleida, Espanha)

Hoje, o Evangelho proclamado é difícil de ser compreendido pela dureza das palavras de Jesus: «Se tua Mão te leva à queda, corta-a! (...). Se teu olho te leva à queda, arranca-o!» (Mc 9,43.47). É que Jesus é muito exigente com aqueles que somos seus seguidores. Simplesmente, Jesus nos diz que temos de saber renunciar às coisas que nos fazem mal, ainda que sejam coisas que gostamos muito, mas que podem ser motivo de pecado e de vicio. São Gregório deixou escrito «que não temos de desejar as coisas que só nos satisfazem as necessidades materiais e pecaminosas». Jesus exige que sejamos radicais. Em outro trecho do Evangelho também diz: «Quem buscar sua vida a perderá, e quem perder sua vida por causa de mim a encontrará» (Mt 10,39).

Por outro lado, esta exigência de Jesus quer ser uma exigência de amor e crescimento. Não quedaremos sem a sua recompensa. O que dará sentido às nossas coisas tem de ser sempre o amor: temos de aprender a dar um copo de água a quem o necessita, e não por interesse pessoal, senão por amor. Temos que descobrir Jesus Cristo nos mais necessitados e pobres. Jesus só denuncia severamente e condena aos que fazem mal e escandalizam e aos que afastam os pequenos do bem e da graça de Deus.

Finalmente, todos temos de passar a prova do fogo. É o fogo da caridade e do amor que purifica os nossos pecados, para poder ser o sal que dá bom gosto ao amor, ao serviço e à caridade. Na oração e na Eucaristia é onde os cristãos encontramos a força da fé e o bom gosto do sal de Cristo. Não ficaremos sem recompensa!

Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm.

* O Evangelho de hoje traz alguns conselhos de Jesus sobre o relacionamento dos adultos com os pequenos e excluídos. Naquele tempo, muita gente pequena era excluída e marginalizada. Não podia participar. Muitos deles perdiam a fé. O texto que vamos meditar tem algumas afirmações estranhas que, se tomadas ao pé da letra, causam perplexidade na gente.

* Marcos 9,41: Um copo de água tem recompensa.
Uma frase solta de Jesus foi inserida aqui: Eu garanto a vocês: quem der para vocês um copo de água porque vocês são de Cristo, não ficará sem receber sua recompensa. Dois pensamentos: 1) “Quem der para vocês um copo de água”: Jesus está indo para Jerusalém para entregar sua vida. Gesto de grande doação! Mas ele não esquece os gestos pequenos de doação no dia a dia da vida: um copo de água, um acolhimento, uma esmola, tantos gestos. Quem despreza o tijolo, nunca faz casa! 2) “Porque vocês são de Cristo”: Jesus se identifica conosco que queremos pertencer a Ele. Isto significa que, para Ele, temos muito valor.

* Marcos 9,42: Escândalo para os pequenos.
Escândalo, literalmente, é pedra no caminho, pedra no sapato; é aquilo que desvia uma pessoa do bom caminho. Escandalizar os pequenos é ser motivo pelo qual os pequenos se desviam do caminho e percam a fé em Deus. Quem faz isto recebe a seguinte sentença: “Corda no pescoço com pedra de moinho para ser jogado no fundo do mar!” Por que tanta severidade? É porque Jesus se identifica com os pequenos (Mt 25,40.45). Quem toca neles, toca em Jesus! Hoje, no mundo inteiro, os pequenos, os pobres, muitos deles estão saindo das igrejas tradicionais. Cada ano, só na América Latina, são em torno de três milhões de pessoas que migram para outras igrejas. Já não conseguem crer no que professamos na nossa igreja! Por que será? Até onde nós temos culpa? Merecemos a corda no pescoço?

* Marcos 9,43-48: Cortar mão e pé, arrancar o olho.
Jesus manda a pessoa arrancar mão, pé e olho, caso estes forem motivo de escândalo. Ele diz: “É melhor entrar na vida ou no Reino com um pé (mão, olho), do que entrar no inferno ou na Geena com dois pés (mãos, olhos)”. Estas frases não podem ser tomadas ao pé da letra. Elas significam que a pessoa deve ser radical na opção por Deus e pelo Evangelho. A expressão ”Geena (inferno) onde tem verme que não morre e o fogo que não se apaga”, é uma imagem para indicar a situação da pessoa que fica sem Deus. A Geena era o nome de um vale perto de Jerusalém, onde se jogava o lixo da cidade e onde sempre havia um fogo de monturo queimando o lixo. Este lugar fedorento era usado pelo povo para simbolizar a situação da pessoa que ficava sem participar do Reino de Deus.

* Marcos 9,49-50: Sal e Paz
Estes dois versículos ajudam a entender as palavras severas sobre o escândalo. Jesus diz: “Tenham sal em vocês, e estejam em paz uns com os outros!” A comunidade, na qual se convive em paz, uns com os outros, é como o pouco de sal que tempera a comida toda. A convivência pacífica e fraterna na comunidade é o sal que tempera a vida do povo no bairro. É um sinal do Reino, uma revelação da Boa Notícia de Deus. Estamos sendo sal? Sal que não tempera não serve para mas nada!

* Jesus acolhe e defende a vida dos pequenos
Várias vezes, Jesus insiste no acolhimento a ser dado aos pequenos. “Quem acolhe a um destes pequenos em meu nome é a mim que acolhe” (Mc 9,37). Quem dá um copo de água a um destes pequenos não perderá a sua recompensa (Mt 10,42). Ele pede para não desprezar os pequenos (Mt 18,10). E no julgamento final os justos vão ser recebidos porque deram de comer a “um destes mais pequeninos” (Mt 25,40). Se Jesus insiste tanto no acolhimento a ser dado aos pequenos, é porque devia haver muita gente pequena sem acolhimento! De fato, mulheres e crianças não contavam (Mt 14,21; 15,38), eram desprezadas (Mt 18,10) e silenciadas (Mt 21,15-16). Até os apóstolos impediam que elas chegassem perto de Jesus (Mt 19,13; Mc 10,13-14). Em nome da lei de Deus, mal interpretada pelas autoridades religiosas da época, muita gente boa era excluída. Em vez de acolher os excluídos, a lei era usada para legitimar a exclusão. Nos evangelhos, a expressão “pequenos” (em grego se diz elachistoi, mikroi ou nepioi), às vezes, indica “criança”, outras vezes, indica os setores excluídos da sociedade. Não é fácil discernir. Às vezes, o que é “pequeno” num evangelho, é “criança” no outro. É porque criança pertencia à categoria dos “pequenos”, dos excluídos. Além disso, nem sempre é fácil discernir entre o que vem do tempo de Jesus e o que é do tempo das comunidades para as quais foram escritos os evangelhos. Mesmo assim, o que resulta claro é o contexto de exclusão que vigorava na época e a imagem que as primeiras comunidades conservaram de Jesus: Jesus se coloca do lado dos pequenos, dos excluídos, e assume a sua defesa.

Para um confronto pessoal
1) Na nossa sociedade e na nossa comunidade, quem são hoje os pequenos e os excluídos? Como está sendo o acolhimento que nós damos a eles?
2) “Corda no pescoço”. Será que o meu comportamento merece a corda ou uma cordinha no pescoço? E o comportamento da nossa comunidade: merece?

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

22 de fevereiro: A Cátedra de São Pedro, apóstolo.

Evangelho (Mt 16,13-19): Naquele tempo, Jesus foi à região de Cesareia de Filipe e ali perguntou aos discípulos: «Quem é que as pessoas dizem ser o Filho do Homem?». Eles responderam: «Alguns dizem que és João Batista; outros, Elias; outros ainda, Jeremias ou algum dos profetas».«E vós”, retomou Jesus, “quem dizeis que eu sou?». Simão Pedro respondeu: «Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo».  Jesus então declarou: «Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi carne e sangue quem te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu. Por isso, eu te digo: tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e as forças do Inferno não poderão vencê-la. Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus».

«Eu te digo: tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja.»

Rev. D. Antoni CAROL i Hostench (Sant Cugat del Vallès, Barcelona, Espanha)

Hoje, celebramos a Cátedra de São Pedro. Pretende-se destacar com esta celebração, o fato de que – como um dom de Jesus Cristo para nós — o edifício da Igreja se apoia sobre o Príncipe dos Apóstolos, que goza de uma ajuda divina peculiar para realizar essa missão. Assim o manifestou o Senhor em Cesareia de Filipe: «Eu te digo: tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja» (Mt 16,18). Efetivamente, «só Pedro foi escolhido para ser posto à frente da vocação de todas as nações, de todos os Apóstolos e de todos os padres da Igreja» (São Leão Magno).

A Igreja beneficiou, desde o seu início, do ministério petrino, de modo que São Pedro e os seus sucessores presidiram a caridade, foram fonte de unidade e tiveram, muito especialmente, a missão de confirmar na verdade os seus irmãos.

Jesus, uma vez ressuscitado, confirmou esta missão a Simão Pedro. Ele, que já tinha chorado, profundamente arrependido, a sua tríplice negação de Jesus, faz agora uma tripla manifestação de amor: «Senhor, tu sabes tudo, tu sabes que te amo» (Jo 21,17). Então o Apóstolo viu com alívio como Jesus não o desdisse e o confirmou, por três vezes, no ministério que antes lhe tinha anunciado: «Cuida das minhas ovelhas» (Jo 21,16.17).

Esta potestade não resulta de mérito próprio, como tão pouco o fora a declaração de fé de Simão em Cesareia: «Não foi carne e sangue quem te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu» (Mt 16,17). Sim, trata-se de uma autoridade com potestade suprema, recebida para servir. É por isso que o Romano Pontífice, quando assina os seus escritos, o faz com o seguinte título honorífico: Servus servorum Dei.

Trata-se, portanto, de um poder para servir a causa da unidade, fundamentada sobre a verdade. Façamos o propósito de rezar pelo Sucessor de Pedro, de prestar delicada atenção às suas palavras e de agradecer a Deus esta grande dádiva.

Reflexão de Frei Carlos Mesters, OCarm.

* Estamos na parte narrativa entre o Sermão das Parábolas (Mt 13) e o Sermão da Comunidade (Mt 18). Nestas partes narrativas que ligam entre si os cinco Sermões, Mateus costuma seguir a sequência do Evangelho de Marcos. De vez em quando, ele cita outras informações, também conhecidas por Lucas. E aqui e acolá, ele traz textos que só aparecem no evangelho de Mateus, como é o caso da conversa entre Jesus e Pedro do evangelho de hoje. Este texto recebe interpretações diversas e até opostas nas várias igrejas cristãs.

* Naquele tempo, as comunidades cultivavam uma ligação afetiva muito forte com as lideranças que tinham dado origem à comunidade. Por exemplo, as comunidades de Antioquia na Síria cultivavam a sua ligação com a pessoa de Pedro. As da Grécia, com a pessoa de Paulo. Algumas comunidades da Ásia, com a pessoa do Discípulo Amado e outras com a pessoa de João do Apocalipse. Uma identificação com estes líderes da sua origem ajudava as comunidades a cultivar melhor a sua identidade e espiritualidade. Mas também podia ser motivo de briga, como no caso da comunidade de Corinto (1 Cor 1,11- 12).

* Mateus 16,13-16: As opiniões do povo e dos discípulos a respeito de Jesus.
Jesus faz um levantamento da opinião do povo a respeito da sua pessoa, o Filho do Homem. As respostas são variadas: João Batista, Elias, Jeremias, algum dos profetas. Quando Jesus pergunta pela opinião dos discípulos, Pedro se torna porta-voz e diz: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo!” A resposta não é nova. Anteriormente, os discípulos já tinham dito a mesma coisa (Mt 14,33). No Evangelho de João, a mesma profissão de fé é feita por Marta (Jo 11,27). Ela significa que em Jesus se realizam as profecias do Antigo Testamento.

* Mateus 16,17: A resposta de Jesus a Pedro: "Feliz você, Pedro!"
Jesus proclama Pedro “Feliz!”, porque recebeu uma revelação do Pai. Aqui também a resposta de Jesus não é nova. Anteriormente, Jesus tinha louvado o Pai por ele ter revelado o Filho aos pequenos e não aos sábios (Mt 11,25-27) e tinha feito a mesma proclamação de felicidade aos discípulos por estarem vendo e ouvindo coisas novas que, antes deles, ninguém conhecia nem tinha ouvido falar (Mt 13,16).

* Mateus 16,18-20: As atribuições de Pedro: Ser pedra e tomar conta das chaves do Reino.
1. Ser Pedra: Pedro deve ser pedra, isto é, deve ser fundamento firme para a igreja a ponto de ela poder resistir contra as portas do inferno. Com estas palavras de Jesus a Pedro, Mateus anima as comunidades perseguidas da Síria e da Palestina que viam em Pedro a liderança marcante da sua origem. Apesar de fraca e perseguida, a comunidade tem fundamento firme, garantido pela palavra de Jesus. A função de ser pedra como fundamento da fé evoca a palavra de Deus ao povo no exílio: “Vocês que buscam a Deus e procuram a justiça, olhem para a rocha (pedra) de onde foram talhados, olhem para a pedreira de onde foram extraídos. Olhem para Abraão seu pai e para Sara sua mãe. Quando os chamei, eles eram um só, mas se multiplicaram por causa da minha bênção”. (Is 51,1-2). Indica que em Pedro existe um novo começo do povo de Deus.

2. As chaves do Reino: Pedro recebe as chaves do Reino. O mesmo poder de ligar e desligar é dado também às comunidades (Mt 18,18) e aos outros discípulos (Jo 20,23). Um dos pontos em que o evangelho de Mateus mais insiste é a reconciliação e o perdão. É uma das tarefas mais importantes dos coordenadores e coordenadoras das comunidades. Imitando Pedro, devem ligar e desligar, isto é, fazer com que haja reconciliação, aceitação mútua, construção da fraternidade, até setenta vezes sete (Mt 18,22).
Para um confronto pessoal
1. Quais as opiniões que na nossa comunidade existem sobre Jesus? Estas diferenças na maneira de viver e expressar a fé enriquecem a comunidade ou prejudicam a caminhada?
2. Que tipo de pedra é a nossa comunidade? Qual a missão que resulta disso para nós?

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Terça-feira da 7ª semana do Tempo Comum

Evangelho (Mc 9,30-37): Partindo dali, Jesus e seus discípulos atravessavam a Galiléia, mas ele não queria que ninguém o soubesse. Ele ensinava seus discípulos e dizia-lhes: «O Filho do Homem vai ser entregue às mãos dos homens, e eles o matarão. Morto, porém, três dias depois ressuscitará». Mas eles não compreendiam o que lhes dizia e tinham medo de perguntar.  Chegaram a Cafarnaum. Estando em casa, Jesus perguntou-lhes: «Que discutíeis pelo caminho?». Eles, no entanto, ficaram calados, porque pelo caminho tinham discutido quem era o maior. Jesus sentou-se, chamou os Doze e lhes disse: «Se alguém quiser ser o primeiro, seja o último de todos, aquele que serve a todos!». Em seguida, pegou uma criança, colocou-a no meio deles e, abraçando-a, disse: «Quem acolher em meu nome uma destas crianças, estará acolhendo a mim mesmo. E quem me acolher, estará acolhendo, não a mim, mas Àquele que me enviou».

«O Filho do Homem vai ser entregue »

Rev. D. Jordi PASCUAL i Bancells (Salt, Girona, Espanha)

Hoje, o Evangelho traz-nos dois ensinamentos de Jesus que estão estreitamente ligados um ao outro. Por um lado, o Senhor ensina que «o matarão e ao terceiro dia ressuscitará» (Mc 9,31). É a vontade do Pai para Ele: por isso veio ao mundo; assim nos vai libertar da escravidão do pecado e da morte eterna; desta forma Jesus nos fará filhos de Deus. A entrega do Senhor até ao extremo de dar a sua vida por nós, mostra a infinidade do Amor de Deus: um Amor sem medida, um Amor que não se importa de se baixar até a loucura e ao escândalo da Cruz.

Parece aterrador ouvir a reação dos Apóstolos, ainda demasiado ocupados em se contemplarem a si próprios e esquecendo-se de aprenderem com o Mestre: «Não entendiam o que dizia» (Mc 9,32), pois pelo caminho iam discutindo qual deles seria o maior e, se por acaso lhes tocasse, não se atreviam a fazer-lhe nenhuma pergunta.

Com delicada paciência, Jesus acrescenta: devemos tornar-nos último e servidor de todos. Devemos acolher o simples e o pequeno, pois o Senhor quis identificar-se com eles. Devemos acolher a Jesus na nossa vida, pois assim abrimos as portas ao próprio Deus. É como um programa de vida para ir caminhando.

Assim o explica com toda clareza o Santo Cura de Ars, João Batista, Mª Vianney: «Cada vez que podemos renunciar à nossa vontade para fazer a dos outros, sempre que esta não esteja contra a lei de Deus, conseguimos méritos que apenas Deus conhece». Jesus ensina-nos com as suas palavras, mas, sobretudo com as suas obras. Aqueles Apóstolos, num principio duros em aprender, depois da Cruz e da Ressurreição, seguirão as impressões do seu Senhor e do seu Deus. E, acompanhados por Maria Santíssima, se tornarão cada vez menores para que Jesus cresça neles e no mundo.

Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm.

* O evangelho de hoje traz o segundo anúncio da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus. Como no primeiro anúncio (Mc 8,27-38), os discípulos ficam espantados e com medo. Não entendem a palavra sobre a cruz, porque não são capazes de entender nem de aceitar um Messias que se faz empregado e servidor dos irmãos. Eles continuam sonhando com um messias glorioso e mostram, além disso, uma grande incoerência. Enquanto Jesus anuncia a sua Paixão e Morte, eles discutem entre si quem deles é o maior. Jesus quer servir, eles só pensam em mandar! A ambição os leva a se auto-promover às custas de Jesus. Até hoje, aqui e acolá, o mesmo desejo de autopromoção aparece nas nossas comunidades.

* Tanto na época de Jesus como na época de Marcos, havia o “fermento” da ideologia dominante. Também hoje, a ideologia das propagandas do comércio, do consumismo, das novelas influi profundamente no modo de pensar e de agir do povo. Na época de Marcos, nem sempre as comunidades eram capazes de manter uma atitude crítica frente à invasão da ideologia do império romano. E hoje?

* Marcos 9,30-32: O anúncio da Cruz.
Jesus caminha através da Galileia, mas não quer que o povo o saiba, pois está ocupado com a formação dos discípulos e discípulas, e conversa com eles sobre a Cruz. Ele diz que, conforme a profecia de Isaías (Is 53,1-10), o Filho do Homem deve ser entregue e morto. Isto mostra como Jesus se orientava pela Bíblia, tanto na realização da sua própria missão, como na formação dada aos discípulos. Ele tirava o seu ensinamento das profecias. Como no primeiro anúncio (Mc 8,32), os discípulos o escutam, mas não entendem a palavra sobre a cruz. Mesmo assim, não pedem esclarecimento. Eles têm medo de deixar transparecer sua ignorância!

* Marcos 9,33-34: A mentalidade de competição.
Chegando a casa, Jesus pergunta: “Sobre que vocês estavam discutindo no caminho?” Eles não respondem. É o silêncio de quem se sente culpado, “pois pelo caminho discutiam sobre quem deles era o maior”. Jesus é bom pedagogo. Não intervém logo. Ele sabe aguardar o momento oportuno para combater a influência da ideologia nos seus formandos. A mentalidade de competição e de prestígio, que caracterizava a sociedade do Império Romano, já se infiltrava na pequena comunidade que estava apenas começando! Aqui aparece o contraste, a incoerência: enquanto Jesus se preocupa em ser o Messias Servidor, eles só pensam em ser o maior. Jesus procura descer. Eles querem subir!

* Marcos 9,35-37: Servir, em vez de mandar.
A resposta de Jesus é um resumo do testemunho de vida que ele mesmo vinha dando desde o começo: Quem quer ser o primeiro seja o último de todos, o servidor de todos! Pois o último não ganha prêmio nem recompensa. É um servo inútil (cf. Lc 17,10). O poder deve ser usado não para subir e dominar, mas para descer e servir. Este é o ponto em que Jesus mais insistia e em que mais deu o seu próprio testemunho (cf. Mc 10,45; Mt 20,28; Jo 13,1-16). Em seguida, Jesus coloca uma criança no meio deles. Uma pessoa que só pensa em subir e dominar, não daria tão grande atenção aos pequenos e às crianças. Mas Jesus inverte tudo! Ele diz: Quem receber uma destas crianças em meu nome é a mim que recebe. Quem recebe a mim recebe aquele que me enviou! Ele se identifica com as crianças. Quem acolhe os pequenos em nome de Jesus, acolhe o próprio Deus!

* Não é pelo fato de uma pessoa “seguir Jesus” que ela já é santa e renovada. No meio dos discípulos, cada vez de novo, o “fermento de Herodes e dos fariseus” (Mc 8,15) levantava a cabeça. No episódio do evangelho de hoje, Jesus aparece como o mestre que forma os seus seguidores. "Seguir" era um termo que fazia parte do sistema educativo da época. Era usado para indicar o relacionamento entre o discípulo e o mestre. O relacionamento mestre-discípulo é diferente do relacionamento professor-aluno. Os alunos assistem às aulas do professor sobre uma determinada matéria. Os discípulos "seguem" o mestre e convivem com ele, vinte e quatro horas por dia. Foi nesta "convivência" de três anos com Jesus, que os discípulos e as discípulas receberam a sua formação. O Evangelho de amanhã nos dará outro exemplo muito concreto de como Jesus formava seus discípulos.

Para um confronto pessoal
1) Jesus quer descer e servir. Os discípulos querem subir e dominar. E eu? Qual a motivação mais profunda do meu “eu” desconhecido?
2) Seguir Jesus e estar com ele, vinte e quatro horas por dia, e deixar que o seu modo de viver se torne o meu modo de viver e de conviver. Isto está acontecendo em mim?

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Segunda-feira da 7ª semana do Tempo Comum

Btos Francisco e Jacinta Marto
a quem N Sra apareceu em Fátima
Evangelho (Mc 9,14-29): Quando voltaram para junto dos discípulos, encontraram-nos rodeados por uma grande multidão, e os escribas discutiam com eles. Logo que a multidão viu Jesus, ficou admirada e correu para saudá-lo. Jesus perguntou: «Que estais discutindo?». Alguém da multidão respondeu-lhe: «Mestre, eu trouxe a ti o meu filho que tem um espírito mudo. Cada vez que o espírito o agride, joga-o no chão, e ele começa a espumar, range os dentes e fica completamente duro. Eu pedi aos teus discípulos que o expulsassem, mas eles não conseguiram».  Jesus lhes respondeu: «Ó geração sem fé! Até quando vou ficar convosco? Até quando vou suportar-vos? Trazei-me o menino!». Levaram-no. Quando o espírito viu Jesus, sacudiu violentamente o menino, que caiu no chão e rolava espumando. Jesus perguntou ao pai: «Desde quando lhe acontece isso? O pai respondeu: «Desde criança. Muitas vezes, o espírito já o lançou no fogo e na água, para matá-lo. Se podes fazer alguma coisa, tem compaixão e ajuda-nos». Jesus disse: «Se podes…? Tudo é possível para quem crê». Imediatamente, o pai do menino exclamou: «Eu creio! Ajuda-me na minha falta de fé».  Vendo Jesus que a multidão se ajuntava ao seu redor, repreendeu o espírito impuro: «Espírito mudo e surdo, eu te ordeno: sai do menino e nunca mais entres nele». O espírito saiu, gritando e sacudindo violentamente o menino. Este ficou como morto, tanto que muitos diziam: «Morreu!». Mas Jesus o tomou pela mão e o levantou; e ele ficou de pé. Depois que Jesus voltou para casa, os discípulos lhe perguntaram, em particular: «Por que nós não conseguimos expulsá-lo?». Ele respondeu: «Essa espécie só pode ser expulsa pela oração».

«Ajuda-me na minha falta de fé»

Rev. D. Antoni CAROL i Hostench  (Sant Cugat del Vallès, Barcelona, Espanha)

Hoje contemplamos — mais uma vez!— o Senhor solicitado pela gente («correu para saudá-lo») e, por sua vez, Ele solícito da gente, sensível as suas necessidades. Em primeiro lugar quando suspeita que alguma coisa está acontecendo, se interessa pelo problema. Intervém um dos protagonistas, isto é, o pai de um jovem que está possuído por um espírito maligno: «Mestre, eu trouxe a ti o meu filho que tem um espírito mudo. Cada vez que o espírito o agride, joga-o no chão, e ele começa a espumar, range os dentes e fica completamente duro» (Mc 9,17-18).

É terrível o mal que o Diabo pode chegar a fazer! Uma criatura sem caridade. — Senhor, temos que rezar! «Livra-nos do mal» Não se entende, como hoje em dia, pode haver vozes que dizem que o Diabo não existe, ou outros que lhe rendem algum tipo de culto... É absurdo! Nós temos que tirar uma lição de tudo isto: não se pode brincar com fogo!

«Eu pedi aos teus discípulos que o expulsassem, mas eles não conseguiram». (Mc 9,18). Quando Jesus ouve essas palavras, sente grande desgosto. Desgosta-se, sobretudo, pela falta de fé... E lhes falta fé porque tem que rezar mais: «Essa espécie só pode ser expulsa pela oração» (Mc 9,29).

A oração é um diálogo “íntimo” com Deus. João Paulo II tem afirmado que «a oração supõe sempre uma espécie de encobrimento com Cristo em Deus. Só nesse “encobrimento” atua o Espírito Santo» Em um ambiente íntimo de encobrimento se pratica a assiduidade amistosa com Jesus, a partir da qual se gera o incremento de confiança Nele, quer dizer, o aumento da fé.

Mas esta fé, que move montanhas e expulsa espíritos maliciosos («Tudo é possível para quem crê») é, sobretudo, um dom de Deus. Nossa oração, em todo caso, nos coloca em disposição para receber o dom. Mas a esse dom temos que implorá-lo: «Eu creio! Ajuda-me na minha falta de fé» (Mc 9,24). A resposta de Cristo não se fará “rogar”!

Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm

* O evangelho de hoje informa que os discípulos de Jesus não foram capazes de expulsar o demônio do corpo de um menino. O poder do mal foi maior do que a capacidade deles. Hoje também, há muitos males que são maiores do que a nossa capacidade de enfrentá-los: violência, drogas, guerra, doenças, desemprego, terrorismo, etc. Fazemos um grande esforço, mas ao que parece, em vez de melhorar, parece que o mundo fica até pior. Adianta lutar? Com esta pergunta na cabeça vamos ler e meditar o evangelho de hoje.

* Marcos 9,14-22: A situação do povo: desespero sem solução.
Na descida da montanha da Transfiguração, Jesus encontrou muita gente ao redor dos discípulos. Um pai estava desesperado, pois um espírito mudo tinha tomado conta do filho. Com muitos detalhes Marcos descreve a situação do menino possesso, a angústia do pai, a incapacidade dos discípulos e a reação de Jesus. O que mais chama atenção são duas coisas: de um lado, a confusão e a impotência do povo e dos discípulos diante do fenômeno da possessão e, do outro lado, o poder de Jesus e o poder da fé em Jesus diante do qual o demônio perde toda a sua influência. O pai tinha pedido aos discípulos para expulsar o demônio do menino, mas eles não foram capazes. Jesus ficou impaciente e disse: “Até quando vou aguentar esta geração sem fé! Tragam o menino aqui!”. Jesus pergunta a respeito da doença do menino. Pela resposta do pai, Jesus fica sabendo que o menino, “desde pequeno”, tinha uma doença grave que o colocava em perigo de vida. O pai pede: “Se o senhor puder fazer alguma coisa, tenha pena de nós!” A frase do pai expressa a situação bem real do povo: (1) tem a fé abalada, (2) está sem condições de resolver os problemas, mas (3) tem muito boa vontade de acertar.

* Marcos 9,23-27: A resposta de Jesus: o caminho da fé.
O pai tinha dito: “Se o senhor puder fazer alguma coisa,....!” Jesus não gostou da afirmação: “Se o senhor puder...”. Tal condição não podia ser colocada, pois “tudo é possível a quem tem fé!” O pai responde: Eu creio, Senhor! Mas ajude a minha falta de fé! A resposta do pai ocupa um lugar central neste episódio. Ela mostra como deve ser a atitude do discípulo, da discípula, que, apesar de seus limites e dúvidas, quer ser fiel. Vendo que vinha muita gente, Jesus agiu rápido. Ordenou ao espírito que saísse do menino e não voltasse “nunca mais!” Sinal do poder de Jesus sobre o mal. Sinal também de que Jesus não queria propaganda populista.

* Marcos 9,28-29. Aprofundamento com os discípulos.
Em casa, os discípulos querem saber porque não foram capazes de expulsar o demônio. Jesus responde: Esta espécie de demônios só sai com muita oração! Fé e oração andam juntas. Uma sem a outra não existe. Os discípulos tinham piorado. Antes, eles tinham sido capazes de expulsar os demônios (cf. Mc 6,7.13). Agora, já não conseguem mais. Faltou o que? Fé ou oração? Por que faltou? São perguntas que saem do texto e entram na nossa cabeça para que façamos, também nós, uma séria revisão da nossa vida.

* A expulsão dos demônios no evangelho de Marcos
No tempo de Jesus, muita gente falava em Satanás e em expulsão de demônios. Havia muito medo, e havia pessoas que exploravam o medo do povo. O poder do mal tinha muitos nomes: Demônio, Diabo, Belzebu, Príncipe dos demônios, Satanás, Dragão, Dominações, Poderes, Potestades, Soberanias, Besta-fera, Lúcifer, etc. (cf. Mc 3,22.23; Mt 4,1; Ap 12,9; Rm 8,38; Ef 1,21). Hoje, entre nós, o poder do mal também tem muitos nomes. Basta consultar o dicionário no verbete Diabo ou Demônio. Também hoje, muita gente desonesta se enriquece, explorando o medo que o povo tem do demônio. Ora, um dos objetivos da Boa Nova de Jesus é, precisamente, ajudar o povo a se libertar deste medo. A chegada do Reino de Deus significa a chegada de um poder mais forte. O homem forte era uma imagem para designar o poder do mal que mantinha o povo dentro da prisão do medo (Mc 3,27). O poder do mal oprime as pessoas e as aliena de si. Faz com que vivam no medo e na morte (cf. Mc 5,2). É um poder tão forte que ninguém consegue amarrá-lo (cf. Mc 5,4). O império romano com suas “Legiões” (cf. Mc 5,9), isto é, com seus exércitos, era o instrumento usado para manter esta situação de opressão. Mas Jesus é o homem mais forte que vence, amarra e expulsa o poder do mal! Na carta aos Romanos, o apóstolo Paulo faz a enumeração de todos os possíveis poderes ou demônios que poderiam ameaçar-nos, e resume tudo da seguinte maneira: “Nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem o presente, nem o futuro, nem os poderes, nem a altura, nem a profundeza, nem outra criatura qualquer! Nada nos pode separar do amor de Deus que se manifestou em Cristo Jesus, nosso Senhor!” (Rm 8,38-39) Nada mesmo! E as primeiras palavras de Jesus depois da ressurreição são estas: “Não fiquem assustadas! Alegrem-se! Não tenham medo! A paz esteja com vocês!” (Mc 16,6; Mt 28,9.10; Lc 24,36; Jo 20,21).

Para um confronto pessoal
1) Você já viveu alguma vez uma experiência de impotência diante do mal e da violência? Foi experiência só sua ou também da comunidade? Como venceu e se reencontrou?
2) Qual a espécie de poder do mal que, hoje, só sai com muita oração?

VII Domingo do Tempo Comum

Evangelho (Mt 5, 38-48): «Ouvistes que foi dito: ‘Olho por olho e dente por dente! ’ Ora, eu vos digo: não ofereçais resistência ao malvado! Pelo contrário, se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a esquerda! Se alguém quiser abrir um processo para tomar a tua túnica, dá-lhe também o manto! Se alguém te forçar a acompanhá-lo por um quilômetro, caminha dois com ele! Dá a quem te pedir, e não vires as costas a quem te pede emprestado.  Ouvistes que foi dito: ‘Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo!’ Ora, eu vos digo: Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem! Assim vos tornareis filhos do vosso Pai que está nos céus; pois ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons e faz cair a chuva sobre justos e injustos. Se amais somente aqueles que vos amam, que recompensa tereis? Os publicanos não fazem a mesma coisa? E se saudais somente os vossos irmãos, que fazeis de extraordinário? Os pagãos não fazem a mesma coisa? Sede, portanto, perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito».

«Sede, portanto, perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito»

Pe. José PLAZA Monárdez (Calama, Chile)

Hoje, a Palavra de Deus, ensina-nos que a fonte original e a medida da santidade estão em Deus: «Sede, portanto, perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito» (Mt 5,48). Ele inspira-nos, e caminhamos para ele. O caminho é percorrido sob a nova lei, a lei do Amor. O amor é o condutor seguro dos nossos ideais, expresso tão certeiramente neste quinto capítulo do Evangelho de São Mateus.

A antiga lei de Talião do livro do Êxodo (cf. Ex 21,23-35) — que pretendia ser uma lei que evitasse as vinganças implacáveis e restringir o “olho por olho”, a apologia da guerra — é definitivamente superada pela lei do amor. Nestes versículos entrega-se toda uma Carta Magna da oral crente: o amor de Deus ao próximo.

O Papa Bento XVI disse-nos: «Só o serviço ao próximo abre os meus olhos ao que Deus faz por mim e ao muito que me ama». Jesus apresenta-nos a lei de uma justiça superabundante, pois o mal não se vence causando mais dano, mas expulsando-o da nossa vida, cortando assim a sua eficácia contra nós.

Para vencer — diz-nos Jesus — é preciso ter um grande domínio interior e a suficiente claridade de saber por qual lei nos regemos: a lei do amor incondicional, gratuito e magnânimo. O amor levou-O à cruz, pois o ódio vence-se com amor. Este é o caminho da vitória, sem violência, com humildade e amor gozoso, pois Deus é Amor feito ação. E se os nossos atos procedem deste mesmo amor que não defrauda, o Pai nos reconhecerá como seus filhos. Este é o caminho perfeito, o do amor superabundante que nos põe na corrente no Reino, cuja expressão mais fiel é a sublime manifestação do transbordante amor que Deus derramou nos nossos corações pelo dom do Espírito Santo (cf. Rom 5,5).

«Sede perfeitos, como O vosso Pai celeste é perfeito»

Anabela Tavares da Silva, fma

A passagem bíblica proposta para este Domingo coloca em contraposição alguns imperativos da Lei antiga que podemos encontrar no livro do Êxodo e do Levítico com o magistério de Jesus narrado nos Evangelhos.

O ensinamento que o Mestre quer transmitir coloca em realce e valoriza o mandamento do Amor. Às duas fortes expressões veterotestamentárias “Ouvistes o que foi dito…”, Jesus contrapõe com uma expressão igualmente forte “Eu, porém, digo-vos…”. Com isto não pretende anular as prescrições judaicas mas apresenta uma proposta de vida mais elevada: trata-se de obedecer a outros imperativos que não se limitam a um fiel cumprimento formal de normas que fazem parte de uma tradição religiosa mas dilata para um empenho ativo que faz com que o cristão seja semelhante ao seu Deus – amar com todo o coração, com toda a inteligência, com toda a alma, com todas as suas forças e ao próximo com a si mesmo.

Jesus não nos convida a sermos legalistas mas “perfeitos”: a caminhar na estrada do amor para alcançar a santidade. Não nos convida simplesmente a sermos observadores de leis e normas, mas que sejamos e nos sintamos filhos. Filho é aquele que faz o que agrada ao pai. Em nome desta filiação divina todos somos chamados a imitar o modo de amar de Deus, autêntico, profundo, sem descriminação, aberto a todos.

Jesus continua a ensinar os seus discípulos. Em continuação com os domingos passados apresenta as suas interpretações relativas aos escritos da Torá de Israel.

A lei citada por Jesus de fato era permitida nas sociedades antigas (a lei da retaliação) segundo a qual a vingança e as represálias eram permitidas. Mas perante esta lei Jesus, com a autoridade que lhe é dada do céu, contradiz: Não resistais ao homem mau. O convite é não exercer violência sobre as pessoas que muitas vezes usam a vingança como arma poderosa e destruidora. Parece algo fora da lógica humana que possivelmente entende que se deve agir segundo a lei dos antigos.

O agir de Jesus está muito longe do modo de fazer dos antigos. Ele decreta que responder às provocações não é justo e isto não para pensarmos que o MAL é coisa boa, mas porque é necessário parar com a cadeia de causa- efeito. As palavras de Jesus: Eu, porém, digo-vos, sublinham que é Ele a pedir que assim seja, é Ele a falar, a Palavra de Deus feita carne, origem da Lei, Aquele que tem a plena autoridade.

Ele fala a “vós”: fala para todos os seus discípulos, os seus contemporâneos e os futuros. Fala para os que O escutam e desejam viver segundo o seu estilo. Jesus é muito claro: os verdadeiros discípulos devem desfazer a espiral da violência e recusar responder ao mal com o mal. E uma das formas de interromper o ciclo é o perdão. Será um gesto absolutamente novo e desconcertará muitos. E o convite é também para nós, hoje. Basta olharmos à nossa volta: parece que a violência está a um clic na TV, na Internet… afinal de que justiça estamos nós à procura? Qual justiça esperamos?

Como sempre fez, e fê-lo bem, Jesus exemplifica o seu pensar e ensinamento através de 4 situações que fazem parte do seu quotidiano. Parece algo paradoxal e humilhante: apresentar as duas faces numa cultura em que a bofetada é entendida como ofensiva assim como deixar-se levar a tribunal para lhe tirar o que lhe resta, a túnica.

Com estes dois exemplos, Jesus explica qual o comportamento que deseja para os seus discípulos: a bondade, a disponibilidade, a prontidão. Pessoas que não respondem com discussões e contendas. O autêntico discípulo de Jesus sabe responder ao mal com o bem, distingue-se pelos outros porque não se deixa levar por sentimentos de represália, de maldade, ódio mas permanece firme na resolução determinante em amar, em dar com generosidade sem calcular oportunidades e conveniências. Não usa violência física nem vive apegado às coisas. Afasta-se dos conflitos mesmo que o privem de algo valioso e imprescindível, como uma túnica. Na sua capacidade de amar ainda dá o que lhe resta, o manto.

Jesus continua com mais dois exemplos. Primeiro a referência a certo abuso do poder por parte de pessoas com autoridade para com os pobres, a gente simples do povo. Obrigar a fazer o que se pede como recrutar alguém para servir de guia ou simplesmente para acompanhar ou carregar algo. E no segundo exemplo, a questão de não se voltar as costas a quem pede emprestado, não passar indiferente perante situações que requerem a nossa generosidade e solidariedade.

Mais uma vez, Jesus tenta fazer entender que a lógica evangélica não é uma modalidade absurda em que se deve renunciar a uma desejável justiça ou que é preciso fechar os olhos e fingir que não se vê abusos ou pedidos interesseiros e que tolera a violência nas suas variadas formas. Apela-se a que não deixemos de lado a generosidade, que não se passe indiferente, que não se faça de conta que não se entende, que não procuremos desculpas. Se se conseguir deitar a mão a quem pede, mesmo por interesse ou descaradamente, que nunca falte da nossa parte o gesto da caridade. O que sentimos que devemos fazer, façamo-lo em nome da caridade.

Dentro de todo o contexto, o duplo mandamento de Jesus é paradoxal. Mas Ele sabe quem tem à sua frente: hebreus que conhecem bem a lei antiga. Quando lança o seu duplo mandamento sabe que vem completar algo que precisa de ser pleno. A vinda e a presença de Jesus mudou algo. Os seus ensinamentos e sobretudo o seu testemunho de vida, continuamente, mostram que no coração de quem ama não existe distinções entre amigo e inimigo; que vale a pena dar a vida, sempre, e não só quando o gesto é reconhecido e apreciado; que é possível fazer morrer o mal em nós mesmos, não lhe dando tréguas, combatendo-o com um extraplus de bem. E tudo isto leva, por sua vez, a rezar por quem nos persegue, por quem nos torna a vida impossível.

Tudo isto para que nos mostremos como filhos de Deus. Esta é a ética cristã: a exigência do amor gratuito que não espera nada em troca.

Deus não faz distinção entre justos e injustos, bons e maus. Na sua infinita bondade e misericórdia concede os mesmos benefícios a uns e a outros.

Quem segue as indicações de Jesus transparece a natureza de Deus Pai. Quem assim procede está seguro de ser filho de Deus, de Deus que é Pai e que não priva ninguém dos seus benefícios ou graças. É péssimo quando, em nome de Deus, os seres humanos fazem distinção entre bons e maus e lutam entre si. Se ousam fazê-lo em nome de Deus, é uma ofensa.

Amar e rezar torna-nos filhos de Deus, permite-nos viver como familiares de Deus e olhar para o mundo de hoje com os seus olhos. A oração, para nós cristãos, é o meio para amarmos cada vez mais e melhor, como Deus.

Jesus coloca algumas interrogações para mostrar como o caminho indicado tem sentido e é coerente com o agir de Deus. Interrogações que nos levam a fazer um exame de consciência, pois, nos coloca em confronto com os que tantas vezes denunciamos e vemos que triunfam. Mas a nossa meta está bem definida: sede perfeitos como o vosso Pai celeste que está nos céus. Perfeitos no amor.

A nossa meta é amar sem medida, como faz Deus conosco. Amar quem já sabemos que nos ama, saudar apenas as pessoas que já nos conhecem e saber que delas recebemos todo o carinho… o que tem de extraordinário? Se apenas amo estes, vivo uma perfeição egoísta que acabará por morrer.

Como filhos de Deus temos de ser superiores a isso: ser perfeitos no amor sem limites, com um coração disponível para abraçar a todos sem excluir ninguém. Há uma recompensa a receber, a vida eterna. Regressa aqui a lógica das Bem-aventuranças… Ser perfeito como o Pai celeste é ser perfeito no amor que se dá sem medida. Este é o nosso caminho, esta é a nossa meta para a eternidade, a vida em Deus. E só isto nos basta.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Sábado VI do Tempo Comum

Evangelho (Mc 9,2-13): Seis dias depois, Jesus levou consigo Pedro, Tiago e João e os fez subir a um lugar retirado, no alto de uma montanha, a sós. Lá, ele foi transfigurado diante deles. Sua roupa ficou muito brilhante, tão branca como nenhuma lavadeira na terra conseguiria torná-la assim. Apareceram-lhes Elias e Moisés, conversando com Jesus.  Pedro então tomou a palavra e disse a Jesus: «Rabi, é bom ficarmos aqui. Vamos fazer três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias». Na realidade, não sabia o que devia falar, pois eles estavam tomados de medo. Desceu, então, uma nuvem, cobrindo-os com sua sombra. E da nuvem saiu uma voz: «Este é o meu Filho amado. Escutai-o!». E, de repente, olhando em volta, não viram mais ninguém: só Jesus estava com eles.  Ao descerem da montanha, Jesus ordenou-lhes que não contassem a ninguém o que tinham visto, até que o Filho do Homem ressuscitasse dos mortos. Eles ficaram pensando nesta palavra e discutiam entre si o que significaria esse «ressuscitar dos mortos».  Perguntaram a Jesus: «Por que os escribas dizem que primeiro deve vir Elias?». Ele respondeu: «Sim, Elias vem primeiro, para pôr tudo em ordem. Por outro lado, como está escrito a respeito do Filho do Homem que ele deve sofrer muito e ser desprezado? E eu vos digo mais: também Elias veio, e fizeram com ele tudo o que quiseram, exatamente como está escrito a seu respeito».

«Ordenou-lhes que não contassem a ninguém o que tinham visto»

Rev. D. Xavier ROMERO i Galdeano (Cervera, Lleida, Espanha)

Hoje, o Evangelho da transfiguração apresenta-nos um enigma já decifrado. O texto evangélico de São Marcos está pleno de segredos messiânicos, de momentos pontuais nos quais Jesus proíbe que se dê a conhecer o que fizera. Hoje encontramo-nos perante um “botão de arranque”. Assim, Jesus «ordenou-lhes que não contassem a ninguém o que tinham visto, até que o Filho do Homem ressuscitasse dos mortos» (Mc 9,9).

Em que consiste este segredo messiânico? Trata-se de levantar um pouco o véu daquilo que se esconde debaixo, mas que apenas será revelado totalmente no fim dos dias de Jesus, à luz do Mistério Pascal. Hoje vemo-lo claro neste Evangelho: a transfiguração é um momento, uma captação de glória para decifrar aos discípulos o sentido daquele momento íntimo.

Jesus tinha anunciado aos seus discípulos a iminência da sua paixão, mas ao vê-los tão perturbados por tão trágico fim, explica-lhes com feitos e palavras como será o final dos seus dias: umas jornadas de paixão, de morte, mas que concluirão com a ressurreição. Eis aqui o enigma decifrado. Santo Tomás de Aquino diz: «Para que uma pessoa caminhe retamente por um caminho é necessário que conheça com anterioridade, de alguma forma, o lugar ao qual se dirige».

Também a nossa vida de cristãos tem um fim revelado por Nosso Senhor Jesus Cristo: gozar eternamente de Deus. Mas esta meta não está isenta de momentos de sacrifício e de cruz. Com tudo, devemos recordar a mensagem viva do Evangelho de hoje: neste beco aparentemente sem saída, que é frequentemente a vida, pela nossa fidelidade a Deus, vivendo imersos no espírito das Bem-aventuranças, surgirá uma brecha no final trágico que nos permitirá gozar eternamente de Deus.

Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm.

* O evangelho de hoje traz dois assuntos ligados entre si: a Transfiguração de Jesus e a questão do retorno do profeta Elias. Naquele tempo, o povo esperava pelo retorno do profeta Elias. Hoje, muita gente vive esperando pelo retorno de Jesus e escreve nos muros da cidade: Jesus voltará! Eles não se dão conta de que Jesus já voltou e já está presente no coração da nossa vida. De vez em quando, como num relâmpago repentino, esta presença de Jesus irrompe e se ilumina, transfigurando nossa vida.

* A Transfiguração de Jesus acontece depois do primeiro anúncio da Morte de Jesus (Mc 8,27-30). Este anúncio tinha transtornado a cabeça dos discípulos, sobretudo de Pedro (Mc 8,31-33). Eles tinham os pés no meio dos pobres, mas a cabeça estava perdida na ideologia do governo e da religião da época (Mc 8,15). A cruz era um impedimento para crer em Jesus. A transfiguração de Jesus vai ajudar os discípulos a superar o trauma da Cruz.

* Nos anos 70, quando Marcos escreve, a Cruz continuava sendo um grande impedimento para os judeus aceitarem Jesus como Messias. “A cruz é um escândalo!”, assim diziam (1Cor 1,23). Um dos maiores esforços dos primeiros cristãos consistia em ajudar as pessoas a perceber que a cruz não era escândalo nem loucura, mas sim expressão do poder e da sabedoria de Deus (1Cor 1,22-31). Marcos dá a sua contribuição neste esforço. Ele usa textos e figuras do Antigo Testamento para descrever a Transfiguração. Assim ele mostra que Jesus veio realizar as profecias e que a Cruz era o caminho para a Glória.

* Marcos 9,2-4: Jesus muda de aspecto.
Jesus sobe a uma montanha alta. Lucas acrescenta que ele subiu para rezar (Lc 9,28). Lá em cima, Jesus aparece na glória diante de Pedro, Tiago e João. Junto com ele aparecem Moisés e Elias. A Montanha alta evoca o Monte Sinai, onde, no passado, Deus tinha manifestado sua vontade ao povo, entregando a lei. As vestes brancas lembram Moisés que ficava fulgurante quando conversava com Deus na Montanha e dele recebia a lei (cf. Ex 34,29-35). Elias e Moisés, as duas maiores autoridades do Antigo Testamento, conversam com Jesus. Moisés representa a Lei, Elias, a profecia. Lucas informa que a conversa foi sobre “o êxodo de Jesus”, isto é, a Morte de Jesus em Jerusalém (Lc 9,31). Assim fica claro que, o Antigo Testamento, tanto a Lei como a profecia, já ensinava que, para o Messias Servidor, o caminho da glória tinha de passar pela cruz.

* Marcos 9,5-6: Pedro gostou, mas não entendeu.
Pedro gostou e quis segurar o momento agradável na Montanha. Ele se oferece para construir três tendas. Marcos diz que Pedro estava com medo, sem saber o que estava dizendo, e Lucas acrescenta que os discípulos estavam com sono (Lc 9,32). Eles são como nós: têm dificuldade para entender a Cruz!

* Marcos 9,7-9: A voz do céu esclarece os fatos.
Enquanto Jesus é envolvido pela glória, uma voz do céu diz: “Este é o meu Filho amado! Ouvi-o!”. A expressão “Filho amado” lembra a figura do Messias Servidor, anunciado pelo profeta Isaías (cf. Is 42,1). A expressão “Ouvi-o!” lembra a profecia que prometia a chegada de um novo Moisés (cf. Dt 18,15). Em Jesus, as profecias do Antigo Testamento estão se realizando. Os discípulos já não podem duvidar. Jesus é realmente o Messias glorioso que eles desejam, mas o caminho para a glória passa pela cruz, conforme tinha sido anunciado na profecia do Servo (Is 53,3-9). A glória da Transfiguração o comprova. Moisés e Elias o confirmam. O Pai o garante. Jesus o aceita. No fim, Marcos diz que, depois da visão, os discípulos veem só Jesus e ninguém mais. Daqui para frente, Jesus é a única revelação de Deus para nós! Jesus, e só ele, é a chave para a gente entender todo o Antigo Testamento.

* Marcos 9, 9-10: Saber guardar o silêncio.
Jesus pedia aos discípulos para não dizerem nada a ninguém até que ele tivesse ressuscitado dos mortos, mas os discípulos não o entenderam. De fato, não entende o significado da Cruz quem não liga o sofrimento com a ressurreição. A Cruz de Jesus é a prova de que a vida é mais forte que a morte.

* Marcos 9,11-13: A volta do profeta Elias.
O profeta Malaquias tinha anunciado que Elias devia voltar para preparar o caminho do Messias (Ml 3,23-24). O mesmo anúncio está no livro do Eclesiástico (Eclo 48,10). Então, como Jesus podia ser o Messias, se Elias ainda não tinha voltado? Por isso, os discípulos perguntam: “Por que motivo os escribas dizem que Elias deve vir primeiro?” (9,11). A resposta de Jesus é clara: “Elias já veio e fizeram com ele tudo o que quiseram, conforme dele está escrito” (9, 13). Jesus estava falando de João Batista que foi assassinado por Herodes (Mt 17,13).

Para um confronto pessoal
1) A sua fé em Jesus já proporcionou a você algum momento de transfiguração e de alegria intensa? Como estes momentos de alegria dão força na hora das dificuldades?
2) Como transfigurar, hoje, tanto a vida pessoal e familiar, como a vida comunitária?

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Sexta-feira da 6ª semana do Tempo Comum

Evangelho (Mc 8,34-9,1): Chamou, então, a multidão, juntamente com os discípulos, e disse-lhes: «Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me! Pois quem quiser salvar sua vida a perderá; mas quem perder sua vida por causa de mim e do Evangelho, a salvará. De fato, que adianta alguém ganhar o mundo inteiro, se perde a própria vida? E que poderia alguém dar em troca da própria vida? Se alguém se envergonhar de mim e de minhas palavras diante desta geração adúltera e pecadora, também o Filho do Homem se envergonhará dele, quando vier na glória do seu Pai, com seus santos anjos». E disse-lhes: «Em verdade vos digo: alguns dos que estão aqui não provarão a morte, sem antes terem visto o Reino de Deus chegar com poder».

«Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me!»

+ Rev. D. Joaquim FONT i Gassol (Igualada, Barcelona, Espanha)

Hoje o Evangelho nos fala sobre dois temas contemporâneos: a nossa cruz de cada dia e o seu fruto, quer dizer, a Vida em maiúscula, sobrenatural e eterna.

Ficamos de pé para escutar o Santo Evangelho, como símbolo de querermos seguir os seus ensinamentos. Jesus diz que nos neguemos a nos mesmos, clara expressão de não seguir o “gosto dos caprichos” — como menciona o salmo — ou de afastar «as riquezas enganadoras», como diz São Paulo. Tomar a própria cruz é aceitar as pequenas mortificações que cada dia encontramos pelo caminho.

Pode-nos ajudar para isso a frase que Jesus disse no sermão sacerdotal, no Cenáculo: «Eu sou a videira verdadeira e meu Pai é o agricultor. Todo ramo que não dá fruto em mim, ele corta; e todo ramo que dá fruto, ele limpa, para que dê mais fruto ainda» (Jo 15,1-2). Um lavrador esperançoso, mimando o racimo para que alcance muita qualidade! Sim, queremos seguir ao Senhor! Sim, somos conscientes de que o Pai pode ajudar-nos a dar abundante fruto em nossa vida terrena e depois gozar na vida eterna.

Santo Inácio guiava a São Francisco Xavier com as palavras do texto de hoje: «De fato, que adianta alguém ganhar o mundo inteiro, se perde a própria vida?» (Mc 8,36). Assim chegou a ser o patrono das Missões. Com a mesma nuança, lemos o último Cânon do Código de Direito Canônico (n.1752): «Tendo-se diante dos olhos a salvação das almas que, na Igreja, deve ser sempre a lei suprema». São Agostinho tem a famosa lição: «Animam salvasti tuam predestinasti», que o ditado popular traduziu-a assim: «Quem salva uma alma, garante a sua». O convite é evidente.

Maria, Mãe da Divina Graça, nos dá a mão para avançar neste caminho.

Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm.

7 Santos Fundadores dos Servitas
* O Evangelho de hoje traz as condições para uma pessoa poder seguir a Jesus. Pedro não entendeu a proposta de Jesus quando este lhe falou do sofrimento e da cruz. Pedro aceita Jesus como Messias, mas não como Messias sofredor. Diante da incompreensão de Pedro, Jesus descreve o anúncio da Cruz e explica o significado da cruz para a vida dos discípulos (Mc 8,27 a 9,1).

* Contexto histórico de Marcos: Nos anos 70, quando Marcos escreve, a situação das comunidades não era fácil. Havia muito sofrimento, muitas cruzes. Seis anos antes, em 64, o imperador Nero havia decretado a primeira grande perseguição, matando muitos cristãos. Em 70, na Palestina, Jerusalém estava sendo destruída pelos romanos. Nos outros países, estava começando uma tensão forte entre judeus convertidos e judeus não convertidos. A dificuldade maior era a Cruz de Jesus. Os judeus achavam que um crucificado não podia ser o messias, pois a lei afirmava que todo crucificado devia ser considerado como um maldito de Deus (Dt 21,22-23).

* Marcos 8,34-37. Condições para seguir a Jesus
Jesus tira as conclusões que valiam para os discípulos, para os cristãos do tempo de Marcos e para nós que vivemos hoje: Quem quiser vir após mim tome sua cruz e siga-me! Naquele tempo, a cruz era a pena de morte que o império romano impunha aos marginais. Tomar a cruz e carregá-la atrás de Jesus era o mesmo que aceitar ser marginalizado pelo sistema injusto que legitimava a injustiça. A Cruz de Jesus não é fruto de fatalismo da história, nem é exigência do Pai. A Cruz é a consequência do compromisso livremente assumido por Jesus de revelar a Boa Nova de que Deus é Pai e que, portanto, todos e todas devem ser aceitos e tratados como irmãos e irmãs. Por causa deste anúncio revolucionário, ele foi perseguido e não teve medo de dar a sua vida. Prova de amor maior não há, que doar a vida pelo irmão. Em seguida, Marcos insere aqui duas frases soltas.

* Marcos 8,38-9,1. Duas frases soltas: uma exigência e um aviso.
A primeira (Mc 8,38), é a exigência para não termos vergonha do Evangelho, mas termos sim a coragem de professá-lo. A segunda (Mc 9,1), é um aviso sobre a vinda ou a presença de Jesus nos fatos da vida. Alguns achavam que Jesus viria logo (1Ts 4,15-18). Jesus, de fato, já veio e estava presente nas pessoas, sobretudo nos pobres. Mas eles não o percebiam. Jesus mesmo tinha dito: “Aquela vez que você ajudou o pobre, o doente, o sem casa, o preso, o peregrino, era eu!” (Mt 25,34-45).

Para um confronto pessoal
1. Qual é a cruz que pesa sobre mim e que me torna a vida pesada? Como a carrego?
2. Ganhar a vida ou perder a vida; ganhar o mundo inteiro ou perder a alma; ter vergonha do evangelho ou professa-lo publicamente. Como isto acontece em minha vida hoje?