quarta-feira, 26 de junho de 2013

Quinta-feira da 12ª semana do Tempo Comum

As orações do Mês do Coração de Jesus estão na pasta de Informações e Orações.

Evangelho (Mt 7,21-29): «Nem todo aquele que me diz: ‘Senhor! Senhor!’, entrará no Reino dos Céus, mas só aquele que põe em prática a vontade de meu Pai que está nos céus. Naquele dia, muitos vão me dizer: ‘Senhor, Senhor, não foi em teu nome que profetizamos? Não foi em teu nome que expulsamos demônios? E não foi em teu nome que fizemos muitos milagres?’ Então, eu lhes declararei: ‘Jamais vos conheci. Afastai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade’. Portanto, quem ouve estas minhas palavras e as põe em prática é como um homem sensato, que construiu sua casa sobre a rocha. Caiu a chuva, vieram as enchentes, os ventos deram contra a casa, mas a casa não desabou, porque estava construída sobre a rocha. Por outro lado, quem ouve estas minhas palavras e não as põe em prática é como um homem sem juízo, que construiu sua casa sobre a areia. Caiu a chuva, vieram as enchentes, os ventos sopraram e deram contra a casa, e ela desabou, e grande foi a sua ruína!».  Quando ele terminou estas palavras, as multidões ficaram admiradas com seu ensinamento. De fato, ele as ensinava como quem tem autoridade, não como os escribas.

Comentário: Rev. D. Joan Pere PULIDO i Gutiérrez (Sant Feliu de Llobregat, Espanha)

Nem todo aquele que me diz: ‘Senhor! Senhor! ’, entrará no Reino dos Céus

Hoje ficamos impressionados com a rotunda afirmação de Jesus: «Nem todo aquele que me diz: ‘Senhor! Senhor!’, entrará no Reino dos Céus, mas só aquele que põe em prática a vontade de meu Pai que está nos céus» (Mt 7,21). Pelo menos esta afirmação pede-nos responsabilidade perante a nossa condição de cristãos, ao mesmo tempo que sentimos a urgência de dar bom testemunho da fé.

Edificar a casa sobre rocha é uma imagem clara, que nos convida a valorizar o nosso compromisso de fé, que não se pode limitar apenas a belas palavras, mas que se deve fundamentar na autoridade das obras, impregnadas pela caridade. Um destes dias de Junho, a Igreja recorda a vida de S. Pelágio, mártir da castidade, no umbral da sua juventude. S. Bernardo ao recordar a vida de Pelágio, diz-nos no seu tratado sobre os costumes e mistérios dos bispos: «A castidade, por muito bela que seja, não tem valor nem mérito sem a caridade. Pureza sem amor é como lâmpada sem azeite; mas diz a sabedoria: Que formosa é a sabedoria com amor! Com aquele amor de que nos fala o Apostolo: o que procede de um coração limpo, de uma consciência reta e de uma fé sincera».

A palavra clara, com a firmeza da caridade, manifesta a autoridade de Jesus que desperta o assombro dos seus concidadãos: «As multidões ficaram admiradas com o seu ensinamento. De fato, ele ensinava como quem tem autoridade, não como os escribas» (Mt 7,28-29). A nossa prece e contemplação de hoje, deve ir acompanhada por uma séria reflexão: como falo e atuo na minha vida de cristão? Como concretizo o meu testemunho? Como concretizo o mandamento do amor na minha vida pessoal, familiar, laboral, etc.? Não são as palavras nem as orações sem compromisso que contam, mas, o trabalho por viver segundo o Projeto de Deus. A nossa oração deveria expressar sempre o nosso desejo de obrar o bem e o nosso pedido de ajuda, uma vez que reconhecemos a nossa debilidade.

— Senhor, que a nossa oração esteja sempre acompanhada pela força da caridade.

Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm.

* O Evangelho de hoje traz a parte final do Sermão da Montanha:
(1) não basta falar e cantar, é preciso viver e praticar (Mt 7,21-23).
(2) A comunidade construída em cima do fundamento da nova Lei do Sermão da Montanha ficará em pé na hora da tempestade (Mt 7,24-27).
(3) O resultado das palavras de Jesus nas pessoas é uma consciência mais crítica com relação aos líderes religiosos, os escribas (Mt 7,28-29).

* Este final do Sermão da Montanha desenvolve algumas oposições ou contradições que continuam atuais até nos dias de hoje:
(1) Há pessoas que falam continuamente de Deus, mas se esquecem de fazer a vontade de Deus; usam o nome de Jesus, mas não traduzem em vida sua relação com o Senhor (Mt 7,21).
(2) Há pessoas que vivem na ilusão de estarem trabalhando para o Senhor, mas no dia do encontro definitivo com Ele, descobrem, tragicamente, que nunca o conheceram (Mt 7,22-23).
As duas parábolas finais do Sermão da Montanha, da casa construída sobre a rocha (Mt 7,24-25) e da casa construída sobre a areia (Mt 7,26-27), ilustram estas contradições. Por meio delas Mateus denuncia e, ao mesmo tempo, tenta corrigir a separação entre fé e vida, entre falar e fazer, entre ensinar e praticar.

* Mateus 7,21: Não basta falar, é preciso praticar
O importante não é falar bonito sobre Deus ou saber explicar bem a Bíblia para os outros, mas é fazer a vontade do Pai e, assim, ser uma revelação do seu rosto e da sua presença no mundo. A mesma recomendação foi dada por Jesus àquela mulher que elogiou Maria, sua mãe. Jesus respondeu: “Felizes os que ouvem a Palavra e a põem em prática” (Lc 11,28).

* Mateus 7,22-23: Os dons devem estar a serviço do Reino, da comunidade.
Havia pessoas com dons extraordinários como, por exemplo, o dom da profecia, do exorcismo, das curas, mas elas usavam os dons para si mesmas, fora do contexto da comunidade. No julgamento, elas ouvirão uma sentença dura de Jesus: "Afastem-se de mim vocês que praticam a iniqüidade!". Iniqüidade é o oposto de justiça. É fazer com Jesus o que alguns doutores faziam com a lei: ensinavam mas não praticavam (Mt 23,3). Paulo dirá a mesma coisa com outras palavras e argumentos: “Ainda que eu tivesse o dom da profecia, o conhecimento de todos os mistérios e de toda a ciência; ainda que eu tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas, se não tivesse o amor, eu não seria nada. Ainda que eu distribuísse todos os meus bens aos famintos, ainda que entregasse o meu corpo às chamas, se não tivesse o amor, nada disso me adiantaria”. (1Cor 13,2-3).

* Mateus 7,24-27: A parábola da casa na rocha.
Ouvir e praticar, esta é a conclusão final do Sermão da Montanha. Muita gente procurava sua segurança nos dons extraordinários ou nas observâncias. Mas a segurança verdadeira não vem do prestígio nem das observâncias, não vem de nada disso. Ela vem de Deus! Vem do amor de Deus que nos amou primeiro (1Jo 4,19). Seu amor por nós, manifestado em Jesus ultrapassa tudo (Rom 8,38-39). Deus se torna fonte de segurança, quando procuramos praticar a sua vontade. Aí, Ele será a rocha que nos sustenta na hora das dificuldades e das tempestades.

* Mateus 7,28-29: Ensinar com autoridade
O evangelista encerra o Sermão da Montanha dizendo que a multidão ficou admirada com o ensinamento de Jesus, porque "ele ensinava com autoridade, e não como os escribas". O resultado do ensino de Jesus é a consciência mais crítica do povo com relação às autoridades religiosas da época. Suas palavras simples e claras brotavam da sua experiência de Deus, da sua vida entregue ao Projeto do Pai. O povo estava admirado e aprovava os ensinamentos de Jesus.

* Comunidade: casa na rocha
No livro dos Salmos, frequentemente encontramos a expressão: “Deus é a minha rocha e a minha fortaleza... Meus Deus, rocha minha, meu refúgio, meu escudo, força que me salva...”(Sl 18,3). Ele é a defesa e a força de quem nele acredita e busca a justiça (Sl 18,21.24).  As pessoas que confiam neste Deus, tornam-se, por sua vez, uma rocha para os outros. Assim, o profeta Isaías faz um convite ao povo que estava no cativeiro: "Vocês que estão à procura da justiça e que buscam a Deus! Olhem para a rocha da qual foram talhados, para a pedreira da qual foram extraídos. Olhem para Abraão, seu pai, e para Sara, sua mãe” (Is 51,1-2). O profeta pede para o povo não esquecer o passado. O povo deve lembrar como Abraão e Sara pela fé em Deus se tornaram rocha, começo do povo de Deus. Olhando para esta rocha, o povo devia criar coragem para lutar e sair do cativeiro. Do mesmo modo, Mateus exorta as comunidades para que tenham como alicerce a mesma rocha (Mt 7,24-25) e possam, dessa maneira, elas mesmas ser rocha para fortalecer os seus irmãos e irmãs na fé.  Este é o sentido do nome que Jesus deu a Pedro: “Você é Pedro e sobre esta pedra construirei a minha Igreja” (Mt 16,18). Esta é a vocação das primeiras comunidades, chamadas a unir-se a Jesus, a pedra viva, para tornarem-se, também elas, pedras vivas pela escuta e pela prática da Palavra (Pd 2,4-10; 2,5; Ef 2,19-22).

Para um confronto pessoal
1) Como a nossa comunidade equilibra oração e ação, louvor e prática, falar e fazer, ensinar e praticar? O que deve melhorar na nossa comunidade, para que ela seja rocha, casa segura e acolhedora para todos?

2) Qual a rocha que sustenta a nossa Comunidade? Qual o ponto em que Jesus mais insiste?

terça-feira, 25 de junho de 2013

26 de junho

Maria Josefina de Jesus Crucificado
Virgem de nossa Ordem.
Josefina Caetana nasceu em Nápoles em 18 de fevereiro de 1894. Entrou na Comunidade Carmelita de Santa Maria de Ponti Rossi, da qual foi eleita priora, cargo mantido até a morte. Suportou as provações da doença e perseguição abandonando-se à vontade de Deus. Contagiava todos aqueles que se aproximavam dela por sua profunda espiritualidade, humildade e simplicidade, incutindo esperança e confiança em Deus e na Virgem Maria. Morreu em Nápoles no dia 14 de março de 1948.

Comum das Santas Virgens, exceto:
Oração
Deus eterno e todo-poderoso, que quisestes conformar a Cristo crucificado a Beata Maria Josefina, virgem, como vítima pelos pecadores, concedei-nos, por sua intercessão e exemplo, abraçar sempre a nossa cruz e cumprir humildemente vossa vontade. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

No mesmo dia 26.
SÃO JOSEMARÍA ESCRIVÁ DE BALAGUER,
Presbítero e Terceiro Carmelita
O Fundador do Opus Dei, S. Josemaría Escrivá, era terceiro carmelita desde 2 de outubro de 1932, no Sodalício da OTCD de Madri. «Duas coisas (além do Amor) me movem a fazer-me terciario carmelita: ‘obrigar’ mais a minha Mãe Imaculada, agora que me vejo mais fraco que nunca; e proporcionar sufrágios às ‘minhas boas amigas, as Almas benditas do Purgatório’». Em fevereiro de 1933, escreveu aos membros do Opus Dei: «Quero que todos – eles e elas – levem o Santo Escapulário do Carmo. Pedi escapulários da Ssma. Virgem do Carmo: nós os enviaremos pelo correio. Não deixeis de levar sobre vosso peito esse sinal de filhos prediletos de Santa Maria».

Comum dos Santos Pastores, exceto:
Oração
Senhor, nosso Deus, que, na Igreja, escolhestes São Josemaría, sacerdote, para anunciar a vocação universal à santidade e ao apostolado, concedei-nos, por sua intercessão e exemplo, que, através do trabalho quotidiano, nos identifiquemos com Cristo, vosso Filho, e sirvamos com amor ardente a obra da Redenção. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

Quarta-feira da 12ª semana do Tempo Comum

As orações do Mês do Coração de Jesus estão na pasta de Informações e Orações.

Evangelho (Mt 7,15-20): «Cuidado com os falsos profetas: eles vêm até vós vestidos de ovelha, mas por dentro são lobos ferozes. Pelos seus frutos os conhecereis. Acaso se colhem uvas de espinheiros, ou figos de urtigas? Assim, toda árvore boa produz frutos bons, e toda árvore má produz frutos maus. Uma árvore boa não pode dar frutos maus, nem uma árvore má dar frutos bons. Toda árvore que não dá bons frutos é cortada e lançada ao fogo. Portanto, pelos seus frutos os conhecereis».

Comentário: Rev. D. Antoni ORIOL i Tataret (Vic, Barcelona, Espanha)

Pelos seus frutos os conhecereis

Hoje, apresenta-se perante o nosso olhar um novo contraste evangélico, entre as arvores boas e as más. As afirmações de Jesus a este respeito são tão simples que parecem quase simplistas. E é justo dizer-se que não o são em absoluto! Não o são como não o é a vida real de cada dia.

Esta ensina-nos que há bons que degeneram e acabam dando frutos maus e que, pelo contrário, há maus que acabam dando frutos bons. O que significa pois, em definitiva, que «toda árvore boa produz frutos bons (Mt 7,17)»? Significa que aquele que é bom o é na medida em que não desanima obrando bem. Obra bem e não se cansa. Obra o bem e não cede perante a tentação de obrar mal. Obra bem e persevera até ao heroísmo. Obra o bem e, se por acaso chega a ceder frente ao cansaço de atuar assim, de cair na tentação de obrar o mal, ou de assustar se perante a exigência inegociável, reconhece-o sinceramente, confessa-o de veras, arrepende-se de coração e… volta a começar.

Ah! E o faz, entre outras razões, porque sabe que se não dá bom fruto será cortado e deitado ao fogo (o santo temor a Deus guarda a vinha e as boas vides!), e porque, conhecendo a bondade dos outros através das boas obras, sabe, não apenas por experiência individual, mas também por experiência social, que ele só é bom e pode ser reconhecido como tal através dos feitos e não apenas das palavras.

Não basta dizer: «Senhor, Senhor!». Como nos recorda São Tiago, a fé acredita-se através das obras: «Mostra-me a tua fé sem as obras que eu pelas obras te farei ver a minha fé» (Tg 2,18).

Reflexões de Frei Carlos Mesters, OCarm.

* Estamos chegando às recomendações finais do Sermão da Montanha. Comparando o evangelho de Mateus com o de Marcos percebe-se uma grande diferença na maneira de os dois apresentarem o ensinamento de Jesus. Mateus insiste mais no conteúdo do ensinamento e o organizou em cinco grande discursos, dos quais o Sermão da Montanha é o primeiro (Mt 5 a 7). Marcos, por mais de quinze vezes, diz que Jesus ensinava, mas raramente diz o que ele ensinava. Apesar destas diferenças, os dois concordam num ponto: Jesus ensinava muito. Ensinar era o que Jesus mais fazia (Mc 2,13; 4,1-2; 6,34). Era o costume dele (Mc 10,1). Mateus se interessava pelo conteúdo. Será que Marcos não se interessava pelo conteúdo? Depende do que entendemos por conteúdo! Ensinar não é só uma questão de comunicar verdades para o povo aprender de memória. O conteúdo não está só nas palavras, mas também nos gestos e no próprio jeito de Jesus se relacionar com as pessoas. O conteúdo nunca está desligado da pessoa que o comunica. Ela, a pessoa, é a raiz do conteúdo. A bondade e o amor que transparecem nas palavras e gestos de Jesus fazem parte do conteúdo. São o seu tempero. Conteúdo bom sem bondade é como leite derramado. Não convence e não à conversão.

* Mateus 7,15-16ª : Cuidado com os falsos profetas
No tempo de Jesus, havia profetas de todo tipo, pessoas que anunciavam mensagens apocalípticas para envolver o povo nos vários movimentos daquela época: essênios, fariseus, zelotes e outros (cf. At 5,36-37). No tempo em que Mateus escreve também havia profetas que anunciavam mensagens diferentes da mensagem proclamada pelas comunidades. As cartas de Paulo mencionam estes movimentos e tendências (cf 1Cor 12,3; Gal 1,7-9; 2,11-14;6,12). Não deve ter sido fácil para as comunidades fazer o discernimento dos espíritos. Daí a importância das palavras de Jesus sobre os falsos profetas. A advertência de Jesus é muito forte: "Cuidado com os falsos profetas: eles vêm a vocês vestidos com peles de ovelha, mas por dentro são lobos ferozes”. A mesma imagem é usada quando Jesus envia os discípulos e as discípulas para a missão: “Mando vocês como cordeiros no meio de lobos” (Mt 10,16 e Lc 10,3). A oposição entre lobo voraz e manso cordeiro é irreconciliável, a não ser que o lobo se converta e perca a sua agressividade como sugere o profeta Isaías (Is 11,6; 65,25). O que importa aqui no nossos texto é o dom do discernimento. Não é fácil discernir os espíritos. Às vezes, acontece que interesses pessoais ou grupais levam as pessoas a proclamar como falsos aqueles profetas que anunciam a verdade que incomoda. Isto aconteceu com o próprio Jesus. Ele foi eliminado e morto como falso profeta pelas autoridades religiosas da época. De vez em quando, o mesmo aconteceu e continua acontecendo na nossa Igreja.

* Mateus 7,16b-20 : A comparação da árvore e seus frutos
Para ajudar no discernimento dos espíritos, Jesus usa a comparação do fruto: “Vocês os conhecerão pelos frutos”. Um critério semelhante já tinha sido sugerido pelo livro do Deuteronômio (Dt 18,21-22). E Jesus acrescenta: “Uma árvore boa não pode dar frutos maus, e uma árvore má não pode dar bons frutos.  Toda árvore que não der bons frutos, será cortada e jogada no fogo”. No evangelho de João, Jesus completa a comparação: “Todo ramo que não dá fruto em mim, o Pai o corta. Os ramos que dão fruto, ele os poda para que dêem mais fruto ainda. O ramo que não fica unido à videira não pode dar fruto. Esses ramos são ajuntados, jogados no fogo e queimados." (Jo 15,2.4.6)

Para um confronto pessoal
1) Falsos profetas! Conhece algum caso em que uma pessoa boa e honesta que proclamava uma verdade incômoda foi condenada como falso profeta?

2) A julgar pelos frutos da árvore da sua vida pessoal, como você se define: falso ou verdadeiro?

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Terça-feira da 12ª semana do Tempo Comum

As orações do Mês do Coração de Jesus estão na pasta de Informações e Orações.

Evangelho (Mt 7,6.12-14): «Não deis aos cães o que é santo, nem jogueis vossas pérolas diante dos porcos. Pois estes, ao pisoteá-las se voltariam contra vós e vos estraçalhariam. Tudo, portanto, quanto desejais que os outros vos façam, fazei-o, vós também, a eles. Isto é a Lei e os Profetas. Entrai pela porta estreita! Pois larga é a porta e espaçoso o caminho que leva à perdição, e muitos são os que entram! Como é estreita a porta e apertado o caminho que leva à vida, e poucos são os que o encontram!».

Comentário: Diácono D. Evaldo PINA FILHO (Brasília, Brasil)

Entrai pela porta estreita

Hoje, o Senhor nos faz três recomendações. A primeira, «Não deis aos cães o que é santo, nem jogueis vossas pérolas diante dos porcos» (Mt 7,6), contrastes em que “bens” são associados a “pérolas” e ao “que é santo”; e “cães e porcos” ao que é impuro. São João Crisóstomo ensina que «nossos inimigos são iguais a nós quanto à natureza, mas não quanto à fé». Apesar dos benefícios terrenos serem concedidos igualmente aos dignos e indignos, não é assim quanto às graças espirituais”, privilégio daqueles que são fiéis a Deus. A correta distribuição dos bens espirituais implica em zelo pelas coisas sagradas.

A segunda é a chamada “regra de ouro” (cf. Mt 7,12) , que compendia tudo o que a Lei e os Profetas recomendaram, tal como ramos de uma única árvore: o amor ao próximo pressupõe o Amor a Deus e, dele resulta.

Fazer ao próximo o que se deseja seja feito conosco implica na transparência de ações para com o outro, no reconhecimento de sua semelhança a Deus, de sua dignidade. Por que razão nós desejamos o Bem para nós mesmos? Porque o meio de identificação para ser profundamente reconhecidos é a união com o Criador. Sendo o Bem, para nós, o único meio para a vida em plenitude, é inconcebível sua ausência na nossa relação com o próximo. Não há lugar para o bem onde prevaleça a falsidade e prepondere o mal.

Por fim, a “porta estreita”... O Papa Bento XVI nos pergunta: «O que significa esta ‘porta estreita’? Por que muitos não conseguem entrar por ela? Trata-se de uma passagem reservada a alguns eleitos?» Não! A mensagem de Cristo «nos é dirigida no sentido de que todos podem entrar na vida. A passagem é ‘estreita’, mas aberta a todos; ‘estreita’ porque exigente, requer compromisso, abnegação, mortificação do próprio egoísmo».

Roguemos ao Senhor que realizou a salvação universal com sua morte e ressurreição que nos reúna a todos no Banquete da vida eterna.

Comentário: + Rev. D. Lluís ROQUÉ i Roqué (Manresa, Barcelona, Espanha)

Entrai pela porta estreita

Hoje, Jesus nos faz três recomendações importantes. Não obstante, centraremos nossa atenção na última: «Entrai pela porta estreita!» (Mt 7,13), para conseguir a vida plena e sermos sempre felizes, para evitar cair na perdição e deparar-nos condenados para sempre.

Se der uma olhada ao seu redor e à sua própria existência, facilmente comprovará que tudo quanto vale, custa, e tendo certo nível elevado está sujeito à recomendação do Mestre: como disseram os Pais da Igreja, com grande profundidade, «pela cruz se cumprem todos os mistérios que contribuem à nossa salvação» (São Joao Crisostomo). Uma vez, no leito da sua agonia, uma anciã que tinha sofrido muito em sua vida, me disse: «Padre, quem não saboreia a cruz, não deseja o céu; sem cruz não há céu».

Tudo o que foi dito contradiz a nossa natureza caída, mesmo que tenha sido redimida. Por isso, além de nos enfrentarmos com o nosso natural modo de ser, é preciso ir contra a corrente do ambiente do bem estar, que se fundamenta no materialismo e no incontrolável gozo dos sentidos, que buscam —a preço de deixar de ser— ter mais e mais, obter o máximo prazer.

Seguindo a Jesus — que disse «Eu sou a luz do mundo. Quem me segue não caminha nas trevas, mas terá a luz da vida» (Jo 8,12)—, nos damos conta que o Evangelho não nos condena a uma vida obscura, aborrecida e infeliz, ao contrario, pois nos promete e nos dá a felicidade verdadeira. É só repassar as Bem-aventuranças e olhar àqueles que, depois de entrar pela porta estreita, foram felizes e fizeram a outros afortunados, obtendo —pela sua fé e esperança Naquele que não decepciona—a recompensa da abnegação: «receberá muitas vezes mais no presente e, no mundo futuro, a vida eterna» (Lc 18,30). O “sim” de Maria está acompanhado da humildade, da pobreza, da cruz, mas também pelo premio à fidelidade e à entrega generosa.

Reflexão de Frei Carlos Mesters, OCarm

• Discernimento e sabedoria no oferecer coisas de valor. Nas suas relações com os outros, Jesus adverte contra algumas atitudes perigosas. A primeira é não julgar (7,1-5): trata-se de uma verdadeira proibição, "não julgueis", uma ação que impede que qualquer desprezo ou condenação dos outros. O julgamento final cabe unicamente a Deus; os nossos parâmetros e critérios são relativos; são condicionados por nossa subjetividade. Toda condenação dos outros torna-se também auto-condenação, porque nos põe sob o julgamento de Deus e nos autoexclui do perdão. Se o teu olho está limpo, isto é, se ele está livre de todo o julgamento ao irmão, você pode se relacionar com ele de maneira sincera diante de Deus.

Vamos às palavras de Jesus que o texto oferece: "Não lanceis aos cães as coisas santas, não atireis aos porcos as vossas pérolas, para que não as calquem com os seus pés, e, voltando-se contra vós, vos despedacem " ( 7.6). À primeira vista, este "dito" de Jesus parece estranho à sensibilidade leitor hodierno. Pode apresentar-se como um verdadeiro enigma. Na realidade, é uma maneira de dizer de uma língua semítica que requer interpretação. No tempo de Jesus, como na cultura antiga, os cães não eram muito valorizados porque eles consideravam meio selvagens e de rua (U. Luz). Passemos agora para o aspecto positivo e didático-sapiencial das palavras de Jesus: não profanar as coisas sagradas é, afinal, um convite para usar a prudência e discernimento. No AT as coisas sagradas são a carne para o sacrifício (Lv 22.14, Ex 29,33 ss; Nm 18,8-19). Também a proibição de lançar pérolas aos porcos é incompreensível. Para os hebreus, os porcos são animais impuros, como a quintessência do repugnância. Pelo contrário, as pérolas são a coisa mais preciosa que se pode ter. A advertência de Jesus se refere àquele que dá aos cães vadios a carne consagrada e destinada ao sacrifício. Tal comportamento é mau e muitas vezes imprudente, porque aos cães geralmente não se dava de comer e, movidos por sua fome insaciável, poderiam se voltar e atacar a seus "benfeitores".

A nível metafórico, as pérolas indicam os ensinamentos dos sábios e as interpretações da "Torah". No Evangelho de Mateus, a pérola é a imagem do reino de Deus (Mt 13,45 ss). A interpretação dada pelo evangelista para colocar este aviso de Jesus é essencialmente teológica. Seguramente a interpretação que nos parece mais de acordo com o texto é a leitura eclesial das palavras de Jesus: um advertência aos missionários cristãos para não pregar o evangelho a qualquer um (Gnilka)

• O caminho a seguir. No final do discurso (7,13-27) Mateus coloca, entre outras questões, uma exortação conclusiva de Jesus, que convida a fazer uma escolha decisiva para entrar no reino dos céus: a porta estreita (7,13-14) . A palavra de Jesus não é apenas algo que se deve entender e interpretar, mas acima de tudo tem que ser parte da vida. Agora, para entrar no reino dos céus é necessário seguir um caminho e entrar na plenitude da vida através de uma "porta". O tema do "caminho" é muito popular no AT (Dt 11,26-28; 30,15-20; Jr 21,8; Sl 1,6, Sl 118,29-30; Sl 138,4, Sb 5 ,6-7, etc). O caminho mostrado nas duas portas conduz diferentes metas. Um significado coerente das advertências de Jesus seria que a porta larga se junta ao caminho largo que conduz à perdição, ou seja, a largura do caminho é sempre agradável, mas isso não é dito em nosso texto. Pelo contrário, parece que Mateus concorda com a concepção judaica de "caminho": seguindo Dt 30,19 e 21,8 Jr há dois caminhos que se contrapõe, o de morte e o da vida. Saber escolher entre as duas formas diferentes de vida é fundamental para entrar no reino dos céus. Aquele que escolhe o caminho estreito, o da vida, deve saber que ele está cheio de aflições; estreito quer dizer provado no sofrimento pela fé.

Para um confronto pessoal
1) Qual é o impacto das palavras de Jesus em seu coração? Você a escuta para viver sob o olhar do Pai, e para mudar pessoalmente e em suas relações com os irmãos?
2) A palavra de Jesus, ou melhor, ou Jesus mesmo é a porta que introduz na vida filial e fraterna. Você se deixa guiar atraído pelo caminho estreito e exigente do evangelho? Ou segue o caminho largo e fácil, que consiste em fazer o que se gosta ou o que leva a realizar seus próprios desejos, e ignora as necessidades dos outros?

domingo, 23 de junho de 2013

24 de Junho: O Nascimento de São João Batista

As orações do Mês do Coração de Jesus estão na pasta de Informações e Orações.

Evangelho (Lc 1,57-66.80): Quando se completou o tempo da gravidez, Isabel deu à luz um filho. Os vizinhos e os parentes ouviram quanta misericórdia o Senhor lhe tinha demonstrado, e alegravam-se com ela. No oitavo dia, foram circuncidar o menino e queriam dar-lhe o nome de seu pai, Zacarias. A mãe, porém, disse:«Não. Ele vai se chamar João». Disseram-lhe: «Ninguém entre os teus parentes é chamado com este nome!». Por meio de sinais, então, perguntaram ao pai como ele queria que o menino se chamasse. Zacarias pediu uma tabuinha e escreveu: «João é o seu nome!» E todos ficaram admirados.  No mesmo instante, sua boca se abriu, a língua se soltou, e ele começou a louvar a Deus. Todos os vizinhos se encheram de temor, e a notícia se espalhou por toda a região montanhosa da Judéia. Todos os que ouviram a notícia ficavam pensando: «Que vai ser este menino?» De fato, a mão do Senhor estava com ele. O menino crescia e seu espírito se fortalecia. Ele vivia nos desertos, até o dia de se apresentar publicamente diante de Israel

Comentário: Rev. D. Joan MARTÍNEZ Porcel (Barcelona, Espanha)

O menino crescia e seu espírito se fortalecia

Hoje, celebramos solenemente o nascimento do Batista. São João é um homem de grandes contrastes: vive o silêncio do deserto, mas dai mesmo move as massas e as convida com voz convincente à conversão; é humilde para reconhecer que ele é tão somente é a voz, não a Palavra, mas não tem medo de falar e é capaz de acusar e denunciar as injustiças até aos mesmos reis; convida aos seus discípulos a ir até Jesus, mas não rejeita conversar com o rei Herodes enquanto está em prisão. Silencioso e humilde é também valente e decidido até derramar seu sangue. João Batista é um grande homem! O maior dos nascidos de mulher, assim o elogiará Jesus; mas somente é o precursor de Cristo.

Talvez o segredo de sua grandeza está em sua consciência de saber-se eleito por Deus; assim o expressa o evangelista: «O menino foi crescendo e fortificava-se em espírito, e viveu nos desertos até o dia em que se apresentou diante de Israel.» (Lc 1,80). Toda sua infância e juventude estiveram marcadas pela consciência de sua missão: dar testemunho; e o fez batizando a Cristo no Rio Jordão, preparando para o Senhor um povo bem disposto e, ao final de sua vida, derramando seu sangue em favor da verdade. Com nosso conhecimento de João, podemos responder à pergunta de seus contemporâneos: «Todos os que o ouviam conservavam-no no coração, dizendo: Que será este menino? Porque a mão do Senhor estava com ele» (Lc 1,66).

Todos nós, pelo batismo, fomos escolhidos e enviados a dar testemunho do Senhor. Em um ambiente de indiferença, são João é modelo e ajuda para nós; são Agostinho nos diz: «Admira a João o quanto seja possível, pois o que admiras aproveita a Cristo. Aproveita a Cristo, repito, não porque lhe ofereces alguma coisa a Ele, e sim para que tu possas progredir Nele». Em João, suas atitudes de Precursor, manifestadas na sua oração atenta ao Espírito, em sua fortaleza e sua humildade, nos ajudam a abrir horizontes novos de santidade para nós e para nossos irmãos.


A vida do Precursor ensina-nos as virtudes que necessitamos para receber com proveito a Jesus; fundamentalmente, a humildade de coração. Ele reconhece-se instrumento de Deus para cumprir a sua vocação, a sua missão. Como diz Santo Ambrósio: «Não te glories por te chamarem filho de Deus —reconheçamos a graça sem esquecer a nossa natureza—; não te envaideças se serviste bem, porque apenas cumpriste aquilo que tinhas a fazer. O sol faz o seu trabalho a lua obedece; os anjos cumprem a sua missão. O instrumento escolhido pelo Senhor para os gentios diz: ‘Eu não mereço o nome de apóstolo, pois eu persegui a Igreja de Deus’ (1Cor 15,9)».

24 de Junho: O Nascimento de São João Batista

I. HOUVE UM HOMEM enviado por Deus, de nome João. Veio para dar testemunho da luz e preparar para o Senhor um povo bem disposto1.

Santo Agostinho faz notar que “a Igreja celebra o nascimento de João como algo sagrado, e é o único nascimento que se festeja: celebramos o nascimento de João e o de Cristo”2. É o último Profeta do Antigo Testamento e o primeiro que indica o Messias. O seu nascimento “foi motivo de alegria para muitos”3, para todos aqueles que pela sua pregação conheceram a Cristo; foi a aurora que anuncia a chegada do dia. Por isso São Lucas faz constar expressamente a época em que o Batista iniciou a sua missão, num momento histórico bem determinado: No ano décimo quinto do reinado de Tibério Cesar, sendo governador da Judéia Pôncio Pilatos, tetrarca da Galiléia Herodes...4 João representa a linha divisória entre os dois Testamentos. A sua pregação foi o começo do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus5. E o seu martírio, um presságio da Paixão do Salvador6. Contudo, “João era uma voz passageira; Cristo é a palavra eterna desde o princípio”7.

Os quatro Evangelistas não duvidam em aplicar a João o belíssimo oráculo de Isaías: Eis que eu envio o meu mensageiro para que te preceda e te prepare o caminho. Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas8. O Profeta refere-se em primeiro lugar ao regresso dos judeus à Palestina, depois do cativeiro da Babilônia: vê Javé como rei e redentor do seu povo, depois de tantos anos no desterro, caminhando à sua frente pelo deserto da Síria para conduzi-lo com firmeza à pátria. Conforme o antigo costume do Oriente, é precedido por um arauto, que anuncia a proximidade da sua chegada e faz com que se preparem os caminhos, de que ninguém naqueles tempos costumava cuidar a não ser em circunstâncias muito relevantes. Esta profecia, além de se ter cumprido com o fim do cativeiro, viria a ter um segundo cumprimento, mais pleno e profundo, ao chegarem os tempos messiânicos. O Senhor também teria o seu arauto na pessoa do Precursor, que o precederia preparando os corações para a sua vinda9.

Contemplando hoje a grande figura do Batista, que cumpriu tão fielmente a sua missão, podemos pensar se também nós aplainamos os caminhos do Senhor, para que Ele entre na alma dos nossos amigos e parentes que ainda estão longe da sua amizade, e para que os que estão próximos se dêem mais generosamente. Nós, cristãos, somos os arautos de Cristo no mundo de hoje. “O Senhor serve-se de nós como tochas, para que essa luz ilumine... Depende de nós que muitos não permaneçam nas trevas, mas andem por caminhos que levam até à vida eterna”10.

II. A MISSÃO DE JOÃO caracteriza-se sobretudo por ser o Precursor, aquele que anuncia outro: Veio para dar testemunho da luz, a fim de que todos cressem por ele. Ele não era a luz, mas veio para dar testemunho da luz11. Assim diz no início do seu Evangelho aquele discípulo que conheceu Jesus graças à preparação e à indicação expressa que recebeu do Batista: No dia seguinte, achando-se João outra vez com dois dos seus discípulos, fixou os olhos em Jesus que passava e disse: Eis o Cordeiro de Deus. Ouvindo as suas palavras, os dois discípulos seguiram Jesus12. Que grandes recordações e que imenso agradecimento não teria o Apóstolo São João quando, quase no fim da vida, evocava no seu Evangelho aquele tempo passado junto do Batista, que foi instrumento do Espírito Santo para que conhecesse Jesus, seu tesouro e sua vida!

A pregação do Precursor estava em perfeita harmonia com a sua vida austera e mortificada: Fazei penitência – clamava sem descanso –, porque o reino dos Céus está próximo13. Tais palavras, corroboradas pela sua vida exemplar, causaram uma forte impressão em toda a região, e em breve João se viu rodeado por um numeroso grupo de discípulos, dispostos a ouvir os seus ensinamentos. Um forte movimento religioso sacudiu toda a Palestina. As multidões, como agora, estavam sedentas de Deus, e a esperança do Messias era muito viva. São Mateus e São Marcos sublinham que iam ter com João pessoas de todos os lugares: de Jerusalém e das outras aldeias da Judéia14, como também da Galiléia, pois os primeiros discípulos que Jesus encontrou eram galileus15. Diante dos enviados do Sinédrio, João dá-se a conhecer com as palavras de Isaías: Eu sou a voz que clama.

Com a sua vida e as suas palavras, João deu testemunho da verdade: sem covardias perante os que ostentavam o poder, sem se deixar afetar pelos louvores das multidões, sem ceder às contínuas pressões dos fariseus. Deu a vida em defesa da lei de Deus contra todas as conveniências humanas: Não te é lícito ter a mulher do teu irmão16, disse a Herodes.

A força de João era pouca para conter os desvarios do tetrarca, e o alcance da sua voz muito limitado para preparar para o Messias um povo bem disposto. Mas a palavra de Deus ganhava força nos seus lábios. Na segunda Leitura da Missa17, a liturgia aplica ao Batista as palavras do Profeta: Tornou a minha boca semelhante a uma espada afiada, cobriu-me com a sombra da sua mão. Fez de mim uma flecha penetrante, guardou-me na sua aljava. E enquanto Isaías pensa: Foi em vão que padeci, foi em vão que gastei as minhas forças, o Senhor diz-lhe: Vou converter-te em luz das nações, para propagar a minha salvação até os confins da terra.

O Senhor deseja que o anunciemos por meio da nossa conduta e da nossa palavra no ambiente em que nos desenvolvemos, ainda que nos pareça que esse apostolado não tem grande alcance. A missão que o Senhor nos encomenda atualmente é a mesma de João: preparar os caminhos, sermos seus arautos, os que o anunciam aos corações. A coerência entre a doutrina e a conduta é a melhor prova da validade daquilo que proclamamos; e é, em muitas ocasiões, a condição imprescindível para falarmos de Deus às almas.

III. A MISSÃO DO ARAUTO é desaparecer, ficar em segundo plano quando chega aquele que foi anunciado. “Tenho para mim – diz São João Crisóstomo – que por isso foi permitida quanto antes a morte de João, para que, desaparecido ele, todo o fervor da multidão se dirigisse para Cristo, ao invés de se repartir entre os dois”18. Um erro grave de qualquer precursor seria deixar que o confundissem com aquele que esperam, ainda que fosse por pouco tempo.

Uma virtude essencial em quem anuncia Cristo é, pois, a humildade. Dos doze Apóstolos, cinco, conforme menção expressa do Evangelho, tinham sido discípulos de João. E é muito provável que os outros sete também o fossem; ao menos, todos eles o tinham conhecido e podiam dar testemunho da sua pregação19. No apostolado, a única figura que deve ser conhecida é Cristo. Ele é o tesouro que anunciamos e é a Ele que temos de levar os outros.

A santidade de João, as suas virtudes rijas e atraentes, a sua pregação..., tinham contribuído para que pouco a pouco ganhasse corpo a idéia de que era ele o Messias esperado. Profundamente esquecido de si mesmo, João só deseja a glória do seu Senhor e do seu Deus; por isso protesta abertamente: Eu vos batizo em água, mas eis que está para chegar outro mais forte do que eu, a quem não sou digno de desatar a correia das sandálias; Ele vos batizará no Espírito Santo e no fogo20. João, diante de Cristo, considera-se indigno de prestar-lhe os serviços mais humildes, reservados ordinariamente aos escravos de ínfima categoria: trazer e levar as sandálias, desatar-lhes as correias. Diante do Batismo instituído pelo Senhor, o seu não é senão água, símbolo da limpeza interior que deveriam efetuar nos seus corações aqueles que esperavam o Messias. O Batismo de Cristo é o do Espírito Santo, que purifica à semelhança do fogo21.

Olhemos novamente para o Batista: um homem de caráter firme, como Jesus recorda à multidão: Que saístes a ver no deserto? Uma cana agitada pelo vento? O Senhor sabia, e as pessoas também, que a personalidade de João não se compaginava com a falta de caráter. A humildade não é falta de caráter, mas hombridade enérgica que se apaga diante do Senhor, porque sabe que é Ele que produz em nós o querer e o agir22.

Quando os judeus foram dizer aos discípulos de João que Jesus reunia mais discípulos que o seu mestre, e o comentário chegou aos ouvidos do Batista, este respondeu: Eu não sou o Messias, mas fui enviado adiante dEle... É necessário que Ele cresça e eu diminua23. Esta é a tarefa da nossa vida: que Cristo tome conta do nosso viver. Convém que Ele cresça... Então a nossa felicidade não terá limites, pois poderemos dizer com o Apóstolo: Eu vivo, mas não sou eu; é Cristo que vive em mim24. Na medida em que Cristo for penetrando mais e mais nas nossas pobres vidas, a nossa alegria será irreprimível.

Peçamos ao Senhor, com o poeta: “Que eu seja como uma flauta de cana, simples e oca, onde só Tu possas soprar. Ser somente a voz de outro que clama no deserto”. Ser a tua voz, Senhor, no meio do mundo, no ambiente e no lugar onde queres que transcorra a minha vida.


(1) Jo 1, 6-7; Lc 1, 17; Antífona de entrada da Missa do dia 24 de junho; (2) Liturgia das Horas, Segunda leitura, ib.; Santo Agostinho, Sermão 293, 1; (3) Prefácio, ib.; (4) cfr. Lc 3, 1 e segs.; (5) cfr. Mc 1, 1; (6) cfr. Mt 17, 12; (7) Santo Agostinho, op. cit., 3; (8) Mc 1, 2; (9) cfr. L. Cl. Fillion, Vida de Nosso Senhor Jesus Cristo, 8ª ed., Fax, Madrid, 1966, pág. 260; (10) Josemaría Escrivá, Forja, n. 1; (11) Jo 1, 6; (12) Jo 1, 29-30; (13) Mt 3, 2; (14) cfr. Mt 3, 5; Mc 1, 1-5; (15) cfr. Jo 1, 40-43; (16) Mc 6, 18; (17) Is 49, 1-6; Segunda leitura, ib.; (18) São João Crisóstomo, Homilias sobre o Evangelho de São João, 29, 1; (19) cfr. At 1, 22; (20) Jo 3, 15-16; (21) cfr. São Cirilo de Alexandria, Catequese, 20, 6; (22) cfr. Fil 2, 13; (23) cfr. Jo 3, 27-30; (24) Gal 2, 20.

sábado, 22 de junho de 2013

XII Domingo do Tempo Comum

As orações do Mês do Coração de Jesus estõ na pasta de Informações e Orações.

«E vós, quem dizeis que Eu sou?»

“Sou um investigador da faculdade e estou a fazer um inquérito. Não se importa de responder à uma questão? Quem dizem, por aí, que é Jesus Cristo? E para si, quem é Jesus Cristo? Obrigado.” Se te perguntassem a ti, que responderias? Este é o segredo das nossas vidas: conhecer, amar, orar e testemunhar quem é Jesus Cristo para nós. Até ao ponto de afirmarmos como S. Paulo: “para mim, viver é Cristo”; “já não sou quem vive: é Cristo que vive em mim”.
Ir. Alzira Sousa, fma

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas (Lc 9, 18-24) - Um dia, Jesus orava sozinho, estando com Ele apenas os discípulos. Então perguntou-lhes: «Quem dizem as multidões que Eu sou?». Eles responderam: «Uns, dizem que és João Batista; outros, que és Elias; e outros, que és um dos antigos profetas que ressuscitou». Disse-lhes Jesus: «E vós, quem dizeis que Eu sou?». Pedro tomou a palavra e respondeu: «És o Messias de Deus». Ele, porém, proibiu-lhes severamente de o dizerem fosse a quem fosse e acrescentou: «O Filho do homem tem de sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos príncipes dos sacerdotes e pelos escribas; tem de ser morto e ressuscitar ao terceiro dia». Depois, dirigindo-Se a todos, disse: «Se alguém quiser vir comigo, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz todos os dias e siga-Me. Pois quem quiser salvar a sua vida, há-de perdê-la; mas quem perder a sua vida por minha causa, salvá-la-á».

REFLEXÃO

«Um dia, Jesus orava sozinho, estando com Ele apenas os discípulos»

A passagem deste Domingo retoma o tema de quem é Jesus. No Evangelho segundo Lucas, Jesus é apresentado em oração em várias ocasiões importantes e decisivas: o baptismo, momento em que assume a sua missão; nos 40 dias no deserto, quando vence as tentações do demónio à luz da Palavra de Deus; na noite anterior a escolher os 12 apóstolos; na transfiguração, quando conversava com Moisés e Elias sobre a Paixão em Jerusalém; no jardim, quando enfrenta a agonia; na cruz, quando entrega a Deus o seu Espírito. O ponto de partida deste episódio é a revelação de que Jesus reza a sós.
Lucas mostra como Jesus reza, antes de algo importante, dando a entender que a acção de Jesus não é fruto do sabor do momento ou daquilo que lhe apetece, mas é o realizar da vontade do Pai. Reflectindo neste pormenor de Jesus em oração a sós, questiono-me acerca da importância da oração na minha vida: o que verifico do estado de “saúde” da minha vida de oração?

«Então perguntou-lhes: «Quem dizem as multidões que Eu sou?». Eles responderam: «Uns, dizem que és João Batista; outros, que és Elias; e outros, que és um dos antigos profetas que ressuscitou».

A caminhada chegara a um momento decisivo e Jesus quer fazer uma espécie de balanço do que foi a sua missão até àquele ponto. Deste modo, Jesus avança com uma espécie de sondagem de popularidade: quem dizem as multidões que eu sou?
Numa época marcada pelo sofrimento do Povo de Deus a expectativa messiânica era enorme. Jesus quer saber o que pensam as pessoas sobre a sua acção e, aparentemente, Jesus não é considerado pelas multidões “o messias”: o Povo identifica-o com Elias, o profeta que os judeus acreditavam estar junto de Deus… provavelmente as atitudes e a mensagem de Jesus não correspondiam àquilo que se esperava de um rei forte e vencedor.
Para as opiniões emanadas da ideologia do poder dos chefes religiosos de Israel, o Messias só poderia ser um personagem que se evidenciasse pela sua origem nobre e grandiosa. A multidão esperava um tipo de messias forte e poderoso, mas Jesus apresentou-se com outro estilo. Qual das duas propostas está mais próxima de mim? Qual é o Messias que eu espero e que as pessoas de hoje esperam?

«Disse-lhes Jesus: «E vós, quem dizeis que Eu sou?». Pedro tomou a palavra e respondeu: «És o Messias de Deus».

A resposta do povo não está totalmente certa e por isso Jesus dirige-se aos discípulos e procura saber até que ponto estes O conhecem de verdade. Pedro parece não ter dúvidas ao afirmar: “Tu és o messias de Deus”, que significa reconhecer nele o enviado de Deus. E Jesus parece concordar com a afirmação de Pedro.
Jesus quis saber o que a multidão e os discípulos pensavam sobre si, mas a um dado momento a pergunta é dirigida a cada um individualmente: quem sou EU para Ti? Dar-Lhe-ia uma resposta de estilo catequético, cheia de afirmações e verdades inabaláveis, um amigo que me aceita incondicionalmente nos momentos mais fantásticos e naqueles em que reconheço ter falhado redondamente, ou o meu silêncio reforçaria a dificuldade em dizer, de facto, quem é O Senhor para mim?

«Ele, porém, proibiu-lhes severamente de o dizerem fosse a quem fosse e acrescentou: «O Filho do homem tem de sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos príncipes dos sacerdotes e pelos escribas; tem de ser morto e ressuscitar ao terceiro dia».

Jesus percebe que os discípulos sonhavam com um “messias” poderoso e politicamente interventivo. Mas por isso mesmo, desfaz decididamente esses equívocos e clarifica a situação: Não há que confundi-Lo com um Rei que se impõe pelo poder ou violência; Ele é o enviado de Deus para libertar a humanidade mas vai realizar essa libertação pelo amor e pelo dom da vida e não pelo poder que oprime. O que Jesus antevê não é um trono adornado de pedras preciosas mas a Cruz. É nesse trono de glória, na entrega da vida por amor, que Ele realizará as antigas promessas de salvação feitas por Deus ao seu Povo.
Jesus é o Messias de Deus, mas havia ainda que esperar o momento de se manifestar com poder e glória para realizar o sonho de libertação que todos ansiavam. Ele é o Cristo de Deus, mas sabe que a missão que é chamado a desempenhar passa pelo sofrimento, rejeição e morte. Mas em verdade, no fim, palavra definitiva de Deus será a novidade absoluta da ressurreição, que impera sobre a derrota humana. O amor triunfará.

«Depois, dirigindo-Se a todos, disse: «Se alguém quiser vir comigo, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz todos os dias e siga-Me.»

A finalizar o texto ganham força as palavras dirigidas aos discípulos, não somente aos que conheceram a pessoa de Jesus, mas aos de hoje e de amanhã. Todos são convidados a seguir Jesus, isto é, a tomar a cruz do amor e da entrega, a abater os muros do preconceito e do orgulho, a renunciar ao seu egoísmo e a fazer da vida um dom.
Quando ouvimos a expressão “tomar a cruz” dá a sensação que estamos a falar em situações excepcionais ou em pessoas que marcaram a história por actos heróicos ou estilos de vida singulares. Nada disso. Tomar a cruz talvez não signifique suportar problemas excessivos ou pouco comuns que nos podem surgir ao longo da vida, mas orientar a vida num caminho de amor e de dom, para a nossa felicidade e para a dos outros, tal como Jesus viveu. Trata-se de, na vida quotidiana, aceitar a cruz do trabalho de cada dia, de abdicar de um projecto só meu para dar tempo à família, de caminhar com esperança quando estamos a viver uma relação difícil, aceitar com coragem dificuldades de saúde, etc...

«Pois quem quiser salvar a sua vida, há-de perdê-la; mas quem perder a sua vida por minha causa, salvá-la-á».

Ultrapassada a sondagem sobre quem pensavam que Ele era, Jesus reforça a ideia do que significa ser como Ele, isto é segui-Lo. Se a cruz nos grita que o Senhor nos amou, ela diz-nos também que sofreu por nós. Jesus amou a cruz e tomou sobre si os nossos pecados, mas quis reservar-nos a honra de o seguirmos neste caminho. Amar Jesus e segui-Lo implica optar por um amor sem partilhas, um amor que abrange todos os actos da nossa vida, quer estes sejam alegres ou tristes, de felicidade ou de tristeza, na certeza singela de que não há amor autêntico que não passe pela cruz...

Perder a vida”, não será perdê-la, mas entregá-la ao que vale a pena. É fundamental vivermos numa atitude de discernimento, para saber onde devemos “perder” e dedicar as nossas energias, o nosso tempo, a nossa criatividade, o nosso amor... é em tudo isto que o Senhor Jesus nos convida a “perder” a nossa vida por ELE.