segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Quarta-feira da 3ª semana do Tempo Comum

Sto. Tomás de Aquino, presbítero e doutor da Igreja
 
1ª Leitura (2Sam 7,4-17):
Naqueles dias, o Senhor falou a Natã, dizendo: «Vai dizer ao meu servo David: Assim fala o Senhor: Pensas edificar um palácio para Eu habitar? Desde o dia em que tirei Israel do Egipto até hoje, nunca habitei numa casa, mas andava de um lado para o outro numa tenda e num tabernáculo. Durante o tempo em que peregrinei com todos os filhos de Israel, perguntei porventura a alguns dos juízes de Israel, a quem estabeleci como pastores do meu povo: ‘Porque não Me construís uma casa de cedro?’ Eis o que dirás ao meu servo David: Assim fala o Senhor do Universo: Tirei-te das pastagens onde guardavas os rebanhos, para seres o chefe do meu povo de Israel. Estive contigo em toda a parte por onde andaste e exterminei diante de ti todos os teus inimigos. Dar-te-ei um nome tão ilustre como o nome dos grandes da terra. Prepararei um lugar para o meu povo de Israel e nele o instalarei para que habite nesse lugar, sem que jamais tenha receio e sem que os maus tornem a oprimi-lo como outrora, quando Eu constituía juízes no meu povo de Israel. Farei que vivas seguro de todos os teus inimigos. E o Senhor anuncia que te vai fazer uma casa: Quando chegares ao termo dos teus dias e fores repousar com os teus pais, estabelecerei em teu lugar um descendente que há-de nascer de ti e consolidarei a sua realeza. Ele construirá um palácio ao meu nome e Eu consolidarei para sempre o seu trono real. Serei para ele um pai e ele será para Mim um filho. Se praticar o mal, corrigi-lo-ei com varas de homens, com castigo de homens. Mas não retirarei dele a minha misericórdia, como fiz a Saul que afastei da minha presença. A tua casa e o teu reino permanecerão para sempre diante de Mim. O teu trono será firme para sempre». Natã comunicou fielmente a David todas as palavras desta revelação.
 
Salmo Responsorial: 88
R. A minha aliança com ele será eterna.
 
Concluí uma aliança com o meu eleito, fiz um juramento a David, meu servo: «Conservarei a tua descendência para sempre, estabelecerei o teu trono por todas as gerações».
 
Ele Me invocará: «Vós sois meu pai, meu Deus, meu Salvador». E Eu farei dele o primogénito, o mais alto entre os reis da terra.
 
Assegurar-lhe-ei para sempre o meu favor, a minha aliança com ele será irrevogável. Conservarei a sua descendência eternamente e o seu trono terá a duração dos céus.
 
Aleluia. A semente é a palavra de Deus e o semeador é Cristo: quem O encontra permanece para sempre. Aleluia.
 
Evangelho (Mc 4,1-20): Outra vez, à beira-mar, Jesus começou a ensinar, e uma grande multidão se ajuntou ao seu redor. Por isso, entrou num barco e sentou-se, enquanto toda a multidão ficava em terra, à beira-mar. Ele se pôs a ensinar-lhes muitas coisas em parábolas. No seu ensinamento, dizia-lhes: «Escutai! O semeador saiu a semear. Ao semear, uma parte caiu à beira do caminho, e os passarinhos vieram e comeram. Outra parte caiu em terreno cheio de pedras, onde não havia muita terra; brotou logo, porque a terra não era profunda, mas quando o sol saiu, a semente se queimou e secou, porque não tinha raízes. Outra parte caiu no meio dos espinhos; estes cresceram e a sufocaram, e por isso não deu fruto. E outras sementes caíram em terra boa; brotaram, cresceram e deram frutos: trinta, sessenta e até cem por um. E acrescentou: «Quem tem ouvidos para ouvir, ouça!». Quando ficaram a sós, os que estavam com ele junto com os Doze faziam perguntas sobre as parábolas. Ele dizia-lhes: «A vós é confiado o mistério do Reino de Deus. Para aqueles que estão fora tudo é apresentado em parábolas, de modo que, por mais que olhem, não enxergam, por mais que escutem, não entendem, e não se convertem, nem são perdoados». Jesus então perguntou-lhes: «Não compreendeis esta parábola? Como então, compreendereis todas as outras parábolas? O semeador semeia a palavra. Os da beira do caminho onde é semeada a palavra são os que a ouvem, mas logo vem Satanás e arranca a palavra semeada neles. Os do terreno cheio de pedras são aqueles que, ao ouvirem a palavra, imediatamente a recebem com alegria, mas não têm raízes em si mesmos, são de momento; chegando tribulação ou perseguição por causa da palavra, desistem logo. Outros ainda são os que foram semeados entre os espinhos: são os que ouvem a palavra, mas quando surgem as preocupações do mundo, a ilusão da riqueza e os outros desejos, a palavra é sufocada e fica sem fruto. E os que foram semeados em terra boa são os que ouvem a palavra e a acolhem, e produzem frutos: trinta, sessenta e cem por um».
 
«O semeador semeia a palavra»
 
Rev. D. Antoni CAROL i Hostench (Sant Cugat del Vallès, Barcelona, Espanha)
 
Hoje escutamos dos lábios do Senhor a “Parábola do semeador”. A cena é totalmente atual. O Senhor não deixa de “semear”. Também nos nossos dias é uma multidão a que escuta a Jesus pela boca de seu Vigário — o Papa—, de seus ministros e... de seus fieis laicos: a todos os batizados Cristo nos outorgou uma participação em sua missão sacerdotal. Há “fome” de Jesus. Nunca como agora a Igreja tem sido tão católica, já que sob suas “asas” abriga homens e mulheres dos cinco continentes e de todas as raças. Ele nos enviou ao mundo inteiro (cf. Mc 16,15) e, apesar das sombras do panorama, se fez realidade o mandato apostólico de Jesus Cristo.
 
O mar, a barca e as praias são substituídos por estádios, telas e modernos meios de comunicação e de transporte. Mas Jesus é hoje o mesmo de ontem. O homem não mudou, nem a sua necessidade de ensinar a amar. Também hoje há quem — por graça e gratuita escolha divina: é um mistério!— recebe e entende mais diretamente a Palavra. Como também há muitas almas que necessitam uma explicação mais descritiva e mais pausada da Revelação.
 
Em todo caso, a uns e outros, Deus nos pede frutos de santidade. O Espírito Santo nos ajuda a isso, mas não prescinde de nossa colaboração. Em primeiro lugar, é necessária a diligência. Se nós respondemos a meias, quer dizer, se nós mantemos na “fronteira” do caminho sem entrar plenamente nele, seremos vítima fácil de Satanás.
 
Segundo, a constância na oração — o diálogo—, para aprofundar no conhecimento e amor a Jesus Cristo: «Santo sem oração...? — “Não acredito nessa santidade» (São Josémaria).
 
Finalmente, o espírito de pobreza e desprendimento evitará que nos “afoguemos” pelo caminho. As coisas esclarecidas: «Ninguém pode servir a dois senhores... » (Mt 6,24).
 
Em Santa Maria encontramos o melhor modelo de correspondência à chamada de Deus.
 
Pensamentos para o Evangelho de hoje
«O cuidado da nossa alma é muito semelhante ao cultivo da terra: arrancar o que é mau e plantar o que é bom; desarraigar o orgulho e plantar a humildade; deitar fora a avareza e guardar a misericórdia; desprezar a impureza e cuidar a castidade» (São Cesário de Aries)
 
«Semear é um gesto de confiança e de esperança; é necessário o trabalho do homem, mas, depois, entra-se no período de gestação sabendo bem que muitos fatores determinarão o êxito da colheita e que sempre se corre o risco do fracasso. Não obstante isto, o camponês, ano após ano, lança as suas sementes» (Bento XVI)
 
«(…) Um cristão deve querer meditar com regularidade; doutro modo, torna-se semelhante aos três primeiros terrenos da parábola do semeador. Mas um método não passa de um guia; o importante é avançar, com o Espírito Santo, no caminho único da oração: Cristo Jesus» (Catecismo da Igreja Católica, nº 2.707)
 
Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm
 
* Sentado num barco, Jesus ensina o povo.
Nestes versos, Marcos descreve o jeito que Jesus tinha de ensinar o povo: na praia, sentado no barco, muita gente ao redor para escutar. Jesus não era uma pessoa estudada (Jo 7,15). Não tinha frequentado a escola superior de Jerusalém. Vinha do interior, da roça, de Nazaré. Era um desconhecido, meio camponês, meio artesão. Sem pedir licença às autoridades, começou a ensinar o povo. Falava tudo diferente. O povo gostava de ouvi-lo.
 
* Por meio das parábolas, Jesus ajudava o povo a perceber a presença misteriosa do Reino nas coisas da vida. Uma parábola é uma comparação. Ela usa as coisas conhecidas e visíveis da vida para explicar as coisas invisíveis e desconhecidas do Reino de Deus. Por exemplo, o povo da Galileia entendia de semente, de terreno, chuva, sol, sal, flores, colheita, pescaria, etc. Ora, são exatamente estas coisas conhecidas do povo que Jesus usa nas parábolas para explicar o mistério do Reino.
 
* A parábola da semente retrata a vida do camponês. Naquele tempo, não era fácil viver da agricultura. O terreno tinha muita pedra. Muito mato. Pouca chuva, muito sol. Além disso, muitas vezes, o povo encurtava estrada e, passando no meio do campo, pisava nas plantas (Mc 2,23). Mesmo assim, apesar de tudo isso, todo ano, o agricultor semeava e plantava, confiando na força da semente, na generosidade da natureza.
 
* Quem tem ouvidos para ouvir, ouça! Jesus começou a parábola dizendo: “Escutem!” (Mc 4,3). Agora, no fim, ele termina dizendo: “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça!” O caminho para chegar ao entendimento da parábola é a busca: “Tratem de entender!” A parábola não entrega tudo pronto, mas leva a pensar e faz descobrir a partir da própria experiência que os ouvintes têm da semente. Provoca a criatividade e a participação. Não é uma doutrina que já vem pronta para ser ensinada e decorada. A Parábola não dá água engarrafada, mas entrega a fonte. O agricultor que escutou, diz: “Semente no terreno, eu sei o que é! Mas Jesus diz que isso tem a ver com o Reino de Deus. O que seria?” E aí você pode imaginar as longas conversas do povo! A parábola mexe com o povo e leva a escutar a natureza e a pensar na vida.
 
* Jesus explica a parábola aos discípulos. Em casa, a sós com Jesus, os discípulos querem saber o significado da parábola. Eles não entenderam. Jesus estranhou a ignorância deles (Mc 4,13) e respondeu por meio de uma frase difícil e misteriosa. Ele diz aos discípulos: “A vocês foi dado o mistério do Reino de Deus. Aos de fora, porém, tudo acontece em parábolas, para que vendo não vejam, ouvindo não ouçam e para que não se convertam e não sejam salvos!”. Esta frase faz a gente se perguntar: Afinal, a parábola serve para que? Para esclarecer ou para esconder? Será que Jesus usa parábolas, para que o povo continue na ignorância e não chegue a se converter? Certamente que não! Pois em outro lugar Marcos diz que Jesus usava parábolas “conforme a capacidade dos ouvintes” (Mc 4,33)
 
 
* Parábola revela e esconde ao mesmo tempo! Revela para “os de dentro”, que aceitam Jesus como Messias Servidor. Esconde para os que insistem em ver nele o Messias, Rei grandioso. Estes entendem as imagens da parábola, mas não chegam a entender o seu significado.
 
* A explicação da parábola, parte por parte. Uma por uma, Jesus explica as partes da parábola, desde a semente e o terreno até a colheita. Alguns estudiosos acham que esta explicação foi acrescentada depois. Ela seria de alguma comunidade. É bem possível. Pois dentro do botão da parábola está a flor da explicação. Botão e flor, ambos têm a mesma origem que é Jesus. Por isso, nós também podemos continuar a reflexão e descobrir outras coisas bonitas dentro da parábola. Certa vez, alguém perguntou numa comunidade: “Jesus falou que devemos ser sal. Para que serve o sal?” Discutiram e, no fim, encontraram mais de dez finalidades diferentes para o sal! Aí foram aplicar tudo isto à vida da comunidade e descobriram que ser sal é difícil e exigente. A parábola funcionou! O mesmo vale para a semente. Todo mundo tem alguma experiência de semente.
 
Para um confronto pessoal
1) Qual a experiência que você tem de semente? Como ela te ajuda a entender melhor a Boa Nova
2) Que terreno eu sou?

Terça-feira da 3ª semana do Tempo Comum

Sto. Henrique de Ossó y Cervelló, presbítero
Bto Marcolino de Forli, presbítero
Ven. Madre Patrocínio, virgem da oic
 
1ª Leitura (2Sam 6,12b-15.17-19):
Naqueles dias, David foi buscar a arca de Deus a casa de Obed-Edom e trouxe-a para a «Cidade de David» entre manifestações de alegria. Quando os que levavam a arca do Senhor deram seis passos, imolou um boi e um vitelo cevado. David, cingido de humeral de linho, dançava com todo o entusiasmo diante do Senhor. Assim David e toda a casa de Israel transportaram a arca do Senhor, com brados de alegria e ao som da trombeta. Introduziram a arca do Senhor e colocaram-na no seu lugar, no meio da tenda que David mandara construir para ela. Depois David ofereceu holocaustos e sacrifícios de comunhão na presença do Senhor. Quando acabou de oferecer os holocaustos e os sacrifícios, David abençoou o povo em nome do Senhor do Universo. Mandou então distribuir a todo o povo, a toda a multidão de Israel, homens e mulheres, uma fogaça de pão, um pedaço de carne e um bolo de uvas. E em seguida todo o povo se retirou, cada um para sua casa.
 
Salmo Responsorial: 23
R. O Senhor é o Rei da glória.
 
Levantai, ó portas, os vossos umbrais, alteai-vos, pórticos antigos, e entrará o Rei da glória.
 
Quem é esse Rei da glória? O Senhor forte e poderoso, o Senhor poderoso nas batalhas.
 
Levantai, ó portas, os vossos umbrais, alteai-vos, pórticos antigos, e entrará o Rei da glória.
 
Quem é esse Rei da glória? O Senhor dos Exércitos, é Ele o Rei da glória.
 
Aleluia. Bendito sejais, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque revelastes aos pequeninos os mistérios do reino. Aleluia.
 
Evangelho (Mc 3,31-35): Nisso chegaram a mãe e os irmãos de Jesus. Ficaram do lado de fora e mandaram chamá-lo. Ao seu redor estava sentada muita gente. Disseram-lhe: «Tua mãe e teus irmãos e irmãs estão lá fora e te procuram». Ele respondeu: «Quem é minha mãe? Quem são meus irmãos?». E passando o olhar sobre os que estavam sentados ao seu redor, disse: «Eis minha mãe e meus irmãos! Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe».
 
«Eis minha mãe e meus irmãos! Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe»
 
Rev. D. Josep GASSÓ i Lécera (Ripollet, Barcelona, Espanha)
 
Hoje contemplamos Jesus — numa cena muito especial e, também, comprometedora — ao seu redor havia uma multidão de pessoas do povoado. Os familiares mais próximos de Jesus chegaram desde Nazaré a Cafarnaum. Mas, quando viram tanta quantidade de gente, permaneceram do lado de fora e mandaram chamá-lo. Disseram-lhe: «Tua mãe e teus irmãos e irmãs estão lá fora e te procuram» (Mc 3,32).
 
Na resposta de Jesus, como veremos, não há nenhum motivo para rechaçar os seus familiares. Jesus tinha se afastado deles para seguir o chamado divino e mostra agora que também internamente renunciou a eles: não por frialdade de sentimentos ou por menosprezo dos vínculos familiares, senão porque pertence completamente a Deus Pai. Jesus Cristo fez Ele mesmo, pessoalmente, aquilo que justamente pede aos seus discípulos.
 
Em vez da sua família da terra, Jesus escolheu uma família espiritual. Passando um olhar sobre os que estavam sentados ao seu redor, disse-lhes: «Eis minha mãe e meus irmãos. Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe». (Mc 3, 34-35). São Marcos, em outros lugares do seu Evangelho, refere outro dos olhares de Jesus ao seu redor.
 
Será que Jesus quer nos dizer que só são seus parentes os que escutam com atenção sua palavra? Não! Não são seus parentes aqueles que escutam sua palavra, senão aqueles que escutam e cumprem a vontade de Deus: esses são seu irmão, sua irmã, sua mãe.
 
Jesus faz uma exortação a aqueles que estão ali sentados —e a todos— a entrar em comunhão com Ele através do cumprimento da vontade divina. Mas, vemos, também, na suas palavras uma louvação a sua mãe, Maria, a sempre bem-aventurada por ter acreditado.
 
Pensamentos para o Evangelho de hoje
«De pouco tivesse servido a Maria a maternidade corporal se não tivesse concebido primeiro a Cristo, da maneira mais feliz, em seu coração, e só depois em seu corpo» (Santo Agostinho)
 
«”Proclama minha alma a grandeza do Senhor” (Lc 1,46). Maria expressa aí todo o programa de sua vida: não se pôr a se mesma no centro, mas deixa espaço a Deus; só então o mundo se faz bom» (Bento XVI)
 
«Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra (Lc 1,38). Assim, dando o seu consentimento à palavra de Deus, Maria tornou-se Mãe de Jesus. E aceitando de todo o coração, (...), a vontade divina da salvação, entregou-se totalmente à pessoa e à obra do seu Filho para servir» (Catecismo da Igreja Católica, n° 494)
 
Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm
 
* A família de Jesus.
Os parentes chegam na casa onde Jesus estava. Provavelmente tinham vindo de Nazaré. De lá até Cafarnaum são uns 40 quilômetros. Sua mãe veio junto. Eles não entram, mas mandam recado: Tua mãe, teus irmãos e tuas irmãs estão lá fora e te procuram! A reação de Jesus é firme: Quem é minha mãe, quem são meus irmãos? E ele mesmo responde apontando para a multidão que estava ao redor: Eis aqui minha mãe e meus irmãos! Pois todo aquele que faz a vontade de Deus é meu irmão, minha irmã, minha mãe! Para entender bem o significado desta resposta convém olhar a situação da família no tempo de Jesus.
 
* No antigo Israel, o clã, isto é, a grande família (a comunidade), era a base da convivência social. Era a proteção das famílias e das pessoas, a garantia da posse da terra, o veículo principal da tradição, a defesa da identidade. Era a maneira concreta do povo daquela época encarnar o amor de Deus no amor ao próximo. Defender o clã era o mesmo que defender a Aliança.
 
* Na Galileia do tempo de Jesus, por causa do sistema implantado durante os longos governos de Herodes Magno (37 a.C. a 4 a.C.) e de seu filho Herodes Antipas (4 a.C. a 39 d.C.), o clã (a comunidade) estava enfraquecendo. Os impostos a serem pagos, tanto ao governo como ao templo, o endividamento crescente, a mentalidade individualista da ideologia helenista, as frequentes ameaças de repressão violenta por parte dos romanos, a obrigação de acolher os soldados e dar-lhes hospedagem, os problemas cada vez maiores de sobrevivência, tudo isto levava as famílias a se fecharem dentro das suas próprias necessidades. Este fechamento era reforçado pela religião da época. Por exemplo, quem dedicava sua herança ao Templo podia deixar seus pais sem ajuda. Isto enfraquecia o quarto mandamento que era a espinha dorsal do clã (Mc 7,8-13). Além disso, a observância das normas de pureza era fator de marginalização de muita gente: mulheres, crianças, samaritanos, estrangeiros, leprosos, possessos, publicanos, doentes, mutilados, paraplégicos.
 
* Assim, a preocupação com os problemas da própria família impedia as pessoas de se unirem em comunidade.
Ora, para que o Reino de Deus pudesse manifestar-se na convivência comunitária do povo, as pessoas tinham de ultrapassar os limites estreitos da pequena família e abrir-se, novamente, para a grande família, para a Comunidade. Jesus deu o exemplo. Quando sua própria família tentou apoderar-se dele, reagiu e alargou a família: “Quem é minha mãe, quem são meus irmãos? E ele mesmo deu a resposta apontando para a multidão que estava ao redor: Eis aqui minha mãe e meus irmãos! Pois todo aquele que faz a vontade de Deus é meu irmão, minha irmã, minha mãe! (Mc 3,33-35). Criou comunidade.
 
* Jesus pedia o mesmo de todos que queriam segui-lo. As famílias não podiam fechar-se. Os excluídos e os marginalizados deviam ser acolhidos dentro da convivência e, assim, sentir-se acolhidos por Deus (cf Lc 14,12-14). Este era o caminho para realizar o objetivo da Lei que dizia: “Entre vocês, não pode haver pobres” (Dt 15,4). Como os grandes profetas do passado, Jesus procura reforçar a vida comunitária nas aldeias da Galileia. Ele retoma o sentido profundo do clã, da família, da comunidade, como expressão da encarnação do amor de Deus no amor ao próximo.
 
Para um confronto pessoal
1) Viver a fé em comunidade. Qual o lugar e a influência da comunidade na minha maneira de viver a fé?
2) Hoje, na cidade grande, a massificação promove o individualismo que é o contrário da vida em comunidade. O que estou fazendo para combater este mal?

27 de janeiro

 Santo Enrique de Ossó y Cervelló
Presbítero
 

Nasceu em Vinebre (Catalunha, Espanha) em 16 de outubro de 1840. Foi ordenado sacerdote em 21 de setembro de 1867. Apóstolo das crianças na catequese, inspirador de movimentos seculares de espírito evangélico, diretor de almas, sentiu irresistivelmente o atrativo espiritual de Santa Teresa de Jesus, mestra de oração e filha da Igreja. À luz da sua doutrina, fundou em 1876 a Companhia de Santa Teresa, Instituto religioso feminino cujos membros têm como objetivo a formação da mulher na escola do Evangelho, seguindo os exemplos de Santa Teresa. Apóstolo dos novos tempos com a pregação e com a pena, após um duro calvário de provas e sofrimentos, morreu em Gilet (Valência, Espanha) no dia 27 de janeiro de 1896. Foi beatificado a 14 de outubro de 1979 e canonizado em Madrid no dia 16 de junho de 1993 por João Paulo II.

 
Salmodia, leitura, responsório breve e preces do dia corrente.

Oração
Senhor, nosso Deus, que no presbítero Henrique de Ossó unistes maravilhosamente a oração contínua a uma atividade apostólica incansável, concedei-nos, por sua intercessão, que, perseverando no amor de Cristo, sirvamos a vossa Igreja com palavras e obras. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.
 

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Segunda-feira da 3ª semana do Tempo Comum

Santos Timóteo e Tito, bispos
Santa Paula, viúva
 
1ª Leitura (2Sam 5,1-7.10):
Naqueles dias, todas as tribos de Israel foram ter com David a Hebron e disseram-lhe: «Nós somos dos teus ossos e da tua carne. Já antes, quando Saul era o nosso rei, eras tu quem dirigia as entradas e saídas de Israel. E o Senhor disse-te: ‘Tu apascentarás o meu povo de Israel, tu serás o rei de Israel’». Todos os anciãos de Israel foram à presença do rei, em Hebron. O rei David concluiu uma aliança com eles, em Hebron, diante do Senhor, e eles ungiram David como rei de Israel. David tinha trinta anos quando começou a reinar e reinou durante quarenta anos. Em Hebron foi rei de Judá sete anos e seis meses e em Jerusalém foi rei de Israel e de Judá trinta e três anos. David marchou com os seus homens sobre Jerusalém, contra os jebuseus, que habitavam na região, e estes disseram-lhe: «Não entrarás aqui! Os coxos e os cegos te hão de repelir». Queriam dizer: «David não entrará aqui». Mas ele apoderou-se da fortaleza de Sião, que é a «Cidade de David». David tornava-se cada vez mais poderoso e o Senhor, Deus do Universo, estava com ele.
 
Salmo Responsorial: 88
R. Com ele estará a minha fidelidade e a minha graça.
 
Falastes outrora aos vossos fiéis e numa visão lhes dissestes: «Impus uma coroa a um herói, exaltei um eleito de entre o meu povo.
 
Encontrei a David, meu servo, ungi-o com óleo santo. Estarei sempre a seu lado e com a minha força o sustentarei.
 
A minha fidelidade e minha bondade estarão com ele, pelo meu nome será firmado o seu poder. Estenderei a sua mão sobre o mar e a sua direita sobre os rios».
 
Aleluia. Jesus Cristo, nosso Salvador, destruiu a morte e fez brilhar a vida por meio do Evangelho. Aleluia.
 
Evangelho (Mc 3,22-30): Os escribas vindos de Jerusalém diziam que ele estava possuído por Beelzebu e expulsava os demônios pelo poder do chefe dos demônios. Jesus os chamou e falou-lhes em parábolas: «Como pode Satanás expulsar Satanás? Se um reino se divide internamente, ele não consegue manter-se. Se uma família se divide internamente, ela não consegue manter-se. Assim também, se Satanás se levanta contra si mesmo e se divide, ele não consegue manter-se, mas se acaba. Além disso, ninguém pode entrar na casa de um homem forte para saquear seus bens, sem antes amarrá-lo; só depois poderá saquear a sua casa. Em verdade, vos digo: tudo será perdoado às pessoas, tanto os pecados como as blasfêmias que tiverem proferido. Aquele, porém, que blasfemar contra o Espírito Santo nunca será perdoado; será réu de um ‘pecado eterno’». Isso, porque diziam: «Ele tem um espírito impuro».
 
«Aquele, porém, que blasfemar contra o Espírito Santo nunca será perdoado»
 
Rev. D. Vicenç GUINOT i Gómez (Sant Feliu de Llobregat, Espanha)
 
Hoje, ao ler o Evangelho do dia, você não deixa o seu espanto – “alucina”, como se diz na linguagem da rua —. «Os escribas vindos de Jerusalém» veem a compaixão de Jesus pelas pessoas e o seu poder que atua em favor dos oprimidos, e — apesar de tudo—dizem-lhe que «estava possuído por Beelzebu» e «expulsava os demônios pelo poder do chefe dos demônios» (Mc 3, 22). Realmente é uma surpresa ver até onde podem chegar a cegueira e a malícia humanas, neste caso de uns letrados. Têm diante da bondade em pessoa, Jesus, o humilde de coração, o único Inocente e não aprendem. Eles deviam ser os entendidos, os que conhecem as coisas de Deus para ajudar o povo, e afinal não só não o reconhecem como o acusam de diabólico.
 
Com este panorama era caso para dar meia volta e dizer: «Ficai aí!». Mas o Senhor sofre com paciência esse juízo temerário sobre a sua pessoa. Como afirmou são João Paulo II, Ele «é um testemunho insuperável de amor paciente de humildade e mansidão». A sua condescendência sem limites leva-o, inclusive, a tratar de remover os seus corações argumentando-lhes com parábolas e considerações da razão. Até que, no final, adverte com a sua autoridade divina que esse fechar de coração, que é rebeldia diante do Espírito Santo ficará sem perdão (cf Mc 3,29). E não porque Deus não queira perdoar, mas porque para ser perdoado, primeiro, cada um tem que reconhecer o seu pecado.
 
Como anunciou o Mestre, é longa a lista de discípulos que sofreram a incompreensão, quando agiam com toda a boa intenção. Pensemos, por exemplo, em Santa Teresa de Jesus quando tentava levar à mais alta perfeição as suas irmãs.
 
Não estranhemos, por tanto, se no nosso caminhar aparecerem essas contradições. Serão indício de que vamos no bom caminho. Rezemos por essas pessoas e peçamos ao Senhor que nos dê resistência.
 
Pensamentos para o Evangelho de hoje
«O diabo é um maestro perverso que muitas vezes mistura o que é falso com o que é verdadeiro para encobrir, com aparência de verdade, o testemunho do engano» (S. Beda, Venerável)
 
«Tanto esta geração como muitas outras, foram levadas a acreditar que o diabo era um mito, a ideia do mal. Mas, o diabo existe e nós devemos combatê-lo, mesmo que não estejamos completamente convencidos disso» (Francisco)
 
«Os sinais realizados por Jesus testemunham que o Pai O enviou. Convidam a crer n'Ele. (...) Assim, os milagres fortificam a fé n'Aquele que faz as obras do seu Pai: testemunham que Ele é o Filho de Deus. Mas também podem ser “ocasião de queda”. Eles não pretendem satisfazer a curiosidade nem desejos mágicos. Apesar de os seus milagres serem tão evidentes, Jesus é rejeitado por alguns; chega mesmo a ser acusado de agir pelo poder dos demónios» (Catecismo da Igreja Católica, nº 548)
 
Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm
 
* O conflito cresce.
Existe uma sequência progressiva no evangelho de Marcos. Na medida em que a Boa Nova progride e é aceita pelo povo, nesta mesma medida cresce a resistência por parte das autoridades religiosas. O conflito começa a crescer e envolve vários grupos de pessoas. Por exemplo, os parentes de Jesus acham que ele ficou louco (Mc 3,20-21), e os escribas que tinham vindo de Jerusalém acham que ele é um possesso (Mc 3,22).
 
* Conflito com as autoridades. Os escribas caluniam Jesus. Dizem que ele está possesso e que expulsa os demônios com a ajuda de Belzebu, o príncipe dos demônios. Eles tinham vindo de Jerusalém, a mais de 120 km de distância, para vigiar o comportamento de Jesus. Queriam defender a Tradição contra as novidades que Jesus ensinava ao povo (Mc 7,1). Achavam que o ensino dele era contra a boa doutrina. A resposta de Jesus tem três partes.
 
* Primeira parte: a comparação da família dividida. Jesus usa a comparação da família dividida e do reino dividido para denunciar o absurdo da calúnia. Dizer que Jesus expulsa os demônios com a ajuda do príncipe dos demônios é negar a evidência. É o mesmo que dizer que a água é seca, e que o sol é escuridão. Os doutores de Jerusalém caluniavam, porque não sabiam explicar os benefícios que Jesus realizava para o povo. Estavam com medo de perder a liderança.
 
* Segunda parte: a comparação do homem forte. Jesus compara o demônio com um homem forte. Ninguém, a não ser uma pessoa mais forte, poderá roubar a casa de um homem forte. Jesus é este mais forte que chegou. Por isso, ele consegue entrar na casa e amarrar o homem forte. Consegue expulsar os demônios. Jesus amarrou o homem forte e agora rouba a casa dele, isto é, liberta as pessoas que estavam no poder do mal. O profeta Isaías já tinha usado a mesma comparação para descrever a vinda do messias (Is 49,24-25). Lucas acrescenta que a expulsão do demônio é um sinal evidente de que chegou o Reino de Deus (Lc 11,20).
 
* Terceira parte: o pecado contra o Espírito Santo. Todos os pecados têm perdão, menos o pecado contra o Espírito Santo. O que é o pecado contra o Espírito Santo? É dizer: “O espírito que leva Jesus a expulsar o demônio, vem do próprio demônio!” Quem fala assim torna-se incapaz de receber o perdão. Por quê? Quem tapa os olhos pode enxergar? Não pode! Quem mantém a boca fechada pode comer? Não pode! Quem não fecha o guarda-chuva da calúnia pode receber a chuva do perdão? Não pode! O perdão passaria de lado e não o atingiria! Não é que Deus não quer perdoar. Deus quer perdoar sempre! Mas é o pecador que se recusa a receber o perdão!
 
Para um confronto pessoal
1) As autoridades religiosas se fecham e negam a evidência. Já aconteceu comigo eu me fechar contra a evidência dos fatos?
2) Calúnia é a arma dos fracos. Você já teve experiência neste ponto?

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

III Domingo do Tempo Comum

Domingo da Palavra
Conversão de São Paulo
 
1ª Leitura (Is 8,23b–9,3):
Assim como no tempo passado foi humilhada a terra de Zabulon e de Neftali, também no futuro será coberto de glória o caminho do mar, o Além do Jordão, a Galileia dos gentios. O povo que andava nas trevas viu uma grande luz; para aqueles que habitavam nas sombras da morte uma luz se levantou. Multiplicastes a sua alegria, aumentastes o seu contentamento. Rejubilam na vossa presença, como os que se alegram no tempo da colheita, como exultam os que repartem despojos. Vós quebrastes, como no dia de Madiã, o jugo que pesava sobre o povo, o madeiro que ele tinha sobre os ombros e o bastão do opressor.
 
Salmo Responsorial: 26
R. O Senhor é minha luz e salvação.
 
O Senhor é minha luz e salvação: a quem hei de temer? O Senhor é protetor da minha vida: de quem hei de ter medo?
 
Uma coisa peço ao Senhor, por ela anseio: habitar na casa do Senhor todos os dias da minha vida, para gozar da suavidade do Senhor e visitar o seu santuário.
 
Espero vir a contemplar a bondade do Senhor na terra dos vivos. Confia no Senhor, sê forte. Tem confiança e confia no Senhor.
 
2ª Leitura (1Cor 1,10-13.17): Irmãos: Rogo-vos, pelo nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, que faleis todos a mesma linguagem e que não haja divisões entre vós, permanecendo bem unidos, no mesmo pensar e no mesmo agir. Eu soube, meus irmãos, pela gente de Cloé, que há divisões entre vós, que há entre vós quem diga: «Eu sou de Paulo», «eu de Apolo», «eu de Pedro», «eu de Cristo». Estará Cristo dividido? Porventura Paulo foi crucificado por vós? Foi em nome de Paulo que recebestes o Baptismo? Na verdade, Cristo não me enviou para batizar, mas para anunciar o Evangelho; não, porém, com sabedoria de palavras, a fim de não desvirtuar a cruz de Cristo.
 
Aleluia. Jesus proclamava o Evangelho do reino e curava todas as doenças entre o povo. Aleluia.
 
Evangelho (Mt 4,12-23): Quando soube que João tinha sido preso, Jesus retirou-se para a Galileia. Deixou Nazaré e foi morar em Cafarnaum, às margens do mar da Galileia, no território de Zabulon e de Neftali, para cumprir-se o que foi dito pelo profeta Isaías: «Terra de Zabulon, terra de Neftali, caminho do mar, região além do Jordão, Galileia, entregue às nações pagãs! O povo que ficava nas trevas viu uma grande luz, para os habitantes da região sombria da morte uma luz surgiu». Daí em diante, Jesus começou a anunciar: “Convertei-vos, pois o Reino dos Céus está próximo». Caminhando à beira do mar da Galileia, Jesus viu dois irmãos: Simão, chamado Pedro, e seu irmão André. Estavam jogando as redes ao mar, pois eram pescadores. Jesus disse-lhes: «Segui-me, e eu farei de vós pescadores de homens». Eles, imediatamente, deixaram as redes e o seguiram. Prosseguindo adiante, viu outros dois irmãos: Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João. Estavam no barco, com seu pai Zebedeu, consertando as redes. Ele os chamou. Deixando imediatamente o barco e o pai, eles o seguiram. Jesus percorria toda a Galileia, ensinando nas sinagogas, anunciando a Boa Nova do Reino e curando toda espécie de doença e enfermidade do povo.
 
«Jesus percorria toda a Galileia»
 
Rev. D. Josep RIBOT i Margarit  (Tarragona, Espanha)
 
Hoje, Jesus dá-nos uma lição de “santa prudência”, perfeitamente compatível com a audácia e a valentia. Efectivamente, Ele - que não tem medo de proclamar a verdade - decide retirar-se, ao ver que - como já tinham feito com João Baptista - os seus inimigos O querem matar: «Sai daqui, porque Herodes te quer matar» (Lc 13,31). - Se Àquele que passou fazendo o bem, os seus detratores tentaram causar dano, não se estranhe que também soframos perseguições, como nos anunciou o Senhor.
 
«Quando soube que João tinha sido preso, Jesus retirou-se para a Galileia» (Mt 4,12). Seria imprudente desafiar os perigos sem um motivo que o exigisse. Apenas na oração discernimos quando o silêncio ou a inatividade - deixar passar o tempo - são sintomas de sabedoria, ou de cobardia e falta de fortaleza. A paciência, ciência da paz, ajuda a decidir com serenidade nos momentos difíceis, se não perdermos a visão sobrenatural.
 
«Jesus percorria toda a Galileia, ensinando nas sinagogas, anunciando a Boa Nova do Reino e curando toda a espécie de doenças e enfermidades do povo» (Mt 4,23). Nem as ameaças, nem o medo ao que dirão ou as possíveis críticas nos podem impedir de fazer o bem. Aqueles que estamos chamados a ser sal e luz, promotores do bem e da verdade, não podemos ceder diante da chantagem da ameaça, que tantas vezes não passará de um perigo hipotético ou meramente verbal.
 
Decididos, audazes, sem procurar desculpas para adiar a ação apostólica para “depois”. Dizem que «o “depois” é o advérbio dos vencidos». Por isso, São Josemaria recomendava, «uma receita eficaz para o teu espírito apostólico: Planos concretos, não de sábado a sábado, mas de hoje para amanhã (...)».
 
Cumprir a vontade de Deus, ser justos em qualquer ambiente e seguir os ditames da consciência bem formada exige uma fortaleza que devemos pedir para todos, porque o perigo da cobardia é grande. Peçamos à nossa Mãe do Céu que nos ajude a cumprir sempre e em tudo a vontade de Deus, imitando a sua fortaleza ao pé da Cruz.
 
Pensamentos para o Evangelho de hoje
«Não serei pobre em méritos, entanto Ele não o seja em misericórdia. E, embora tenha consciência de meus muitos pecados, se o pecado cresceu, mais desbordante foi a graça. E, se a misericórdia do Senhor é para sempre, eu também cantarei eternamente as misericórdias do Senhor» (São Bernardo)
 
«Naveguem mar adentro, e jogar as redes! Também vocês estão chamados a converter-se em “pescadores de homens”. Não duvidem em empregar vossa vida para testemunhar com alegria o Evangelho, especialmente a vossos coetâneos» (Francisco)
 
«Aquele que, com ajuda de Deus, aceitaram o convite de Cristo e livremente Lhe responderam, foram por sua vez impelidos, pelo amor do mesmo Cristo, a anunciar por toda a parte a Boa-Nova» (Catecismo da Igreja Católica, n° 3)
 
Jesus: a Luz que dissipa as trevas
 
Pe. Pedro Viva, Diocese de Leiria-Fátima
 
* Celebrarmos, neste domingo, o Domingo da Palavra, a liturgia coloca o nosso olhar sobre a pessoa de Jesus.
Ele é a verdadeira luz que brilha nas trevas. Assim O apresenta o evangelista Mateus, citando o texto do profeta Isaías que nos serve de primeira leitura. E, ao mesmo tempo e sem demoras, Jesus começa a sua pregação nas sinagogas e nas aldeias por onde passava. Não sem antes ter chamado os primeiros quatro Apóstolos (dois pares de irmãos) para que sejam testemunhas d’Ele: do que viram e do que ouviram. É Ele o único fundamento da Igreja. Fundamento lembrado por Paulo na sua Primeira Carta aos Coríntios, tentando superar as divisões que se instalaram nela, também a propósito de motivos religiosos. É através da pregação que a Igreja, hoje, de forma particular, pode apresentar Cristo ao mundo. Pregação que fará brotar frutos de caridade.
 
* Depois das narrações dos chamados Evangelhos da Infância de Jesus e após o Seu Batismo no Jordão, Jesus inicia a sua missão na Galileia, mais precisamente nos territórios de Zabulon e Neftali, fixando-se em Cafarnaum, à beira do Lago de Genesaré, que funcionará como ponto de partida das suas pregações pelas regiões vizinhas. Não sendo a capital política (era Tiberíades), nem tendo a importância de Magdala, mas rica, acabava por ser tida como a capital religiosa da Galileia, fazendo fronteira com Golan e por onde passava o famoso «caminho do Mar» que levava do Egipto à Mesopotâmia. Considerada terra de pagãos pelos judeus mais zelosos, pois os seus habitantes tinham-se misturado com outros povos, é precisamente aqui que Jesus quis iniciar a Sua ação messiânica de redenção e salvação. 
 
* Tendo nascido em Belém, da Judeia, Jesus cresceu e viveu grande parte da vida em Nazaré. Nos últimos três anos da Sua vida, quando iniciou a pregação sobre o Reino de Deus fixa-se em Cafarnaum. Não deixa de ser interessante considerar que a Galileia, região que os judeus mais ortodoxos consideravam uma terra de pagãos, tenha sido a escolhida por Jesus para iniciar as suas pregações. Particularmente Cafarnaum, ficava na fronteira com o mundo pagão. Aponta já para a nova realidade que Jesus vem ensinar: a universalidade da salvação, ou seja, não um exclusivo do povo judeu, mas uma proposta feita a todos os povos. «… O povo que vivia nas trevas viu uma grande luz; para aqueles que habitavam na sombria região da morte, uma luz se levantou». ´
 
* Num segundo momento do texto apresenta-se o conteúdo da mensagem e da missão de Jesus: «Arrependei-vos, porque o reino de Deus está próximo». É Jesus, Ele mesmo, a concretização desse Reino: um reino de Justiça, paz, misericórdia, bem diferente dos reinos do mundo e de muitos reinados que o povo judeu conheceu, com monarcas mais preocupados com os seus interesses pessoais do que com a causa do bem comum, como bem denunciaram muitos profetas. Para acolher este novo Reino e fazer parte dele é necessário o arrependimento. Não basta uma operação de cosmética superficial. É necessário mudar de mentalidade e, de coração, deixar que Deus reine. Assim era para aqueles primeiros discípulos e para nós, hoje. 
 
* Jesus chama a Si os primeiros discípulos. Ao contrário dos rabis, até então, que eram escolhidos pelos seus discípulos, é Jesus que toma a iniciativa de chamar, formar e depois de entrarem em profunda sintonia com o Seu projeto salvador, enviá-los em missão para darem testemunho do que viram e ouviram. Aliás, será esse um dos critérios para nos primeiros tempos se agregar alguém ao colégio dos Apóstolos: alguém que testemunhou os ensinamentos de Jesus, alguém que fez caminhada com eles. E eles, de imediato, deixaram as suas famílias, as suas profissões, o seu quadro mental de referências, as suas seguranças económicas e seguiram Jesus. Certamente não entenderam tudo de uma vez. Mas a generosidade do seu sim deve ser para nós inspirador. Para além dos cálculos, ser cristão e, por consequência, discípulo-missionário, é um risco que vale a pena correr. 
 
* Por fim, vemos Jesus atuar: «ensinando nas sinagogas, proclamando o Evangelho do reino e curando todas as doenças e enfermidades entre o povo».
Às palavras, juntam-se os gestos de Jesus. As Suas Palavras dizem e fazem. Não são palavras inconsequentes ou de pura retórica. São palavras de vida eterna, como um dia lhe dirá Pedro. São palavras que levantam, perdoam, reconstroem vidas. 
 
* A celebração da Eucaristia é constituída por dois momentos fundamentais: a liturgia da Palavra e a liturgia Eucarística. A Palavra de Deus não é um adorno: ela é a expressão da vontade e dos projetos de Deus a nosso respeito e para nosso bem. Se não escutarmos a Palavra, como poderemos conhecer os projetos do Senhor, como poderemos responder ao Seu chamamento com prontidão, como fizeram Pedro, André, Tiago e João? Neste domingo da Palavra, é mais uma oportunidade que temos para deixar que as Palavras do Senhor ecoem no mais profundo do nosso coração.
 
* Em Jesus, o anúncio do Reino de Deus não é mera proclamação, mas realização. O início da pregação de Jesus foi verdadeiro bálsamo para aqueles pobres de Israel que esperavam a concretização das promessas de Deus, anunciadas por Isaías e que Jesus assume por inteiro: «cumpriu-se hoje mesmo aquilo que acabais de ouvir». Quem participa na Eucaristia deve ser capaz de tirar consequências sociais para a sua vida e para a vida da comunidade.
 
* «Arrependei-vos, porque o reino de Deus está próximo». O Hoje da Salvação, realizado por Jesus, deve concretizar-se em nós com uma dupla atitude que se implica mutuamente: de arrependimento e de fé. Sem fé não há verdadeiro arrependimento (é mero esforço nosso) e o arrependimento reforça em nós a confiança na misericórdia de Deus. O ato penitencial, no início da Eucaristia, ajuda-nos a tomar consciência da nossa condição de penitentes sempre necessitados de perdão.
 
* «Vinde e segui-Me e farei de vós pescadores de homens». Ao contrário do comodismo que nos instala, Jesus desinstala-nos e propõe-nos segui-Lo. E é na medida que nos dispomos a segui-Lo que poderemos assumir a Sua missão, hoje. Ser pescador de homens é resgatar quem está na iminência de se perder nas ondas do mar revolto da vida.
 
MEDITAÇÃO
1 -
Como respondo à Palavra de Deus?
2 - Como me preparo para receber Jesus com um coração puro? Celebro com frequência o Sacramento da Reconciliação?
3 - Que contributo quero eu dar para ajudar quem vive na tristeza, no desespero, na angústia?

24 de janeiro: São Francisco de Sales, bispo e doutor da Igreja

1ª Leitura (2Sam 1,1-4.11-12.19.23-27):
Naqueles dias, David, ao voltar da vitória sobre os amalecitas, ficou dois dias em Siclag. Ao terceiro dia, chegou um homem que vinha do acampamento de Saul: trazia as vestes rasgadas e a cabeça coberta de poeira. Ao chegar à presença de David, prostrou-se por terra em profunda reverência. David perguntou-lhe: «De onde vens?». Ele respondeu: «Escapei-me do acampamento de Israel». Disse David: «Que aconteceu? Conta-me tudo». O homem respondeu: «O exército fugiu do campo de batalha, muitos homens tombaram e o próprio Saul e seu filho Jónatas também pereceram». Então David agarrou as suas vestes e rasgou-as e o mesmo fizeram todos os que estavam com ele. Depois lamentaram-se, choraram e jejuaram até à tarde por Saul e seu filho Jónatas, pelo povo do Senhor e pela casa de Israel, porque tinham sucumbido ao fio da espada. E David exclamou: «Como pereceram nos altos montes os que eram o teu esplendor, Israel! Como sucumbiram os heróis! Saul e Jónatas, tão amados e queridos, nem na vida nem na morte foram separados. Eram mais velozes do que as águias, mais valentes do que os leões. Filhas de Israel, chorai por Saul, que vos vestiu de púrpura e linho e enfeitava de ouro os vossos vestidos. Como sucumbiram os heróis no combate! Como pereceu Jónatas nos altos montes! Choro por ti, Jónatas, meu irmão. Eras o meu melhor amigo e para mim a tua amizade era mais maravilhosa que o amor de uma mulher. Como sucumbiram os heróis, como pereceram estes valentes guerreiros!».
 
Salmo Responsorial: 79
R. Mostrai-nos, Senhor, o vosso rosto e seremos salvos.
 
Pastor de Israel, escutai, Vós que conduzis José como um rebanho. Vós que estais sobre os Querubins, aparecei à frente de Efraim, Benjamim e Manassés. Despertai o vosso poder e vinde em nosso auxílio.
 
Senhor, Deus do universo, até quando ardereis em cólera, apesar da oração do vosso povo? Destes-nos a comer o pão das lágrimas e a beber copioso pranto. Fizestes de nós objeto de contenda entre vizinhos e os inimigos zombam de nós.
 
Aleluia. Abri, Senhor, os nossos corações, para recebermos a palavra do vosso Filho. Aleluia.
 
Evangelho (Mc 3,20-21): Jesus voltou para casa, e outra vez se ajuntou tanta gente que eles nem mesmo podiam se alimentar. Quando seus familiares souberam disso, vieram para detê-lo, pois diziam: «Está ficando louco».
 
«Está ficando louco»
 
Rev. D. Antoni CAROL i Hostench (Sant Cugat del Vallès, Barcelona, Espanha)
 
Hoje vemos como os próprios integrantes da família de Jesus atrevem-se a dizer dele que «Está ficando louco» (Mc 3,21). Uma vez mais, cumpre-se o antigo provérbio de que «Um profeta só não é valorizado em sua própria cidade e na sua própria casa!» (Mt 13,57). Esta lamentação não “salpica” Maria Santíssima, porque desde o primeiro até o último momento —quando ela estava ao pé da Cruz— manteve-se solidamente firme na fé e confiança para com seu Filho.
 
Agora bem, e nós? Façamos exame! Quantas pessoas que vivem ao nosso redor, que as temos ao nosso alcance, são luz para nossas vidas e, nós...? Não é necessário ir muito longe: Pensemos no Papa João Paulo II: quanta gente o seguiu e, ao mesmo tempo, quantos o interpretavam como um “teimoso-antiquado”, ciumento do seu “poder”? É possível que Jesus —dois mil anos depois— ainda continue na Cruz pela nossa salvação e, que nós, desde aqui embaixo, continuemos dizendo-lhe «desça agora da cruz, para que vejamos e acreditemos!» (cf. Mc 15,32)?
 
Ou pelo contrário. Se nos esforçarmos por configurarmos com Cristo, nossa presença não resultará neutra para quem interagem conosco por motivos de parentesco, trabalho, etc. Ainda mais, para alguns será molesta, porque seremos um reclamo de consciência. Bem garantido o temos! «Se me perseguiram, perseguirão a vós também» (Jo 15,20). Através das suas burlas esconderão seu medo, mediante suas desqualificações farão uma má defesa de sua “poltronaria”
 
Quantas vezes nos rotulam aos católicos de sermos "exagerados”? Devemos lhes responder que não o somos, porque em questões de amor é impossível exagerar. Mas que é verdade que somos “radicais”, porque o amor é assim de “totalizador” «ou todo, ou nada»; «ou o amor mata o eu, ou o eu, mata o amor».
 
É por isso que o Santo Pai nos falou de “radicalismo evangélico” e de “não ter medo”: «Na causa do Reino não há tempo para olhar para atrás, menos ainda para dar-se à preguiça» (Santo João Paulo II).
 
Pensamentos para o Evangelho de hoje
«Um sector do povo julga pejorativamente a obra e a mensagem de Cristo. Devemos de aprender da força de Cristo ao sofrer tamanha difamação e calúnia. O que interessa se os homens nos desonram, se a nossa consciência nos defende?» (São Gregório Magno)
 
«A sua Mãe seguiu-o sempre fielmente, mantendo o olhar do seu coração fixo em Jesus e no seu mistério. Peçamos a Maria que nos ajude também a manter o olhar fixo em Jesus e a segui-lo sempre, mesmo quando custa» (Francisco)
 
«Muitas coisas que interessam à curiosidade humana, a respeito de Jesus, não figuram nos evangelhos. Quase nada se diz da sua vida em Nazaré e mesmo grande parte da sua vida pública não é relatada. O que foi escrito nos evangelhos, foi-o ‘para acreditardes que Jesus é o Messias, o Filho de Deus, e para que, acreditando, tenhais a vida em seu nome’ (Jo 20, 31)» (Catecismo da Igreja Católica, nº 514)
 
Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm
 
* O evangelho de hoje é bem curto.
Apenas dois versículos. Ele fala de duas coisas: (1) da grande atividade de Jesus a ponto de ele não ter tempo para comer, e (2) da reação contrária da família de Jesus a ponto de achar que ele estava louco. Jesus teve problemas com a família. A família, às vezes, ajuda e, outras vezes, atrapalha. Assim foi com Jesus e assim é conosco.
 
* Marcos 3,20: A atividade de Jesus. Jesus voltou para casa. O domicílio dele agora é em Cafarnaum (Mc 2,1). Já não mora mais com a família em Nazaré. Sabendo que Jesus estava em casa, o povo foi para lá. Juntou tanta gente que eles não tinham nem tempo para comer. Mais adiante Marcos novamente fala do muito serviço a ponto de não terem tempo para poder comer sossegados (Mc 6,31)
 
* Marcos 3,20: Conflito com a família. Quando os parentes de Jesus souberam disso, disseram: “Ficou louco!” Talvez, porque Jesus tinha saído fora do comportamento normal. Talvez, porque comprometia o nome da família. Seja como for, os parentes decidem levá-lo de volta para Nazaré. Sinal de que o relacionamento de Jesus com a sua família estava estremecido. Isto deve ter sido fonte de muito sofrimento, tanto para ele como para Maria, sua mãe. Mais adiante (Mc 3,31-35) Marcos conta como foi o encontro dos parentes com Jesus. Eles chegaram na casa onde Jesus estava. Provavelmente tinham vindo de Nazaré. De lá até Cafarnaum são uns 40 quilômetros. Sua mãe veio junto. Eles não podiam entrar na casa, porque havia gente demais na entrada. Por isso mandaram um recado: Tua mãe, teus irmãos e tuas irmãs estão lá fora e te procuram! A reação de Jesus foi firme perguntando: Quem é minha mãe, quem são meus irmãos? E ele mesmo responde apontando para a multidão que estava ao redor: Eis aqui minha mãe e meus irmãos! Pois todo aquele que faz a vontade de Deus é meu irmão, minha irmã, minha mãe! Alargou a família! Jesus não permite que a família o afaste da missão.
 
* A situação da família no tempo de Jesus. No antigo Israel, o clã, isto é, a grande família (a comunidade), era a base da convivência social. Era a proteção das pequenas famílias e das pessoas, a garantia da posse da terra, o veículo principal da tradição, a defesa da identidade. Era a maneira concreta do povo daquela época encarnar o amor de Deus no amor ao próximo. Defender o clã, a comunidade, era o mesmo que defender a Aliança. Na Galileia do tempo de Jesus, por causa do sistema romano, implantado durante os longos governos de Herodes Magno (37 a.C. a 4 a.C.) e de seu filho Herodes Antipas (4 a.C. a 39 d.C.), tudo isto já não existia mais, ou cada vez menos. O clã (comunidade) estava enfraquecendo. Os impostos a serem pagos tanto ao governo como ao templo, o endividamento crescente, a mentalidade individualista da ideologia helenista, as frequentes ameaças de repressão violenta por parte dos romanos, a obrigação de acolher os soldados e dar-lhes hospedagem, os problemas cada vez maiores de sobrevivência, tudo isto levava as famílias a se fecharem sobre si mesmas e dentro das suas próprias necessidades. Já não se praticava mais a hospitalidade, a partilha, a comunhão de mesa e a acolhida aos excluídos. Este fechamento era reforçado pela religião da época. A observância das normas de pureza era fator de marginalização de muita gente: mulheres, crianças, samaritanos, estrangeiros, leprosos, possessos, publicanos, doentes, mutilados, paraplégicos. Em vez de acolhida, partilha e comunhão, estas normas favoreciam a separação e a exclusão.
 
* Assim, tanto a conjuntura política, social e econômica como a ideologia religiosa da época, tudo conspirava para o enfraquecimento dos valores centrais do clã, da comunidade. Ora, para que o Reino de Deus pudesse manifestar-se, novamente, na convivência comunitária do povo, as pessoas tinham de ultrapassar os limites estreitos da pequena família e abrir-se de novo para a grande família, para a Comunidade.
 
* Jesus deu o exemplo. Quando seus parentes chegaram em Cafarnaum e tentaram apoderar-se dele para levá-lo de volta para casa, ele reagiu. Em vez de fechar-se na sua pequena família, e alargou a família (Mc 3,33-35). Criou comunidade. Ele pedia o mesmo de todos que queriam segui-lo. As famílias não podiam fechar-se. Os excluídos e os marginalizados deviam ser acolhidos, novamente, dentro da convivência e, assim, sentir-se acolhidos por Deus (cf Lc 14,12-14). Este era o caminho para realizar o objetivo da Lei que dizia: “Entre vocês não pode haver pobres” (Dt 15,4). Como os grandes profetas do passado, Jesus procura reforçar a vida comunitária nas aldeias da Galileia. Ele retoma o sentido profundo do clã, da família, da comunidade, como expressão da encarnação do amor de Deus no amor ao próximo.
 
Para um confronto pessoal
1. A família ajuda ou dificulta a sua participação na comunidade cristã? Como você assume o seu compromisso na comunidade cristã?
2. O que tudo isso nos tem a dizer para as nossas relações na família e na comunidade?

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Sexta-feira da 2ª semana do Tempo Comum

Santos Esposos, Maria e José
Sto. Ildefonso, bispo
 
1ª Leitura (1Sam 24,3-21):
Naqueles dias, Saul tomou consigo três mil homens escolhidos de todo o Israel e foi à procura de David e da sua gente, junto ao Rochedo-dos-Cabritos-Monteses. Chegou a uns currais de ovelhas que se encontram à beira do caminho e entrou numa gruta para satisfazer uma necessidade. David e os seus homens estavam sentados ao fundo da gruta. Os seus homens disseram-lhe: «Hoje é o dia em que o Senhor te diz: ‘Entrego-te nas mãos o teu inimigo: faz dele o que quiseres’». David levantou-se e, sem ser pressentido, cortou um pedaço da orla do manto de Saul. Mas depois, David sentiu o coração a bater forte por ter cortado um pedaço da orla do manto de Saul. Disse então aos seus homens: «O Senhor me livre de fazer ao meu soberano uma coisa dessas, de levantar a mão contra ele, porque é o ungido do Senhor». Com estas palavras, David conteve os seus homens e não os deixou atacar Saul. Saul abandonou a gruta e seguiu o seu caminho. Então David levantou-se, saiu da gruta e gritou a Saul: «Senhor, meu rei!». Saul olhou para trás e David inclinou a face até ao chão e prostrou-se. Depois David falou a Saul: «Porque dás ouvidos àqueles que te dizem: ‘David quer fazer-te mal’? Hoje viste com os teus próprios olhos como o Senhor te entregou em minhas mãos, dentro da gruta, e como eu te poupei, recusando matar-te. Eu disse: Não levantarei a mão contra o meu soberano, porque ele é o ungido do Senhor. Meu pai, vê na minha mão um pedaço do teu manto. Se cortei a orla do teu manto e não te matei, deves reconhecer que em mim não há maldade nem traição. Enquanto atentas contra mim, para me tirares a vida, eu não pratiquei qualquer falta contra ti. O Senhor seja nosso juiz, Ele me faça justiça contra ti; mas eu não porei em ti as minhas mãos. Como diz o antigo ditado: ‘Dos maus vem a maldade’; por isso não porei em ti as minhas mãos. Contra quem se pôs em campo o rei de Israel? Quem é que tu persegues? Um cão morto? Uma pulga? Seja o Senhor o juiz e decida entre nós; Ele examine e defenda a minha causa, me faça justiça e me livre das tuas mãos». Quando David acabou de dizer estas palavras, Saul perguntou: «És realmente tu que estás a falar, meu filho David?». E, em altos brados, começou a chorar. Depois disse a David: «Tu és mais justo do que eu, porque me tens feito bem e eu tenho-te feito mal. Hoje mostraste a tua bondade para comigo, pois o Senhor entregou-me nas tuas mãos e tu não quiseste matar-me. Quando um homem encontra o seu inimigo, porventura o deixa seguir em paz o seu caminho? O Senhor te recompense pelo bem que hoje me fizeste. Agora sei que certamente serás rei e que o poder real em Israel ficará consolidado em tuas mãos».
 
Salmo Responsorial: 56
R. Tende piedade de mim, Senhor, tende piedade de mim.
 
Tende piedade de mim, ó Deus, tende piedade, porque em Vós eu procuro refúgio e me abrigo à sombra das vossas asas, até que passe a tormenta.
 
Clamo ao Deus Altíssimo, a Deus que me enche de benefícios. Do Céu me enviará a salvação, Deus me enviará a sua bondade e fidelidade.
 
Meu Deus, revelai nas alturas a vossa grandeza e sobre a terra fazei brilhar a vossa glória, porque aos céus se eleva a vossa bondade e até às nuvens a vossa fidelidade.
 
Aleluia. Em Cristo, Deus reconcilia o mundo consigo e confiou-nos a palavra da reconciliação. Aleluia.
 
Evangelho (Mc 3,13-19): Jesus subiu a montanha e chamou os que ele quis; e foram a ele. Ele constituiu então doze, para que ficassem com ele e para que os enviasse a anunciar a Boa Nova, com o poder de expulsar os demônios. Eram: Simão (a quem deu o nome de Pedro); Tiago, o filho de Zebedeu, e João, seu irmão(aos quais deu o nome de Boanerges, que quer dizer “filhos do trovão”); e ainda André, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, Tiago filho de Alfeu, Tadeu, Simão, o cananeu, e Judas Iscariotes, aquele que o traiu.
 
«Jesus subiu a montanha e chamou os que ele quis»
 
Rev. D. Jordi POU i Sabater (Sant Jordi Desvalls, Girona, Espanha)
 
Hoje o Evangelho condensa a teologia da vocação cristã: O Senhor elege os que quer para estarem com Ele ou para os enviar como apóstolos (cf. Mc 3,13-14). Em primeiro lugar, escolheu-os: antes da criação do mundo, destinou-nos a sermos santos (cf. Ef 1,4). Ama-nos em Cristo, e é nele que nos modela, dando-nos qualidades para sermos seus filhos. Apenas face à vocação se entendem as nossas qualidades; a vocação é o “papel” que nos deu na redenção. É no descobrimento do íntimo “porquê” da minha existência, quando me sinto plenamente ”eu”, quando vivo a minha vocação.
 
E para que somos chamados? Para estarmos com Ele. Esta chamada implica correspondência: «Um dia —não quero generalizar, abre o seu coração ao Senhor e conta-lhe a sua história—, provavelmente um amigo, um cristão igual a você, descobriu-lhe um panorama profundo e novo, sendo ao mesmo tempo velho como o Evangelho. E lhe sugira a possibilidade de se empenhar seriamente em seguir a Cristo, em ser apóstolo de apóstolos. Talvez tenha então perdido a tranquilidade e não a recupere, convertida em paz, até que, livremente, porque quis —que é a razão mais sobrenatural—, responda que sim a Deus. E chega à alegria, magnífica, constante, que apenas desaparece quando se afaste dele» (São Josémaria).
 
É dom, mas também tarefa: Santidade mediante a oração e os sacramentos e, além disso, luta pessoal. «Todos os fiéis, de qualquer estado e condição de vida, estão chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição na caridade, santidade que, mesmo na sociedade terrena, promove um modo mais humano de viver» (Concílio Vaticano II).
 
Assim, podemos sentir a missão apostólica: levar Cristo aos outros; tê-lo e levá-lo. Hoje podemos considerar mais atentamente a chamada e afinar algum detalhe da nossa resposta de amor.
 
Pensamentos para o Evangelho de hoje
«‘Exorto-vos a apresentar os vossos corpos’ (Rom 12,1). Orando assim, o Apóstolo eleva todos os homens à dignidade do sacerdócio; exorta todos a apresentarem os seus corpos como sacrifício vivo» (São Pedro Crisólogo)
 
«O bem tende sempre a se comunicar. Ao comunicá-lo, o bem se enraíza e se desenvolve (...). Não deveríamos de nos surpreender então com algumas expressões de São Paulo: ‘O amor de Cristo nos urge’ (2Cor 5,14); ‘Ai de mim se não proclamava o Evangelho!’ (1Cor 9,16)» (Francisco)
 
«Desde o princípio da sua vida pública, Jesus escolheu alguns homens, em número de doze, para andarem com Ele e participarem na sua missão; Deu-lhes parte na sua autoridade ‘e enviou-os a pregar o Reino de Deus e a fazer curas’ (Lc 9, 2) (…)» (Catecismo da Igreja Católica, nº 551)
 
Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm
 
* O evangelho de hoje descreve a escolha e a missão dos doze apóstolos.
Jesus começou com dois discípulos e em seguida mais dois (Mc 1,16-20). Aos poucos, o número foi crescendo. Lucas informa que ele chamou mais 72 discípulos para ir com ele na missão (Lc 10,1).
 
* Marcos 3,13-15: O chamado para uma dupla missão. Jesus chama os que ele quer e eles foram até ele. Em seguida, “Jesus constituiu o grupo dos Doze, para que ficassem com ele e para enviá-los a pregar, com autoridade para expulsar os demônios”. Jesus os chama para uma dupla finalidade, para uma dupla missão: 1) Estar com ele, isto é, formar comunidade na qual ele, Jesus, é o eixo. 2) Pregar e ter poder para expulsar os demônios, isto é, anunciar a Boa Nova e combater o poder do mal que estraga a vida do povo e aliena as pessoas. Marcos diz que Jesus subiu a uma montanha e, estando lá, chamou os discípulos. A chamada é uma subida! Na Bíblia, subir a montanha evoca a montanha onde Moisés subiu e teve um encontro com Deus (Ex 24,12). Lucas diz que Jesus tinha subido a montanha, rezou a noite toda e, no dia seguinte, chamou os discípulos. Rezou a Deus para saber a quem escolher (Lc 6,12-13). Depois de haver chamado, Jesus oficializa a escolha feita e cria um núcleo mais estável de doze pessoas para dar maior consistência à missão. É também para significar a continuidade do projeto de Deus. Os doze apóstolos do NT são os sucessores das doze tribos de Israel.
 
* Nasce assim a primeira comunidade do Novo Testamento, comunidade modelo, que vai crescendo ao redor de Jesus ao longo dos três anos da sua atividade pública. No início, são apenas quatro (Mc 1,16-20), Aos poucos, a comunidade cresce de acordo com o aumento da missão nas aldeias e povoados da Galileia. Chegou ao ponto de eles não terem nem tempo para comer e descansar (Mc 3,2). Por isso, Jesus se preocupava em proporcionar um descanso para os discípulos (Mc 6,31) e em aumentar o número dos missionários e missionárias (Lc 10,1). Deste modo Jesus procura manter o duplo objetivo do chamado: estar com ele e ir em missão. A comunidade que assim se forma ao redor de Jesus tem três características básicas que pertencem à sua natureza: ela é formadora, missionária e inserida no meio dos pobres da Galileia.
 
2. Marcos 3,16-19: A lista dos nomes dos doze apóstolos. Em seguida, Marcos traz os nomes dos doze: Simão, a quem deu o nome de Pedro; Tiago e João, filhos de Zebedeu, aos quais deu o nome de Boanerges, que quer dizer "filhos do trovão"; André, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, Tiago, filho de Alfeu, Tadeu, Simão o cananeu, Judas Iscariotes, aquele que depois o traiu. Grande parte destes nomes vem do Antigo Testamento. Por exemplo, Simeão é o nome de um dos filhos do patriarca Jacó (Gn 29,33). Tiago é o mesmo que Jacó (Gn 25,26). Judas é o nome de outro filho de Jacó (Gn 35,23). Mateus também tinha o nome de Levi (Mc 2,14), que é outro filho de Jacó (Gn 35,23). Dos doze apóstolos sete têm nome que vem do tempo dos patriarcas. Dois se chamam Simão; dois, Tiago; dois, Judas; um, Levi! Só tem um com nome grego: Filipe. Seria como hoje numa família todos os filhos terem nomes do tempo dos índios Raoni, Ubiratan, Jussara, etc, e um só ter um nome americano Washington. Isto revela o desejo do povo de refazer a história desde o começo! Vale a pena pensar nos nomes que hoje damos para os filhos. Como eles, cada um de nós é chamado por Deus pelo nome.
 
Para um confronto pessoal
1) Estar com Jesus e ir em missão é a dupla finalidade da comunidade cristã. Como você assume este seu compromisso na comunidade a que pertence?
2) Jesus chamou os discípulos pelo nome. Você, eu, todos nós existimos, porque Deus me chama pelo nome. Pensa nisso!