terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Quinta-feira da 1ª semana da Quaresma

1ª Leitura (Est 4, 17 n. p-r. aa-bb.gg-hh):
Naqueles dias, a rainha Ester, tomada de angústia mortal, procurou refúgio no Senhor e fez esta súplica ao Senhor, Deus de Israel: «Meu Senhor, nosso único Rei, vinde socorrer-me, porque estou só e não tenho outro auxílio senão Vós e corre perigo a minha vida. Desde criança, ouvi dizer na minha tribo paterna que Vós, Senhor, escolhestes Israel entre todos os povos e os nossos pais entre os seus antepassados, para serem a vossa herança perpétua, e cumpristes tudo o que lhes tínheis prometido. Lembrai-Vos de nós, Senhor, e manifestai-Vos no dia da nossa tribulação. Fortalecei-me, Rei dos deuses e Senhor dos poderosos. Ponde em meus lábios palavras harmoniosas, quando estiver na presença do leão, e mudai o seu coração, para que deteste o nosso inimigo e o arruíne com todos os seus cúmplices. Livrai-nos com a vossa mão; vinde socorrer-me no meu abandono, porque não tenho ninguém senão Vós, Senhor».
 
Salmo Responsorial: 137
R. Quando Vos invoco, sempre me atendeis, Senhor.
 
De todo o coração, Senhor, eu Vos dou graças, porque ouvistes as palavras da minha boca. Na presença dos Anjos hei de cantar-Vos e adorar-Vos, voltado para o vosso templo santo.
 
Hei de louvar o vosso nome pela vossa bondade e fidelidade, porque exaltastes acima de tudo o vosso nome e a vossa promessa. Quando Vos invoquei, me respondestes, aumentastes a fortaleza da minha alma.
 
A vossa mão direita me salvará, o Senhor completará o que em meu auxílio começou. Senhor, a vossa bondade é eterna, não abandoneis a obra das vossas mãos.
 
Criai em mim, Senhor, um coração puro, dai-me de novo a alegria da salvação.
 
Evangelho (Mt 7,7-12): «Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e encontrareis; batei, e abrir-se-vos-á. Porque, aquele que pede, recebe; e, o que busca, encontra; e, ao que bate, abrir-se-lhe-á. E qual de entre vós é o homem que, pedindo-lhe pão o seu filho, lhe dará uma pedra? E, pedindo-lhe peixe, lhe dará uma serpente? Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai, que está nos céus, dará bens aos que lhe pedirem? Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lhes também vós, porque esta é a lei e os profetas».
 
«Aquele que pede, recebe; e, o que busca, encontra»
 
Rev. D. Joaquim MESEGUER García (Rubí, Barcelona, Espanha)
 
Hoje, Jesus nos fala da necessidade e do poder da oração. Não podemos entender a vida cristã sem relação com Deus, nesta relação, a oração ocupa um lugar central. Enquanto vivemos neste mundo, os cristãos nos encontramos num caminho de peregrinação, mas a oração nos aproxima de Deus, nos abre as portas de seu amor imenso e nos antecipa as delícias do céu. Por isso, a vida cristã é uma contínua petição e busca: «Peçam, e lhes será dado! Procurem, e encontrarão! Batam, e abrirão a porta para vocês!» (Mt 7,7),nos diz Jesus.
 
Ao mesmo tempo, a oração vai transformando o coração de pedra num coração de carne: «Se vocês, que são maus, sabem dar coisas boas a seus filhos, quanto mais o Pai de vocês que está no céu dará coisas boas aos que lhe pedirem» (Mt 7,11). O melhor resumo que podemos pedir a Deus está no Pai Nosso: «venha o teu reino; seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu» (cf. Mt 6,10). Portanto, não podemos pedir na oração qualquer coisa, que não seja realmente um bem. Ninguém deseja um dano para si mesmo; por isso, não podemos querer para os outros.
 
Há quem se queixa de que Deus não lhe escuta, porque não vê os resultados de imediatamente ou porque pensa que Deus não lhe ama. Nesse caso, não nos fará mal recordar este conselho de São Jerônimo: «É verdade que Deus dá a quem pede, que quem busca encontra, e a quem chama lhe abrem: se vê claramente que aquele que não recebeu que não encontrou, nem lhe abriram, é porque não pediu bem, não buscou bem, nem chamou bem à porta». Peçamos então em primeiro lugar a Deus que faça como que o nosso coração seja bom como o de Jesus Cristo.
 
Pensamentos para o Evangelho de hoje
«A observância da Quaresma: apagar nestes dias santos as negligências de outros tempos, doando-nos à oração, à compunção do coração, oferecendo algo a Deus de nossa própria vontade para dar alegria ao Espírito Santo» (São Bento)
 
«Sem o céu, o poder terreno é sempre ambíguo e frágil. Só o poder que se coloca sob os critérios e juízo do céu, isto é, de Deus, pode ser um poder para o bem» (Bento XVI)
 
«O coração, assim decidido a converter-se, aprende a orar na fé. A fé é uma adesão filial a Deus, para além de tudo quanto sentimos e compreendemos. Tornou-se possível, porque o Filho bem-amado nos franqueia o acesso até junto do Pai. Ele pode pedir-nos que “procuremos e “batamos à porta”, porque Ele próprio é a porta e o caminho» (Catecismo da Igreja Católica, nº 2.609)
 
Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm
 
* O evangelho de hoje traz um trecho do Sermão da Montanha, a Nova Lei de Deus que nos foi revelada  por Jesus.
O Sermão da Montanha tem a seguinte estrutura:

1) Mateus 5,1-16: O portão da entrada: as bem-aventuranças (Mt 5,1-10) e a missão dos discípulos: ser sal da terra e luz do mundo (Mt 5,12-16).
 
2) Mateus 5,17 a 6,18: O novo relacionamento com Deus: A nova justiça (Mt 5,17-48) que não visa mérito na prática da esmola, da oração e do jejum (Mt 6,1-18).
 
3) Mateus 6,19-34: O novo relacionamento com os bens da terra: não acumular (Mt 6,19-21), não olhar o mundo com olhar doente (Mt 6,22-23), não servir a Deus e ao dinheiro (Mt 6,24), não se preocupar com comida e bebida (Mt 6,23-34).
 
4) Mateus 7,1-23: O novo relacionamento com as pessoas: não reparar no cisco no olho do irmão (Mt 7,1-5); não jogar pérolas aos porcos (Mt 7,6); o evangelho de hoje: não ter medo de pedir as coisas a Deus (Mt 7,7-11); e a Regra de Ouro (Mt 7,12); escolher o caminho difícil e estreito (Mt 7,13-14), tomar cuidado com os falsos profetas (Mt 7,15-20).
 
5) Mateus 7,21-29: Conclusão; não só falar mas também praticar (Mt 7,21-23); comunidade construída em cima deste fundamento ficará em pé na tempestade (Mt 7,24-27). O resultado destas palavras é uma nova  consciência frente aos escribas e doutores (Mt 7,28-29)
 
* Mateus 7,7-8:  As três recomendações de Jesus. Três recomendações: pedir, procurar e bater na porta: "Peçam, e lhes será dado! Procurem, e encontrarão! Batam, e abrirão a porta para vocês!” Pedir se faz a uma pessoa. A resposta depende tanto da pessoa como da insistência do pedido. Procurar se faz orientando-se por algum critério. Quanto melhor o critério, maior será a certeza de encontrar o que se procura. Bater na porta se faz na esperança de que haja alguém do outro lado dentro da casa. Jesus completa a recomendação oferecendo a certeza da resposta: “Todo aquele que pede, recebe; quem procura, acha; e a quem bate, a porta será aberta”. Isto significa que quando pedimos a Deus, Ele atende ao nosso pedido. Quando buscamos a Deus, ele se deixa encontrar (Is 55,6). Quando batemos na porta da casa de Deus, ele vai atender.
 
* Mateus 7,9-11: A pergunta de Jesus ao povo. “Quem de vocês dá ao filho uma pedra, quando ele pede um pão? Ou lhe dá uma cobra, quando ele pede um peixe?”  Aqui transparece o jeito simples e direto de Jesus ensinar as coisas de Deus ao povo. Falando para pais e mães de família, ele apela para a experiência diária. Nas entrelinhas das perguntas se adivinha a resposta gritada do povo: “Não!” Pois, ninguém dá uma pedra ao filho quando este pede um pão. Não existe mãe nem pai que dá uma cobra quando o filho ou a filha pede um peixe. E Jesus tira a conclusão: “Se vocês, que são maus, sabem dar coisas boas a seus filhos, quanto mais o Pai de vocês que está no céu dará coisas boas aos que lhe pedirem."  Jesus nos chama de maus para acentuar a certeza de sermos atendidos por Deus quando pedimos algo a Ele. Pois se nós, que não somos santos nem santas, sabemos dar coisas boas aos filhos, quanto mais o Pai do céu. Esta comparação tem como objetivo tirar de dentro de nós qualquer dúvida a respeito do resultado da oração feita a Deus com confiança. Deus vai atender! Lucas acrescenta que Deus nos dará o Espírito Santo (Lc 11,13)
 
* Mateus 7,12: A Regra de Ouro. "Tudo o que vocês desejam que os outros façam a vocês, façam vocês também a eles. Pois nisso consistem a Lei e os Profetas."  Este é o resumo de todo o Antigo Testamento, da Lei e dos profetas. É o resumo de tudo que Deus nos tem a dizer, o resumo de todo o ensinamento de Jesus. Esta Regra de Ouro encontra-se não só no ensinamento de Jesus, mas também, de uma ou de outra maneira, em todas as religiões. Ela responde ao sentimento mais profundo e mais universal do ser humano.
 
Para um confronto pessoal
1) Pedir, buscar, bater na porta: Como você reza e conversa com Deus?
2) Como você vive a Regra de Ouro?

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Quarta-feira da 1ª semana da Quaresma


1ª Leitura (Jn 3,1-10):
A palavra do Senhor foi dirigida a Jonas nos seguintes termos: «Levanta-te, vai à grande cidade de Nínive e apregoa nela a mensagem que Eu te direi». Jonas levantou-se e foi a Nínive, conforme a palavra do Senhor. Nínive era uma grande cidade aos olhos de Deus; levava três dias a atravessar. Jonas entrou na cidade e caminhou durante um dia, apregoando: «Daqui a quarenta dias, Nínive será destruída». Os habitantes de Nínive acreditaram em Deus, proclamaram um jejum e revestiram-se de sacos, desde o maior ao mais pequeno. Logo que a notícia chegou ao rei de Nínive, ele ergueu-se do trono e tirou o manto, cobriu-se de saco e sentou-se sobre a cinza. Depois foi proclamado em Nínive um decreto do rei e dos seus ministros, que dizia: «Os homens e os animais, os bois e as ovelhas, não provem alimento, não pastem nem bebam água. Os homens e os animais revistam-se de sacos e clamem a Deus com vigor; afaste-se cada um do seu mau caminho e das violências que tenha praticado. Quem sabe? Talvez Deus reconsidere e desista, acalmando o ardor da sua ira, de modo que não pereçamos». Quando Deus viu as suas obras e como se convertiam do seu mau caminho, desistiu do castigo com que os ameaçara e não o executou.
 
Salmo Responsorial: 50
R. Não desprezeis, Senhor, o nosso coração humilhado e contrito.
 
Compadecei-Vos de mim, ó Deus, pela vossa bondade, pela vossa grande misericórdia apagai os meus pecados. Lavai-me de toda a iniquidade e purificai-me de todas as culpas.
 
Criai em mim, ó Deus, um coração puro e fazei nascer dentro de mim um espírito firme. Não queirais afastar-me da vossa presença e não retireis de mim o vosso espírito de santidade.
 
Não é do sacrifício que Vos agradais e, se eu oferecer um holocausto, não o aceitareis. Sacrifício agradável a Deus é o espírito arrependido: não desprezareis, Senhor, um espírito humilhado e contrito.
 
Convertei-vos a Mim de todo o coração, diz o Senhor; porque sou benigno e misericordioso.
 
Evangelho (Lc 11,29-32): E, ajuntando-se a multidão, começou a dizer: «Maligna é esta geração; ela pede um sinal; e não lhe será dado outro sinal, senão o sinal do profeta Jonas; Porquanto, assim como Jonas foi sinal para os ninivitas, assim o Filho do homem o será também para esta geração. A rainha do sul se levantará no juízo com os homens desta geração, e os condenará; pois até dos confins da terra veio ouvir a sabedoria de Salomão; e eis aqui está quem é maior do que Salomão. Os homens de Nínive se levantarão no juízo com esta geração, e a condenarão; pois se converteram com a pregação de Jonas; e eis aqui está quem é maior do que Jonas».
 
«Assim como Jonas foi sinal para os ninivitas, assim o Filho do homem o será também para esta geração»
 
Fr. Roger J. LANDRY (Hyannis, Massachusetts, Estados Unidos)
 
Hoje, Jesus nos diz que o sinal que dará à “geração malvada”, de fato, assim como Jonas foi um sinal para os ninivitas, assim também será o Filho do Homem para esta geração (cf. Lc 11,30). Da mesma maneira que Jonas deixou que o lançasse pela margem para acalmar a tempestade que ameaçava com afundá-los — e, assim, salvar a vida da tripulação—, do mesmo modo que Jesus permitiu que o lançassem pela margem para acalmar as tempestades do pecado que põem em perigo nossas vidas. E, de igual forma que Jonas passou três dias no ventre da baleia antes que esta o vomitara são e salvo a terra, assim Jesus passaria três dias no seio da terra antes de abandonar a tumba (cf. Mt 12,40).
 
O sinal que Jesus dará aos “malvados” de cada geração é sua morte e ressurreição. Sua morte, aceita livremente, é o sinal do incrível amor de Deus por nós: Jesus deu sua vida para salvar a nossa. E sua ressurreição de entre os mortos é o sinal de seu divino poder. Trata-se do sinal mais poderoso e comovedor jamais dado.
 
Mas, Jesus é também a sinal de Jonas em outro sentido. Jonas foi um ícone e um meio de conversação. Quando em sua prédicas «Jonas entrou na cidade e começou a percorrê-la, caminhando um dia inteiro. Ele dizia: «Dentro de quarenta dias, Nínive será destruída!» (Jon 3,4) adverte aos ninivitas pagãos, estes se convertem, pois todos eles — desde o rei até as crianças e animais— se cobrem com serapilheira e cinzas. No dia do julgamento, os homens da cidade de Nínive ficarão de pé contra esta geração. Porque eles fizeram penitência quando ouviram Jonas pregar. E aqui está quem é maior do que Jonas.” (cf. Lc 11,32) predicando a conversão a todos nós: Ele o próprio Jesus. Portanto, nossa conversão deveria ser igualmente exaustiva.
 
«Pois Jonas era um servente», escreve São João Crisóstomo na pessoa de Jesus Cristo, «mas eu sou o Mestre; e ele foi jogado pela baleia, mas eu ressuscitei dos mortos; e ele proclamava a destruição, mas vim a predicar a Boas Novas e o Reino».
 
Na semana passada, na quarta-feira de Cinza, nos cobrimos com cinza, e cada um escutou as palavras da primeira homilia de Jesus cristo, «O tempo já se cumpriu, e o Reino de Deus está próximo. Convertam-se e acreditem na Boa Notícia» (cf. Mc 1,15). A pergunta que devemos fazer-nos é: — Respondido já com uma profunda conversão como a dos ninivitas e abraçado aquele Evangelho?
 
«Eis aqui está quem é maior do que Salomão (...) e eis aqui está quem é maior do que Jonas»
 
Rev. D. Antoni CAROL i Hostench (Sant Cugat del Vallès, Barcelona, Espanha)
 
Hoje, o Evangelho nos convida a centrar nossa esperança no mesmo Jesus Cristo. O próprio João Paulo II escreveu que «não será uma Fórmula a salvar-nos, mas uma Pessoa, e a certeza que Ela nos infunde: ‘Eu estarei convosco!’».
 
Deus — que é Pai— não nos abandonou: «O cristianismo é graça, é a surpresa de um Deus que, não satisfeito com criar o mundo e o homem, saiu ao encontro da sua criatura» (João Paulo II).
 
Encontramo-nos começando a Quaresma: Não deixemos passar a oportunidade que nos oferece a Igreja: «É agora o momento favorável, é agora o dia da salvação» (2Cor 6,2) Depois de contemplar na Paixão o rosto doloroso de Nosso Senhor Jesus Cristo, ainda pediremos mais sinais de seu amor? «Aquele que não cometeu pecado, Deus o fez pecado por nós, para que nele nos tornemos justiça de Deus» (2Cor 5,21). Mais ainda: «Deus, que não poupou seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós, como é que, com ele, não nos daria tudo?» (Rom 8,32). Ainda queremos mais sinais?
 
No rosto ensanguentado de Cristo « Eis aqui está quem é maior do que Salomão (...) e eis aqui está quem é maior do que Jonas» (Lc 11,31-32). Este rosto sofrido da hora extrema, da hora da Cruz é «Mistério no mistério, diante do qual o ser humano pode apenas prostrar-se em adoração. De fato, «Para transmitir ao homem o rosto do Pai, Jesus teve não apenas de assumir o rosto do homem, mas de tomar inclusivamente o ”rosto” do pecado» (João Paulo II). Queremos mais sinais?
 
«Eis o homem!» (Jo 19,5): Eis aqui o grande sinal. Contemplemo-lo desde o silêncio do “deserto” da oração: «O que todo cristão deve fazer em qualquer tempo [rezar], agora deve fazê-lo com mais solicitude e com mais devoção: assim cumpriremos a instituição apostólica dos quarenta dias» (São Leão Magno, papa).
 
Pensamentos para o Evangelho de hoje
«Jonas era um servo, mas eu sou o Mestre; ele foi lançado pela baleia, mas eu ressuscitei dos mortos; ele proclamou a destruição, mas eu vim proclamar a Boa Nova e o Reino» (São João Crisóstomo)
 
«Uma coisa é certa: o sinal de Deus para os homens é o Filho do homem, o próprio Jesus. E é profundo no seu mistério pascal, no mistério da morte e da ressurreição. Ele mesmo é o "sinal de Jonas"» (Bento XVI)
 
«Jesus liga a fé na ressurreição à sua própria pessoa: ‘Eu sou a Ressurreição e a Vida’ (Jo 11,25) (…). Jesus fala deste acontecimento único como do ‘sinal do Jonas’ (Mt 12,39), do sinal do templo: Ele anuncia a sua ressurreição ao terceiro dia depois da morte» (Catecismo da Igreja Católica, nº 994)
 
Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm
 
* Estamos no tempo de quaresma.
A liturgia privilegia os textos que possam ajudar-nos na conversão e na mudança de vida. Aquilo que melhor ajuda na conversão são os fatos da história do povo de Deus. No evangelho de hoje, Jesus traz dois episódios do passado: de Jonas e da rainha de Sabá, e os transforma em espelho para o povo olhar nele e descobrir o apelo de Deus à conversão.
 
*  Lucas 11,29: A geração má que pede um sinal. Jesus chama a geração de má, porque ela não quer acreditar em Jesus e vive pedindo sinais que possam legitimar Jesus como enviado de Deus. Mas Jesus recusa dar um sinal, pois, no fundo, se eles pedem um sinal é porque não querem crer. O único sinal que vai ser dado é o sinal de Jonas.
 
* Lucas 11,30: O Sinal de Jonas. O sinal de Jonas tem dois aspectos. O primeiro é o que afirma o texto de Lucas no evangelho de hoje. Jonas foi um sinal para o povo de Nínive através da sua pregação. Ouvindo Jonas, o povo se converteu. Assim, a pregação de Jesus estava sendo um sinal para o seu próprio povo, mas o povo não dava sinais de conversão. O outro aspecto é o que afirma o evangelho de Mateus por ocasião do mesmo episódio: “Assim como Jonas passou três dias e três noites no ventre da baleia, assim também o Filho do Homem passará três dias e três noites no seio da terra” (Mt 12,40). Quando Jonas foi cuspido na praia, ele foi anunciar a palavra de Deus ao povo de Nínive. Da mesma maneira, depois da morte e ressurreição no terceiro dia, A Boa Nova será anunciada ao povo da Judéia.
 
* Lucas 11,31:  A Rainha de Sabá. Em seguida, Jesus evoca a história da Rainha de Sabá que veio de longe para ver Salomão e aprender da sabedoria dele (cf. 1Rs 10,1-10). E por duas vezes Jesus afirma: “E aqui está quem é maior do que Salomão”.  “E aqui está quem é maior do que Jonas”.
 
* Um aspecto muito importante que está por detrás desta discussão entre Jesus os líderes do seu povo é a maneira diferente como ele, Jesus, e os seus adversários se colocavam frente a Deus. O livro de Jonas é uma parábola, que critica a mentalidade daqueles que queriam Deus só para os Judeus. Na história de Jonas, os pagãos se converteram diante da pregação de Jonas e Deus os acolheu na sua bondade e não destruiu a cidade. Quando viu que Deus acolheu o povo de Nínive e não destruiu a cidade, “Jonas ficou muito desgostoso e irado. E rezou a Javé: "Ah! Javé! Não era justamente isso que eu dizia quando estava na minha terra? Foi por isso que eu corri, tentando fugir para Társis, pois eu sabia que tu és um Deus compassivo e clemente, lento para a ira e cheio de amor, e que voltas atrás nas ameaças feitas. Se é assim, Javé, tira a minha vida, pois eu acho melhor morrer do que ficar vivo" (Jonas 4,1-3). Por isso, Jonas era um sinal para os judeus do tempo de Jesus e continua sendo um sinal também para nós cristãos. Pois, imperceptivelmente, como em Jonas aparece também em nós uma mentalidade de que nós cristãos temos uma espécie de monopólio de Deus e que todos os outros devem tornar-se cristãos. Isto seria proselitismo. Jesus não pede que todos sejam cristãos. Ele pede que todos se tornem discípulos (Mt 28,19), isto é, sejam pessoas que como ele, irradiem e anunciem a Boa Nova do amor de Deus para todos os povos ao redor (Mc 16,15).
 
Para um confronto pessoal
1) Quaresma, tempo de conversão. O que deve mudar na imagem que tenho de Deus? Sou como Jonas ou como Jesus?
2) Minha fé está baseada em que? Em sinais ou na palavra do próprio Jesus?

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Terça-feira da 1ª semana da Quaresma

1ª Leitura (Is 55,10-11):
Assim fala o Senhor. «A chuva e a neve que descem do céu não voltam para lá sem terem regado a terra, sem a haverem fecundado e feito produzir, para que dê a semente ao semeador e o pão para comer. Assim a palavra que sai da minha boca não volta sem ter produzido o seu efeito, sem ter cumprido a minha vontade, sem ter realizado a sua missão».
 
Salmo Responsorial: 33
R. Deus salva os justos de todos os sofrimentos.
 
Enaltecei comigo o Senhor e exaltemos juntos o seu nome. Procurei o Senhor e Ele atendeu-me, libertou-me de toda a ansiedade.
 
Voltai-vos para Ele e ficareis radiantes, o vosso rosto não se cobrirá de vergonha. Este pobre clamou e o Senhor o ouviu, salvou-o de todas as angústias.
 
Os olhos do Senhor estão voltados para os justos e os ouvidos atentos aos seus rogos. A face do Senhor volta-se contra os que fazem o mal, para apagar da terra a sua memória.
 
Os justos clamaram e o Senhor os ouviu, livrou-os de todas as suas angústias. O Senhor está perto dos que têm o coração atribulado e salva os de ânimo abatido.
 
Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus.
 
Evangelho (Mt 6,7-15): «E, orando, não useis de vãs repetições, como os gentios, que pensam que por muito falarem serão ouvidos. Não vos assemelheis, pois, a eles; porque vosso Pai sabe o que vos é necessário, antes de vós lho pedirdes. Portanto, vós orareis assim: Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome; Venha o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu; O pão nosso de cada dia nos dá hoje; E perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores; E não nos induzas à tentação; mas livra-nos do mal; porque teu é o reino, e o poder, e a glória, para sempre. Amém. Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celestial vos perdoará a vós; Se, porém, não perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai vos não perdoará as vossas ofensas».
 
«E, orando, não useis de vãs repetições, porque vosso Pai sabe o que vos é necessário»
 
Rev. D. Joaquim FAINÉ i Miralpech (Tarragona, Espanha)
 
Hoje, Jesus –que é o Filho de Deus- me ensina a me comportar como um filho de Deus. O primeiro ponto é a confiança quando falo com Ele. Mas o Senhor adverte: «Quando orardes, não useis de muitas palavras, como fazem os pagãos. Eles pensam que serão ouvidos por força das muitas palavras» (Mt 6,7). Porque os filhos, quando falam com os pais, não usam raciocínios complicados, nem muitas palavras, mas com simplicidade pedem tudo aquilo que precisam. Sempre tenho a confiança de ser ouvido porque Deus –que é Pai- me ama e escuta. De fato, orar não é informar a Deus, mas pedir-lhe tudo o que preciso, já que «vosso Pai sabe o que vos é necessário, antes de vós lho pedirdes» (Mt 6,8). Não seria um bom cristão se não oro, como não pode ser bom filho quem não fala habitualmente com seus pais.
 
O Pai Nosso é a oração que Jesus mesmo nos ensinou, e é um resumo da vida cristã. Cada vez que rezo ao Pai, nosso, deixo-me levar de sua mão e lhe peço aquilo que preciso cada dia para ser melhor filho de Deus. Preciso, não somente o pão material, mas —sobretudo— o Pão do Céu. «Peçamos que nunca nos falte o Pão da Eucaristia» Também aprender a perdoar e a ser perdoados: «Para poder receber o perdão que Deus nos oferece, dirijamo-nos ao Pai que nos ama», dizem as fórmulas introdutórias ao Pai Nosso da Missa.
 
Durante a Quaresma, a Igreja me pede para aprofundar na oração. «A oração é conversar com Deus, é o bem maior, porque constitui (...) uma união como Ele» (São João Crisóstomo). Senhor, preciso aprender a rezar e obter consequências concretas na minha vida. Sobretudo, para viver a virtude da caridade: a oração me da força para viver cada dia melhor. Por isso, peço diariamente que me ajude a desculpar tanto as pequenas chatices dos outros, como perdoar as palavras e atitudes ofensivas e, sobretudo, a não ter rancores, e assim poder dizer-lhe sinceramente que perdoo de todo coração a quem me tem ofendido. Conseguirei, porque em todo momento me ajudará a Mãe de Deus.
 
Pensamentos para o Evangelho de hoje
«Que oração mais espiritual pode haver que a que nos foi dada por Cristo, por quem nos foi também enviado o Espírito Santo? Que oração mais verdadeira ante o Pai que a que brotou dos lábios do Filho?» (São Cipriano)
 
«O “Pai Nosso” inicia com um grande consolo: podemos dizer “Pai”, porque o Filho é nosso irmão e nos revelou ao Pai; porque graças a Cristo temos volto a ser filhos de Deus» (Bento XVI)
 
«Nós podemos invocar Deus como “Pai”, porque Ele nos foi revelado pelo seu Filho feito homem e porque o seu Espírito no-Lo faz conhecer. A relação pessoal do Filho com o Pai, que o homem não pode conceber nem os poderes angélicos podem entrever, eis que o Espírito do Filho nos faz participar dela, a nós que cremos que Jesus é o Cristo e que nascemos de Deus» (Catecismo da Igreja Católica, n° 2780)
 
Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm
 
* Há duas redações do Pai Nosso: Lucas (Lc 11,1-4) e Mateus (Mt 6,7-13).
Em Lucas, o Pai Nosso é mais curto. Lucas escreve para comunidades que vieram do paganismo. Ele busca ajudar pessoas que estão se iniciando no caminho da oração. Em Mateus, o Pai Nosso está situado no Sermão da Montanha, naquela parte onde Jesus orienta os discípulos na prática das três obras de piedade: esmola (Mt 6,1-4), oração (Mt 6,5-15) e jejum (Mt 6,16-18). O Pai Nosso faz parte de uma catequese para judeus convertidos. Eles já estavam habituados a rezar, mas tinham certos vícios que Mateus tenta corrigir.
 
* Mateus 6,7-8: Os vícios a serem corrigidos. Jesus critica as pessoas para as quais a oração era uma repetição de fórmulas mágicas, de palavras fortes, dirigidas a Deus para obrigá-lo a atender às nossas necessidades. A acolhida da oração por parte de Deus não depende da repetição de palavras, mas sim da bondade de Deus que é Amor e Misericórdia. Ele quer o nosso bem e conhece as nossas necessidades antes mesmo das nossas preces.
 
* Mateus 6,9a: As primeiras palavras: “Pai Nosso”  Abbá, Pai, é o nome que Jesus usa para dirigir-se a Deus. Revela a nova relação com Deus que deve caracterizar a vida das comunidades (Gl 4,6; Rm 8,15). Dizemos “Pai nosso” e não “Pai meu”. O adjetivo “nosso” acentua a consciência de pertencermos todos à grande família humana de todas as raças e credos. Rezar ao Pai e entrar na intimidade com ele, é também colocar-se em sintonia com os gritos de todos os irmãos e irmãs pelo pão de cada dia. É buscar o Reino de Deus em primeiro lugar. A experiência de Deus como nosso Pai é o fundamento da fraternidade universal.
 
* Mateus 6,9b-10: Três pedidos pela causa de Deus: o Nome, o Reino, a Vontade.  Na primeira parte do Pai-nosso, pedimos para que seja restaurado o nosso relacionamento com Deus. Santificar o Nome: O nome JAVÉ significa Estou com você! Deus conosco. Neste NOME Deus se deu a conhecer (Ex 3,11-15). O Nome de Deus é santificado quando é usado com fé e não com magia; quando é usado conforme o seu verdadeiro objetivo, i.é, não para a opressão, mas sim para a libertação do povo e para a construção do Reino. A Vinda do Reino: O único Dono e Rei da vida humana é Deus (Is 45,21; 46,9). A vinda do Reino é a realização de todas as esperanças e promessas. É a vida plena, a superação das frustrações sofridas com os reis e os governos humanos. Este Reino acontecerá, quando a vontade de Deus for plenamente realizada. Fazer a Vontade: A vontade de Deus se expressa na sua Lei. Que a sua vontade se faça assim na terra como no céu. No céu, o sol e as estrelas obedecem às leis de suas órbitas e criam a ordem do universo (Is 48,12-13). A observância da lei Deus será fonte de ordem e de bem-estar para a vida humana.
 
* Mateus 6,11-13: Quatro pedidos pela causa dos irmãos: Pão, Perdão, Vitória, Liberdade.  Na segunda parte do Pai-nosso pedimos para que seja restaurado o relacionamento entre as pessoas. Os quatro pedidos mostram como devem ser transformadas as estruturas da comunidade e da sociedade para que todos os filhos e filhas de Deus vivam com igual dignidade. Pão de cada dia: No êxodo, cada dia, o povo recebia o maná no deserto (Ex 16,35). A Providência Divina passava pela organização fraterna, pela partilha. Jesus nos convida para realizar um novo êxodo, uma nova maneira de convivência fraterna que garante o pão para todos (Mt 6,34-44; Jo 6,48-51). Perdão das dívidas: Cada 50 anos, o Ano Jubilar obrigava todos a perdoar as dívidas. Era um novo começo (Lv 25,8-55). Jesus anuncia um novo Ano Jubilar, "um ano da graça da parte do Senhor" (Lc 4,19). O Evangelho quer recomeçar tudo de novo! Não cair na Tentação: No êxodo, o povo foi tentado e caiu (Dt 9,6-12). Murmurou e quis voltar atrás (Ex 16,3; 17,3). No novo êxodo, a tentação será superada pela força que o povo recebe de Deus (1Cor 10,12-13). Libertação do Maligno:  O Maligno é o Satanás, que afasta de Deus e é motivo de escândalo. Ele chegou a entrar em Pedro (Mt 16,23) e tentou Jesus no deserto. Jesus o venceu (Mt 4,1-11). Ele nos diz: "Coragem! Eu venci o mundo!" (Jo 16,33).
 
* Mateus 6,14-15: Quem não perdoa não será perdoado. Rezando o Pai-nosso, pronunciamos a sentença que nos condena ou absolve. Rezamos: “Perdoa as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores” (Mt 6,12). Oferecemos a Deus a medida do perdão que queremos. Se perdoamos muito, Ele perdoará muito. Se perdoamos pouco, ele perdoará pouco. Se não perdoamos, ele também não poderá perdoar.
 
Para um confronto pessoal
1. Jesus falou "perdoai as nossas dívidas". Em alguns países se traduz "perdoai as nossas ofensas". O que é mais fácil: perdoar ofensas ou perdoar dívidas?
2. As nações cristãs do hemisfério norte (Europa e USA) rezam todos os dias: “Perdoai as nossas dívidas assim como também nós perdoamos aos nossos devedores”. Mas elas não perdoam a dívida externa dos países pobres do Terceiro Mundo. Como explicar esta terrível contradição, fonte de empobrecimento de milhões de pessoas?

sábado, 21 de fevereiro de 2026

Segunda-feira da 1ª semana da Quaresma

 São Policarpo, bispo e mártir
 
1ª Leitura (Lev 19,1-2.11-18):
O Senhor dirigiu-Se a Moisés, dizendo: «Fala a toda a comunidade dos filhos de Israel e diz-lhes: ‘Sede santos, porque Eu, o Senhor, vosso Deus, sou santo. Não furtareis, não direis mentiras, nem cometereis fraudes uns com os outros. Não prestarás juramento falso, invocando o meu nome, pois profanarias o nome do teu Deus. Eu sou o Senhor. Não oprimirás nem expropriarás o teu próximo. Não ficará contigo até ao dia seguinte o salário do jornaleiro. Não insultarás um surdo nem colocarás tropeços diante de um cego, mas temerás o teu Deus. Eu sou o Senhor. Não cometerás injustiças nos teus julgamentos: não favorecerás indevidamente um pobre, nem darás preferência ao poderoso; julgarás o teu próximo segundo a justiça. Não caluniarás os teus parentes, nem conspirarás contra a vida do teu próximo. Eu sou o Senhor. Não odiarás do íntimo do coração os teus irmãos, mas corrigirás o teu próximo, para não incorreres em falta por causa dele. Não te vingarás, nem guardarás rancor contra os filhos do teu povo. Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor’».
 
Salmo Responsorial: 18
R. As vossas palavras, Senhor, são espírito e vida.
 
A lei do Senhor é perfeita, ela reconforta a alma; as ordens do Senhor são firmes, dão sabedoria aos simples.
 
Os preceitos do Senhor são retos e alegram o coração; Os mandamentos do Senhor são claros e iluminam os olhos.
 
O temor do Senhor é puro e permanece eternamente; os juízos do Senhor são verdadeiros, todos eles são retos.
 
Aceitai as palavras da minha boca e os pensamentos do meu coração estejam na vossa presença: Vós, Senhor, sois o meu amparo e redentor.
 
Agora é o tempo favorável, agora é o dia da salvação.
 
Evangelho (Mt 25,31-46): «Quando o Filho do Homem vier em sua glória, acompanhado de todos os anjos, ele se assentará em seu trono glorioso. Todas as nações da terra serão reunidas diante dele, e ele separará uns dos outros, assim como o pastor separa as ovelhas dos cabritos. E colocará as ovelhas à sua direita e os cabritos, à sua esquerda. Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita: ‘Vinde, benditos de meu Pai! Recebei em herança o Reino que meu Pai vos preparou desde a criação do mundo! Pois eu estava com fome, e me destes de comer; estava com sede, e me destes de beber; eu era forasteiro, e me recebestes em casa; estava nu e me vestistes; doente, e cuidastes de mim; na prisão, e fostes visitar-me’. Então os justos lhe perguntarão: ‘Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer? Com sede, e te demos de beber? Quando foi que te vimos como forasteiro, e te recebemos em casa, sem roupa, e te vestimos? Quando foi que te vimos doente ou preso, e fomos te visitar?’. Então o Rei lhes responderá: ‘Em verdade, vos digo: todas as vezes que fizestes isso a um destes mais pequenos, que são meus irmãos, foi a mim que o fizestes!’. Depois, o Rei dirá aos que estiverem à sua esquerda: ‘Afastai-vos de mim, malditos! Ide para o fogo eterno, preparado para o diabo e para os seus anjos. Pois eu estava com fome, e não me destes de comer; com sede, e não me destes de beber; eu era forasteiro, e não me recebestes em casa; nu, e não me vestistes; doente e na prisão, e não fostes visitar-me. E estes responderão: ‘Senhor, quando foi que te vimos com fome ou com sede, forasteiro ou nu, doente ou preso, e não te servimos?’ Então, o Rei lhes responderá: ‘Em verdade, vos digo, todas as vezes que não fizestes isso a um desses mais pequenos, foi a mim que o deixastes de fazer!’ E estes irão para o castigo eterno, enquanto os justos irão para a vida eterna».
 
«Todas as vezes que não fizestes isso a um desses mais pequenos, foi a mim que o deixastes de fazer!»
 
Rev. D. Joaquim MONRÓS i Guitart (Tarragona, Espanha)
 
Hoje é-nos recordado o juízo final, «quando o Filho do Homem vier em sua glória, acompanhado de todos os anjos» (Mt 25.31), e é-nos sublinhado que dar de comer, beber, vestir… resultam obras de amor para um cristão, quando ao fazê-las se sabe ver nelas o próprio Cristo.
 
Diz São João da Cruz: «À tarde te examinarão no amor. Aprende a amar a Deus como Deus quer ser amado e deixa a tua própria condição». Não fazer uma coisa que tem que ser feita, em serviço dos outros filhos de Deus e nossos irmãos, supõe deixar Cristo sem estes detalhes de amor devido: pecados de omissão.
 
O Concilio Vaticano II, e a Gaudium et spes, ao explicar as exigências da caridade cristã, que dá sentido à chamada assistência social, diz: «Sobretudo em nossos dias, urge a obrigação de nos tornarmos o próximo de todo e qualquer homem, e de o servir efetivamente quando vem ao nosso encontro, quer seja o ancião, abandonado de todos, ou o operário estrangeiro injustamente desprezado, ou o exilado, ou o indigente que interpela a nossa consciência, recordando a palavra do Senhor: «todas as vezes que o fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes» (Mt 25,40)»
 
Recordemos que Cristo vive nos cristãos… e diz-nos: «Eu estou convosco todos os dias até ao fim do mundo» (Mt 28,20).
 
O IV Concilio de Latrão define o juízo final como verdade de fé: «Jesus Cristo há-de vir no fim do mundo, para julgar os vivos e os mortos, e para dar a cada um segundo as suas obras, tanto aos condenados como aos eleitos (…) para receber segundo as suas obras, boas ou más: aqueles com o diabo castigo eterno, e estes com Cristo glória eterna».
 
Peçamos a Maria que nos ajude nas ações de serviço a seu Filho nos irmãos.
 
Pensamentos para o Evangelho de hoje
«Imolamo-nos a Deus, entreguemo-nos a ele todos os dias com todas as nossas ações, subamos resolutamente a sua cruz» (S. Gregório Nazianzeno)
 
«Por meio de obras corporais [de misericórdia] tocamos a carne de Cristo nos irmãos e irmãs que precisam ser alimentados, vestidos, abrigados, visitados. Precisamente tocando aquele que sofre a carne de Jesus crucificado, o pecador poderá receber como um dom a consciência de que ele mesmo é um pobre mendigo» (Francisco).
 
«Jesus, desde a manjedoura até a cruz, partilha a vida dos pobres; ele conhece a fome, a sede e a privação. Mais ainda: identifica-se com os pobres de todas as classes e faz do amor ativo por eles a condição de entrada no seu Reino» (Catecismo da Igreja Católica, n. 544)
 
Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm
 
* O Evangelho de Mateus apresenta Jesus como o novo Moisés.
Como Moisés, Jesus promulgou a Lei Deus. Como a antiga Lei, assim a nova lei dada por Jesus tem cinco livros ou discursos. O Sermão da Montanha (Mt 5,1 a 7,27), o primeiro discurso, abriu com as oito bem-aventuranças. O Sermão da Vigilância (Mt 24,1 a 25,46), o quinto e último discurso, encerra com a descrição do Juízo Final. As bem-aventuranças descreveram a porta de entrada para o Reino de Deus, enumerando oito categorias de pessoas: os pobres em espírito, os mansos, os aflitos, os que têm fome e sede de justiça, os misericordiosos, os de coração limpo, os promotores da paz e os perseguidos por causa da justiça (Mt 5,3-10). A parábola do Juízo Final conta o que devemos fazer para poder tomar posse do Reino: acolher os famintos, os sedentos, os estrangeiros, os sem roupa, os doentes e os prisioneiros (Mt 25,35-36). Tanto no começo como no fim da Nova Lei, estão os excluídos e marginalizados.
 
* Mateus 25,31-33: Abertura do Juízo final. O Filho do Homem reúne ao seu redor todas as nações do mundo. Separa as pessoas como o pastor separa as ovelhas dos cabritos. O pastor sabe discernir. Ele não erra: ovelhas à direita, cabritos à esquerda. Jesus não erra. Ele sabe discernir bons e maus. Jesus não julga nem condena (cf. Jo 3,17; 12,47). Ele apenas separa. É a própria pessoa que se julga ou se condena pela maneira como se comportou com relação aos pequenos e excluídos.
 
* Mateus 25,34-36: A sentença para os que estiverem à direita do Juiz.  Os que estão à sua direita são chamados de “Benditos de meu Pai!”, isto é, recebem a bênção que Deus prometeu à Abraão e à sua descendência (Gn 12,3). Eles são convidados a tomar posse do Reino, preparado para eles desde a fundação do mundo. O motivo da sentença é este: "Tive fome e sede, era estrangeiro, nu, doente e preso, e vocês me acolheram e ajudaram!” Esta sentença nos faz saber quem são as ovelhas. São as pessoas que acolheram o próprio Juiz quando este estava faminto, sedento, estrangeiro, nu, doente e preso. E pelo jeito de falar "meu Pai" e "Filho do Homem", ficamos sabendo que o Juiz é o próprio Jesus. Ele se identifica com os pequenos!
 
* Mateus 25,37-40: Um pedido de esclarecimento e a resposta do Juiz:  Os que acolheram os excluídos são chamados “justos”. Isto significa que a justiça do Reino não se alcança observando normas e prescrições, mas sim acolhendo os necessitados. Mas o curioso é que os próprios justos não sabem quando foi que acolheram Jesus necessitado. Jesus responde: "Toda vez que o fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes!" Quem são estes "meus irmãos mais pequeninos"? Em outras passagens do Evangelho de Mateus, as expressões "meus irmãos" e "pequeninos" indicam os discípulos (Mt 10,42; 12,48-50; 18,6.10.14; 28,10). Indicam também os membros mais abandonados da comunidade, os desprezados que não recebem lugar e não são bem recebidos (Mt 10,40). Jesus se identifica com eles. Mas não é só isto. No contexto tão amplo desta parábola final, a expressão "meus irmãos mais pequeninos" se alarga e inclui todos aqueles que na sociedade não têm lugar. Indica todos os pobres. E os "justos" e os "benditos de meu Pai" são todas as pessoas de todas as nações que acolhem o outro na total gratuidade, independente do fato de ser cristão ou não.
 
* Mateus 25,41-43: A sentença para os que estiverem à sua esquerda. Os que estão do outro lado do Juiz são chamados de “malditos” e são destinados ao fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos. Jesus usa a linguagem simbólica comum daquele tempo para dizer que estas pessoas não vão entrar no Reino. E aqui também o motivo é um só: não acolheram Jesus faminto, sedento, estrangeiro, nu, doente e preso. Não é Jesus que nos impede de entrar no Reino, mas sim a nossa prática de não acolher o outro, a cegueira que nos impede de ver Jesus nos pequeninos.
 
* Mateus 25,44-46: Um pedido de esclarecimento e a resposta do Juiz. O pedido de esclarecimento mostra que se trata de gente bem-comportada, pessoas que têm a consciência em paz. Estão certas de terem praticado sempre o que Deus pedia delas. Por isso estranham quando o Juiz diz que não o acolheram. O Juiz responde: “Todas as vezes que vocês não fizeram isso a um desses pequeninos, foi a mim que não o fizeram!” A omissão! Não fizeram coisas más! Apenas deixaram de praticar o bem aos pequeninos e de acolher os excluídos. E segue a sentença final: estes vão para o fogo eterno, e os justos para a vida eterna. Assim termina o quinto livro da Nova Lei!
 
Para um confronto pessoal
1) O que mais chamou a sua atenção nesta parábola do Juízo Final?
2) Pare e pense: se o Juízo final fosse hoje, você estaria do lado das ovelhas ou dos cabritos?

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

I Domingo da Quaresma

Cátedra de São Pedro
 
1ª Leitura (Gen 2,7-9;3,1-7):
O Senhor Deus formou o homem do pó da terra, insuflou em suas narinas um sopro de vida, e o homem tornou-se um ser vivo. Depois, o Senhor Deus plantou um jardim no Éden, a oriente, e nele colocou o homem que tinha formado. Fez nascer na terra toda a espécie de árvores, de frutos agradáveis à vista e bons para comer, entre as quais a árvore da vida, no meio do jardim, e a árvore da ciência do bem e do mal. Ora, a serpente era o mais astucioso de todos os animais dos campos que o Senhor Deus tinha feito. Ela disse à mulher: «É verdade que Deus vos disse: ‘Não podeis comer o fruto de nenhuma árvore do jardim’?». A mulher respondeu: «Podemos comer o fruto das árvores do jardim; mas, quanto ao fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus avisou-nos: ‘Não podeis comer dele nem tocar-lhe, senão morrereis’». A serpente replicou à mulher: «De maneira nenhuma! Não morrereis. Mas Deus sabe que, no dia em que o comerdes, abrir-se-ão os vossos olhos e sereis como deuses, ficando a conhecer o bem e o mal». A mulher viu então que o fruto da árvore era bom para comer e agradável à vista, e precioso para esclarecer a inteligência. Colheu fruto da árvore e comeu; depois deu-o ao marido, que comeu juntamente com ela. Abriram-se então os seus olhos e compreenderam que estavam despidos. Por isso, entrelaçaram folhas de figueira e cingiram os rins com elas.
 
Salmo Responsorial: 50
R. Pecámos, Senhor: tende compaixão de nós.
 
Compadecei-Vos de mim, ó Deus, pela vossa bondade, pela vossa grande misericórdia, apagai os meus pecados. Lavai-me de toda a iniquidade e purificai-me de todas as faltas.
 
Porque eu reconheço os meus pecados e tenho sempre diante de mim as minhas culpas. Pequei contra Vós, só contra Vós, e fiz o mal diante dos vossos olhos.
 
Criai em mim, ó Deus, um coração puro e fazei nascer dentro de mim um espírito firme. Não queirais repelir-me da vossa presença e não retireis de mim o vosso espírito de santidade.
 
Dai-me de novo a alegria da vossa salvação e sustentai-me com espírito generoso. Abri, Senhor, os meus lábios e a minha boca cantará o vosso louvor.
 
2ª Leitura (Rom 5,12-19): Irmãos: Assim como por um só homem entrou o pecado no mundo e pelo pecado a morte, assim também a morte atingiu todos os homens, porque todos pecaram. De facto, até à Lei, existia o pecado no mundo. Mas o pecado não é levado em conta, se não houver lei. Entretanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, mesmo para aqueles que não tinham pecado por uma transgressão à semelhança de Adão, que é figura d’Aquele que havia de vir. Mas o dom gratuito não é como a falta. Se pelo pecado de um só todos ¬¬¬pereceram, com muito mais razão a graça de Deus, dom contido na graça de um só homem, Jesus Cristo, se concedeu com abundância a todos os homens. E esse dom não é como o pecado de um só: o julgamento que resultou desse único pecado levou à condenação, ao passo que o dom gratuito, que veio depois de muitas faltas, leva à justificação. Se a morte reinou pelo pecado de um só homem, com muito mais razão, aqueles que recebem com abundância a graça e o dom da justiça, reinarão na vida por meio de um só, Jesus Cristo. Porque, assim como pelo pecado de um só, veio para todos os homens a condenação, assim também, pela obra de justiça de um só, virá para todos a justificação que dá a vida. De facto, como pela desobediência de um só homem, todos se tornaram pecadores, assim também, pela obediência de um só, todos se tornarão justos.
 
Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus.
 
Evangelho (Mt 4,1-11): Jesus foi conduzido ao deserto pelo Espírito, para ser posto à prova pelo diabo. Ele jejuou durante quarenta dias e quarenta noites. Depois, teve fome. O tentador aproximou-se e disse-lhe: «Se és Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães!». Ele respondeu: «Está escrito: ‘Não se vive somente de pão, mas de toda palavra que sai da boca de Deus’». Então, o diabo o levou à Cidade Santa, colocou-o no ponto mais alto do templo e disse-lhe: «Se és Filho de Deus, joga-te daqui abaixo! Pois está escrito: ‘Ele dará ordens a seus anjos a teu respeito, e eles te carregarão nas mãos, para que não tropeces em alguma pedra’». Jesus lhe respondeu: «Também está escrito: ‘Não porás à prova o Senhor teu Deus’!». O diabo o levou ainda para uma montanha muito alta. Mostrou-lhe todos os reinos do mundo e sua riqueza, e lhe disse: «Eu te darei tudo isso, se caíres de joelhos para me adorar». Jesus lhe disse: «Vai embora, Satanás, pois está escrito: ‘Adorarás o Senhor, teu Deus, e só a ele prestarás culto’». Por fim, o diabo o deixou, e os anjos se aproximaram para servi-lo.
 
«Jesus foi conduzido ao deserto pelo Espírito, para ser posto à prova pelo diabo»
 
P. Byron CADMEN (Santo Domingo, Equador)
 
Hoje, irmãos, o Evangelho leva-nos ao deserto: «Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto para ser tentado pelo diabo» (Mt 4,1). Não é um passeio espiritual; é o lugar onde se desmascaram as nossas dependências. O tentador começa pelo essencial: «Se és Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães» (Mt 4,3). A proposta parece razoável: resolver a necessidade imediatamente. Mas Jesus responde com uma liberdade que nasce da confiança: «Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus» (Mt 4,4).
 
A segunda tentação é mais subtil: procurar Deus como espetáculo, obrigando-O a provar-Se. Também a nós nos tenta uma “fé de provas”: se me respondes, acredito; se não, fecho-me. Jesus não negocia com o Pai nem manipula o sagrado.
 
E, quando chega a terceira tentação (poder, controlo, sucesso…), o Senhor corta pela raiz: «Vai-te, Satanás» (Mt 4,10), e fixa o centro da vida: «Ao Senhor teu Deus adorarás e só a Ele prestarás culto». Esta frase é remédio para uma cultura que nos empurra a viver para o aplauso, o consumo e a autossuficiência.
 
Esta Quaresma não é para suportar quarenta dias, mas para aprender a liberdade de Jesus. Jejua para que o teu coração deixe de obedecer ao imediato. Reza para escutar a Palavra que te sustenta. E, se te descobrires inquieto, recorda Santo Agostinho: «Inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em Ti». Como disse o Papa Leão XIV: «Deus nos ama, Deus vos ama a todos, e o mal não prevalecerá!».
 
O Evangelho termina com uma promessa: «Então o diabo deixou-O. E eis que se aproximaram anjos e O serviam» (Mt 4,11). Caminhemos sem medo: o deserto não é a última palavra; é o caminho para uma adoração mais pura que nos torna livres.
 
«Jesus foi conduzido ao deserto pelo Espírito, para ser posto à prova pelo diabo»
 
Mn. Antoni BALLESTER i Díaz (Camarasa, Lleida, Espanha)
 
Hoje celebramos o primeiro domingo de Quaresma e, este tempo litúrgico “forte” é um caminho espiritual que nos leva a participar do grande mistério da morte e da ressurreição de Cristo. Diz o Papa João Paulo II: que «em cada ano a Quaresma nos propõe um tempo para intensificar a nossa oração e a penitência, e abrir o nosso coração à acolhida dócil da vontade divina. A Quaresma convida-nos a percorrer um itinerário espiritual que nos prepara para reviver o grande mistério da morte e ressurreição de Jesus Cristo, primeiro por médio da escuta constante da Palavra de Deus e a prática mais intensa da mortificação, graças à qual podemos ajudar com maior generosidade ao próximo necessitado».
 
A Quaresma e o Evangelho de hoje nos ensinam que a vida é um caminho que nos deve levar ao céu. Mas, para poder merecê-lo, devemos ser provados pelas tentações. «Jesus foi conduzido ao deserto pelo Espírito, para ser posto à prova pelo diabo» (Mt 4,1). Jesus quis ensinar-nos, ao permitir ser tentado, como devemos lutar e vencer as nossas tentações: com a confiança em Deus e a oração, com a graça divina e a fortaleza.
 
As tentações podem se descrever como os “inimigos da alma”. Em concreto, resumem-se e concretam-se em três aspectos: À primeira vista, “o mundo”: «manda que estas pedras se transformem em pães» (Mt 4,3). Supõe viver só para possuir bens.
 
À segunda vista, “o demônio”: «se caíres de joelhos para me adorar (...)» (Mt 4,9). Manifesta-se na ambição de poder.
 
E, finalmente, “a carne”: «joga-te daqui abaixo» (Mt 4,6) o que significa pôr a confiança no Corpo. Tudo isso o expressa Santo Tomas de Aquino dizendo que «a causa das tentações são as causas das concupiscências: o deleite da carne, o afã da glória, e a ambição de poder.
 
Pensamentos para o Evangelho de hoje
«Jesus no deserto derrotou o seu adversário com as palavras da Lei, não com o vigor dá o braço dele. Ele venceu para que sejamos vencedores da mesma forma" (São Leão Magno)
 
«Não podemos sustentar uma espiritualidade que se esquece do Deus todo-poderoso e criador. Caso contrário, acabaríamos adorando outros poderes do mundo, ou nos colocaríamos no lugar do Senhor, a ponto de tentar pisar na realidade por Ele criada sem conhecer limites" (Francisco)
 
«Jesus é o novo Adão que permaneceu fiel onde o primeiro sucumbiu à tentação. Jesus cumpriu perfeitamente a vocação de Israel: ao contrário daqueles que antes provocaram Deus durante quarenta anos no deserto (cf. Sl 95,10), Cristo revela-se como o Servo de Deus totalmente obediente à vontade divina. Nisso Jesus é vencedor do diabo; Ele 'amarrou o homem forte' para despojá-lo do que ele havia se apropriado(Mc 3.27). A vitória de Jesus no deserto sobre o Tentador é uma antecipação da vitória da Paixão. Obediência suprema do seu amor filial ao Pai" (Catecismo da Igreja Católica, n.539)
 
Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto, a fim de ser tentado pelo diabo.
 
Fr. Pedro Bravo, O.Carm.
 
*
O presente texto, as tentações de Jesus no deserto, tem cinco partes: a introdução (vv. 1-2), as três tentações que Jesus sofreu (1ª: vv. 3-4; 2ª: 5-7; 3ª: 8-10) e a conclusão (v. 11). As tentações seguem um esquema comum a todas elas: a) o cenário; b) a tentação de Satanás; c) e a resposta de Jesus, que consiste fundamentalmente na citação de uma passagem bíblica, por Ele introduzida com a fórmula: “Está escrito” (gr. gégraptai: vv. 4.7.10; Mt, 9x). O evidente paralelismo das tentações é quebrado em dois pontos: na citação da Sagrada Escritura, feita pelo diabo (v. 6); e na substituição da oração subordinada condicional, “Se és Filho de Deus”, pela proposta: “se, prostrado, me adorares” (v. 9), na terceira tentação, onde, além disso, a oração principal não é um imperativo, mas uma promessa.
 
v. 1. Então Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto, a fim de ser tentado pelo diabo. (vv. 1-11: Mc 1,12s; Lc 4,1-13). “Então”: Mateus prefere usar este advérbio (gr. tóte), onde Marcos usa o advérbio “imediatamente” (gr. euthús). Logo após a sua unção pelo Espírito Santo, durante a qual foi investido messianicamente e proclamado “Filho amado” pelo Pai, aquando o seu batismo no rio Jordão por João (3,16s), Jesus é “conduzido” (gr. anagô): este verbo evoca a peregrinação de Israel através do deserto rumo à Terra Prometida após o êxodo do Egito (Gn 50,24; Ex 33,12; Nm 20,4s; Js 24,17; Sl 78,52; Os 13,4; Jr 2,6). Está na voz passiva, na qual é usado na navegação com o sentido de “navegar” impelido pelo vento (At 13,13; 16,11), neste caso, “pelo Espírito”, tema que também remete ao êxodo (Is 63,11.14; cf. Rm 8,14; Gl 5,18). A vida e o ministério de Jesus são conduzidos pelo Espírito Santo, que o impele, soberanamente o dirige e age através dele.
 
* “Ao deserto”: no AT, o deserto é o lugar do encontro de Deus com o seu povo e do seu noivado com ele (Os 2,16; 11,1-4; Jr 2,2.6; Dt 1,31; 2,7), mas também o lugar da tentação e da prova (Ex 16,4; Dt 8,2.16). É para aí que Jesus é conduzido “para ser tentado” como o povo de Israel, para que, obedecendo, recapitule a história deste que, desobedecendo, “no deserto tentou” a Deus “dez vezes” (Nm 14,22) e, assim, o salve do seu pecado (1,21).
 
* “Pelo diabo”: o diabo (gr. diábolos, “o que separa”, “o que divide”: 4x aqui; 13,39; 25,41) é a tradução habitual grega de Satanás nos LXX (cf. v. 10)  Ele é o tentador (v. 3), o anjo mau (cf. 2Pd 2,4; Jd 1,6) que tentou o homem no paraíso (Sb 2,24) levando-o a desconfiar de Deus, a não acreditar na sua Palavra e a pecar. Jesus é “tentado” pelo diabo que põe à prova a autenticidade da sua obediência filial, provando pela sua vitória sobre o maligno que ama a Deus, confia n'Ele e segue o Seu caminho, na obediência à sua Palavra (cf. Dt 13,3-4; Jz 2,22), recapitulando, deste modo, desde as origens, como novo Adão, a história do primeiro “Adão, filho de Deus” (Lc 3,38), que logo no princípio pecou.
 
v. 2. Tendo jejuado durante quarenta dias e quarenta noites, por fim, sentiu fome. Jesus jejuou “durante quarenta dias e quarenta noites”. “Quarenta” (daí o nome Quaresma, vindo do latim quadragésima [die], "quadragésimo [dia]") designa no AT uma geração (Sl 95,10), ou seja, a vida humana, tempo de prova e de conversão (cf. Jb 7,1; Jn 3,4). Evoca o tempo que, “sem comer pão, nem beber água”, Moisés passou por duas vezes no Sinai (primeiro para receber a Lei: Ex 24,18; Dt 9,9; depois para interceder pelo povo e renovar a Aliança: Ex 34,28) e Elias caminhou no deserto até ao Horeb (o monte Sinai: 1Rs 19,8), simbolizando “cada dia um ano” (Nm 14,34; Ez 4,6) dos que Israel caminhou pelo deserto e foi “tentado” para saber o que tinha no seu coração (cf. Dt 8,2). O número "quarenta" é, pois, simbólico, indicando que as tentações de Jesus não foram algo que Ele só teve aqui, mas foram as tentações que o acompanharam ao longo de toda a sua existência e ministério (cf. 16,1-4).
 
* “Por fim, sentiu fome”. De Moisés e Elias não se tinha dito que após quarenta dias sem comer nem beber, tivessem sentido sede ou fome, mas de Jesus não se diz que não tenha bebido e acrescenta-se que “sentiu fome”, para sublinhar que Ele assumiu a nossa condição humana para nela experimentar a fraqueza humana até ao fim e nesta “ser tentado em tudo, à nossa semelhança, menos no pecado” (Hb 4,15), a fim de nela, fraqueza, vencer, pela graça de Deus, o diabo (2Cor 12,9) e assim poder socorrer aqueles que são tentados como Ele (Hb 2,14-18). Neste sentido, as tentações de Jesus são também as tentações fundamentais de cada ser humano.
 
* Cada tentação de Jesus incide sobre uma das coordenadas fundamentais da existência humana e uma das três formas com que se pode pecar contra o primeiro mandamento, como o interpretava o judaísmo:: “Amarás o Senhor, teu Deus de todo o teu coração, isto é, com as tuas duas inclinações, a boa e a má; de toda a tua alma, quer dizer, também quando te tiram a vida; com todas as tuas forças, quer dizer, com todas as tuas riquezas” (mBer 9,5), aqui segundo a ordem do primeiro mandamento: “coração”, “alma” (gr. psyché, “vida”) e “forças” (Dt 6,4-5).
 
v. 3. Aproximando-se, o tentador disse-lhe: «Se és Filho de Deus, diz que estas pedras se tornem pães». A primeira tentação, a do pão, é a mais básica do ser humano (cf. Ex 16,3). Refere-se à relação do homem com a realidade, que ele quer possuir e manipular a seu gosto para satisfazer os seus apetites, ignorando o grito e as necessidades dos pobres. “O tentador” (1Ts 3,5) que, por ser anjo decaído, não pode vez a Deus, mas tinha ouvido a voz do Pai no batismo de Jesus a dizer: “Este é o meu Filho amado” (3,17), “aproxima-se” de Jesus (16,1; 19,3) e tenta minar a sua confiança em Deus, dizendo-lhe que se é verdade que é “Filho de Deus” (26,63; 27,40.43), não precisa de passar por privações, mas deve mostrar que é o Messias, “Filho de Deus” – o título com que o Messias era designado no AT, em sentido metafórico (2Sm 7,14; 1Cr 28,6; Sl 89,27; Sb 2,16) –, capaz de saciar o seu povo com as riquezas das nações (cf. Is 60,5-61,6) e de salvar a humanidade, satisfazendo as suas necessidades materiais, simbolizadas pelo pão (cf. Jo 6,15).
 
v. 4. Jesus, porém, respondeu: «Está escrito: “Nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus”». Jesus responde com Dt 8,3, afirmando que o verdadeiro alimento do homem é fazer a vontade do Pai (Jo 4,34), que se manifesta em “toda a Palavra” que sai da Sua boca. “Palavra” (he. dabar) no AT significa também “realidade”, “acontecimento”. Jesus apresenta assim o programa da sua vida: fazer a vontade do Pai, pondo em prática e realizando a sua Palavra. Palavra que Deus transmite não apenas através da Bíblia, mas também das pessoas, da realidade, dos acontecimentos e da história. Jesus mostra que Deus é o único capaz de saciar o coração humano: “Buscai primeiro o reino de Deus e a sua justiça e tudo vos será dado por acréscimo” (6,33).
 
v. 5. Então o diabo leva
‑o consigo à Cidade Santa, colocou-o no pináculo do Templo. A segunda tentação, a dos milagres (ou “sinais”), é a principal tentação de Israel (12,38; 16,1; 1Cor 1,22; Nm 14,22). Incide sobre a relação do homem com Deus. Muda-se subitamente de cenário: já não estamos no deserto, mas o diabo leva Jesus “à Cidade Santa”, ou seja, a Jerusalém (no NT, fora Ap 11,2, só aqui e em Mt 27,43; cf. Ne 11,1; Is 48,2; 52,1) e coloca-o sobre o pináculo do Templo (o ponto mais alto da muralha do Templo, no extremo SE da mesma). Subentende-se que se trata aqui de uma visão, em que a possibilidade de Jesus pôr em jogo, por iniciativa própria, a sua vida “por Deus”, é testada de forma real.
 
v. 6. E diz-lhe: «Se és Filho de Deus, atira-te daqui abaixo, pois está escrito: “Ele dará ordens aos seus anjos a teu respeito e levar-te-ão nas mãos, para que o teu pé não tropece em alguma pedra”». Aí, sobre o pináculo do Templo, o diabo cita a Jesus o Sl 91,11-12 e diz-lhe que se é Filho de Deus – ou seja, o Messias – Deus deve demonstrar-lhe que é seu Pai e que é fiel à sua palavra para com Ele (cf. 5,18), pondo-se ao seu serviço, libertando-o de todos os obstáculos, sofrimentos e contrariedades e assegurando-lhe o êxito da sua missão através de sinais portentosos (27,40.42), que mostrem a todos que Ele é o “Ungido do Senhor”, que resolve todos os problemas da humanidade, mesmo os provocados pela irresponsabilidade pessoal de cada um.
 
v. 7. Respondeu-lhe Jesus: «Também está escrito: “Não tentarás o Senhor, teu Deus”». Jesus replica com Dt 6,16, afirmando que a fé não consiste em pôr Deus ao serviço de si mesmo, mas em entregar-se o homem ao serviço de Deus, deixando-se conduzir por Ele na fé e na obediência à sua vontade, que se exprime através da realidade, submetendo-se, confiada e filialmente, ao seu desígnio de amor, que se reflete na história e passa pelos acontecimentos (cf. 26,53-54).
 
v. 8. De novo o diabo leva-o consigo a um monte muito alto, mostra-lhe todos os reinos do mundo e a sua glória. A terceira tentação, a das riquezas e do poder, uma constante do ser humano e de todas as nações, incide sobre a relação do homem com os outros. Desta vez o diabo não apela à condição filial de Jesus; pelo contrário: incita-o a realizar-se à margem de Deus, a sobrepor-se a todos, a chegar ao topo deste mundo, pondo os outros ao seu serviço. Para tal, o diabo “leva-o consigo a um monte muito alto”, ou seja, leva-o numa visão (Ez 40,2: “Nas visões de Deus, [o anjo] levou-me à terra de Israel e pôs-me sobre um monte muito alto”) – donde se podia avistar toda a terra (2Bar 76,3) e “mostra-lhe todos os reinos do mundo e a sua glória”, ou seja, as suas riquezas (Is 66,12; Dn 7,14 LXX).
 
v. 9. E disse-lhe: «Tudo isto te darei, se, prostrado, me adorares». Insinuando-se perfidamente como o “dono disto tudo”, senhor dos reinos e das riquezas deste mundo (cf. Jo 12,31; Ap 12,9; 13,7s; LvRab 18,3,118a), numa paródia do único e verdadeiro Senhor e dominador do universo, Deus (Dt 10,14; Gn 14,19; Ex 19,5; Sl 24,1; Ne 9,6; cf. Jr 27,5), o diabo procura desviar Jesus da vontade do Pai, de quem Ele virá a receber o domínio e o poder sobre todas as coisas, aquele mesmo domínio e poder que lhe competem, enquanto Filho de Deus, conforme as promessas da Escritura, nomeadamente, a da sua investidura messiânica, “Tu és meu Filho, Eu hoje te gerei. Pede-me e dar-te-ei as nações por herança e os confins da terra para tua possessão” (Sl 2,7-8; cf. Sl 72,8-11) – a qual, porém, só se realizará, segundo o desígnio de Deus, como depois se verá (cf. 16,21; 17,22-23; 20,18-19), através da paixão, morte e ressurreição de Jesus (28,18; At 13,32-33).
 
* No fundo, o diabo quer que Jesus faça o que o primeiro homem logo no princípio fez, quando, seduzido pela serpente, caiu em tentação e pecou: acreditar mais no diabo do que em Deus e fazer a vontade dele, em vez da de Deus, pretendendo com isso, tornar-se igual a Deus (Gn 3,5) e usurpar o seu lugar (cf. Gn 11,4; Fl 2,6). Só que aqui, neste caso, quem pretende usurpar o lugar de Deus é o diabo, prometendo a Jesus que lhe dará todo o poder e riquezas terrenas, se Ele, prostrado, fizer em relação a ele, aquilo que os magos, representando todos os gentios, Lhe tinham feito, logo após o seu nascimento em Belém: prostrar-se diante dele e adorá-lo (2,11). E junta-lhe a promessa de lhe dar tudo, se Ele o fizer.
 
* A lógica do diabo é muito simples: se Jesus é o Messias deve alcançar e garantir o seu poder, domínio e triunfo sobre todos os reinos e gentes da terra, pondo-os ao seu serviço e exigindo deles o culto idolátrico da sua pessoa, como faziam os monarcas da Antiguidade (cf. Jdt 3,8; Ez 28,2; Dn 3,5), culto esse que o diabo, como interessado final, reclama, também de Jesus, para si (cf. Is 14,13s; 2Ts 2,4). Desta forma, assegura-lhe o diabo, Jesus alcançará o poder e a riqueza que lhe são devidos, sem ter de percorrer o caminho do Pai, que passa pela sua paixão e morte de cruz. É a máxima pragmática política de “o fim justifica os meios” (exitus acta probat: Ovídio [†17 d.C.], Heroides 2, 85), tão contrária à sabedoria evangélicaa (cf. Catecismo da Igreja Católica, 1759). Uma tentação que será também dirigida aos cristãos pelos poderes políticos ao longo dos tempos (a começar pelo Sinédrio, passando depois pelo Império Romano e continuando a emergir aqui e ali, ao longo dos séculos, noutros países), de lhes poupar o sofrimento, as torturas e a vida, prometendo-lhes até riquezas, desde que prestem culto a eles (o Imperador ou o rei) e aos seus ídolos, obedeçam à sua vontade e sigam a sua ideologia (cf. Dn 3,6; 2Ma 7,24).
 
v. 10. Responde-lhe Jesus: «Vai-te, Satanás, porque está escrito: “Ao Senhor, teu Deus, adorarás e só a Ele prestarás culto”». Jesus rejeita todas as propostas de vida e de realização pessoal à margem do Pai e da sua vontade e invetiva o diabo, designando-o pelo seu nome original, “Satanás” (he. “o adversário”: 12,26; 1Cr 21,1; Jb 1,6-12; 2,1-7; Zc 3,1-2; Ap 12,9; 20,212,26), e dando-lhe, pela primeira vez, uma ordem: “Vai-te, Satanás” (gr. hýpage), manifestando a sua vitória e autoridade sobre ele. Uma invetiva semelhante terá de ouvir Simão Pedro, quando pretender desviar Jesus do desígnio e da vontade do Pai, embora, neste caso, Jesus o chame a retomar de novo o caminho do discipulado e do seguimento dele: “Vai-te para trás de mim, Satanás” (16,23; cf. 4,19).
 
* Simultaneamente Jesus contrapõe a Satanás Dt 6,13; 10,20, acrescentando-lhe, porém, no início, o mandamento, enunciado aqui, pela primeira vez, de forma positiva, de “adorar a Deus” (cf. Jo 4,24; Ap 14,7), e não meramente negativa – ou seja, como era habitual, como interdição de prestar culto a outros deuses (Ex 20,5; 23,24; Dt 5,9; Sl 81,10).
 
* Jesus não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida pelos homens (cf. 20,25-28), libertando-os do jugo de Satanás. Recusa assim o ídolo do dinheiro (Cl 3,5), raiz de todos os males (1Tm 6,10), pois “ninguém pode servir a dois senhores, Deus e Mamon” (6,24). Só a Deus, o único Deus vivo e verdadeiro, o Senhor de tudo – e a mais nenhum deus ou senhor terreno – se deve adorar e prestar culto, “pois Ele é a tua vida” (Dt 30,20).
 
* Todas as citações que Jesus faz da Sagrada Escritura são do livro do Deuteronômio – o último livro da Lei, que define a relação entre Deus e o homem como amor –, dos capítulos 6-8, onde se fala do culto apenas a Deus e das tentações de Israel no deserto e, depois, na Terra prometida.  Jesus mostra assim que o homem nunca poderá realizar-se fora do amor e da vontade do Pai, o único Deus, vivo e verdadeiro.
 
* Jesus vence as tentações do diabo com a força da Palavra de Deus, a oração e o jejum, ensinando os seus discípulos a vencê-las n'Ele também, do mesmo modo que Ele. Para isso, fortificados por aquelas, é necessário que se deixem conduzir pelo Espírito, sejam humildes (cf. Mq 6,8) e obedeçam com fé e amor à vontade do Pai, expressa na realidade, na história concreta de cada um, certos de que Ele cuidará de tudo e tudo fará concorrer para o bem daqueles que o amam e n'Ele confiam.
 
v. 11. Então o diabo deixa-o e eis que anjos se aproximaram e o serviam. Jesus é o único ser humano que correspondeu plenamente à vontade do Pai, obedecendo-lhe e amando-o de todo o coração. Por isso, se o primeiro Adão foi colocado no paraíso, onde, segundo escritos apócrifos da época era servido por anjos e aí foi tentado por Satanás (Vida de Adão e Eva 4,8; 8,1; TNeft 8,4.6), com muito mais razão Jesus, tendo vencido o diabo, recapitulando em si a história do seu povo e a da humanidade, é servido pelos anjos como novo Adão e Filho de Deus (cf. 26,53; Hb 1,6; Sl 97,7; Dt 32,43 LXX).
 
MEDITAÇÃO
1. Qual é o plano de Deus para mim? Confio nele, acredito no seu amor? Ou prefiro os meus projetos e desejos pessoais?
2. Olho apenas para o meu próprio conforto, êxito e poder ou também para os outros? Como posso imitar Jesus e seguir o seu caminho?
3. Nesta Quaresma, de que vou jejuar (cf. 1ª tentação), que vou partilhar com os outros (cf. 2ª tentação) e que tempo vou dedicar à oração (cf. 3ª tentação)?
 

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

COROA EM HONRA DAS SETE DORES DE NOSSA SENHORA

Meu Deus, vinde em meu socorro.
Senhor, dai-vos pressa em me socorrer.
Glória ao Pai, etc.
 
1ª DOR: “A PROFECIA DE SIMEÃO” (Lc 2, 25 - 35)
 

Ó Mãe aflita, eu me condoo da dor que vos causou a primeira espada que traspassou o vosso coração, quando no Templo, à voz de Simeão, vos foram representados todos os tormentos que os homens deviam fazer sofrer a vosso amadíssimo Jesus, os quais já conhecíeis pelas divinas Escrituras, tormentos que chegariam a fazê-lo morrer ante os vossos olhos, cravado num madeiro infame, esgotado de sangue e abandonado de todo o mundo, sem que o pudésseis defender e consolar.
 
Por esta lembrança cheia de amargura, que angustiou a vossa alma tantos anos, ó minha Rainha, suplico-vos me obtenhais a graça de ter sempre gravadas no meu coração, durante a minha vida e na hora da minha morte, a Paixão de Jesus Cristo e as vossas dores.
 
Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória ao Pai.
 
D. Santa Mãe, isto eu vos peço, que fiquem no meu peito, bem impressas
T. As chagas de Jesus Crucificado e as dores do vosso maternal Coração.
 
2ªDOR: A FUGA PARA O EGITO (Mt 2, 13-14)

Ó Mãe aflita, eu me condoo da dor que vos causou a segunda espada que traspassou o vosso coração, quando vistes o vosso Filho inocente, apenas nascido, perseguido para a morte pelos mesmos homens para cuja salvação veio ao mundo, de sorte que fostes então obrigada a fugir para o Egito, de noite e às ocultas.
 
Por tudo que sofrestes, Virgem Santa, com o vosso divino Filho exilado, durante esta longa e penosa viagem, e durante a vossa estada no Egito, onde, estrangeiros e desconhecidos, vivestes tantos anos, pobres e desprezados, suplico-vos, ó minha amadíssima Soberana, me obtenhais a graça de suportar com paciência na vossa companhia, até à morte, as penas desta miserável vida, a fim de escapar na outra às penas eternas que mereci.
 
Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória ao Pai.
 
V. Santa Mãe, isto eu vos peço, que fiquem no meu peito, bem impressas
R. As chagas de Jesus Crucificado e as dores do vosso maternal Coração.
 
3ª DOR: “MARIA PROCURA JESUS EM JERUSALÉM” (Lc 2, 41-48)

 
Ó Mãe aflita, compadeço-me da dor que vos causou a terceira espada que traspassou o vosso  coração, quando perdestes o vosso Filho Jesus em Jerusalém, que por três dias ficou ausente de vós: certamente, durante essas noites cruéis, que tivestes de passar sem ver ao vosso lado o objeto do vosso amor e sem conhecer a causa da sua ausência, não pudestes achar repouso, e não fizestes outra coisa que suspirar por Aquele que era todo o vosso bem.
 
Por estes suspiros, por esta separação tão longa e amarga, ó minha Rainha amantíssima, suplico-vos me obtenhais a graça de jamais perder o meu Deus, a fim de que, constantemente unido a ele durante a minha vida, tenha a felicidade de sair deste mundo nesta santa união.
 
Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória ao Pai.
 
V. Santa Mãe, isto eu vos peço, que fiquem no meu peito, bem impressas
R. As chagas de Jesus Crucificado e as dores do vosso maternal Coração.
 
4ªDOR: “JESUS ENCONTRA SUA MÃE NO CAMINHO DO CALVÁRIO” (Lc 23, 26-29)
 
Ó Mãe aflita, eu me condoo da dor que vos causou a quarta espada que traspassou o vosso coração, quando vistes o vosso divino Filho condenado à morte, coberto de sangue e chagas, coroado de espinhos, caindo no caminho sob o peso da cruz que levava sobre seus machucados ombros, indo como um cordeiro inocente morrer pelo nosso amor: os seus olhos e os vossos se encontraram então, e os vossos olhos foram outros tantos dardos cruéis que feriram reciprocamente os vossos Corações ardentes de amor.
 
Por esta grande dor, ó minha generosa Advogada, suplico-vos me obtenhais a graça de viver em perfeita resignação com a vontade do meu Deus, levando a minha cruz com alegria após Jesus até o meu último suspiro.
 
Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória ao Pai.
 
V. Santa Mãe, isto eu vos peço, que fiquem no meu peito, bem impressas
R. As chagas de Jesus Crucificado e as dores do vosso maternal Coração.
 
5ª DOR: “MARIA AO PÉ DA CRUZ” (Jo 19, 25-27)

 
Ó Mãe aflita, eu me condoo da dor que vos causou a quinta espada que traspassou o vosso coração, quando, no Calvário, vistes morrer a pouco e pouco, no meio dos sofrimentos e humilhações, sobre o duro leito da cruz, o vosso amadíssimo Jesus, sem lhe poderdes acudir com o mínimo alívio.
 
Pela agonia que então sofrestes com o vosso divino Filho agonizante; pela comoção que experimentastes ouvindo as últimas palavras que ele vos dirigiu do altar da cruz, despedindo-se de vós e vos deixando por filhos todos os homens na pessoa de São João; pela coragem que tivestes de vê-los depois pender a cabeça e dar o último suspiro, ó terna Mãe, suplico-vos me obtenhais do vosso Amor Crucificado a graça de viver e morrer crucificado a todas as coisas deste mundo, a fim de viver unicamente para meu Deus, até à morte, e chegar um dia a vê-lo face a face no Céu.
 
Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória ao Pai.
 
V. Santa Mãe, isto eu vos peço, que fiquem no meu peito, bem impressas
R. As chagas de Jesus Crucificado e as dores do vosso maternal Coração.
 
6ª DOR: “MARIA RECEBE NOS BRAÇOS O CORPO DO FILHO” (Lc 23, 50-53)
 

Ó Mãe aflita, eu me condoo da dor que vos causou a sexta espada que traspassou o vosso coração, quando lancearam o doce Coração do vosso Filho já morto por esses ingratos que, depois de lhe tirarem a vida, buscavam ainda atormentá-lo.
 
Por este cruel tratamento, cuja pena só vós sentistes, ó Mãe de Dores, suplico-vos me obtenhais a graça de habitar no Coração de Jesus, ferido e aberto para mim, neste Coração que é o belo asilo, retiro de amor, em que buscam e acham repouso todas as almas amantes, e onde Deus só, enquanto eu aí repousar, será o objeto dos meus pensamentos e afetos. Ó Virgem santíssima, podeis alcançar-me esta felicidade, de vós espero consegui-la.
 
Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória ao Pai.
 
V. Santa Mãe, isto eu vos peço, que fiquem no meu peito, bem impressas
R. As chagas de Jesus Crucificado e as dores do vosso maternal Coração.
 
7ª DOR: “MARIA DEPOSITA JESUS NO SEPULCRO” (Jo 19, 38-42)
 

Ó Mãe aflita, eu me condoo da dor que vos causou a sétima espada que traspassou o vosso coração, quando tivestes em vossos braços o corpo do vosso Filho, não mais no brilho da sua beleza, como o tínheis outrora recebido na gruta de Belém, mas ensanguentado, lívido, e rasgado todo de feridas que haviam penetrado até aos ossos. “Ó meu Filho - diríeis então - a que estado vos reduziu o amor!” E quando o levaram para o sepulcro, quisestes acompanhá-lo e compô-lo com as vossas próprias mãos; e enfim constrangida a lhe dardes o último adeus, deixastes sepultado com ele o vosso coração ardente de amor.
 
Por todos estes martírios sofridos pela vossa bela alma, ó Mãe do Santo Amor, obtende-me o perdão dos pecados de que me fiz réu contra meu Deus; pesa-me deles de todo o meu coração, protegei-me contra as tentações, e socorrei-me na hora da minha morte, a fim de que, salvo pelos merecimentos de Jesus Cristo e pelos vossos, vá um dia, graças à vossa assistência, após este miserável exílio, cantar no paraíso os vossos louvores, e os de Jesus, durante toda a eternidade.
 
Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória ao Pai.
 
V. Santa Mãe, isto eu vos peço, que fiquem no meu peito, bem impressas
R. As chagas de Jesus Crucificado e as dores do vosso maternal Coração.
 
V. Rogai por nós, ó Virgem dolorosíssima!
R Para que nos tornemos dignos das promessas de Cristo.
 
OREMOS
Senhor, sede-nos propício, e concedei-nos a graça de experimentar o feliz efeito da vossa Paixão, na qual, como o havia profetizado, Simeão, uma espada de dor traspassou a alma tão terna da gloriosa Virgem Maria, vossa Mãe, cujas dores celebramos e honramos. Vós que viveis e reinais, com o Pai e o Espírito Santo, pelos séculos dos séculos. Amém.