terça-feira, 28 de abril de 2026

Quinta-feira da 4ª semana da Páscoa

São Pio V, papa
São José Bento Cottolengo, presbítero
 
1ª Leitura (At 13,13-25):
Naqueles dias, Paulo e os seus companheiros largaram de Pafos e dirigiram-se a Perga da Panfília. Mas João Marcos separou-se deles para voltar a Jerusalém. Eles prosseguiram de Perga e chegaram a Antioquia da Pisídia. A um sábado, entraram na sinagoga e sentaram-se. Depois da leitura da Lei e dos Profetas, os chefes da sinagoga mandaram-lhes dizer: «Irmãos, se tendes alguma exortação a fazer ao povo, falai». Paulo levantou-se, fez sinal com a mão e disse: «Homens de Israel e vós que temeis a Deus, escutai: O Deus deste povo de Israel escolheu os nossos pais e fez deles um grande povo, quando viviam como estrangeiros na terra do Egipto. Com seu braço poderoso tirou-os de lá e durante quarenta anos sustentou-os no deserto e, depois de exterminadas sete nações na terra de Canaã, deu essas terras como herança ao seu povo. Tudo isto durou cerca de quatrocentos e cinquenta anos. Em seguida, deu-lhes juízes até ao profeta Samuel. Então o povo pediu um rei e Deus concedeu-lhes Saul, filho de Cis, da tribo de Benjamim, que reinou durante quarenta anos. Depois, tendo-o rejeitado, suscitou-lhes David como rei, de quem deu este testemunho: ‘Encontrei David, filho de Jessé, homem segundo o meu coração, que fará sempre a minha vontade’. Da sua descendência, como prometera, Deus fez nascer Jesus, o Salvador de Israel. João tinha proclamado, antes da sua vinda, um baptismo de penitência a todo o povo de Israel. Prestes a terminar a sua carreira, João dizia: ‘Eu não sou quem julgais; mas depois de mim, vai chegar Alguém, a quem eu não sou digno de desatar as sandálias dos seus pés’».
 
Salmo Responsorial: 88
R. Senhor, cantarei eternamente a vossa bondade.
 
Cantarei eternamente as misericórdias do Senhor e para sempre proclamarei a sua fidelidade. Vós dissestes: «A bondade está estabelecida para sempre», no céu permanece firme a vossa fidelidade.
 
Encontrei David, meu servo, ungi-o com o óleo santo. Estarei sempre a seu lado e com a minha força o sustentarei.
 
A minha fidelidade e bondade estarão com ele, pelo meu nome será firmado o seu poder. Ele me invocará: «Vós sois meu Pai, meu Deus, meu Salvador».
 
Aleluia. Jesus Cristo, a Testemunha fiel, o Primogénito dos mortos, amou-nos e purificou-nos dos nossos pecados, pelo seu sangue. Aleluia.
 
Evangelho (Jo 13,16-20): «Em verdade, em verdade, vos digo: o servo não é maior do que seu senhor, e o enviado não é maior do que aquele que o enviou. Já que sabeis disso, sereis felizes se o puserdes em prática. Eu não falo de todos vós. Eu conheço aqueles que escolhi. Mas é preciso que se cumpra o que está na Escritura: ‘Aquele que come do meu pão levantou contra mim o calcanhar’. Desde já, antes que aconteça, eu vo-lo digo, para que, quando acontecer, acrediteis que eu sou. Em verdade, em verdade, vos digo: quem recebe aquele que eu enviar, a mim recebe; e quem me recebe, recebe aquele que me enviou».
 
«Depois de lavar os pés dos discípulos...»
 
Rev. D. David COMPTE i Verdaguer (Manlleu, Barcelona, Espanha)
 
Hoje, como naqueles filmes que começam lembrando um fato passado, a liturgia faz memória de um gesto que pertence à Quinta-feira Santa: Jesus lava os pés dos discípulos (cf. Jo 13,12). Assim, esse gesto —lido desde a perspectiva da Páscoa— recobra uma vigência perene. Observemos, somente, três ideias.
 
Em primeiro lugar, a centralidade da pessoa. Na nossa sociedade parece que fazer é o termômetro do valor de uma pessoa. Dentro dessa dinâmica é fácil que as pessoas sejam tratadas como instrumentos; facilmente utilizamo-nos uns aos outros. Hoje, o Evangelho nos urge a transformar essa dinâmica em uma dinâmica de serviço: o outro nunca é um puro instrumento. Tentar-se-ia de viver uma espiritualidade de comunhão, onde o outro —em expressão de João Paulo II— chega a ser “alguém que me pertence” e um “ dom para mim”, a quem temos de “dar espaço”. A nossa língua o tem apanhado felizmente com a expressão: “estar pelos demais” Estamos pelos demais? Escutamos-lhes quando nos falam?
 
Na sociedade da imagem e da comunicação, isto não é uma mensagem a transmitir, senão uma tarefa a cumprir, a viver cada dia: «sereis felizes se o puserdes em prática» (Jo 13,17). Talvez por isso, o Mestre não se limita a uma explicação: imprime o gesto de serviço na memória daqueles discípulos, passando logo à memória da Igreja; uma memória chamada constantemente a ser uma vez mais gesto: na vida de tantas famílias, de tantas pessoas.
 
Finalmente, um sinal de alerta: «Aquele que come do meu pão levantou contra mim o calcanhar» (Jo 13,18). Na Eucaristia, Jesus ressuscitado se faz o nosso servidor, nos lava os pés. Mas não é suficiente com a presença física. Temos que aprender na Eucaristia e tirar as forças para fazer realidade que «tendo recebido o dom do amor, morramos ao pecado e vivamos para Deus» (São Fulgêncio de Ruspe).
 
Pensamentos para o Evangelho de hoje
«Não há verdadeira amizade senão entre aqueles a quem Tu unes pela caridade» (Santo Agostinho)
 
«A comunidade evangelizadora interfere nas obras e nos gestos da vida quotidiana dos outros, tocando a carne sofredora de Cristo. Os evangelizadores têm assim “cheiro de ovelha”» (Francisco)
 
«Em toda a sua vida, Jesus mostra-Se como nosso modelo: é “o homem perfeito”, que nos convida a tornarmo-nos seus discípulos e a segui-Lo; com a sua humilhação, deu-nos um exemplo a imitar; com a sua oração, convida-nos à oração; com a sua pobreza, incita-nos a aceitar livremente o despojamento e as perseguições» (Catecismo da Igreja Católica, nº 520)
 
Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm.
 
* Nos próximos dias, com exceção das festas, o evangelho diário é tirado da longa conversa de Jesus com os discípulos durante a Última Ceia (Jo 13 a 17).
Nestes cinco capítulos que descrevem a despedida de Jesus, percebe-se a presença daqueles três fios de que falamos anteriormente e que tecem e compõem o evangelho de João: a palavra de Jesus, a palavra das comunidades e a palavra do evangelista que fez a última redação do Quarto Evangelho. Nestes cinco capítulos, os três fios estão de tal maneira entrelaçados que o todo se apresenta como uma peça única de rara beleza e inspiração, onde é difícil distinguir o que é de um e o que é do outro, mas onde tudo é Palavra de Deus para nós. 
 
* Estes cinco capítulos trazem a conversa que Jesus teve com os seus amigos, na véspera de ser preso e morto. Era uma conversa amiga, que ficou na memória do Discípulo Amado. Jesus, assim parece, queria prolongar ao máximo esse último encontro, momento de muita intimidade. O mesmo acontece hoje. Há conversa e conversa. Há conversa superficial que gasta palavras à toa e revela o vazio das pessoas. E há conversa que vai fundo no coração e fica na memória. Todos nós, de vez em quando, temos esses momentos de convivência amiga, que dilatam o coração e vão ser força na hora das dificuldades. Ajudam a ter confiança e a vencer o medo.
 
* Os cinco versículos do Evangelho de hoje tiram duas conclusões do lava-pés (Jo 13,1-15). Falam (1) do serviço como característica principal dos seguidores e seguidoras de Jesus, e (2) da identidade de Jesus como revelação do Pai.
 
* João 13,16-17: O servo não é maior que o seu senhor.  Jesus acabou de lavar os pés dos discípulos. Pedro levou susto e não quis que Jesus lhe lavasse os pés. “Se eu não te lavar os pés, não terás parte comigo” (Jo 13,8). E basta lavar os pés; o resto não precisa (Jo 13,10). O valor simbólico do gesto do lava-pés consistia em aceitar Jesus como o Messias Servidor que se entrega a si mesmo pelos outros, e recusar um messias rei glorioso. Esta entrega de si mesmo como servo de todos é a chave para entender o gesto do lava-pés. Entender isto é a raiz da felicidade de uma pessoa: “Se vocês compreenderam isso, serão felizes se o puserem em prática". Mas havia pessoas, mesmo entre os discípulos, que não aceitavam Jesus como Messias Servo. Não queriam ser servidores dos outros. Provavelmente, queriam um messias glorioso como Rei e Juiz, de acordo com a ideologia oficial. Jesus diz: "Eu não falo de todos vocês. Eu conheço aqueles que escolhi, mas é preciso que se cumpra o que está na Escritura: Aquele que come pão comigo, é o primeiro a me trair!” João se refere a Judas, cuja traição vai ser anunciada logo em seguida (Jo 13,21-30).
 
* João 13,18-20: Digo isto agora, para que creiais que EU SOU.  Foi por ocasião da libertação do Egito ao pé do Monte Sinai, que Deus revelou o seu nome a Moisés: “Estou com você!” (Ex 3,12), “Estou que Estou” (Ex 3,14), “Estou” ou “Eu sou” me mandou até vocês!” (Ex 3,14), O nome Javé (Ex 3,15) expressa a certeza da presença libertadora de Deus junto do seu povo. De muitas maneiras e em muitas ocasiões esta mesma expressão Eu Sou  ou Sou Eu é usada por Jesus (Jo 8,24; 8,28; 8,58; Jo 6,20; 18,5.8; Mc 14,62; Lc 22,70). Jesus é a presença do rosto libertador de Deus no meio de nós.
 
Para um confronto pessoal
1) O servo não é maior que o seu senhor. Como faço da minha vida um serviço permanente aos outros?
2) Jesus soube conviver com pessoas que não o aceitavam. E eu consigo?

segunda-feira, 27 de abril de 2026

Quarta-feira da 4ª semana da Páscoa

 Sta. Catarina de Sena, virgem e doutora da Igreja
Bto Nicolau de Narbonne, presbítero e 8º Prior Geral de nossa Ordem
 
1ª Leitura (At 12,24—13,5):
Naqueles dias, a palavra de Deus crescia e multiplicava-se. Depois de Barnabé e Saulo cumprirem a sua missão, voltaram de Jerusalém, trazendo consigo João, que tinha o sobrenome de Marcos. Na Igreja de Antioquia havia profetas e doutores: Barnabé, Simeão, chamado o Negro, Lúcio de Cirene, Manaen, irmão colaço do tetrarca Herodes e Saulo. Estando eles a celebrar o culto do Senhor e a jejuar, disse-lhes o Espírito Santo: «Separai Barnabé e Saulo para o trabalho a que os chamei». Então, depois de terem jejuado e orado, impuseram-lhes as mãos e deixaram- nos partir. Enviados pelo Espírito Santo, Barnabé e Saulo desceram a Selêucia e de lá navegaram para Chipre. Tendo chegado a Salamina, começaram a anunciar a palavra de Deus nas sinagogas dos judeus.
 
Salmo Responsorial: 66
R. Louvado sejais, Senhor, pelos povos de toda a terra.
 
Deus Se compadeça de nós e nos dê a sua bênção, resplandeça sobre nós a luz do seu rosto. Na terra se conhecerão os vossos caminhos e entre os povos a vossa salvação.
 
Alegrem-se e exultem as nações, porque julgais os povos com justiça e governais as nações sobre a terra.
 
Os povos Vos louvem, ó Deus, todos os povos Vos louvem. Deus nos dê a sua bênção e chegue o seu louvor aos confins da terra.
 
Aleluia. Eu sou a luz do mundo, diz o Senhor; quem Me segue terá a luz da vida. Aleluia.
 
Evangelho (Jo 12,44-50): Jesus exclamou: «Quem crê em mim, não é em mim que crê, mas naquele que me enviou. Quem me vê, vê aquele que me enviou. Eu vim ao mundo como luz, para que todo aquele que crê em mim não permaneça nas trevas. Se alguém ouve as minhas palavras e não as observa, não sou eu que o julgo, porque vim não para julgar o mundo, mas para salvá-lo. Quem me rejeita e não acolhe as minhas palavras já tem quem o julgue: a palavra que eu falei o julgará no último dia. Porque eu não falei por conta própria, mas o Pai que me enviou, ele é quem me ordenou o que devo dizer e falar. E eu sei: o que ele ordena é vida eterna. Portanto, o que eu falo, eu o falo de acordo com o que o Pai me disse».
 
«Quem crê em mim, não é em mim que crê, mas naquele que me enviou»
 
P. Julio César RAMOS González SDB (Mendoza, Argentina)
 
Hoje, Jesus grita; grita como alguém que precisa que suas palavras sejam ouvidas por todos. Seu grito sintetiza sua missão salvadora, pois tem vindo «não para julgar o mundo, mas para salvá-lo» (Jo 12,47), não por si mesmo, mas em nome do «Pai que me enviou, ele é quem me ordenou o que devo dizer e falar» (Jo 12,49).
 
Ainda não faz um mês que celebramos o Tríduo Pascal: o Pai estava tão presente na hora extrema, na hora da Cruz! Como escreveu João Paulo II, «Jesus, aflito pela previsão da prova que o esperava, ante Deus, o invoca com sua habitual e carinhosa expressão de confiança: ‘Abba, Pai’». Nas horas seguintes, se faz evidente o diálogo estreito do Filho com o Pai: «Pai, perdoa-lhes; porque não sabem o que fazem» (Lc 23,34); «Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito» (Lc 23, 46).
 
A importância da obra do Pai, e do seu enviado, merece a resposta de quem o escuta. Essa resposta é o crer, ou seja, a fé (cf. Jo 12,44); fé que nos dá — por Jesus mesmo — a luz para não continuar na escuridão. Ao contrário, quem rejeita esses dons e manifestações e não acolhe essas palavras «já tem quem o julgue: a Palavra» (Jo 12,48).
 
Aceitar Jesus, então, é crer, ver, ouvir ao Pai, significa não estar na escuridão, obedecer ao mandato da vida eterna. Bem-vinda seja a repreensão de São João da Cruz: «[O Pai] tudo nos falou por esta palavra só (...). Por isso, quem quiser perguntar alguma coisa a Deus ou ter uma visão ou revelação, seria não só uma necedade, também estaria ofendendo a Deus, já que não estaria colocando seu olhar em Cristo, evitando querer alguma outra coisa ou novidade».
 
Pensamentos para o Evangelho de hoje
«Dilate o seu coração. Saia ao encontro do sol da luz eterna que ilumina a todo o homem. Esta luz verdadeira brilha para todos, mas quem fecha as suas janelas priva-se da luz eterna» (Santo Ambrósio)
 
«Precisamos desta luz que vem do alto para responder coerentemente à vocação que recebemos. Para a Igreja, ser missionário equivale a deixar-se iluminar por Deus e refletir a sua luz» (Francisco)
 
«Em Jesus Cristo, a verdade de Deus manifestou-se na sua totalidade. ‘Cheio de graça e de verdade’(Jo 1,14), Ele é a ‘luz do mundo’ (Jo 8, 12) (…). Quem Nele crê não fica nas trevas (…)» (Catecismo da Igreja Católica, nº 2.466)
 
Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm.
 
* O Evangelho de hoje traz a parte final do Livro do Sinais (1 a 12), na qual o evangelista faz um balanço.
Muitos acreditaram em Jesus e tinham a coragem de manifestar sua fé publicamente como discípulos e as discípulas. Outros acreditaram, mas não tiveram a coragem de manifestar publicamente sua fé. Tinham medo de serem expulsos da sinagoga. E muitos não acreditaram: “Apesar de Jesus ter realizado na presença deles tantos sinais, não acreditaram nele. Assim se cumpriu a palavra dita pelo profeta Isaías: "Senhor, quem acreditou em nossa mensagem? Para quem foi revelada a força do Senhor?" (Jo 12,37-38). Depois desta constatação geral, João retoma alguns dos temas centrais do seu evangelho:
 
* João 12,44-45: Crer em Jesus é crer naquele que o enviou.  Esta frase é um resumo do evangelho de João. É o tema que aparece e reaparece de muitas maneiras. Jesus está tão unido ao Pai, que ele já não fala em nome próprio, mas sempre em nome do Pai. Quem vê a Jesus vê o Pai. Se quiser conhecer a Deus, olhe para Jesus. Deus é Jesus!
 
* João 12,46: Jesus é a luz que veio ao mundo. Aqui João retoma o que já tinha sido dito no prólogo: “O Verbo era a luz verdadeira que ilumina todo ser humano” (Jo 1,9). “A luz brilha nas trevas, mas as trevas não a apreenderam” (Jo 1,5). Aqui ele repete: “Eu vim ao mundo como luz, para que todo aquele que acredita em mim não fique nas trevas”.  Jesus é uma resposta viva às grandes interrogações que movimentam e inspiram a busca do ser humano. Ele é uma luz que clareia o horizonte. Faz descobrir o lado luminoso da escuridão da fé.
 
* João 12,47-48: Não vim para julgar o mundo. Chegando no fim de uma etapa, surge a pergunta: “Como vai ser o julgamento? Nestes dois versículos o evangelista esclarece o tema do julgamento. O julgamento não se faz na base da ameaça com maldições. Jesus diz: Eu não condeno quem ouve as minhas palavras e não obedece a elas, porque eu não vim para condenar o mundo, mas para salvar o mundo. Quem me rejeita e não aceita minhas palavras, já tem o seu juiz: a palavra que eu falei será o seu juiz no último dia. O julgamento consiste na maneira como a pessoa se define frente à verdade e frente a sua própria consciência.
 
* João 13,49-50: O que digo, eu o digo conforme o Pai me disse. As últimas palavras do Livro dos Sinais são um resumo de tudo que Jesus disse e fez até agora. Ele reafirma o que afirmava desde o começo: “Não falei por mim mesmo. O Pai que me enviou, ele é quem me ordenou o que eu devia dizer e falar. E eu sei que o mandamento dele é a vida eterna. Portanto, o que digo, eu o digo conforme o Pai me disse”. Jesus é o reflexo fiel do Pai. Por isso mesmo, ele não oferece prova nem argumento aos que o provocam para que se legitime e apresente suas credenciais. É o Pai que o legitima através das obras que ele faz. E dizendo obras, não se refere só aos grandes milagres, mas a tudo que ele disse e fez, até nas mínimas coisas. Jesus, ele mesmo, é o Sinal do Pai. Ele é o milagre ambulante, a transparência total. Ele já não se pertence, mas é todo inteiro propriedade do Pai. As credenciais de um embaixador não vêm dele mesmo, mas vem daquele a quem representa. Vem do Pai.
 
Para um confronto pessoal
1) João faz um balanço da atividade reveladora de Jesus. Se eu fizer um balanço da minha vida, o que vai sobrar de positivo em mim?
2) Existe algo em mim que me condena?

domingo, 26 de abril de 2026

29 de abril

 Beato Nicolau de Narbonne
Presbítero e 8º Prior Geral de nossa Ordem
(1266 – 1271)

Nicolau da França ou Nicolau de Narbonne († 1280 ou 1282) Carmelita, sucessor de S. Simão Stock foi Geral da Ordem, e autor da “Ignea Sagitta” (Flecha de Fogo), que é uma das obras fundamentais da espiritualidade carmelita e na qual defende a volta da Ordem à espiritualidade do deserto vivida pelos primeiros eremitas e que, segundo ele, seus irmãos haviam abandonado em favor do apostolado urbano, afirmando que a contemplação é impossível em meio ao barulho e confusão. Morreu no dia 29 de abril de 1280 ou 1281.
 
Salmodia, leitura, Responsório breve e preces do dia corrente.
 
Oração
Senhor, que destes ao Beato Nicolau, a graça de imitar fielmente a Cristo pobre e humilde, fazei que também nós, vivendo plenamente a nossa vocação, no meio das vicissitudes temporais, abracemos de todo o coração as realidades eternas e   caminhemos para a santidade perfeita, à imagem de Jesus Cristo, vosso Filho, Ele que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

Terça-feira da 4ª semana da Páscoa

Bta Mª Felícia de Jesus Sacramentado, virgem de nossa Ordem
S. Pedro Chanel, presbítero e mártir
S. Luís Maria Grignion de Montfort, presbítero
Sta. Gianna Beretta Molla, leiga
 
1ª Leitura (At 11,19-26):
Naqueles dias, os irmãos que se tinham dispersado, devido à perseguição desencadeada pelo caso de Estêvão, caminharam até à Fenícia, Chipre e Antioquia. Mas anunciavam a palavra apenas aos judeus. Houve, contudo, entre eles alguns homens de Chipre e de Cirene, que, ao chegarem a Antioquia, começaram a falar também aos gregos, anunciando-lhes o Senhor Jesus. A mão do Senhor estava com eles e foi grande o número dos que abraçaram a fé e se converteram ao Senhor. A notícia chegou aos ouvidos da Igreja de Jerusalém e mandaram Barnabé a Antioquia. Quando este chegou e viu a ação da graça de Deus, encheu-se de alegria e exortou a todos a que se conservassem fiéis ao Senhor, de coração sincero; era realmente um homem bom e cheio do Espírito Santo e de fé. Assim uma grande multidão aderiu ao Senhor. Então Barnabé foi a Tarso procurar Saulo e, tendo-o encontrado, trouxe-o para Antioquia. Passaram juntos nesta Igreja um ano inteiro e ensinaram muita gente. Foi em Antioquia que, pela primeira vez, se deu aos discípulos o nome de «cristãos».
 
Salmo Responsorial: 86
R. Povos da terra, louvai o Senhor.
 
O Senhor ama a cidade, por Ele fundada sobre os montes santos; ama as portas de Sião mais que todas as moradas de Jacob. Grandes coisas se dizem de ti, ó cidade de Deus.
 
Contarei o Egipto e a Babilónia entre os meus adoradores; a Filisteia, Tiro e a Etiópia, uns e outros ali nasceram. E dir-se-á em Sião: «Todos lá nasceram, o próprio Altíssimo a consolidou».
 
O Senhor escreverá no registo dos povos: «Este nasceu em Sião». E irão dançando e cantando: «Todas as minhas fontes estão em ti».
 
Aleluia. As minhas ovelhas ouvem a minha voz, diz o Senhor; Eu conheço as minhas ovelhas e elas seguem-Me. Aleluia.
 
Evangelho (Jo 10,22-30): Em Jerusalém celebrava-se a festa da Dedicação. Era inverno. Jesus andava pelo templo, no pórtico de Salomão. Os judeus, então, o rodearam e disseram-lhe: «Até quando nos deixarás em suspenso? Se tu és o Cristo, dize-nos abertamente!». Jesus respondeu: «Eu já vos disse, mas vós não acreditais. As obras que eu faço em nome do meu pai dão testemunho de mim. Vós, porém, não acreditais, porque não sois das minhas ovelhas. As minhas ovelhas escutam a minha voz, eu as conheço e elas me seguem. Eu lhes dou a vida eterna. Por isso, elas nunca se perderão e ninguém vai arrancá-las da minha mão. Meu Pai, que me deu estas ovelhas, é maior do que todos, e ninguém pode arrancá-las da mão do Pai. Eu e o Pai somos um».
 
«Eu e o Pai somos um»
 
Rev. D. Miquel MASATS i Roca (Girona, Espanha)
 
Hoje, vemos Jesus que «andava pelo Templo, no pórtico de Salomão» (Jo 10,23), durante a festa da Dedicação em Jerusalém. Então, os judeus pedem-lhe: «Se tu és o Cristo, diz-nos abertamente», e Jesus responde-lhes: «Eu já vos disse, mas vós não acreditais» (Jo 10,24.25).
 
Só a fé dá ao homem a capacidade de reconhecer Jesus Cristo como o Filho de Deus. No ano de 2000, João Paulo II, no encontro com os jovens em Tor Vergata, falava do “laboratório da fé”. Há muitas respostas para a pergunta «Quem dizem as multidões que eu sou?» (Lc 9,18) … Depois, porém, Jesus passa para o plano pessoal: «E vós, quem dizeis que eu sou?» Para responder corretamente a esta pergunta é necessária a “revelação do Pai”. Para responder como Pedro — «Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo» (Mt 16,16)— faz falta a graça de Deus.
 
Contudo, embora Deus queira que todas as pessoas acreditem e se salvem, só os homens humildes têm a capacidade de acolher este dom. «Entre os humildes está a sabedoria», lê-se no livro dos Provérbios (11,2). A verdadeira sabedoria do homem consiste em confiar em Deus.
 
Santo Tomás de Aquino comenta esta passagem do Evangelho dizendo: «Consigo ver graças à luz do sol, mas se fechar os olhos, não vejo; porém a culpa não é do sol, mas minha».
 
Jesus diz-lhes que, se não creem, que acreditem, pelo menos, devido às obras que faz, que manifestam o poder de Deus. «As obras que eu faço em nome do meu pai dão testemunho de mim» (Jo 10,25).
 
Jesus conhece as suas ovelhas e as suas ovelhas escutam a Sua voz. A fé leva à intimidade com Jesus na oração. O que é a oração senão o trato com Jesus Cristo, que sabemos que nos ama e nos conduz ao Pai? O resultado e o prêmio desta intimidade com Jesus nesta vida, é a vida eterna, como lemos no Evangelho.
 
Pensamentos para o Evangelho de hoje
«Deus é o ser infinitamente perfeito que é a Santíssima Trindade» (Santo Toribio de Mogrovejo)
 
«A vida no seu verdadeiro sentido não a temos só para nós, nem só por nós próprios: é uma relação. Se estamos em relação com Aquele que não morre, então estamos na vida. Então “vivemos”» (Bento XVI)
 
«Movidos pela graça do Espírito Santo e atraídos pelo Pai, nós cremos e confessamos a respeito de Jesus: ‘Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo’ (Mt 16, 16). Foi sobre o rochedo desta fé, confessada por Pedro, que Cristo edificou a sua Igreja» (Catecismo da Igreja Católica, nº 424)
 
Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm.
 
* Os capítulos 1 a 12 do evangelho de João são chamados “O Livro dos Sinais”.
Neles acontece a revelação progressiva do Mistério de Deus em Jesus. Na mesma medida em que Jesus vai fazendo a revelação, crescem a adesão e a oposição a ele de acordo com a visão com que cada um espera a chegada do Messias. Esta maneira de descrever a atividade de Jesus não é só para informar como a adesão a Jesus acontecia naquele tempo, mas também e sobretudo como ela deve acontecer hoje em nós, seus leitores e suas leitoras. Naquele tempo, todos esperavam a chegada do Messias e tinham os seus critérios para poder reconhecê-lo. Queriam que ele fosse do jeito que eles o imaginavam. Mas Jesus não se submete a esta exigência. Ele revela o Pai do jeito que o Pai é e não do jeito que o auditório o gostaria. Ele pede conversão no modo de pensar e de agir.  Hoje também, cada um de nós tem os seus gostos e preferências. Às vezes, lemos o evangelho para ver se encontramos nele a confirmação dos nossos desejos. O evangelho de hoje traz uma luz a este respeito.
 
* João 10,22-24: Os Judeus interpelam Jesus.  Era frio. Mês de outubro. Festa da dedicação que celebrava a purificação do templo feita por Judas Macabeu (2Mc 4,36.59). Era uma festa bem popular de muitas luzes. Jesus anda na esplanada do Templo, no Pórtico de Salomão. Os judeus o questionam: "Até quando nos irás deixar em dúvida? Se tu és o Messias, dize-nos abertamente". Eles querem que Jesus se defina e que eles possam verificar, a partir dos critérios deles, se Jesus é ou não é o Messias. Querem provas. É a atitude de quem se sente dono da situação. Os novatos devem apresentar suas credenciais. Do contrário não terão direito de falar e de atuar.
 
* João 10,25-26: Resposta de Jesus: as obras que faço dão testemunho de mim.
  A resposta de Jesus é sempre a mesma: "Eu já disse, mas vocês não acreditam em mim. As obras que eu faço em nome do meu Pai, dão testemunho de mim; vocês, porém, não querem acreditar, porque vocês não são minhas ovelhas”. Não se trata de dar provas. Nem adiantaria. Quando uma pessoa não quer aceitar o testemunho de alguém, não há prova que o leve a pensar diferente. O problema de fundo é a abertura desinteressada da pessoa para Deus e para a verdade. Onde houver esta abertura, Jesus é reconhecido pelas suas ovelhas. “Quem é pela verdade escuta minha voz” dirá Jesus mais adiante a Pilatos (Jo 18,37). Esta abertura estava faltando nos fariseus.
 
* João 10,27-28: As minhas ovelhas conhecem minha voz.  Jesus retoma a parábola do Bom Pastor que conhece suas ovelhas e é conhecido por elas. Este mútuo entendimento - entre Jesus que vem em nome do Pai e as pessoas que se abrem para a verdade - é fonte de vida eterna. Esta união entre o criador e a criatura através de Jesus supera a ameaça da morte: “Elas jamais perecerão e ninguém as arrebatará de minha mão!” Estão seguras e salvas e, por isso mesmo, em paz e com plena liberdade.
 
*  João 10,29-30: Eu e o Pai somos um.  Estes dois versículos abordam o mistério da unidade entre Jesus e o Pai: “Meu Pai, que tudo entregou a mim, é maior do que todos. Ninguém pode arrancar coisa alguma da mão do Pai. O Pai e eu somos um”. Esta e várias outras frases nos deixam entrever algo deste mistério maior: “Quem vê a mim vê o Pai” (Jo 14,9). “Eu estou no Pai e o Pai está em mim” (Jo 10,38). Esta unidade entre Jesus e o Pai não é automática, mas é fruto da obediência: “Eu sempre  faço o que o Pai me mostra que é para fazer” (Jo 8,29; 6,38; 17,4). “Meu alimento é fazer a vontade do Pai (Jo 4,34; 5,30). A carta aos hebreus diz que Jesus teve que aprender, através do sofrimento, o que é ser obediente (Hb 5,8). “Ele foi obediente até à morte, e morte de Cruz” (Fl 2,8). A obediência de Jesus não é disciplinar, mas é profética. Ele obedece para ser total transparência e, assim, ser revelação do Pai. Por isso, ele podia dizer: “Eu e o pai somos um!” Foi um longo processo de obediência e de encarnação que durou 33 anos. Começou com o Sim de Maria (Lc 1,38) e terminou com “Tudo está consumado!” (Jo 19,30).
 
Para um confronto pessoal
1) Minha obediência a Deus é disciplinar ou profética? Revelo algo de Deus ou só me preocupa com a minha própria salvação?
2) Jesus não se submeteu às exigências dos que queriam verificar se ele era mesmo o messias. Existe em mim algo desta atitude dominadora e inquisidora dos adversários de Jesus?

28 de abril

 Bta Maria Felícia de Jesus Sacramentado
Virgem de nossa Ordem
 

Maria Felicia Guggiari Echeverría, chamada Chiquitunga, nasceu aos 12 de janeiro de 1925 em Villarrica del Espíritu Santo, Paraguai. Aos 16 anos se incorpora na Ação Católica e é nomeada responsável pelo setor de meninas, chamado “Pequenas”. Neste movimento encontrou um ideal e um objetivo que orientou toda a sua vida. No dia 14 de agosto de 1955, veste o Hábito de Carmelita Descalça com o nome de Maria Felícia de Jesus Sacramentado. Faleceu com 34 anos, em Assunção, no dia 28 de abril de 1959. Sua beatificação foi celebrada em 23 de junho de 2018, em Assunção, sob o pontificado do Papa Francisco.
 
Salmodia, leitura, responsório breve e preces do dia corrente.
 
Oração
Deus Eterno e Todo-poderoso, que Vos alegrais em fazer a Vossa morada no coração dos homens e derramastes no coração da Beata Maria Felícia de Jesus Sacramentado o fogo do Vosso amor, levando-a a doar sua juventude no apostolado laical e a imolar-se por todos na vida contemplativa do Carmelo,  ajudai-nos com a vossa graça viver de tal modo que mereçamos ser vossa morada. Por Nosso Senhor...

sábado, 25 de abril de 2026

Segunda-feira da 4ª semana da Páscoa

Santa Zita, virgem
 
1ª Leitura (At 11,1-18):
Naqueles dias, os Apóstolos e os irmãos da Judeia ouviram dizer que os gentios também tinham recebido a palavra de Deus. E quando Pedro subiu a Jerusalém, os que tinham vindo da circuncisão começaram a discutir com ele, dizendo: «Tu entraste em casa dos incircuncisos e comeste com eles». Pedro começou então a expor-lhes tudo por ordem: «Estava eu a orar na cidade de Jope, quando tive em êxtase uma visão: Era um objeto semelhante a uma toalha que descia do Céu, presa pelas quatro pontas, e chegou até junto de mim. Fitando os olhos nela, pus-me a observar e vi quadrúpedes da terra, feras, répteis e aves do céu. Ouvi então uma voz que me dizia: ‘Levanta-te, Pedro; mata e come’. Mas eu respondi: ‘De modo nenhum, Senhor, porque na minha boca nunca entrou nada de profano ou impuro’. Pela segunda vez, falou a voz lá do Céu: ‘Não chames impuro ao que Deus purificou’. Isto sucedeu por três vezes e depois tudo foi novamente retirado para o Céu. Nisto, apresentaram-se três homens na casa em que estávamos, enviados de Cesareia à minha presença. O Espírito disse-me então que fosse com eles sem hesitar. Foram também comigo estes seis irmãos aqui presentes e entrámos em casa daquele homem. Ele contou-nos como tinha visto um Anjo apresentar-se em sua casa e dizer-lhe: ‘Envia mensageiros a Jope e manda chamar Simão, que tem o sobrenome de Pedro. Ele te dirá palavras, pelas quais receberás a salvação, assim como toda a tua família’. Quando comecei a falar, o Espírito Santo desceu sobre eles, como sobre nós ao princípio. Lembrei-me então das palavras que o Senhor dizia: ‘João batizou com água, mas vós sereis batizados no Espírito Santo’. Se Deus lhes concedeu o mesmo dom que a nós, por terem acreditado no Senhor Jesus Cristo, quem era eu para poder opor-me a Deus?» Quando ouviram estas palavras, tranquilizaram-se e deram glória a Deus, dizendo: «Portanto, Deus concedeu também aos gentios o arrependimento que conduz à vida».
 
Salmo Responsorial: 41
R. A minha alma tem sede do Deus vivo.
 
Como suspira o veado pelas correntes das águas, assim minha alma suspira por Vós, Senhor. Minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo: quando irei contemplar a face de Deus?
 
Enviai a vossa luz e verdade, sejam elas o meu guia e me conduzam à vossa montanha santa e ao vosso santuário.
 
E eu irei ao altar de Deus, a Deus que é a minha alegria. Ao som da cítara Vos louvarei, Senhor, meu Deus.
 
Aleluia. Eu sou o bom pastor, diz o Senhor: conheço as minhas ovelhas e elas conhecem-Me. Aleluia.
 
Evangelho (Jo 10,11-18): «Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida por suas ovelhas. O mercenário, que não é pastor e a quem as ovelhas não pertencem, vê o lobo chegar e foge; e o lobo as ataca e as dispersa. Por ser apenas mercenário, ele não se importa com as ovelhas. Eu sou o bom pastor. Conheço as minhas ovelhas e elas me conhecem, assim como o Pai me conhece e eu conheço o Pai. Eu dou minha vida pelas ovelhas. Tenho ainda outras ovelhas, que não são deste redil; também a essas devo conduzir, e elas escutarão a minha voz, e haverá um só rebanho e um só pastor. É por isso que o Pai me ama: porque dou a minha vida. E assim, eu a recebo de novo. Ninguém me tira a vida, mas eu a dou por própria vontade. Eu tenho poder de dá-la, como tenho poder de recebê-la de novo. Tal é o encargo que recebi do meu Pai».
 
«Eu sou o bom pastor»
 
Rev. D. Josep VALL i Mundó (Barcelona, Espanha)
 
Hoje, Jesus nos diz: «Eu sou o bom pastor» (Jo 10,11). Comentando Santo Tomás de Aquino esta afirmação, escreve que «é evidente que o título de “pastor” lhe convém a Cristo, já que da mesma maneira um pastor conduz o rebanho à pastagem, assim também Cristo restaura os fiéis com um alimento espiritual: seu próprio corpo e seu próprio sangue». Tudo começou na Encarnação, e Jesus o cumpriu ao longo de sua vida, levando-o ao fim com sua morte redentora e sua ressurreição. Depois de ter ressuscitado, confiou este pastoreio a Pedro, aos Apóstolos e à Igreja até o fim dos tempos.
 
Através dos pastores, Cristo dá sua Palavra, reparte sua graça nos sacramentos e conduz o rebanho para o Reino: Ele mesmo se entrega como alimento no sacramento da Eucaristia, e comunica a Palavra de Deus e o seu Magistério, e guia com solicitude o seu Povo. Jesus tem procurado para sua Igreja pastores segundo seu coração, quer dizer, homens que, impessoalizando-o pelo Sacramento da Ordem, doem sua vida pelas ovelhas, com caridade pastoral, com humilde espírito de serviço, com clemência, paciência e fortaleza. Santo Agostinho falava frequentemente desta exigente responsabilidade do pastor: «Esta honra de ser pastor me tem preocupado (...), mas lá onde me aterra o fato de que sou para vocês, me consola o fato de que estou entre vocês (...). Sou bispo para vocês, sou cristão com vocês».
 
E cada um de nós, cristãos, trabalhamos apoiando os pastores, rezamos por eles, amamos-lhes e obedecemos-lhes. Também somos pastores para os irmãos, enriquecendo-os com a graça e a doutrina que temos recebido, compartindo preocupações e alegrias, ajudando todo o mundo com o coração. Interessamo-nos por todos aqueles que nos rodeiam no mundo familiar, social e profissional até dar a vida por todos com o mesmo espírito de Cristo, que veio ao mundo «Pois o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate por muitos» (Mt, 20,28).
 
Pensamentos para o Evangelho de hoje
«Vede se sois realmente Suas ovelhas, se O conheceis, se alcançastes a luz da Sua verdade; se O conheceis não só pela fé mas também pelo amor; não só pela credulidade mas também pelas obras» (São Gregório Magno)
 
«Caímos de joelhos perante o esplendor da "Liberdade Infinita" crucificada. Jesus apresenta-se-nos como o "bom pastor". Mas estas não são palavras bonitas: são a realidade! Ele dá literalmente a vida pelos seus. E fá-lo na plena liberdade do amor» (Bento XVI)
 
«Quanto ao Filho, Ele opera a sua própria ressurreição em virtude do seu poder divino. Jesus anuncia que o Filho do Homem deverá sofrer muito, e depois ressuscitar (...). Aliás, é d'Ele esta afirmação explícita: `Eu dou a minha vida para retomá-la... Tenho o poder de a dar e o poder de a retomar´ (Jo 10, 17-18» (Catecismo da Igreja Católica, nº 649)
 
Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm.
 
*  O evangelho de hoje traz a parábola do Bom Pastor.
Em alguns países o texto é de João 10,1-10 e em outros é de João 10,11-18. É difícil escolher entre um e outro. Por isso, preferimos comentar brevemente os dois (Jo 10,1-18). O discurso sobre o Bom Pastor traz três comparações ligadas entre si:
1ª comparação: Jesus fala do pastor e dos assaltantes (Jo 10,1-5)
2ª comparação: Jesus é a porteira das ovelhas (Jo 10,6-10)
3ª comparação: Jesus é o Bom Pastor (Jo 10,11-18)
 
* João 10,1-5: 1ª comparação: entrar pela porteira e não por outro lugar.  Jesus inicia o discurso com a comparação da porteira: "Quem não entra pela porteira mas sobe por outro lugar é ladrão e assaltante! Quem entra pela porteira é o pastor das ovelhas!"  Naquele tempo, os pastores cuidavam do rebanho durante o dia. Quando chegava a noite, levavam as ovelhas para um grande redil ou curral comunitário, bem protegido contra ladrões e lobos. Todos os pastores de uma mesma região levavam para lá o seu rebanho. Um porteiro tomava conta de tudo durante a noite. No dia seguinte, de manhã cedo, o pastor chegava, batia palmas na porteira e o porteiro abria. O pastor entrava e chamava as ovelhas pelo nome. As ovelhas reconheciam a voz do seu pastor, levantavam-se e saíam atrás dele para a pastagem. As ovelhas dos outros pastores ouviam a voz, mas elas não se mexiam, pois era uma voz estranha para elas. De vez em quando, aparecia o perigo de assalto. Ladrões entravam por um atalho ou derrubavam a cerca do redil, feita de pedras amontoadas, para roubar as ovelhas. Eles não entravam pela porteira, pois lá havia o guarda que tomava conta.
 
*  João 10,6-10: 2ª comparação: Jesus é a porteira.  Os ouvintes, os fariseus (Jo 9,40-41), não entenderam o que significava "entrar pela porteira". Jesus então explicou: "Eu sou a porteira das ovelhas. Todos os que vieram antes de mim eram ladrões e assaltantes". De quem Jesus está falando nesta frase tão dura? Provavelmente, se referia a líderes religiosos que arrastavam o povo atrás de si, mas que não respondiam às esperanças do povo. Não estavam interessados no bem do povo, mas sim no próprio bolso e nos próprios interesses. Enganavam o povo e o deixavam na pior. Entrar pela porteira é o mesmo que agir como Jesus agia. O critério básico para discernir quem é pastor e quem é assaltante, é a defesa da vida das ovelhas. Jesus pede para o povo não seguir as pessoas que se apresentam como pastor, mas não buscam a vida do povo. É aqui que ele disse aquela frase que até hoje cantamos: "Eu vim para que todos tenham vida, e a tenham em abundância!" Este é o critério!
 
* João 10,11-15: 3ª comparação: Jesus é o bom pastor.  Jesus muda a comparação. Antes, ele era a porteira das ovelhas. Agora, é o pastor das ovelhas. Todo mundo sabia o que era um pastor e como ele vivia e trabalhava. Mas Jesus não é um pastor qualquer, mas sim o bom pastor! A imagem do bom pastor vem do AT. Dizendo que é o Bom Pastor, Jesus se apresenta como aquele que vem realizar as promessas dos profetas e as esperanças do povo. Veja por exemplo a belíssima profecia de Ezequiel (Ez 34,11-16). Há dois pontos em que Jesus insiste: (1) Na defesa da vida das ovelhas: o bom pastor dá a sua vida pelas ovelhas. (2) No mútuo reconhecimento entre pastor e ovelhas: o Pastor conhece as suas ovelhas e elas conhecem o pastor. Jesus diz que no povo há uma percepção para saber quem é o bom pastor. Era isto que os fariseus não aceitavam. Eles desprezavam as ovelhas e as chamavam de povo maldito e ignorante (Jo 7,49; 9,34). Eles pensavam ter o olhar certo para discernir as coisas de Deus. Na realidade eram cegos. O discurso sobre o Bom Pastor ensina duas regras como curar este tipo bastante frequente de cegueira: 1) Prestar muita atenção na reação das ovelhas, pois elas reconhecem a voz do pastor. 2) Prestar muita atenção na atitude daquele que se diz pastor para ver se o interesse dele é a vida das ovelhas, sim ou não, e se ele é capaz de dar a vida pelas ovelhas. Certa vez, na festa da tomada de posse de um novo bispo, as “ovelhas” colocaram uma faixa na porta da igreja que dizia: “As ovelhas não conhecem o pastor!” As “ovelhas” não foram consultadas. Advertência séria para quem nomeia os bispos.
 
* João 10,16-18: A meta onde Jesus quer chegar: um só rebanho e um só pastor.  Jesus abre o horizonte e diz que tem outras ovelhas que não são deste redil. Elas ainda não ouviram a voz de Jesus, mas quando a ouvirem, vão perceber que ele é o pastor e vão segui-lo. É a dimensão ecumênica universal.
 
Para um confronto pessoal
1)  Pastor-Pastoral. Será que a pastoral na minha paróquia imita a missão de Jesus - Pastor? E eu na minha ação pastoral, qual a minha atitude? Sou pastor como Jesus?
2) Você já teve a experiência de ter sido enganado por um falso pastor? Como conseguiu superar?

IV Domingo da Páscoa

NOSSA SENHORA DO BOM CONSELHO
São Rafael Arnaiz Barón, religioso
 
1ª Leitura (At 2,14a.36-41):
No dia de Pentecostes, Pedro, de pé, com os onze Apóstolos, ergueu a voz e falou ao povo: «Saiba com absoluta certeza toda a casa de Israel que Deus fez Senhor e Messias esse Jesus que vós crucificastes». Ouvindo isto, sentiram todos o coração trespassado e perguntaram a Pedro e aos outros Apóstolos: «Que havemos de fazer, irmãos?». Pedro respondeu-lhes: «Convertei-vos e peça cada um de vós o Baptismo em nome de Jesus Cristo, para vos serem perdoados os pecados. Recebereis então o dom do Espírito Santo, porque a promessa desse dom é para vós, para os vossos filhos e para quantos, de longe, ouvirem o apelo do Senhor nosso Deus». E com muitas outras palavras os persuadia e exortava, dizendo: «Salvai-vos desta geração perversa». Os que aceitaram as palavras de Pedro receberam o Baptismo e naquele dia juntaram-se aos discípulos cerca de três mil pessoas.
 
Salmo Responsorial: 22
R. O Senhor é meu pastor: nada me faltará.
 
O Senhor é meu pastor: nada me falta. Leva-me a descansar em verdes prados, conduz-me às águas refrescantes e reconforta a minha alma.
 
Ele me guia por sendas direitas por amor do seu nome. Ainda que tenha de andar por vales tenebrosos, não temerei nenhum mal, porque Vós estais comigo: o vosso cajado e o vosso báculo me enchem de confiança.
 
Para mim preparais a mesa à vista dos meus adversários; com óleo me perfumais a cabeça e o meu cálice transborda.
 
A bondade e a graça hão de acompanhar-me, todos os dias da minha vida, e habitarei na casa do Senhor para todo o sempre.
 
2ª Leitura (1Pe 2,20-25): Caríssimos: Se vós, fazendo o bem, suportais o sofrimento com paciência, isto é uma graça aos olhos de Deus. Para isto é que fostes chamados, porque Cristo sofreu também por vós, deixando-vos o exemplo, para que sigais os seus passos. Ele não cometeu pecado algum e na sua boca não se encontrou mentira. Insultado, não pagava com injúrias; maltratado, não respondia com ameaças; mas entregava-Se Àquele que julga com justiça. Ele suportou os nossos pecados no seu Corpo, sobre o madeiro da cruz, a fim de que, mortos para o pecado, vivamos para a justiça: pelas suas chagas fomos curados. Vós éreis como ovelhas desgarradas, mas agora voltastes para o pastor e guarda das vossas almas.
 
Aleluia. Eu sou o bom pastor, diz o Senhor: conheço as minhas ovelhas e elas conhecem-Me. Aleluia.
 
Evangelho (Jo 10,1-10): «Em verdade, em verdade, vos digo: quem não entra pela porta no redil onde estão as ovelhas, mas sobe por outro lugar, esse é ladrão e assaltante. Quem entra pela porta é o pastor das ovelhas. Para este o porteiro abre, as ovelhas escutam a sua voz, ele chama cada uma pelo nome e as leva para fora. E depois de fazer sair todas as que são suas, ele caminha à sua frente e as ovelhas o seguem, porque conhecem a sua voz. A um estranho, porém, não seguem, mas fogem dele, porque não conhecem a voz dos estranhos». Jesus contou-lhes esta parábola, mas eles não entenderam o que ele queria dizer. Jesus disse então: «Em verdade, em verdade, vos digo: eu sou a porta das ovelhas. Todos aqueles que vieram antes de mim são ladrões e assaltantes, mas as ovelhas não os escutaram. Eu sou a porta. Quem entrar por mim será salvo; poderá entrar e sair, e encontrará pastagem. O ladrão vem só para roubar, matar e destruir. Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância».
 
«Eu sou a porta das ovelhas»
 
P. Pere SUÑER i Puig SJ (Barcelona, Espanha)
 
Hoje no Evangelho, Jesus utiliza duas imagens referentes a si mesmo: Ele é o pastor. E Ele é a porta. Jesus é o bom pastor que conhece as ovelhas. «Ele chama cada uma pelo nome» (Jo 10,3). Para Jesus, não somos um número; tem um contacto pessoal com cada um de nós. O Evangelho não é só uma doutrina: é a adesão pessoal de Jesus conosco.
 
E, não só nos conhece pessoalmente. Também pessoalmente ama-nos. “Conhecer”, no Evangelho de são João, não significa simplesmente um ato do entendimento, senão um ato de adesão à pessoa conhecida. Jesus leva-nos a cada um no seu coração. Nós também lhe devemos conhecer assim. Conhecer Jesus não implica só um ato de fé, senão também de caridade, de amor. «Examinai-vos se conheceis —diz-nos são Gregório Magno, comentando este texto— se lhe conheceis não pelo fato de crer, senão pelo amor». E o amor mostra-se com as obras.
 
Jesus é também a porta. A única porta. «Quem entrar por mim será salvo» (Jo 10,9). E mais adiante realça: «Ninguém vai ao Pai senão por mim» (Jo 14,6). Hoje um ecumenismo mal entendido faz que alguns pensem que Jesus é um de tantos salvadores: Jesus, Buda, Confúcio..., Maomé, que mais dá! Não! Quem se salva se salvará por Jesus Cristo, ainda que nesta vida não o saiba. Quem luta por fazer o bem, o saiba ou não, vai por Jesus. Nós, pelo dom da fé, sim que o sabemos. Agradecemos-lhe. Esforcemo-nos por atravessar esta porta, que se bem é estreita, Ele nos abrirá de par em par. E demos testemunho de que toda a nossa esperança está posta Nele.
 
Pensamentos para o Evangelho de hoje
«Entra pela porta aquele que entra por Cristo, aquele que imita a paixão de Cristo, aquele que conhece a humildade de Cristo, que sendo Deus se fez homem por nós» (Santo Agostinho)
 
«Jesus Cristo promete conduzir as ovelhas aos “pastos”, às fontes da vida. Mas qual é o alimento do homem? Ele vive da verdade e de ser amado pela Verdade. Ele precisa de Deus, do Deus que se aproxima dele e lhe mostra o caminho da vida» (Bento XVI)
 
«Assim a Igreja é o redil, cuja única e necessária porta é Cristo (Jn 10,1-10). E também o rebanho, do qual o próprio Deus predisse que seria o pastor (cf. Is 40,11) e cujas ovelhas, ainda que governadas por pastores humanos, são contudo guiadas e alimentadas sem cessar pelo próprio Cristo, bom Pastor e Príncipe dos pastores, o qual deu a vida pelas suas ovelhas» (Catecismo da Igreja Católica, nº 754)

“Eu Sou a porta das ovelhas.”
 
Fr. Pedro Bravo, O.Carm.

* Com esta passagem, S. João passa do tema da luz (9,1-41) ao tema da vida, dedicando o cap. 10 à figura de Jesus, o Bom Pastor.
A figura do pastor é muito comum na Bíblia. É a mais antiga profissão de Israel que, antes de se fixar na terra prometida, viveu em tendas como nómada. É também símbolo do chefe ideal (político ou religioso) do povo de Deus.
 
* v. 1. «Amén, Amén vos digo: aquele que não entra pela porta no redil das ovelhas, mas sobe por outro lado, é ladrão e salteador. O texto de hoje, a parábola do Bom Pastor, divide-se em duas partes: na primeira, Jesus apresenta a comparação (vv. 1-6); na segunda, explica-a (7-10). Jesus começa por atestar o que vai dizer, repetindo duas vezes no início de cada declaração a palavra “Amén” (he. “em verdade”): “Amén, Amén vos digo”. É uma expressão típica de João (25x), tomada da fórmula com que se concluíam as orações mais solenes (Sl 41,13; 72,19; 89,52; Ne 8,6; Tb 8,8). Jesus sublinha assim a verdade das suas palavras, dignas de toda a fé, que infalivelmente se cumprem (cf. Nm 5,22; Ne 5,13).
 
* Para compreender este texto há que ter presente que, na época, quando os rebanhos eram grandes, tendo de viver a maior parte do ano nos campos, os pastores juntavam os seus rebanhos à noite, revezando-se para os guardar (cf. Lc 2,8). Para simplificar esta tarefa, construíam redis com cercas altas, de pedra, onde era difícil penetrar, e aí guardavam os animais, ficando cada noite um deles de vigia em frente da porta. De manhã, cada pastor vinha, emitia o seu próprio assobio (Is 5,26; Zc 10,8), que as ovelhas dele conheciam, elas vinham ter com ele e ele, chamando cada uma pelo nome, conduzia-as, uma após outra, para fora.
 
* Nesta passagem, Jesus contrapõe dois tipos de pastores: os falsos pastores, que só têm o nome, mas não o são (Ez 34,8ss; Zc 10,2s; 11,4s). Eles não entram pela porta, mas sobem por outro lado. Jesus não poupa as palavras: estes são “ladrões” (cf. Judas: 12,6; BQ 6,1) e “salteadores” (cf. Barrabás: 18,40) que enganam o povo, para o explorar (v. 8; Is 56,11), levar à violência e escravizar, não buscando o bem das ovelhas, mas apenas o seu próprio interesse.
 
* v. 2. Mas aquele que entra pela porta é pastor das ovelhas. “O pastor das ovelhas” (vv. 11.14), ao invés, entra pela porta (vv. 7.9). No AT, o único bom pastor é Deus (Ez 34,11.15), que prometeu vir Ele mesmo apascentar o Seu Povo através do Messias (Ez 34,23-31; 37,24-28). Ao declarar que é “o Bom Pastor”, o único que recebeu do Pai o mandato (v. 8) e as ovelhas (v. 29; 17,6), Jesus indica veladamente que é o Messias.
 
* v. 3. A este o porteiro abre e as ovelhas escutam a sua voz; chama pelo nome as ovelhas que lhe pertencem e condu-las para fora. A este, o porteiro (o Pai) abre a porta, atraindo a Jesus os que O escutam e dele aprendem (6,37.45s). Estes vêm ter com Jesus, têm-no como seu pastor e “escutam a sua voz”, obedecendo à Sua Palavra (vv. 16.27; 18,37; 3,8; 5,25; Ap 3,20; cf. Gn 3,8; 1Sm 15,22; 1Rs 19,13; Sl 95,7; Ct 8,13; Is 50,10). Como exerce o pastor a sua missão? 1) Chamando as suas ovelhas “pelo nome” (Ex 33,17; Is 43,1). Ele conhece-as (2Tm 2,19) e tem com cada uma relação pessoal de comunhão e amor. 2) Depois fá-las “sair”, uma a uma (v. 9), em novo êxodo (Is 42,7; Br 6,2), como Deus fez sair o seu povo do Egito (Ex 3,8.10ss; 6,6s; Ez 34,13), separando-as do mundo (15,19; 17,14ss) e libertando-as do pecado e da morte.
 
* v. 4. Depois de ter feito sair todas as que lhe pertencem, caminha à sua frente e as ovelhas seguem-no, porque conhecem a sua voz. A seguir, condu-las para fora e caminha à sua frente (Nm 27,17; Sl 80,2), apontando-lhes, com a sua Palavra (17,17) e exemplo (13,15), o caminho da vida que Ele é (14,6). “E elas seguem-no”. “Seguir” é a atitude do discípulo que “conhece a voz” de Jesus, a Sua Palavra (18,21), O escuta (3,29) e a põe em prática.
 
* v. 5. A um estranho nunca hão de seguir, mas fugirão dele, porque não conhecem a voz dos estranhos» Aos estranhos, porém, elas não seguirão (Mt 7,15; Ef 4,14; Cl 2,8; 2Tm 3,5; 1Jo 2,19; Ap 2,2), mas “fugirão” deles (Jr 51,6; Sb 1,5; 1Cor 6,18; 10,14; 1Tm 6,11; 2Tm 2,22).
 
* v. 6. Jesus apresentou-lhes esta comparação, mas eles não compreenderam o que lhes dizia. Como é habitual no Quarto Evangelho, o que Jesus diz não é entendido pelos seus ouvintes. Aqui fala-lhes por meio duma “comparação” (16,25.29; gr. paroimía, he. mashal, “provérbio”, “parábola”: Pv 1,1; Sr 39,3), mas eles não percebem (8,43; cf. Mc 4,13p; 7,18) o que ela significa. Por isso, Jesus explica-a.
 
* v. 7. Jesus disse, então, de novo: «Amén, Amén vos digo: Eu Sou a porta das ovelhas. Começa por dizer: “Eu Sou”. “Eu Sou” é uma fórmula teofânica: é o nome divino revelado por Deus a Moisés (Ex 3,14; Jo, 23x: 8,24.58). Jesus é a revelação do verdadeiro nome de Deus, ou seja, do Pai (1,18; 17,6.26). A expressão, articulada com uma ulterior explicitação, aponta a missão de Jesus enquanto Verbo encarnado: “a porta das ovelhas”. A imagem da “porta” evoca o sonho de Jacob (1,51): “Este é a casa de Deus, esta é a porta dos céus” (Gn 28,17). Aqui “porta” (Pv 8,34) é uma sinédoque (figura em que se diz a parte pelo todo) do “Reino” (Gn 24,60; Mt 16,18). Jesus é o verdadeiro templo de Deus (2,21), “a (única) porta” (com artigo) pela qual se entra na casa do Pai (14,2s), no Reino de Deus (3,3.5) que Ele mesmo é. Por isso, antes de dizer que é “o bom Pastor”, começa por se apresentar como a porta, pois para ter Jesus como Pastor é necessário primeiro entrar no redil (o Reino) e pertencer ao seu rebanho (a Igreja).
 
* v. 8. Todos os que vieram antes de mim são ladrões e salteadores, mas as ovelhas não os escutaram. Todos os que vieram antes de Jesus, apresentando-se a si mesmos como “salvadores”, são “ladrões e salteadores” (v. 1; Os 7,1; Jr 23,1s). É uma alusão aos muitos falsos messias que apareceram na época de Jesus (At 5,36s) e aos falsos profetas e doutores que surgiram nas comunidades (Mt 24,5.11.23s; 2Ts 2,9-12 2Pd 2,1s). Mas as ovelhas não os escutam, nem seguem, mostrando assim que são de Jesus (1Jo 2,19).
 
* v. 9. Eu Sou a porta: se alguém entrar por mim, será salvo; entrará e sairá e encontrará pastagem. Perante o descalabro dos chefes políticos e religiosos de Israel, Deus prometeu um pastor, o Messias, pelo qual Ele reuniria, apascentaria e reconduziria o seu povo, disperso no exílio, à sua terra, para dele fazer um só rebanho sob um só pastor. A única porta para “entrar” (4x, aqui) na verdadeira terra prometida, que é o Reino de Deus (Mt 7,13s; Lc 11,52), é Jesus (cf. 3,17). O rebanho não é levado para o aprisco para aí ficar: tem que sair. Para isso, tal como para entrar, tem de passar pela porta. Esta porta é Jesus, como Ele próprio diz nesta frase, novamente introduzida pela fórmula teofânica “Eu Sou” (v. 7). Só Jesus, enquanto Verbo encarnado, é a porta para entrar no aprisco e fazer parte do rebanho. E só faz parte do rebanho quem “passa” por Ele, tornando-se participante da sua Páscoa (“passagem”; cf. gr. metabaíno: 13,1; 5,24; 1Jo 3,14) pelo batismo. “Sair” é sinónimo de “seguir” Jesus (v. 4; 1,43), acreditando nele, escutando a Sua voz, conhecendo a Sua Palavra, para a pôr em prática.
 
* A expressão “porta das ovelhas” evoca uma das portas do Templo de Jerusalém que dá acesso ao pátio dos gentios, a “Porta Probática” (gr. “Porta das ovelhas”: (Ne 3,1).
João associa-a ao batismo, por estar junto à piscina de Betesda (“Casa da misericórdia”: 5,2), mas ela chama-se assim porque era por aí que eram introduzidas as ovelhas destinadas aos sacrifícios no Templo. Se Jesus, o Cordeiro de Deus (1,29.36; Is 53,7), é a “porta” por onde os seus devem “sair”, então “seguir Jesus” poderá implicar o martírio (cf. 21,19.22).
 
* “Entrar e sair” é um merisma (figura que diz o todo acostando as duas extremidades opostas), sinónimo de “fazer uma campanha”, “levar a cabo uma tarefa”, “realizar as tarefas da vida”. Apresenta Jesus como: a) o novo Josué (gr. Iesous) que introduz e apascenta o novo Povo de Deus na verdadeira Terra prometida (Nm 27,17); b) o novo David (2Sm 5,1ss), o Messias que Deus “suscitou” como único Pastor do seu povo (Ez 34,23), para o congregar na unidade (11,52), reconduzir ao Reino e dar a vida (Sl 23). Isso acontece “entrando” em comunhão com Ele. Por isso, as ovelhas, entram primeiro nele, para dele se alimentarem; e só depois é que “saem” para o seguirem nos caminhos da vida, encontrando abundante pastagem em fazer a vontade do Pai e realizar a Sua obra (4,34).
 
* v. 10. O ladrão não vem senão para roubar, matar e destruir; Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância». Os que se querem apoderar das ovelhas são “ladrões” (v. 1) que usurpam a glória de Deus, querendo arrebatar para si os que são de Jesus. Esses, como lobos que atacam um rebanho (cf. v. 12), vêm apenas para matar (como Satanás: 8,44), roubar e destruir (v. 12; Is 56,11; Ez 13,19; 34,2-10; Mt 21,13; Mc 11,17; 2Pd 2,2s).
 
* Ao invés deles, Jesus, o Bom pastor, dá a verdadeira vida (5,26s; 17,2) e a dá-a “em abundância” porque: 1) a vida que Jesus dá é a vida eterna, ou seja, a vida divina (v. 28; 3,15s.36; 4,14.36; 5,24; 6,27. 40.47.54.68; 12,50; 17,2.3); 2) que Ele comunica dando “o Espírito sem medida” (3,34), 3) de modo que o Espírito Santo não só encha a vida do crente, mas também renove toda a sua existência, penetre todas as esferas da sua vida e transborde para os outros, 4) jorrando para além das barreiras desta vida, muito para além da própria morte, ou seja, por toda a eternidade, para a vida eterna. Um sentido que o evangelista irá explorar no cap. 11, no episódio da ressurreição de Lázaro.
 
MEDITAÇÃO
1. Cristo é de facto o meu Pastor ou tenho outros “pastores”?
2. A quem ouço, o que me conduz e me alimenta: Cristo ou outras coisas?