sábado, 4 de julho de 2026

Segunda-feira da 14ª semana do Tempo Comum

Santa Maria Goretti, virgem e mártir
 
1ª Leitura (Os 2,16.17b-18.21-22):
Eis o que diz o Senhor: «Hei-de atrair ao meu amor a casa de Israel, hei de conduzi-la ao deserto e falar-lhe ao coração. Ali corresponderá como nos dias da sua juventude, quando saiu da terra do Egipto. Nesse dia, diz o Senhor, chamar-Me-ás ‘meu marido’ e não ‘meu baal’. Farei de ti minha esposa para sempre, desposar-te-ei segundo a justiça e o direito, com amor e misericórdia. Desposar-te-ei com fidelidade e tu conhecerás o Senhor».
 
Salmo Responsorial: 144
R. O Senhor é clemente e cheio de compaixão.
 
Quero bendizer-Vos dia após dia e louvar o vosso nome para sempre. O Senhor é grande e digno de louvor, insondável é a sua grandeza.
 
Uma geração anuncia à outra as vossas obras e todas proclamam o vosso poder. Falam do esplendor da vossa majestade e anunciam as vossas maravilhas.
 
Cantam o poder das vossas obras e proclamam a vossa grandeza. Celebram a memória da vossa imensa bondade e aclamam a vossa justiça.
 
O Senhor é clemente e compassivo, paciente e cheio de bondade. O Senhor é bom para com todos e a sua misericórdia se estende a todas as criaturas.
 
Aleluia. Jesus Cristo, nosso Salvador, destruiu a morte e fez brilhar a vida por meio do Evangelho. Aleluia.
 
Evangelho (Mt 9,18-26): Enquanto Jesus estava falando, um chefe aproximou-se, prostrou-se diante dele e disse: «Minha filha faleceu agora mesmo; mas vem impor a mão sobre ela, e viverá». Jesus levantou-se e o acompanhou, junto com os discípulos. Nisto, uma mulher que havia doze anos sofria de hemorragias veio por trás dele e tocou na franja de seu manto. Ela pensava consigo: «Se eu conseguir ao menos tocar no seu manto, ficarei curada». Jesus voltou-se e, ao vê-la, disse: «Coragem, filha! A tua fé te salvou». E a mulher ficou curada a partir daquele instante. Chegando à casa do chefe, Jesus viu os tocadores de flauta e a multidão agitada, e disse: «Retirai-vos! A menina não morreu; ela dorme». Mas eles zombavam dele. Afastada a multidão, ele entrou, pegou a menina pela mão, e ela se levantou. E a notícia disso espalhou-se por toda aquela região.
 
«A tua fé te Salvou»
 
Rev. D. Antoni CAROL i Hostench (Sant Cugat del Vallès, Barcelona, Espanha)
 
Hoje, a Liturgia da Palavra nos convida a admirar duas magníficas manifestações de fé. Tão magníficas que comoveram o coração de Jesus Cristo e provocaram imediatamente a sua resposta. O Senhor não se deixa vencer em generosidade!
 
«Minha filha faleceu agora mesmo; mas vem impor a mão sobre ela, e viverá» (Mt 9,18). Quase poderíamos dizer que com uma fé consistente nós «obrigamos» a Deus. Ele gosta desta espécie de obrigação. O outro testemunho de fé do Evangelho de hoje também é impressionante: «Se eu conseguir ao menos tocar no seu manto, ficarei curada» (Mt 9,21).
 
Poderíamos afirmar que Deus se deixa «manipular» de bom grado pela nossa boa fé. O que Ele não admite é que O tentemos por desconfiança. Este foi o caso de Zacarias, que pediu uma prova ao arcanjo Gabriel: «Zacarias disse ao anjo: Como posso ter certeza disso?» (Lc 1,18). O Arcanjo não cedeu à desconfiança de Zacarias e respondeu: «Eu sou Gabriel, e estou sempre na presença de Deus (...). E agora, ficarás mudo, sem poder falar até o dia em que estas coisas acontecerem, já que não acreditaste nas minhas palavras, que se cumprirão no tempo certo» (Lc 1,19-20). E assim aconteceu.
 
É Ele mesmo quem deseja “obrigar-se” conosco e deixar-se “prender” por nossa fé: «Eu vos digo: pedi e vos será dado; procurai e encontrareis; batei e a porta vos será aberta» (Lc 11,9). Ele é nosso Pai, e não quer negar nada do que convém aos seus filhos.
 
Entretanto, é necessário que lhe manifestemos confiantemente os nossos pedidos. A confiança e a conaturalidade com Deus requerem intimidade: para confiar em alguém é preciso conhecê-lo, e para conhecê-lo é necessário conviver com ele. Assim, «a fé faz brotar a oração, e a oração - enquanto brota - alcança a firmeza da fé» (Santo Agostinho). Não nos esqueçamos do louvor que mereceu Santa Maria: «Feliz aquela que acreditou, pois o que lhe foi dito da parte do Senhor será cumprido!» (Lc 1,45).
 
Pensamentos para o Evangelho de hoje
«Embora estejamos deitados na cama dos nossos pecados e do nosso corpo, se Jesus nos tocar, ficaremos instantaneamente curados» (São Jerônimo)
 
«Jesus Cristo veio para vencer o mal pela raiz, e as curas são uma amostra da sua vitória, obtida com a sua morte e ressurreição» (Bento XVI)
 
«‘Curai os enfermos!’ (Mt 10, 8). A Igreja recebeu este encargo do Senhor e procura cumpri-lo, tanto pelos cuidados que dispensa aos doentes, como pela oração de intercessão com que os acompanha. Ela crê na presença vivificante de Cristo, médico das almas e dos corpos (…)» (Catecismo da Igreja Católica, nº 1509)
 
Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm.
 
* O evangelho de hoje nos leva a meditar dois milagres de Jesus em favor de duas mulheres.
O primeiro foi em favor de uma senhora, considerada impura por causa de uma hemorragia irregular que já durava doze anos. O outro, em favor de uma menina que acabava de falecer. Conforme a mentalidade daquela época, qualquer pessoa que tocasse em sangue ou em cadáver era considerada impura e quem tocasse nela também ficava impura. Sangue e morte eram fatores de exclusão! Por isso, aquelas duas mulheres eram pessoas marginalizadas, excluídas da participação na comunidade. Quem nelas tocasse também estaria impura, impedida de participar na comunidade, e já não poderia relacionar-se com Deus. Para poder ser readmitida na plena participação comunitária teria de fazer o rito de purificação, prescrito pelas normas da lei. Ora, curando através da fé a impureza daquela senhora, Jesus abriu um novo caminho para Deus que já não dependia dos ritos de purificação, controlados pelos sacerdotes. Ressuscitando a menina, venceu o poder da morte e abriu um novo horizonte para a vida.
 
* Mateus 9,18-19: A morte da menina. Enquanto Jesus ainda estava falando, um chefe do lugar vem interceder pela filha que acabava de morrer. Ele pede que Jesus venha e imponha a mão na menina, “e ela viverá”. O chefe crê que Jesus tem o poder de devolver a vida à filha. Sinal de muita fé em Jesus da parte do pai da menina. Jesus se levanta e vai com ele levando consigo os discípulos. Este é o ponto de partida para os dois episódios que seguem: a cura da mulher com doze anos de hemorragia e a ressurreição da menina. O evangelho de Marcos traz os mesmos dois episódios, mas com muitos detalhes: o chefe se chamava Jairo e era um dos chefes da sinagoga. A menina ainda não estava morta, e tinha doze anos, etc (Mc 5,21-43). Mateus abreviou a narração tão viva de Marcos.
 
* Mateus 9,20-21: A situação da mulher. Durante a caminhada para a casa do chefe, uma mulher que sofria doze anos de hemorragia irregular aproxima-se de Jesus em busca de cura. Doze anos de hemorragia! Por isso, ela vivia excluída, pois, como dissemos, naquele tempo o sangue tornava a pessoa impura. Marcos informa que a mulher tinha gastado toda a sua economia com os médicos e, em vez de ficar melhor, ficou pior (Mc 5,25-26). Ela tinha ouvido falar de Jesus (Mc 5,27). Por isso, nasceu nela uma nova esperança. Dizia consigo: “Se ao menos tocar na roupa dele, eu ficarei curada”. O catecismo da época mandava dizer: “Se eu tocar na roupa dele, ele ficará impuro”. A mulher pensava exatamente o contrário! Sinal de muita coragem. Sinal de que as mulheres não concordavam com tudo o que as autoridades religiosas ensinavam. O ensinamento dos fariseus e dos escribas não conseguia controlar o pensamento do povo! Graças a Deus! A mulher aproximou-se por de trás de Jesus, tocou na roupa dele, e ficou curada.
 
* Mateus 9,22. A palavra iluminadora de Jesus. Jesus voltando-se e vendo a mulher declara: “Coragem, minha filha, sua fé curou você!” Frase curta, mas que deixa transparecer três pontos muito importantes: (1) Dizendo “Minha filha”, Jesus acolhe a mulher na nova comunidade, que se formava ao seu redor. Ela já não é uma excluída. (2) Aquilo que ela esperava e acreditava aconteceu de fato. Ela ficou curada. Prova de que o catecismo das autoridades religiosas não estava correto e que em Jesus se abriu um novo caminho para as pessoas poderem obter a pureza exigida pela lei e entrar em contato com Deus. (3) Jesus reconhece que, sem a fé daquela senhora, ele não poderia ter feito o milagre. A cura não foi um rito mágico, mas um ato de fé.
 
* Mateus 9,23-24:  Na casa de chefe. Em seguida, Jesus vai para a casa do chefe. Ao ver o alvoroço dos que faziam luto pela morte da menina, mandou que todo mundo saísse. Dizia: “A criança não morreu. Está dormindo!”. O pessoal deu risada. O povo sabe distinguir quando uma pessoa está dormindo ou quando está morta. Para eles, a morte era uma barreira que ninguém poderia ultrapassar! É a risada de Abraão e de Sara, isto é, dos que não conseguem crer que para Deus nada é impossível (Gn 17,17; 18,12-14; Lc 1,37). As palavras de Jesus têm ainda um significado mais profundo. A situação das comunidades do tempo de Mateus parecia uma situação de morte. Elas também tinham que ouvir: “Não é morte! Vocês é que estão dormindo! Acordem!”

* Mateus 9,25-26:  A ressurreição da menina.. Jesus não deu importância à risada do povo. Ele esperou até que todos saíssem da casa. Aí ele entrou, tomou a criança pela mão e ela se levantou. Marcos conservou as palavras de Jesus: “Talita kúmi!”, o que quer dizer: Menina, levanta-te (Mc 5,41). A notícia espalhou-se por toda aquela região. Fez o povo acreditar que Jesus é o Senhor da vida que vence a morte.
 
Para um confronto pessoal
1. Hoje, quais as categorias de pessoas que se sentem excluídas da participação na comunidade cristã?  Quais os fatores que hoje causam a exclusão de tantas pessoas e lhes dificultam a vida tanto na família como na sociedade?
2. “A criança não morreu. Está dormindo!” “Não é morte! Vocês é que estão dormindo! Acordem!” Esta é a mensagem do evangelho de hoje. O que ela diz para mim? Sou daqueles que dão risada?

sexta-feira, 3 de julho de 2026

XIV Domingo do Tempo Comum

Santo Antônio Maria Zacarias, presbítero
 
1ª Leitura (Zac 9,9-10):
Eis o que diz o Senhor: «Exulta de alegria, filha de Sião, solta brados de júbilo, filha de Jerusalém. Eis o teu Rei, justo e salvador, que vem ao teu encontro, humildemente montado num jumentinho, filho duma jumenta. Destruirá os carros de combate de Efraim e os cavalos de guerra de Jerusalém; e será quebrado o arco de guerra. Anunciará a paz às nações: o seu domínio irá de um mar ao outro mar e do Rio até aos confins da terra».
 
Salmo Responsorial: 144
R. Louvarei para sempre o vosso nome, Senhor, meu Deus e meu Rei.
 
Quero exaltar-Vos, meu Deus e meu Rei, e bendizer o vosso nome para sempre. Quero bendizer-Vos, dia após dia, e louvar o vosso nome para sempre.
 
O Senhor é clemente e compassivo, paciente e cheio de bondade. O Senhor é bom para com todos e a sua misericórdia se estende a todas as criaturas.
 
Graças Vos deem, Senhor, todas as criaturas e bendigam-Vos os vossos fiéis. Proclamem a glória do vosso reino e anunciem os vossos feitos gloriosos.
 
O Senhor é fiel à sua palavra e perfeito em todas as suas obras. O Senhor ampara os que vacilam e levanta todos os oprimidos.
 
2ª Leitura (Rom 8,9.11-13): Irmãos: Vós não estais sob o domínio da carne, mas do Espírito, se é que o Espírito de Deus habita em vós. Mas se alguém não tem o Espírito de Cristo, não Lhe pertence. Se o Espírito d’Aquele que ressuscitou Jesus de entre os mortos habita em vós, Ele, que ressuscitou Cristo Jesus de entre os mortos, também dará vida aos vossos corpos mortais, pelo seu Espírito que habita em vós. Assim, irmãos, não somos devedores à carne, para vivermos segundo a carne. Se viverdes segundo a carne, morrereis; mas, se pelo Espírito fizerdes morrer as obras da carne, vivereis.
 
Aleluia. Bendito sejais, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque revelastes aos pequeninos os mistérios do reino. Aleluia.
 
Evangelho (Mt 11,25-30): Naquela ocasião, Jesus pronunciou estas palavras: «Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, assim foi do teu agrado. Tudo me foi entregue por meu Pai, e ninguém conhece o Filho, senão o Pai, e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar. Vinde a mim, todos vós que estais cansados e carregados de fardos, e eu vos darei descanso. Tomai sobre vós o meu jugo e sede discípulos meus, porque sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para vós. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve».
 
«Vinde a mim, todos vós que estais cansados e carregados de fardos, e eu vos darei descanso»
 
P. Antoni POU OSB Monge de Montserrat (Montserrat, Barcelona, Espanha)
 
Hoje, Jesus mostra-nos duas realidades que o definem: Ele é quem conhece o Pai em toda a profundidade, e é «manso e humilde de coração» (Mt 11,29). Também aí podemos descobrir duas atitudes necessárias para poder entender e viver o que Jesus nos oferece: a simplicidade e o desejo de nos aproximarmos d’Ele.
 
Entrar no mistério do Reino é difícil, muitas vezes, para os sábios e entendidos, porque não estão abertos à novidade da revelação divina; Deus não deixa de se manifestar, mas eles pensam que já sabem tudo e, portanto, Deus já não consegue surpreendê-los. Pelo contrário, os simples, como as crianças nos seus melhores momentos, são receptivos, são como uma esponja que absorve a água, têm capacidade de surpresa e de admiração. Também há excepções, até há homens doutos em ciências humanas que são humildes no que se refere ao conhecimento de Deus.
 
Jesus encontra o seu repouso no Pai, e a sua paz pode ser refúgio para todos os que foram maltratados pela vida: «Vinde a mim, todos vós que estais cansados e carregados de fardos, e eu vos darei descanso» (Mt 11,28). Jesus é humilde e a humildade é irmã da simplicidade. Quando aprendemos a ser felizes através da simplicidade, então desfazem-se muitas complicações, desaparecem muitas necessidades, e podemos enfim descansar. Jesus convida-nos a segui-Lo; não nos engana: estar com Ele é levar o seu jugo, assumir as exigências do amor. O sofrimento não nos será poupado, mas o seu fardo é leve, porque o nosso sofrimento não será causado pelo nosso egoísmo, mas apenas sofreremos o que seja necessário, por amor e com a ajuda do Espírito. Além disso, não esqueçamos que «as tribulações que se sofrem por Deus são suavizadas pela esperança» (Sto. Efrem).
 
Pensamentos para o Evangelho de hoje
«Vamos realmente impor a nós próprios o trabalho de aprender a lição da santidade de Jesus, cujo coração era manso e humilde. A primeira lição desse coração é um exame de consciência; o resto – amor e serviço – segue-se imediatamente —amor e serviço— segue-se imediatamente» (Santa Teresa de Calcutá)
 
«Jesus faz-nos conhecer o Pai. E para quem Ele revela isto? Só quem tem coração de criança é capaz de receber esta revelação» (Francisco)
 
«O Reino é dos pobres e pequenos, quer dizer, dos que o acolheram com um coração humilde (…). [Jesus] identifica-se com os pobres de toda a espécie, e faz do amor ativo para com eles a condição da entrada no seu Reino» (Catecismo da Igreja Católica, nº 544)
 
“Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração.”
 
Fr. Pedro Bravo, O.Carm.
 
Após o “discurso da missão” (9,36-11,1), Mateus introduz uma secção narrativa, onde apresenta as reações e as atitudes que diversas pessoas e grupos têm perante Jesus e o Evangelho do Reino (11,2-12,50). É nesta secção que se insere o presente texto. Ele compõe-se de três “ditos” de Jesus: os dois primeiros (vv. 25-27) são comuns a Lucas (Lc 10,21-22) e o terceiro (vv. 28-30) é exclusivo de Mateus.
 
* v. 25. Jesus tomou a palavra e disse: «Louvo-te, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos. O primeiro dito de Jesus é uma “confissão pública de louvor” (he. todah; gr. exomológesis; lat. confessio: Sl 95,2; 100,1.4; 136,26; Tb 12,6.22; 13,7; Sir 51,1) de Jesus a Deus. Jesus invoca-o como “Pai” (5x, aqui) e confessa ser o único (cf. v. 27: “tudo”) “Senhor do céu e da terra” (cf. 28,18; Js 2,11; 1Rs 8,23; 1Cr 29,11; Ne 9,6; Est 4,17c; Jon 1,9; Is 45,18; Jr 23,24).
 
* Jesus louva o Pai porque escondeu (gr. kryptô: “ocultou”) “estas coisas”, ou seja, “os mistérios do Reino dos céus” (13,11) – guardados desde toda a eternidade em Deus (cf. 10,26; 13,35; Rm 16,25; 1Cor 2,7; Ef 3,9; Cl 1,26s; 2,2s; 1Tm 3,16) e agora revelados por Ele aos homens –, “aos sábios e entendidos” (Is 29,14!), ou seja, aos fariseus, escribas e doutores da Lei, que se consideravam justos, conhecedores e cumpridores da Lei (“sábios”), que interpretam a Palavra de Deus à sua maneira, que confiavam nos seus méritos e se apresentavam a si mesmos como exemplo para os outros, quando, na realidade, não ajudavam, mas impediam as pessoas de chegar a Deus, sobrecarregando-as com as suas normas que não passavam de preceitos humanos (cf. 15,9; Is 29,13).
 
* “Mas as revelaste” (gr. apolalýpto: “des-cobrir”), por Tua graça. “Aos pequeninos” (gr. népios, criança dos 3-7 anos: 21,16), ou seja, aos simples, sem instrução (cf. Sr 51,23), aos que se arrependem, reconhecendo que são pecadores, necessitados de salvação (cf. v. 20; 3,9), e que, por isso, se abrem a Jesus e acolhem com alegria a sua Palavra (cf. 18,3; 19,14).
 
* v. 26. Sim, ó Pai, porque assim foi do teu agrado. É nestes “pequeninos” que o Pai se “compraz” (cf. 18,10), pois é com eles que Jesus, seu Filho, se identifica (cf. 18,5; 25,40.45).
 
* v. 27. Tudo Me foi entregue por meu Pai; ninguém conhece o Filho senão o Pai e ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho O quiser revelar. O segundo dito de Jesus relaciona-se com o anterior. É uma “fórmula de revelação” onde Jesus mostra o que é que foi escondido aos “sábios e entendidos” e revelado aos “pequeninos”: “o mistério” do Reino de Deus, ou seja, o desígnio salvífico de Deus, em Jesus Cristo (cf. Ef 1,9s).
 
* “Tudo” – a revelação definitiva de Deus, do seu desígnio salvífico, a redenção do homem e a obra de salvação – foi “entregue” pelo Pai a Jesus (cf. 28,18; Dn 7,14; Jo 3,35; 13,3), porque Ele é “o Filho”, a “expressão da sua substância” (Hb 1,3).
 
* Os “sábios e entendidos” pensavam que bastava esmiuçar a Lei, para conhecer Deus e fazer a sua vontade. Jesus diz que a vontade de Deus é que todos reconheçam Deus como Pai e O reconheçam a Ele como o seu Filho eterno (cf. Jo 17,3).
 
* “Conhecer” (gr. epiginôskô: “conhecer exatamente”; “reconhecer”) não significa apenas “conhecer”, ter a experiência pessoal, íntima, de Deus, numa vida em união com Ele, mas também “reconhecer”, “perceber” que Deus e Jesus têm uma relação única, exclusiva e divina entre si, em que Deus é “o Pai” de Jesus, e Jesus “o Filho” unigénito, o único que leva ao Pai e O dá a conhecer (Jo 1,18; 14,6) de forma plena e definitiva, pois só Ele, Deus feito homem (1,23), é a revelação do Pai.
 
* v. 28. Vinde a Mim todos os que andais cansados e oprimidos e Eu vos darei descanso. O terceiro dito (vv. 28-30), exclusivo de Mateus, é um convite, uma exortação sapiencial de Jesus a vir a Ele. No seu tríplice apelo – a) “vinde a Mim”, b) “tomai o meu jugo” e c) “aprendei de mim” –, Jesus aplica a si mesmo as palavras da sabedoria divina (Sr 24,14; 51,23.26s), apresentando-se implicitamente como a sabedoria de Deus encarnada (cf. 11,19; 12,42).
 
* Este convite dirige-se: a) a “todos”, não só aos judeus, mas também aos gentios; b) “que estão cansados” (lit. “exaustos”), buscando, com trabalho árduo, o que não sacia (cf. Is 55,2); c) “e oprimidos” pelo fardo da Lei – tornado insuportável pelos rabinos (cf. v. 30; 23,4) –, o “jugo da escravidão” que sobre eles pesava (cf. Gl 5,1; Sr 40,1; Hb 2,15).
 
* Ao convite, segue-se a promessa: “E Eu vos darei descanso”, ou seja, vos restaurarei (gr. anapaúô: v. 29), dando-vos o efetivo repouso sabático, regenerador (cf. Ex 23,12; Dt 5,14), do Espírito Santo (cf. Is 11,2), que vos libertará de todos os vossos inimigos (cf. 2 Sm 7,11; 1Cr 22,9), vos curará e salvará, saciando-vos com o meu manjar (cf. 26,26ss; Ez 34,14s; Sl 23), para que possais caminhar na presença de Deus (cf. Ex 33,14), segundo a minha Palavra (cf. Jr 6,16), gozando da verdadeira paz (cf. Is 32,18; Cl 1,19s; Ef 2,14-18).
 
* v. 29. Tomai o meu jugo sobre vós e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas almas. Os rabinos aplicavam a imagem do “jugo” à Lei de Deus, a suprema norma de vida (cf. Sir 51,26-27;6,24-30). Embora sustentassem que a Lei não era um “jugo” pesado, na realidade tinham feito dela um “jugo” pesadíssimo, pois ninguém conseguia cumprir todos os 613 mandamentos da Lei escrita e oral (cf. At 15,10; Rm 2,17-23). Sendo o jugo uma peça de madeira grossa, adaptada ao cachaço de dois animais, que serve para os apor ao carro ou ao arado, a imagem sugere um trabalho (cf. Jo 6,27ss), a ser feito pelo discípulo em conjunto com Jesus neste caso, o de pôr em prática a Sua palavra, o Evangelho.
 
* Quem toma o jugo de Jesus, é libertado por Ele da escravidão da Lei, para O seguir, como seu único Mestre e Guia (23,9.11), dele aprendendo a viver segundo o Evangelho. A este, Jesus convida-o a entrar na sua escola, para dele aprender a ser um verdadeiro discípulo seu, sendo manso e humilde como Ele, que o é, bem mais do que Moisés (Nm 12,3!).
 
* “Manso” (Mt, 3x: 5,5; 21,5) é aquele que é dócil na sua relação com o próximo (cf. 1Pd 3,4s) e que, mesmo quando é insultado ou privado dos seus direitos, não replica, nem alimenta sentimentos de ódio ou de vingança. Jesus é o “Servo de Iavé” que não levanta a voz (12,18-21; Is 42,2) e que, como “manso cordeiro” que não abre a boca, será conduzido ao matadouro (cf. Jr 11,19; Is 53,1-12), levando a cabo, sem desanimar, nem desfalecer, a sua missão de libertar o homem da escravidão do pecado (cf. Ez 34,27), até que a sua salvação chegue aos confins da terra (cf. Is 42,4).
 
* “Humilde” é o “pobre em espírito” (5,3) que, cônscio da sua fraqueza e impotência, não ambiciona o que é alto (cf. Rm 12,16), mas aceita a realidade, a sua condição de criatura (cf. Tg 1,9), assumindo a sua dependência de Deus, reconhecendo que Deus é tudo e que tudo o que ele é, pode e tem é dom de Deus, aspirando apenas a fazer o que Lhe é agradável (cf. Sf 2,3; 3,12; 1 Pd 5,5), apoiado na Sua graça (cf. 2Cor 12,9s).
 
* Jesus é “manso e humilde de coração”, no seu íntimo, diante de Deus, a partir da raiz do seu ser. Porém, só o reconhecem, dele aprendem e nele “encontram descanso” (v. 28), os “pequeninos” (v. 25) que acolhem a revelação do Pai (cf. 16,17).
 
* v. 30. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve». Para estes, torna-se suave o jugo, e leve, agradável, o fardo que Jesus impõe aos seus seguidores (cf. 1Jo 5,3), ou seja, o Espírito Santo, que não sobrecarrega, mas antes cura, liberta, renova e salva os que creem em Jesus, fazendo‑os caminhar numa vida nova (cf. Rm 7,6; 8,1-17; Gl 5,1. 18; 2Cor 3,17s), indo ao encontro de Jesus com fé viva, esperança firme e caridade ardente, na expectativa da plenitude final (cf. Rm 8,21).
 
MEDITAÇÃO
1. Como cheguei a Deus? Já experimentei o seu amor de Pai? Como ajudar os outros a fazer uma experiência íntima e profunda de Deus?
2. O Senhor está sempre presente nas nossas vidas. Entrego-me a Ele como meu único Senhor e Salvador?
3. Como me situo face ao amor do Pai e à sua proposta em Jesus? Fico fechado no meu comodismo e instalação, orgulho e autossuficiência, olhando para trás e para o que os outros fazem, ou estou aberto e atento à novidade de Jesus, a fim de perceber a sua vontade, imitar os seus gestos e seguir os seus caminhos?

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Tempo Comum, Semana XIII, Sábado

Rainha Santa Isabel de Portugal
Beata Maria Crucificada Cúrcio, virgem de nossa Ordem
são Pedro Jorge Frassáti, leigo
 
1ª Leitura (Am 9,11-15):
Eis o que diz o Senhor: «Naquele dia voltarei a erguer a tenda arruinada de David, repararei as suas brechas, restaurarei as suas ruínas e reconstruí-la-ei como nos tempos de outrora. Assim poderão conquistar o resto de Edom e de todas as nações em que o meu nome foi proclamado, – diz o Senhor, que cumprirá a sua palavra –. Dias virão – diz o Senhor – em que o homem que lavra seguirá de perto o que ceifa e o que pisa as uvas seguirá de perto aquele que planta. O vinho novo jorrará dos montes e escorrerá das colinas. Farei voltar os cativos do meu povo de Israel: eles reconstruirão as cidades devastadas e habitarão nelas, plantarão vinhas e beberão o seu vinho, cultivarão pomares e comerão os seus frutos. Plantá-los-ei na sua terra e não mais serão arrancados da terra que Eu lhes dei» – diz o Senhor, teu Deus.
 
Salmo Responsorial: 84
R. O Senhor anuncia a paz ao seu povo.
 
Escutemos o que diz o Senhor: Deus fala de paz ao seu povo e aos seus fiéis e a quantos de coração a Ele se convertem.
 
Encontraram-se a misericórdia e a fidelidade, abraçaram-se a paz e a justiça. A fidelidade vai germinar da terra e a justiça descerá do Céu.
 
O Senhor dará ainda o que é bom e a nossa terra produzirá os seus frutos. A justiça caminhará à sua frente e a paz seguirá os seus passos.
 
Aleluia. As minhas ovelhas escutam a minha voz, diz o Senhor; Eu conheço as minhas ovelhas e elas seguem-Me. Aleluia.
 
Evangelho (Mt 9,14-17): Aproximaram-se de Jesus os discípulos de João e perguntaram: «Por que jejuamos, nós e os fariseus, ao passo que os teus discípulos não jejuam?». Jesus lhes respondeu: «Acaso os convidados do casamento podem estar de luto enquanto o noivo está com eles? Dias virão em que o noivo lhes será tirado. Então jejuarão. Ninguém põe remendo de pano novo em roupa velha, porque o remendo novo repuxa o pano velho e o rasgão fica maior ainda. Também não se põe vinho novo em odres velhos, senão os odres se arrebentam, o vinho se derrama e os odres se perdem. Mas vinho novo se põe em odres novos, e assim os dois se conservam».
 
«Dias virão em que o noivo lhes será tirado. Então jejuarão»
 
Rev. D. Joaquim FORTUNY i Vizcarro (Cunit, Tarragona, Espanha)
 
Hoje notamos os novos tempos que se iniciam com Jesus, a sua nova doutrina que é ensinada com autoridade, e, como todas as coisas novas, vemos como elas chocam e questionam a realidade e os valores dominantes na sociedade. Assim, nas páginas que precedem o Evangelho que estamos contemplando, vemos a Jesus perdoando os pecados, o paralítico sendo curado e, ao mesmo tempo, acompanhamos como isso escandaliza os fariseus. Vemos também Jesus, chamado à casa de Mateus, o cobrador de impostos, comendo com eles outros publicanos e pecadores, o que fez os fariseus “subir pelas paredes”. No Evangelho de hoje são os discípulos de João que se aproximam de Jesus porque não compreendem que Ele e seus discípulos não jejuem.
 
Jesus que nunca deixa a ninguém sem resposta, lhes dirá: «Acaso os convidados do casamento podem estar de luto enquanto o noivo está com eles? Dias virão em que o noivo lhes será tirado. Então jejuarão» (Mt 9,15). O jejum era, e é, uma prática penitencial que contribui para «adquirir o domínio sobre nossos instintos e a liberdade de coração» (Catecismo da Igreja Católica, n. 2043) e a implorar à misericórdia divina. Mas nesses momentos, a misericórdia e o amor infinito de Deus estavam no meio deles com a presença de Jesus, o Verbo Encarnado. Como podiam jejuar? Só havia uma atitude possível: a alegria, o gozo pela presença de Deus feito homem. Como poderiam jejuar se Jesus havia revelado uma maneira nova de relacionar-se com Deus, um espírito novo que rompia com todas aquelas maneiras antigas de viver?
 
Hoje Jesus está: «Eis que estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos» (Mt 28,20) e também não está, porque voltou ao Pai e por isso clamamos: Vem Senhor Jesus!
 
Estamos vivendo tempos de expectativa. Por isso, convém renovar-nos a cada dia, com o espírito novo de Jesus, desprendendo-nos de nossas rotinas, jejuando de tudo aquilo que nos impeça de avançar a uma identificação plena com Cristo, à santidade. «Justo é nosso choro —nosso jejum— se queimamos em desejos de vê-lo» (Santo Agostinho).
 
À Santa Maria, supliquemos que nos outorgue as graças que necessitamos para viver a alegria de nos sabermos filhos amados de Deus.
 
Pensamentos para o Evangelho de hoje
«O jejum é o timoneiro da vida humana e governa todo o navio do nosso corpo» (São Pedro Crisólogo)
 
«Ao vinho novo, odres novos. E por esta razão, a Igreja pede a todos nós que façamos algumas mudanças, pede-nos que ponhamos de lado as estruturas perecíveis: não servem para nada! E abraçar outras novas, as do Evangelho» (Francisco)
 
«Os leigos realizam a sua missão profética também pela evangelização, isto é, pelo anúncio de Cristo, concretizado no testemunho da vida e na palavra´. Para os leigos, esta ação evangelizadora adquire um carácter específico e uma particular eficácia, por se realizar nas condições ordinárias da vida secular´ (Concilio Vaticano II)» (Catecismo da Igreja Católica, nº 905)
 
Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm.
 
* Mateus 9,14: A pergunta dos discípulos de João em torno da prática do jejum. O jejum é um costume muito antigo, praticado por quase todas as religiões. O próprio Jesus o praticou durante quarenta dias (Mt 4,2). Mas ele não insiste com os discípulos para que façam o mesmo. Deixa a eles a liberdade. Por isso, os discípulos de João Batista e dos fariseus, que eram obrigados a jejuar, querem saber porque Jesus não insiste no jejum: "Nós e os fariseus fazemos jejum. Por que os teus discípulos não fazem jejum?"
 
* Mateus 9,15: A resposta de Jesus. Jesus responde com uma comparação em forma de pergunta: “Vocês acham que os amigos do noivo podem estar de luto, enquanto o noivo está com eles?” Jesus associa o jejum com luto, e ele se considera o noivo. Enquanto o noivo está com os amigos do noivo, isto é, durante a festa do casamento, estes não precisam jejuar. Durante o tempo em que ele, Jesus, estiver com os discípulos, é festa de casamento. Não precisam nem podem jejuar. Um dia, porém, o noivo vai ser tirado. Será um dia de luto. Aí, se quiserem, poderão jejuar. Jesus alude à sua morte. Sabe e sente que, se ele continuar neste caminho de liberdade, as autoridades vão querer matá-lo.
 
*  Mateus 9,16-17: Vinho novo em odre novo!
Nestes dois versículos, o evangelho de Mateus traz duas sentenças soltas de Jesus sobre o remendo novo em pano velho e sobre o vinho novo em odre novo. Estas palavras jogam uma luz sobre as discussões e conflitos de Jesus com as autoridades religiosas da época. Não se coloca remendo de pano novo em roupa velha. Na hora de lavar, o remendo novo repuxa o vestido velho e o estraga mais ainda. Ninguém coloca vinho novo em odre velho, porque o vinho novo pela fermentação faz estourar o odre velho. Vinho novo em odre novo! A religião defendida pelas autoridades religiosas era como roupa velha, como odre velho. Tanto os discípulos de João como os fariseus, os dois procuravam renovar a religião. Na realidade, porém, faziam apenas remendos e, por isso, corriam o perigo de comprometer e estragar tanto a novidade deles como os costumes antigos. Não se deve querer combinar o novo que Jesus trouxe com os costumes antigos. Ou um, ou outro! O vinho novo que Jesus trouxe faz estourar o odre velho. Tem que saber separar as coisas. Muito provavelmente, Mateus traz estas palavras de Jesus para orientar as comunidades dos anos 80. Havia um grupo de judeu-cristãos que queriam reduzir a novidade de Jesus ao tamanho do judaísmo de antes da vinda de Jesus. Jesus não é contra o que é “velho”. O que ele não quer é que o velho se imponha ao novo e, assim, o impeça de manifestar-se. Não se pode reler o Vaticano II com mentalidade pré-conciliar, como alguns procuram fazer hoje.
 
Para um confronto pessoal
1. Quais os conflitos em torno de práticas religiosas que, hoje, trazem sofrimento para as pessoas e são motivo de muita discussão e polêmica? Qual a imagem de Deus que está por trás de todos estes preconceitos, normas e proibições?
2. Como entender a frase de Jesus: “Não colocar remendo de pano novo em roupa velha”? Qual a mensagem que você tira de tudo isto para a sua comunidade hoje?
 

4 de julho

 Beata Maria Crocifissa Curcio
Virgem de nossa Ordem

Rosa Curcio nasceu em Ispica no dia 30 de janeiro de 1877.  Em 1890 obteve permissão para inscrever-se na Ordem Terceira do Carmo, tomando o nome e Irmã Maria Crocifissa.  Por meio da leitura da vida de Santa Teresa de Jesus e iluminada com a ocasião da canonização de Santa Teresa do Menino Jesus em 17 de maio de 1925 em Roma, compreendeu os desígnios de Deus que a chamavam a fazer florescer o Carmelo em sua cidade e em muitos outros lugares.  Em união com seu diretor espiritual fundou uma nova Congregação religiosa filiada à Ordem do Carmo, realizando assim seu desejo de ser carmelita e missionária.  Sua congregação religiosa se difundiu na Itália e fora dela.  Morreu em Santa Marinella no dia 4 de julho de 1957.
 
Salmodia, Leitura, Responsório breve e Preces do Dia Corrente.

Oração
Ó Deus, que na Beata Maria Crocifissa destes à vossa Igreja um modelo de contemplação e de ação, nós vos rogamos, nos concedais por seu exemplo e intercessão, que pela contemplação de vossa Face e no serviço aos irmãos, colaboremos na restauração de vossa imagem no coração dos homens.  Por nosso Senhor Jesus Cristo vosso Filho, 
que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

quarta-feira, 1 de julho de 2026

3 de julho: São Tomé Apóstolo

1ª Leitura (Ef 2,19-22):
Irmãos: Já não sois estrangeiros nem hóspedes, mas sois concidadãos dos santos e membros da família de Deus, edificados sobre o alicerce dos Apóstolos e dos Profetas, que tem Cristo como pedra angular. Em Cristo, toda a construção, bem ajustada, cresce para formar um templo santo do Senhor; e em união com Ele, também vós sois integrados na construção, para vos tornardes, no Espírito Santo, morada de Deus.
Salmo Responsorial: 116
 
R. Ide por todo o mundo e anunciai o Evangelho.
Louvai o Senhor, todas as nações, aclamai-O, todos os povos.
 
É firme a sua misericórdia para conosco, a fidelidade do Senhor permanece para sempre.
 
Aleluia. Disse o Senhor a Tomé: «Porque Me viste, acreditaste; felizes os que acreditam sem terem visto. Aleluia.
 
Evangelho (Jo 20,24-29): Tomé, chamado Gêmeo, que era um dos Doze, não estava com eles quando Jesus veio. Os outros discípulos contaram-lhe: «Nós vimos o Senhor!». Mas Tomé disse: «Se eu não vir a marca dos pregos em suas mãos, se eu não puser o dedo nas marcas dos pregos, se eu não puser a mão no seu lado, não acreditarei». Oito dias depois, os discípulos encontravam-se reunidos na casa, e Tomé estava com eles. Estando as portas fechadas, Jesus entrou, pôs-se no meio deles e disse: «A paz esteja convosco». Depois disse a Tomé: «Põe o teu dedo aqui e olha as minhas mãos. Estende a tua mão e coloca-a no meu lado e não sejas incrédulo, mas crê!». Tomé respondeu: «Meu Senhor e meu Deus!». Jesus lhe disse: «Creste porque me viste? Bem-aventurados os que não viram, e creram!».
 
«Meu Senhor e meu Deus»
 
Rev. D. Joan SERRA i Fontanet (Barcelona, Espanha)
 
Hoje, a Igreja celebra a festa de Santo Tomé. O evangelista João, depois de descrever a aparição de Jesus, no próprio Domingo da Ressurreição, diz que o apóstolo Tomé não estava ali, e quando os Apóstolos —que tinham visto o Senhor— disso davam testemunho, Tomé respondeu: «Se eu não vir a marca dos pregos em suas mãos, se eu não puser o dedo nas marcas dos pregos, se eu não puser a mão no seu lado, não acreditarei» (Jo 20,25).
 
Jesus é bom e vai ao encontro de Tomé. Passados oito dias, Jesus aparece novamente e diz a Tomé: «Põe o teu dedo aqui e olha as minhas mãos. Estende a tua mão e coloca-a no meu lado e não sejas incrédulo, mas crê!» (Jo 20,27).
 
— Oh, Jesus, como és bom! Se vês que alguma vez me afasto de Ti, vem ao meu encontro, como foste ao encontro de Tomé.
 
Estas palavras foram a reação de Tomé: «Meu Senhor e meu Deus!» (Jo 20,28). Que bonitas são estas palavras de Tomé! Chama-lhe “Senhor” e “Deus”. Faz um ato de fé na divindade de Jesus. Ao vê-lo ressuscitado, já não vê somente o homem Jesus, que estava com os Apóstolos e comia com eles, mas o seu Senhor e seu Deus.
 
Jesus repreende-o e diz-lhe que não seja incrédulo, mas crente e acrescenta: «Bem-aventurados os que não viram, e creram!» (Jo 20,28). Nós não vimos Cristo crucificado, nem Cristo ressuscitado, nem nos apareceu, mas somos felizes porque acreditamos neste Jesus Cristo que morreu e ressuscitou por nós.
 
Então, rezemos: «Meu Senhor e meu Deus, afasta de mim tudo o que me afasta de Ti; meu Senhor e meu Deus, dá-me tudo o que me aproxima de Ti; meu Senhor e meu Deus, tira-me de mim próprio para me dar inteiramente a Ti» (S. Nicolau de Flüe).
 
Pensamentos para o Evangelho de hoje
«Tomé via e tocava o homem, mas confessava a sua fé em Deus, que não via nem tocava. Mas o que via e tocava levava-o a crer naquilo de que até àquele momento tinha duvidado» (Santo Agostinho)
 
«O caso do Apóstolo Tomé é importante para nós pelo menos por três motivos: primeiro, porque nos conforta nas nossas inseguranças; segundo porque nos demonstra que qualquer dúvida pode levar a um êxito luminoso além de qualquer incerteza; e por fim, porque as palavras dirigidas a ele por Jesus nos recordam o verdadeiro sentido da fé madura e nos encorajam a prosseguir, apesar das dificuldades, pelo nosso caminho de adesão a Ele» (Bento XVI)
 
«A hipótese, segundo a qual a ressurreição teria sido um «produto» da fé (ou da credulidade) dos Apóstolos, é inconsistente. Pelo contrário, a sua fé na ressurreição nasceu — sob a ação da graça divina da experiência direta da realidade de Jesus Ressuscitado» (Catecismo da Igreja Católica, n° 644)
 
Reflexão de Frei Carlos Mesters, O.Carm.
 
*
Hoje, na festa de São Tomé, o evangelho coloca diante de nós o encontro de Jesus ressuscitado com o apóstolo Tomé que queria ver para poder crer. Foi por isso que muitos o chamam de incrédulo Tomé. Na realidade, a mensagem deste evangelho é bem diferente. É muito mais profunda e atual.
 
* João 20,24-25: A dúvida de Tomé. Tomé, um dos doze, não estava presente quando Jesus apareceu aos discípulos na semana anterior. Tomé não crê no testemunho dos outros que diziam: “Nós vimos o Senhor”. Ele coloca condições: "Se eu não vir a marca dos pregos nas mãos de Jesus, se eu não colocar o meu dedo na marca dos pregos, e se eu não colocar a minha mão no lado dele, eu não acreditarei". Tomé é exigente. Quer ver para crer! Ele não quer um milagre para poder crer. Não! Ele quer ver os sinais nas mãos, nos pés e no lado. Ele não crê num Jesus glorioso, desligado do Jesus humano que sofreu na cruz. No tempo em que João escreve, fim do primeiro século, havia pessoas que não aceitavam a vinda do Filho de Deus na carne (2Jo 7; 1Jo 4,2-3). Eram os gnósticos que desprezavam a matéria e o corpo. É para criticar os gnósticos que o evangelho de João traz a preocupação de Tome em “ver para crer”. A dúvida de Tomé também deixa transparecer como era difícil crer na ressurreição!
 
* João 20,26-27: Não seja incrédulo, mas tenha fé. O texto diz “seis dias depois”. Isto significa que Tomé foi capaz de sustentar sua opinião durante uma semana inteira contra o testemunho dos outros apóstolos. Cabeçudo mesmo! Graças a Deus, para nós! Assim, uma semana depois, durante a reunião da comunidade, eles têm novamente uma experiência profunda da presença de Jesus ressuscitado no meio deles. As portas fechadas não podem impedir que ele esteja no meio dos que nele acreditam. Até hoje é assim! Quando estamos reunidos, mesmo com todas as portas fechadas, Jesus está no meio de nós. E até hoje, a primeira palavra de Jesus é e será sempre: "A Paz esteja com vocês!" O que chama a atenção é a bondade de Jesus. Ele não critica nem xinga a incredulidade de Tomé, mas aceita o desafio e diz: "Tomé, vem cá colocar seu dedo nas feridas!". Jesus confirma a convicção de Tomé e das comunidades, a saber: o ressuscitado glorioso é o crucificado torturado! O Jesus que está na comunidade, não é um Jesus glorioso que não teria mais nada em comum com a nossa vida de gente. Mas é o mesmo Jesus que viveu nesta terra e ele traz no corpo as marcas da sua paixão. As marcas da paixão estão hoje no sofrimento do povo, na fome, nas marcas de tortura, de injustiça. É nas pessoas que reagem, lutam pela vida e não se deixam abater, que Jesus ressuscita e se faz presente no meio de nós. É neste Cristo que Tomé acredita, e nós também!
 
* João 20,28-29: Felizes os que não viram e creram. Com ele digamos: "Meu Senhor e meu Deus!"  Esta entrega de Tomé é a atitude ideal da fé. E Jesus completa com a mensagem final: "Você acreditou porque viu! Felizes os que não viram e no entanto creram!" Com esta frase, Jesus declara felizes a todos nós que estamos nesta mesma condição: sem termos visto acreditamos que o Jesus que está no nosso meio, é o mesmo que morreu crucificado!
 
* O envio: "Como o Pai me enviou, eu envio vocês!" É deste Jesus, ao mesmo tempo crucificado e ressuscitado, que recebemos a missão, a mesma que ele recebeu do Pai (Jo 20,21). Aqui, na segunda aparição, Jesus repete: "A paz esteja com vocês!" Esta repetição acentua a importância da Paz. Construir a paz faz parte da missão. Paz, significa muito mais do que só ausência de guerra. Significa construir uma convivência humana harmoniosa, em que as pessoas possam ser elas mesmas, tendo todas o necessário para viver, convivendo felizes e em paz. Esta foi a missão de Jesus, e é também a nossa missão. Jesus soprou e disse: “Recebei o Espírito Santo” (Jo 20,22). É só mesmo com a ajuda do Espírito de Jesus que seremos capazes de realizar a missão que ele nos deu. Em seguida, Jesus comunicou o poder de perdoar os pecados: "Aqueles a quem vocês perdoarem os pecados serão perdoados e aqueles a quem retiverdes serão retidos!". O ponto central da missão de paz está na reconciliação, na tentativa de superar as barreiras que nos separam. Este poder de reconciliar e de perdoar é dado à comunidade (Jo 20,23; Mt 18,18). No evangelho de Mateus é dado também a Pedro (Mt 16,19). Aqui se percebe que uma comunidade sem perdão nem reconciliação já não é comunidade cristã. Numa palavra, nossa missão é criar comunidade a exemplo da comunidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
 
 Para um confronto pessoal
1) Na sociedade de hoje, as divergências e tensões de raça, classe, religião, gênero e cultura são enormes e crescem cada dia. Como realizar hoje a missão da reconciliação?
2) Na sua família e na sua comunidade existe alguma semente de mostarda que aponta para uma sociedade reconciliada?

terça-feira, 30 de junho de 2026

Quinta-feira da 13ª semana do Tempo Comum

Santa Maria, sempre Virgem

1ª Leitura (Am 7,10-17):
Naqueles dias, Amasias, sacerdote de Betel, mandou dizer a Jeroboão, rei de Israel: «Amós conspira contra ti no meio da casa de Israel. O país já não pode suportar os suas palavras. Porque Amós anda a dizer: ‘Jeroboão morrerá à espada e Israel será deportado para longe da sua terra’». Depois, Amasias disse a Amós: «Vai-te embora daqui, vidente. Foge para a terra de Judá. Aí ganharás o pão com as tuas profecias. Mas não continues a profetizar aqui em Betel, que é o santuário real, o templo do reino». Amós respondeu a Amasias: «Eu não era profeta, nem filho de profeta. Era pastor de gado e cultivava sicómoros. Foi o Senhor que me tirou da guarda do rebanho, foi o Senhor que me disse: ‘Vai profetizar ao meu povo de Israel’. E agora escuta a palavra do Senhor: Tu dizes: ‘Não profetizes contra Israel, nem faças vaticínios contra a casa de Isaac’. Por isso, assim fala o Senhor: ‘A tua mulher será desonrada na cidade, os teus filhos e filhas cairão mortos à espada, as tuas terras serão repartidas a cordel. Tu próprio morrerás em terra impura. E Israel será levado para o exílio, para longe da sua terra’».
 
Salmo Responsorial: 18
R. Os juízos do Senhor são verdadeiros e retos.
 
A lei do Senhor é perfeita, ela reconforta a alma. As ordens do Senhor são firmes e dão sabedoria aos simples.
 
Os preceitos do Senhor são retos e alegram o coração. Os mandamentos do Senhor são claros e iluminam os olhos.
 
O temor do Senhor é puro e permanece eternamente. Os juízos do Senhor são verdadeiros, todos eles são retos.
 
São mais preciosos que o ouro, o ouro mais fino; são mais doces que o mel, o puro mel dos favos.
 
Aleluia. Em Cristo, Deus reconcilia o mundo consigo e confiou-nos a palavra da reconciliação. Aleluia.
 
Evangelho (Mt 9,1-8): Naquele tempo, entrando num barco, Jesus passou para a outra margem do lago e foi para a sua cidade. Apresentaram-lhe, então, um paralítico, deitado numa maca. Vendo a fé que eles tinham, Jesus disse ao paralítico: «Coragem, filho, teus pecados estão perdoados!». Então alguns escribas pensaram: «Esse homem está blasfemando». Mas Jesus, conhecendo os seus pensamentos, disse-lhes: «Por que tendes esses maus pensamentos em vossos corações? Que é mais fácil, dizer?: Os teus pecados são perdoados?, ou: Levanta-te e anda? Pois bem, para que saibais que o Filho do Homem tem na terra poder para perdoar pecados, disse então ao paralítico: 'Levanta-te, pega a tua maca e vai para casa'». O paralítico levantou-se e foi para casa. Vendo isso, a multidão ficou cheia de temor e glorificou a Deus por ter dado tal poder aos seres humanos.
 
«Levanta-te, pega a tua maca e vai para casa»
 
Rev. D. Francesc NICOLAU i Pous (Barcelona, Espanha)
 
Hoje encontramos uma das muitas manifestações evangélicas da bondade misericordiosa do Senhor. Todas elas nos mostram aspectos ricos em detalhes. A compaixão misericordiosamente exercida de Jesus vai desde a ressurreição de um morto ou a cura da lepra até perdoar uma mulher pecadora, passando por muitas outras curas de enfermidades e o perdão dos pecadores arrependidos. Perdão esse, expresso em parábolas como a da ovelha desgarrada, da moeda perdida e a do filho pródigo.
 
O Evangelho de hoje nos dá uma mostra da misericórdia do Salvador em dois aspectos de uma só vez: diante da enfermidade do corpo e da enfermidade da alma. E, considerando que a alma é mais importante, Jesus começa por ela. Sabe que o doente está arrependido de seus pecados, vê a sua fé, e a fé daqueles que o conduzem e diz: «Coragem, filho, teus pecados estão perdoados!» (Mt 9,2).
 
Por que começa por aí se ninguém Lhe pediu isso? Está claro que Ele lê seus pensamentos e sabe que é precisamente isto o que mais agradecerá aquele paralitico, que provavelmente, ao se ver diante da Santidade de Jesus Cristo, se sentiria confuso e envergonhado de seus próprios pecados, e com certo temor deles serem um impedimento para receber a graça da cura de sua saúde. O Senhor quer tranquilizá-lo. Não se importa com os maus pensamentos do coração dos escribas, ao contrário, quer mostrar que veio para exercer a misericórdia com os pecadores e agora a quer proclamar.
 
É que aqueles que estão cegos pelo orgulho, se acham justos e por isto não aceitam a chamada de Jesus; ao contrário, O acolhem todos aqueles que sinceramente se sentem pecadores. Ante estes, Deus se inclina perdoando-os. Como diz Santo Agostinho, «é uma grande miséria o homem orgulhoso, mas é muito maior a misericórdia de Deus humilde». E, neste caso a misericórdia divina vai mais longe: como complemento do perdão, devolve a saúde: «Levanta-te, pega a tua maca e vai para casa» (Mt 9,6). Jesus quer que a felicidade do pecador convertido seja completa.
 
Nossa confiança nele se há de afirmar. Mas, nos sintamos pecadores, a fim de não nos fecharmos para a graça.
 
Pensamentos para o Evangelho de hoje
«O homem orgulhoso é uma grande miséria, mas maior é a misericórdia de Deus humilde» (Santo Agostinho)
 
«O paralítico não poderia ter-se encontrado com Ele se não houvesse outros que o levaram na maca. É sempre bonito poder contar com pessoas que nos aproximam de Jesus com o exemplo das suas boas obras. A santidade pessoal ajuda a outros a serem santos» (Bento XVI)
 
«‘Deus, que nos criou sem nós, não quis salvar-nos sem nós’ (Santo Agostinho). O acolhimento da sua misericórdia exige de nós a confissão das nossas faltas (…)» (Catecismo da Igreja Católica, nº 1847)
 
Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm.
 
* A solidariedade dos amigos consegue o perdão dos pecados para o paralítico.
Jesus está de volta em Cafarnaum. Juntou muita gente na porta da casa. Chega um paralítico carregado por familiares e amigos. Jesus é a única esperança deles. Jesus, vendo a fé deles, diz ao paralítico: "Meu filho, coragem! Teus pecados te são perdoados."  Naquele tempo, o povo achava que defeitos físicos (paralítico) fossem castigo de Deus por algum pecado. Os doutores ensinavam que tal pessoa ficava impura e tornava-se incapaz de aproximar-se de Deus. Por isso, os doentes, os pobres, os paralíticos, sentiam-se rejeitados por Deus! Mas Jesus não pensava assim. Aquela fé tão grande era um sinal evidente de que o paralítico estava sendo acolhido por Deus. Por isso, ele declarou: Teus pecados estão perdoados! Ou seja: “Você não está afastado de Deus!” Com esta afirmação Jesus negou que a paralisia fosse um castigo pelo pecado do homem.
 
* Jesus é acusado de blasfêmia pelos donos do poder. A afirmação de Jesus era contrária ao catecismo da época. Não combinava com a ideia que eles tinham de Deus. Por isso, reagem e acusam Jesus: Ele blasfema! Para eles, só Deus podia perdoar os pecados. E só o sacerdote podia declarar alguém perdoado e purificado. Como é que Jesus, homem sem estudo, leigo, simples carpinteiro, podia declarar as pessoas perdoadas e purificadas dos pecados?
 
* Curando, Jesus prova que ele tem poder de perdoar os pecados.  Jesus percebeu a crítica. Por isso, pergunta: O que é mais fácil dizer: ‘Teus pecados estão perdoados!’ ou: ‘Levanta-te e anda!’? É muito mais fácil dizer: “Teus pecados estão perdoados”. Pois ninguém pode verificar se de fato o pecado foi ou não foi perdoado. Mas se digo: “Levanta-te e anda!”, aí todos podem verificar se tenho ou não esse poder de curar. Por isso, para mostrar que tinha o poder de perdoar os pecados em nome de Deus, Jesus disse ao paralítico: Levanta-te, toma teu leito e vá para casa! Curou o homem! Assim através de um milagre provou que a paralisia do homem não era um castigo de Deus, e mostrou que a fé dos pobres é uma prova de que Deus os acolhe no seu amor.
 
* A mensagem do milagre e a reação do povo.  O paralítico se levanta, pega seu leito, começa a andar, e todos dizem: Nunca vimos coisa igual!  (Mc 2,12) Este milagre revelou três coisas muito importantes: 1) As doenças das pessoas não são castigo pelos pecados. 2) Jesus abre um novo caminho para chegar até Deus. Aquilo que o sistema chamava de impureza já não era empecilho para as pessoas se aproximarem de Deus. 3) O rosto de Deus revelado através da atitude de Jesus era diferente do rosto severo do Deus revelado pela atitude dos doutores.
 
Para um confronto pessoal
1) Qual o rosto de Deus que transparece para os outros através do meu comportamento?

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Quarta-feira da 13ª semana do Tempo Comum

Preciosíssimo Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo
 
1ª Leitura (Am 5,14-15.21-24):
Procurai o bem e não o mal, para que vivais. Assim, o Senhor, Deus do Universo, estará convosco, como vós dizeis. Detestai o mal e amai o bem, restabelecei a justiça no tribunal. Talvez o Senhor, Deus do Universo, tenha compaixão dos sobreviventes de José. Eu detesto e desprezo as vossa festas, desgostam-Me as vossas reuniões sagradas. Se Me ofereceis holocaustos e oblações, Eu não quero aceitá-los; e para os vossos sacrifícios de animais gordos, nem sequer Me digno olhar. Afastai de Mim o barulho dos vossos cânticos, que Eu não quero ouvir o som das vossas harpas. Mas fazei que o direito corra como as águas e a justiça como rio inesgotável.
 
Salmo Responsorial: 49
R. A quem segue o caminho reto darei a salvação de Deus.
 
Ouve, meu povo, que Eu vou falar, Israel, contra ti vou testemunhar. Eu sou o Senhor, teu Deus.
 
Não é pelos sacrifícios que Eu te repreendo: os teus holocaustos estão sempre na minha presença. Não aceito os novilhos da tua casa nem os cabritos dos teus rebanhos.
 
A Mim pertencem todas as feras das florestas e os milhares de animais dos montes. Conheço todas as aves do céu e disponho de todos os animais dos campos.
 
Se tivesse fome, não to diria, porque meu é o mundo e tudo o que nele existe. Comerei porventura a carne dos touros ou beberei o sangue dos cabritos?
 
Como falas tanto na minha lei e trazes na boca a minha aliança, tu que detestas os meus ensinamentos e desprezas as minhas palavras.
 
Aleluia. Deus Pai nos gerou pela palavra da verdade, para sermos as primícias das suas criaturas. Aleluia.
 
Evangelho (Mt 8,28-34): Quando Jesus chegou à outra margem do lago, à região dos gadarenos, vieram ao seu encontro dois possessos, saindo dos túmulos. Eram tão violentos que ninguém podia passar por aquele caminho. Eles então gritaram: «Que queres de nós, Filho de Deus? Vieste aqui para nos atormentar antes do tempo?». Ora, acerta distância deles estava pastando uma manada de muitos porcos. Os demônios suplicavam-lhe: «Se nos expulsas, manda-nos à manada de porcos». Ele disse: «Ide». Os demônios saíram, e foram para os porcos. E todos os porcos se precipitaram, pelo despenhadeiro, para dentro do mar, morrendo nas águas. Os que cuidavam dos porcos fugiram e foram à cidade contar tudo, também o que houve com os possessos. A cidade inteira saiu ao encontro de Jesus. E logo que o viram, pediram-lhe que fosse embora da região.
 
«Pediram-lhe que fosse embora da região»
 
Rev. D. Antoni CAROL i Hostench (Sant Cugat del Vallès, Barcelona, Espanha)
 
Hoje, no Evangelho, contemplamos um triste contraste. “Contraste” porque admiramos o poder e a majestade divina de Jesus Cristo, a quem voluntariamente se submetem os demônios (sinal claro da chegada do Reino dos Céus). Mas, ao mesmo tempo, deploramos a estreiteza e a mesquinhez de que é capaz o coração humano que repudia o portador da Boa Nova: «A cidade inteira saiu ao encontro de Jesus. E logo que o viram, pediram-lhe que fosse embora da região» (Mt 8,34). E “triste” porque «a luz verdadeira, que vindo ao mundo (...), mas o mundo não a reconheceu» (Jo 1, 9.11).
 
Mais contraste e mais surpresa ainda se reparamos no fato de que o homem é livre e esta liberdade tem a “capacidade de reter” o poder infinito de Deus. Digamos isto de outra maneira: a infinita Potestade divina chega até onde o permite nossa “poderosa” liberdade. E isto é assim porque Deus nos ama principalmente com um amor de Pai, e portanto, não nos há de surpreender que ele respeite muito nossa liberdade: Ele não impõe seu amor: apenas o propõe para nós.
 
Deus, com sabedoria e bondade infintas, governa providencialmente o universo, respeitando nossa liberdade; e também faz isto quando essa liberdade humana lhe dá as costas e não quer aceitar sua vontade. Ao contrário do que possa parecer, não se lhe escapa o mundo das mãos: Deus leva tudo a bom termo, apesar dos impedimentos que Lhe possamos opor. Na verdade, nossos impedimentos são antes de tudo, impedimentos para nós mesmos.
 
Podemos afirmar então, que «frente a liberdade humana, Deus quis se fazer “impotente”. E pode-se mesmo dizer que Deus está pagando por este grande dom [a liberdade] que nos concedeu como seres criados por Ele à sua imagem e semelhança [o homem]» (João Paulo II). Deus obedece!: sim, se o expulsamos, Ele obedece e se vai. Ele obedece, mas nós perdemos. Ao contrário, saímos ganhando quando respondemos como Santa Maria: «Eis aqui a serva do Senhor! Faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lc 1,38).
 
Pensamentos para o Evangelho de hoje
«Ele saiu do seio da Virgem como o sol nascente, para iluminar com sua luz todo o orbe da terra. Recebem nesta luz os que desejam a claridade do resplandor sem fim» (Santo Ambrósio)
 
«Jesus veio a nos liberar da escravidão do demônio sobre nós. E não se pode dizer que exageramos. Sempre devemos vigiar contra o engano, contra a sedução do maligno» (Francisco)
 
«A vinda do Reino de Deus é a derrota do reino de Satanás: “Se é pelo Espírito de Deus que Eu expulso os demônios, então é porque o Reino de Deus chegou até vós” (Mt 12, 20). Os exorcismos de Jesus libertam os homens do poder dos demônios. E antecipam a grande vitória de Jesus sobre “o príncipe deste mundo” (Jo 12,31)» (Catecismo da Igreja Católica, n° 550)
 
Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm.
 
* O evangelho de hoje acentua o poder de Jesus sobre o demônio.
No nosso texto, o demônio ou o poder do mal é associado com três coisas: 1) Com o cemitério, o lugar dos mortos. A morte que mata a vida! 2) Com o porco, que era considerado um animal impuro. A impureza que separa de Deus!  3) Com o mar, que era visto como símbolo do caos de antes da criação. O caos que destrói a natureza. O evangelho de Marcos, de onde Mateus tirou a sua informação, ainda associa o poder do mal a um quarto elemento que é a palavra Legião, (Mc 5,9), nome dos exércitos do império romano. O império que oprimia e explorava os povos. Assim se compreende como a vitória de Jesus sobre o demônio tinha um alcance enorme para a vida das comunidades dos anos setenta, época em que Mateus escreve o seu evangelho. Elas viviam oprimidas e marginalizadas, pela ideologia oficial tanto do império romano como do farisaísmo que se renovava. O mesmo significado e alcance continua válido para nós hoje.
 
* Mateus 8,28: O poder do mal oprime, maltrata e aliena as pessoas. Este versículo inicial descreve a situação do povo antes da chegada de Jesus. Na maneira de descrever o comportamento dos dois endemoninhados, o evangelista associa o poder do mal com cemitério e morte. É um poder mortal sem rumo, ameaçador, descontrolado e destruidor, que mete medo em todos. Priva a pessoa da consciência, do autocontrole e da autonomia.
 
* Mateus 8,29: Diante da simples presença de Jesus o poder do mal se desmorona e se desintegra. Aqui se descreve o primeiro contato entre Jesus e os dois possessos. É a desproporção total. O poder, que antes parecia tão forte, se derrete e se desmancha diante de Jesus. Eles gritam: "Que é que há entre nós, Filho de Deus? Vieste aqui para nos atormentar antes do tempo?" Sentem que perderam o poder.
 
* Mateus 8,30-32: O poder do mal é impuro e não tem autonomia nem consistência O demônio não tem poder sobre os seus próprios movimentos. Só consegue ir para dentro dos porcos com a permissão de Jesus! Uma vez dentro dos porcos, estes se precipitam no mar. Na opinião do povo, o porco era símbolo da impureza que impedia o ser humano de relacionar-se com Deus e sentir-se acolhido por Ele. O mar era símbolo do caos que existia antes da criação e que, conforme a crença da época, continuava ameaçando a vida. Este episódio dos porcos que se precipitam no mar é estranho e difícil de ser entendido. Mas a mensagem é muito clara: diante de Jesus, o poder do mal não tem autonomia nem consistência. Quem crê em Jesus já venceu o poder do mal e já não precisa ter medo!
 
* Mateus 8,33-34: A reação do povo do lugar. Alertado pelos empregados que tomavam conta dos porcos, o povo do lugar veio ao encontro de Jesus. Marcos informa que eles viram “o endemoninhado sentado, vestido e em perfeito juízo” (Mc 5,15). Mas eles ficaram sem os porcos! Por isso, pedem a Jesus para ir embora. Para eles, os porcos eram mais importantes que o ser humano que acabava de ser devolvido a si mesmo.
 
* A expulsão dos demônios. No tempo de Jesus, as palavras demônio ou satanás, eram usadas para indicar o poder do mal que desviava as pessoas do bom caminho. Por exemplo, quando Pedro tentou desviar Jesus, ele foi Satanás para Jesus (Mc 8,33). Outras vezes, aquelas mesmas palavras eram usadas para indicar o poder político do império romano que oprimia e explorava o povo. Por exemplo, no Apocalipse, o império romano é identificado com “Diabo ou Satanás” (Ap 12,9). Outras vezes ainda, o povo usava as mesmas palavras para indicar os males e as doenças. Assim se falava em demônio ou espírito mudo, espírito surdo, espírito impuro, etc. Havia muito medo! No tempo de Mateus, segunda metade do primeiro século, o medo dos demônios estava aumentando. Algumas religiões, vindas do Oriente, divulgavam um culto aos espíritos. Elas ensinavam que gestos errados nossos podiam irritar os espíritos, e estes, para se vingar de nós, podiam impedir nosso acesso a Deus e privar-nos dos benefícios divinos. Por isso, através de ritos e despachos, rezas fortes e cerimônias complicadas, o povo procurava acalmar esses espíritos ou demônios, a fim de que não prejudicassem a vida humana. Estas religiões, em vez de libertar o povo, alimentavam nele o medo e a angústia. Ora, um dos objetivos da Boa Nova de Jesus era ajudar o povo a se libertar deste medo. A chegada do Reino de Deus significou a chegada de um poder mais forte. Jesus é “o homem mais forte” que chegou para amarrar o Satanás, o poder do mal, e roubar dele a humanidade prisioneira do medo (cf. Mc 3,27). Por isso, os evangelhos insistem tanto na vitória de Jesus sobre o poder do mal, sobre o demônio, sobre o Satanás, sobre o pecado e sobre a morte. Era para animar as comunidades a vencer este medo do demônio! E hoje, quem de nós pode dizer: “Eu sou totalmente livre”? Ninguém! Então, se não sou totalmente livre, alguma parte em mim é possuída por outros poderes. Como expulsar estes poderes? A mensagem do evangelho de hoje continua válida para nós.
 
Para um confronto pessoal
1. O que está oprimindo e maltratando o povo, hoje?  Por que, hoje, em certos lugares, se fala tanto em expulsão de demônio? Será que é bom insistir tanto no demônio? O que você acha?
2. Quem de nós pode dizer que é totalmente livre ou liberto? Ninguém! Então, somos todos um pouco possessos, possuídos por outros poderes que ocupam algum espaço dentro de nós. Como fazer para expulsar este poder de dentro nós e de dentro da sociedade?