terça-feira, 4 de agosto de 2026

6 de agosto: Transfiguração do Senhor

1ª Leitura (Dan 7,9-10.13-14):
Estava eu a olhar, quando foram colocados tronos e um Ancião sentou-se. As suas vestes eram brancas como a neve e os cabelos como a lã pura. O seu trono eram chamas de fogo, com rodas de lume vivo. Um rio de fogo corria, irrompendo diante dele. Milhares de milhares o serviam e miríades de miríades o assistiam. O tribunal abriu a sessão e os livros foram abertos. Contemplava eu as visões da noite, quando, sobre as nuvens do céu, veio alguém semelhante a um filho do homem. Dirigiu-Se para o Ancião venerável e conduziram-no à sua presença. Foi-lhe entregue o poder, a honra e a realeza, e todos os povos e nações O serviram. O seu poder é eterno, que nunca passará, e o seu reino jamais será destruído.
 
Salmo Responsorial: 96
R. O Senhor é rei, o Altíssimo sobre toda a terra.
 
O Senhor é rei: exulte a terra, rejubile a multidão das ilhas. Ao seu redor, nuvens e trevas; a justiça e o direito são a base do seu trono.
 
Derretem-se os montes como cera diante do senhor de toda a terra. Os céus proclamam a sua justiça e todos os povos contemplam a sua glória.
 
Vós, Senhor, sois o Altíssimo sobre toda a terra, estais acima de todos os deuses. Alegrai-vos, ó justos, no Senhor e louvai o seu nome santo.
 
2ª Leitura (2Pe 1,16-19): Caríssimos: Não foi seguindo fábulas ilusórias que vos fizemos conhecer o poder e a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo, mas por termos sido testemunhas oculares da sua majestade. Porque Ele recebeu de Deus Pai honra e glória, quando da sublime glória de Deus veio esta voz: «Este é o meu Filho muito amado, em quem pus toda a minha complacência». Nós ouvimos esta voz vinda do céu, quando estávamos com Ele no monte santo. Assim temos bem confirmada a palavra dos Profetas, à qual fazeis bem em prestar atenção, como a uma lâmpada que brilha em lugar escuro, até que desponte o dia e nasça em vossos corações a estrela da manhã.
 
Aleluia. Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência. Escutai-O. Aleluia.
 
Evangelho (Mt 17,1-9): Naquele tempo, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João seu irmão e levou-os, em particular, a um alto monte e transfigurou-Se diante deles: o seu rosto ficou resplandecente como o sol e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz. E apareceram Moisés e Elias a falar com Ele. Pedro disse a Jesus: «Senhor, como é bom estarmos aqui! Se quiseres, farei aqui três tendas: uma para Ti, outra para Moisés e outra para Elias». Ainda ele falava, quando uma nuvem luminosa os cobriu com a sua sombra e da nuvem uma voz dizia: «Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência. Escutai-O». Ao ouvirem estas palavras, os discípulos caíram de rosto por terra e assustaram-se muito. Então Jesus aproximou-se e, tocando-os, disse: «Levantai-vos e não temais». Erguendo os olhos, eles não viram mais ninguém, senão Jesus. Ao descerem do monte, Jesus deu-lhes esta ordem: «Não conteis a ninguém esta visão, até o Filho do homem ressuscitar dos mortos».
 
«Este é o meu Filho amado»
 
Rev. D. Joan SERRA i Fontanet(Barcelona, Espanha)
 
Hoje, o Evangelho fala-nos da Transfiguração de Jesus Cristo no monte Tabor. Jesus, depois da confissão de Pedro, começou a mostrar a necessidade de o Filho do homem ser condenado à morte e anunciou também a sua ressurreição ao terceiro dia. É neste contexto que devemos situar o episódio da Transfiguração de Jesus. Santo Anastácio Sinaíta escreve que «Ele tinha-se revestido com nossa miserável túnica de pele, hoje colocou a veste divina, e a luz envolveu-o como um manto». A mensagem que Jesus transfigurado nos traz são as palavras do Pai: «Este é o meu Filho amado. (...) Escutai-o!». (Mt 17,5). Escutar significa fazer a sua vontade, contemplar a sua pessoa, imitá-lo, pôr em prática os seus conselhos, tomar a nossa cruz e segui-lo.
 
Com o propósito de evitar equívocos e más interpretações, Jesus ordenou-lhes que não contassem a ninguém o que tinham visto, até que o Filho do Homem ressuscitasse dos mortos (cf. Mt 17,9). Os três apóstolos contemplam Jesus transfigurado, sinal da sua divindade, mas o Salvador não quer que se divulgue até depois da sua Ressurreição, quando então se poderá compreender a dimensão deste episódio. Cristo fala-nos no Evangelho e na nossa oração; então podemos repetir as palavras de Pedro: «Rabi, que bem estamos aqui» (Mt 17,4), sobretudo depois de ir comungar.
 
O prefácio da Missa de hoje oferece-nos um belo resumo da Transfiguração de Jesus. Diz assim: «Porque Cristo, Senhor, tendo anunciado sua morte aos discípulos, revelou a sua glória na montanha sagrada e, tendo também a Lei e os profetas como testemunhas, fê-los compreender que a paixão é necessária para chegar à gloria da ressurreição». Lição que os cristãos nunca devem esquecer.
 
Pensamentos para o Evangelho de hoje
«Para penetrarmos na intimidade destes inefáveis e sagrados mistérios juntamente com os eleitos, entre os discípulos inspirados por Deus, ouçamos a voz divina e sagrada que, lá do alto, do cimo do monte, instantemente nos chama» (Anastácio Sinaíta)
 
«Esse corpo que se transfigura diante dos olhos atônitos dos Apóstolos é o corpo de nosso irmão Cristo, mas é também nosso corpo destinado à glória; a luz que o inunda é e será também nossa parte da herança e esplendor» (São Paulo VI)
 
«Para o cristão, crer em Deus é crer inseparavelmente em Aquele que Deus enviou, “no seu Filho muito amado” em quem Ele pôs todas as suas complacências (Mc 1,11). Deus mandou-nos que O escutássemos (...) (Mc9,7)» (Catecismo da Igreja Católica, n° 151)
 
No "monte” da Transfiguração
 
Com base nos textos de Bento XVI
 
Hoje vemos o Senhor tomando consigo os três prediletos e, levá-los a um monte alto. Voltaremos a encontrá-los juntos em outro monte —no das Oliveiras— na angustia extrema do Senhor, como imagem que contrasta com a transfiguração, ainda que ambas estejam inseparavelmente relacionadas entre si: A divindade de Jesus vai unida à cruz, somente nessa inter-relação reconhecemos Jesus Cristo corretamente.
 
A cena, além dos diversos “montes” da vida de Cristo (Calvário, Ascensão...) nos lembra os montes da revelação do Antigo Testamento (Sinai, Horeb, Moriá): São ao mesmo tempo montes de “paixão” e de “revelação”. Moisés e Elias receberam no monte a revelação de Deus: Agora estão em colóquio com Aquele que é a Revelação (e a Lei) em pessoa. Ambos foram, com seus sofrimentos, figuras da paixão: Agora falam da iminente Paixão do Transfigurado.
 
—Jesus, enquanto descemos do monte, nos falas de tua “ressurreição dentre os mortos”: Nossa esperança passará pelo monte Calvário.
 
Reflexão de Frei Carlos Mesters, O.Carm.
 
* Hoje é a festa da Transfiguração de Jesus.
A Transfiguração acontece depois do primeiro anúncio da Morte de Jesus (Mt 16,21). Este anúncio transtornou a cabeça dos discípulos, sobretudo de Pedro (Mt 16,22-23). Eles tinham os pés no meio dos pobres, mas a cabeça estava perdida na ideologia dominante da época. Eles esperavam um messias glorioso. A cruz era um impedimento para crer em Jesus. A Transfiguração, onde Jesus aparece glorioso no alto da montanha, era uma ajuda para eles poderem superar o trauma da Cruz e descobrir em Jesus o verdadeiro Messias. Mesmo assim, muitos anos depois, quando a Boa Nova já estava espalhada pela Ásia Menor e pela Grécia, a Cruz continuava sendo um grande impedimento para os judeus e para os pagãos aceitarem Jesus como Messias. “A cruz é uma loucura e um escândalo!”, assim diziam (1Cor 1,23). Um dos maiores esforços dos primeiros cristãos consistia em ajudar as pessoas a perceber que a cruz não era escândalo nem loucura, mas sim a expressão mais bonita e mais forte do poder e da sabedoria de Deus (1Cor 1,22-31). O evangelho de hoje dá a sua contribuição neste esforço. Ele mostra que Jesus veio realizar as profecias e que a Cruz era o caminho para a Glória. Não há outro caminho.
 
* Mateus 17,1-3: Jesus muda de aspecto. Jesus sobe a uma montanha alta. Lucas acrescenta que ele subiu para rezar (Lc 9,28). Lá em cima, Jesus aparece na glória diante de Pedro, Tiago e João. Junto com Jesus aparecem Moisés e Elias. A Montanha alta evoca o Monte Sinai, onde, no passado, Deus tinha manifestado sua vontade ao povo, entregando as tábuas da lei. As vestes brancas lembram Moisés que ficava fulgurante quando conversava com Deus na Montanha e dele recebia a lei (cf. Ex 34,29-35). Elias e Moisés, as duas maiores autoridades do Antigo Testamento, conversam com Jesus. Moisés representa a Lei, Elias, a profecia. Lucas informa que a conversa foi sobre o “êxodo” (a morte) de Jesus em Jerusalém (Lc 9,31). Assim fica claro que, o Antigo Testamento, tanto a Lei como os Profetas, já ensinava que, para o Messias, o caminho da glória tinha de passar pela cruz.
 
* Mateus 17,4: Pedro gostou, mas não entendeu. Pedro gostou e quis segurar o momento agradável na Montanha. Ele se oferece para construir três tendas. Marcos diz que Pedro estava com medo, sem saber o que estava dizendo (Mc 9,6), e Lucas acrescenta que os discípulos estavam com sono (Lc 9,32). Eles são como nós: têm dificuldade para entender a Cruz!
 
* Mateus 17,5-8:  A voz do céu esclarece os fatos. Enquanto Jesus é envolvido pela glória, uma voz do céu diz: "Este é o meu Filho amado, que muito me agrada. Escutem o que ele diz". A expressão “Filho amado” evoca a figura do Messias Servo, anunciado pelo profeta Isaías (cf. Is 42,1). A expressão “Escutem o que ele diz” evoca a profecia que prometia a chegada de um novo Moisés (cf. Dt 18,15). Em Jesus, as profecias do AT estão se realizando. Os discípulos já não podem duvidar. Jesus é realmente o Messias glorioso e o caminho para a glória passa pela cruz, conforme tinha sido anunciado na profecia do Messias Servo (Is 53,3-9). A glória da Transfiguração o comprova. Moisés e Elias o confirmam. O Pai o garante. Jesus o aceita. Diante de tudo que estava acontecendo os discípulos ficam com muito medo e caíram com o rosto por terra. Jesus se aproxima, toca neles e diz: "Levantem-se, e não tenham medo." Os discípulos levantam os olhos e vêem só Jesus e ninguém mais. Daqui para a frente, Jesus é a única revelação de Deus para nós! Jesus, e só ele, é a chave para podermos entender a Escritura e a Vida.
 
4. Mateus 17,9: Saber guardar o silêncio. Jesus pedia aos discípulos para não dizer nada a ninguém até que ele tivesse ressuscitado dos mortos. Marcos diz que eles não sabiam o que significava ressurreição dos mortos (Mc 9,10). De fato, não entende o significado da Cruz quem não liga o sofrimento com a ressurreição. A Cruz de Jesus é a prova de que a vida é mais forte que a morte. A compreensão plena do seguimento de Jesus não se obtém pela instrução teórica, mas sim pelo compromisso prático, caminhando com ele no caminho do serviço, desde a Galileia até Jerusalém.
 
Para um confronto pessoal
1. A sua fé em Jesus já proporcionou a você algum momento de transfiguração e de alegria intensa? Como estes momentos de alegria lhe dão força na hora das dificuldades?
2. Como transfigurar, hoje, tanto a vida pessoal e familiar, como a vida comunitária no nosso bairro?

Quarta-feira da 18ª semana do Tempo Comum

Dedicação da Basílica de Santa Maria Maior
 
1ª Leitura (Jer 31,1-7):
«Naquele tempo – diz o Senhor – serei o Deus de todas as tribos de Israel e elas serão o meu povo». Assim fala o Senhor: «O povo que escapou à espada foi favorecido no deserto: Israel vai chegar ao seu repouso». De longe o Senhor apareceu-lhe, dizendo: «Amei-te com amor eterno; por isso tive compaixão de ti. Hei-de edificar-te novamente e serás reconstruída, virgem de Israel. Voltarás a adornar-te com os teus tamborins, para tomar parte em danças festivas. De novo plantarás vinhas nos montes da Samaria e aqueles que as plantarem colherão os seus frutos. Porque virá um dia em que as sentinelas gritarão sobre os montes de Efraim: ‘Levantai-vos! Subamos a Sião, ao encontro do Senhor, nosso Deus’». Assim fala o Senhor: «Soltai brados de alegria por causa de Jacob, aclamai a primeira das nações. Fazei ouvir os vossos louvores e proclamai: ‘O Senhor salvou o seu povo, o resto de Israel’».
 
Salmo Responsorial: Jer 31
R. Como o pastor guarda o seu rebanho, assim nos guarda o Senhor.
 
Escutai, ó povos, a palavra do Senhor e anunciai-a às ilhas distantes: Aquele que dispersou Israel vai reuni-lo e guardá-lo como um pastor ao seu rebanho.
 
O Senhor resgatou Jacob e libertou-o das mãos do seu dominador. Regressarão com brados de alegria ao monte Sião, acorrendo às bênçãos do Senhor.
 
A virgem dançará alegremente, exultarão os jovens e os velhos. Converterei o seu luto em alegria e a sua dor será mudada em consolação e júbilo.
 
Aleluia. Apareceu entre nós um grande profeta: Deus visitou o seu povo. Aleluia.
 
Evangelho (Mt 15,21-28): Naquele tempo, Jesus foi para a região de Tiro e Sidônia. Uma mulher Cananéia, vinda daquela região, pôs-se a gritar: «Senhor, filho de Davi, tem compaixão de mim: minha filha é cruelmente atormentada por um demônio!». Ele não lhe respondeu palavra alguma. Seus discípulos aproximaram-se e lhe pediram: «Manda embora essa mulher, pois ela vem gritando atrás de nós». Ele tomou a palavra: «Eu fui enviado somente às ovelhas perdidas da casa de Israel». Mas a mulher veio prostrar-se diante de Jesus e começou a implorar: «Senhor, socorre-me!». Ele lhe disse: «Não fica bem tirar o pão dos filhos para jogá-lo aos cachorrinhos». Ela insistiu: «É verdade, Senhor; mas os cachorrinhos também comem as migalhas que caem da mesa de seus donos!». Diante disso, Jesus respondeu: «Mulher, grande é tua fé! Como queres, te seja feito!». E a partir daquela hora, sua filha ficou curada.
 
«Mulher, grande é tua fé»
 
Rev. D. Jordi CASTELLET i Sala (Vic, Barcelona, Espanha)

Hoje, frequentemente, escutamos expressões como já não existe mais fé!, e o dizem pessoas que pedem às nossas comunidades o batismo de seus filhos ou a catequese das crianças ou o sacramento do matrimônio. Essas palavras refletem uma visão negativa do mundo, mostra o convencimento de que em qualquer tempo passado as coisas eram melhores do que agora e que estamos no fim de uma etapa em que não há nada novo a dizer, nem tampouco nada de novo a fazer. Evidentemente são pessoas jovens que, em sua maioria, vêem com certa tristeza que o mundo mudou muito, desde o tempo de seus pais, que talvez vivessem uma fé mais popular, a qual eles não se souberam ajustar. Esta experiência os deixa insatisfeitos e sem capacidade de reação quando, na verdade, quem sabe, não estão às portas de uma nova etapa que deveriam aproveitar.
 
Esta passagem do Evangelho chama a nossa atenção para aquela mãe Cananéia que pede uma graça para sua filha, reconhecendo em Jesus o Filho de Davi: «Senhor, filho de Davi, tem compaixão de mim: minha filha é cruelmente atormentada por um demônio!» (Mt 15,22). O Mestre é surpreso: «Mulher, grande é tua fé!», e não pode fazer outra coisa senão atuar em favor daquelas pessoas: «Como queres, te seja feito!» (Mt 15,28), ainda que isto não pareça estar em seus planos. Apesar da realidade humana, a graça de Deus sempre se manifesta.
 
A fé não é patrimônio de uns quantos, nem tampouco é propriedade dos que se creem bons ou dos que o foram, ou de quem tem esta etiqueta social ou eclesial. A ação de Deus precede a ação da Igreja e, o Espírito Santo está atuando já em pessoas que não havíamos suspeitado que nos trouxessem uma mensagem de parte de Deus, uma solicitação em favor dos mais necessitados. Diz São Leão: «Amados meus, a virtude e a sabedoria da fé cristã são o amor a Deus e ao próximo: nada falta a nenhuma obrigação de piedade a quem procura dar culto a Deus e a ajudar a seu irmão».
 
Pensamentos para o Evangelho de hoje
«É certo que a verdade foge sempre das mentes que não são humildes» (Santo Agostinho)
 
«O Ser de Deus é o que há de mais verdadeiro: é o eterno, a origem e o fundamento de tudo. E Cristo é a imagem encarnada dessa Verdade» (Bento XVI)
 
«Muitíssimas vezes, nos evangelhos, aparecem pessoas que se dirigem a Jesus chamando-lhe «Senhor». Este título exprime o respeito e a confiança dos que se aproximam de Jesus (...) `É o Senhor!´ (Jo 21, 7)» (Catecismo da Igreja Católica, nº 448)
 
Que é a verdade?
 
Com base nos textos de Bento XVI
 
Hoje devemos aprender da atitude dessa mulher Cananéia, quer dizer, não judia: Prostra-se diante da Verdade. Que é a verdade? Expressado num tom despectivo, é o que escutou Jesus enquanto o julgavam injustamente. A Cananéia, porém, inclinou-se diante da Verdade não só fisicamente, senão também intelectualmente: “É verdade, Senhor” afirmou.
 
O Ser de Deus é o mais verdadeiro: É o eterno, a origem e o fundamento de tudo. E Cristo é a imagem encarnada dessa Verdade, o espelho no qual nós podemos contemplá-la. Jesus Cristo não disse “Eu sou o costume”, senão “Eu sou a Verdade” Cristo não sanciona simplesmente o costume: pelo contrário, Ele nos arranca dos costumes (“todos o fazem...", dizemos sempre). Ele deseja que os abandonemos e nos exige que procuremos a verdade, o que nos introduz na realidade do Criador, de nosso próprio ser.
 
—Senhor, contigo eu não discuto porque Tu és a Verdade e rindo-me diante de ti.
 
Reflexão
 
Contexto. O pão dos filhos e a grande fé de uma mulher cananéia é a questão apresentada por esta passagem do capítulo 15 de Mateus, que propõe ao leitor do seu Evangelho um posterior aprofundamento da fé em Cristo. O episódio é precedido por uma iniciativa dos escribas e fariseus chegados de Jerusalém, que causam um encontro de curta duração com Jesus, até que ele se afastou com os seus discípulos para se retirar à região de Tiro e Sidônia.

* Enquanto ia pelo caminho, é alcançado por uma mulher que vem de lugares pagãos. Mateus apresenta esta mulher com o nome de "cananéia", que aparece no Antigo Testamento com toda a sua dureza. No livro do Deuteronômio, os habitantes de Canaã são vistos como um povo cheio de pecado e por consequência um povo mau e idólatra.
 
Dinâmica da história. Enquanto Jesus desenvolvia sua atividade na Galileia e está a caminho de Tiro e de Sidônia, uma mulher se aproxima dele e começa a incomodá-lo com um pedido de ajuda para sua filha doente. A mulher aborda Jesus com o título de "filho de Davi", um título que soa estranho na boca de um pagão e poderia se justificar pela extrema necessidade em que vivia aquela mulher. Poderia se pensar que esta mulher já acreditava de alguma forma na pessoa de Jesus como o salvador final, mas se exclui visto que só no v. 28 aparece reconhecido seu ato de fé, precisamente por Jesus.
 
* No diálogo com a mulher, parece que Jesus mostra a mesma distância e desconfiança que existia entre o povo de Israel e os pagãos. Por um lado, Jesus manifesta à mulher a prioridade de Israel em relação à salvação, e diante do insistente pedido de sua interlocutora, Jesus parece tomar distância, uma atitude incompreensível para o leitor, mas na intenção de Jesus expressa um alto valor pedagógico. A primeira súplica "Tem misericórdia de mim, Senhor, Filho de Davi", Jesus não responde. À segunda intervenção, desta vez pelos discípulos que o convidam para atender a mulher, apenas expressa uma rejeição que sublinha a distância secular entre o povo escolhido e os povos pagãos (vv. 23b-24). Mas, devido a insistência da mulher que se prostra ante Jesus, segue uma resposta difícil e misteriosa: "Não convém jogar aos cachorrinhos o pão dos filhos" (v. 26). Ela vai além da dureza das palavras de Jesus e apega a um pequeno sinal de esperança: a mulher reconhece que o plano de Deus que Jesus realiza inicialmente afeta o povo escolhido e Jesus pede a observância deste prioridade; a mulher explora esta prioridade, a fim de apresentar um motivo forte para o milagre: “os cachorrinhos ao menos comem as migalhas que caem da mesa de seus donos” (v. 27). A mulher superou a prova de fé: "Ó mulher, grande é tua fé!" (v. 28); na verdade, à humilde insistência de sua fé, Jesus responde com um gesto de salvação.
 
* Este episódio dirige a todo leitor do Evangelho um convite para ter uma atitude de "abertura" para todos, crentes ou não, ou seja, disponibilidade e aceitação sem reserva para qualquer pessoa.
 
Para um confronto pessoal
1. A palavra Deus convida-o a romper seu fechamento e seus esquemas pequenos. Você é capaz de acolher todos os irmãos que vêm até você?
2. Você está ciente de sua pobreza para ser capaz, como a cananéia, de confiar na palavra salvadora de Jesus?

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Terça-feira da 18ª semana do Tempo Comum


São João Mª Vianney, presbítero
 
Primeira Leitura (Jr 30,1-2.12-15.18-22):
Palavra que foi dirigida a Jeremias, da parte do Senhor: “Isto diz o Senhor, Deus de Israel: Escreve para ti, num livro, todas as palavras que te falei. Isto diz o Senhor: Incurável é tua ferida, maligna tua chaga; não há quem conheça teu diagnóstico; uma úlcera tem remédio, mas em ti não se produz cicatrização. Todos os teus amigos te esqueceram, não te procuram mais; eu te causei uma ferida, como se fosses inimigo, como um castigo cruel: por causa do grande número de maldades que te fez endurecer no pecado. Por que gritas em teu sofrimento? É insanável a tua dor. Eu te tratei com rudeza por causa das tuas inúmeras maldades e por causa do teu endurecimento no pecado. Isto diz o Senhor: Eis que eu mudarei a sorte das tendas de Jacó e terei compaixão de suas moradias, a cidade ressurgirá das suas ruínas e a fortaleza terá lugar para suas fundações; de lá sairão cânticos de louvor e sons festivos. Hei de multiplicá-los, eles não diminuirão, hei de glorificá-los, eles não serão humilhados. Teus filhos serão felizes como outrora, e sua comunidade, estável na minha presença; e agirei contra todos os que os molestarem. Para chefe será escolhido um dos seus, e o soberano sairá do seu meio; eu o incitarei, e ele se aproximará de mim. Quem dará a vida em penhor da sua aproximação de mim? — diz o Senhor. Sereis meu povo e eu serei vosso Deus.
 
Responsório (Sl 101)
R. O Senhor olhou a terra do alto céu.
 
— O Senhor olhou a terra do alto céu.
 
— As nações respeitarão o vosso nome, e os reis de toda a terra, a vossa glória; quando o Senhor reconstruir Jerusalém e aparecer com gloriosa majestade, ele ouvirá a oração dos oprimidos e não desprezará a sua prece.
 
— Para as futuras gerações se escreva isto, e um povo novo a ser criado louve a Deus. Ele inclinou-se de seu templo nas alturas, e o Senhor olhou a terra do alto céu, para os gemidos dos cativos escutar e da morte libertar os condenados.
 
— Assim também a geração dos vossos servos terá casa e viverá em segurança, e ante vós se firmará sua descendência. Para que cantem o seu nome em Sião e louve ao Senhor Jerusalém, quando os povos e as nações se reunirem e todos os impérios o servirem.
 
Aleluia. Mestre, tu és o Filho de Deus, és Rei de Israel! Aleluia.
 
Evangelho (Mt 14,22-36): Depois que a multidão comera até saciar-se, Jesus mandou que os discípulos entrassem na barca e seguissem, à sua frente, para o outro lado do mar, enquanto ele despediria as multidões. Depois de despedi-las, Jesus subiu ao monte, para orar a sós. A noite chegou, e Jesus continuava ali, sozinho. A barca, porém, já longe da terra, era agitada pelas ondas, pois o vento era contrário. Pelas três horas da manhã, Jesus veio até os discípulos, andando sobre o mar. Quando os discípulos o avistaram, andando sobre o mar, ficaram apavorados, e disseram: “É um fantasma”. E gritaram de medo. Jesus, porém, logo lhes disse: “Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!” Então Pedro lhe disse: “Senhor, se és tu, manda-me ir a teu encontro, caminhando sobre a água”. E Jesus respondeu: “Vem!” Pedro desceu da barca e começou a andar sobre a água, em direção a Jesus. Mas, quando sentiu o vento, ficou com medo e, começando a afundar, gritou: “Senhor, salva-me!” Jesus logo estendeu a mão, segurou Pedro, e lhe disse: “Homem fraco na fé, por que duvidaste?” Assim que subiram na barca, o vento se acalmou. Os que estavam na barca, prostraram-se diante dele, dizendo: “Verdadeiramente, tu és o Filho de Deus!” Após a travessia desembarcaram em Genesaré. Os habitantes daquele lugar reconheceram Jesus e espalharam a notícia por toda a região. Então levaram a ele todos os doentes; e pediam que pudessem, ao menos, tocar a barra de sua veste. E todos os que a tocaram, ficaram curados.
 
Reflexão  
 
* O Evangelho de hoje descreve a difícil e cansativa travessia do mar da Galileia num barco frágil, balançado pelo vento contrário.
Entre o Sermão das Parábolas (Mt 13) e o da Comunidade (Mt 18), está, novamente, a parte narrativa (Mt 14 até 17). O Sermão das Parábolas chamava nossa atenção para a presença do Reino. Agora, a parte narrativa mostra como esta presença acontece provocando reações a favor e contra Jesus. Em Nazaré ele não foi aceito (Mt 13,53-58) e o rei Herodes pensava que Jesus fosse uma espécie de reencarnarão de João Batista, por ele assassinado (Mt 14,1-12). O povo pobre, porém, reconhecia em Jesus o enviado de Deus e o seguia no deserto, onde aconteceu a multiplicação dos pães (Mt 14,13-21). Depois da multiplicação dos pães, Jesus despede a multidão e manda os discípulos fazer a travessia, descrita no evangelho de hoje (Mt 14,22-36).
 
* Mateus 14,22-24: Iniciar a travessia a pedido de Jesus. Jesus forçou os discípulos a entrar no barco e ir para o outro lado do mar, onde ficava a terra dos pagãos. Ele mesmo sobe a montanha para rezar. O barco simboliza a comunidade. Ela tem a missão de dirigir-se aos pagãos e de anunciar também entre eles a Boa Nova do Reino que gera um novo jeito de conviver em comunidade. Mas a travessia é cansativa e demorada. A barca é agitada pelas ondas, pois o vento era contrário. Apesar de terem remado a noite toda, falta muito para chegar à terra. Faltava muito para as comunidades fazerem a travessia para os pagãos. Jesus não foi com os discípulos. Eles devem aprender a enfrentar juntos as dificuldades, unidos e fortalecidos pela fé em Jesus que os enviou. O contraste é grande: Jesus em paz junto de Deus rezando no alto da montanha, e os discípulos meio perdidos lá embaixo, no mar revolto.
 
* A travessia para o outro lado do lago simboliza também a difícil travessia das comunidades do fim do primeiro século. Elas deviam sair do mundo fechado da antiga observância da lei para o novo jeito de observar a Lei do amor, ensinado por Jesus; sair da consciência de pertencer ao povo eleito, privilegiado por Deus entre todos os povos, para a certeza de que em Cristo todos os povos estavam sendo fundidos num único Povo diante de Deus; sair do isolamento da intolerância para o mundo aberto do acolhimento e da gratuidade. Também nós hoje estamos numa travessia difícil para um novo tempo e uma nova maneira de ser igreja. Travessia difícil, mas necessária. Há momentos na vida em que o medo nos assalta. Boa vontade não falta, mas não basta. Somos como um barco que enfrenta o vento contrário.
 
* Mateus 14,25-27: Jesus se aproxima e eles não o reconhecem. Na quarta vigília, isto é, entre as horas três e seis da madrugada, Jesus foi ao encontro dos discípulos. Andando sobre as águas, chegou perto deles, mas eles não o reconheceram. Gritavam de medo, pensando que fosse um fantasma. Jesus os acalma dizendo: “Coragem! Sou eu! Não tenham medo!” A expressão "Sou Eu!" é a mesma com que Deus tentou superar o medo de Moisés quando o enviou para libertar o povo do Egito (Ex 3,14). Para as comunidades, tanto as de ontem como as de hoje, eram e é muito importante ouvir sempre de novo: "Coragem! Sou eu! Não tenham medo!"
 
* Mateus 14,28-31: Entusiasmo e fraqueza de Pedro. Sabendo que é Jesus, Pedro pede para poder andar sobre as águas. Quer experimentar o poder que domina a fúria do mar. Um poder que, na Bíblia, é exclusivo de Deus (Gn 1,6; Sl 104,6-9). Jesus permite que ele participe desse poder. Mas Pedro tem medo. Pensa que vai afundar e grita: "Senhor! Salva-me!" Jesus o segura e repreende: "Homem fraco na fé! Por que duvidou?" Pedro tem mais força do que ele imagina, mas tem medo diante das ondas contrárias e não acredita no poder de Deus que existe nele. As comunidades não acreditam na força do Espírito que existe dentro delas e que atua através da fé. É a força da ressurreição (Ef 1,19-20).
 
* Mateus 14,32-33: Jesus é o Filho de Deus. Diante da onda que avança sobre ele, Pedro afunda no mar por falta de fé. Depois que foi salvo, ele e Jesus, os dois, entram na barca e a ventania para. Os outros discípulos, que estavam na barca, ficam maravilhados e se ajoelham diante de Jesus, reconhecendo nele o Filho de Deus: "De fato, tu és o Filho de Deus". Mais tarde, Pedro também vai professar a mesma fé em Jesus: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo” (Mt 16,16). Assim, Mateus sugere que não é só Pedro que sustenta a fé dos discípulos, mas também é a fé dos discípulos, que sustenta a fé de Pedro.
 
* Mateus 14,34-36: Levaram a Jesus todos os doentes. O episódio da travessia termina com este final bonito: “Acabando de atravessar, desembarcaram em Genesaré. Os homens desse lugar, reconhecendo-os, espalharam a notícia por toda a região. Então levaram a Jesus todos os doentes, e pediram que pudessem ao menos tocar a barra da roupa dele. E todos os que tocaram, ficaram curados”.
 
Para um confronto pessoal
1. Um vento contrário assim já aconteceu na sua vida? Como fez para vencer? Já aconteceu alguma vez na comunidade? Como superaram?
2. Qual a travessia que hoje as comunidades estão fazendo? De onde para onde? Como tudo isto nos ajuda a reconhecer hoje a presença de Jesus nas ondas contrárias da vida?
 
Reflexão
 
O evangelho de hoje descreve a difícil e cansativa travessia pelo mar da Galileia em um barco frágil, empurrado pelo vento contrário. Entre o Sermão das Parábolas (Mt 13) e o da Comunidade (Mt 18), encontra-se, novamente, a parte narrativa (Mt 14 a 17). O Sermão das Parábolas chamava nossa atenção para a presença do Reino. Agora, a parte narrativa mostra como essa presença acontece provocando reações a favor e contra Jesus. Em Nazaré, ele não foi aceito (Mt 13,53-58) e o rei Herodes pensava que Jesus fosse uma espécie de reencarnação de João Batista, assassinado por ele (Mt 14,1-12). O povo pobre, no entanto, reconhecia em Jesus o enviado de Deus e o seguia pelo deserto, onde aconteceu a multiplicação dos pães (Mt 14,13-21). Depois da multiplicação dos pães, Jesus despede a multidão e manda os discípulos para fazer a travessia, descrita no evangelho de hoje (Mt 14,22-36).
 
Mateus 14,22-24: Iniciar a travessia a pedido de Jesus. Jesus obrigou os discípulos a subir na barca e ir para o outro lado do mar, onde estava a terra dos pagãos. Ele mesmo subiu ao monte para rezar. A barca simboliza a comunidade. Tem a missão de se dirigir aos pagãos e anunciar a eles também a Boa Nova do Reino, que dá vida a uma nova forma de conviver em comunidade. Mas a travessia é cansativa e demora. A barca é agitada pelas ondas, pois o vento é contrário. Apesar de estarem remando a noite toda, ainda falta muito para chegar à terra. Faltava muito para que as comunidades fizessem a travessia rumo aos pagãos. Jesus não foi com os discípulos. Eles precisavam aprender a enfrentar as dificuldades, unidos e fortalecidos pela fé em Jesus, que os enviou. O contraste é grande: Jesus em paz junto de Deus rezando lá no alto do monte, e os discípulos meio perdidos lá embaixo, no mar revolto.
 
A travessia para o outro lado do lago simboliza também a difícil travessia das comunidades do final do primeiro século. Elas precisavam sair do mundo fechado da antiga observância da lei, para o novo modo de observar a Lei do amor, ensinada por Jesus; sair da consciência de pertencer ao povo escolhido, privilegiado por Deus entre todos os povos, para a certeza de que em Cristo todos os povos estavam sendo fundidos em um único povo diante de Deus; sair do isolamento da intolerância para o mundo aberto da acolhida e da gratuidade. Também nós hoje estamos em uma travessia difícil para um novo tempo e uma nova maneira de ser igreja. Travessia difícil, mas necessária. Há momentos na vida em que o medo nos assalta. Não falta boa vontade, mas não basta. Somos como um barco que enfrenta o vento contrário.
 
Mateus 14,25-27: Jesus se aproxima e eles não o reconhecem. E na quarta vigília da noite, isto é, entre as três e as seis da madrugada, Jesus foi ao encontro deles discípulos. Andando sobre as águas, ele chega perto deles, mas eles não o reconhecem. Gritam de medo, pensando que fosse um fantasma. Jesus os acalma dizendo: “Ânimo! Sou eu! Não tenham medo!” A expressão «Sou eu!» é a mesma com a qual Deus tentou superar o medo de Moisés quando o enviou para libertar o povo do Egito (Ex 3,14). Para as comunidades, tanto as de ontem quanto as de hoje, eram e é muito importante ouvir de novo: «Ânimo! Sou eu! Não tenham medo!»
 
Mateus 14,28-31: Entusiasmo e fraqueza de Pedro. Sabendo que é Jesus, Pedro pede para poder caminhar sobre as águas. Ele quer experimentar o poder que domina a fúria do mar. Um poder que, na Bíblia, é exclusivo de Deus (Gn 1,6; Sl 104,6-9). Jesus permite que ele participe desse poder. Mas Pedro tem medo. Pensa que está afundando e grita: «Senhor! Salva-me!» Jesus o assegura e repreende: «Homem de pouca fé! Por que duvidaste?» Pedro tem mais força do que imagina, mas tem medo diante das ondas contrarias e não acredita no poder de Deus que existe nele. As comunidades não acreditam na força do Espírito que existe nelas, e que atua mediante a fé. É a força da ressurreição (Ef 1,19-20).
 
Mateus 14,32-33: Jesus é o Filho de Deus. Diante da onda que avançava sobre ele, Pedro afunda no mar por falta de fé. Depois de se salvar, ele e Jesus entram na barca e o vento amaina. Os outros discípulos, que estavam no barco, ficam maravilhados e se ajoelham diante de Jesus, reconhecendo nele o Filho de Deus: «Verdadeiramente és Filho de Deus». Mais tarde, Pedro também vai professar a mesma fé em Jesus: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo” (Mt 16,16). Assim, Mateus sugere que não é só Pedro quem sustenta a fé dos discípulos, mas que a fé dos discípulos sustenta a fé de Pedro.
 
Mateus 14,34-36: Apresentaram a ele todos os enfermos. O episódio da travessia termina com este final bem bonito: “Terminada a travessia, chegaram à terra em Genesaré. Os homens de aquele lugar, apenas o reconheceram, divulgaram a notícia por toda aquela região e apresentaram-lhe todos os doentes. Pediam que ao menos tocassem a beira de seu manto; e todos os que o tocaram ficaram curados”.
 
Para reflexão pessoal
• Na sua vida, já houve algum vento tão contrário assim? Como e o que você fez para vencê-lo? Já aconteceu alguma vez na comunidade? Como vocês superaram?
• Qual é a travessia que as comunidades estão fazendo hoje? De onde e para onde? Como tudo isso nos ajuda a reconhecer hoje a presença de Jesus nas ondas contrárias da vida?

sábado, 1 de agosto de 2026

Segunda-feira da 18ª semana do Tempo Comum

Bto. Pedro de Cesis, Bispo e 14º Prior General da nossa Ordem
 
1ª Leitura (Jer 28,1-17):
No quarto ano do reinado de Sedecias, rei de Judá, no quinto mês, Ananias, filho de Azur, profeta natural de Gabaon, falou deste modo a Jeremias no templo do Senhor, na presença dos sacerdotes e de todo o povo: «Assim fala o Senhor do Universo, Deus de Israel: ‘Vou quebrar o jugo do rei de Babilónia. Dentro de dois anos, farei voltar para este lugar todos os objetos do templo do Senhor, que o rei de Babilónia, Nabucodosor, tirou deste lugar e levou para Babilónia. Também farei regressar Jeconias, filho de Joaquim, rei de Judá, e todos os cativos de Judá que foram para Babilónia, – diz o Senhor – porque vou quebrar o jugo do rei de Babilónia’». Então o profeta Jeremias respondeu ao profeta Ananias, na presença dos sacerdotes e de todo o povo, que estavam no templo do Senhor: «Amén! O Senhor assim o faça. O Senhor realize as palavras que profetizaste, fazendo voltar de Babilónia para este lugar os objetos do templo do Senhor e todos os cativos. No entanto, escuta as palavras que vou dizer aos teus ouvidos e aos ouvidos de todo o povo: Os profetas de outrora, que existiram antes de mim e antes de ti, anunciaram para muitos países e reinos poderosos a guerra, a desgraça e a peste. Mas o profeta que anuncia a prosperidade só é reconhecido como verdadeiro enviado do Senhor quando se realiza o que ele profetizou». Então o profeta Ananias tirou o jugo do pescoço do profeta Jeremias e quebrou-o e disse na presença de todo o povo: «Assim fala o Senhor: ‘Deste modo, dentro de dois anos, Eu quebrarei o jugo de Nabuconosor, rei de Babilónia, tirando-o do pescoço de todas as nações’». E o profeta Jeremias foi-se embora. Depois de Ananias ter quebrado o jugo que estava no pescoço do profeta Jeremias, foi dirigida ao profeta Jeremias a palavra do Senhor: «Vai dizer a Ananias: Assim fala o Senhor: Tu quebraste um jugo de madeira, mas Eu farei em seu lugar um jugo de ferro. Porque assim fala o Senhor do Universo, Deus de Israel: Vou pôr um jugo de ferro no pescoço de todas as nações, para que sirvam Nabucodonosor, rei de Babilónia. Elas ficar-lhe-ão submissas e Eu vou entregar-lhe até os animais do campo». O profeta Jeremias disse ainda ao profeta Ananias: «Escuta, Ananias. O Senhor não te enviou e tu levas este povo a confiar em mentiras. Por isso, assim fala o Senhor: Vou expulsar-te da face da terra e morrerás ainda este ano, porque pregaste a revolta contra o Senhor». E o profeta Ananias morreu no sétimo mês desse ano.
 
Salmo Responsorial: 118
R. Ensinai-me, Senhor, os caminhos da vossa lei.
 
Afastai-me do caminho da mentira e dai-me a graça de cumprir a vossa lei. Não me tireis da boca a palavra da verdade, porque eu espero nos vossos juízos.
 
Voltem-se para mim os que Vos temem e conhecem as vossas ordens. Seja perfeito o meu coração em cumprir os vossos decretos, de modo que eu não seja confundido.
 
Os pecadores esforçam-se por me perder, mas eu medito nas vossas ordens. Não me tenho afastado dos vossos juízos, porque sois Vós quem me ensina.
 
Aleluia. Rabbi, tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel. Aleluia.
 
Evangelho (Mt 14,13-21): Naquele tempo, ao ser informado da morte de João, Jesus partiu dali e foi, de barco, para um lugar deserto, a sós. Quando as multidões o souberam, saíram das cidades e o seguiram a pé. Ao sair do barco, Jesus viu uma grande multidão. Encheu-se de compaixão por eles e curou os que estavam doentes. Ao entardecer, os discípulos aproximaram-se dele e disseram: «Este lugar é deserto e a hora já está adiantada. Despede as multidões, para que possam ir aos povoados comprar comida!». Jesus porém lhes disse: «Eles não precisam ir embora. Vós mesmos dai-lhes de comer!». Os discípulos responderam: «Só temos aqui cinco pães e dois peixes». Ele disse: «Trazei-os aqui». E mandou que as multidões se sentassem na relva. Então, tomou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos para o céu e pronunciou a bênção, partiu os pães e os deu aos discípulos; e os discípulos os distribuíram às multidões. Todos comeram e ficaram saciados, e dos pedaços que sobraram recolheram ainda doze cestos cheios. Os que comeram foram mais ou menos cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças.
 
«Ergueu os olhos para o céu...»
 
Rev. D. Xavier ROMERO i Galdeano (Cervera, Lleida, Espanha)
 
Hoje, o Evangelho toca nossos "esquemas mentais"... Por isso, hoje, como nos tempos de Jesus, podem surgir as vozes dos prudentes para sopesar se vale a pena determinado assunto. Os discípulos, ao ver que se fazia tarde e, como não sabiam como atender àquelas pessoas reunidas em torno de Jesus, encontraram uma saída honrosa: «Que possam ir aos povoados comprar comida!» (Mt 14,15). Não podiam esperar que seu Mestre e Senhor contrariasse esse raciocínio, aparentemente tão prudente, dizendo-lhes: «Vós mesmos dai-lhes de comer!» (Mt 14,16).
 
Um ditado popular diz: «Aquele que deixa Deus fora de suas contas, não sabe contar». E é verdade, os discípulos —e nós também— não sabemos contar, porque nos esquecemos frequentemente, de acrescentar o elemento de maior importância na soma: Deus mesmo entre nós.
 
Os discípulos fizeram bem as contas; contaram com exatidão o número de pães e peixes, mas ao dividi-los mentalmente entre tanta gente, eles obtinham sempre um zero periódico; por isso optaram pelo realismo prudente: «Só temos aqui cinco pães e dois peixes» (Mt 14,17). Não percebem que eles têm a Jesus —verdadeiro Deus e verdadeiro homem— entre eles!
 
Parafraseando a São Josemaria, não nos seria mal recordar aqui que: «os empreendimentos de apostolado, está certo —é um dever— que consideres os teus meios terrenos (2 + 2 = 4). Mas não esqueças nunca! Que tens de contar, felizmente, com outra parcela: Deus + 2 + 2...». O otimismo cristão não é baseado na ausência de dificuldades, de resistências e de erros pessoais, mas em Deus que nos diz: «Eis que estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos» (Mt 28,20).
 
Seria bom se você e eu, quando confrontados com as dificuldades, antes de darmos uma sentença de morte à ousadia e ao otimismo do espírito cristão, contássemos com Deus. Tomara que possamos dizer como São Francisco, naquela oração genial: «Onde houver ódio que eu leve o amor», isto é, onde as contas não baterem, que contemos com Deus.
 
Pensamentos para o Evangelho de hoje
«Possivelmente não nos encontremos em situação de dar muito, mas sempre podemos dar a alegria que brota dum coração que ama a Deus» (Santa Teresa de Calcutá)
 
«Esses poucos pães e peixes, partilhados e abençoados por Deus, foram suficientes para todos. E atenção! Não é magia, mas é um 'sinal': um sinal que convida a ter fé em Deus, Padre providente» (Francisco)
 
«A sagrada Comunhão do corpo e sangue de Cristo aumenta a união do comungante com o Senhor, perdoa-lhe os pecados veniais e preserva-o dos pecados graves. E uma vez que os laços da caridade entre o comungante e Cristo são reforçados, a recepção deste sacramento reforça a unidade da Igreja, corpo Místico de Cristo» (Catecismo da Igreja Católica, nº 1.416)

Reflexão
 
• O capítulo 14 de Mateus, que inclui a história da multiplicação dos pães, propõe um itinerário que leva o leitor à descoberta progressiva da fé em Jesus: desde a falta de fé dos conterrâneos de Jesus até o reconhecimento do Filho de Deus passando pelo dom do pão. Os concidadãos de Jesus estão surpreendidos com a sua sabedoria, mas não compreendem que ele age através de suas obras. Tendo até mesmo um conhecimento direto da família de Jesus, de sua mãe, irmãos e irmãs, não conseguem aceitar a Jesus, a não ser apenas sua condição humana: é o filho do carpinteiro. Incompreendido em sua terra natal, a partir de agora Jesus viverá entre o povo ao qual dedicará toda a sua atenção e solidariedade, curando e alimentando as multidões.
 
Dinâmica da narrativa. Mateus narra acuradamente o episódio da multiplicação dos pães. O episódio está narrado entre duas expressões de transição nas quais se diz que Jesus se retira "à parte" das multidões, dos discípulos e da barca (vv.13-14; vv.22-23). O versículo 13 não só serve como uma transição, mas também fornece o motivo pelo qual Jesus está em um lugar deserto. Esta estratégia serve para especificar o ambiente em que ocorre o milagre. O evangelista enfoca a história na multidão e na atitude de Jesus a respeito da mesma.
 
Jesus se comove em seu interior. No momento em que chega, Jesus encontra uma multidão que o espera; ao ver as multidões se comove e cura os seus doentes. É uma multidão "cansada e abatida como ovelhas sem pastor" (9,36; 20,34) O verbo que expressa a compaixão de Jesus é verdadeiramente expressivo: a Jesus "se lhe despedaça o coração", corresponde ao verbo hebraico que expressa amor visceral da mãe. É o mesmo sentimento que tinha Jesus diante do túmulo de Lázaro (Jo 11,38). Compaixão é o aspecto subjetivo da experiência de Jesus, que se faz efetiva com o dom do pão.
 
O dom do pão. O relato da multiplicação dos pães se abre com uma expressão: "Caía a tarde" (v.15), que também introduz o relato da Última Ceia (Mt 26,20) e do sepultamento de Jesus (Mt 27,57 ). À tarde, então, Jesus convida os apóstolos para alimentar a multidão, em meio ao deserto longe de vilas e cidades. Jesus e os discípulos estão diante de um problema humano muito forte: alimentar a grande multidão que segue Jesus. Mas eles não conseguem suprir as necessidades materiais da multidão, sem o poder de Jesus. A resposta imediata dos discípulos é mandá-los para casa. Diante dos limites humanos, Jesus intervém e realiza o milagre saciando a todos os que o seguem. Dar de comer é aqui a resposta de Jesus, de seu coração que se faz em pedaços diante de uma necessidade humana muito específica. O dom do pão não é apenas suficiente para satisfazer a multidão, mas é tão abundante que se deve recolher as sobras. No v. 19b parece que Mateus deu um significado eucarístico ao episódio da multiplicação dos pães: "elevando os olhos ao céu, abençoou-os. Partindo em seguida os pães, deu-os aos seus discípulos," o papel da discípulos também fica muito evidente na função de mediação entre Jesus e a multidão: "os discípulos distribuíram ao povo" (v. 19c). Os gestos que acompanham o milagre são idênticos aos que Jesus adotará mais tarde na "noite em que foi entregue": levanta os olhos, abençoa o pão e o parte. Disto se deduz o valor simbólico do milagre: pode se considerar uma antecipação da Eucaristia. Além disso, alimentar a multidão por parte de Jesus é um "sinal" de que ele é o Messias e de que prepara um banquete de festa para toda a humanidade. De Jesus, que distribuiu os pães, os discípulos aprendem o valor da partilha. É um gesto simbólico que contém um fato real que vai além do episódio mesmo e se projeta para o futuro: o dom da nossa Eucaristia diária, em que revivemos aquele gesto do pão partido, é necessário que seja reiterado ao longo do jornada.
 
Para um confronto pessoal
1. Você se esforça para fazer gestos de solidariedade com aqueles que estão perto de você partilhando o caminho da vida? Diante dos problemas concretos de seus amigos ou parentes, você sabe oferecer sua ajuda e tua disponibilidade de colaborar para encontrar maneiras de resolver?
2. Jesus, antes de partir o pão, levanta os olhos para o céu, você sabe agradecer ao Senhor pelo dom pão diário? Você sabe compartilhar seus bens com os outros, especialmente com os pobres?

3 de agosto.

Beato Pedro de Cesis (ou de Casa)
Bispo e 14º Prior General da nossa Ordem 

Nasceu em Limoges, França, na nobre família dos Cesis. Antes dos 20 anos tomou o hábito carmelita em Limoges, onde se destacou por ser um noviço fervoroso. Sendo professo, foi o enviado à Universidade de Paris, e ali se doutorou em Teologia. Em 1324 participou no Capítulo Geral de Barcelona, onde foi eleito Provincial de Aquitânia (1324-1330), zelando pela extensão e observância da Ordem. Foi Geral durante 11 anos (1330-1341), nos quais promoveu a disciplina, o culto mariano e a formação reta dos noviços. Foi o Geral sob o qual viveram São Pedro Tomás e Santo André Corsini. Em 1341, apenas deixou o Generalato, o papa Bento XII o nomeou bispo de Vasion. Clemente VI o nomeou Patriarca Latino de Jerusalém, ao mesmo tempo que administrava sua sede de Vasion. Faleceu em 3 de agosto de 1348.
 
Salmodia, Leitura, Responsório breve e preces do dia corrente.
 
Oração
Senhor, que destes ao Beato Pedro de Cesis, a graça de imitar fielmente a Cristo pobre e humilde, e o fizestes resplandecer pela sua caridade ardente e pela fé que vence o mundo, concedei, por sua intercessão, que também nós, perseverando na fé e na caridade e vivendo plenamente a nossa vocação, caminhemos para a santidade perfeita, à imagem de Jesus Cristo, vosso Filho, Ele que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

sexta-feira, 31 de julho de 2026

XVIII Domingo do Tempo Comum

Sta. Maria, Rainha dos Anjos
Santo Eusébio, bispo de Vercelas,
São Pedro Julião Eymard, presbítero
 
1ª Leitura (Is 55,1-3):
Eis o que diz o Senhor: «Todos vós que tendes sede, vinde à nascente das águas. Vós que não tendes dinheiro, vinde, comprai e comei. Vinde e comprai, sem dinheiro e sem despesa, vinho e leite. Porque gastais o vosso dinheiro naquilo que não alimenta e o vosso trabalho naquilo que não sacia? Ouvi-Me com atenção e comereis o que é bom; saboreareis manjares suculentos. Prestai-Me ouvidos e vinde a Mim; escutai-Me e vivereis. Firmarei convosco uma aliança eterna, com as graças prometidas a David.
 
Salmo Responsorial: 144
R. Abris, Senhor, as vossas mãos e saciais a nossa fome.
 
O Senhor é clemente e compassivo, paciente e cheio de bondade. O Senhor é bom para com todos e a sua misericórdia se estende a todas as criaturas.
 
Todos têm os olhos postos em Vós e a seu tempo lhes dais o alimento. Abris as vossas mãos e todos saciais generosamente.
 
O Senhor é justo em todos os seus caminhos e perfeito em todas as suas obras. O Senhor está perto de quantos O invocam, de quantos O invocam em verdade.
 
2ª Leitura (Rom 8,35.37-39): Irmãos: Quem poderá separar-nos do amor de Cristo? A tribulação, a angústia, a perseguição, a fome, a nudez, o perigo ou a espada? Mas em tudo isto somos vencedores, graças Àquele que nos amou. Na verdade, eu estou certo de que nem a morte nem a vida, nem os Anjos nem os Principados, nem o presente nem o futuro, nem as Potestades nem a altura nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que se manifestou em Cristo Jesus, Nosso Senhor.
 
Aleluia. Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus. Aleluia.
 
Evangelho (Mt 14,13-21): Ao ser informado da morte de João, Jesus partiu dali e foi, de barco, para um lugar deserto, a sós. Quando as multidões o souberam, saíram das cidades e o seguiram a pé. Ao sair do barco, Jesus viu uma grande multidão. Encheu-se de compaixão por eles e curou os que estavam doentes. Ao entardecer, os discípulos aproximaram-se dele e disseram: «Este lugar é deserto e a hora já está adiantada. Despede as multidões, para que possam ir aos povoados comprar comida!». Jesus porém lhes disse: «Eles não precisam ir embora. Vós mesmos dai-lhes de comer!». Os discípulos responderam: «Só temos aqui cinco pães e dois peixes». Ele disse: «Trazei-os aqui». E mandou que as multidões se sentassem na relva. Então, tomou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos para o céu e pronunciou a bênção, partiu os pães e os deu aos discípulos; e os discípulos os distribuíram às multidões. Todos comeram e ficaram saciados, e dos pedaços que sobraram recolheram ainda doze cestos cheios. Os que comeram foram mais ou menos cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças.
 
«Trazei-os aqui»
 
Fr. Roger J. LANDRY (Hyannis, Massachusetts, Estados Unidos)
 
Hoje, Jesus nos mostra o muito que deseja envolver-nos no seu trabalho de redenção. Ele, que tem criado o céu e a terra do nada, tivesse podido —da mesma maneira— ter facilmente criado um abundante banquete para saciar aquela multidão.
 
Mas preferiu fazer o milagre partindo do único que os seus discípulos podiam entregar-lhe. «Só temos aqui cinco pães e dois peixes» (Mt 14,17), disseram-lhe. «Trazei-os aqui» (Mt 14,18), respondeu-lhes Jesus. E o Senhor levou a cabo a multiplicação de tão escasso recurso —nem suficiente para alimentar a uma família normal— para dar de comer a umas 5000 famílias.
 
O Senhor procedeu da mesma maneira no festim das bodas de Canaã. Ele, que criou todos os mares, podia facilmente ter enchido do melhor vinho aquelas vasilhas de mais de 100 litros, partindo de zero. Mas, novamente, preferiu abarcar suas criaturas no milagre, fazendo que, primeiro, enchessem os recipientes de água.
 
E, o mesmo princípio, podemos contemplá-lo na celebração da Eucaristia. Jesus começa não do nada, nem também não de cereais ou de uvas, senão do pão e do vinho, que contém em si o trabalho das mãos humanas.
 
O defunto Cardeal Francisco Javier Nguyen van Thuan, prisioneiro dos comunistas vietnamitas desde 1975 até 1988, preguntava-se como poderia favorecer o Reino de Cristo e preocupar-se de seu rebanho enquanto tentava sobrepor-se ao brutal sofrimento de sua solitária reclusão. E, percebendo o pouco que podia fazer desde a cela da cadeia, pensou que, ao menos, cada dia, podia oferecer ao Senhor seus “cinco pães e dois peixes” e deixar que Deus fizesse o resto. E o Senhor multiplicou aqueles pequenos esforços convertendo-os numa testemunha que tem inspirado não só os vietnamitas, mas também a Igreja toda.
 
Hoje, o Senhor pede-nos, seus modernos discípulos, que “demos às multidões algo de comer” (cf. Mt 14,16). Não importa quanto tenhamos se muito ou pouco: demo-lo ao Senhor e deixemos que Ele continue a partir daí.
 
Tomou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos ao Céu, pronunciou a bênção, partiu os pães, deu-os aos discípulos e os discípulos às multidões.
 
Fr. Pedro Bravo, O.Carm.
 
* v. 13. Quando Jesus ouviu dizer que João Baptista tinha sido morto, retirou-se dali num barco para um lugar deserto, à parte. Tendo-o ouvido, as multidões, vindas das cidades, seguiram-no a pé.
O episódio de hoje, a multiplicação dos pães, é o único milagre de Jesus narra­do por todos os Evangelhos. Tanto Marcos como Mateus referem uma segunda multiplicação de pães (15,32-39p). Em Mateus, o episódio insere-se na quarta parte do seu Evangelho, “A Igreja, primícias do Reino dos Céus” (13,53-18,35), dependendo ele, neste relato, de Mc, que resume.
 
* No “discurso das parábolas” (13,1-52) Jesus tinha apresentado o mistério do Reino dos céus em parábolas. Agora pergunta-se: como é que os interlocutores de Jesus reagiram? A respos­ta é dada nesta secção narra­tiva (13,53-17,27). Nela, em geral, a comunidade judaica vai respondendo de forma cada vez mais negativa à mensagem de Jesus. Jesus volta-se então para os seus discípulos, a cuja formação se dedica.
 
* No início da sua vida pública, ao ouvir que João Batista tinha sido preso, Jesus “retirou-se” para a Galileia (4,12p); agora, quando o informam que João tinha sido decapitado por ordem de Herodes Antipas I (v. 12), Jesus “retira-se” (gr. anakhoréo, “afastar-se”, no sentido de “fugir”, “pôr-se a salvo”: Ex 2,15; Nm 16,24; Js 8,15; 1Sm 19,10; 25,10; 2Sm 4,4) “dali”: de sua casa (13,36), em Cafarnaum. “Num barco” (vv. 22.24.29.32s; 13,2), ou seja, por mar. O “barco”, nos Evangelhos (40x) é uma cifra da missão da Igreja.
 
* “Para um lugar deserto”: não no sentido de árido (cf. v. 19: o lugar está coberto de erva), mas no sentido semítico de “não habitado”. “À parte”: Jesus queria que os seus discípulos descansassem um pouco, longe das multidões (Mc 6,31). Por isso, vão “de barco”, por mar, para evitar serem seguidos por elas, para um lugar onde ninguém os incomodasse. Esse lugar é tradicionalmente identificado com o local onde foi construída a Igreja da multiplicação dos pães e dos peixes, em Tabgha, ao pé de Cafarnaum.
 
* O termo “deserto”, aqui usado, tem um significado especial. O “deserto” é, no AT, o lugar do encontro e do noivado de Deus com o seu povo, do Seu cuidado e desvelo para ele (cf. Os 2,16; 11,1-4; Jr 2,2; Dt 1,31; 2,7). O termo destina-se a evocar, o dom do maná a Israel, libertado do Egito, durante os quarenta anos que ele peregrinou no deserto.
 
* “As multidões”: o plural é típico de Mateus (24x), que nelas vê não só o grande número de pessoas de todo o género que procede de toda a parte de Israel, mas também aqueles dentre os gentios (cf. Nm 20,20) que acorrem a Jesus, prefigurando a futura Igreja, provinda de gentes de todos os povos, línguas e nações (cf. Ez 23,24 LXX; Dn 3,4).
 
* O povo viu que Jesus ia de barco com os discípulos para outro porto e logo percebeu logo para onde se dirigia. Vai então atrás dele, correndo por terra e chega lá antes de Jesus descer para terra firme. Ao repetindo o verbo “ouvir” do início da frase, que tem por sujeito Jesus, Mateus diz que ao “ouvir”, neste caso, a notícia que Jesus tinha saído dali, de barco, com os discípulos, “as multidões seguiram” (Mt, 7x: 4,25; 8,1; 12,15; 19,2; 20,29, 21,9) Jesus por terra. Ambos os verbos, “ouvir” e “seguir”, são termos do discipulado. Através das multidões que “escutam” Jesus e o “seguem”, Mt alude às futuras comunidades eclesiais.
 
v.14. Ao desembarcar, Jesus viu uma numerosa multidão, encheu-se de com­paixão dela e curou os seus enfermos. Ao “desembarcar” (lit: “sair do barco”: vv. 54s), Jesus “vê” (gr. eíden, Mt, 10x): o verbo “ver” está no mesmo tempo em que é aplicado a Deus no relato da criação e no episódio da sarça ardente (Gn 1, 8x; Ex 3,4; cf. Dt 2,6; Is 30,19; Nm 24,,4). “Uma numerosa multidão” (gr. oklós polýs): neste caso, a expressão, no singular, refere-se ao número de pessoas (cf. v. 21; 2Cr 20,15; Jr 31,8). O adjetivo “muito” (gr. polýs) evoca o êxodo no qual uma “multidão” composta de numerosas pessoas também partiu com Moisés e Israel do Egito (Ex 12,38). Jesus é o novo Moisés que conduz o novo êxodo do novo povo de Deus, a quem alimenta com o novo pão do céu (cf. 6,11).
 
* “E encheu-se de compaixão dela”:
o verbo (gr. splankhnízomai: 9,36; 15,32p) só é utilizado no NT, referido quase só a Deus, a Jesus e a pessoas com os seus senti­mentos. Indica uma comoção interna, visceral, que enche alguém de profunda compaixão e se traduz numa obra de misericórdia. Jesus não vê apenas uma mole de gente, anónima, mas vê cada um dos rostos e através deles cada uma das pessoas, com a sua história individual e familiar, os seus problemas e necessidades, os seus anseios e dores, as suas lutas e reveses, as suas dores e enfermidades, os seus sofrimentos e deplorável situação.
 
* Ao ver estas pessoas, Jesus enche-se de compaixão, a qual se traduz em gestos: “e curou” (gr. therapeýo, Mt, 16x: 4,24; 8,16; 12,15; 15,30; 19,2; 21,14), “os seus enfermos”, ou seja, não apenas os doentes, mas também os débeis (gr. árrostos, “sem forças”, “enfermo”, lat. infirmus, “não firme”: Mc 6,13; 16,18; cf. 1Sm 2,4; Ez 34,4; Sr 7,35; 1Cor 11,30).
 
* v. 15. Ao cair da tarde, os discípulos aproximaram-se dele, dizendo: «O lugar é deserto e a hora avançada. Manda embora as multidões, para que vão às aldeias comprar alimento para si». Começa agora uma nova ação no episódio. “Ao cair da tarde”: a expressão remete diretamente para a Última Ceia, na qual Jesus instituiu a Eucaristia, onde é repetida (26,26). O dia está a terminar, e “os discípulos aproximam-se” de Jesus, uma expressão retirada do versículo paralelo Mc 6,35, que só aparece em Mt e por ele é usada repetidas vezes (11x). Eles lembram a Jesus que o lugar é deserto e o dia se aproxima do fim, não tendo “as multidões” alimento, devendo por isso ser despedidas para que possam ir “comprar alimento para si” (cf. Gn 42,7; 43,4.22.25; Dt 2,6). É uma velada alusão a Is 55,1 (“Todos vós, os que tendes sede, vinde às águas; e vós, os que não tendes dinheiro, vinde, comprai e comei; sim, vinde e comprai, sem dinheiro e sem preço”) que prepara a ação seguinte.
 
* v. 16. Mas Jesus disse-lhes: «Não precisam de ir; dai-lhes vós de comer». Jesus, porém, não quer separar-se da multidão e diz aos seus discípulos: “Não precisam de ir”, ou seja, “de partir” (gr. apérkhomai: Gn 42,26.33; 45,17). E explica: “dai-lhes vós de comer”. Jesus desafia-os a partilhar o que têm com os que não têm de comer, um desafio que também se encontra no episódio do AT que serve de referência a este: a multiplicação de pães por Eliseu, alimentando cem pessoas com o que lhe tinha sido dado (2Rs 4,42s).
 
v. 17. Eles, porém, dizem-lhe: «Não temos aqui senão cinco pães e dois peixes». Os discípulos fazem a listagem dos bens disponíveis e dizem que eles (Jesus incluído), só têm “cinco pães” (16,9) “e dois peixes”. A soma de ambos dá sete. Sete simboliza a plenitude: os discípulos dão tudo o que têm. Sete é também o número de nações gentias que habitavam Canaã e foram expulsas para Israel dela tomasse posse, segundo a promessa de Deus a Abraão (Dt 7,1; At 13,19). Os pães eram o que eles tinham levado consigo para comer durante a viagem (cf. Mc 6,8); já os peixes não seriam peixes crus, tal como tinham sido pescados, mas muito provavelmente peixe assado ou então, como era comum, peixe seco, habitualmente usado como provisão.
 
* O peixe era para os primeiros cristãos o símbolo de Jesus Cristo, porque peixe em grego se diz ichthys, o acróstico cristão que significa “Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador”. Os peixes são dois, pois “dois” é o número que designa o homem, neste caso a nova humanidade regenerada pela palavra de Cristo e o batismo (cf. 1Pd 1,23; Tt 3,5). Aquele que se alimenta da Eucaristia é transformado em Cristo, devendo reproduzir aquele que comungou, tornou-se outro Cristo.
 
* v. 18. Disse-lhes Ele: «Trazei-mos cá». Jesus manifesta a sua autoridade e ordena aos discípulos que lhe tragam o que têm; eles fazem-no.
 
* v. 19. E depois de ter ordenado às multidões que se reclinassem sobre a erva, tomou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos ao Céu, pronunciou a bênção, partiu os pães, deu-os aos discípulos e os discípulos às multidões. Jesus mandou então ao povo que se “reclinasse sobre a erva”. As pessoas comiam habitualmente sentadas na terra (15,35). “Reclinar-se” para comer só acontecia nos banquetes, em que as pessoas comiam reclinados em poltronas, voltadas para a mesa, à boa maneira romana.
 
* O banquete era para os judeus o lugar do encontro, da fraternidade e da amizade, onde os convivas estabeleciam laços de família e comunhão. Reclinar-se à mesa com alguém significava estabelecer laços profundos, íntimos, familiares, com ele. Por isso, o “banquete” é, para Jesus, o símbolo por excelência do mundo novo que há de vir, o Reino dos céus, no qual todos os homens se sentarão à mesa de Deus como membros do seu povo (8,11; 22,1-14).
 
* A presente nota é uma alusão à ceia pascal judaica, em que os convivas comem reclinados à mesa, apoiados sobre um cotovelo, indicando desta forma que são pessoas livres (cf. Jo 13,12.25; 21,20; Lc 22,27), pois o escravo e os servos permaneciam de pé numa refeição. Jesus inaugura uma nova Páscoa. A nota de haver erva no local evoca o Sl 23,2 e Ez 34,13s, apresentando Jesus como o Messias, o Bom Pastor do Povo de Deus (10,7s).
 
* Jesus toma os “cinco pães e os dois peixes” e faz os mesmos gestos que irá repetir na Última Ceia, a ceia pascal em que instituirá a Eucaristia. Jesus começa por “erguer os olhos ao céu” (Mc 7,34; Jo 11,41), em oração (Sl 123,1). Depois:
 
1)pronunciou a bênção” (gr. eulogéo: “bendizer”), o primeiro momento duma refeição e também da ceia eucarística (26,26). Todas as refeições começavam com a bênção do pão (bBer 35a; 46a; mBer 6,1.6-7; 7,1; 8,7). A “bênção” é uma fórmula de ação de graças com que se agradece a Deus pelos seus dons. Isso significa reconhecer que aquilo que se possui é um dom de Deus. Dado por Ele a quem? A uma só pessoa ou família? Sendo Deus Pai de todos, cuidando Ele de todos e amando a todos da mesma forma, “bendizer” significa reconhecer que determinado dom veio de Deus e que, por isso, pertence a todos os seus filhos. Aquele que recebeu esse dom não é seu dono, é apenas um adminis­trador a quem Deus o confiou, para que o cultive e ponha ao serviço dos outros com a mesma gratuidade com que o recebeu. Os bens postos à disposição de cada um são dons do Pai, destinados a serem colocados ao serviço de todos. Por isso, se reza no Pai-nosso: “O pão nosso”.
 
2)Partiu os pães”: a “fração do pão” é o gesto pascal eucarístico por excelência feito sobre o pão do meio (26,26; 1Cor 10,16). Em Lucas designa a Eucaristia (Lc 24,30.35; 9,16; At 2,46; 20,11).
 
3)E deu-os aos discípulos” (26,26; Mc 14,22; Lc 22,19; 24,30; cf. At 27,35).
 
* “E os discípulos [deram-nos] às multidões”: uma vez que a multiplicação dos pães é uma prefiguração da Eucaristia, não é Jesus quem dá o pão repartido às multidões, mas os apóstolos, pois foi a eles que Jesus confiou a Euca­ristia. Mateus vinca de tal modo o paralelo entre a multiplicação dos pães e a Eucaristia, que, ao invés de Mc 6,41.43, não volta a falar nos peixes.
 
* v. 20. Todos comeram e ficaram saciados. E dos pedaços que sobraram recolheram doze cestos cheios. “Todos comeram e ficaram saciados” (Sl 132,15; 107,9; cf. 5,6): é uma alusão ao maná (Ex 16,8.12; Nm 11,7-9.31s; Sl 78,25). Segundo a apoca­líptica judaica, o maná deveria cair novamente do alto do céu no tempo do Messias, devendo reinar então grande abundância: “Naquele tempo … o Messias começará a sua revelação….Do alto cairá de novo grande quantidade de maná; dele comerão eles naqueles anos, por terem participado do final dos tempos” (2Apoc.Bar. 29,3.8).
 
* “Dos pedaços que sobraram” alude à multiplicação dos pães por Eliseu (2Rs 4,43-44). No Êxodo, não se devia conservar o maná até ao dia seguinte (Ex 16,19), exceto à sexta-feira, para se guardar o “descanso” sabático (gr. anápausis: Ex 16,22ss; Sl 22,2). Na Eucaristia Jesus introduz os seus discípulos, o novo Povo de Deus, no seu descanso, fazendo-os participar no banquete do Reino dos céus (cf. Ex 24,10ss; Ap 19,9).
 
* “Doze cestos”. “Doze” é o número das tribos de Israel que formam o povo de Deus (19,28; Gn 49,28; Ex 24,9): a Eucaristia é alimento do novo povo de Deus. Os “cestos” (he. dud; gr. kóphinos) eram portáteis, de tamanho médio, com cerca de 38 cm alto, feitos de fibras vegetais flexíveis, sendo mais largos no fundo do que nas bordas. Serviam sobretudo para transportar alimentos (Jz 6,19). Eram bem menores do que o spyrís, o “cesto” ou alcofa (15,37; 16,10; Mc 8,8.20; At 9,25), que servia para transportar grandes quantidades de provisões ou mercadorias pessoas. O milagre foi da multiplicação dos pães, não dos cestos. Isto indica que as pessoas tinham levado consigo cestos com man­timentos. Mas ninguém queria mostrar o que trazia. Ao ver Jesus repartir o que possuía, começaram também a partilhar uns com os outros o que traziam. A multiplicação dos pães foi simultaneamente um milagre de par­tilha e de multiplicação dos pães. Tal como a Eucaristia, que é um milagre de partilha, que dela nasce e a ela leva (cf. 1Cor 16,2; 9,5-15; At 2,44-47; 4,34s).
 
* Os primeiros cristãos celebravam a Eucaristia todas as semanas, sábado à noite, quando começava o primeiro dia da semana (At 20,7; 1Cor 16,2). Levavam consigo o que tinham poupado ao longo da semana no jejum (jejuavam dois dias por semana: Lc 18,12; Did. 8,1), e entregavam-no ao bispo, que o distribuía aos necessitados através dos diáconos (cf. Did. 4,5-8). Na celebração eucarística, além do pão maior que se consa­grava e partia, para dele todos comun­garem (1Cor 10,17), consagra­vam-se também os pães menores que cada um trazia consigo, de casa, para a Eucaristia. Estes, uma vez consagrados com o pão grande, eram entregues no final a cada família, que levava um para casa (7,6), envolto num pano (o corporal), guardando-o depois num lugar reservado da casa (“o segredo”: 6,6), para aí, nesse lugar, toda a família se reunir ao longo da semana, junto ao Corpo do Senhor, para orar e dele cada dia comungar (cf. At 2,42.46; Cat. Rom. 466.1183), como se pede no Pai nosso: “o pão nosso sobre-essencial (gr. epioúsios) nos dai hoje (gr. sêmeron)” (6,11).
 
* v. 21. Ora, os que comeram eram cerca de cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças. Mateus conclui informando que “os que comeram eram cerca de 5.000 homens” o que, segundo a maneira de contar de então, em que se mencionavam apenas os varões (Ex 12,37), “sem contar mulheres e crianças”, deveria equivaler a cerca de 20.000 pessoas.
 
Ler o texto outra vez... Em silêncio, escutar o que Deus diz no segredo...
 
MEDITAÇÃO
1. Jesus acolhe todos e ensina os seus discípulos a partilhar. Sinto-me também responsável pela resolução dos problemas dos outros?
2. Como me situo face aos bens? Vejo os bens que Deus me concedeu como “meus” ou como dons que Deus depositou nas minhas mãos para eu administrar e partilhar, mas que pertencem a todos os homens?
3. Quão importante é a Eucaristia na minha vida? Que faço para me abrir a toda a sua riqueza?

quinta-feira, 30 de julho de 2026

Sábado XVII do Tempo Comum

Sto. Afonso Mª de Ligório, bispo e doutor da Igreja
 
1ª Leitura (Jer 26,11-16.24):
Naqueles dias, os sacerdotes e os profetas disseram aos chefes e a todo o povo: «Este homem merece a morte, por ter profetizado contra esta cidade, como acabais de ouvir com os vossos ouvidos». Então Jeremias disse aos chefes e a todo o povo: «Foi o Senhor que me enviou a profetizar, contra este templo e contra esta cidade, tudo o que ouvistes. Portanto, emendai os vossos caminhos e as vossas ações, ouvi a voz do Senhor, vosso Deus, e o Senhor afastará de vós os males com que vos ameaçou. Quanto a mim, estou nas vossas mãos: tratai-me como vos parecer melhor e mais justo. Mas ficai sabendo que, se me condenardes à morte, sereis responsáveis pelo sangue de um inocente, vós, esta cidade e os seus habitantes. Na verdade, foi o Senhor que me enviou a vós, para anunciar aos vossos ouvidos todas estas palavras». Então os chefes e todo o povo disseram aos sacerdotes e aos profetas: «Este homem não merece a morte, porque nos falou em nome do Senhor, nosso Deus». Jeremias ficou sob a proteção de Aican, filho de Safan, e assim não caiu nas mãos do povo para ser morto.
 
Salmo Responsorial: 68
R. Pela vossa bondade, ouvi-me, Senhor.
 
Tirai-me do lamaçal, para que não me afunde, livrai-me dos que me odeiam e do abismo das águas. Não me cubram as ondas nem me arraste a voragem, não se feche sobre mim a boca do abismo.
 
Eu sou pobre e miserável: defendei-me com a vossa proteção. Louvarei com cânticos o nome de Deus e em ação de graças O glorificarei.
 
Vós, humildes, olhai e alegrai-vos, buscai o Senhor e o vosso coração se reanimará. O Senhor ouve os pobres e não despreza os cativos.
 
Aleluia. Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça, porque deles é o reino dos Céus. Aleluia.
 
Evangelho (Mt 14,1-12): Naquele tempo, a fama de Jesus chegou aos ouvidos do rei Herodes. Ele disse aos seus cortesãos: «É João Batista! ele ressuscitou dos mortos; por isso, as forças milagrosas atuam nele». De fato, Herodes tinha mandado prender João, acorrentá-lo e colocá-lo na prisão, por causa de Herodíades, a mulher de seu irmão Filipe. Pois João vivia dizendo a Herodes: «Não te é permitido viver com ela». Herodes queria matá-lo, mas ficava com medo do povo, que o tinha em conta de profeta. Por ocasião do aniversário de Herodes, a filha de Herodíades dançou diante de todos, e agradou tanto a Herodes que ele prometeu, com juramento, dar a ela tudo o que pedisse. Instigada pela mãe, ela pediu: «Dá-me aqui, num prato, a cabeça de João Batista». O rei ficou triste, mas, por causa do juramento e dos convidados, ordenou que atendessem o pedido dela. E mandou cortar a cabeça de João, na prisão. A cabeça foi trazida num prato, entregue à moça, e esta a levou para a sua mãe. Os discípulos de João foram buscar o corpo e o enterraram. Depois vieram contar tudo a Jesus.
 
«A fama de Jesus chegou aos ouvidos do rei Herodes»
 
Rev. D. Joan Pere PULIDO i Gutiérrez (Sant Feliu de Llobregat, Espanha)
 
Hoje, a liturgia convida-nos a contemplar uma injustiça: A morte de João Batista; e, também, descobrir na Palavra de Deus a necessidade de um testemunho claro e concreto de nossa fé para encher o mundo de esperança.
 
Convido-os a focalizar nossa reflexão na personagem do tetrarca Herodes. Realmente, para nós, não é um verdadeiro testemunho, mas nos ajudará a destacar alguns aspectos importantes para a nossa declaração de fé em meio do mundo. «Naquele tempo, a fama de Jesus chegou aos ouvidos do rei Herodes» (Mt 14,1). Esta afirmação distingue uma atitude aparentemente correta, mas pouco sincera. É a realidade que hoje podemos achar em muitas pessoas e, talvez também em nós mesmos. Muitas pessoas têm ouvido falar de Jesus, mas, quem é Ele realmente? que implicância pessoal nos une a Ele?
 
Em primeiro lugar, é necessário dar uma resposta correta; a do tetrarca Herodes não passa de ser uma vaga informação: «É João Batista! Ele ressuscitou dos mortos» (Mt 14,2). Com certeza sentimos falta da afirmação de Pedro diante da pergunta de Jesus: «E vós, quem dizeis que eu sou? Simão Pedro respondeu: ‘Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo’» (Mt 16,15-16). E esta afirmação não dá lugar para o medo ou para a indiferença, e sim abre a porta a um testemunho fundamentado no Evangelho da esperança. Assim o definia São João Paulo II na sua Exortação apostólica A Igreja na Europa: «Junto à Igreja toda, convido aos meus irmãos e irmãs na fé a se abrirem constante e confiadamente a Cristo e, a se deixar renovar por Ele, anunciando com o vigor da paz e o amor a todas as pessoas de boa vontade que, quem encontra ao Senhor conhece a Verdade, descobre a Vida e, reconhece o Caminho que conduz a ela».
 
Que, hoje sábado, a Virgem Maria, a Mãe da esperança, nos ajude de verdade a encontrar Jesus e, a dar um bom testemunho Dele aos nossos irmãos.
 
Pensamentos para o Evangelho de hoje
«São João Batista deu a sua vida por Cristo, embora não lhe fosse ordenado negar Jesus Cristo; só lhe foi ordenado que calasse a verdade» (São Beda, o Venerável)
 
«São João Batista recorda-nos também, cristãos do nosso tempo, que o amor a Cristo, à sua Palavra, à Verdade, não admite arranjos. Verdade é verdade, não há discussão» (Bento XVI)
 
«O dever dos cristãos de participar na vida da Igreja os impele a ser testemunhas do Evangelho e das obrigações que dele derivam. Este testemunho é transmissão de fé em palavras e obras. O testemunho é um ato de justiça que estabelece ou dá a conhecer a verdade» (Catecismo da Igreja Católica, n. 2.472)
 
Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm.
 
* O evangelho de hoje descreve como João Batista foi vítima da corrupção e da prepotência do governo de Herodes.
Foi morto sem processo, durante um banquete do rei com os grandes do reino. O texto traz muitas informações sobre o tempo em que Jesus vivia e sobre a maneira como era exercido o poder pelos poderosos da época.
 
* Mateus 14,1-2. Quem é Jesus para Herodes. O texto começa informando a opinião de Herodes a respeito de Jesus: "Ele é João Batista, que ressuscitou dos mortos. É por isso que os poderes agem nesse homem". Herodes procurava compreender Jesus a partir dos medos que o assaltavam após o assassinato de João. Herodes era um grande supersticioso que escondia o medo atrás da ostentação da sua riqueza e do seu poder.
 
* Mateus 14,3-5: A causa escondida do assassinato de João. Galileia, terra de Jesus, era governada por Herodes Antipas, filho do rei Herodes, o Grande, desde 4 antes de Cristo até 39 depois de Cristo. Ao todo, 43 anos! Durante todo o tempo que Jesus viveu, não houve mudança de governo na Galileia! Herodes era dono absoluto de tudo, não prestava conta a ninguém, fazia o que bem entendia. Prepotência, falta de ética, poder absoluto, sem controle por parte do povo! Mas quem mandava mesmo na Palestina, desde 63 antes de Cristo, era o Império Romano. Herodes, lá na Galileia, para não ser deposto, procurava agradar a Roma em tudo. Insistia sobretudo numa administração eficiente que desse lucro ao Império. A preocupação dele era a sua própria promoção e segurança. Por isso, reprimia qualquer tipo de subversão. Mateus informa que o motivo do assassinato de João foi a denúncia que o Batista fez a Herodes por ele ter casado com Herodíades, mulher do seu irmão Filipe. Flávio José, escritor judeu daquela época, informa que o motivo real da prisão de João Batista era o medo que Herodes tinha de um levante popular. Herodes gostava de ser chamado de benfeitor do povo, mas na realidade era um tirano (Lc 22,25). A denúncia de João contra Herodes foi a gota que fez transbordar o copo: "Não te é permitido casar com ela”.  E João foi preso.
 
* Mateus 14,6-12: A trama do assassinato. Aniversário e banquete de festa, com danças e orgias! Marcos informa que a festa contava com a presença “dos grandes da corte, dos oficiais e das pessoas importantes da Galileia” (Mc 6,21). É nesse ambiente que se trama o assassinato de João Batista. João, o profeta, era uma denúncia viva desse sistema corrupto. Por isso foi eliminado sob pretexto de um problema de vingança pessoal. Tudo isto revela a fraqueza moral de Herodes. Tanto poder acumulado na mão de um homem sem controle de si! No entusiasmo da festa e do vinho, Herodes fez um juramento leviano a Salomé, a jovem dançarina, filha de Herodíades. Supersticioso como era, pensava que devia manter esse juramento, atendeu ao capricho da menina e mandou o soldado trazer a cabeça de João num prato e dar à dançarina, que o entregou à sua mãe. Para Herodes, a vida dos súditos não valia nada. Dispunha deles como dispunha da posição das cadeiras na sala.
 
* As três marcas do governo de Herodes: a nova Capital, o latifúndio e a classe dos funcionários:
1. A Nova Capital.  Tiberíades foi inaugurada quando Jesus tinha seus 20 anos. Era chamada assim para agradar a Tibério, o imperador de Roma. Lá moravam os donos das terras, os soldados, a polícia, os juízes muitas vezes insensíveis (Lc 18,1-4). Para lá eram levados os impostos e o produto do povo. Era lá que Herodes fazia suas orgias de morte (Mc 6,21-29). Tiberíades era a cidade dos palácios do Rei, onde vivia o pessoal de roupa fina (cf Mt 11,8). Não consta nos evangelhos que Jesus tenha entrado nessa cidade.
 
2. O Latifúndio.  Os estudiosos informam que, durante o longo governo de Herodes, cresceu o latifúndio em prejuízo das propriedades comunitárias. O Livro de Henoque denuncia os donos das terras e expressa a esperança dos pequenos: “Então, os poderosos e os grandes já não serão mais os donos da terra!” (Hen 38,4). O ideal dos tempos antigos era este: “Cada um debaixo da sua vinha e da sua figueira, sem que haja quem lhes cause medo” (1 Mac 14,12; Miq 4,4; Zac 3,10). Mas a política do governo de Herodes tornava impossível a realização deste ideal.
 
3. A Classe dos funcionários. Herodes criou toda uma classe de funcionários fiéis ao projeto do rei: escribas, comerciantes, donos de terras, fiscais do mercado, coletores de impostos, militares, policiais, juízes, promotores, chefes locais. Em cada aldeia ou cidade havia um grupo de pessoas que apoiavam o governo. Nos evangelhos, alguns fariseus aparecem junto com os herodianos (Mc 3,6; 8,15; 12,13), o que reflete a aliança entre o poder religioso e poder civil. A vida do povo nas aldeias era muito controlada, tanto pelo governo como pela religião. Era necessária muita coragem para começar algo novo, como fizeram João e Jesus! Era o mesmo que atrair sobre si a raiva dos privilegiados, tanto do poder religioso como do poder civil.
 
Para um confronto pessoal
1. Conhece casos de pessoas que morreram vítimas da corrupção e da dominação dos poderosos? E aqui entre nós, na nossa comunidade e na igreja, há vítimas de desmando e de autoritarismo?
2. Herodes, o poderoso, que pensava ser o dono da vida e da morte do povo, era um covarde diante dos grandes e um bajulador corrupto diante da moça. Covardia e corrupção marcavam o exercício do poder de Herodes. Compare com o exercício do poder religioso e civil hoje nos vários níveis da sociedade e da Igreja.