São Pascoal
Bailão, religioso
ORAÇÂO
Senhor, todo poderoso e
infinitamente perfeito, de quem procede todo ser e para quem todas as criaturas
devem sempre se elevar, eu vos consagro este mês e os exercícios de devoção que
em cada um de seus dias praticar, oferecendo-os para vossa maior glória em
honra de Maria Santíssima. Concedei-me a graça de santificá-lo com piedade,
recolhimento e fervor. Virgem Santa e Imaculada, minha terna Mãe, volvei para
mim vossos olhares tão cheios de doçura e fazei-me sentir cada vez mais os
benéficos efeitos de vossa valiosa proteção. Anjos do céu, dirigi meus passos,
guardai-me à sombra de vossas asas, pondo-me ao abrigo das ciladas do demônio,
pedindo por mim a Jesus, Maria e José sua santa bênção. Amém.
LECTIO
DIVINA
1ª
Leitura (At 1,1-11): No meu primeiro livro, ó Teófilo, narrei todas as
coisas que Jesus começou a fazer e a ensinar, desde o princípio até ao dia em
que foi elevado ao Céu, depois de ter dado, pelo Espírito Santo, as suas
instruções aos Apóstolos que escolhera. Foi também a eles que, depois da sua
paixão, Se apresentou vivo com muitas provas, aparecendo-lhes durante quarenta
dias e falando-lhes do reino de Deus. Um dia em que estava com eles à mesa,
mandou-lhes que não se afastassem de Jerusalém, mas que esperassem a promessa
do Pai, «da qual – disse Ele – Me ouvistes falar. Na verdade, João batizou com
água; vós, porém, sereis batizados no Espírito Santo, dentro de poucos dias».
Aqueles que se tinham reunido começaram a perguntar: «Senhor, é agora que vais
restaurar o reino de Israel?». Ele respondeu-lhes: «Não vos compete saber os
tempos ou os momentos que o Pai determinou com a sua autoridade; mas recebereis
a força do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas
em Jerusalém e em toda a Judeia e na Samaria e até aos confins da terra». Dito
isto, elevou-Se à vista deles e uma nuvem escondeu-O a seus olhos. E estando de
olhar fito no Céu, enquanto Jesus Se afastava, apresentaram-se-lhes dois homens
vestidos de branco, que disseram: «Homens da Galileia, porque estais a olhar
para o Céu? Esse Jesus, que do meio de vós foi elevado para o Céu, virá do
mesmo modo que O vistes ir para o Céu».
Salmo
Responsorial: 46
R. Por entre aclamações e ao
som da trombeta, ergue-Se Deus, o Senhor.
Povos todos, batei palmas,
aclamai a Deus com brados de alegria, porque o Senhor, o Altíssimo, é terrível,
o Rei soberano de toda a terra.
Deus subiu entre aclamações, o
Senhor subiu ao som da trombeta. Cantai hinos a Deus, cantai, cantai hinos ao
nosso Rei, cantai.
Deus é Rei do universo: cantai os
hinos mais belos. Deus reina sobre os povos, Deus está sentado no seu trono
sagrado.
2ª
Leitura (Ef 1,17-23): Irmãos: O Deus de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai
da glória, vos conceda um espírito de sabedoria e de revelação para O
conhecerdes plenamente e ilumine os olhos do vosso coração, para compreenderdes
a esperança a que fostes chamados, os tesouros de glória da sua herança entre
os santos e a incomensurável grandeza do seu poder para nós os crentes. Assim o
mostra a eficácia da poderosa força que exerceu em Cristo, que Ele ressuscitou
dos mortos e colocou à sua direita nos Céus, acima de todo o Principado, Poder,
Virtude e Soberania, acima de todo o nome que é pronunciado, não só neste
mundo, mas também no mundo que há-de vir. Tudo submeteu aos seus pés e pô-lo
acima de todas as coisas como Cabeça de toda a Igreja, que é o seu Corpo, a
plenitude d’Aquele que preenche tudo em todos.
Aleluia. Ide e
ensinai todos os povos, diz o Senhor: Eu estou sempre convosco até ao fim dos
tempos. Aleluia.
Evangelho
(Mt 28,16-20): Os onze discípulos voltaram à Galileia, à montanha que
Jesus lhes tinha indicado. Quando o viram, prostraram-se; mas alguns tiveram
dúvida. Jesus se aproximou deles e disse: «Foi-me dada toda a autoridade no céu
e na terra. Ide, pois, fazer discípulos entre todas as nações, e batizai-os em
nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ensinai-lhes a observar tudo o que
vos tenho ordenado. Eis que estou convosco todos os dias, até o fim dos
tempos».
«Foi-me dada toda a autoridade
no céu e na terra»
Dr. Josef ARQUER (Berlin,
Alemanha)
Hoje contemplamos umas mãos que
abençoam —o último gesto terreno do Senhor (cf. Lc 24,51). Ou algumas pegadas
marcadas numa colina —o último sinal visível da passagem de Deus pela nossa
terra. Em algumas ocasiões, representa-se essa colina como uma rocha, e a
pegada de suas pisadas ficam gravadas não sobre a terra, mas na rocha. Como que
aludindo àquela pedra que Ele anunciou e que rapidamente será selada pelo vento
e pelo fogo do Pentecostes. A iconografia emprega desde a antiguidade esses
símbolos tão sugestivos. E também a nuvem misteriosa —sombra e luz ao mesmo
tempo que acompanha tantas teofanias já no antigo testamento. O rosto do Senhor
nos deslumbraria.
São Leão Magno ajuda-nos a
aprofundar o acontecimento: «O que era visível no nosso Salvador passou agora
aos seus mistérios». A que mistérios? Aos que confiou à sua Igreja. O gesto da
bênção realiza-se na liturgia, as pegadas sobre a terra marcam o caminho dos
sacramentos. E é um caminho que conduz à plenitude do definitivo encontro com
Deus.
Os apóstolos terão tido tempo
para se habituar ao outro modo de ser do seu Mestre ao longo daqueles quarenta
dias, nos quais o Senhor— dizem-nos os exegetas— não “se aparece”, mas que
—numa tradução fiel literal— “se deixa ver”. Agora nesse último encontro,
renova-se o assombro. Porque agora descobrem que, daqui em diante, não só
anunciarão a Palavra, mas que infundirão vida e saúde, com o gesto visível e a
palavra audível: no batismo e nos outros sacramentos.
«Foi-me dada toda a autoridade no
céu e na terra» (Mt 28, 18). Toda a autoridade… Ir a todas as gentes… E ensinar
a guardar tudo… E Ele estará com eles —com a sua Igreja, conosco— todos os
tempos (cf Mt 28,19-20). Esse “todo” retumba através do espaço e do tempo,
afirmando-nos na esperança.
Pensamentos para o Evangelho
de hoje
«Os Apóstolos aproveitaram tanto
a Ascensão do Senhor que tudo o que antes lhes causava medo, depois tornou-se
alegria. A partir daquele momento elevaram toda a contemplação da sua alma à
divindade sentada à direita do Pai» (São Leão Magno)
«A Ascensão de Jesus ao céu
constitui o fim da missão que o Filho recebeu do Pai e o início da continuação
desta missão por parte da Igreja, que durará até o fim da história e contará
com a ajuda do Senhor Ressuscitado» (Francisco)
«A Tradição sagrada e a Sagrada
Escritura estão intimamente unidas e compenetradas entre si. Com efeito,
derivando ambas da mesma fonte divina, fazem como que uma coisa só e tendem ao
mesmo fim. Uma e outra tornam presente e fecundo na Igreja o mistério de
Cristo, que prometeu estar com os seus, ‘sempre, até ao fim do mundo’ (Mt 28,
20)» (Catecismo da Igreja Católica, n. 80)
"Eu estarei convosco, até o fim do mundo"
Do site da Ordem do Carmo em Portugal
* Diversamente dos outros
evangelistas, Mateus refere uma só aparição de Jesus ressuscitado aos “onze
discípulos”, que redige e insere como conclusão final da sua obra, retomando o
tema principal da mesma: Jesus é o Messias, o Deus conosco, cuja palavra, obra
e salvação, se devem estender a todas as nações, cumprindo-se assim as
promessas de Deus a Abraão. E assim como no seu Evangelho recolhe as palavras
de Jesus em cinco discursos, também conclui a sua obra, não com palavras suas,
mas deixando que seja o próprio Jesus, uma vez mais, a dirigir-se pessoalmente
aos seus discípulos, a cada um dos destinatários do Evangelho.
* O texto de hoje tem duas
partes: a) a aparição de Jesus aos Onze (vv. 16-18); e b) o grande mandato
missionário (vv. 19-20).
v. 16. Os onze discípulos
foram para a Galileia, para o monte que Jesus lhes tinha designado. Os onze
discípulos" (Mc 16,14; Lc 24,9.33; At 1,26) são os "Doze
discípulos" (10,1; 11,1; 20,17), ou seja, "os Doze” (10,5; 11,1;
26,20) “apóstolos" (10,2), que agora, sem Judas Iscariotes – “um dos Doze”
(26,14.47), aquele que traiu Jesus (10,4) –, ficaram reduzidos a onze, pois
Judas Iscariotes, ao tomar consciência do seu ato, se tinha suicidado (27,3-5).
* A aparição de Jesus aos onze
é situada por Mateus, sem indicação de tempo, nem precisão de lugar, não em
Jerusalém, mas na Galileia (he. "distrito", "região").
Porquê? Porque:
a)
A missão de Jesus, que tinha começado na periferia norte de Israel, consuma-se
onde tinha começado: na Galileia. E a missão universal da Igreja, que agora vai
começar, a partir de Cristo ressuscitado, nasce da missão de Jesus na Galileia,
que se alargou, tomando corpo primeiro na missão dos apóstolos, ainda quando
Jesus estava fisicamente entre eles (10,5), e estendendo-se depois do
Pentecostes a cada um dos membros da Igreja, de modo que o Evangelho seja
anunciado sempre, por todos os discípulos de Jesus, a todos, em toda a parte,
até ao fim dos tempos.
b)
esta região é a desprezada “Galileia das nações” (4,15; Is 9,1; cf. Jo 7,52),
onde coabitavam gentios e judeus, nessa altura, numa proporção de 2 para 1. A
missão da Igreja, doravante, já não se restringirá apenas “às ovelhas perdidas
da casa de Israel” (10,6), mas destinar-se-á a todas as gentes.
c)
quando Mateus escreve o Evangelho, Jerusalém já tinha sido destruída pelas
tropas de Tito, no ano de 70 d.C. Antes, porém, no Inverno de 66-67 d.C.,
quando as tropas romanas começaram a reconquistar a Galileia, após a sublevação
de Israel no verão de 66, a comunidade cristã, obedecendo à palavra de Jesus
(24,15-28), já tinha deixado Jerusalém e fugido da Judeia, primeiro para Pela,
na Decápole (atual Jordânia: cf. Eus. Hist. eccl. 3.5.3), e, depois da
conquista de Jerusalém, espalhando-se daí para a Galileia, o Líbano e a Síria.
Mateus, no seguimento de Marcos, dá aqui a entender que Jerusalém deixa, desde
então, de ser a capital do Povo de Deus (cf. Lc 21,24), para o centro do novo
Povo de Deus passar a ser o lugar onde Jesus convoca e reúne os seus discípulos
(Mc 16,7 precisa-o: à volta de Pedro), neste caso, a Galileia, o lugar onde os
eles vivem e trabalham, ou seja, a Galileia da vida concreta: é aí que Jesus
ressuscitado se encontra com os seus discípulos e os envia em missão – primeiro
os apóstolos e, depois, neles, todos os membros da comunidade cristã, que os
apóstolos representam. É por este motivo que Mateus não os designa como “os
onze apóstolos”, mas “os onze discípulos”, para neles ver representados todos
os cristãos.
* O encontro de Jesus
ressuscitado com os Onze ocorre num “monte” da Galileia. É o último dos
oito montes (4,8 [1º]; 5,1 [2º].14 [é também um “monte”, o 3º!]; 14,23 [4º];
15,29 [5º]; 17,1 [6º]; 21,1 [7º]) que Mateus refere na sua obra, dos quais
(exceto no caso do monte das Oliveiras: Zc 14,4), nunca indica o lugar preciso
nem o nome, a fim de se destacar apenas o seu significado teológico. No AT, o
“monte” é o lugar do encontro com Deus e da revelação. Este “monte” agora é
Jesus, sobre o qual está assente e é edificada a Igreja (cf. 5,14!; 16,18), a
nova Jerusalém, a partir da qual será anunciada a Palavra de Cristo, a nova lei
de Deus, a todas as nações, como tinha sido prometido através dos profetas (cf.
Is 2,2-5; 66,20; Jr 31,6; Mq 4,2; Zc 8,20-23). E tal como Moisés, antes de
morrer, contemplou do cimo do monte indicado por Deus a Terra Prometida e aí
instituiu Josué como seu sucessor (Nm 27,12‑23; Dt 3,27s; 34,1-4), Jesus, o
novo Moisés, confia aos seus
discípulos a terra inteira
para nela formar o novo Povo de Deus, que Ele, o novo Josué (o nome hebraico
Iehoschua – em aramaico Ioschua – é traduzido para grego, pelos LXX, como
Iesous, "Jesus"), introduzirá na verdadeira terra prometida, que é o
Reino dos céus. E assim como foi num monte da Galileia que Jesus “começou a
ensinar” (5,1), é também a partir dum monte da Galileia que Ele envia os seus
discípulos a "ensinar", não apenas ao povo de Israel, mas a todas as
nações.
* “Designar” (gr. tássô) tem
aqui duplo significado: a)
refere-se ao lugar da Galileia (26,32), indicado por Jesus na Última Ceia, tal
como o anjo o recordou às mulheres quando lhes anunciou a ressurreição de Jesus
(v. 7) e o próprio Jesus ressuscitado lhes mandou anunciar “aos seus irmãos”
(v. 10); b) significa “instituir num
serviço”, porque é agora que os Doze são constituídos apóstolos para todas as
nações.
* v. 17. E, quando o viram,
adoraram-no, mas alguns duvidaram. Os apóstolos, “quando o viram” (Jo
20,20), prostram-se por terra e “adoram” Jesus ressuscitado (v. 9; Lc 24,52),
pois é só então, a partir da Sua ressurreição, que Ele se lhes revela
claramente como Deus, ou seja, como o único Senhor (he. Adonai; gr. Kyriós) a
quem se deve adorar (4,10).
* “Alguns duvidaram”: Mateus
refere aqui, descontextualizadas e sintetizadas nesta brevíssima expressão, as
dúvidas e as dificuldades que os discípulos tiveram em acreditar na
ressurreição de Jesus (Mc 16,10-14; Lc 24,25; Jo 20,25.27). A persistência
de dúvidas nalguns deles, mesma na presença do próprio Cristo ressuscitado,
mostra que não é a partir dos sentidos, nem apenas duma visão interior, mas da
fé na Palavra que é possível encontrar-se com Jesus Ressuscitado e reconhecê-lo
(cf. Jo 20,8s; 2Cor 5,16; Rm 10,8ss). Este encontro e este reconhecimento,
porém, requerem um “salto na fé” tão grande e uma conversão interior tão
profunda, que muitos, demasiado presos à letra da Lei ou aos seus próprios esquemas
mentais, têm dificuldade de dar.
* v. 18. Aproximando-se, Jesus
falou-lhes, dizendo: «Foi-Me dada toda a autoridade no céu e sobre a terra. A
segunda parte narra o grande mandato missionário de Jesus aos “onze discípulos”
e, neles, a todos os membros da Igreja que eles representam (19,28).
O mandato (vv. 19-20a) é
precedido pela declaração da autoridade de Jesus (v. 18) e concluído com a sua
promessa de permanecer com eles até ao fim do tempo (20b), estando dispostos os
seus elementos numa estrutura quiástica: A, autoridade (v. 18b); B, fazer
discípulos (v. 19a); C: batizar (o elemento central: v. 19b); B’, ensinar os
discípulos (v. 20a); A’, presença (v. 20b).
* “Aproximando-se deles”
(17,7): pela ressurreição, Jesus não se separou dos seus discípulos, mas
aproxima-se antes deles, tomando a iniciativa de ir ao seu encontro, a fim de
restabelecer uma relação íntima e pessoal com eles, que será o meio deles
receberem o seu poder e a fonte donde jorrará cada dia o ímpeto sempre renovado
da sua missão e a fecundidade da sua obra. Ao tomar a iniciativa de se
aproximar deles, Jesus ensina os seus discípulos a imitá-lo, tomando também
eles a iniciativa de ir ao encontro dos outros, neste caso, das gentes de toda
a humanidade.
* Depois, Jesus revela-lhes
que, graças à sua ressurreição, "Lhe foi dada" (é um passivo divino;
subentende-se: por Deus; cf. a paródia diabólica acerca deste poder, sobre
o primeiro monte: 4,9), “toda a autoridade”. É a décima e última vez que o
termo "autoridade" (gr. exousía) aparece em Mateus, simbolizando o
número dez, em hebraico, a totalidade. Mateus indica assim que, pela paixão,
morte e ressurreição, "foi dada" a Jesus, enquanto "Filho do
homem", tal como tinha sido anunciado por Dn 7,13-14, toda a autoridade,
ou seja, todo o poder, toda a potestade divina (11,27; Lc 10,22; Jo 3,35).
* Esta autoridade é exercida
por Jesus de forma universal, sobretudo, “no céu e sobre a terra”, unindo-os
(cf. Ef 1,20ss; Ap 12,10). A tradição judaica dizia que Moisés “tinha
controle sobre a terra e os céus” (ExRab 12,75a); Jesus, o novo Moisés, é
constituído Senhor sobre toda a criação, inaugurando assim um novo êxodo, o
êxodo do novo povo de Deus, que se estenderá a toda a humanidade, libertando-a
do poder da morte e fazendo-a sair do Egito do pecado (1,21), para a introduzir
na verdadeira terra da promissão, o Reino dos céus.
* Porque divina, a
autoridade de Jesus ressuscitado é universal, abarcando "o céu e a
terra", estendendo-se aos anjos, a todos os homens de todos os tempos
(vivos ou mortos) e a toda a criação (22,32; 25,32), como o adjetivo “todo”
(gr. pãs, "todo", "tudo" e "cada um", 4x no
presente texto: vv. 18ss) indica.
* v. 19. Ide, pois, fazei
discípulas todas as gentes, batizando-as em nome do Pai e do Filho e do
Espírito Santo. “Ide” é o imperativo missionário (7,10; Mc 16,15; 2Rs
2,16). O particípio aoristo passivo indica que a missão não é uma ação pontual,
mas constante, que se vai processando, à medida que os discípulos vão
avançando, ao longo da história, ao encontro de todas as pessoas, em todo o
tempo e lugar. A Igreja, nascida da missão de Jesus, é, por sua natureza,
missionária.
* Jesus explicita o mandato
que transmite aos seus discípulos em cinco pontos:
1) a missão é universal, já
não se limita apenas ao povo de Israel (10,5s), mas destina-se a “todas as
gentes” (24,14p; 26,13; Mc 16,15; At 1,8; Cl 1,23). A autoridade universal
que foi dada a Jesus é o fundamento da missão universal da Igreja.
2) A missão articula-se em
três etapas:
i)
“fazei discípulas”. É a primeira etapa, a evangelização.
"Evangelizar" é pregar o querigma (1Cor 15,3-5), por palavras e
obras, no poder do Espírito (cf. Rm 15,19; 2Cor 12,12; Gl 3,5; 1Ts 1,5; Hb
2,4).
* "Todas as gentes”:
a expressão está no acusativo, sendo o complemento direto do verbo “fazer
discípulos/as” (gr. matheteuo, só 4x na Bíblia: três em Mateus, 13,52; 27,57; e
uma em At 14,21).
* O AT tinha duas palavras
para designar um povo: a)
"povo" (he. 'am; gr. laós), quase sempre, o povo de Deus propriamente
dito, ou seja, Israel; b)
"nação" (he. gôy; gr.éthnos), aqueles povos e nações que não faziam
parte de Israel.
* É a estas que Jesus se
refere aqui, no sentido mais amplo. De facto, o termo “nação” em grego não tem apenas a conotação
sociopolítica que hoje tem, mas indica também o conjunto de pessoas que fazem
parte da mesma nação, ou seja, aqueles que normalmente se costuma designar
"gentios" ou “gentes”. É o caso desta expressão, em que Jesus pensa
mais nas pessoas do que nas instituições (embora não as exclua), incluindo
também entre elas o povo de Deus da antiga aliança, a quem os “doze apóstolos”
já tinham sido enviados (10,5-6), não sendo por isso aqui explicitamente
mencionado, uma vez que Jesus só quer indicar que doravante a missão se dirige
também aos gentios. Jesus não exclui ninguém da sua oferta de salvação; pelo
contrário: quer que todos dela possam beneficiar. Desta forma, a missão
evangelizadora da Igreja deve estender-se a todos as pessoas, de todos os
povos, nações, línguas, sexo, idade, tempo, cultura ou condição social, quer
sejam hebreias, quer não.
* A expressão “todas as
gentes” evoca a promessa de Deus a Abraão de na sua descendência (que é Jesus:
Gl 3,16) serem "abençoadas todas as gentes da terra" (Gn 18,18;
22,18; 26,6), cumprindo-se assim esta promessa da forma mais universal (cf. 3,9;
8,11; Sl 47,2; 72,11.17; 117,1; Is 2,2; 25,7; 66,18; Jr 3,17; Dn 7,14; Am 9,12;
Ag 2,7).
* Inserida aqui, na
conclusão final, a expressão indica que a salvação que Jesus alcançou com a sua
paixão e morte de cruz não se destina apenas “ao seu povo” (1,21), nem se
limita à "redenção” e à remissão dos pecados “de muitos” (20,28; 26,28),
mas tem um alcance universal, abrangendo não só “todas as gentes” de todas as
épocas, mas abarcando também toda a criação (cf. v. 18).
ii)
“batizar” (gr.
"mergulhar", “imergir”: 2Rs 5,14) os que acreditaram no Evangelho (Mc
16,16; At 2,38; 8,12). É a segunda etapa, a iniciação cristã: fazer renascer e
participar na vida divina os que escutaram a Palavra, se arrependeram e
confessam a Jesus Cristo como o Senhor, a fim de viver a vida nova do
Evangelho.
“Em nome” (eis ónoma: 10,41s;
18,20; 24,9): o Nome designa a pessoa (6,9), sendo doravante a presença
libertadora e salvífica da Trindade o novo e definitivo “memorial” de Deus (cf.
Ex 3,15) no meio do Seu povo, espalhado entre todas as gentes.
* Pelo batismo (o termo
inclui aqui os três sacramentos de iniciação cristã: batismo, crisma e
Eucaristia), o crente nasce de novo, é unido a Cristo como membro do seu Corpo
e feito filho de Deus, tornando-se morada do Espírito Santo e participante da
vida divina, ficando assim capacitado para viver como discípulo-missionário de
Jesus, seguindo-o como seu Senhor, no seio da Igreja;
* v. 20. E ensinando-as a
guardar tudo o que vos mandei. E eis que Eu estou convosco todos os dias até à
consumação do tempo».
iii)
“Ensinar” (5,2; 13,54; 21,24;
22,16). É a terceira etapa: ajudar os que já renasceram pelo batismo e
receberam o dom do Espírito Santo a viver segundo a sua nova condição.
"Ensinar" e evangelizar (4,23; 9,35; 11,1) eram as atividades
fundamentais de Jesus, que os seus discípulos continuam, destinando-se a
primeira aos membros do povo de Deus que já conheciam a Sua Palavra, e a
segunda, àqueles que ainda não conheciam Deus e a Sua Palavra. “Ensinar” (que,
em Mateus, começa por pôr em prática, cumprir: 5,19!) consiste em expor aos
batizados, de forma orgânica e estruturada, todo o desígnio salvífico de Deus,
dizendo-lhes qual é a sua vontade e mostrando-lhes como a cumprir, de modo que
possam progredir na vida cristã, pondo em prática o Evangelho (3,10; 7,21.24;
12,50; 21,31ss) em todos os aspetos e dimensões da sua existência, imitando
Jesus (10,25).
* “Tudo o que vos mandei”. A
expressão evoca:
a)
a fidelidade à Palavra (5,19; Ex
23,22; Dt 6,25; 8,1; 13,1. 19; 28,1; 30,16; 32,46; Js 22,2). Os discípulos de
Jesus devem transmitir integralmente a Sua palavra, o Evangelho – não as suas
próprias ideias, opiniões ou preferências pessoais –, ensinando os outros a
"guardá-lo", ou seja, a conservá-lo vivo, na mente e no coração, para
o observar, o "pôr em prática". Na Igreja primitiva, o ensino,
assente na palavra de Deus, sobretudo no Evangelho, e dirigido à vida, fazia-se
depois do batismo, sacramento que se recebia imediatamente a seguir ao querigma
(At 2,41s), a primeira fase da evangelização, durante a qual se transmitia o
núcleo essencial da fé (Hb 6,1s; cf. supra, v. 19, 2.i).
b)
a atividade profética (Ex 25,22;
Jr 1,7.17). Apesar da oposição do mundo (5,12s; 10,18.22.25; 23,34; 24,9), os
discípulos, tal como os profetas em relação à palavra de Deus, não devem deixar
de anunciar o Evangelho a todos.
3)
A profissão de fé trinitária, a mais clara e concisa do NT (v. 19): Deus é Trindade, uma comunhão de três
Pessoas divinas, iguais e distintas, que são um só Deus, como mostra o
polissíndeto (“e”) em que o único “Nome” de Deus as une e rege por igual (cf.
1Cor 12,4-6; 2Cor 13,13).
4) A promessa de Jesus: “Eu estarei convosco todos os dias” (Dt 31,23; Js 1,5.9; Is 41,10; 43,2; Jr 1,19; Ag
1,13; 2,4s; At 18,10; 2Tm 4,17). O Evangelho conclui como começou, formando a
grande inclusão mateana. No início do Evangelho, o anjo tinha dito que Jesus se
haveria de chamar Emanuel, "Deus connosco" (1,23; Is 7,14; Is 8,10);
agora, o próprio Jesus confirma esta declaração, anunciando o novo nome de Deus
(do "Eu Sou": Ex 3,14) que nele se revela, literalmente: “Eu convosco
Sou”. Cumpre deste modo no novo Povo de Deus, a Igreja (cf. 18,20), a grande
promessa do AT: a de Deus habitar sempre, “todos os dias”, no meio do seu povo
(Ex 29,45; Ez 37,26s; Zc 2,14s; 8,23; 2Cor 6,16), doravante não apenas na terra
de Israel, como anunciaram os profetas, mas no meio de todas as gentes e nações
da terra, no seio da humanidade renascida da sua obra redentora de alcance
universal.
5) A duração da missão.
A missão durará "até à consumação do tempo” (gr. aiôn: “século”,
"era"). A expressão, no singular, é própria de Mateus (13,39-40.49;
24,3).
* "Consumar"
significa devorar, consumir pelo fogo (cf. 1Cor 3,13). "A consumação
do tempo" designa o último dia do “fim dos tempos” (Dn 8,19; 9,25; 11,35;
12,4; Hb 2,9; Gl 4,4; Ef 1,10), determinado pelo Pai (24,36), em que Jesus
virá, os mortos ressuscitarão e todos serão julgados por Ele (13,49; 24,3; cf.
25,31). Então o universo será "consumido" pelo fogo do amor de Deus e
desaparecerá (13,40; 2Pd 3,12), dando lugar aos novos céus e à nova terra (2Pd
3,13), que, assumidos por Cristo ressuscitado, participarão da sua ressurreição,
na eternidade prometida (13,43; 25,46), de uma forma que só Deus conhece, sendo
então, finalmente, Deus tudo em todos (1Cor 15,28).
* O Evangelho de Mateus
termina assim com uma mensagem de fé e de esperança, destinadas a toda a
humanidade, da qual Jesus, o Filho de Deus, se tornou irmão (v. 10),
nascendo como "filho de David, filho de Abraão" (1,1), ou seja, como
"Filho do homem" (16,13; 25,31; 26,64), a fim de tornar o homem filho
de Deus e fazer todas as criaturas participar, cada uma a seu modo, da glória
da Sua ressurreição.
MEDITAÇÃO
1. Sou discípulo de Jesus?
Acredito na sua ressurreição? Conheço a sua Palavra, para ler à sua luz a minha
vida e a história, e a praticar?
2. Sou Igreja? Como tenho
cumprido o mandato missionário de Jesus em casa, no trabalho, na paróquia, no
grupo? A quem ainda não fui?
ORAÇÃO
Ó Maria, filha predileta do
Altíssimo, pudesse eu oferecer-vos e consagrar-vos os meus primeiros anos, como
vós vos oferecestes e consagrastes ao Senhor no templo! Mas é já passado esse
período de minha vida! Todavia, antes começar tarde a vos servir do que ser
sempre rebelde. Venho, pois, hoje, oferecer-me a Deus. Sustentai minha
fraqueza, e por vossa intercessão alcançai-me de Jesus a graça de lhe ser fiel
e a vós até a morte, a fim de que, depois de vos haver servido de todo o
coração na vida, participe da glória e da felicidade eterna dos eleitos. Amém.
LADAINHA
DE NOSSA SENHORA
Senhor, tende piedade de nós
Cristo, tende piedade de nós
Senhor, tende piedade de nós
Jesus Cristo ouvi-nos.
Jesus Cristo atendei-nos.
Deus Pai do Céu, tende piedade de
nós.
Deus Filho, Redentor do mundo,
...
Deus Espírito Santo Paráclito,
...
Santíssima Trindade, que sois
um só Deus, ...
Santa Maria, rogai por nós.
Santa Mãe de Deus,...
Santa Virgem das virgens,...
Mãe de Jesus Cristo, ...
Mãe da Igreja, ...
Mãe da Misericórdia, ...
Mãe da Divina Graça, ...
Mãe da Esperança,...
Mãe puríssima, ...
Mãe castíssima, ...
Mãe imaculada,...
Mãe sempre virgem,...
Mãe amável,...
Mãe admirável,...
Mãe do bom conselho,...
Mãe do Criador,...
Mãe do Salvador,...
Virgem prudentíssima,...
Virgem digna de honra,...
Virgem digna de louvor,...
Virgem poderosa,...
Virgem clemente,...
Virgem fiel,...
Espelho de justiça,...
Sede da sabedoria,...
Causa da nossa alegria,...
Templo do Espírito Santo,...
Tabernáculo da eterna
glória,...
Moradia consagrada a Deus,...
Rosa mística,...
Torre de Davi,...
Fortaleza inexpugnável,...
Santuário da divina presença,...
Arca da Aliança,...
Porta do Céu,...
Estrela da Manhã,...
Saúde dos enfermos,...
Refúgio dos pecadores,...
Conforto dos migrantes,...
Consoladora dos aflitos,...
Auxílio dos cristãos,...
Rainha dos anjos,...
Rainha dos patriarcas,...
Rainha dos profetas,...
Rainha dos apóstolos,...
Rainha dos mártires,...
Rainha dos confessores da fé,...
Rainha das virgens,...
Rainha de todos os santos,...
Rainha concebida sem
pecado,...
Rainha assunta ao céu,...
Rainha do sacratíssimo
Rosário,...
Rainha das famílias,...
Rainha da paz,...
Cordeiro de Deus, que tirais os
pecados do mundo, perdoai-nos, Senhor.
Cordeiro de Deus, que tirais os
pecados do mundo, ouvi-nos, Senhor.
Cordeiro de Deus, que tirais os
pecados do mundo, tende piedade de nós.
V. Rogai por nós, santa Mãe de
Deus.
R. Para que sejamos dignos
das promessas de Cristo.
“LEMBRAI-VOS”
DE SÃO BERNARDO
Lembrai-vos, ó piedosíssima
Virgem Maria, que nunca se ouviu dizer que algum daqueles que a vós têm
recorrido, implorado vossa assistência e invocado o vosso socorro, tenha sido
por vós abandonado. Animado de uma tal confiança, eu corro e venho a vós e, gemendo
debaixo do peso dos meus pecados, me prostro a vossos pés, ó Virgem das
virgens; não desprezeis as minhas súplicas, ó Mãe do Verbo encarnado, mas
ouvi-as favoravelmente e dignai-vos atender-me. Amém.