S. Tomás de Vilanova,
bispo
1ª Leitura (Prov
21,1-6.10-13): O coração do rei está nas mãos do Senhor, como curso de
água que Ele dirige para onde quer. Aos olhos do homem todos os caminhos
parecem retos, mas o Senhor é que pesa os corações. Praticar a justiça e o
direito vale mais do que o sacrifício aos olhos do Senhor. Olhar altivo,
coração soberbo: assim é a lâmpada dos ímpios, que é o pecado. Os projetos do
homem ativo trazem lucro, mas os planos do impaciente trazem miséria. Acumular
tesouros com língua mentirosa é sopro que passa, é laço de morte. A alma do
ímpio deseja o mal; nem para o amigo tem olhar benévolo. O homem simples
adquire a sabedoria, quando vê o castigo do insolente, e adquire a ciência,
quando ouve a instrução do sábio. Se o insolente for castigado, o ingénuo torna-se
prudente; se ao homem prudente se der instrução, ele acolhe a ciência. O Deus
justo observa a casa do ímpio e precipita na desgraça os homens perversos. Quem
fecha os ouvidos ao clamor do pobre também clamará, mas sem que lhe respondam.
Salmo Responsorial: 118
R. Conduzi-me, Senhor, pelo caminho dos vossos mandamentos.
Felizes os que seguem o caminho perfeito e andam na lei do
Senhor. Fazei-me compreender o caminho dos vossos preceitos, para meditar nas
vossas maravilhas.
Escolhi o caminho da verdade e decidi-me pelos vossos
juízos. Dai-me entendimento para guardar a vossa lei e para a cumprir de todo o
coração.
Conduzi-me pela senda dos vossos mandamentos, porque nela
estão as minhas delícias. Quero cumprir fielmente a vossa lei, agora e para
sempre.
Evangelho (Lc 8,19-21): Naquele
tempo, sua mãe e seus irmãos vieram ter com ele, mas não podiam se aproximar,
por causa da multidão. Alguém lhe comunicou: Tua mãe e teus irmãos estão lá
fora e querem te ver. Ele respondeu: Minha mãe e meus irmãos são estes aqui,
que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática.
Hoje, lemos uma formosa passagem do Evangelho. Jesus não
ofende, de modo algum, a Sua Mãe, já que Ela é a primeira a escutar a Palavra
de Deus e dela nasce Aquele que é a Palavra. E, simultaneamente, Ela é a que
mais perfeitamente cumpriu a vontade de Deus: Eis aqui a serva do Senhor.
Faça-se em mim segundo a tua palavra (Lc 1,38), responde ao anjo na Anunciação.
Jesus revela-nos de que precisamos, também nós, para chegar
a ser seus familiares: Aqueles que ouvem...(Lc 8,21) e, para ouvir é necessário
que nos aproximemos, tal como os seus familiares, que chegaram até onde Ele
estava, mas não podiam aproximar-se por causa da multidão. Os familiares
esforçam-se por se aproximar, seria conveniente que nos perguntássemos se
lutamos e procuramos vencer os obstáculos que encontramos na hora de nos
aproximarmos da Palavra de Deus. Dedico, todos os dias, uns minutos a ler, escutar
e meditar a Sagrada Escritura? S. Tomás de Aquino recorda-nos que: é necessário
que meditemos continuamente a Palavra de Deus(...) ; esta meditação ajuda
fortemente na luta contra o pecado.
E, finalmente, cumprir a Palavra de Deus. Não basta escutar
a Palavra; é necessário cumpri-la, se queremos ser membros da família de Deus.
Temos de pôr em prática aquilo que nos diz! Por isso será bom que nos
perguntemos se só obedeço quando aquilo que se me pede me agrada ou é
relativamente fácil, e, pelo contrário, quando há que renunciar ao bem-estar,
ao bom nome, aos bens materiais ou ao tempo disponível para o descanso...,
ponho a Palavra entre parêntesis até que cheguem melhores tempos. Peçamos à Virgem
Maria que escutemos como Ela e cumpramos a Palavra de Deus para andarmos assim
no caminho que conduz à felicidade duradoura.
Pensamentos para o Evangelho de hoje
«Ó Filho Único e Verbo de Deus, sendo imortal, vos dignastes por nossa salvação encarnar-vos da Santa Mãe de Deus e sempre Virgem Maria, vós que sem mudança vos tomastes homem e fostes crucificado, ó Cristo Deus, que por vossa morte esmagaste a morte, sois Um da Santíssima Trindade, glorificado com o Pai e o Espírito Santos, salvai-nos!» (São João Crisóstomo)
«Só no Verbo que se fez carne, cujo amor se cumpre na cruz,
a obediência é perfeita» (Bento XVI)
«Pela fé, o homem submete completamente a Deus a
inteligência e a vontade; com todo o seu ser, o homem dá assentimento a Deus
revelador. A Sagrada Escritura chama «obediência da fé» a esta resposta do
homem a Deus revelador (cf. Rom 1,5)» (Catecismo da Igreja Católica, nº 143)
* O evangelho de hoje traz o episódio em que os parentes
de Jesus, inclusive sua mãe, quiseram conversar com ele, mas Jesus não lhes deu
atenção. Jesus teve problemas com a família. Às vezes, a família ajuda a
viver o evangelho e a participar da comunidade. Outras vezes, ela atrapalha.
Assim foi com Jesus e assim é conosco.
* Lucas 8,19-20: A família procura Jesus. Os parentes
chegam na casa onde Jesus estava. Provavelmente tinham vindo de Nazaré. De lá
até Cafarnaum são uns 40 quilômetros. Sua mãe veio junto. Eles não entram, pois
havia muita gente, mas mandam recado: "Tua mãe e teus irmãos estão aí
fora, e querem te ver". Conforme o
evangelho de Marcos, os parentes não querem ver Jesus. Eles querem é levá-lo de
volta para casa (Mc 3,32). Achavam que Jesus tinha enlouquecido (Mc 3,21).
Provavelmente, estavam com medo, pois conforme a história informa, havia uma
vigilância muito grande da parte dos romanos com relação a todos que, de uma ou
de outra maneira, tinha liderança popular (cf. At 5,36-39). Em Nazaré na serra
seria mais seguro do que na cidade de Cafarnaum.
* Lucas 8,21: A resposta de Jesus. A reação de Jesus
é firme: "Minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a Palavra de Deus,
e a põem em prática." Em Marcos a reação de Jesus é mais concreta. Marcos
diz: “Então Jesus olhou para as pessoas que estavam sentadas ao seu redor e disse:
Aqui estão minha mãe e meus irmãos. Quem faz a vontade de Deus, esse é meu
irmão, minha irmã e minha mãe" (Mc 3,34-35). Jesus alargou a família! Ele
não permite que a família o afaste da missão: nem a família (Jo 7,3-6), nem
Pedro (Mc 8,33), nem os discípulos (Mc 1,36-38), nem Herodes (Lc 13,32), nem
ninguém (Jo 10,18).
* É a palavra de Deus que cria a nova família ao redor de
Jesus: "Minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a Palavra de Deus, e
a põem em prática.". Um bom comentário deste episódio é o que diz o
evangelho de João no prólogo: “A Palavra estava no mundo, o mundo foi feito por
meio dela, mas o mundo não a conheceu. Ela veio para a sua casa, mas os seus
não a receberam. Ela, porém, deu o poder de se tornarem filhos de Deus a todos
aqueles que a receberam, isto é, àqueles que acreditam no seu nome. Estes não
nasceram do sangue, nem do impulso da carne, nem do desejo do homem, mas
nasceram de Deus. E a Palavra se fez homem e habitou entre nós. E nós
contemplamos a sua glória: glória do Filho único do Pai, cheio de amor e
fidelidade” (João 1,10-14). A família, os parentes, não entenderam Jesus (Jo
7,3-5; Mc 3,21), não fazem parte da nova família. Só fazem parte da nova
comunidade aqueles e aquelas que recebem a Palavra, isto é, que acreditam em
Jesus. Estes nascem de Deus e formam a Família de Deus.
* A situação da família no tempo de Jesus. No tempo
de Jesus, tanto a conjuntura política, social e econômica como a ideologia
religiosa, tudo conspirava para o enfraquecimento dos valores centrais do clã,
da comunidade. A preocupação com os problemas da própria família impedia as
pessoas de se unirem em comunidade. Ora, para que o Reino de Deus pudesse
manifestar-se, novamente, na convivência comunitária do povo, as pessoas tinham
de ultrapassar os limites estreitos da pequena família e abrir-se para a grande
família, para a Comunidade. Jesus deu o exemplo. Quando sua própria família
tentou apoderar-se dele, reagiu e alargou a família (Mc 3,33-35). Criou
comunidade.
* Os irmãos e as irmãs de Jesus. A expressão “irmãos
e irmãs de Jesus” é causa de muita polêmica entre católicos e protestantes.
Baseando-se neste e em outros textos, os protestantes dizem que Jesus teve mais
irmãos e irmãs e que Maria teve mais filhos! Os católicos dizem que Maria não teve
outros filhos. O que pensar disso? Em
primeiro lugar, as duas posições, tanto dos católicos como dos protestantes,
ambas têm argumentos tirados da Bíblia e da Tradição das suas respectivas
Igrejas. Por isso, não convém brigar nem discutir esta questão com argumentos
só de cabeça. Pois trata-se de convicções profundas, que têm a ver com a fé e
com o sentimento de ambos. Argumento só de cabeça não consegue desfazer uma
convicção do coração! Apenas irrita e afasta! Mesmo quando não concordo com a
opinião do outro, devo sempre respeitá-la. Em segundo lugar, em vez de brigar
em torno de textos, nós todos, católicos e protestantes, deveríamos unir-nos
bem mais para lutar em defesa da vida, criada por Deus, vida tão desfigurada
pela pobreza, pela injustiça, pela falta de fé. Deveríamos lembrar algumas
outras frases de Jesus: “Eu vim para que todos tenham vida, e a tenham em
abundância”(Jo 10,10). “Que todos sejam um, para que o mundo creia que Tu, Pai,
me enviaste”(Jo 17,21). “Não o impeçam! Quem não é contra nós é a favor”(Mc
10,39.40).
Para um confronto pessoal
1. A família ajuda ou dificulta a sua participação na comunidade cristã?
2. Como você assume o seu compromisso na comunidade cristã sem prejudicar nem a família e nem a comunidade?
R. Conduzi-me, Senhor, pelo caminho dos vossos mandamentos.
Aleluia. Felizes os que ouvem a palavra de Deus e a põem
em prática. Aleluia.
«Minha mãe e meus irmãos são estes aqui, que ouvem a
Palavra de Deus e a põem em prática»
Rev. D. Xavier JAUSET i Clivillé (Lleida, Espanha)
«Ó Filho Único e Verbo de Deus, sendo imortal, vos dignastes por nossa salvação encarnar-vos da Santa Mãe de Deus e sempre Virgem Maria, vós que sem mudança vos tomastes homem e fostes crucificado, ó Cristo Deus, que por vossa morte esmagaste a morte, sois Um da Santíssima Trindade, glorificado com o Pai e o Espírito Santos, salvai-nos!» (São João Crisóstomo)
Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm.
1. A família ajuda ou dificulta a sua participação na comunidade cristã?
2. Como você assume o seu compromisso na comunidade cristã sem prejudicar nem a família e nem a comunidade?
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