Aderir ao Deus
vivo, único Absoluto, como o Tudo da nossa vida
Do Roteiro de Formação da OTC de
Faro, Portugal.
1.
«Vive Deus, em cuja presença eu estou» (1Rs 17,1) e «Eis a escrava do Senhor: faça-se
em mim segundo a Tua Palavra» (Lc 1,38), são as primeiras declarações
pessoais das duas grandes figuras inspiradoras do Carmelo: o profeta Elias e
Nossa Senhora, respectivamente. Em ambas aparece bem claro que a dimensão mais
importante e central das suas vidas, a primeira, mais radical e totalizadora
exigência do seu coração é o Absoluto de Deus. No caso de Elias, essa relação é
expressa com um vocabulário cultual: Elias está totalmente devotado ao serviço
de Deus, como Seu enviado, promovendo o Seu culto verdadeiro, no vasto templo
da presença de Deus que é o mundo. Maria, por sua parte, exprime num
vocabulário esponsal a Sua adesão total à vontade de Deus como o Seu único
Senhor (cf. Rt 3,9; 1Sm 25,41). Tal é o sinal distintivo do verdadeiro crente,
viver o primeiro mandamento como compromisso fundamental de toda a sua
existência, como Jesus disse: «o primeiro mandamento é este: “Escuta,
Israel: O Senhor nosso Deus é o único Senhor. Amarás o Senhor, teu Deus, de
todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e com todas
as tuas forças”» (Mc 12,29-30).
Este
imperativo fundamental da vida do cristão, constitui o coração da
espiritualidade carmelita. A ele se dedica o primeiro artigo da Regra e também
o primeiro artigo referente à espiritualidade do Terceiro Carmelita:
A
vida espiritual – ou seja, a vida segundo o Espírito – começa com a iniciativa
do Pai, que, mediante o Filho e no Espírito Santo, dá a cada homem e a cada
mulher a sua vida e santidade, chamando cada um a viver numa misteriosa relação
de comunhão com as pessoas da Santíssima Trindade. Deus vem à procura de cada
pessoa, atraindo-a a si através do seu Filho (Os 2,16; Jo 6,43); o Espírito faz
com que dirija a sua atenção para Ele, escute a sua voz, acolham a sua Palavra,
se abra à sua ação transformadora. A busca de Deus por parte de um carmelita
secular e a sua obediência ao senhorio de Nosso Senhor Jesus Cristo é uma
resposta, impelida pelo Espírito, à sua voz no diálogo fraterno que ele
estabelece com cada um através do Verbo que se fez carne (RTOC 17).
2.
Ser Terceiro Carmelita é, como vimos, uma vocação, a resposta a um chamamento
especial de Deus. Nela é sempre Deus que tem a iniciativa: «Nós amamos, porque Ele nos amou
primeiro» (1Jo 4,19; cf. Gn 12,1-3; Mc 3,13; Jo 15,16; etc.). É
precisamente isto que diferencia o cristianismo das outras religiões: nestas
exprime-se «a busca de Deus por parte do homem. No cristianismo, o ponto de
partida está na Encarnação do Verbo. Aqui, não é apenas o homem a procurar
Deus, mas é Deus que vem em pessoa falar de Si ao homem e mostrar-lhe o
caminho, por onde é possível atingi-lo. […] O Verbo Encarnado é, por
conseguinte, o cumprimento do anelo presente em todas as religiões da
humanidade: este cumprimento é obra de Deus e ultrapassa toda a expectativa
humana. É mistério de graça» (JOÃO PAULO II, Carta apostólica Às portas
do Terceiro Milênio, 6).
A
vocação é, pois, um mistério de graça e de amor. Deus chama porque ama; porque
ama a quem chama, Deus quer antes de mais ter com essa pessoa uma relação
pessoal; e Deus chama essa pessoa a ter uma relação pessoal com Ele, porque lhe
quer confiar uma missão, porque quer que ela desempenhe essa missão em seu nome
como seu íntimo colaborador, num compromisso pessoal.
Ao
longo de todos os tempos Deus chamou muitas pessoas para terem uma relação
especial com Ele e desempenharem uma determinada missão. Entre elas, Maria foi
a eleita de Deus, chamada para a missão mais sublime e necessária: a Encarnação
de Cristo e a cooperação com Ele na obra de redenção da humanidade. É
exatamente neste processo de redenção do homem e de toda a humanidade que nós,
cristãos, estamos envolvidos. No caso dos Terceiros Carmelitas, Deus, por
intermédio de Cristo e de Maria, chama um grande número de fiéis a colaborar de
uma maneira mais estreita na obra da redenção da humanidade.
3.
O chamamento de Deus deve ter uma resposta que, para ser do Seu agrado, deve
também ser livre, amorosa, pessoal e, por isso mesmo, comprometida. Deus chama,
mas não força: e, se correspondido, dá também os meios, através das graças e
virtudes (sobretudo a fé, esperança e caridade); ilumina a mente e fortifica a
vontade do chamado para que ele assuma livre e deliberadamente os compromissos
da OTC.
Ora,
qual é o compromisso fundamental do Terceiro carmelita? Viver de maneira
intensa a vida evangélica. Os Carmelitas, religiosos e leigos, por uma
particularidade decorrente da própria Regra primitiva de S. Alberto, são
pessoas que se preocupam e ocupam em «meditar dia e noite na Lei do Senhor»
(R 10), Lei esta que está expressa na Bíblia e particularmente nos Evangelhos.
Uma Lei que não é mera letra, mas Espírito que dá a vida: esta Lei é Cristo
Jesus, Evangelho vivo do Pai, que liberta e anima toda a existência dos n’Ele crêem
por meio do Espírito Santo (2Cor 3,17s; Gl 5,1; Tg 1,25).
4.
É, portanto na Sagrada Escritura que o Terceiro carmelita vai procurar os
elementos que o hão de guiar na sua caminhada. Mas a Sagrada Escritura não
apresenta um itinerário já pronto, que o ensine ou exercite nessa caminhada.
Por isso, cada Terceiro deve descobrir, através da partilha com os seus irmãos,
e se preciso, com a orientação de uma pessoa experimentada, as coordenadas que
o levarão a seguir de perto os passos de Nosso Senhor, abrindo-se de mente e
coração à luz do Espírito Santo, a cujo influxo se submete.
Qual
é o ponto de partida nesta caminhada? O ponto de partida é a descoberta de
Deus, tal como Ele é, no seu mistério profundo; o Deus que se revela a toda a
pessoa que se despoja de si mesmo e que se apresenta a Ele pobre, carente de
tudo, como quem corre em busca de um grande tesouro (Mt 13,44-46). Nessa
corrida, depara-se com um mundo de coisas, de pessoas, que admiradas ou mesmo
possuídas, por mais valiosas ou encantadoras que sejam, representam sempre um
valor muito relativo. O Carmelita, no entanto, é chamado por vocação a buscar
não o relativo, mas o Absoluto. Esse mesmo Absoluto de quem fala a Regra logo
no primeiro artigo: «Deus quis fazer-se conhecer e revelou-se, envolvendo a humanidade num
diálogo feito de amor e de misericórdia. Fez-nos conhecer o seu desejo de
comunhão, chamando homens e mulheres a participarem da sua vida. Este projeto
realiza-se, por meio do Espírito Santo, em Cristo, Palavra definitiva e suprema
do Pai, além da qual Deus nada mais tem a revelar» (ROTC 1; cf. DV 2;
S. JOÃO DA CRUZ, 2 Subida 22,5-6).
Por
isso, a primeira coisa que o Terceiro Carmelita faz é reconhecer que Deus é
amor: «Nós reconhecemos e acreditamos no amor que Deus nos tem. Deus é amor,
e quem permanece no amor permanece em Deus, e Deus nele» (1Jo 4,16; cf.
Ex 34,6-7). Mais: com S. Teresinha do Menino Jesus, o Terceiro sabe que Deus é
Amor Misericordioso (cf. História de uma alma, MA 84r) a quem gozosamente pode
abrir todo o seu ser, abandonar-se com total confiança, com toda a humildade e
simplicidade, como as criancinhas. Tal é o caminho da infância espiritual que
S. Teresinha nos veio ensinar:
Quero
procurar o meio de ir para o céu por um caminho muito reto, muito curto, um
caminho totalmente novo. Estamos num século de invenções, agora já não é
necessário ter o trabalho de subir os degraus de uma escada; na casa dos ricos,
ela é substituída vantajosamente por um elevador... Então procurei nos Livros
sagrados a indicação do elevador, objeto do meu desejo, e li estas palavras,
saídas da boca da Sabedoria Eterna: «Se alguém for pequenino, venha a mim» (Pr
9,4)... Querendo saber, ó meu Deus, o que faríeis ao pequenino que respondesse
ao vosso apelo, continuei as minhas pesquisas e eis o que encontrei: «Como uma
mãe acaricia o seu filho, assim Eu vos consolarei, levar-vos-ei ao meu peito e
embalar-vos-ei no meu colo» (Is 66,13.12; Sl 88,2). Ah! Nunca palavras tão
ternas, tão melodiosas tinham alegrado a minha alma: o elevador que me deve
alçar até ao céu são os vossos braços, ó Jesus! Para isso, não preciso crescer;
pelo contrário, devo continuar pequena, devo sê-lo cada vez mais” (MC 2v-3r).
Assim,
o Terceiro Carmelita vive como realidade pessoal o Amor Misericordioso de Deus
Pai para com Ele na base da confiança e total abandono, certo de que «tudo
contribui para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados, de
acordo com o seu desígnio» (Rm 8,28) e de que nada, nenhuma realidade ou
criatura «nos poderá separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus, Senhor
nosso» (Rm 8,39). Como Jesus disse à Samaritana: «Vós adorais O que não conheceis;
nós adoramos O que conhecemos... Chega a hora - e é já - em que os verdadeiros
adoradores hão de adorar o Pai em espírito e verdade, pois são assim os
adoradores que o Pai pretende. Deus é Espírito; por isso, os que o adoram devem
adorá-lo em espírito e verdade» (Jo 4,22-24). Com S. Maria Madalena de’
Pazzi e S. Teresinha o Terceiro constata e sabe que «Tudo é graça!», tendo
como única intenção e objetivo fundamental de toda a sua vida amar o Deus vivo
e verdadeiro, procurando agradar-Lhe em tudo (1Ts 4,21; Gl 1,10; cf. Jo 8,29;
Hb 11,6).
5.
O meio admirável pelo qual chegamos a tão grande certeza é o Batismo, que nos
concede o dom da fé e nos introduz, pelo Espírito Santo, na intimidade da vida
divina, gerando-nos como filhos adotivos de Deus (cf. Rm 8,15; Gl 4,6) e irmãos
de Cristo. Assim, para chegar à realidade concreta da descoberta do Absoluto de
Deus na nossa vida é preciso antes de mais descobrir e viver o nosso batismo:
«Pelo sacramento do Batismo os homens são introduzidos na vida divina,
tornando-se, no Espírito Santo, filhos adotivos do Pai e irmãos de Cristo,
aptos a fazerem parte da imensa assembleia fraterna da Igreja, povo de Deus, sacramento,
sinal e instrumento de íntima união com Deus e de unidade de todo o gênero
humano” (LG 2)» (ROTC 1).
Por
isso, na esteira de S. Teresinha do Menino Jesus, o Terceiro Carmelita sabe que
ser santo é deixar que o Deus santo seja santo em si, manifeste, reine e domine
com a sua santidade, toda feita de amor e misericórdia, nele: «Sede
santos, porque Eu sou santo » (Lv 20,26; 1Pd 1,16), significa para ele:
«Sede
perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito» (Mt 5,48) no amor e na
comunhão, e «Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso» (Lc
6,36), nas relações e atitudes para consigo mesmo e com o próximo.
6.
Para isto ser possível, a espiritualidade carmelita insiste no imperativo de
criar silêncio e espaço dentro de si para Deus, esvaziando-se de si mesmo para
Deus: vacare Deo (Sl 46,11). O carmelita esvazia-se de tudo o que não é Deus,
abandonando-se a Ele, confiando-Lhe tudo, deixando que Deus seja Deus, deixando
seja só Ele a reinar no seu ser e em toda a sua vida: «Procurai em primeiro lugar o
Reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais se vos dará por acréscimo»
(Mt 6,33; ler: Sl 37,3-7; Sir 2,1-9).
Com
S. Teresa de Jesus, ele aprende a dizer em tudo: «Só Deus basta». Com S.
João da Cruz sabe que o seu Tudo só pode ser Deus. E assim como para entrar na
posse desse Tudo é preciso morrer a nós mesmos, deixando a nossa existência
terrena e tudo o que nos pertence, assim também para possuí-lo agora, já aqui
na terra, deve morrer a si mesmo e deixar tudo o que não é Deus. Para isso cria
cada dia dentro de si, no seu coração, um espaço de silêncio, vazio de tudo o
que não seja Deus, deixando que Deus seja o único a aí reinar com o Seu amor, a
Sua paz e a Sua Palavra. E procura que cada dia esse espaço seja maior que na
véspera. Mantendo-se tão silencioso, recolhido e unido por amor a Deus no seu
íntimo, mesmo no meio das maiores tempestades ou guerras, como se só Deus e ele
existissem em todo o universo. Porque não é no tumulto da tempestade, mas na
brisa suave e ligeira que o Deus vivo fala, tal como o experimentou o profeta
Elias (1Rs 19,12-13).
Em
tal silêncio interior, o Terceiro Carmelita sai de si mesmo para se recolher,
abismando-se no mais íntimo de si mesmo no oceano imenso do amor divino (cf. B.
Isabel da Trindade), a fim de viver sempre na presença de Deus, escondendo-se
n’Ele e deixando que Ele seja o seu Tudo. Estando sempre atento à Sua voz, para
que Jesus nele encarne e se forme, tal como em Maria: «O Espírito Santo virá sobre ti e
a força do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. Por isso o Santo que nascer
será chamado Filho de Deus» (Lc 1,35).
7.
Ao Terceiro Carmelita recomenda-se, neste sentido, que faça todos os dias, no
silêncio do seu quarto, um exame de consciência:
—
Deus é mesmo, para mim, o Absoluto? Quantas vezes me perdi hoje correndo atrás
do relativo das pessoas e das coisas que me cercam?
—
Consegui recolher-me com Deus dentro de mim, criando para Ele um espaço de
silêncio interior, de paz e abertura um pouco maior onde Ele pode fazer ecoar a
Sua voz e reinar com o Seu amor e a Sua alegria?
—
Como exercitei durante este dia a prática da presença e união com Deus? Vivi no
Seu amor? Procurei agradar-Lhe em tudo?
—
Como me comportei, hoje, no trato com os meus irmãos: em casa? No trabalho? Na
escola? Na Igreja? Em toda a parte? Consegui parecer-me um pouco mais com
Cristo, meu irmão?
–
Procurei viver na mesma união íntima com Cristo, com a Igreja e com toda a
humanidade que teve Nossa Senhora?
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