sábado, 2 de fevereiro de 2013

IV Domingo do Tempo Comum



Jesus, passando pelo meio deles, seguiu o seu caminho.

Sílvio Faria, sdb

Falar em nome de Deus: ser profeta. Incômodo, pertinente, mensageiro autêntico de um Deus de Salvação. Esta é a missão de Jesus Cristo, ontem, hoje e por toda a eternidade.

O mundo hoje tem necessidade de profetas do Evangelho. Também nós somos convidados a ser profetas, a testemunhar o Evangelho com a vida, em todas as situações de cada dia.

EVANGELHO (Lc 4, 21-30) - Naquele tempo, Jesus começou a falar na sinagoga de Nazaré, dizendo: «Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem da Escritura que acabais de ouvir». Todos davam testemunho em seu favor e se admiravam das palavras cheias de graça que saíam da sua boca. E perguntavam: «Não é este o filho de José?» Jesus disse-lhes: «Por certo Me citareis o ditado: ‘Médico, cura-te a ti mesmo’. Faz também aqui na tua terra o que ouvimos dizer que fizeste em Cafarnaum». E acrescentou: «Em verdade vos digo: Nenhum profeta é bem recebido na sua terra. Em verdade vos digo que havia em Israel muitas viúvas no tempo do profeta Elias, quando o céu se fechou durante três anos e seis meses e houve uma grande fome em toda a terra; contudo, Elias não foi enviado a nenhuma delas, mas a uma viúva de Sarepta, na região da Sidônia. Havia em Israel muitos leprosos no tempo do profeta Eliseu; contudo, nenhum deles foi curado, mas apenas o sírio Naamã». Ao ouvirem estas palavras, todos ficaram furiosos na sinagoga. Levantaram-se, expulsaram Jesus da cidade e levaram-n’O até ao cimo da colina sobre a qual a cidade estava edificada, a fim de O precipitarem dali abaixo. Mas Jesus, passando pelo meio deles, seguiu o seu caminho.

SEGUNDA-FEIRA

PALAVRA - Jesus começou a falar na sinagoga de Nazaré, dizendo: «Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem da Escritura que acabais de ouvir».
Continuamos hoje o texto do evangelho que lemos no domingo passado. Jesus está no início da sua vida pública. Na sinagoga de Nazaré lê uma citação do profeta Isaías e "atualizou-a", aplicando o conteúdo da profecia a si mesmo e à sua missão. “Cumprir-se a profecia” é sinal da atuação de Deus. Aplicar esta profecia a Jesus significa reconhecer que Deus “está conosco” no hoje da nossa história.

MEDITAÇÃO
O inicio da pregação de Jesus consiste na proclamação do cumprimento das promessas. A presença de Jesus representava o hoje da salvação, na realização da Escritura que se tinha acabado de ler. Jesus com a sua palavra não se limitava a anunciar, mas atuava a salvação divina, contida nas promessas proféticas. Como se cumpre esta passagem da Escritura na tua vida? Com que sentimentos acolhes a Palavra que Jesus te dirige em cada dia? Deixas que te interpele e te faça viver com nova força?

ORAÇÃO
"Como poderá um jovem manter puro o seu caminho?
Só guardando as tuas palavras.
Eu procuro-te com todo o coração; não deixes que me afaste dos teus mandamentos.
Guardo no meu coração as tuas promessas, para não pecar contra ti.
Bendito sejas, Senhor!
Ensina-me as tuas leis. 
Meditarei nos teus preceitos e prestarei atenção aos teus caminhos. 
Hei de alegrar-me com as tuas leis; não esquecerei as tuas palavras"
(Salmo 118, 9-13.15-16)

AÇÃO
Procura olhar à tua volta e descobrir como é que Deus te fala hoje (não apenas por palavras, mas em tantas situações de profecia e de encontro). Procura escrever o que descobres e fazer da tua descoberta oração e vida.

TERÇA-FEIRA

PALAVRA - Todos davam testemunho em seu favor e se admiravam das palavras cheias de graça que saíam da sua boca. E perguntavam: «Não é este o filho de José?»
A primeira reação dos seus ouvintes é de admiração. As "palavras cheias de graça" designam um discurso carismático ou profético... mas bem depressa sub entram o cepticismo e a inveja: "Não é este o filho de José?". O “filho de José” era conhecido de todos. Jesus, o Messias, realizador das profecias antigas, com “palavras cheias de graça”era-lhes totalmente “Desconhecido”. Por isso ficaram admirados.

MEDITAÇÃO
Os habitantes de Nazaré julgam conhecer Jesus (seu conterrâneo, filho da terra e dos seus) mas, na realidade, não perceberam a profundidade do seu mistério. Ser um “conhecimento” é diferente de “ser amigo”. De “ser amigo” até reconhecer que o “este era na verdade o Filho de Deus” vai uma distância enorme. De sentido e de significado. Daí até à adesão à proposta de Jesus é todo um caminho, que também nós temos de percorrer. Como é que te deixas admirar por Jesus? A sua proposta tem impacto e transforma a tua existência?

ORAÇÃO
Jesus, ensina-me a acolher a tua proposta de salvação... que não é outra coisa que o amor, a caridade. Que possa experimentar como S. Paulo que "a caridade é paciente, a caridade é benigna; não é invejosa, não é altiva nem orgulhosa; não é inconveniente, não procura o próprio interesse; não se irrita, não guarda ressentimento; não se alegra com a injustiça, mas alegra-se com a verdade; tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O dom da profecia acabará, o dom das línguas há de cessar, a ciência desaparecerá; mas a caridade não acaba nunca" (1 Cor 13, 4-13).

AÇÃO
Somos convidados a reviver o amor de Deus que nos é dado sem medida e somos convidados a crescer na caridade na nossa vida, porque sem caridade, a vida não tem sentido. É esta a Boa Nova de Jesus!

QUARTA-FEIRA

PALAVRA - Jesus disse-lhes: «Por certo Me citareis o ditado: ‘Médico, cura-te a ti mesmo’. Faz também aqui na tua terra o que ouvimos dizer que fizeste em Cafarnaum».
Lucas, não nos diz como os conterrâneos de Jesus passaram tão bruscamente do entusiasmo à desconfiança. Questionam-no e querem que repita o que “ouviram dizer” que tinha feito em Cafarnaum. Dúvidas que se dissipam com sinais. Não basta a “Palavra”, é preciso “fazer prova”, que neste contexto, significaria realizar um sinal, um prodígio, um milagre.

MEDITAÇÃO
O provérbio "médico, cura-te a ti mesmo" pressupõe que Jesus tenha feito precedentemente milagres em Cafarnaum. Os habitantes desafiam-no a realizá-los também em Nazaré. Mais que deixar-se interpelar pelas suas palavras, esses estão interessados nos seus milagres. Na “prova evidente”. Esta é a atitude de quem procurava ver Jesus para assistir a coisas espetaculares ou para resolver os seus egoísmos. Quem é, afinal, o nosso Deus? O Deus de quem esperamos espetáculo em nosso favor, ou o Deus que em Jesus nos apresenta uma proposta de salvação que exige renovar o nosso cada dia?

ORAÇÃO
Senhor, com todo o amor que temos e toda a fé que nos deste, oferecemos-Te as nossas mãos e os nossos pés; as nossas mentes e corações, e todo o nosso ser, para que, por meio da nossa vida Tu continues a fazer-te presente neste mundo e todos os nossos irmãos possam chegar a descobrir-Te, pelo menos do mesmo modo como nós te descobrimos.

AÇÃO
Nenhum médico se cura a si mesmo: faz-se valer de outros que com neutralidade façam diagnósticos e tratem a doença. Procura hoje curar-te dos teus egoísmos, curando alguém que precise desse teu sinal e prodígio de comunhão e fé.

QUINTA-FEIRA

PALAVRA - E acrescentou: “Em verdade vos digo: Nenhum profeta é bem recebido na sua terra”.
Respondendo com este provérbio Jesus demonstra ser consciente que esta situação de recusa para com a sua pessoa se sucede ao que aconteceu sempre na história do povo eleito com os profetas. Conhecemos a história dos profetas. Jeremias fala-nos disto mesmo. A experiência de Jeremias atingirá a máxima expressão em Jesus profeta definitivo de Deus.

MEDITAÇÃO
Os profetas não são bem recebidos em quase “nenhuma terra”. A voz do profeta é incomoda e pouco agradável para os ouvidos pouco disponíveis a receber a mensagem de Deus. Jesus propõe também caminhos de mudança, abrindo os horizontes a um mundo diferente. A sua mensagem também para nós se torna incômoda e diferente. E se não tivermos um coração que acolha o dom de si oferecido para nossa alegria, poremos reticências, limites e reservas ao seu projeto de profecia em construção perene. Pelo Batismo, também nós fomos constituídos Profetas... que significa isto para mim? Como vivo no meu dia-a-dia a minha vocação de (ser) profeta?

ORAÇÃO
Acolhe, medita e reza as palavras que Deus, ontem como hoje, dirige aos seus profetas: «Antes de te formar no ventre materno, Eu te escolhi; antes que saísses do seio de tua mãe, Eu te consagrei e te constituí profeta entre as nações. Cinge os teus rins e levanta-te, para ires dizer tudo o que Eu te ordenar. Não temas diante deles, senão serei Eu que te farei temer a sua presença. Hoje mesmo faço de ti uma cidade fortificada, uma coluna de ferro e uma muralha de bronze, diante de todo este país, dos reis de Judá e dos seus chefes, diante dos sacerdotes e do povo da terra. Eles combaterão contra ti, mas não poderão vencer-te, porque Eu estou contigo para te salvar». (Jer 1, 5.17-19).

AÇÃO

Ser profeta implica uma constante e progressiva intimidade com Deus... que passa pelo teu testemunho no cumprimento dos teus deveres quotidianos, pela tua capacidade de "ganhar" para Deus aqueles com quem convives, mantendo um constante diálogo com Deus que se renova especialmente nos momentos de oração.

SEXTA-FEIRA

PALAVRA - “Em verdade vos digo que havia em Israel muitas viúvas no tempo do profeta Elias, quando o céu se fechou durante três anos e seis meses e houve uma grande fome em toda a terra; contudo, Elias não foi enviado a nenhuma delas, mas a uma viúva de Sarepta, na região da Sidônia. Havia em Israel muitos leprosos no tempo do profeta Eliseu; contudo, nenhum deles foi curado, mas apenas o sírio Naamã”.
Imitando os profetas e perante a adversidade dos habitantes de Nazaré, Jesus proclama a universalidade da sua mensagem. Elias e Eliseu também foram enviados para além das fronteiras do povo de Israel ao encontro de pessoas com o coração disposto à conversão.

MEDITAÇÃO
A rejeição dos profetas foi uma ocasião para Deus se manifestar e salvar quantos não pertenciam a Israel, porque os “seus não o escutaram”. Os exemplos estrangeiros fazem ver como a conversão anunciadora de caminhos novos para todos os homens, mesmo os que não pertenciam ao “exclusivo e único” povo de Israel. Devemos também nós interrogar-nos se hoje, como comunidade cristã somos capazes de profecia, se somos conscientes, que além da aparente indiferença do mundo, Deus continua a interpelar tantos homens e mulheres com o nosso testemunho à espera de estrangeiros disponíveis para O acolherem se andarmos demasiado ocupados com as coisas que não nos levam ao encontro de Deus.

ORAÇÃO
"Sois Vós, Senhor, a minha esperança,/ a minha confiança desde a juventude.
Desde o nascimento Vós me sustentais,/ desde o seio materno sois o meu protetor.
A minha boca proclamará a vossa justiça,/ dia após dia a vossa infinita salvação.
Desde a juventude Vós me ensinais/e até hoje anunciei sempre os vossos prodígios." (do Salmo 70)

AÇÃO
Hoje, na minha pausa contemplativa, procurarei aplicar estas palavras de Jesus a mim mesmo, deixando espaço em mim para reconhecer como sou predileto/a de Deus, mas também capaz da profecia, do anúncio, da novidade de Deus no aqui e agora da nossa história.

SÁBADO

PALAVRA - Ao ouvirem estas palavras, todos ficaram furiosos na sinagoga. Levantaram-se, expulsaram Jesus da cidade e levaram-n’O até ao cimo da colina sobre a qual a cidade estava edificada, a fim de O precipitarem dali abaixo. Mas Jesus, passando pelo meio deles, seguiu o seu caminho.
As palavras de Jesus provocaram a indignação e a fúria dos seus conterrâneos. As afirmações de Jesus eram uma "bofetada" para o nacionalismo exasperado dos judeus. Tinham compreendido que a sua missão superava os limites confinados a Israel e era destinada a todas as nações. A reação de Jesus é violenta: rejeitam Jesus e o seu programa de libertação, tentando precipitá-lo desde um monte.

MEDITAÇÃO
No entanto, Jesus "escapa" misteriosamente à morte. É impossível bloquear o processo de libertação que começou com o anúncio do seu Evangelho. O Evangelho testemunha-nos que os profetas, apesar de tudo, continuam (e continuarão) a passar pelo meio de nós: seja que os reconheçamos para nos deixar converter, seja que os procuremos para fazê-los calar...
O caminho do profeta é um caminho onde se lida, permanentemente, com a incompreensão, com o risco... É no entanto, um caminho que Deus nos chama a percorrer na fidelidade à sua Palavra. Temos a coragem de seguir este caminho?

ORAÇÃO
Que eu possa, Senhor, aproximar-me de todos os que estão afastados; de todos os que estão perdidos, abandonados, marginalizados...  para que nenhum dos que estão a meu lado passe por esta vida sem ter escutado a tua Palavra.

AÇÃO
Trata de aprender a acolher, amar, escutar Jesus, o verdadeiro profeta que traz a verdade de Deus, do homem, da história, da vida. …

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Renovação dos votos na Ordem Terceira do Carmo



Queridos irmãos no Carmelo.
Neste dia 2 de fevereiro, quando celebramos a solenidade da Apresentação do Senhor no Templo por sua Mãe SSma, renovemos com ela e por ela, os nossos votos a Deus, na Ordem do Carmo, pedindo a Jesus que, pelo amor de Maria, nos faça fiéis até a morte às promessas que fizemos em nossa profissão religiosa.
 ORAÇÃO A NOSSA SENHORA DAS CANDEIAS

Ó Maria, por quem nos é dado Jesus Cristo, a Luz do mundo:
abri-nos os olhos da fé 
para não cairmos na escuridão do pecado e do erro;
aconselhai-nos nos momentos difíceis,
para não nos desviarmos do caminho que nos leva à Luz eterna;
iluminai-nos nas dúvidas e incertezas com a luz da Verdade,
para que possamos ser sempre fiéis ao Evangelho;
inflamai o nosso coração com o fogo do vosso amor,
para sempre amarmos Jesus
e torná-lo amado por todos.
Nós vos pedimos também
por aqueles que perderam a luz da fé
e pelos que ainda não foram iluminados
pela luz do vosso Filho,
a quem buscam sinceramente
em meio às trevas da ignorância.
Mãe de Deus das Candeias
livrai-nos de toda cegueira espiritual e corporal,
para que nos tornemos,
e de fato sejamos,
luz para o mundo,
conforme o desejo de vosso Filho Jesus.

RENOVAÇÃO DOS VOTOS
Eu, ...,  renovo meus votos de pobreza, castidade e obediência a Deus, à Bem-aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo e ao reverendíssimo padre Fernando Millan, Prior Geral da Ordem dos Irmãos da mesma Bem-aventurada Virgem Maria e seus sucessores, segundo a Regra e as Constituições da Ordem Terceira do Carmo, até a morte.

2 de fevereiro: A Apresentação do Senhor




Evangelho (Lc 2,22-40): E quando se completaram os dias da purificação, segundo a lei de Moisés, levaram o menino a Jerusalém para apresentá-lo ao Senhor, conforme está escrito na Lei do Senhor: «Todo primogênito do sexo masculino será consagrado ao Senhor”. Para tanto, deviam oferecer em sacrifício um par de rolas ou dois pombinhos, como está escrito na Lei do Senhor. Ora, em Jerusalém vivia um homem piedoso e justo, chamado Simeão, que esperava a consolação de Israel. O Espírito do Senhor estava com ele. Pelo próprio Espírito Santo, ele teve uma revelação divina de que não morreria sem ver o Ungido do Senhor. Movido pelo Espírito, foi ao templo. Quando os pais levaram o menino Jesus ao templo para cumprirem as disposições da Lei, Simeão tomou-o nos braços e louvou a Deus, dizendo: «Agora, Senhor, segundo a tua promessa, deixas teu servo ir em paz, porque meus olhos viram a tua salvação, que preparaste diante de todos os povos: luz para iluminar as nações e glória de Israel, teu povo». O pai e a mãe ficavam admirados com aquilo que diziam do menino. Simeão os abençoou e disse a Maria, a mãe: «Este menino será causa de queda e de reerguimento para muitos em Israel. Ele será um sinal de contradição — e a ti, uma espada traspassará tua alma! — e assim serão revelados os pensamentos de muitos corações». Havia também uma profetisa, chamada Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser. Ela era de idade avançada. Quando jovem, tinha sido casada e vivera sete anos com o marido. Depois ficara viúva e agora já estava com oitenta e quatro anos. Não saía do templo; dia e noite servia a Deus com jejuns e orações. Naquela hora, Ana chegou e se pôs a louvar Deus e a falar do menino a todos os que esperavam a libertação de Jerusalém. Depois de cumprirem tudo conforme a Lei do Senhor, eles voltaram para Nazaré, sua cidade, na Galileia. O menino foi crescendo, ficando forte e cheio de sabedoria. A graça de Deus estava com ele».

Comentário: Rev. D. Lluís RAVENTÓS i Artés (Tarragona, Espanha)

Agora, Senhor, segundo a tua promessa, deixas teu servo ir em paz, porque meus olhos viram a tua salvação.

 Hoje, aguentando o frio do inverno, Simeão aguarda a chegada do Messias. Há quinhentos anos, quando se começava a levantar o Templo, houve uma penúria tão grande que os construtores se desanimaram. Foi então quando Ageu profetizou: «O esplendor desta casa sobrepujará o da primeira - oráculo do Senhor dos exércitos» (Ag 2,9); e completou que «sacudirei todas as nações, afluirão riquezas de todos os povos e encherei de minha glória esta casa, diz o Senhor dos exércitos» (Ag 2,7). Frase que admite diversos significados: «o mais apreciado», dirão alguns, «o desejado de todas as nações», afirmará são Jerônimo.

A Simeão «Fora-lhe revelado pelo Espírito Santo que não morreria sem primeiro ver o Cristo do Senhor» (Lc 2,26), e hoje, «movido pelo Espírito», subiu ao Templo. Ele não é levita, nem escriba, nem doutor da Lei, é somente um homem «Ora, havia em Jerusalém um homem chamado Simeão. Este homem, justo e piedoso, esperava a consolação de Israel, e o Espírito Santo estava nele» (Lc 2,25) O vento sopra onde quer e ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai. Assim é também todo aquele que nasceu do Espírito”. (cf. Jo 3,8).

Agora comprova com desconcerto que não se tem feito nenhum preparativo, não se veem bandeiras, nem grinaldas, nem escudos em nenhum lugar. José e Maria cruzam a explanada levando o Menino nos braços. «Levantai, ó portas, os vossos frontões, erguei-vos, portas antigas, para que entre o rei da glória» (Sal 24,7), clama o salmista.

Simeão avança para saudar a Mãe com os braços estendidos, recebe ao Menino e abençoa a Deus, dizendo: «Agora, Senhor, deixai o vosso servo ir em paz, segundo a vossa palavra. Porque os meus olhos viram a vossa salvação. Que preparastes diante de todos os povos, como luz para iluminar as nações, e para a glória de vosso povo de Israel» (Lc 2,29-32).

Depois diz a Maria: «E uma espada traspassará a tua alma!» (Lc 2,35). Mãe! —digo-lhe— quando chegue o momento de ir à casa do Pai, leva-me nos braços como Jesus, que também eu sou teu filho e menino.

Reflexão de Frei Carlos Mesters, Ocarm

Reflexão

* Os primeiros dois capítulos do Evangelho de Lucas, escrito na metade dos anos 80, não são história no sentido em que nós hoje entendemos a história. Funcionam muito mais como espelho, onde os cristãos convertidos do paganismo descobriam que Jesus tinha vindo realizar as profecias do Antigo Testamento e atender às mais profundas aspirações do coração humano. São também símbolo e espelho do que estava acontecendo entre os cristãos do tempo de Lucas. As comunidades vindas do paganismo tinham nascido das comunidades dos judeus convertidos, mas eram diferentes. O Novo não correspondia ao que o Antigo imaginava e esperava. Era "sinal de contradição" (Lc 2,34), causava tensões e era fonte de muita dor. Na atitude de Maria, imagem do Povo de Deus, Lucas apresenta um modelo de como perseverar no Novo, sem ser infiel ao Antigo.

* Nestes dois primeiros capítulos do evangelho de Lucas tudo gira em torno do nascimento de duas crianças: João e Jesus. Os dois capítulos nos fazem sentir o perfume do Evangelho de Lucas. Neles, o ambiente é de ternura e de louvor. Do começo ao fim, se louva e se canta a misericórdia de Deus: os cânticos de Maria (Lc 1,46-55), de Zacarias (Lc 1,68-79), dos anjos (Lc 2,14), de Simeão (Lc 2,29-32). Finalmente, Deus chegou para cumprir suas promessas, e Ele as cumpre em favor dos pobres, dos anawim, dos que souberam perseverar e esperar pela sua vinda: Isabel, Zacarias, Maria, José, Simeão, Ana, os pastores.

* Os capítulos 1 e 2 do Evangelho de Lucas são muito conhecidos, mas pouco aprofundados. Lucas escreve imitando os escritos do AT. É como se os primeiros dois capítulos do seu evangelho fossem o último capítulo do AT que abre a porta para a chegada do Novo. Estes dois capítulos são a dobradiça entre o AT e o NT. Lucas quer mostrar como as profecias estão se realizando. João e Jesus cumprem o Antigo e iniciam o Novo.

* A insistência de Lucas em dizer que Maria e José cumpriram tudo aquilo que a Lei prescreve evoca o que Paulo escreveu na carta aos Gálatas: “Quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou o seu Filho. Ele nasceu de uma mulher, submetido à Lei para resgatar aqueles que estavam submetidos à Lei, a fim de que fôssemos adotados como filhos” (Gal 4,4-5).

* A história do velho Simeão ensina que a esperança, mesmo demorada, um dia se realiza. Ela não se frustra nem se desfaz. Mas a forma de ela realizar-se nem sempre corresponde à maneira como a imaginamos. Simeão esperava o Messias glorioso de Israel. Chegando ao templo, no meio de tantos casais que trazem seus meninos ao templo, ele vê um casal pobre lá de Nazaré. É neste casal pobre com seu menino ele vê a realização da sua esperança e da esperança do povo: “Meus olhos viram a tua salvação, que preparaste diante de todos os povos: luz para iluminar as nações e glória do teu povo, Israel."

* No texto do evangelho deste dia, aparecem os temas preferidos de Lucas, a saber, uma grande insistência na ação do Espírito Santo, na oração e no ambiente orante, uma atenção contínua à ação e à participação das mulheres, e uma preocupação constante com os pobres e com a mensagem a ser dada aos pobres.

* Lucas 2,36-37: A vida da profetisa Ana. “Havia também uma profetisa chamada Ana, de idade muito avançada. Ela era filha de Fanuel, da tribo de Aser. Tinha-se casado bem jovem, e vivera sete anos com o marido. Depois ficou viúva, e viveu assim até os oitenta e quatro anos. Nunca deixava o Templo, servindo a Deus noite e dia, com jejuns e orações”. Como Judite (Jd 8,1-6), Ana é viúva. Como Débora (Jz 4,4), ela é profetisa. Isto é, pessoa que comunica algo de Deus e que tem uma abertura especial para as coisas da fé a ponto de poder comunicá-las aos outros. Ana casou jovem, viveu em casamento durante sete anos, ficou viúva e continuou dedicada a Deus até oitenta e quatro anos. Hoje, em quase todas as nossas comunidades, no mundo inteiro, você encontra um grupo de senhoras de idade, muitas delas viúvas, cuja vida se resume em rezar e marcar presença nas celebrações e em servir ao próximo.

* Lucas 2,38: Ana e o menino Jesus. “Ela chegou nesse instante, louvava a Deus, e falava do menino a todos os que esperavam a libertação de Jerusalém”. Chegou ao templo no momento em que Simeão abraçava o menino e conversava com Maria sobre o futuro do menino (Lc 2,25-35). Lucas sugere que Ana participou neste gesto. O olhar de Ana é um olhar de fé. Ela vê um menino nos braços de sua mãe, e descobre nele o Salvador do mundo.

* Lucas 2,39-40: A vida de Jesus em Nazaré. ”Quando acabaram de cumprir todas as coisas, conforme a Lei do Senhor, voltaram para Nazaré, sua cidade, que ficava na Galileia. O menino crescia e ficava forte, cheio de sabedoria. E a graça de Deus estava com ele”. Nestas poucas palavras, Lucas comunica algo do mistério da encarnação. “A Palavra de fez carne e veio morar entre nós” (Jo 1,14). O Filho de Deus tornou-se igual a nós em tudo e assumiu a condição de servo (Filp 2,7). Foi obediente até a morte e morte de cruz (Filp 2,8). Dos trinta e três anos que viveu entre nós, trinta foram vividos em Nazaré. Se você quiser saber como foi a vida do Filho de Deus durante os anos que ele viveu em Nazaré, procure conhecer a vida de qualquer nazareno daquela época, mude o nome, coloque Jesus e você terá a vida do Filho de Deus durante trinta dos trinta e três anos da sua vida, igual a nós em tudo, menos no pecado (Hb 4,15). Nestes trinta anos da sua vida, “o menino crescia e ficava forte, cheio de sabedoria. E a graça de Deus estava com ele”. Em outro lugar Lucas afirma a mesma coisa com outras palavras. Ele diz que o menino “crescia em sabedoria, idade e tamanho diante de Deus e dos homens” (Lc 2,52). Crescer em Sabedoria significa assimilar os conhecimentos, a experiência humana acumulada ao longo dos séculos: os tempos, as festas, os remédios, as plantas, as orações, os costumes, etc. Isto se aprende vivendo e convivendo na comunidade natural do povoado. Crescer em Tamanho significa nascer pequeno, crescer aos poucos e ficar adulto. É o processo de cada ser humano com suas alegrias e tristezas, descobertas e frustrações, raivas e amores. Isto se aprende vivendo e convivendo na família com os pais, os irmãos e irmãs, os tios, os parentes. Crescer em Graça significa: descobrir a presença de Deus na vida, a sua ação em tudo que acontece, a vocação, o chamado dele. A carta aos hebreus diz que: “Embora fosse filho de Deus, Jesus teve que aprender a ser obediente através dos seus sofrimentos” (Hb 4,8).

Para um confronto pessoal
1) Você seria capaz de perceber numa criança pobre a luz para iluminar as nações?
2) Você seria capaz de aguentar uma vida inteira esperando a realização da sua esperança?
3) Conhece pessoas como Ana, que tem um olhar de fé sobre as coisas da vida?
4) Crescer em sabedoria, tamanho e graça: como isto acontece em minha vida?