terça-feira, 29 de janeiro de 2013

DEI VERBUM II



TRADIÇÃO E ESCRITURA

Pe. Ney Brasil Pereira,
Professor de Exegese Bíblica na FACASC/ITESC
Email: ney.brasil@itesc.org.br

Continuando nosso comentário sobre a Dei Verbum, a Constituição dogmática do Vaticano II sobre a Revelação Divina, trataremos agora do conteúdo do capítulo II, intitulado “Transmissão da Divina Revelação”. Na verdade, estabelecido o fato de que Deus se revelou a nós, seres humanos, falando muitas vezes e de muitos modos a nossos pais, pelos profetas e, especialmente, por meio de seu Filho (cf Hb 1,1-2), surge a pergunta, que requer uma resposta: de que maneira essa revelação chegou até nós?

Os Padres conciliares, tendo em vista o Novo Testamento, assim começam a sua resposta: “Deus dispôs com suma benignidade que aquelas coisas que revelara para a salvação de todos os povos permanecessem sempre íntegras, e fossem transmitidas a todas as gerações” (DV 7). “Transmitidas”, primeiro oralmente: é a chamada “Tradição”; e, num determinado momento da história, por escrito: é a “Escritura”. São “duas fontes” que se interrelacionam: a Escritura, precedida pela Tradição, e a Tradição, que continua após a Escritura, mas por esta se norteia.

1. No decorrer da história

Como é sabido, na evolução da humanidade,  a escrita é um fenômeno relativamente recente. Centenas de milhares de anos pertencem à pré-história, à idade da pedra lascada, depois, da pedra polida, tempo em que o ser humano só se comunicava oralmente, mas já fazia, a seu modo, a experiência de Deus. Só a partir de uns 5000 anos antes de Cristo começa a cerâmica pintada, e em 3500 aC os primeiros “documentos”, inclusive os religiosos, ainda em escritas rudimentares, que evoluem para o alfabeto fenício cerca de 1500 anos aC, isto é, pouco antes de Moisés. Quer dizer, em todos esses milhares de anos antes da descoberta da escrita, não era possível haver “Escritura”, mas somente “Tradição”, isto é, transmissão oral de conhecimentos, também os concernentes à religião. Essa transmissão oral, porém, não cessou com a escrita. Nesse sentido, é equivocado o princípio de Lutero sobre a exclusividade da Bíblia – “Só a Escritura” – princípio ao qual chegou por causa dos abusos da “tradição dos homens”, abusos aliás já denunciados, no seu tempo, pelo próprio Senhor Jesus (cf Mc 7,8).

Mas de quando data, afinal, a escrita da Bíblia, ou seja, a redação da “Escritura”? Foi um longo processo, como é sabido, que se estendeu por mais de mil anos, envolvendo um total de 46 livros do chamado “Antigo” Testamento, a Bíblia judaica, e um total de mais 27 livros do “Novo” Testamento, o complemento cristão. Podemos situar o início desse processo com Moisés, no final do século XIII antes de Cristo, quando já estava em uso a escrita alfabética; e a sua conclusão, do complemento cristão, pelo final do século I depois de Cristo. Entretanto, além da Escritura e da Tradição, foi sendo reconhecida, na comunidade de fé, tanto entre os judeus como, depois, entre os cristãos, a instância interpretativa do “Magistério”. A esse respeito, eis o que dizem os Padres conciliares: “Para que o Evangelho sempre se conservasse inalterado e vivo na Igreja, os Apóstolos deixaram como sucessores os bispos, a eles transmitindo o seu próprio encargo de Magistério” (DV 7, 2ª alínea).

2. A sagrada Tradição

Lembra o Concílio: “Os Apóstolos, transmitindo aquilo que eles próprios receberam do Senhor, exortam os fiéis a manterem as tradições que aprenderam seja oralmente seja por carta (2Ts 2,15), e a combater em favor da fé que lhes foi transmitida uma vez para sempre” (Jd 3; DV 8). Esta Tradição, “oriunda dos Apóstolos, progride na Igreja sob a assistência do Espírito Santo: cresce, com efeito, a compreensão tanto das coisas como das palavras transmitidas [...] e a Igreja tende continuamente para a plenitude da verdade divina (cf Jo 16,13), até que se cumpram nela as palavras de Deus” (DV 8, 2ª alínea). Quanto a esse “progresso” na compreensão da Fé, temos de reconhecer que aí está uma das contribuições mais importantes do Concílio, que assim reconhece o caráter dinâmico da Tradição. De fato, “tradição” é um processo humano, e a Revelação, humanizando-se – e concretizando-se na Encarnação! – aceita essa característica processual, progressiva, dinâmica.

Quanto ao “Cânon bíblico”, isto é, a lista completa dos livros sagrados, tanto do Antigo como do Novo Testamento, não é a própria Escritura que o delimita mas a Tradição, como o lembram os Padres conciliares: “É pela Tradição que se torna conhecido à Igreja o cânon completo dos livros sagrados, e as próprias Escrituras são nela cada vez mais profundamente compreendidas e se fazem sem cessar atuantes. Assim, o Deus que outrora falou pelos profetas, mantém um permanente diálogo com a Esposa do seu dileto Filho” (DV 8, 3ª alínea), diálogo que completa o que “está escrito”.

3. Relação entre Tradição e Escritura

Como já vimos, Tradição e Escritura  estão entre si “estreitamente unidas e comunicantes. Pois promanam ambas da mesma fonte divina – não são, como tal, “duas fontes” – mas formam um só todo e tendem para o mesmo fim. Com efeito, a Sagrada Escritura é a palavra de Deus enquanto redigida sob a moção do Espírito Santo, e a Sagrada Tradição é a mesma Palavra enquanto confiada oralmente pelo Cristo Senhor e pelo Espírito Santo aos Apóstolos e seus sucessores [...]. Portanto, “não é através da Escritura apenas que a Igreja deriva sua certeza a respeito de tudo o que foi revelado. E assim, ambas – Escritura e Tradição – devem ser aceitas e veneradas com igual sentimento de piedade e reverência” (cf DV 9).

4. Tradição, Escritura, Igreja, Magistério

Destinatária do “depósito da Fé”, contido na Tradição e na Escritura, é a Igreja, “povo santo de Deus unido a seus pastores”. Assim, “bispos e fiéis colaboram estreitamente na conservação, exercício e profissão da Fé transmitida” (DV 10). Quanto à interpretação autêntica, isto é, autorizada, da palavra de Deus “escrita ou transmitida”, ela não cabe a cada um individualmente, como já o adverte a 2ª carta de Pedro: “Nenhuma profecia da Escritura é objeto de explicação pessoal” (2Pd 1,20). Nesse sentido, lembram os Padres conciliares: “O ofício de interpretar de modo autêntico a palavra de Deus foi confiado unicamente ao Magistério vivo da Igreja, cuja autoridade é exercida em nome de Jesus Cristo” (DV 10, 2ª alínea). Quanto ao próprio “Magistério”, palavra que vem do latim magíster, mestre, professor,  é o encargo e a missão de ensinar, próprio daqueles que na Igreja sucedem aos apóstolos, isto é, os bispos, unidos entre si e sob a presidência do Papa. Nesse sentido, cabe recordar as palavras do Senhor a seus discípulos: “Quem vos ouve, a Mim ouve; quem vos despreza, a Mim despreza” (Lc 10,16).

5. Limites do Magistério

Esses limites são lembrados pelos Padres conciliares com as seguintes palavras: Embora tenha autoridade divina, “o Magistério não está acima da palavra de Deus, mas a seu serviço, não ensinando senão o que foi transmitido”. E explicam: “Por mandato divino e com a assistência do Espírito Santo, o Magistério piamente ausculta a palavra de Deus – na Escritura e na Tradição – santamente a guarda e fielmente a expõe. E deste único depósito da Fé – transmitido na Escritura e na Tradição – tira o que nos propõe para ser crido como divinamente revelado” (DV 10, 2ª alínea). Notar, portanto, que a Igreja “docente”, o Magistério, não deixa de ser também Igreja “discente” – pois “piamente ausculta a palavra de Deus” – assim como o povo de Deus, Igreja “discente”, na profissão da fé comum, deve também ser reconhecido , de certo modo, como Igreja “docente”.

6. Tradição, Escritura, Magistério

Concluindo esse 2º capítulo da Dei Verbum, os Padres conciliares falam de uma espécie de tripé inseparável, sobre o qual se apoia a interpretação católica do conteúdo da divina Revelação: “Fica, portanto, claro que, segundo o sapientíssimo plano divino, a Sagrada Tradição, a Sagrada Escritura, e o Magistério da Igreja, estão de tal maneira entrelaçados e unidos, que um não tem consistência sem os outros. Pelo contrário, juntos, cada qual a seu modo, sob a ação do Espírito Santo, contribuem eficazmente para a nossa salvação” (DV 10, 3ª alínea). “Cada qual a seu modo”: a Tradição, isto é, a transmissão oral, como ponto de partida; a Escritura, isto é, a fixação por escrito do essencial da Tradição, num determinado momento da história, e o Magistério, que orienta a interpretação da Escritura  dentro da corrente permanente e progressiva da Tradição.

Para refletir:
1. De que maneira chegou a Revelação divina até nós?
2. De quando datam os primeiros documentos da humanidade? E quando começou a escrita da Bíblia, ou seja, a redação da Escritura?
3. Como entender o “progresso” na compreensão da Fé, ou seja, o caráter dinâmico da Tradição?
4. Qual a relação entre Tradição e Escritura?
5. Como entender o “tripé” da Tradição, Escritura, e Magistério?
6. Em que  sentido se fala dos “limites” do Magistério?

Quarta-feira da 3ª semana do Tempo Comum



Evangelho (Mc 4,1-20): Outra vez, à beira-mar, Jesus começou a ensinar, e uma grande multidão se ajuntou ao seu redor. Por isso, entrou num barco e sentou-se, enquanto toda a multidão ficava em terra, à beira-mar. Ele se pôs a ensinar-lhes muitas coisas em parábolas. No seu ensinamento, dizia-lhes: «Escutai! O semeador saiu a semear. Ao semear, uma parte caiu à beira do caminho, e os passarinhos vieram e comeram. Outra parte caiu em terreno cheio de pedras, onde não havia muita terra; brotou logo, porque a terra não era profunda, mas quando o sol saiu, a semente se queimou e secou, porque não tinha raízes. Outra parte caiu no meio dos espinhos; estes cresceram e a sufocaram, e por isso não deu fruto. E outras sementes caíram em terra boa; brotaram, cresceram e deram frutos: trinta, sessenta e até cem por um. E acrescentou: «Quem tem ouvidos para ouvir, ouça!». Quando ficaram a sós, os que estavam com ele junto com os Doze faziam perguntas sobre as parábolas. Ele dizia-lhes: «A vós é confiado o mistério do Reino de Deus. Para aqueles que estão fora tudo é apresentado em parábolas, de modo que, por mais que olhem, não enxergam, por mais que escutem, não entendem, e não se convertem, nem são perdoados». Jesus então perguntou-lhes: «Não compreendeis esta parábola? Como então, compreendereis todas as outras parábolas? O semeador semeia a palavra. Os da beira do caminho onde é semeada a palavra são os que a ouvem, mas logo vem Satanás e arranca a palavra semeada neles. Os do terreno cheio de pedras são aqueles que, ao ouvirem a palavra, imediatamente a recebem com alegria, mas não têm raízes em si mesmos, são de momento; chegando tribulação ou perseguição por causa da palavra, desistem logo. Outros ainda são os que foram semeados entre os espinhos: são os que ouvem a palavra, mas quando surgem as preocupações do mundo, a ilusão da riqueza e os outros desejos, a palavra é sufocada e fica sem fruto. E os que foram semeados em terra boa são os que ouvem a palavra e a acolhem, e produzem frutos: trinta, sessenta e cem por um».

Comentário: Rev. D. Antoni CAROL i Hostench (Sant Cugat del Vallès, Barcelona, Espanha)

O semeador semeia a palavra

Hoje escutamos dos lábios do Senhor a “Parábola do semeador”. A cena é totalmente atual. O Senhor não deixa de “semear”. Também nos nossos dias é uma multidão a que escuta a Jesus pela boca de seu Vigário — o Papa—, de seus ministros e... de seus fieis laicos: a todos os batizados Cristo nos outorgou uma participação em sua missão sacerdotal. Há “fome” de Jesus. Nunca como agora a Igreja tem sido tão católica, já que sob suas “asas” abriga homens e mulheres dos cinco continentes e de todas as raças. Ele nos enviou ao mundo inteiro (cf. Mc 16,15) e, apesar das sombras do panorama, se fez realidade o mandato apostólico de Jesus Cristo.

O mar, a barca e as praias são substituídos por estádios, telas e modernos meios de comunicação e de transporte. Mas Jesus é hoje o mesmo de ontem. O homem não mudou, nem a sua necessidade de ensinar a amar. Também hoje há quem — por graça e gratuita escolha divina: é um mistério!— recebe e entende mais diretamente a Palavra. Como também há muitas almas que necessitam uma explicação mais descritiva e mais pausada da Revelação.

Em todo caso, a uns e outros, Deus nos pede frutos de santidade. O Espírito Santo nos ajuda a isso, mas não prescinde de nossa colaboração. Em primeiro lugar, é necessária a diligência. Se nós respondemos a meias, quer dizer, se nós mantemos na “fronteira” do caminho sem entrar plenamente nele, seremos vítima fácil de Satanás.

Segundo, a constância na oração — o diálogo—, para aprofundar no conhecimento e amor a Jesus Cristo: «Santo sem oração...? — “Não acredito nessa santidade» (São Josémaria).

Finalmente, o espírito de pobreza e desprendimento evitará que nos “afoguemos” pelo caminho. As coisas esclarecidas: «Ninguém pode servir a dois senhores... » (Mt 6,24).

Em  Maria encontramos o melhor modelo de correspondência à chamada de Deus.

Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm

Reflexão
* Sentado num barco, Jesus ensina o povo. Nestes versos, Marcos descreve o jeito que Jesus tinha de ensinar o povo: na praia, sentado no barco, muita gente ao redor para escutar. Jesus não era uma pessoa estudada (Jo 7,15). Não tinha frequentado a escola superior de Jerusalém. Vinha do interior, da roça, de Nazaré. Era um desconhecido, meio camponês, meio artesão. Sem pedir licença às autoridades, começou a ensinar o povo. Falava tudo diferente. O povo gostava de ouvi-lo.

* Por meio das parábolas, Jesus ajudava o povo a perceber a presença misteriosa do Reino nas coisas da vida. Uma parábola é uma comparação. Ela usa as coisas conhecidas e visíveis da vida para explicar as coisas invisíveis e desconhecidas do Reino de Deus. Por exemplo, o povo da Galiléia entendia de semente, de terreno, chuva, sol, sal, flores, colheita, pescaria, etc. Ora, são exatamente estas coisas conhecidas do povo que Jesus usa nas parábolas para explicar o mistério do Reino.

* A parábola da semente retrata a vida do camponês. Naquele tempo, não era fácil viver da agricultura. O terreno tinha muita pedra. Muito mato. Pouca chuva, muito sol. Além disso, muitas vezes, o povo encurtava estrada e, passando no meio do campo, pisava nas plantas (Mc 2,23). Mesmo assim, apesar de tudo isso, todo ano, o agricultor semeava e plantava, confiando na força da semente, na generosidade da natureza.

* Quem tem ouvidos para ouvir, ouça! Jesus começou a parábola dizendo: “Escutem!” (Mc 4,3). Agora, no fim, ele termina dizendo: “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça!” O caminho para chegar ao entendimento da parábola é a busca: “Tratem de entender!” A parábola não entrega tudo pronto, mas leva a pensar e faz descobrir a partir da própria experiência que os ouvintes têm da semente. Provoca a criatividade e a participação. Não é uma doutrina que já vem pronta para ser ensinada e decorada. A Parábola não dá água engarrafada, mas entrega a fonte. O agricultor que escutou, diz: “Semente no terreno, eu sei o que é! Mas Jesus diz que isso tem a ver com o Reino de Deus. O que seria?” E aí você pode imaginar as longas conversas do povo! A parábola mexe com o povo e leva a escutar a natureza e a pensar na vida.

* Jesus explica a parábola aos discípulos. Em casa, a sós com Jesus, os discípulos querem saber o significado da parábola. Eles não entenderam. Jesus estranhou a ignorância deles (Mc 4,13) e respondeu por meio de uma frase difícil e misteriosa. Ele diz aos discípulos: “A vocês foi dado o mistério do Reino de Deus. Aos de fora, porém, tudo acontece em parábolas, para que vendo não vejam, ouvindo não ouçam e para que não se convertam e não sejam salvos!”. Esta frase faz a gente se perguntar: Afinal, a parábola serve para que? Para esclarecer ou para esconder? Será que Jesus usa parábolas, para que o povo continue na ignorância e não chegue a se converter? Certamente que não! Pois em outro lugar Marcos diz que Jesus usava parábolas “conforme a capacidade dos ouvintes” (Mc 4,33)

* Parábola revela e esconde ao mesmo tempo! Revela para “os de dentro”, que aceitam Jesus como Messias Servidor. Esconde para os que insistem em ver nele o Messias, Rei grandioso. Estes entendem as imagens da parábola, mas não chegam a entender o seu significado.

* A explicação da parábola, parte por parte. Uma por uma, Jesus explica as partes da parábola, desde a semente e o terreno até a colheita. Alguns estudiosos acham que esta explicação foi acrescentada depois. Ela seria de alguma comunidade. É bem possível. Pois dentro do botão da parábola está a flor da explicação. Botão e flor, ambos têm a mesma origem que é Jesus. Por isso, nós também podemos continuar a reflexão e descobrir outras coisas bonitas dentro da parábola. Certa vez, alguém perguntou numa comunidade: “Jesus falou que devemos ser sal. Para que serve o sal?” Discutiram e, no fim, encontraram mais de dez finalidades diferentes para o sal! Aí foram aplicar tudo isto à vida da comunidade e descobriram que ser sal é difícil e exigente. A parábola funcionou! O mesmo vale para a semente. Todo mundo tem alguma experiência de semente.

Para um confronto pessoal
1) Qual a experiência que você tem de semente? Como ela te ajuda a entender melhor a Boa Nova
2) Que terreno eu sou?

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Beata Arcângela Girlani, religiosa da nossa Ordem



Corpo incorrupto da Beata Arcangela
 Memória facultativa
Do Comum das Santas Virgens.

Nascida em Trino Vercellese, na Itália Setentrional, em meados do séc. XV, tomou o hábito carmelita em Parma, onde também veio a ser prioresa. Mais tarde exerceu o mesmo cargo no novo Mosteiro de Mântua, por ela fundado, onde morreu no dia 25 de janeiro de 1495. Animada por um vivo sentido da presença do Deus uno e trino, distinguiu-se pela sua especial devoção à SS. Trindade. Em colaboração com o Padre-Geral B. João Soreth, e seguindo as Constituições por ele renovadas, favoreceu uma observância viva do espírito do Carmelo nos mosteiros que lhe tinham sido confiados. O seu culto imemorial foi aprovado a 1 de outubro de 1864 pelo Papa Pio IX.

ORAÇÃO
Senhor, que fizestes da bem-aventurada Arcângela uma enamorada do mistério da vossa eterna Trindade, concedei-nos, por sua intercessão, que, saboreando na terra a felicidade da vossa glória, Vos contemplemos um dia no Céu. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

Terça-feira da 3ª semana do Tempo Comum


            Beata Arcángela Girlani

Evangelho (Mc 3,31-35): Nisso chegaram a mãe e os irmãos de Jesus. Ficaram do lado de fora e mandaram chamá-lo. Ao seu redor estava sentada muita gente. Disseram-lhe: «Tua mãe e teus irmãos e irmãs estão lá fora e te procuram». Ele respondeu: «Quem é minha mãe? Quem são meus irmãos?». E passando o olhar sobre os que estavam sentados ao seu redor, disse: «Eis minha mãe e meus irmãos! Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe».

Comentário: Rev. D. Josep GASSÓ i Lécera (Corró d'Avall, Barcelona, Espanha)

Eis minha mãe e meus irmãos! Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe

Hoje contemplamos Jesus —numa cena muito especial e, também, comprometedora— ao seu redor havia uma multidão de pessoas do povoado. Os familiares mais próximos de Jesus chegaram desde Nazaré a Cafarnaum. Mas, quando viram tanta quantidade de gente, permaneceram do lado de fora e mandaram chamá-lo. Disseram-lhe: «Tua mãe e teus irmãos e irmãs estão lá fora e te procuram» (Mc 3,32).

Na resposta de Jesus, como veremos, não há nenhum motivo para rechaçar os seus familiares. Jesus tinha se afastado deles para seguir o chamado divino e mostra agora que também internamente renunciou a eles: não por frialdade de sentimentos ou por menosprezo dos vínculos familiares, senão porque pertence completamente a Deus Pai. Jesus Cristo fez Ele mesmo, pessoalmente, aquilo que justamente pede aos seus discípulos.

Em vez da sua família da terra, Jesus escolheu uma família espiritual. Passando um olhar sobre os que estavam sentados ao seu redor, disse-lhes: «Eis minha mãe e meus irmãos. Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe». (Mc 3, 34-35). São Marcos, em outros lugares do seu Evangelho, refere outro dos olhares de Jesus ao seu redor.

Será que Jesus quer nos dizer que só são seus parentes os que escutam com atenção sua palavra? Não! Não são seus parentes aqueles que escutam sua palavra, senão aqueles que escutam e cumprem a vontade de Deus: esses são seu irmão, sua irmã, sua mãe.

Jesus faz uma exortação a aqueles que estão ali sentados —e a todos— a entrar em comunhão com Ele através do cumprimento da vontade divina. Mas, vemos, também, na suas palavras uma louvação a sua mãe, Maria, a sempre bem-aventurada por ter acreditado.

Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm

 Reflexão
* A família de Jesus. Os parentes chegam à casa onde Jesus estava. Provavelmente tinham vindo de Nazaré. De lá até Cafarnaum são uns 40 quilômetros. Sua mãe veio junto. Eles não entram, mas mandam recado: Tua mãe, teus irmãos e tuas irmãs estão lá fora e te procuram! A reação de Jesus é firme: Quem é minha mãe, quem são meus irmãos? E ele mesmo responde apontando para a multidão que estava ao redor: Eis aqui minha mãe e meus irmãos! Pois todo aquele que faz a vontade de Deus é meu irmão, minha irmã, minha mãe! Para entender bem o significado desta resposta convém olhar a situação da família no tempo de Jesus.

* No antigo Israel, o clã, isto é, a grande família (a comunidade), era a base da convivência social. Era a proteção das famílias e das pessoas, a garantia da posse da terra, o veículo principal da tradição, a defesa da identidade. Era a maneira concreta do povo daquela época encarnar o amor de Deus no amor ao próximo. Defender o clã era o mesmo que defender a Aliança.

* Na Galileia do tempo de Jesus, por causa do sistema implantado durante os longos governos de Herodes Magno (37 a.C. a 4 a.C.) e de seu filho Herodes Antipas (4 a.C. a 39 d.C.), o clã (a comunidade) estava enfraquecendo. Os impostos a serem pagos, tanto ao governo como ao templo, o endividamento crescente, a mentalidade individualista da ideologia helenista, as frequentes ameaças de repressão violenta por parte dos romanos, a obrigação de acolher os soldados e dar-lhes hospedagem, os problemas cada vez maiores de sobrevivência, tudo isto levava as famílias a se fecharem dentro das suas próprias necessidades. Este fechamento era reforçado pela religião da época. Por exemplo, quem dedicava sua herança ao Templo podia deixar seus pais sem ajuda. Isto enfraquecia o quarto mandamento que era a espinha dorsal do clã (Mc 7,8-13). Além disso, a observância das normas de pureza era fator de marginalização de muita gente: mulheres, crianças, samaritanos, estrangeiros, leprosos, possessos, publicanos, doentes, mutilados, paraplégicos.

* Assim, a preocupação com os problemas da própria família impedia as pessoas de se unirem em comunidade. Ora, para que o Reino de Deus pudesse manifestar-se na convivência comunitária do povo, as pessoas tinham de ultrapassar os limites estreitos da pequena família e abrir-se, novamente, para a grande família, para a Comunidade. Jesus deu o exemplo. Quando sua própria família tentou apoderar-se dele, reagiu e alargou a família: “Quem é minha mãe, quem são meus irmãos? E ele mesmo deu a resposta apontando para a multidão que estava ao redor: Eis aqui minha mãe e meus irmãos! Pois todo aquele que faz a vontade de Deus é meu irmão, minha irmã, minha mãe! (Mc 3,33-35). Criou comunidade.

* Jesus pedia o mesmo de todos que queriam segui-lo. As famílias não podiam fechar-se. Os excluídos e os marginalizados deviam ser acolhidos dentro da convivência e, assim, sentir-se acolhidos por Deus (cf Lc 14,12-14). Este era o caminho para realizar o objetivo da Lei que dizia: “Entre vocês não pode haver pobres” (Dt 15,4). Como os grandes profetas do passado, Jesus procura reforçar a vida comunitária nas aldeias da Galileia. Ele retoma o sentido profundo do clã, da família, da comunidade, como expressão da encarnação do amor de Deus no amor ao próximo.

Para um confronto pessoal
1) Viver a fé em comunidade. Qual o lugar e a influência da comunidade na minha maneira de viver a fé?
2) Hoje, na cidade grande, a massificação promove o individualismo que é o contrário da vida em comunidade. O que estou fazendo para combater este mal?