quarta-feira, 14 de dezembro de 2011


FESTA DE SÃO JOÃO DA CRUZ
Cântico Espiritual, estrofe 1
 São João da Cruz (1542-1591), Carmelita, Doutor da Igreja

"Onde Te escondeste, meu Bem-Amado,
Deixando-me num gemido constante?
Fugiste, qual veado,
Havendo-me ferido; Por ti
Clamando, eu fui. Ah, em vão Te segui!"

 
     «Onde Te escondeste?» É como se a alma dissesse: «Verbo, Esposo meu, mostra-me o lugar da Tua morada.» O que equivale a pedir-Lhe que manifeste a Sua divina essência, porque «o lugar da morada do Filho de Deus», diz-nos São João, «está no seio do Pai» (Jo 1,18) ou, falando noutros termos, é a essência divina, invisível a todo o olhar mortal, impenetrável a todo o entendimento humano. Isaías, dirigindo-se a Deus, diz-Lhe: «Na verdade Vós sois um Deus escondido» (Is 45, 15).
     Por isso, é de notar que, por muito íntimas que sejam as comunicações, por muito sublime que possa ser o conhecimento que uma alma tenha de Deus nesta vida, o que ela percebe não é a essência de Deus e nada tem de comum com Ele. Na realidade, Deus está sempre escondido da nossa alma. Quaisquer que sejam as maravilhas que lhe sejam desveladas, a alma deve sempre tê-Lo por escondido e procurá-Lo em sua morada, dizendo: «Onde Te escondeste?» De facto, nem a comunicação sublime nem a presença sensível são testemunho seguro da favorável presença de Deus numa alma, nem a secura e a carência de tais dons serão um indício da Sua ausência. É o que nos diz o profeta Jó: «Passa diante de mim e eu não O vejo, afasta-Se de mim e não me apercebo» (Job 9, 11).
     Devemos daqui tirar um ensinamento. Se uma alma for favorecida com sublimes comunicações, conhecimentos e sentimentos espirituais, não deve nunca persuadir-se de que possui a Deus ou que vê clara e essencialmente a Deus, nem que esses dons signifiquem ter mais a Deus ou estar mais em Deus do que os outros; da mesma forma, se todas estas comunicações sensíveis e espirituais vierem a faltar-lhe deixando-a na aridez, nas trevas e no desamparo, não deve ela nunca pensar que nesse estado Deus lhe falta [...]. O principal intento da alma, neste verso, não é pois pedir devoção afectuosa e sensível, que não dá certeza nem evidência da posse do Esposo nesta vida: ela reclama a presença e a clara visão da Sua essência, que quer fruir, de maneira firme e segura, na outra vida.

DA CATEQUESE DO PAPA BENTO XVI: SÃO JOÃO DA CRUZ, O “DOUTOR MÍSTICO”


     Queridos irmãos e irmãs:
     Gostaria de falar sobre um importante santo, amigo espiritual de Santa Teresa, reformador, ao lado de sua família religiosa carmelita: São João da Cruz, proclamado Doutor da Igreja pelo Papa Pio XI, em 1926, a quem a tradição apelidou de “Doctor mysticus”, "Doutor místico".
(...)
     João é considerado um dos maiores poetas líricos da literatura espanhola. Suas principais são "Subida ao Monte Carmelo", "Noite escura da alma", "Cântico Espiritual" e "Chama viva de amor".
     No "CÂNTICO ESPIRITUAL", São João apresenta o caminho de purificação da alma, ou seja, a progressiva possessão gozosa de Deus, até que a alma chegue a sentir que ama a Deus com o mesmo amor com que é amada por Ele. A "Chama viva de amor" continua nesta perspectiva, descrevendo mais detalhadamente o estado de união transformadora com Deus. O exemplo utilizado por João é sempre o do fogo, que quanto mais arde e consome a lenha, mais se torna incandescente, até converter-se em chama: assim é o Espírito Santo, que, durante a noite escura, purifica e "limpa" a alma e, ao longo do tempo, a ilumina e esquenta como se fosse uma chama. A vida da alma é uma contínua festa do Espírito Santo, que permite entrever a glória da união com Deus na eternidade.
     A "SUBIDA AO MONTE CARMELO" apresenta o itinerário espiritual do ponto de vista da purificação progressiva da alma, necessária para escalar o cume da perfeição cristã, simbolizada pelo cume do Monte Carmelo. Esta purificação é proposta como um caminho que o homem empreende, em colaboração com a ação divina, para libertar a alma de todo apego ou afeto contrário à vontade de Deus. A purificação, que, para alcançar a união de amor com Deus, deve ser total, começa na via dos sentidos e prossegue com aquela que se obtém pelas três virtudes teologais: fé, esperança e caridade, que purificam a intenção, a memória e a vontade.
     A "NOITE ESCURA", descreve o aspecto "passivo", ou seja, a intervenção de Deus no processo de "purificação" da alma. O esforço humano, de fato, por si só é incapaz de chegar às raízes profundas das más inclinações e maus costumes da pessoa: pode freá-las, mas não desenraizá-las totalmente. Para fazê-lo, é necessária a ação especial de Deus, que purifica radicalmente o espírito e o dispõe para a união de amor com Ele. São João define esta purificação como "passiva", justamente porque, mesmo que aceita pela alma, é realizada pela ação misteriosa do Espírito Santo, que, como uma chama de fogo, consome toda impureza. Neste estado, a alma está sujeita a todo tipo de provas, como se estivesse em uma noite escura.
     Estas indicações sobre as principais obras do santo nos ajudam a chegar mais perto dos pontos sobressalentes de sua vasta e profunda doutrina mística, que tem como objetivo descrever um caminho seguro para chegar à santidade - o estado de perfeição ao qual Deus chama todos nós.
     De acordo com João da Cruz, tudo o que existe, criado por Deus, é bom. Através das criaturas, podemos chegar à descoberta d'Aquele que deixou nelas seu selo. A fé, porém, é a única fonte dada ao homem para conhecer a Deus como Ele é em si mesmo, como o Deus Uno e Trino. Tudo o que Deus queria comunicar ao homem, já disse em Jesus Cristo, o Verbo feito carne. Ele, Jesus Cristo, é o caminho único e definitivo até o Pai (cf. Jo 14,6). Qualquer coisa criada não é nada comparada com Deus e nada vale fora d'Ele; por conseguinte, para alcançar o amor perfeito de Deus, qualquer outro amor deve ser conformado, em Cristo, ao amor divino. Daí a insistência de São João da Cruz na necessidade da purificação e do esvaziamento interior para transformar-se em Deus, que é a única meta da perfeição. Esta "purificação" não é mera ausência física de coisas ou de sua utilização; o que torna a alma pura e livre, na verdade, é eliminar toda a dependência desordenada das coisas. Tudo deve ser colocado em Deus como centro e fim da vida. O longo e laborioso processo de purificação exige esforço pessoal, mas o verdadeiro protagonista é Deus: tudo que o homem pode fazer é "dispor-se" para estar aberto à ação divina e não colocar obstáculos a ela. Vivendo as virtudes teologais, o homem se eleva e dá valor ao seu próprio esforço. O ritmo de crescimento da fé, da esperança e da caridade segue o ritmo do trabalho de purificação e da progressiva união com Deus, até transformar-se n'Ele. Quando se alcança este objetivo, a alma mergulha na própria vida trinitária, de forma que São João diz que esta chega a amar a Deus com o mesmo amor com que Ele ama, porque a ama no Espírito Santo. Assim, o Doutor Místico sustenta que não há verdadeira união de amor com Deus se não culminar com a união trinitária. Neste estado supremo, a alma santa conhece tudo em Deus e já não deve passar pelas criaturas para chegar a Ele. A alma já se sente inundada pelo amor divino e regozija-se totalmente nele.
     Queridos irmãos e irmãs, no final, a pergunta que não quer calar: este santo, com sua alta mística, com esse árduo caminho até o cume da perfeição, tem algo a dizer a nós, ao cristão normal que vive nas circunstâncias da vida hoje, ou é um exemplo, um modelo somente para algumas almas escolhidas que podem realmente empreender este caminho da purificação, da ascensão mística?
     Para encontrar a resposta, devemos primeiro observar que a vida de São João da Cruz não era um "voar pelas nuvens místicas", senão que foi uma vida dura, muito prática e concreta, tanto como reformador da ordem, onde encontrou muitas oposições, quanto como superior provincial, ou na prisão dos seus irmãos na religião, onde foi exposto a insultos incríveis e agressões físicas. Foi uma vida dura, mas precisamente nos últimos meses na prisão, ele escreveu uma de suas obras mais belas. E assim entendemos que o caminho com Cristo, esse ir com Cristo, "o Caminho", não é um peso adicional à carga já bastante difícil da nossa vida; não é algo que tornaria ainda mais pesado este fardo, e sim algo completamente diferente, é uma luz, uma força que nos ajuda a carregar esse peso.
     Se um homem tem em si um grande amor, este amor quase lhe dá asas, e então suporta mais facilmente todos os aborrecimentos da vida, porque carrega dentro de si esta grande luz; esta é a fé: ser amado por Deus e deixar-se amar por Deus em Cristo Jesus. Esse deixar-se amar é a luz que nos ajuda a carregar o peso de cada dia. E a santidade não é obra nossa, muito difícil, mas é precisamente esta "abertura": abrir as janelas da nossa alma para que a luz de Deus possa entrar; não esquecer de Deus, porque precisamente na abertura à sua luz, encontramos força, a alegria dos redimidos.
     Oremos ao Senhor para que nos ajude a encontrar esta santidade, para que nos ajude a deixar-nos amar por Deus, já que esta é a vocação de todos nós e a verdadeira redenção. Obrigado.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

FESTA DE SÃO JOÃO DA CRUZ
"AVISOS" - SÃO JOÃO DA CRUZ
Subida do Monte Carmelo - Livro I - Capítulo XIII, §3-7; 9

     “Primeiramente: tenha sempre a alma o desejo contínuo de imitar a Cristo em todas as coisas, conformando-se à sua vida que deve meditar para sabre imitá-la, e agir em todas as circunstâncias como ele próprio agiria.
     Em segundo lugar, para bom poder fazer isto, se lhe for oferecida aos sentidos alguma coisa de agradável que não tenda exclusivamente para a honra e a glória de Deus, renuncie e prive-se dela pelo amor de Jesus Cristo, que, durante a sua vida, jamais teve outro gosto, nem outra coisa quis senão fazer a vontade do Pai, a que chamava sua comida e manjar. Por exemplo: se acha satisfação em ouvir coisas em que a glória de Deus não está interessada, rejeite esta satisfação e mortifique a vontade de ouvir. Se tem prazer em olhar objetos que não levam a Deus, afaste este prazer e desvie os olhos. Igualmente nas conversações e em qualquer outra circunstância, deve fazer o mesmo. Em uma palavra, proceda deste modo, na medida do possível, em todas as operações dos sentidos; no caso de não ser possível, basta que a vontade não queira gozar desses atos que lhe vão na alma. Desta maneira há de deixar logo mortificados e vazios de todo o gosto, e como às escuras. E com este cuidado, em breve aproveitará muito.
     Para mortificar e pacificar as quatro paixões naturais que são gozo, esperança, temor e dor, de cuja concórdia e harmonia nascem inumeráveis bens, trazendo à alma grande merecimento e muitas virtudes, o remédio universal é o seguinte:
     Procure sempre inclinar-se não ao mais fácil, senão ao mais difícil.
     Não ao mais saboroso, senão ao mais insípido.
     Não ao mais agradável, senão ao mais desagradável.
     Não ao descanso, senão ao trabalho.
     Não ao consolo, mas à desolação.
     Não ao mais, senão ao menos.
     Não ao mais alto e precioso, senão ao mais baixo e desprezível.
     Não a querer algo, e sim a nada querer.
     Não a andar buscando o melhor das coisas temporais, mas o pior;
     Enfim, desejando entrar por amor de Cristo na total desnudez, vazio e pobreza de tudo quanto há no mundo.
     Abrace de coração essas práticas, procurando acostumar a vontade a elas. Porque se de coração as exercitar, em pouco tempo achará nelas grande deleite e consolo, procedendo com ordem e discrição.
(...)
     O espiritual deve:
     1.º Agir em seu desprezo e desejar que os outros o desprezem.
     2.º Falar contra si e desejar que os outros também o façam.
     3.º Esforçar-se por conceber baixos sentimentos de sua própria pessoa e desejar que os outros pensem do mesmo modo”.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

PREPARANDO A FESTA DE S. JOÃO DA CRUZ
DOUTRINA DE JOÃO DA CRUZ

   São João da Cruz reduz seu sistema místico a dois princípios fundamentais, ou mesmo, talvez a um só.   Esse princípio fundamental é: "DEUS É TUDO; A CRIATURA É NADA".
     Deste princípio se desprendem duas grandes conseqüências:
     1º - É necessário desapegar-se totalmente das criaturas, pois são "nada";
     2º - É necessário apegar-se firmemente a Deus pelo amor, pois "Deus é tudo".
     Os livros de São João da Cruz, Subida do Monte Carmelo e Noite Escura, tratam da primeira dessas conseqüências, o modo de desapegar-se das criaturas. Os livros Cântico Espiritual e Chama Viva de Amor tratam da segunda conseqüência, isto é, de como unir-se a Deus. E assim está resumida toda obra de São João da Cruz.
     Vamos explicar cada uma dessas partes.
O PRINCÍPIO FUNDAMENTAL:
     "Deus é tudo e as criaturas são nada", é um princípio teológico firme. Na Escritura Deus mesmo se dá o nome que indica a plenitude do ser: "Eu sou Aquele que é" (Ex 3,14).
     Deus falando a Santa Catarina de Sena disse: "Eu sou o que é, tu és a que não é". É o mesmo pensamento de São João da Cruz: "Deus é tudo, a criatura é nada".
     Não se entenda isso em sentido panteísta. Quer apenas expressar a infinita grandeza de Deus e a pequenez da criatura.

PRIMEIRA CONSEQUÊNCIA:
AS CRIATURAS SÃO NADA: DESAPEGAR-SE DELAS
     Se Deus é tudo e a criatura nada, a conseqüência lógica é que devemos desprender-nos - ao menos afetivamente - de todas as coisas criadas se queremos chegar a Deus.
     São João da Cruz explica: "A causa por que é necessário à alma, para chegar à divina união com Deus, passar por essa noite escura da mortificação do apetite e negação do prazer em todas as coisas, é por que todas as afeições que tem nas criaturas são diante de Deus puras trevas, das quais estando a alma vestida, não tem capacidade para ser iluminada e possuída pela pura e simples luz de Deus, se primeiro não as afasta de si; porque não podem andar juntas a luz e as trevas".
     Ele continua: "a afeição e apego que a alma tem à criatura iguala a mesma alma com a criatura, e quanto maior é a afeição tanto mais a iguala e se faz semelhante, por que o amor faz semelhantes o que ama e o que é amado".
     Não se trata do desprendimento real e efetivo de todas as coisas criadas - impossível de praticar enquanto estamos no mundo - mas do desprendimento afetivo, do coração ou do desejo, ainda que se possua todas as coisas.
     Ele diz: "Por isso chamamos essa desnudez "noite" para a alma, por que não tratamos aqui de não usar as coisas - por que isso não desnuda a alma se tem apetite delas - mas tratamos da desnudez do gosto e apetite delas, que é o que deixa a alma livre e vazia delas, ainda que as tenha".
     São João da Cruz dedica duas obras a tratar do desprendimento das criaturas:
     A Subida do Monte Carmelo, em que fala da purificação ou noite ativa dos sentidos e das faculdades da alma (noite "ativa" por que trata do esforço e trabalho que a alma deve fazer para desprender-se das criaturas).
     E a Noite Escura, em que trata da noite passiva dos sentidos e da alma noite "passiva", por que é Deus quem age purificando e lapidando a alma).

SEGUNDA CONSEQUÊNCIA:
DEUS É TUDO: UNAMO-NOS A ELE PELO AMOR
     Se São João da Cruz somente houvesse escrito a Subida do Monte Carmelo e a Noite Escura teria poucos seguidores e sua doutrina seria de todo inaceitável.
     Mas não, a Subida e a Noite tratam apenas da parte mais ascética da sua doutrina, isso é, das necessárias purificações e do que devemos fazer para desimpedir o caminho para a santidade. As obras seguintes, Cântico Espiritual e Chama Viva de Amor, são chamadas as obras místicas, por que tratam da ação de Deus na alma e o modo dele levá-las a união consigo.
     A Subida do Monte Carmelo e a Noite Escura tratam apenas do caminho, do meio indispensável para chegarmos a plena divinização do homem. Mortificações, renúncias, nadas, noites, purificações, não tem um fim em si, visam apenas desimpedir o caminho para a entrega total a Deus.
     No Cântico Espiritual e Chama Viva de Amor, que são obras místicas, trata da união da alma com Deus, ou seja, trata da divinização do homem.
     João da Cruz diz que a alma transformada por ação do amor no cume da união com Deus se vê misteriosamente transformada em Deus e se faz de certo modo Deus por participação.
     Para João da Cruz a mais alta santidade consiste em ter a vontade perfeitamente unida a de Deus, ou seja, em procurar-se satisfazer os menores desejos e vontades de Deus. Aí já não haverá duas vontades, mas a de Deus somente.
     A alma se encontra divinizada; é Deus por participação, por graça, por adoção. Não por confusão ou mistura de naturezas. A alma continua alma e criatura, ainda que criatura divinizada.
     São João da Cruz diz assim: "Oh almas criadas para essas grandezas e para elas chamadas! Que fazeis? Em que vos entretendes? Vossas pretensões são baixezas e vossas posses misérias. Oh miserável cegueira dos olhos de vossa alma, pois para tanta luz estais cegos, e para tão grandes coisas surdos. Não vendo que em quanto que buscais grandezas e glórias, vós ficais miseráveis e baixos, de tantos bens feitos ignorantes e indignos".
     Eis o que diz João da Cruz do fato de haver tão poucas almas chegadas a essa santidade: "E aqui nos convém notar a causa por que há tão poucos que cheguem a tão alto estado de perfeição de união com Deus. O qual devemos saber que não é por que Deus queira que haja poucos desses espíritos elevados, que antes queria que todos fossem perfeitos, senão que acha poucos vasos que sofram tão alta e elevada obra. Que como os prova no menos e os acha fracos, de sorte que logo fogem do trabalho, não querendo sujeitar-se ao menor desconsolo e mortificação (não achando-os fortes e fiéis naquele pouco que lhes fazia a graça de começar a desbastá-los e lavrar) acabe por ver que serão muito mais no muito, e assim não vai adiante em purificá-los e levantá-los do pó da terra pelo trabalho da mortificação, para a qual seria necessária maior constância e fortaleza do que eles mostram".

domingo, 11 de dezembro de 2011

AS SENTENÇAS SEGUINTES DECLARAM O MODO DE SUBIR PELA SENDA AO MONTE, E DÃO AVISO PARA NÃO SEGUIR OS DOIS CAMINHOS DESVIADOS.

O MONTE DA PERFEIÇÃO

       Estando S. João da Cruz como confessor do convento da Encarnação (1572-1577), desenhou o Cristo morto na Cruz e também o Monte da perfeição (reproduzido aqui de uma cópia notarial).
     O Santo usava pedagogicamente o desenho em seu magistério espiritual, como atestam várias testemunhas e sua época. Desenhava vários deles e os presenteava aos seus dirigidos. Segundo alguns ele teria feitos entre 60 a 65 cópias do desenho.
     A reprodução abaixo é uma das que mais se aproximam do original. É dedicado a Madalena do Espírito Santo, monja carmelita, dirigida sua (pode-se ler na segunda linha de baixo para cima a dedicatória: Para mi Hija Magdalena.
     É uma cópia feita a partir de um original. A cópia data de 13 de novembro de 1759 e se conserva na Biblioteca Nacional de Madri.
     Neste desenho é representado o esquema da Subida do Monte Carmelo, que se pode visualizar graficamente.
     Como título, um versículo do Sl 67: “O MONTE DE DEUS É FÉRTIL; MONTE MACIÇO; MONTE ONDE APROUVE A DEUS MORAR.”
     Logo abaixo, uma palavra de Jeremias: “EU VOS INTRODUZI NA TERRA DO CARMELO PARA QUE COMÊSSEIS SEUS FRUTOS E O MELHOR DELA”.
     No vértice, escreve o Santo: “FAZ MANSÃO NESTE MONTE SOMENTE A GLÓRIA E A HONRA DE DEUS.”
     Logo abaixo, lê-se: “CONVÍVIO PERENE”.
     Enfim, como a sugerir a atmosfera espiritual que reina no Monte, as palavras: “DIVINO SILÊNCIO- DIVINA SABEDORIA”.
     No centro, está escrita a meta: "SÓ MORA NESTE MONTE A HONRA E A GLÓRIA DE DEUS".
     São João da Cruz desenha ao pé do Monte três caminhos que se oferecem a quem tenta subir a rude encosta, para encontrar Deus. São três caminhos de amor; mas diferentes os itinerários, opostos os pontos de chegada.
     À direita abre-se um caminho largo, mas enganoso. Segue-o a alma fascinada pelo amor dos bens da terra; ao final, transvia-se e exclama lamentosa: “Mais procurei esses bens, menos os encontrei; não pude ascender o Monte, porque tomei o caminho errado”.
     À esquerda, outro caminho, largo também, embora menos funesto; sobe num lento serpentear, mas não chega ao cume. É o caminho da alma imperfeita, que confessa: “Tardei mais e subi menos, porque não tomei a senda.” Este é o caminho da alma que amou com demasiado apego, com amor desordenado, os bens celestes. E isso basta para embargar-lhe os passos.
     Resta um só caminho, do centro, é a “vereda do nada”. Para chegar ao cume do Monte é necessário percorrer esta senda do NADA, estreita, abrupta, mas que, em compensação, sobe diretamente e de uma só vez ao cume. À entrada, como um indicador, está escrita uma das mais aterradoras sentenças de Jesus: “Quão estreito é o caminho que conduz à vida.” (Mt 7,14).
     Ao longo do caminho, o Santo traçou cinco vezes o aniquilador discípulo “nada”. Eleva-se o caminho por entre ribanceiras figurando os bens celestes e os terrestres. Sobre a primeira lemos: “glória, nem isso: segurança, nem isso; gozo, nem isso; consolo, nem isso; saber, nem isso.”; e sobre a segunda: “gosto: nem estouro; liberdade; nem estoura; honra: nem estoura; descanso: nem estouro.”
     Os três caminhos nos revelam que: ou escolhemos a terra e nos perdemos; ou escolhemos o Céu com vontade frouxa, e nunca chegaremos à perfeição, mas só chegaremos ao cume do Monte entregando-nos totalmente a Deus, sem nada reservar para nós mesmos.
     Abaixo da estampa onde desenhou o itinerário místico do Carmelo, São João da Cruz agrupou quatro series de oito aforismos nos quais temos o resumo do que se encontra escrito em todo o desenho.
     Lendo no sentido natural de uma ascensão ou escalada de abaixo prá cima:
     As quatro colunas (da esquerda para a direita) escritas verticalmente

MODO PARA CHEGAR AO TUDO
Para vir ao que não SABES - hás de ir por onde não SABES.
Para vir ao que não GOSTAS - hás de ir por onde não GOSTAS.
Para vir ao que não POSSUIS - hás de ir por onde não POSSUIS.
Para vir ao que não ÉS - hás de ir por onde não ÉS.
MODO DE POSSUIR O TUDO
Para vir a saber TUDO - não queiras saber algo em NADA.
Para vir a saborear TUDO - não queiras saborear algo em NADA.
Para vir a possuir TUDO - não queiras possuir algo em NADA.
Para vir a ser TUDO - não queiras ser algo em NADA.
MODO PARA NÃO IMPEDIR O TUDO
Quando reparas em ALGO - deixas de lançar-te ao TUDO
Porque para vir de TODO ao TUDO - hás de deixar de TODO a TUDO
E quando o venhas de TODO a ter - hás de tê-lo sem nada QUERER
Porque se queres ter algo em TUDO - não tens puro em Deus o teu tesouro.
INDÍCIO DE QUE SE TEM TUDO
Nesta desnudez encontra o espírito sossego e descanso, porque, como nada cobiça, nada o impele para cima e nada o comprime para baixo, pois se acha no centro da sua humildade; em cobiçando algo, nisso mesmo vem a causar-se o espírito.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

3º DOMINGO DO ADVENTO:
MARIA DE NAZARÉ: A MULHER DO SIM A DEUS
Joaquim Manuel Garrido Mendes, scj

     Maria de Nazaré não é uma personagem com grande visibilidade nos textos neo-testamentários.  É fácil perceber porquê: aos primeiros cristãos não interessaria tanto a reportagem histórica sobre Jesus, a definição do seu bilhete de identidade (com filiação incluída), a sua história de família; mas interessava, sobretudo, tentar entrar no mistério de Jesus, descobrir o núcleo fundamental da sua proposta, apreender as coordenadas fundamentais do “Reino”.
     Apesar disso, há algumas referências significativas a Maria, sobretudo na versão lucana do Evangelho da Infância. São textos que impõem Maria de Nazaré como um modelo de espera atenta do Senhor. É por isso que, com João Baptista, ela é uma das figuras que a liturgia propõe à nossa consideração e que pode ajudar-nos a viver de forma mais empenhada e coerente o nosso “caminho de advento”.
     Há, sobretudo, dois textos lucanos que merecem a nossa atenção, pois definem as duas grandes coordenadas à volta das quais a vida de Maria se edificou. Um (cf. Lc 1,26-38), propõe-nos a mulher do “sim” a Deus; outro (cf. Lc 1,39-56), apresenta-nos a mulher do “sim” aos irmãos.
     Detenhamo-nos um pouco na história do anúncio do anjo a Maria (cf. Lc 1,26-38). Trata-se de um texto bem conhecido, abundantemente representado na liturgia e na arte cristã. O objetivo óbvio do relato de Lucas é apresentar Maria como o protótipo do crente ideal.
     Para percebermos o que está em jogo, vamos entrar um pouco no ambiente em que a narração nos situa.
     Maria vive em Nazaré – uma aldeia humilde da Galileia, nunca referenciada no Antigo Testamento e sem qualquer significado no contexto das vilas ou cidades ligadas às grandes instituições religiosas de Israel. A jovem Maria está matrimonialmente comprometida com um homem chamado José, que descende da família de David; no entanto, ainda não vivem em comum (o costume palestino previa que o compromisso dos noivos começasse com os esponsais; mas, só depois de o noivo receber a noiva em sua casa, o casamento era consumado).
     De acordo com o relato de Lucas, é nesse contexto que um mensageiro de Deus – o anjo Gabriel – vem ao encontro de Maria e lhe propõe ser a mãe do Messias.
     Não interessa se o texto é um relato fiel de acontecimentos concretos, ou se é apenas uma reflexão carregada de significado teológico, feita bem ao jeito dos relatos de vocação do Antigo Testamento, sobre o chamamento de Deus e a resposta de Maria…
     Seja como for, este texto assume um significado paradigmático: ele apresenta a “atitude de vida” que Maria de Nazaré assumiu diante de Deus; e é essa atitude que nos interpela e nos questiona.
     Na mensagem que o “anjo” dirige a Maria, fica claro que Deus tem um projeto de salvação para oferecer aos homens e conta com Maria para que esse projeto possa tornar-se uma realidade viva e concreta. Esse projeto, no entanto, comporta riscos e, inevitavelmente, abalará os esquemas sobre os quais Maria está a construir a sua vida e o seu futuro.
     Maria aceitará “correr riscos”, pôr em causa tudo o que está a construir com José para aceitar o desafio de Deus?
     Maria escolherá o caminho fácil do comodismo, ou preferirá entregar-se confiadamente nas mãos de Deus?
     O que é que terá mais peso na vida desta jovem: os seus projetos pessoais, ou o projeto libertador que Deus quer oferecer aos homens?
     A resposta de Maria não deixa qualquer dúvida: “eis a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra”.
     Afirmar-se como “serva” significa, mais do que humildade, reconhecer que se é um eleito de Deus e aceitar essa eleição, com tudo o que ela implica – pois, no Antigo Testamento, ser “servo do Senhor” é um título de glória, reservado àqueles que Deus escolheu, que Ele reservou para o seu serviço e que Ele enviou ao mundo com uma missão (essa designação aparece, por exemplo, no Deutero-Isaías – cf. Is 42,1; 49,3; 50,10; 52,13; 53,2.11 – em referência à figura enigmática do “servo de Jahwéh”).
          Desta forma, Maria reconhece que Deus a escolheu, aceita com disponibilidade essa escolha e manifesta a sua disposição de cumprir, com fidelidade, o projeto de Deus.

O EXEMPLO DE MARIA

     Maria tem de ser, antes de mais, um modelo de vida, alguém que nos ensina uma “atitude”. Neste caso, é o seu “sim” incondicional a Deus que tem de nos marcar e de nos interpelar.
     O mensageiro de Deus apresenta a Maria um desafio. Diante da proposta de Deus, Ela não pensa nos seus projetos pessoais ou nas complicações em que Deus a ia meter. Nem sequer pede tempo para pensar. Também não impõe condições de qualquer espécie, nem “negocia” com Deus exigindo algo em troca…
     O seu “sim” é incondicional, total, radical: “eu sou a serva, estou disposta a entregar a minha vida nas mãos de Deus e a confiar n’Ele de forma total e plena. Que Ele faça o que é melhor para o seu plano e eu colaboro com Ele” – diz ela.
     É possível a alguém entregar-se tão cegamente a Deus, sem reservas, sem medir os prós e os contras? Como é que se chega a esta confiança incondicional em Deus e nos seus projetos?
    Não se chega a esta confiança cega em Deus e nos seus planos, sem uma vida de diálogo, de comunhão, de intimidade com Deus. Estamos, portanto, a falar de uma mulher para quem Deus ocupa o primeiro lugar e é a prioridade. Estamos a falar de uma pessoa de oração e de fé, que faz a experiência do encontro com Deus e aprende a confiar totalmente n’Ele. Estamos a falar de uma pessoa que, antes de qualquer coisa, considera os planos de Deus.
     Maria está na linha dos “profetas”: ela vive numa atitude de relação, de proximidade, de diálogo, de comunhão com Deus e Deus, na sua vida, ocupa um lugar primordial. Nesse diálogo, Maria apercebe-se dos projetos de Deus e do lugar que Deus lhe reserva na concretização desses projetos; e, como Deus é a sua prioridade, ela só pensa em cumprir a missão que Deus tem para ela.
     O “sim” incondicional e total de Maria permite que Deus venha ao encontro dos homens e comece a instaurar esse mundo novo de felicidade e de paz com que todos sonhamos… É que Deus age no mundo através dos homens e das mulheres; e dizer “sim” a Deus (quer dizer, aceitar cumprir o meu papel para que Deus, através de mim, “nasça” no mundo), é acolhê-lo e torná-lo uma realidade viva no mundo.
     Maria propõe-nos uma vida em que Deus seja o ponto de referência à volta do qual construímos tudo. Isso implica - como implicou para ela - uma experiência de encontro, de relação, de diálogo, de proximidade, de comunhão com Deus…
     Nessa experiência, crescemos na fé e na confiança; e, quando discernimos o projeto que Deus nos quer confiar, é preciso ter a coragem de dizer “sim” e de concretizá-lo, sem dramas, sem inquietações, sem angústias, sem medos. Ora, quando isso acontece, também nós – como ela – fazemos com que Deus venha a este mundo e o transforme.

PARA UM QUESTIONAMENTO PESSOAL OU EM GRUPO:

A Maria do “sim” a Deus, interpela-me…
• Vivo com Deus uma relação tão próxima que confio totalmente n’Ele?
• Estou tão em comunhão com Deus que percebo os seus planos para o mundo e consigo detectar e entender os “sinais” com que Ele me interpela?
• Aceito com total disponibilidade os projetos de Deus para mim, mesmo quando Ele me pede algo que parece pôr em causa os meus projetos muito pessoais?

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

O significado da Imaculada Conceição de Maria
D. Henrique Soares da Costa

          Celebramos a Solenidade da Imaculada Conceição de Nossa Senhora. Eis alguns tópicos para esclarecer o significado desta doutrina:
          (1) A humanidade, desde suas origens, disse “não” a Deus, decidindo viver do seu próprio modo, como se o homem se bastasse a si próprio, como se fosse seu próprio deus, senhor do bem e do mal. Este fechamento desarrumou profundamente o ser humano: fechando-se para Deus, que é o eixo da existência humana, o homem perdeu a paz e a harmonia consigo próprio, com os outros e com toda a criação. Começou, então, um clima de desarrumação, uma cadeia de profunda desordem para toda a humanidade, a que chamamos de pecado original.
          (2) Todo ser humano que vem a este mundo é marcado por essa tendência ao fechamento para Deus e é marcado por esse profundo desequilíbrio interior. Basta que cada um olhe para seu próprio interior e perceberá o quanto é ferido, incoerente e quebrado. Todos nós poderíamos dizer: “Minha mãe já concebeu-me pecador!” É a esta situação que a fé católica se refere quando afirma que todos nós nascemos pecadores. Não se nasce com pecado pessoal, mas já se nasce, pelo simples fato de ser humano, marcado com a tendência humana de se colocar no lugar de Deus, como centro da própria vida. É desta situação de pecado e desordem, chamada de pecado original, que Cristo nos veio salvar.
          (3) A Virgem Maria, por pura graça de Deus em Jesus Cristo, foi preservada dessa solidariedade nesta cadeia de pecado. Porque o Pai a predestinou eternamente para ser a Mãe do Salvador, o Cristo que tira o pecado do mundo, preservou-a de toda solidariedade no pecado em previsão dos méritos advindos da cruz do Senhor Jesus.
          (4) Sendo assim, desde o primeiro momento em que foi concebida no ventre de Santa Ana, fruto de uma relação sexual normal e natural, Nossa Senhora foi poupada por absoluta graça de Deus, de toda contaminação e solidariedade com essa situação da humanidade. É importante notar que a imaculada conceição é fruto da pura graça de Deus. E, em segundo lugar, tal privilégio deve-se unicamente ao Cristo que, morrendo na cruz, lavou o pecado do mundo passado, presente e futuro. Assim, o Pai que tudo conhece, em previsão dos méritos de Jesus, salvou sua Mãe. Maria, então, é a primeira a ser salva, mais salva que qualquer um de nós, mais devedora a Cristo que todos nós. Se Jesus nos arrancou da lama do pecado, no caso de sua Mãe, sequer deixou que a lama a atingisse!
          (5) A doutrina da Imaculada Conceição da Virgem Maria em nada diminui a ação salvífica universal de Cristo: ele é o único Salvador de todos, a começar pela sua própria Mãe. Ela é a Perfeita Redimida, totalmente dependente da salvação trazida por Cristo. Mais que em qualquer outra criatura, a graça salvífica do Cristo Jesus se manifestou na sua Mãe, a Virgem Maria.
          (6) Neste sentido, a Imaculada Conceição de Nossa Senhora é como a aurora luminosa, cujos primeiros raios, prenunciam o Dia da Salvação, que é o Cristo nosso Deus. O tempo do Advento é, pois, um tempo muito propício para celebrar este mistério. O dogma da Imaculada realça de modo muito belo o quanto a salvação trazida por Jesus abarca todos os tempos e atinge com sua graça toda a humanidade. Cristo Jesus não somente salva os que viveram durante sua vinda a este mundo ou depois dela; salva toda a humanidade. A graça de sua ação salvífica, na força do Santo Espírito, atinge todas as épocas. A Imaculada Conceição é claríssimo exemplo desta realidade.
          (7) Afirmar que a Virgem foi imaculada desde a sua conceição e que nunca pecou em toda a sua vida, não faz dela uma mulher desumana ou uma super-mulher. Ela foi como qualquer outra: teve que peregrinar na fé, teve que ir descobrindo os planos de Deus para ela e dizendo sim a cada dia. Deve ter custado muitíssimo a Nossa Senhora ir deixando que Deus fosse o Tudo da sua vida. Basta pensar no aperto de estar grávida sem o noivo saber, da pobreza de Belém, da fuga para o Egito, da solidão em Nazaré, da dor ao pé da cruz... A Imaculada Conceição de Nossa Senhora em nada diminui a intensidade de sua aventura humana nem tira em nada o valor do seu “sim” livre e soberano. Sua Conceição Imaculada fê-la, isto sim, mais aberta à graça e mais capaz que qualquer outra criatura de nunca dizer um “não” a Deus.

LECTIO DIVINA - Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm

1) ORAÇÃO
          Ó Deus, que preparastes uma digna habitação para o vosso Filho pela Imaculada Conceição da Virgem Maria, preservando-a de todo pecado em previsão dos méritos de Cristo, concedei-nos chegar até vós, purificados também de toda culpa. por sua materna intercessão. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

2) LEITURA DO EVANGELHO (Lucas 1,26-38)
          Naquele tempo, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galiléia, chamada Nazaré, a uma virgem desposada com um homem que se chamava José, da casa de Davi e o nome da virgem era Maria. Entrando, o anjo disse-lhe: Ave, cheia de graça, o Senhor é contigo. Perturbou-se ela com estas palavras e pôs-se a pensar no que significaria semelhante saudação. O anjo disse-lhe: Não temas, Maria, pois encontraste graça diante de Deus. Eis que conceberás e darás à luz um filho, e lhe porás o nome de Jesus. Ele será grande e chamar-se-á Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi; e reinará eternamente na casa de Jacó, e o seu reino não terá fim. Maria perguntou ao anjo: Como se fará isso, pois não conheço homem? Respondeu-lhe o anjo: O Espírito Santo descerá sobre ti, e a força do Altíssimo te envolverá com a sua sombra. Por isso o ente santo que nascer de ti será chamado Filho de Deus. Também Isabel, tua parenta, até ela concebeu um filho na sua velhice; e já está no sexto mês aquela que é tida por estéril, porque a Deus nenhuma coisa é impossível. Então disse Maria: Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra. E o anjo afastou-se dela.

3) REFLEXÃO
* Hoje é a Solenidade da Imaculada Conceição. O texto que meditamos no evangelho descreve a visita do anjo a Maria (Lc 1,26-38). A Palavra de Deus chega a Maria não através de um texto bíblico, mas através de uma experiência profunda de Deus, manifestada na visita do anjo. No AT, muitas vezes, o Anjo de Deus é o próprio Deus. Foi graças à ruminação da Palavra escrita de Deus na Bíblia, que Maria foi capaz de perceber a Palavra viva de Deus na visita do Anjo. Assim também acontece com a visita de Deus em nossas vidas. As visitas de Deus são freqüentes. Mas por falta de ruminação da Palavra escrita de Deus na Bíblia, não percebemos a visita de Deus em nossas vidas. A visita de Deus é tão presente e tão contínua que, muitas vezes, já nem a percebemos e, por isso, perdemos uma grande oportunidade de viver na paz e na alegria.
* Lucas 1,26-27: A Palavra faz a sua entrada na vida.
          Lucas apresenta as pessoas e os lugares: uma virgem chamada Maria, prometida em casamento a um homem, chamado José, da casa de Davi. Nazaré, uma cidadezinha na Galiléia. Galiléia era periferia. O centro era Judéia e Jerusalém. O anjo Gabriel é o enviado de Deus para esta moça virgem que morava na periferia. O nome Gabriel significa "Deus é forte". O nome Maria significa "amada de Javé" ou "Javé é o meu Senhor". A história da visita de Deus a Maria começa com a expressão “No sexto mês”. Trata-se do "sexto mês" da gravidez de Isabel, parenta de Maria, uma senhora já de idade, precisando de ajuda. A necessidade concreta de Isabel é o pano de fundo de todo este episódio. Encontra-se no começo (Lc 1,26) e no fim (Lc 1,36. 39).
* Lucas 1,28-29: A reação de Maria.
          Foi no Templo que o anjo apareceu a Zacarias. A Maria ele aparece na casa dela. A Palavra de Deus atinge Maria no ambiente da vida de cada dia. O anjo diz: “Alegra-te! Cheia de graça! O Senhor está contigo!” Palavras semelhantes já tinham sido ditas a Moisés (Ex 3,12), a Jeremias (Jr 1,8), a Gedeão (Jz 6,12), a Rute (Rt 2,4) e a muitos outros. Elas abrem o horizonte para a missão que estas pessoas do Antigo Testamento deviam realizar a serviço do povo de Deus. Intrigada com a saudação, Maria procura saber o significado. Ela é realista, usa a cabeça. Quer entender. Não aceita qualquer aparição ou inspiração.
* Lucas 1,30-33: A explicação do anjo.
          “Não tenha medo, Maria!” Esta é sempre a primeira saudação de Deus ao ser humano: não ter medo! Em seguida, o anjo recorda as grandes promessas do passado que vão ser realizadas através do filho que vai nascer de Maria. Este filho deve receber o nome de Jesus. Ele será chamado Filho do Altíssimo e nele se realizará, finalmente, o Reino de Deus prometido a Davi, que todos estavam esperando ansiosamente. Esta é a explicação que o anjo dá a Maria para ela não ficar assustada.
* Lucas 1,34: Nova pergunta de Maria
          Maria tem consciência da missão importante que está recebendo, mas ela permanece realista. Não se deixa embalar pela grandeza da oferta e olha a sua condição: “Como é que vai ser isto, se eu não conheço homem algum?” Ela analisa a oferta a partir dos critérios que nós, seres humanos, temos à nossa disposição. Pois, humanamente falando, não era possível que aquela oferta da Palavra de Deus se realizasse naquele momento.
* Lucas 1,35-37: Nova explicação do anjo
          "O Espírito Santo virá sobre você, e o poder do Altíssimo a cobrirá com sua sombra. Por isso, o Santo que vai nascer de você será chamado Filho de Deus”. O Espírito Santo, presente na Palavra de Deus desde o dia da Criação (Gênesis 1,2), consegue realizar coisas que parecem impossíveis. Por isso, o Santo que vai nascer de Maria será chamado Filho de Deus. Quando hoje a Palavra de Deus é acolhida pelos pobres sem estudo, algo novo acontece pela força do Espírito Santo! Algo tão novo e tão surpreendente como um filho nascer de uma virgem ou como um filho nascer de Isabel, uma senhora já de idade, da qual todo mundo dizia que ela não podia ter neném! E o anjo acrescenta: “E olhe, Maria! Isabel, tua prima, já está no sexto mês!”
* Lucas 1,38: A entrega de Maria.
          A resposta do anjo clareou tudo para Maria. Ela se entrega ao que Deus estava pedindo: “Eis aqui a serva do Senhor! Faça-se em mim segundo a tua Palavra”. Maria usa para si o título de Serva, empregada do Senhor. O título vem de Isaías, que apresenta a missão do povo não como um privilégio, mas sim como um serviço aos outros povos (Is 42,1-9; 49,3-6). Mais tarde, Jesus, o filho que estava sendo gerado naquele momento, definirá sua missão: “Não vim para ser servido, mas para servir!” (Mt 20,28). Aprendeu da Mãe!
* Lucas 1,39: A forma que Maria encontra para servir
          A Palavra de Deus chegou e fez com que Maria saísse de si para servir aos outros. Ela deixa o lugar onde estava e vai para a Judéia, a mais de quatro dias de viagem, para ajudar sua prima Isabel. Maria começa a servir e cumprir sua missão a favor do povo de Deus.

4) PARA UM CONFRONTO PESSOAL
a. Como você percebe a visita de Deus em sua vida? Você já foi visitada ou visitado?
b. Você já foi uma visita de Deus na vida dos outros, sobretudo dos pobres?
c. Como este texto nos ajuda a descobrir as visitas de Deus em nossa vida?
d. A Palavra de Deus se encarnou em Maria. Como a Palavra de Deus está tomando carne na minha vida pessoal e na vida da comunidade?

domingo, 4 de dezembro de 2011

NOVENA DE SÃO JOÃO DA CRUZ
                                                                           ORAÇÃO PARA TODOS OS DIAS:
          Deus, nosso Pai, São João da Cruz viveu os mistérios da vossa morte e ressurreição. Ele fez a experiência do vosso amor e por vós foi provado na fé e no sofrimento. Mediante o trabalho interior, conseguiu descobrir os tesouros da vossa graça. A seu exemplo, fazei que cada um de nós progrida na vida espiritual e caminhe para vós. Encontremos na vossa Palavra estímulo e consolação e, na comunhão com nossos irmãos, vos encontremos na partilha de todos os dons recebidos. Senhor, enviai-nos o vosso Espírito, o Espírito Santo que é "doador da vida", que é a água viva que jorra da fonte, Espírito de Amor e de liberdade, Espírito que nos concede a liberdade de filhos de Deus e irmãos em Jesus Cristo. Espírito que nos convoca e nos reúne numa mesma família, povo de Deus a caminho do vosso Reino. São João da Cruz nos inspire o gosto pelas coisas do alto, e nos ensine a vos amar com todas as nossas forças e de todo o nosso coração.

1.º DIA - FORTALEZA
          Meditação: «Que Cristo crucificado lhe baste e com Ele sofra e descanse» [S. João da Cruz]. Não há vida que não seja marcada pelo sofrimento, portanto, viver é sofrer. È necessário aprender a sofrer cristãmente, ciência admirável que se aprende com Maria junto da cruz de Jesus. S. João da Cruz aprendeu e praticou excepcionalmente esta doutrina.

LADAINHA DE SÃO JOÃO DA CRUZ
Senhor tende piedade de nós!
Jesus Cristo tende piedade de nós!
Senhor tende piedade de nós!
Jesus Cristo ouvi-nos!
Jesus Cristo atendei-nos!
Deus Pai do Céu tende piedade de nós!
Deus Filho, Redentor do mundo, tende piedade de nós!
Deus Espírito Santo tende piedade de nós!
Santíssima. Trindade que sois um só Deus tende piedade de nós!
Santa Maria Mãe e Esperança dos Carmelitas, rogai por nós!
São José, Patrono do Carmelo,
Santo Elias, Patriarca do Carmelo
Santa Teresa de Jesus,
São João da Cruz,
Doutor Místico,
Cantor do Amor de Deus,
Pai do Carmelo Descalço,
Modelo de Carmelita,
Sacerdote de Deus Altíssimo,
Serafim de piedade,
Mártir de amor,
Mestre de espiritualidade,
Imagem do Cristo sofredor,
Santo da oração e penitência,
Santo da desnudez espiritual,
Santo do despojamento,
Glória da Santa Igreja,
Tocado pelo Verbo de Deus,
Inundado pela sabedoria do Espírito Santo,
Amigo do Amado,
Retrato vivo de Cristo,
Enamorado de Deus,
Conhecedor dos segredos divinos,
Trovador de Maria,
Modelo da Igreja orante,
Alma de oração,
Contemplativo ardoroso,
Apóstolo infatigável,
Intercessor poderoso,
Mensageiro do Amor,
Príncipe dos poetas de Deus,
Águia das alturas celestes,
Doutor da Fé,
Profeta do Tudo e dos nadas,
Mestre da subida ao Monte Carmelo,
Peregrino das noites escuras e luminosas,
Guia na Noite Escura,
Cantor da formosura de Deus,
Coração em Chama viva,
Alma inflamada de amor,
Sedento da Fonte divina,
Atraído pelo infinito,
Coração de missionário,
Caminhante infatigável,
Amigo dos pobres,
Saúde para os doentes,
Consolo para os que sofrem,
Homem forte,
Homem manso e suave,
Homem celestial e divino,
Glória da família carmelitana,
São João da Cruz obedientíssimo,
São João da Cruz casto e pobre,
São João da Cruz pacientíssimo,
São João da Cruz, glória do Carmelo e da Igreja,
Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo.
Perdoai-nos, Senhor!
Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo.
Ouvi-nos, Senhor!
Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo.
Tende piedade de nós!
V. Rogai por nós, S. João da Cruz.
R. Para que sejamos dignos das promessas de Cristo.
Oremos:
          Ó Deus, que inspirastes ao presbítero São João da Cruz, extraordinário amor pelo Cristo e total desapego de si mesmo, fazei que, imitando sempre o seu exemplo, cheguemos à contemplação da vossa glória. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo. Amém.

ORAÇÃO FINAL
          Nós vos agradecemos, ó Deus porque suscitastes na vossa Igreja e no Carmelo São João da Cruz, sacerdote santo que caminhou durante sua vida ensinando o caminho da oração. Ele, que aqui na terra experimentou o sofrimento, a pobreza, as incompreensões, e nunca desanimou, olhe as nossas necessidades e obtenha a graça que Vos pedimos........confiantes na intercessão de São João da Cruz e na vossa infinita misericórdia e amor de Pai, Concedei-nos, percorrer o caminho da santidade. e que sejamos atendidos nos nossos pedidos. Amém.
Pai Nosso, Ave Maria, Glória ao Pai.

2.º DIA – AUSTERIDADE (tudo como no 1º dia, exceto)
          Meditação «Deus prefere de ti o menor grau de pureza de consciência a quantas obras possas fazer» [São João da Cruz]. Duas virtudes agradam imenso ao Senhor nos seus santos: a pureza de coração e a conversão contínua que se manifesta na penitência evangélica. São João da Cruz viveu com insistência estas duas virtudes e diz-nos que uma não pode ser vivida sem a outra.

3.º DIA – SANTIDADE. (tudo como no 1º dia, exceto)
          Meditação «O que nasce do mundo é mundo, e o que nasce da carne, é carne, e o espírito bom nasce do espírito de Deus, o qual não se comunica nem pelo mundo nem pela carne» [São João da Cruz]. As pessoas que sentem e vivem no Espírito Santo, alegram-se nas coisas de Deus e amam-se nas coisas de Deus. São João da Cruz foi um homem interior, sobrenatural e divino, para quem a oração e a contemplação eram tão importantes como a respiração. Imitemo-lo.

4.º DIA – PACIÊNCIA (tudo como no 1º dia, exceto)
          Meditação «Olha que Deus só reina numa alma pacífica e desinteressada» [São João da cruz]. Todo o cristão deve semear à sua volta o bem. Trabalhar e rezar com assiduidade na construção do reino de Deus. Trabalho e oração, no entanto, devem ser sempre acompanhados pela humildade e paciência. São João da Cruz deu fruto apreciado porque se exercitou na humilde pequenez e na paciência de Cristo.

5.º DIA – PAZ (tudo como no 1º dia, exceto)
          Meditação «Dá-te à tranquilidade afastando de ti os cuidados e não te preocupando com o que acontece; servirás a Deus a Seu gosto e n´Ele gozarás» [São João da Cruz]. Muitas pessoas confundem o que fazem com o bem. Mas quem tem uma fé grandiosa vê com os olhos de Deus e descobre o bem e o mal em si e nos outros, tal como Deus o vê. È preciso desconfiar do demónio do mal e unir-se intimamente a Deus tal como em sua vida o fez e o ensinou a fazer São João da cruz.

6.º DIA – HUMILDADE (tudo como no 1º dia, exceto)
          Meditação «Mais vale estar carregado junto do forte que aliviado junto do fraco: quando estás carregado, estás junto de Deus que é a tua fortaleza e estás com os tribulados; quando estás aliviado estás contigo mesmo» [São João da Cruz]. No contacto com os outros, precisamos de nos armar com as virtudes da humildade, da compreensão e da paciência. A caridade supõe humildade. Só com esta se consegue a verdadeira felicidade, pois caso contrario viveremos continuamente de alma inquieta. São João da Cruz soube viver em contínua paz no meio da guerra e das turbulências deste mundo.

7.º DIA – CONSOLAÇÃO (tudo como no 1º dia, exceto)
          Meditação «Sede mais amigos de dar aos outros do que a vós mesmos. E assim não haverá nem inveja nem predomínio» [São João da Cruz]. Amar a Deus e aos irmãos: dois inseparáveis no coração de todos os que se dizem cristãos. Às vezes pensamos amar os irmãos só porque não fazemos mal. È necessário procurar gratuitamente o seu bem. Amar o mais pequenino dos irmãos é amar a Deus. São João da Cruz aprendeu com Cristo e como mestre nos ensina que amar é fazer sempre o bem.

8.º DIA – PLENITUDE (tudo como no 1º dia, exceto)
          Meditação «Quer coma, quer beba, quer fale, quer faça qualquer outra coisa, ande sempre desejando a Deus» [São João da Cruz]. Viver todos os momentos da vida unido a Deus, é o segredo mais seguro para a alegria, a tranquilidade, a fé, a santidade e a plenitude. São João da Cruz conheceu e viveu este segredo, por isso viveu sempre em plenitude e nunca perdeu a serenidade e a paz.

9.º DIA – SERENIDADE (tudo como no 1º dia, exceto)
          Meditação do poema de São João da Cruz, o Pastorinho

          Um Pastorinho, só, está penando,
          privado de prazer e de contento,
          posto na pastorinha o pensamento,
          seu peito de amor ferido, pranteando.

          Não chora por tê-lo o amor chagado,
          pois não lhe pena o ver-se assim dorido,
          embora o coração esteja ferido,
          mas chora por pensar que é esquecido.

          Que só o pensar que está esquecido
          por sua bela pastora, é dor tamanha,
          que se deixa maltratar em terra estranha,
          seu peito por amor mui dolorido.

          E disse o Pastorinho: Ai, desditado!
          de quem do meu amor se faz ausente
          e não quer gozar de mim presente,
          seu peito por amor tão magoado!

          Passado tempo em árvore subido
          ali seus belos braços alargou,
          e preso a eles o Pastor se ficou,
          seu peito por amor mui dolorido.

          Comentário: A nossa vida sobre a terra deve ser como foi a de Jesus: vida de amor. Por amor encarnou-se no seio de Maria e por amor entregou os seus braços à cruz. Por amor veio à terra, e por amor sofreu nela porque o seu amor pela humanidade, a sua bela Pastora, não foi correspondido. São João da Cruz em toda a sua vida sentiu no coração uma fogueira de amor que o levava a entregar-se aos outros, à Igreja e a Cristo. Foi um homem dum só voo, um pássaro solitário em ásperos caminhos, por isso, com admirável serenidade soube superar as tempestades deste mundo.